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É dando que se recebe

História de: Aroldo Vieira Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2004

Sinopse

Aroldo Vieira Ferreira conta em sua entrevista memórias de sua família e de como suas bisavós, que eram escravos, foram enviados para Ilha de Marajó. Aroldo relata também detalhes de sua carreira como agente comunitário e sua satisfação por poder trabalhar para o bem da comunidade em uma atividade que, em suas palavras, ele “trabalharia até de graça”.

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História completa

P/1 - Vamos fazer o seguinte, me diz o seu nome completo, sua data de nascimento, e o local que você nasceu, aí depois a gente vai perguntar outras coisas.

 

R - Meu nome é Aroldo Vieira Ferreira. A minha data de nascimento é 02 de setembro de 67. A localidade que eu nasci é Tartarugueiro.

 

P/1 - Aroldo, o que é que você sabe sobre a história dos seus avós, do lado de pai?

 

R - Olha, lá nós somos uma comunidade de escravos, nossos primeiros antepassados, nossos bisavós, foram para lá como escravos, uma comunidade pequena. Então eles chegaram lá mandados por alguém pra tomar conta das terras. Era uma família só, né? E depois chegou outra família, e dessas duas famílias lá foi se levantando o povoado.

 

P/1 - Quem é que mandou, quem é... Os seus avós foram pra lá como escravos pra tomar conta, era uma fazenda de alguém?

 

R - Não, só terras mesmo.

 

P/1 - Só terras, pra povoar.

 

R - Aí, eles foram para lá. Lá também foi onde funcionou um dos primeiros matadouros de Belém.

 

P/1 - Matadouros de bovinos?

 

R – Sim, isso. Matavam o boi, aí levavam só a carne pra Belém. E foi se criando um povoado.

 

P/1 Que chamava?

 

P/1 - Era Tartarugueiro mesmo. Lá era só uma comunidade que era Santana, aí depois se dividiu Tartarugueiro, Santana, Crairú, só numa ilha.

 

P/1 - Porque é que se chama Tartarugueiro? Tem muita tartaruga lá?

 

R - Devido a existência de muita tartaruga. Existia no começo muita tartaruga.

 

P/1 - Agora não tem mais?

 

R - Ainda se tem algumas, não é na quantidade que se tinha.

 

P/1 - E vocês comiam muita tartaruga lá? (riso). Acredito que sim. E daí, então seus avós chegaram pra fazer... Mas não era terra. Era terra de ninguém o lugar?

 

R - Olha, nós acreditamos que sim, você sabe como é esse negócio de coronel, aquele tempo todo, eles foram pra lá mandados por essas pessoas, primeiro porque Marajó não era um lugar tão povoado, uma coisa deserta, então eles começaram a se apossar dessas terras.

 

P/1 - A que distância de Belém?

 

R - Quatro horas.

 

P/1 - E daqui de Ponta de Pedra?

 

R - Três horas.

 

P/1 - Então mais perto daqui, mais no meio do caminho, entre Belém, já na ilha de Marajó.

 

R - É na ilha do Marajó, fazendo fronteira com o município de Cachoeira.

 

P/1 - E eles lá no inicio, como é que foi que eles se viraram, o que é que eles faziam, eles viviam já na beira do rio, como é que era?

 

R - Não, eu acredito, contado pelos meus avós, que eles foram pra lá e fizeram uma casa onde mora essa família. Aí depois foi se chegando.

 

P/1 - Essa família de coronel?

 

R - Não, eles não moravam lá.

 

P/1 - A família dos seus avós escravos?

 

R - Isso, depois foram tendo filhos e no caso, eles tiveram cinco filhos, onde veio meu avô e daí se começou a ser povoado.

 

P/1 - Então esse é o bisavô. Não é avô, tá certo, para ser escravo ainda é século passado.

 

R - É pelos bisavôs.

 

P/1 - Você sabe o nome deles?

 

R - Não, não lembro.

 

P/1 - Dos seus avós você sabe?

 

R - Sei. É Raimundo Ferreira e ela era Constância.

 

P/1 - Constancia Ferreira. Isso pelo lado do pai?

 

R - Pelo lado do pai.

 

P/1 - E pelo lado da sua mãe?

 

R - Eu sei pouca coisa já, sei só que eles estão bem...

 

P/1 - É vivo ainda seus avós?

 

R - São.

 

p/1 - Como é que eles se chamam?

 

R - É, sei, é Manduquinha, Manoel Vieira, e a minha avó, esqueci o nome dela agora.

 

P/1 - Ah! Tudo bem. E você sabe deles o que? Eles também foram para lá como escravos?

 

R - Não, eles não foram para lá, até que eles são de outra comunidade.

 

P/1 - De outra comunidade próxima?

 

R - Próxima de lá, se deram a conhecer com o povo de lá. Aí foi o entrosamento, aí foi o tempo que veio meu pai, nasceu, esse tipo de coisa. Até que se conheceram, e ele pegou e trouxe ela, quando se casaram, trouxe ela para morar lá. É sempre a tradição da família trazer alguém de fora pra morar lá. Eu acho que é por isso que aumentou a população.

 

P/1 – Bom, então o seus avós já nasceram e viveram sempre ali e nunca saíram de lá?

 

R - Nunca saíram de lá. Morreram lá, meus bisavôs, meus avós. Agora só estou com um avô, que continua lá.

 

P/1 - E do lado da mãe?

 

R - Os meus avós moram em Belém.

 

P/1 - E você tem muito contato com eles?

 

R - Tenho.

 

P/1 - Você vai sempre a Belém?

 

P/1 - Uma vez por mês, a gente tem uma folguinha a gente vai lá.

 

P/1- Mas você cresceu lá em Tartarugueiro mesmo.

 

R - Foi, cresci lá, depois já que meus avós que moravam em Belém, eu fui pra lá para a casa deles, estudei, estudei um pouco lá. Aí depois novamente em 90, em 87, foi que eu voltei definitivamente pra lá.

 

P/1 - Aroldo, e da história dos seus pais, seu pai morou sempre lá em Tartarugueira, estudou lá, ou não?

 

R - Estudou. Pra ver que estudou que tem até a terceira série.

 

P/1 - Terceira série. E, viveu de que? Qual era a atividade dele?

 

R - Era o que a gente chama lá, pode chamar aqui, a gente chama aqui de marretagem. Comprava as coisas e vendia em Belém.

 

P/1 - Tipo o que?

 

R - É, tipo (inaudível), também carregava muito açaí. O próprio gado eles levavam pra Belém, e assim eles iam vivendo.

 

P/1 - Produto agrícola.

