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História

"E assim a gente vai lutando, seja o que Deus quiser"

História de: Irene Maria de Jesus
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/10/2021

Sinopse

Infância em Mirandiba. A relação com os pais e os irmãos. Mudança para São Paulo com o marido e os quatro filhos. A casa emprestada em Guarulhos e a compra de um barraco de madeira na Zaki Narchi. Incêndios na comunidade e a reconstrução a partir do zero. A volta do marido para Pernambuco e a criação dos filhos sozinha, como catadora de papelão. Ida para o alojamento e a conquista do apartamento no Cingapura. A vizinhança na comunidade. Operações nos joelhos. Trabalho como lavadeira e o trailer de produtos de limpeza. O ínicio da comunidade Zaki Narchi. Relação com os netos. O impacto da pandemia em sua vida. O dia a dia de Irene. 

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História completa

P/1 – Dona Irene, pra começar, eu queria que a senhora falasse o seu nome completo.

 

R – Irene Maria de Jesus.

 

P/1 – E onde a senhora nasceu?

 

R – Eu nasci em Pernambuco, num lugar chamado Mirandiba. Taí o meu documento.

 

P/1 – Que data a senhora nasceu?

 

R – Eu nasci na época de 1940.

 

P/1 – E qual é o nome dos seus pais?

 

R – O nome dos meus pais? Minha mãe chamava Maria Joaquina, acho que é, nem lembro mais, Maria Joaquina. E meu pai se chamava José… Zé Bento.

 

P/1 – E no que eles trabalhavam?

 

R – Olha, naquela época, nem sei com o que trabalhava… trabalhava de roça.

 

P/1 – A senhora tem lembrança da roça?

 

R – Não, porque nós éramos muito pequenininhas, também.

 

P/1 – E você lembra deles?

 

R – Dos meus pais?

 

P/1 – É. Como é que você os descreveria?

 

R – Como assim? O modo deles? Ou a cor? Não, as pessoas daquela época eram muito diferentes de agora. A gente tinha que atender o que os pais chamavam, o que os pais falavam. A gente tinha que atender, não podia discutir com os pais, naquela época. Porque hoje é diferente, né? Os pais falavam, a gente tinha que correr atrás, para o que eles mandavam fazer, tinha que correr e fazer, porque eles não gostavam. E era assim.

 

P/1 – E você sabe como eles se conheceram, naquela época?

 

R – Meus pais? Não. Não lembro mais.

 

P/1 – Sem problemas. E a senhora tem irmãos?

 

R – Tenho, nós éramos cinco irmãos. Só que agora só tenho um... morreram dois. Não, morreram três irmãos. Então, só tenho um irmão.

 

P/1 – E como era o nome deles?

 

R – Dois irmãos, ou só tenho um? Nós éramos cinco, e morreram três. Então, dois, né?

 

P/1 – Não, sobrou um.

 

R – É, isso mesmo. Essa que sobrou chama Maria.

 

P/1 – E ela mora onde?

 

R – Ela mora em Petrolina.

 

P/1 – E a senhora tem contato com ela?

 

R – Tenho, só que agora mesmo, agora, depois dessa pandemia, eu não tive contato com ela, tô tentando, mas eu tenho contato com a filha dela. Mas com ela mesmo, o celular dela, o meu não atende.

 

P/1 – E a senhora estava em que lugar na escadinha dos irmãos?

 

R – Dos irmãos, nós éramos em cinco, eu estava em três.

 

P/1 – Então, estava no meio?

 

R – É.

 

P/1 – E como é que era a relação de vocês, quando eram pequenos?

 

R – A relação da gente era só naquela época, porque a gente não sabe nem descrever agora. Todos atendiam os pais, os irmãos mais velhos… os mais novos, tinham que atender os irmãos mais velhos. E era assim que a gente vivia.

 

P/2 – Sobrava um tempinho pra brincar?

 

R – Sobrava.

 

P/2 – E do que vocês brincavam?

 

R – Ah, a gente brincava de roça. Pegava aqueles matos e enfiava ali no chão, falava que era lavoura, porque os [meus] pais tinham roça. A gente brincava de qualquer coisa, porque brinquedo que nem hoje em dia, hoje em dia os pais compram brinquedos pros filhos e tudo, mas naquela época, era tudo somente mato mesmo, de roça. E era assim que a gente vivia.

 

P/1 – A senhora lembra da sua casa, lá?

 

R – Não, isso eu não lembro mais.

 

P/1 – E a senhora, na época, quando a senhora era pequenininha, como é que eram as comidas, lá?

 

R – As comidas eram isso mesmo: tinha feijão, milho. Eram essas coisas, porque ninguém comprava nada, só era de roça. Não tinha esses mercados, não existia essas coisas. Porque todo mundo trabalhava o ano inteiro, pra poder ter aquela lavoura e daquilo ali era que a gente se alimentava. Os pais faziam.

 

P/1 – E a senhora lembra, a senhora sabe por que chama Irene?

 

R – Por que eu chamo Irene?

 

P/1 – É.

 

R – Não, não sei, isso foi problema dos meus pais.

 

P/1 – É. 

 

P/2 – Eles nunca contaram pra senhora, por que o seu nome é Irene? 

 

R – Não. 

 

P/1 – E como que foi, pra senhora? A senhora cresceu lá?

 

R – É, eu cresci lá, em Pernambuco.

 

P/1 – E a senhora ia pra escola?

 

R – Acho que não, nem lembro mais, acho que naquela época nem tinha escola ainda. Acho que não.