 

R - Isso, esse tipo de coisa.

 

P/1 - Plantar não?

 

R - Plantava, mas a lavoura só mesmo pra consumo.

 

P/1 - Mas de subsistência, só o...

 

R - A mandioca.

 

P/1 - A mandioca, ali perto da casa. E vocês tem terra lá?

 

R - Não, pra você ver como é a coisa. Eles, meus avós, foram mandados pra lá com essa finalidade, meus bisavós. Depois meus avós tomaram conta e até agora a terra não quer dizer que seja nossa. Ainda continua com o nome desse senhor só avós, os pais já morreram, e continua na mão de um fazendeiro. Ele é fazendeiro, mas a terra não é de campo, é só de mata.

 

P/1 - Só de mata?

 

R - Isso, mas a gente pode usufruir da terra, desde que não desmate a parte de mata.

 

P/1 - Sei, é proibido o desmatamento ali?

 

R - É, até foi porque, por nós mesmo, nós que criamos uma lei porque aí a gente ia ficar, sem terra, só com capoeira, com área de capoeira, e a gente... A mata lá é muito horrível pra gente porque a gente extrai o bacuri, extrai o próprio açaí.

 

P/1 - Não precisa plantar, já é da natureza?

 

R - Já é da natureza, mesmo.

 

P/1 - O bacuri é o que hein? Eu não conheço?

 

R - É uma fruta.

 

P/1 - Uma fruta também? Igual açaí, parecida?

 

R - Não, ela é uma fruta graúda, amarela, se tira a poupa dela pra vender, pra fazer suco, creme.

 

P/1 - Então o seu pai viveu sempre dessas ações extrativas?

 

R - Isso, da ação extrativa.

 

P/1 - E vendendo tudo em Belém?

 

R - Aí depois comprou, conseguiu comprar.

 

P/1 - Pescando também, não?

 

R - Não! Pescou, sempre pescava. Eles sempre pescaram. Ele sempre teve uma embarcação de pesca e uma pra fazer esse tipo de transporte.

 

P/1 - Embarcação é o barco?

 

R - Uma canoa, a gente chama de canoa.

 

P/1 - Nada mais sofisticado, assim, um barco maior para pesca mesmo, não?

 

R - Uma canoa pequena, umas duas toneladas e a maior com umas dez toneladas.

 

P/1 - E como é que é a casa de vocês? É na beira da água ou dentro da vila, já uma vilinha dentro da ilha mesmo?

 

R - Agora já tem uma vilinha. É terra firme.

 

P/1 - Terra firme?

 

R - Chama terra firme. Nós temos uma vila, só nessa comunidade que a gente mora são 23 casas. Tudo constituído de pessoas da mesma família. Às vezes o marido é de lá, a mulher é de fora. Às vezes a mulher é de fora.

 

P/1 - Quer dizer tudo ali é do mesmo grupo?

 

R - Isso. E alguns vão, se mudam pra Belém, e a gente nesse sentido.

 

P/1 - E eu te perguntei por que eu estou vendo chegando aqui, que tem muito esse hábito da palafita. Da casa na beira da água. Lá você nunca viveu nessa casa assim?

 

R - Não. As nossas casas, tem algumas que são feitas de barro, outras são feitas já de madeira, assoalho por baixo, mas em área que a água não invade.

 

P/1 - E dessa tradição, dessa herança dos escravos, tem alguma história que você conheça, assim que tenha vindo pelo lado, do fato de ser descendente de escravos, alguma história que seu avô contou daquele tempo ou não?

 

R - Não, o que a gente predomina lá a tradição, são algumas festas, principalmente uma festa que eles fazem que é a do Espírito Santo. Foi uma coisa que já trouxeram, pra dentro da comunidade. E até hoje a gente não deixa morrer, é uma festa... É uma semana de festas.

 

P/1 - O que é que acontece?

 

R - Se reúne ali, na maioria toda a família, porque devido a família se expandir foi, ela é grande, se tornou grande. Se reúne ali. No primeiro dia se reúne, se faz uma... A gente chama de novena, ladainha, aquele culto, e faz aquele juntado, depois todo mundo come e depois se dança.

 

P/1 - Tem um a baile?

 

P - Tem o baile.

 

P/1 - E toca o que? Que tipo de música, vocês gostam de ouvir lá?

 

R - Olha, pra nós é mais o carimbó, o bregue, esse tipo de coisa. E já estamos num ritmo, vamos dizer moderno, mas a gente nunca perde a tradição do carimbó. Foi uma coisa que sempre predominou lá no nosso meio.

 

P/1 - E lá vocês tem tradição de tocar também, ou vocês só costumam tocar música de disco mesmo?

 

R - Não, lá sempre teve, o meu avô pelo menos ele sempre teve...A gente chama (Inaudível) não é? Que é só no instrumento, batuque, esse tipo de coisa.

 

P/1 - E do lado de tradição negra assim, tem alguma festa, algum culto mais afro mesmo, que vocês tenham trazidos pelo lado dessa herança escrava?

 

R - Não, algumas danças sim, a gente ainda lembrou lá. De vez em quando a gente faz algumas danças, mas não é uma coisa assim que seja uma coisa autêntica, que é uma coisa que está no sangue. Mas alguns tipos de danças sim.

 

P/1 - Do lado de culto religioso tem alguma coisa que veio do lado escavo, umbanda? Isso que vem do lado deles?

 

R - Tem.

 

P/1 - Quais são as religiões negras que tem lá?

 

R - Olha, eu acho que só mesmo a umbanda que chamam candomblé.

 

P/1 - O seus pais são umbandistas, não?

 

R - Não.

 

P/1 - Só católicos?

 

R - Só católicos.

 

P/1 - Mas frequentam?

 

R - Frequentam. Agora tem outras famílias sim que fazem.

 

P/1 - E comida, o que se come na sua ilha... Quando têm essas festas quais são as comidas que vocês fazem lá?

 

R - Olha, se mata o porco, o peixe, o camarão. E eles fazem tipo uma pastilha, o que um tem traz pra que todo mundo ali traga. Vamos dizer, se você teve uma safra boa pelo menos a farinha, o peixe, ou você teve uma criação, a sua criação deu lucros, aí sempre se tira um pra ir, pra levar, pra gente comer nesse dia, todo mundo. É o porco, é o camarão, é o açaí, o boi, todo mundo come.

 

P/1 - E que comida que é típica da região? Que é que se faz lá?

 

R - Olha, mais é o peixe que é nosso mesmo.

 

P/1 - Tem um jeito de fazer o peixe? Como que é o tempero?

 

R - Isso, nosso tempero, a gente chama água e sal.

 

P/1 - Água e sal?

 

R - Sim, e a afavaca, chicória.

 

P/1 - Afavaca? Que é que é a afavaca? Uma folha?

 

R - É uma folha. É uma folha aromática.

 

P/1 - Põe a afavaca no meio do peixe.

 

R - Isso.

 

P/1 - Assado ou frito?

 

R - Tipo caldo, chama calderada, chama no caldo.

 

P/1 - E o açaí, sempre que tem que comer com o açaí do lado, não é assim?

 

R - Não, nós não herdamos muito esse negócio do açaí. O açaí mais na safra, hoje não é tanto uma coisa necessária.

 

P/1 - Quando é a safra do açaí?

 

R - Olha, no verão, aqui é no verão, lá pro meio de setembro, outubro.

 

P/1 - Você se lembra de alguma doença, de alguma doença na família, quando você era criança? Alguém ficou gravemente doente na sua família alguma época que você se lembre?

 

R - De doença grave?

 

P/1 - Ou doença que não seja tão grave assim? Que você se lembra, que marcou na sua memória?

 

R - Olha, eu não tenho assim, eu tenho já do meu tempo, coisa que eu me lembro. Foi uma doença que até causou morte, de uma garota, deveria ter uns sete anos. Ela teve uma infeção intestinal grave e nós tratando como se fosse uma simples  diarreia. O pessoal tratando como se fosse uma simples  diarreia, quando ela teve um tipo de uma convulsão, o pessoal correu pra lá tudo, e teve um acesso de vômito muito grande, aí naquele acesso de vômito acho que aquilo deve ter sufocado ela, e ela morreu. E uma assim que... Garoto, esse tipo de doença é mais um problema que... É a malária, né?

 

P/1 - É?

 

R - É, a malária, mas de um tempo pra cá tá se maneirando, mas de vez em quando, também nunca cegou.

 

P/1 - Sempre teve malária lá?

 

R - Sempre.

 

P/1 - Desde que você era menino?

 

R - Eles sempre trataram também. Porque os meus antepassados, eles sempre trabalhavam com remédios caseiros sempre com remédio caseiro, até onde se tinha até horta pro remédio caseiro. Então qualquer coisa, no caso a mãe do meu avô, ela cuidava assim. Vinham pessoas de longe pra ela tratar. Vários tipos de doenças, sempre ouvi falar e eles contam que sempre colocavam as pessoas boas.

 

P/1 - Você sabe que remédio era esse, milagroso!

 

R - Dependia o tipo de doença, ia ter o tipo de doença, conforme o tipo de doença eles iam dar o remédio.

 

P/1 - Ainda tem essa tradição lá do remédio caseiro?

 

R - Tem.

 

P/1 - Fala algum remédio caseiro que você conhece aí?

 

R - Olha, vamos dizer para dor de cabeça. Eu até conto isso porque foi fato verídico e que aconteceu comigo próprio depois de agente. A minha tia ela trabalha já, já tem uma idade, então ela sempre fazia... Eu vi, a filha dela, eu cheguei uma vez lá na casa dela, e ela estava com muita dor de cabeça, uma dor de cabeça insuportável que gritava com aquela dor. Aí ela pegou, começou lá a juntar uns matos, estava olhando lá...

 

P/1 - É uma folha?

 

R - Não, é um mato. Então se tira a folha com a raiz e o próprio tronco dela a gente raspa, ela é baixa. Aí pegou aquilo, pegou a semente do pinhão.

 

P/1 - Pinhão é o que?

 

R - É uma árvore também, é uma semente, é uma frutinha assim.

 

P/1 - Uma árvore que se chama pinhão?

 

R - É, e a cachaça, juntou aquilo tudo, bateu e colocou na cabeça e amarrou.

 

P/1 - Colocou na cabeça por fora?

 

R - Por fora, fez aquela fricção por fora e amarrou a cabeça. Aí eu observando, que eu vi, ela foi, foi começando a gemer baixinho, baixinho, baixinho, passou. Bom, quando eu estava em casa um dia, era até num domingo, aí chegou lá uma menina, né? Depois de eu já ser agente, isso já alguns anos depois. Aí chegou uma menina lá, pra eu ir lá, ver uma garota que estava com muita dor de cabeça. Eu fui pra lá, cheguei lá, ela estava se rolando de dor. “Que é que vocês já deram”? “Já demos vários remédios, não passa a dor”. Eu digo: “Olha gente, eu aprendi, não sei se eu aprendi direito, mas vamos tentar fazer.” Aí: “Tem semente de pinhão”? “Tem”. “Tem o alho”? “Tem” “E a cachaça”? “Tem”. “Então, vamos fazer”. Aí tiramos, raspamos aquilo, mas eu não observei que quando ela preparou, ela só colocou só uma semente de pinhão e eu já coloquei três sementes de pinhão. (riso) Aí, coloquei, bati-o bem e ela a garota lá desesperada com dor de cabeça. Aí colocamos, fizemos uma fricção por fora, colocamos na cabeça, amarramos com o pano. Aí esperei um pouquinho pra ver o resultado.

 

P/1 - Ela começou a gritar mais?

 

R - (risos). Não, ela foi baixando, baixando. E digo: “Bom gente, eu vou me embora, qualquer coisa vocês me avisam.” Eu fui pra casa esperar o resultado pra lá.

 

P/1 - Na zebra, eu estou longe? (riso).

 

R - Aí passou, tudo bem. Aí um tempo conversando com a senhora que tinha preparado o remédio, eu falei pra ela como eu tinha preparado. Ela disse, “Não meu filho, tu errou só na porção. A gente não coloca uma, é três sementes. A gente coloca uma só porque uma só... Uma pelezinha que tem por dentro da semente, porque é forte. Você tira aquilo e pode amassar bem, colocar que passa qualquer dor de cabeça

 

P/1 - Pra mais, não deve ter prejudicado?

 

R - Não deve ter prejudicado.

 

P/1 - Bom, o que você lembra da sua infância na comunidade? Como é que foi a sua infância?

 

R - Olha, foi boa. Acredito que não pode ter sido melhor. Primeiramente não foi uma infância, foi uma infância que a gente teve muita oportunidade. Lá o estudo, lá na nossa, lá na minha comunidade, até quarta série - era até quarta série. Então foi um tempo que a gente conviveu, conviveu uma família junta, uma coisa bonita. E nós tínhamos sempre oportunidade de brincar, nunca fomos impedidos disso, também graças a Deus nunca passamos fome até porque é uma área que se você vai pro rio tem o peixe, tem o camarão, se você vai pra mata, você tem fruta, tem esse tipo de coisa, então. E a minha mãe sempre criou, meu pai sempre tinha as coisas também a própria pescaria, então a gente nunca passou fome, nesse sentido, e foi uma infância como se diz o cara: “A gente aproveitou o que poderia aproveitar de criança”. Aí depois já com uns 10, 12 anos que a gente saiu, que a gente tinha que estudar.