 

P/1 – E a senhora, depois que foi crescendo, assim, depois de brincar,  a senhora tinha amigo, a senhora lembra?

 

R – Não tinha porque, de qualquer maneira, naquela época, a gente morava nos matos. Quer dizer, as casas eram separadas. Você tinha a casa, tinha a roça, naquela roça ali, aí tinha a casa daquele dono de roça. Já as outras famílias estavam em outro lugar e tudo era longe, tudo distante. Que eu lembro, porque naquela época eu era pequenininha.

 

P/2 – E  a senhora e os seus irmãos ajudavam na roça, dividiam as tarefas, faziam as coisas em casa, com a mãe?

 

R – É, a gente fazia aquilo que criança podia fazer. Naquela época, a gente ajudava, mas não ajudava muita coisa, porque trabalhar de roça é pesado. É de enxada, é de foice, essas coisas. Aí não dá pra criança pegar.

 

P/1 – E como é que foi a senhora crescendo, naquela época?

 

R – Ah, naquela época a gente foi crescendo, que não dá nem pra descrever como que era porque, naquele tempo, ninguém pensava nada, nada, nada mesmo. E quando a gente deu fé, já estava grande.

 

P/1 – E tinha amigo… não tinha amigo, a senhora falou. Mas como era o entorno? Era só mato e daí só tinha a casa da senhora?

 

R – Ali só tinha... cada roça tinha o dono daquela casa, daquela roça, tinha as casas. Mas não era assim, que nem aqui, que as casas são juntinhas. Mas cada roça tinha um dono de roça, mais ou menos, como daqui até Santana tinha uma moradia, como daqui na Vila Guilherme já tinha outra moradia, outra roça. Era assim, tudo distante.

 

P/1 – E não tinha mercado?

 

R – Não.

 

P/1 – A senhora ficava lá o tempo todo?

 

R – É, o tempo todo. Lá, o mercado, a gente se alimentava do que fazia, do que trabalhava, da roça. Ali, quando era no tempo da colheita, colhia, batia o feijão, guardava nos sacos, colocava os milhos em uns paióis, assim, que eles faziam aquele negócio de tábua e colocavam os milhos em cima. Era assim. O que eu tô lembrando. (risos)

 

P/1 – E criava bicho?

 

R – Não, nem lembro, eu acho que não. Ninguém reclamava. Também, se reclamava, nem lembro. (risos) E era assim.

 

P/1 – E daí a senhora foi crescendo e como que foi pra decidir vir pra cá? A senhora lembra?

 

R – Não, eu não lembro, eu só lembro que a gente morava lá e depois a gente veio, veio pra Salgueiro. Aí, de Salgueiro, já foi quando eu casei. Eu já era moça, já casei e depois a gente veio embora pra cá.

 

P/2 – A senhora veio pra cá casada, então?

 

R – É.

 

P/2 – A senhora casou lá em Salgueiro. Como a senhora conheceu o seu marido?

 

R – Como assim?

 

P/1 – O seu marido, lá em Salgueiro.

 

R – Não, nós viemos juntos pra cá.

 

P/2 – Tá, mas como a senhora o conheceu lá?

 

R – Ah, nos conhecemos porque éramos vizinhos, roça com roça, era vizinho e já tinha casado dois irmãos meus. E depois eu casei, aí já depois dos meus filhos todos nascidos lá, viemos embora pra cá, não tem nenhum paulista.

 

P/1 – E como é o nome do seu marido?

 

R – Luís José Turbano.

 

P/1 – E, depois que vocês se conheceram, quando vocês vieram pra cá, como que foi? Veio só você e ele?

 

R – Não, veio todo mundo. A gente veio num caminhão, aqueles caminhões que vão lá, deixam carga lá, parece que era, naquela época, eu sei que vinha toda a família, toda em cima de um caminhão.

 

P/2 – Vocês vieram de carona?

 

R – É, coberto de... aquele negócio de lona, parece que era coberto de lona.

 

P/2 – Vieram direto pra São Paulo?

 

R – Era direto pra São Paulo. Só que esse caminhão vinha cheio de melancia. (risos) Desculpa. (risos)

 

P/2 – Dona Irene, mas quando vocês combinaram: “Vamos pra São Paulo”, vocês resolveram vir pra São Paulo pra quê? O que vocês pensaram?

 

R – Porque lá estava ruim de serviço. Então, meu marido veio pra cá, veio na frente, porque eu tinha família aqui. Aí, então, ele ficou aqui, arrumou serviço, se empregou e depois que ele estava empregado, ele conversou com o patrão, para ir buscar a família, o patrão deu uma casinha que tinha no fundo da firma, casinha pequenininha. Aí ele foi lá buscar a gente, nós viemos e ficamos morando naquela casinha ali, atrás da firma, pra não pagar aluguel e também, naquela época, não existia aluguel, nem nada. Quem tinha, morava; quem não tinha… e a gente ficou morando lá. Aí, depois, a gente veio pra cá. Tinha minha família, tinha uma família aqui. Eles arrumaram a gente vir pra cá, viemos e compramos um barraco. E aí a gente ficou morando aqui e ele trabalhando lá, em Guarulhos.

 

P/2 – Em Guarulhos?

 

R – Era.

 

P/2 – Tá, e a sua família, que ele veio pra cá primeiro, morava em que lugar? Guarulhos também?