 

P/1 - Seu pai era muito bravo assim? Como é que é? Batia?

 

R - Não, aliás, me bateu uma vez só que eu me lembre, mas isso também porque eu já fiz demais, eu também era e... Mas nunca chegou a discutir, bater na gente.

 

P/1 - Quer dizer o ambiente na sua casa era sempre tranquilo, não tinha muita...?

 

R - Até pra que... Veja que depois, né, que, de 80 eles passaram... Eles são hoje até separados. Viveram juntos dezenove anos, então depois que nós fomos pra Belém, nos mudamos, nós éramos três, nos mudamos os três pra Belém, ele não quis sair daí, aí foi que se largaram mais pra ver que se largaram, até hoje eu vejo, eu aprecio isso, porque eles são amigos, né?

 

P/1 - Não teve briga?

 

R - Não teve briga.

 

P/1 – Civilizado, não é?

 

R - É.

 

P/1 - E, bom você disse que chegou a mudar pra Belém?

 

R - Mudei.

 

P/1 - Quando foi que isso aconteceu?

 

R - Olha, nós fomos em 1980 pra lá.

 

P/1 - Família toda?

 

R - Não, minha mãe, eu, e meus dois irmãos. Ele ficou aí, meu pai ficou, eu acho que desde o começo.

 

P/1 - A separação?

 

R- A separação.

 

P/1 - E por que sua mãe decidiu mudar?

 

R - Devido o estudo. Vamos dizer, nós só tínhamos até a quinta série e ela queria que estudasse mais um pouco. Aí nós fomos pra Belém.

 

P/1 - Para estudar lá? Não?

 

R - Estudar, foi o tempo que a gente estudou, e trabalhou lá, tinha que dar o jeito a gente também.

 

P/1 - Lá vocês foram morar onde, que você estava dizendo?

 

R - Junto com meus avós.

 

P/1 - Juntos com seus avós?

 

R - Por parte dela.

 

P/1 - E foi bom?

 

R - Foi bom. A gente ter a oportunidade de aprender também, né? Ele era um homem que trabalhava muito e tinha um pedacinho de terra lá em Belém. Ajudou ele a construir alguns quartos que ele alugava, dava pra se manter. E por outro lado, com o tempo a gente começou a trabalhar também.

 

P/1 - Que é que você começou a fazer?

 

R - Um bico daqui, outro dali. Aí conheci um rapaz que tinha uma fabriquinha lá de negócio de artefato de cimento e a gente ia trabalhava, ganhava uma diária e já estudava à noite. Foi nessa época que a gente começou a estudar à noite, que já se preocupou mais com o trabalho, largou o estudo. Só fizemos até a sétima série.

 

P/1 - Sei. E aí você começou a trabalhar lá em Belém?

 

R - Isso.

 

P/1 - E você voltou quando?

 

R - Em 87.

 

P/1 - Por que você voltou?

 

R - Olha, eu, em 87... No ano de 86, foi o tempo que eu entrei no exército. Devido eu entrar no exército, a gente começou o trabalho junto com o pessoal da cruz vermelha, esse negócio de primeiros esse tipo de coisa, e dentro do próprio exército a gente começou a aprender alguma coisa de enfermagem. Foi que em 87, a minha mãe viajou, foi embora pra Manaus, ela conheceu outro homem, foi embora pra lá. Eu disse: Bom, eu acho que vou embora porque eu tenho que dar de mim, lá pra minha terra”. Aí voltei pra cá. Antes disso ela me chamou antes de ir viajar e disse: “O que é que tu vai fazer pro Marajó?”. Uma coisa que um dia desse eu respondi pra ela por carta. Aí ela disse: “O que é que você vai fazer no Marajó? No Marajó não tem futuro, Marajó não dá futuro, vê que eu já vivi lá tantos anos, nunca tive”. Eu digo: “Não, mas eu vou pra lá, possa ser que alguém precise de mim”. Eu já tinha alguma noção de primeiros socorros e sempre gostei de trabalhar na igreja também. Aí vim embora. Cheguei em 87, fim de 87, começamos a movimentar um grupo de jovens que eu tinha, nós tínhamos lá, começamos a movimentar. Nós começamos um trabalho de base, movimentando, animando, negócio de celebração também, a gente foi se entrosando, se entrosando, foi tendo um conhecimento maior e aí apareceu. Nunca gostei de me envolver com a política principalmente a política partidária. Sempre gostava de estar lendo porque aí a gente podia observar melhor, ter uma escolha melhor, assim candidatos, pessoas. Aí foi nesse ano que surgiu, em 91 foi que surgiu essa... Fui convidado bem antes disso a trabalhar eu não quis porque eu via que era uma coisa mais, como se diz: “Você é o prefeito, eu té dou o emprego, você fica na minha dependência”. Eu nunca gostei disso. Foi aí que pintou essa vaga dos Agentes Comunitários de Saúde. A gente veio fazer a prova, conseguiu passar, e a gente já tinha uma liderança dentro dessas comunidades porque a gente sempre trabalhou com a igreja. A gente tinha uma liderança.

 

P/1 - O que é que você fazia na igreja?

 

R - A gente trabalhava mais no negócio de celebrações, animação, trabalhos com jovens.

 

P/1 - Celebrar missas?

 

R - Isso, sempre quando o padre ia...

 

P/1 - Você fazia, era sacristão, o que é que você fazia?

 

R - Não, dentro da igreja nós fazíamos assim: pra cá nós trabalhamos como líder de comunidade. Então você como líder, você tem o seu grupo, você organiza as celebrações. O padre vai às vezes uma vez por ano porque fica longe pra ele. E aí você organiza tudo, a celebração, organiza por batizado, quando o padre vai já é só para batizar o próprio casamento, você faz a preparação pro casamento.

 

P/1 - O que é que são as preparações? É só organizar? E o dia que o padre chega, faz.

 

R - Não. É a gente se juntar, convidar o casal que vai casar e a gente tem alguns livros, a gente faz alguns cursos, pra gente poder repassar uma palestra, sobre casamento, a importância do casamento, a importância do batismo, esse tipo de coisa.