 

R – Não. Quando eu vim, a minha família morava aqui. Era uma tia e parece que tinha três primos. Eles moravam aqui, já. Aí eu vim, mas como a gente não tinha dinheiro pra alugar, nem comprar, nem nada, aí o patrão arrumou a casinha que tinha nos fundos da firma e a gente ficou lá. Depois, a gente veio pra cá, chegamos aqui, a gente comprou um barraco, aí ficamos morando no barraco aqui e ele ficou trabalhando na firma, lá em Guarulhos.

 

P/2 – Mas depois que ele arrumou esse emprego, ele foi buscar a senhora e os filhos lá, ou ele mandou dinheiro pra senhora vir?

 

R – Não, ele mesmo foi buscar.

 

P/2 – Ele foi buscar?

 

R – Foi buscar.

 

P/1 – Vocês vieram todos nesse caminhão de melancia?

 

R – Viemos todos nesse caminhão, porque não tinha dinheiro pra pagar a passagem. Então, eu lembro como se fosse hoje, o caminhão era até cheio de melancia. (risos)

 

P/2 – E a senhora lembra mais coisas da viagem, quantos dias demorou pra chegar em São Paulo…

 

R – Não, sobre isso eu nem lembro.

 

P/2 – Lembra se vocês paravam na estrada, em algum lugar, pra comer?

 

R – É, parava na estrada, dormia, descia, comia alguma coisa naqueles restaurantes. Mas eu nem me lembro de muita coisa desse tempo.

 

P/2 – E a idade das crianças, lembra?

 

R – A idade das crianças, a mais velha tinha sete anos e daí pra baixo, eram quatro.

 

P/1 – E agora, tem quantos? Agora, sua filha mais velha tem quantos anos?

 

R – Minha filha mais velha tem quarenta. Ela chegou aqui, parece que foi com sete anos. Aí ficamos aqui, no barraco. Aí, depois, eles vieram, a prefeitura veio e fez esses apartamentos, mas já depois de muito sofrimento.

 

P/1 – Vamos voltar um pouquinho, pra fazer umas outras perguntas, antes da gente começar a falar daqui da Zaki Narchi. Lá no começo, antes da senhora vir pra cá, a senhora trabalhava?

 

R – Trabalhava só na roça. É porque, naquela época, não tinha trabalho pra ninguém, pra cada um, não tinha aquela história de dizer assim: “Fulano vai trabalhar pra mim”. Ali cada um trabalhava pra si, quer dizer, nas suas roças, cada família trabalhava na sua roça.

 

P/1 – Entendi. E como foi se tornar mãe?

 

R – Ah, se tornar mãe nem sequer eu me lembro, só sei que eu fui tendo filho, (risos) então tive quatro. (risos)

 

P/1 – Foi um seguido do outro?

 

R – É, um seguido do outro.

 

P/1 – E como é o nome deles?

 

R – É Ana Lúcia, Ana Paula, Cícero e José Roberto. São dois homens e duas mulheres. Deus me deu dois pares, dois casais.

 

P/1 – E daí, no caminhão de melancia, como que foi a viagem? A senhora lembra?

 

R – Lembro. Dormia, forrava as coisas pra não dormir em cima do carro, do caminhão e ali dormia. Quem pudesse dormir, dormia; quem não pudesse dormir, sei que o caminhão era viajado. E ali até que a gente chegou aqui.

 

P/1 – E eram todas crianças pequenas, como que a senhora fazia pra cuidar?

 

R – É, as crianças eram todas pequenas, ainda bem que dava, no lugar onde cabia um, cabiam todos os quatro. E ali só eu e o pai ficava acordado, pra tomar cuidado. (risos) Porque tinha mais famílias também nesse caminhão. Essa outra família que tinha, eles eram um casal e duas crianças. Mas um ficava de um lado e o outro do outro. Na hora da dormida, pra dormir. Eu sei que nós chegamos aqui.

 

P/1 – E como foi chegar aqui?

 

R – Chegar aqui não foi muito ruim, porque já tinha o lugar certo, como ele já trabalhava aqui, ele só tirou uns dias, pra ir lá, atrás da família e a gente já sabia para onde vinha. Aí a gente ficou morando atrás da firma. Pregado com a firma, tinha uma casinha, a gente ficou morando lá, até quando a gente veio pra aqui, pro meio da família, aqui a gente comprou um barraquinho, aí viemos pra cá.

 

P/2 – E ele veio pra trabalhar de quê, Dona Irene? O que era essa firma?

 

R – Ele trabalhava nesse negócio de vender, de andar naqueles caminhões, vendendo bebida. Eu não sei como é que se chama aquilo.

 

P/1 – E a senhora se lembra da sensação de chegar aqui?

 

R – Lembro que, pra mim, eu achava que aqui era melhor do que lá, de onde a gente morava. Porque, de qualquer maneira, queria dizer que aqui ele trabalhava. Era um emprego certo. E lá não, lá ele trabalhava de ‘bico’, onde arrumava ele trabalhava; onde ele não arrumava, ele não trabalhava. E era assim que a gente vivia.

 

P/1 – E como foi chegar aqui na Zaki Narchi?

 

R – Aqui ficou melhor, porque aqui… lá, meu conhecimento lá em Guarulhos era só com meu marido mesmo, meus filhos, os funcionários não falavam nada, que era tudo da parte pra lá, né? E aqui não, quando chegou aqui, tinha família e as pessoas conhecidas da minha família também, quer dizer, que já se tornaram amigos da gente, já foi melhor do que lá, quando eu estava em Guarulhos.

 

P/1 – E como eram os barracos aqui?

 

R – Tudo de tábua, tudo de tábua. Quando começava a pegar fogo, o que você podia tirar e jogar fora, separar, você levava; o que você não podia, era só ficar lá fora e tinha um campinho, assim, na frente, a gente tirava as coisas, levava lá pro campinho, deixava lá separado, qualquer coisa e depois, o que não podia, quando o fogo fechava mesmo, você tinha que deixar tudo lá dentro, de ver queimar.

 

P/1 – E era só barraco, nessa época?

 

R – É, era só barraco. Aí terminou aquele fogo, quando aquele fogo acabava com tudo, aí a gente tinha que correr atrás de mais tábua, pra poder refazer de novo. Comprar o que tinha perdido e era assim a dificuldade.

 

P/1 – E o fogo já chegou a pegar o seu barraco?

 

R – O meu já, o meu já. Só que a gente aqui tinha um campinho na frente, que hoje em dia chama de quadra, aquele negócio de jogar bola. Aí tinha essa quadra na frente, aí todo mundo pegava, ia pegando suas coisas e jogando lá no campinho, na quadra. Depois, aí cada um sabia o que era seu, o que não era e ia se juntando. Mas era difícil, difícil mesmo. Dia de você comprar da loja, comprar as coisas como hoje, como amanhã e o fogo chegar e levar tudo, você fica só com a conta pra pagar. Mas a gente está vivo até agora, graças a Deus. (risos) 

 

P/1 – O que a senhora sentia?

 

R – Ah, aquilo a gente sentia coisa que a gente nem pode descrever, porque você está vendo o que você tem, a sua sombra, o seu barraco, da sua casa, com sua família, queimar tudo e saber que você não tem onde ficar. A sorte é que a gente, pra refazer, só comprava pregos. Porque as madeiras, a gente ia no Anhembi, chegava lá, eles davam a madeira pra gente. Mas que a situação era ruim, era.

 

P/1 – E a senhora me contou, um tempo atrás, que a senhora mandou seu marido lá pra Pernambuco de novo. Foi isso?

 

R – É, então, ele está em Pernambuco porque, depois que a gente chegou aqui, aí ele começou a beber, beber pinga, não sei, acho que é pinga. Começou a beber. Aí, quando chegava em casa, chegava bêbado e aqui era uma favela, qualquer coisa e você escutava era tiro pra todo lado. Eu tinha medo de o matarem, não ia dar certo, por causa dos meus filhos, tudo, pensei: “É melhor meus filhos terem um pai vivo, de que tê-lo morto.” Aí, a gente deu um jeito e ele foi para Pernambuco. Aí está pra lá, até hoje, ele é vivo. Ele é vivo lá e eu aqui, com meus filhos.

 

P/2 – Mas depois que ele foi, ele nunca mais voltou pra visitar?

 

R – Não, ele vem aqui, ele sempre vem. De vez em quando ele vem, de dois em dois anos, ele vem aqui visitar os filhos. Nós somos amigos. Nós somos separados, mas somos amigos, não somos brigados, eu brigados, essas coisas não, toda vez que ele vem, ele vem na minha casa, na casa dos meus filhos. Meus filhos têm contato com ele direto, toda semana elas falam com ele. E é assim até hoje que nós estamos vivendo.

 

P/1 – E como foi que ele ficou lá?

 

R – É, ele ficou lá porque arrumou outra mulher lá e está lá agora! (risos).

 

P/1 – A senhora contou pra mim que tinha combinado com a mãe dele...

 

R – Ah, foi, dessa daí foi. Ele começou a beber - vai esticar a história e vai ficar mais difícil pra vocês - e começou a arrumar briga, aí o que eu fiz? Eu fui, combinei com minha prima, de eu arrumar o dinheiro, comprar uma passagem e mandar pra ele ir embora pra lá, cuidar mais dele. Aí, ligamos pra mãe dele. Contei a história, como é que ele vivia aqui, estava vendo que ele trabalhava, nunca deixava passar necessidade, o que ele podia fazer, ele fazia, mas no dia que ele queria beber, ele bebia até... chegava em casa bêbado. E eu não tinha costume com aquilo, num lugar estranho. Era do jeito que era. Quando eu dava fé, as pessoas chegavam e falavam: “Ei, Irene, o seu Luis está brigando lá na rua, lá embaixo”. Aí falei: “Eu sei o que eu vou fazer”. Combinei com ela, ela falou: “Não, pode mandá-lo vir”. Aí arrumamos o dinheiro, falei pra ele que a mãe dele estava muito doente e queria vê-lo. Isso tudo combinado, né? E queria vê-lo, estava pedindo, que era pro modo de vê-lo, porque ele era o filho caçula. Aí ele endoidou. Foi para mãe, com medo dela morrer. Aí, nós começávamos a dar risada da mentira da gente. (risos) Aí, sei que ele foi, pensando que era verdade. Só que aí, quando ele chegou lá também, ela não foi desmentir, nem nada. Ele ficou por lá, ela o segurou, nunca mais ele veio, até que ele arrumou outra pessoa lá e ficou porque, depois que ele chegou lá, aí, daqui, eu fui e falei pra ele, nós explicamos pra ele a situação, de como que ele estava vivendo aqui, que estava perigoso, por isso que a gente tinha o mandado pra lá, então que ele ficasse por lá mesmo. E aqui eu fiquei e cuidei dos meus quatro filhos.

 

P/2 – Quantos anos a senhora tinha nessa época, Dona Irene?