 

P/1 - Tá certo. Então é curso de noivo, e também preparação de batismo?

 

R - Isso.

 

P/1 - E o grupo de jovens.

 

R - O grupo de jovens foi uma coisa que a gente mexeu muito porque a gente via que tinha muitos jovens, principalmente os jovens que ficavam ali, na própria comunidade. Foi quando a gente começou a organizar, e começamos o trabalho de horta, começamos um trabalho de criação de frangos, a gente foi movimentando e o jovem foi despertando. Hoje nos temos jovens da própria comunidade nossa que estão em Belém, que estão trabalhando, trabalham em oficinas, alguns já estão formados, mas que começaram nessa mesma base.

 

P/1 - Bom, e aí você fez esse trabalho durante quanto tempo?

 

R - Desde 87, nós chegamos, nós trabalhamos. Até 91 eu trabalhei direto em cima disso. Agora depois de 91 que eu me envolvi mais com a área de saúde, aí a gente largou mais de lado.

 

P/1 - Você ganhava para fazer esse trabalho na igreja?

 

R - Não, trabalho voluntário.

 

P/1 - E ganhava como a sua vida?

 

R - Olha, quando eu tinha... O meu pai sempre teve canoa de pesca. A gente ia pescar, passava uma semana, duas semanas voltava. Quando tinha algum curso, a gente sempre ia alguns dias antes pra ver se arrumava um dinheiro pra depois ter pra se manter.

 

P/1 - Aí, pescavam? Vendendo peixe?

 

R - Vendendo peixe, pescando, vendendo.

 

P/1 - Você vendia aonde?

 

R - Em Belém, a gente vende mais em Belém.

 

P/1 - E o seu relacionamento com o seu pai, como é que ficou depois da separação da sua mãe?

 

R - Como ficou?

 

P/1 - É, você foi com a sua mãe, ficou mais próximo dela, depois você voltou, e passou a morar com o seu pai?

 

R - Isso.

 

P/1 - E como é que era o relacionamento de vocês?

 

R - O nosso relacionamento?

 

P/1 - É?

 

R - Olha, continua a mesma coisa. Sempre uma coisa boa. Até porque a gente viu que ela tinha ido e ele ficou, aí nós três... Primeiro foram meus dois irmãos, depois por último foi eu. Hoje os dois são casados, moram lá perto da gente.

 

P/1 - Eles voltaram também pra cá?

 

R - Voltaram.

 

P/1 - Aí a gente vai, sempre visita ela.

 

P/1 - E, você ainda não quis casar ainda?

 

R - Não.

 

P/1 - Tá aguardando ainda mais um tempo?

 

R - É, a gente está dando um tempo aí. Tenho alguma coisa por aí, mas casar mesmo ainda não, nem viver junto. Eu vivo, só eu e meu pai, um irmão que vive com a mulher lá em casa.

 

P /1 - Como é que são os seus irmãos? São homens?

 

R - São todos os dois homens.

 

P/1 - E eles fazem o que? Vivem de que?

 

R - Olha, um vive da pesca, todos os dois, vivem da pesca, mas um, vive mais da lavoura.

 

P/1 - Da lavoura?

 

R - E outro vive mais da pesca.

 

P/1 - E essas situações das terras ali, não ser de vocês, exatamente isso não é uma preocupação de vocês não?

 

R - Não, pra vê que de uns tempos pra cá a gente começou a analisar melhor. A gente conversando com outras pessoas, a gente esclarecendo uma... Porque a gente viu que na verdade, a área que a gente vive, por direito já é nossa porque nossos bisavós... Aí a gente começou a andar alguns órgãos de governo pra ver como estava a situação das terras. Aí algumas pessoas nos deram esclarecimentos, a gente começou a se juntar com o sindicato, hoje nós temos uma associação criada por nós e a gente está vendo quando tentarem mexer em alguma coisa, a gente vai mexer no outro do outro lado. Mas até agora não tivemos problema nenhum. Negócio de terra que você pode usufruir, desde que respeite também...

 

 

P/1 - Como é que foi o inicio? Quer dizer o que você... Foi a primeira vez que fez o cadastramento e tal. É as pessoas receberam bem esse trabalho, como é que foi?

 

R - Olha, eu me lembro que logo no início, logo que a gente chegou, que a gente veio aqui fazer duas semanas, ou três semanas de curso, treinamento que a gente chegou lá pra fazer negócio de cadastro, a reunião com a própria comunidade aonde a gente ia trabalhar, colocar o nosso trabalho, eles pensavam que o Programa de Agentes Comunitários de Saúde era mais um trabalho que vinha... Logo, logo, nós tivemos problema com a igreja porque a igreja nesse tempo já tinha a pastoral da criança. Então pensavam que nós vínhamos para acabar com a pastoral da criança. Não, aí foi uma coisa que a gente foi que teve muito que colocar, na própria família, porque nós tínhamos o trabalho quase igual o da pastoral. Um trabalho mais preventivo e eu logo senti o meu problema porque eu trabalhava na área de saúde sempre recebia do pessoal da cruz vermelha um apoio. Eles sempre me mandavam o remédio, a própria unidade daqui, a gente tinha amigos aqui que nos davam também algum remédio. Então a gente ia, nas nossas próprias visitas que nós fazíamos, a gente já fazia também, além do trabalho preventivo, o trabalho específico um curativo, uma aplicação de injeção, um AS pra gripe. A gente ia fazendo isso. Aí a gente criou esse conflito, mas depois a gente foi, se reuniu, conversou. E hoje nós trabalhamos juntos.

 

P/1 - A pastoral...?

 

R - E o PACS.

 

P/1 - Mas no inicio as pessoas receberam um pouco?

 

R - Um pouco assustadas. Porque veja bem, que negócio é esse? Cadastro? Primeiro a gente vai conhecer a família. Na verdade é um conhecimento que você tem da própria pessoa. Você às vezes vive, mas não conhece. Depois desse cadastro, depois da convivência diária que nós tínhamos quase, a gente começou a se entrosar, a se preocupar mais, o próprio acesso começou a se preocupar mais com aquele grupo que ele estava convivendo. Porque é o tempo que você começa depois a despertar, eu comecei a despertar e senti que eu nem sequer conhecia a minha comunidade. Fui começar a conhecer depois desse trabalho porque é aquele entrosamento que você tem dia a dia, e aí a gente começou...

 

P/1 - E o que é que você conheceu melhor essa comunidade? O que você descobriu?