 

R – Nessa época, minha filha, agora eu vou fazer oitenta anos… Nessa época, acho que eu já tinha uns quarenta... quarenta, não, mais…

 

P/2 – E como que a senhora arrumou dinheiro? Ele trabalhava lá em Guarulhos, a senhora fazia algum trabalho aqui, na Zaki Narchi?

 

R – Não, o tempo que eu morei lá em... aqui não trabalhava e nada, eu só o ajudava. Porque ele trabalhava na firma e de noite ele puxava papelão, naquelas carroças. Ele trazia o papelão de noite, deixava em casa, aí, de manhã, ele ia trabalhar, aí eu levantava, eu ia separar os papelões tudinho, separar plástico, papelão, tudo, pra vender. E assim a gente ia arrumando um dinheiro pra ir comendo, enquanto completava o mês, pra ele receber. Era dura a vida, mas, graças a Deus, a gente tinha mais descanso do que agora.

 

P/1 – E como era morar aqui, naquela época?

 

R – Naquela época era sofrido, era nervoso. A gente passava muito nervoso, porque aconteciam coisas que a gente não esperava. A gente não sabia como é que ia ser, se acontecia, deixava acontecer. E era assim a situação, você escutava tiro pra todo lado, mas, graças a Deus, com a minha família nunca aconteceu nada. Em nome de Jesus, porque também, de qualquer maneira, quando eles eram todos pequenos, eles ficavam brincando ali na frente de casa e quando a gente escutava qualquer coisa, quando era pra acontecer alguma coisa, alguém já saía avisando. E ali a gente só ia entrando pra dentro da sua casa, fechando seu barraco e deixava o que acontecia na rua, pra lá, no outro dia que a gente ia saber o que tinha acontecido.

 

P/2 – Eles passavam avisando os barracos que era pra entrar?

 

R – Era, pra entrar pra dentro de casa, porque ia acontecer isso e isso. E a gente entrava, botava a família pra dentro. No outro dia que a gente ia saber o que que é que tinha acontecido.

 

P/1 – E como foi o processo para mudar pras casas?

 

R – Ah, foi bom, porque quando eles vieram e fizeram os apartamentos, eles tiraram a gente dos barracos, pra poder derrubar os barracos e fazer os prédios. Aí fizeram uns barracos lá perto do Center Norte, que eu acho que ainda hoje tem barraco lá, nem sei, que lá, agora, parece que é negócio que faz aquelas fantasias de carnaval, parece que são essas coisas. Aí fizeram os barracos lá, a gente foi, mudou pra lá e aí, eles fizeram os apartamentos. Só que eles tiravam uma parte, aí faziam apartamento, aí depois é que derrubavam a outra parte e assim foi indo, até quando fizeram tudo.

 

P/1 – E a senhora lembra como foi chegar no apartamento seu?

 

R – Lembro, mas só que, naquela época, de qualquer maneira a gente não pagava nada nos barracos e ali a gente chegava: “Vai ter que pagar”. Porque ali era pra pagar por mês. Agora me diga quanto? Cinquenta e sete reais por mês, (risos) que era pra ter que pagar, nós achávamos que era um dinheirão que ia pagar, que não podia nem pagar. Mas, graças a Deus, a gente conseguiu e estamos aí, até hoje. Já tem vinte e seis anos que moramos nos apartamentos, fora os tempos em que moramos em barraco. Será que essa mulher tem algum tempo aqui? (risos) E assim, graças a Deus, estamos até hoje.

 

P/1 – E como era criar seus filhos aqui?

 

R – Olha, criei meus filhos aqui, eles não me deram trabalho. Nunca me deram trabalho, porque, como eu já vivia, como minha família vivia aqui quando eu cheguei, já falaram e me explicaram como é que era, então eles saíam de casa pra ir pra escola, chegava da escola, ficavam dentro de casa, iam brincar na quadra, mas a quadra era em frente com meu barraco mesmo e ali eles ficavam ali, só um tempinho. E, quando meu marido foi embora, eu comecei a puxar uma carroça e ia pegar papelão. Aí deixava, levava dois, porque eles chegavam da escola, esperava eles chegarem da escola, chegavam a tarde, aí eu colocava dois na carroça e deixava dois rodando e mais dois em casa. E pedia pra vizinha olhar. Aí eu ia pra rua, trazia, pegava aqueles papelões, quando era um negócio de umas dez, onze horas da noite, eu estava chegando com os papelões e eles dois dentro da casa. E assim fui lutando, até que cresceram, graças a Deus. Em nome de Jesus, graças a Deus, hoje são quatro, dois homens, duas mulheres, nunca me deram trabalho. Cada um é dono de sua família, porque como eles foram criados aqui, nunca se meteram com nada, com nada dessas coisas que acontecem por aqui. Eles respeitam todo mundo, eles conversam com todo mundo e ali eles vivem a vida deles, trabalhando. Nunca me deram trabalho. Mas eu acho que é por causa da criação também que a pessoa dá. Porque a gente, hoje em dia, vê crianças correndo e jogando pedra nas mães e as mães saem correndo. Mas deixa essa vida dos outros pra lá, que não é nossa, então (risos)...  foi assim a nossa vida.

 

P/1 – A senhora ficava olhando lá, cuidava deles de perto, então?

 

R – Cuidava deles de perto e ali eu tinha hora certa de botá-los pra dormir, pra vir pra casa, para vir dormir. Se eu precisasse sair, eu deixava a vizinha olhando-os e era assim, nunca descuidei, pra deixar meus filhos à toa, nem isso, nem aquilo, não porque, de qualquer maneira, eu via a situação do lugar, como é que era. Graças a Deus, então, até hoje, ninguém me dá trabalho.

 

P/1 – E a senhora, quando o seu marido foi embora, a senhora o mandou embora…

 

R – É, (risos) foi. Quando eu o enganei, pra ir embora. (risos)

 

P/1 – Como é que foi? Você começou a puxar carroça, pra se manter?

 

R – Foi. Então, foi nessa época que eu levava os dois, que os esperava chegarem da escola, fazia comida, aí esperava eles chegarem da escola, quando chegava, eu deixava os dois mais velhos em casa e levava os dois mais novos dentro da carroça.

 

P/1 – E como era?

 

R – Andar na rua?

 

P/1 – É.

 

R – Era pegando aqueles sacos de papelão que tinha nas calçadas, jogando dentro da carroça, onde eu achava, ia jogando dentro da carroça, atravessar os faróis que era mais perigoso. Além da carroça, duas crianças lá dentro. Mas, mesmo assim, eu venci, graças a Deus chegava em casa com eles, em paz.

 

P/1 – A senhora andava onde com a carroça?

 

R – Na rua.

 

P/1 – Mas em que região? Aqui perto?

 

R – Nada, era dali pra cima, ia até a estação da Luz. Porque, como nós estávamos… meu marido trabalhava numa firma, na estação da Luz. Era, tipo assim, mercado. Então, lá juntava muito papelão e ele tinha aquele depositozinho ali, que ele juntava os papelões. Então, quando ele foi embora, aí ali ficou pra eu pegar, aí eu ia pegar lá. E, de lá, quando eu vinha de lá pra cá, ia pegando onde achava.

 

P/2 – Dona Irene, aí a senhora chegava umas onze horas da noite com as duas crianças, os outros em casa e a senhora tinha que dar banho neles ainda, fazer comida?

 

R – É, tinha que dar banho neles, botar, dar comida. Depois que eles estavam comendo, eu ia e tomava banho. Só que, ali, aquele papelão, eu só ia mexer com ele no outro dia. Aí, no outro dia, eu tinha um plástico, que eu coloquei um plástico pra fazer aquela sombra, aí eu os jogava todinho ali, aquele papelão ali embaixo e ficava ali, separado. Aí, quando escutava qualquer coisa, qualquer zoada de polícia, dessas coisas, corria pra dentro de casa, fechava as portas, escutava só o que estivesse acontecendo. E assim eu os criei aqui.

 

P/1 – A polícia andava muito aqui?

 

R – Andava, andava bastante. Mas a rua aqui era sossegada, não era que nem agora. Agora não, está mais perigoso, mas naquela época dos barracos, era mais sossegado.

 

P/1 – E por que a senhora acha que agora está mais perigoso?

 

R – Olha, sabe que eu nem sei te responder essa pergunta. Eu não sei te responder, porque hoje o mundo está todo mudado, né? E, naquela época, quando eu comecei a morar aqui, hoje nem se parece com aquele lugar que eu morei, que eu moro, que eu comecei a morar.

 

P/1 – O que a senhora vê que mudou?

 

R – É, mudou muita coisa. Assim, era muita coisa aí que mudou, que a gente não sabe nem falar. 

 

P/1 – Cresceu muito?

 

R – Cresceu muito, mudou muito, mudou demais. Hoje em dia é muito diferente da época dos barracos. E assim a gente vai lutando, seja o que Deus quiser.

 

P/2 – Os filhos da senhora também moram aqui?

 

R – Moram.

 

P/2 – Todos eles?

 

R – Todos eles. Só que agora já tem dois que não estão morando mais aqui. Porque tem minha filha que trabalha, ela mora no mesmo prédio onde eu moro. E ela trabalha lá perto do mercado chinês. Ela arrumou a casa, alugou o apartamento dela aqui e alugou a casa lá, está morando lá. Porque, como aqui faz muito zoeira no final de semana e ela trabalha em máquina, muitas vezes ela chega em casa com o dedo todo ‘coisado’ da máquina, porque ela não dormia de noite. Teve vezes que ela descia aquelas escadas na segunda-feira, chorando, porque não aguentava, sabia que não ia aguentar trabalhar. Aí terminaram alugando o apartamento, arranjaram uma casinha pra lá e estão morando e o apartamento lá que está alugado, para poder ajudar a pagar o aluguel.

 

P/1 – Todos eles estudaram?

 

R – Hum?

 

P/1 – Todos os seus filhos estudaram?

 

R – Eles estudaram, mas foi pouca coisa, coisa pouca. Hoje... como é que diz? Eles não se mantêm pelo estudo, porque estudaram pouca coisa, só eu sozinha pra sustentá-los, com o estudo e tudo. Mas, graças a Deus, tem o estudozinho deles, para ajudá-los, seja lá onde eles trabalham, no que eles querem. E assim estão lutando.

 

P/1 – E como é que era a relação com a vizinhança? A senhora tinha amizade com as pessoas?