 

R - Olha principalmente o problema, veja bem... Problemas que às vezes a gente olha a aparência e pensa que não existe nenhum, mas aí quando você chega com uma pessoa, vamos dizer, uma mulher. Uma mulher, muitas vezes ela tem própria vergonha de dizer que tá sentindo um problema de corrimento, outro tipo de coisa, uma dor no útero, coisa parecida assim, problemas genitais. Ela fica com vergonha, mas quando você... Eu fiquei assim também sensibilizado devido a gente ter aquele retorno, aquela confiança que as pessoas começam a ter em você. A gente começou a se entrosar. Aí que eu fui conhecer na verdade, porque o problema não era às vezes só meu ou da minha família, mas tinha problemas dentro da minha própria comunidade que eu não conhecia. Eu comecei a conhecer depois disso.

 

P/`1 - E quando você fala de problema, você está falando de problema de saúde?

 

R - Problema de saúde.

 

P/1 - E que tipo de problema, que você começou a ver que tinha na sua comunidade?

 

R - Olha, a gente viu problema de diarreia. Era uma área de muita diarreia. A gente teve até casos lá que teve problema daquele cogumelo, muito cogumelo, a gente detectou famílias que quase todas as crianças tinham. Ver que negócio é esse, da onde que está vindo isso. Foi quando a gente sentou junto com a comunidade, discutiu, e a gente chegou a uma conclusão que aquilo vinha da água. Devia vir da água porque nós tínhamos na comunidade um poço só e um poço de boca aberta e aquela água de tempo de inverno caia toda ali. Aquela água era consumida por toda a comunidade. A gente viu que tinha muitos casos desses. Cogumelo que dá aquela diarreia.

 

P/1 - Tipo de fungo que dá, um cogumelo?

 

R - É uma bactéria que da na água.

 

P/1 - E chama como?

 

R - A gente chama de cogumelo aqui. É um tipo de diarreia que dá, só que uma diarreia mucosa aquosa, tipo uma pasta que a criança começa a evacuar, aquela goma.

 

P/1 - E dá mais nas crianças?

 

R – É, dava em adultos também. Aí por isso que a gente começou a despertar, porque a gente sentou, disse: “Pô, pera aí, isso”... Nós sentamos, fomos juntos primeiramente com o padre que estava mais envolvido com a gente, conversamos com ele, colocamos a situação. Ele pegou e mandou fazer um poço artesiano na comunidade. Aí depois nós conversamos com o prefeito, viemos conversar com o prefeito e o prefeito mandou fazer mais dois poços. Hoje a gente não tem mais esse problema, não é de você chegar, quando você chegava numa casa tinha três crianças com diarreia, quatro crianças com diarreia. Hoje você não tem mais isso, então a gente viu que diminuiu depois que começou o trabalho preventivo. E da onde vinha? Era da água e a gente...

 

P/1 - Não sabia?

 

R - Não sabia.

 

P/1 - Que mais você descobriu de doença, tinha criança subnutrida?

 

R - Olha, sempre foi nesses quatro lugares que eu trabalho, aonde eu achei mais problema de desnutrição, Santana devido ser uma comunidade... Ela é maior e a maioria das pessoas lá vive da lavoura. A pesca realmente pra comer. Então as crianças não tem uma alimentação adequada. Aí com tudo isso a mãe não tem acompanhamento, não tinha acompanhamento, a distância pra se chegar até a unidade, pra se fazer um pré-natal é grande. Ela pra vim de lá às vezes, às vezes não, ela tem que gastar, e não tem de onde tirar. A gente viu que começou também problema de vacinação, era um problema sério na nossa área porque tinha aquela campanha uma vez por ano, vacinava, aí pronto deixava de lado. Aí depois que nós começamos esse trabalho que a gente se juntou junto com a pastoral, aí nosso próprio trabalho de fazer o levantamento das crianças desnutridas, crianças que estão com problema de vacinação incompleta, tudo, a gente viu que quase todas as crianças estavam com problema de vacinação incompleta. O que a gente fez? Se mobilizou junto aqui com a unidade, agora a unidade já faz três campanha por ano lá e agora nós pedimos mais duas campanhas extras de reforço porque é difícil as crianças virem de lá, pra cá. É mais fácil a unidade ir daqui pra lá, do que trazer todas aquelas crianças pra cá e gente detectou isso também esse problema de desnutrição que havia, havia muito. Aí nós começamos também um trabalho, junto com a pastoral da criança, de acompanhamento, porque nós fazíamos, detectávamos e mandávamos pra pastoral e a pastoral entra com a multi-mistura, com acompanhamento ali, tudo. A gente conseguiu também superar esse problema de desnutrição. Hoje, a gente ficou até surpreso porque esse ano nasceu na faixa de quase umas dez crianças nessa nossa área, mas nenhuma com peso baixo a gente avaliou isso também.

 

P/1 - E é difícil pra você como homem acompanhar a gestante, elas te atendem bem, como é que é?

 

R - Olha, é como eu estou lhe falando. Vai da confiança daquilo que você transmite pra pessoa que você vai conversar. Hoje em dia nós estamos na nossa área com seis gestantes nas comunidades eram 11 gestantes, mas começaram, umas já tiveram outras... E nós estamos só com seis. Mas devido essa convivência que a gente tem no dia a dia, elas começam a ter confiança em você, aí fica uma coisa mais fácil. Logo no inicio foi difícil. É difícil você como homem elas não querem... Até colocar pra você que estão sentindo isso, que estão com aquilo, que estão com aquilo outro. Mas hoje não, elas já chegam conversam com você abertamente.

 

P/1 - Como é que é o seu cotidiano de trabalho? Conta assim como é um dia seu de agente do Programa de Agentes Comunitários de Saúde.

 

R - Olha, a gente sempre levanta cedo costume do interior é levantar cedo.

 

P/1 - Que horas que você levanta?

 

R - Olha, seis horas no máximo eu estou de pé porque aí eu tomo um banho, venho. E quando eu vou atender as comunidades mais longe, eu tenho que sair cedo. Aí a gente sai, umas sete horas. E nós temos duas comunidades que são mais distantes que no caso é Floriano, e Santa Maria, que você tem de andar no mínimo duas horas pra chegar lá e são poucas casas.

 

P/1 - Você vai a pé?

 

R - A gente vai a pé, primeiro porque não tinha bicicleta.

 

P/1 - Agora tem?

 

R - Agora a gente vai de bicicleta, que é a área de Bahia, mas mesmo sendo área da Bahia é praia quando você dá com a maré grande, ou você carrega, ou espera a maré secar.

 

P/1 - Carrega a bicicleta?

 

R - É. A gente coloca no ombro, vai embora e chega, começa sempre no máximo umas nove horas. Aí começa fazer aquele atendimento, conversa com as famílias, eu faço um trabalho junto na escola, um trabalho preventivo com as crianças, a gente sempre visita as escolas também, verifica tudo, e quando a gente volta, a gente sempre passa, quando a gente vai a área de praia, às vezes anda quase meia hora numa praia e dentro dessa praia tem uma casa. Eu sempre costumo deixar essas casas que eu vou passando, pra volta. Porque quando você chega de volta já é duas, três horas da tarde, a gente chega em casa de volta aí a gente já deixa pra quando vem. Aí a gente vai sempre alguém nos oferece um almoço, uma merenda, a gente merenda por lá mesmo ainda volta a chegar as outras casas, já faz o turno da tarde. A gente sempre divide nosso dia assim. Aí chega três horas tem um tempo ali faz alguma coisa por lá, cuida de uma plantação, uma criação.

 

P/1 - Você aproveita na ida para fazer algumas casas, aí vai na comunidade, faz a comunidade, na volta faz as outras casas?

 

R - Isso, as que eu passei. Eu faço primeiro as mais longe, quando eu venho, me retorno faço as mais próximas.

 

P/1 - As mais fáceis? Perto da sua casa? E qual é o problema mais grave que você já encontrou nessa comunidade?

 

R - De doença?

 

P/1 - Problema que você enfrentou como agente comunitário? Ou não teve problema grave?

 

R - Não, a gente teve problema, até que um dia a gente... Nós criamos um conflito dentro da própria comunidade. Essa comunidade que é de Santana tem um enfermeiro então o meu costume devido o meu trabalho, já que eu tinha, que eu sempre tinha algum remédio. E eu ia às casas e não era uma consulta, mas se a pessoa estava com uma dor de cabeça, eu tinha umas que eu dava, se estava com uma tosse eu tinha o xarope que eu dava. E devido também ao padre, o padre me ajudava com o remédio e a gente fazia esse trabalho. Teve um dia que eu fui convidado pra participar de uma reunião em Santana. Aí cheguei lá, a comunidade estava toda reunida, nós falamos de vários problemas, quando chegou o problema de saúde. Foi aí que eu coloquei o problema da vacinação, que nós estávamos precisando, que nós precisávamos da própria comunidade, do empenho da comunidade, porque a gente conseguisse reivindicar ajuda pra lá mais uma campanha de vacinação tudo. Eu tinha todo um levantamento de criança tudo e o enfermeiro estava lá presente. Quando eu vi, ele se levantou e disse com esse tom de voz: “Eu estou engasgado com esse agente de saúde, estou engasgado com ele. Porque agora ninguém vai mais procurar o posto, é só agente de saúde, ele não tem competência de estar dando remédio pra ninguém, e não é o trabalho dele.” Aí eu o deixei falar, claro, ele estava na voz dele. Eu fiquei calado, foi quando se levantou um rapaz da própria comunidade e disse: “De jeito nenhum, a gente não está julgando ninguém aqui. Se ele atende é porque a gente precisa. Quando a gente procura o enfermeiro, o enfermeiro não está, ele sempre nos atendeu e sempre nos atendeu bem”. Aí deixei que eles falassem, depois eu entrei, eu digo: “Olha, meu amigo, é verdade, você está falando a verdade. A nossa supervisora não permite que a gente dê remédio. Não é nossa função, quando nós recebemos treinamento. Agora eu já faço isso. Se eu dou uma coisa é porque eu tenho certeza daquilo que eu estou dando então eu não tenho porque não dar e eu digo pra você: Eu dou aqui o remédio se for preciso, eu dou em qualquer parte que eu chego porque eu estou ajudando, estou salvando uma vida. Agora se as pessoas vão lhe procurar e não lhe acham, não é problema meu”. Eu acho que foi um problema mais assim que eu tive. Porque o resto não, como eu estou lhe falando, o trabalho que a gente tinha, que era um trabalho de base, uma coisa muito boa, que a aceitação foi... Outro probleminha foi problema de salário, mas a gente sempre foi consciente que a gente ia ter um atraso, logo quando começamos nós passamos seis meses sem receber, aí ficamos seis meses, aí muitos colegas desistiram: “Não, eu não vou ficar nesse barco, porque esse barco é um barco furado.” Aí eu digo não, nós éramos 36 agentes, eu digo: “Não, de jeito nenhum, a gente não pode”. Eu sempre estava no meio deles incentivando, não vão. Mas que nada, alguns foram desistindo pra cá, outros por ali. Outros que pensavam que o trabalho do ACS era uma coisa fácil, depois que sentiram o peso também começaram a se desviar e a gente continuou. Hoje nós somos 16, de 36, nós somos 16 ACS, mas eu acredito, até um dia desses numa reunião eu falei: “São 16 ACS que estão porque gostam daquilo que fazem”. Nós somos 16 que gostam daquilo que fazem. Porque se você não tem um trabalho de base junto com a comunidade, o convívio fica difícil pra você trabalhar como ACS fica difícil, mas quando você tem um trabalho organizado já de base, uma convivência que você tem também junto com a comunidade, uma liderança, fica fácil porque é um complemento daquilo que você faz. Eu sempre digo que naquilo que eu faço hoje, eu recebo um salário, mas eu faria se eu não recebesse nada porque eu sempre fiz, eu faria se eu não recebesse nada, porque é uma coisa que eu gosto de fazer. É sempre que eu falo para os colegas: “São 16, mas são 16 que gostam daquilo que fazem”.

 

P/1 - E na área de saúde, qual foi o problema mais grave que aconteceu que você pode dar uma assistência?

 

R - Olha, tem vários, vou citar um...

 

P/1 - Não, alguns, pode ser mais que um, não precisa ser um só.

 

R – Como eu falei pra você, dessa criança que perdeu, que foi perdida lá, tá fazendo o que? Mais de dez anos, mas até hoje eu sinto ainda, devido ser uma coisa que eu acho que se hoje tivesse, se fosse no dia de hoje, não teria acontecido porque veja bem, você vê uma pessoa morrer e não poder fazer nada, você se sente também impotente sem condições de fazer alguma coisa, você se sente desanimado, desacreditado, é a gente, lá o problema como eu digo maior é ainda na parte de... Vamos dizer tem problemas como malária, tem problemas como cogumelo, diarreia, isso é normal, mas dizer assim de problema mais sério ultimamente, foi só um, dois ou três casos que nós tivemos, que já foram pessoas adultas, de problema de hepatite, anemia, esse tipo de coisa que até numa chegou a morte também, mas isso só em adultos. Problemas vários, principalmente que a gente tem mais, agora nesse período de inverno, nós temos mais a infeção respiratória em criança, nós temos também problema de malária, que esse ano foi um ano que nós temos trabalhado muito em cima disso junto com o pessoal da fundação e também, é negócio de febre.