 

R – Olha, filha, se eu for dizer pra você, vocês não vão acreditar. A minha relação com as minhas vizinhas, ou com os vizinhos, qualquer vizinho, onde eu moro, pra mim, é tudo normal. Eles sendo da maneira que eles forem, eu fico, vejo, às vezes, a gente vê que ali, aquela coisa que está errada, mas não é da minha conta e acho que se morar na favela, você aprende muita coisa. (risos) E, assim, graças a Deus, tenho o meu apartamento aí, que eu moro aí, já tem 26 anos. Você pode procurar ali, tem alguém que diga isso, que já discutiu comigo, que já me viu discutindo, não. As meninas dão risada, porque elas falam: “E um dia que a pessoa discutir com você, o que é que você faz?” Falo: “As pessoas não vão nem saber que estão discutindo comigo, porque eu vou sair andando, não vou nem querer saber (risos) e nem vai saber que é comigo”. A pior coisa que eu acho é discussão. Discussão, melhor - se você vê as coisas, você saber das coisas - ficar calada do quê, né? É assim que eu faço. E vivi nesse tempo todo aqui e nunca discuti com ninguém.

 

P/1 – E depois que a senhora trabalhou puxando carroça, depois a senhora foi trabalhar com o quê?

 

R – Depois que eu comecei a puxar carroça, quer dizer, meus filhos já estavam ‘mais grandes’, já estavam de escola e tudo, já iam pra escola. E tinha gente que podia trazer, que estudava junto com eles e que podia trazer. Então, aí eu comecei a trabalhar aqui, nesse prédio, que se chama Iprem. Ali foi onde eu comecei a trabalhar e depois saí dali, fui trabalhar na rodoviária, mas, de faxineira. E assim fui lutando. Até que, graças a Deus, eles ficaram mais velhos, tomaram o rumo da vida deles. Mas moram todos pertinho de mim, aqui.

 

P/1 – Vêm visitar?

 

R – Vem, vixe! Eu tenho uma filha, que é a mais velha, ela é assim, nove horas da manhã é a hora do café dela, lá onde ela trabalha. Nove horas da manhã você pode ficar com o celular na mão, sentada ali, que ela liga. __________  e pronto. Quando é meio-dia, horário do almoço dela, pode esperar que ela liga de novo. São duas vezes no serviço, que ela tem notícias. Acho que minha vida é assim mesmo, fazer o que, né?

 

P/1 – Mas são todos próximos da senhora?

 

R – São, graças a Deus. E a minha vida é assim, ó. ( Irene mostrou as cicatrizes nos dois joelhos).

 

P/1 – Olha!

 

R – É. Licença, viu. Eu nem pedi licença.

 

P/1 – Imagina.

 

R – Entendeu? E assim eu vivo, graças a Deus.

 

P/1 – E como foi que conseguiu essas duas cicatrizes?

 

R – Isso aqui foi desgaste de ossos, osteoporose. E foi essas coisas todinhas que me manchou isso aqui tudo. Essa bolacha que tem aqui no joelho, isso aqui é plástico que eu tenho aqui. Aí, com dez anos, tem que fazer outra cirurgia aqui, porque isso desgasta todinho. E eu tô fazendo dez anos, daqui pro mês que vem. 

 

P/1 – Vai operar? 

 

R1 – É, eu não sei se eu vou operar, porque eu penso: eu tô andando, graças a Deus, mas eu sinto muita dor. Quando o tempo está frio, isso aqui é como se estivesse se desmanchando, porque os ossos estão ‘coisando’ assim. Aí eu penso: “Meu Deus do céu, eu tô bem, tem tanta gente aí que não está nem podendo andar e se eu operar de novo e eu me der mal?” Mas o médico falou que tem que operar, porque isso desmancha tudinho. Vamos ver o que Deus tem pra fazer comigo. Eu sou assim: tudo eu peço pra Deus me ajudar e me dar autorização para ver o que que eu faço.

 

P/1 – E como é que era trabalhar de faxineira? O que a senhora... a senhora lembra de alguma… 

 

R – Faxineira é essa… sabe que eu nem lembro mais, eu sei que eu trabalhava de faxineira, mas nem lembro mais como é que era, eu sei que era faxina o que eu fazia. Não tinha estudo mesmo.

 

P/1 – E como que foi, assim, pensando quando a senhora chegou e viveu tudo que a senhora viveu aqui, o que teve de mais importante, de mudança? O que mais te marcou, aqui?

 

R – De mudança, o que eu acho que mais marcou de sofrimento foi no tempo dos barracos. No tempo dos barracos era perigoso. Você saía de casa e não sabia se quando você chegasse e a encontraria de pé, ou se encontrava só cinza. Aí, depois que a gente passou pros apartamentos, foi quando a gente teve mais um pouco de sossego. Porque tinha uma moradia digna, que a gente saía de casa, tinha certeza que chegava em casa, a casa estava no mesmo lugar. Porque com os barracos a gente não tinha certeza. Tinha hora que você saía de casa, deixava tudo em casa e quando você chegava, no meio de um monte, você via a fumaça, falava: “Onde que é aquela fumaça?” “Na Zaki Narchi que está pegando fogo”. Como é que se sentia. Saber que tudo que você tem está ali dentro. Mas, graças a Deus, já tô aqui, nessa idade, graças a Deus eu tô bem.

 

P/1 – A senhora lembra como foi conseguir emprego fora daqui?

 

R – Não, porque eu, depois que eu fiquei só com as crianças, eu trabalhava mesmo era só na carroça, catando papelão. Depois, eles já estavam bem grandinhos, aí eu arrumei lavação de roupa, pra eu lavar, passar, tudo em casa porque, como não pagava energia, eu lavava, passava em casa e entregava aquelas roupas prontas. E, com a ajuda que a carroça que eu puxava também, já ajudava e dava pra eu manter as crianças.