 

P/1 - Qual é a prevenção para malária que você faz?

 

R - Olha, pra malária mesmo, o que se usava era borrifação. Agora não se tem. Nós tivemos uma conferência aqui, em que a gente colocou, que se não voltar isso, eu não sei como vai ser durante uns anos porque não se esta tendo trabalho preventivo em cima disso, como que a gente vai estar matando Carapanã, com um monte de Carapanã, que tem?

 

P/1 - Carapanã é um mosquitinho?

 

R - É aquele pernilongo, é que chama ...

 

P/1 - Aqui se chama pernilongo de carapanã?

 

R - Não, esse é o Carapanã.

 

P/1 - É um tipo de pernilongo?

 

R - É, é o que a gente mais enfrenta, é isso. Agora de casos assim, de crianças que eu possa colocar também, um caso sobre. Eu cheguei numa casa, é diarreia. A criança estava com muita diarreia e vômito. E então a gente mandou... Que é que a gente tinha? Não tinha nada porque não recebemos remédio. Eu digo: “Vamos atacar em cima primeiramente do soro caseiro pra diarreia e depois fazer aquele emplasto que a gente chama de banana no estômago pra que criança não volte a vomitar.

 

P/1 - Como é que é isso?

 

R - Um emplasto, coloca aqui no boca do estômago da criança.

 

P/1 - Como é que chama o emplasto?

 

R - De banana. Sim a gente faz com a banana.

 

P/1 - Folha de banana?

 

R - Não com a própria banana, rala ela. Além da pessoa tomar um pouco, a gente rala ela, coloca no pano, aquilo meio morno e coloca na boca do estômago. Aquilo faz com que a criança não volte a vomitar. Eles disseram “Não, mas não vai dar.” Eu digo: “Não, vamos insistir, né?” Aí a gente começou, porque a criança vomitava, porque quando eles davam alguma coisa, eles davam em excesso, quando batia no estômago, devido estar fraco a criança não tem... Aquilo voltava, foi a gente já, eu digo não vamos mudar, vamos dar de gotinha, aí vamos dar de gotinha, e gotinha, ela foi aceitando o soro foi aceitando o soro, foi aceitando o soro, até que a gente viu que a diarreia diminuiu, aí foi, depois quando ela já podia beber no copo, ela foi bebendo meio copo, depois um copo, aí pronto, criou uma credibilidade em cima do soro caseiro. A gente sempre trabalhou, é uma coisa que a gente nunca deixa de fazer, diarreia a gente não dá outro remédio, que não seja soro.

 

P/1 - É só fazer uso certo?

 

R - É só fazer uso certo.

 

P/1 - Escuta o que é que mudou na sua vida como agente comunitário?

 

R - Em que? Eu faço porque eu gosto de fazer. De um tempo pra cá o que eu acho que mudou mais, mas pra mim mudou no bom sentido. Porque eu passei a ter mais aceitação, mais credibilidade da minha própria comunidade. Às vezes eu fico pensando, eu digo: “Até dia de domingo será que a gente não pode descansar porque às vezes você está deitado em casa, a pessoa quando tem oportunidade gosta de estar lendo. Aí chega alguém, bate na sua porta, você tem que atender, e sorrindo porque você tem que fazer aquilo sorrindo, porque as pessoas: “Pô, espera lá, eu fui encontrar ele, ele me recebeu bem”. Então é esse tipo de coisa. Eu hoje me coloco assim, hoje não faz muito tempo, eu recebia um convite pra ficar como enfermeiro no posto, eu digo: “Não, não quero”. Eu quero estar no meu serviço porque é uma coisa que me faz... Porque você está visitando, você conhecer a dificuldade, você chegar numa casa, você ver que ali, eles estão bebendo o mingau porque não tem o que comer e você se comover junto com aquela pessoa e você até fica comovido daquela pessoa te oferecer aquele pouquinho que ele tem: “Não, toma, você vem de mais longe, você vai pra mais longe”. Então tudo isso, é uma coisa que comove a gente e a própria confiança que você começa a ter junto com as outras pessoas é uma coisa que nos envolve, que envolve, aí muda tudo como você falou: “Você é casado?”. Não sou casado, mas eu tenho filho e moro em Belém, aí sempre que eu vou lá a mãe diz assim: “É eu não sei, eu acho que tu gosta mais do teu Marajó, do que da gente”. Eu digo: “Não por eu gostar mais do meu Marajó. Porque eu faço uma coisa que na verdade eu gosto de fazer.” “Ah, mas tu faz aquilo que tu gosta e deixa a gente de lado”. Eu digo: “ Não deixo vocês de lado, uma vez no mês que eu tenho a possibilidade, eu venho aqui”. De vez em quando eu estou de férias, o garoto tá de férias, vai lá, passa um mês lá com a gente, então e esse tipo de coisa...

 

P/1 - Quantos anos?

 

R - Tá com seis.

 

P/1 - Seis já?

 

R - É uma coisa assim, eu vou falar pra você do que eu respondi depois na minha carta, que eu respondi pra minha mãe porque ela falou pra mim que no Marajó não tinha futuro. Aí eu respondi pra ela assim dizendo: “Olha, acho que hoje eu encontrei o meu futuro, aquilo que eu pretendo fazer. Eu posso muito bem ganhando salário não ter futuro na verdade, mas eu acho que o meu maior prazer é fazer aquilo que eu gosto de fazer, e me sentir bem. É você ter preocupação com aquela família que está lá com fulano doente, que às vezes está com (inaudível), outro está com uma dor de dente, você se preocupar até com isso, é você ter amor também e carinho pelas pessoas que você convive no seu dia a dia. Eu respondi pra ela dessa forma, que eu sou feliz porque eu faço aquilo que eu gosto de fazer. Pra você ver desde 87 que ela foi embora, ano passado, nas minhas férias, que eu fui visita-la lá em Manaus. Passei duas semanas com ela e vim me embora. Mas me sinto realizado, não sei, é uma coisa que está no meu sangue, eu sempre falo para os meus colegas: “Se hoje em dia o Programa Agentes Comunitários de Saúde terminar, eu vou sentir, mas é uma coisa que eu vou continuar fazer porque é uma coisa que me realiza, uma coisa que você se dá.

 

P/1 - Tá bom Aroldo, muito obrigado pela sua colaboração.

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