 

P/2 – Essas roupas que a senhora lavava, era das pessoas que moravam aqui na comunidade mesmo?

 

R – Não, não. Das pessoas que moravam perto, aquelas pessoas que trabalhavam, que tinham família e não podiam, não tinham tempo pra fazer as coisas em casa. Então, quer dizer, que aí eu já lavava pra essas pessoas, já ajudava as pessoas e eles já me ajudavam também. E era assim.

 

P/2 – E, Dona Irene, depois que seu marido foi embora, a senhora nunca mais pensou em casar?

 

R – Não, filha. Não, porque, de qualquer maneira, eu já não tinha vontade de casar. E falando a verdade, quando ele foi embora, o maior amigo dele - quando ele não tinha nem chegado lá - já veio me perguntar se eu queria ficar com ele: “O que você acha?” Ali, parece que, daquele tempo, ali eu já tive raiva e pensei na falsidade, né? Graças a Deus, não fiquei com ninguém e, graças a Deus, estou de pé.(risos) 

 

P/2 – E, Dona Irene, mas quando ele arrumou outra mulher lá, a senhora ficou chateada, com ciúmes?

 

R – Não, eu fiquei satisfeita, fiquei satisfeita porque ele era um bom marido, tanto como esposo, como pai. Ele arrumou lá e eu fiquei tranquila, eu fiquei feliz. Porque, ele arrumando lá, ele já não ia voltar pra cá. E assim que ele veio, quando ele vem, às vezes, quando ele vai vir pra cá, ele vem na minha casa, ele vai na casa dos meus filhos. Nós não somos inimigos, somos amigos.

 

P/1 – O que a senhora sentiu, quando ele foi?

 

R – Ah, quando ele foi eu senti porque, de qualquer maneira, era o pai dos meus filhos e, como marido, era meu marido também. De qualquer maneira, eu ia sentir falta dele. Mas o meu prazer, era porque eu estava sabendo que eu evitaria o pior pra ele. Como eu falei no começo, eu pensei: “É melhor que meus filhos tenham um pai vivo longe, do que não ter.” Aí pronto, está pra lá, somos muito amigos, graças a Deus, todo mês eles se ligam, conversam. 

 

P/1 – Dona Irene, e quando foi que a senhora montou aquela vendinha lá, que a gente foi aquele dia?

 

R – Então, aquela vendinha ali faz muito tempo. Foi quase quando eu cheguei aqui. Eu a fiz, fiz um barraco, uma barraquinha e fiquei ali vendendo minhas coisinhas. Aí, quando foi com muito tempo, eu arrumei um dinheirinho, aí comprei aquele trailer, aí hoje estou naquele trailer ali, ele já está precisando de uma reforma, mas não tô podendo agora. (risos) Então, quer dizer, que foram dois anos que eles roubaram de mim, não é isso? Mas aí eu não ponho esse de 1940, eu já ponho de 1942, que nem eu cheguei aqui e falei pra vocês. Porque, de qualquer maneira, no documento não está.

 

P/1 – E, Dona Irene, a senhora sempre vendeu produtos de limpeza?

 

R – Sempre eu vendi. Sempre. Toda vida, sempre eu vendi. Antes, logo no comecinho que a gente chegou aqui, eu vendia bebida. Mas a bebida é uma coisa tão, assim, chata, que, às vezes, acontece alguma coisa, você nem pode falar nada, porque você é culpada. Porque, se eu vendia bebida, quer dizer, qualquer aborrecimento das pessoas que chegavam e bebiam, todas aquelas pessoas tinham responsabilidade, mas já outros bebiam e ficavam bêbados, já começavam a arrumar confusão. Mas a culpa não era minha, porque eu vendia? Então… aí, depois, eu comecei a ver certas coisas, tanto acontecia na minha barraca, quanto acontecia na dos outros, aí eu mudei. Faz dinheiro, dinheiro faz. É diferente do que eu faço agora, mas, pelo menos, eu tenho paz. A barraca, aí mudei, pra vender produto de limpeza. Ainda hoje tô com ele. Aí tem horas que eu penso em mudar e depois eu falo: “Não. Aqui mesmo está bom”. É melhor o pouco sempre, do que nada. E outra coisa, perturbação. Porque, quem vende bebida, tem horas que arruma cada confusão, cada confusão que, quando pensa, acorda, é tarde o que já fez.

 

P/1 – A senhora lembra de alguma história que aconteceu?

 

R – Não, no meu, não. Comigo não. Graças a Deus, nunca aconteceu. Às vezes, tinha um senhor que bebia fiado. Aí pagava por mês. Aquilo, por mim, eu sentia aquele mal comigo, porque ele era cheio de filho. E a mulher dele trabalhava também. Ele tinha dias que, no dia do pagamento dele, ele vinha, ele me pagava, sentava lá na mesa, bebia, bebia, até que ele caía, com o dinheiro no bolso. Umas duas vezes ele ainda fez isso, aí eu tinha que mandar chamar a mulher dele, se a mulher estivesse em casa, ela vinha, quando chegava, mandava tirar o dinheiro do bolso dele: “Se quiser levá-lo, você leva, pelo menos leva o dinheiro que é... né?” Pelo menos umas três vezes ainda fiz isso, aí, depois, eu fui desistindo. O que a gente não quer pra gente, a gente não quer pros outros. Eu fazia o meu dinheirinho, mas, de qualquer maneira, eu sentia que era pai de família que chegava, bebia, me pagava e depois chegava em casa, ia comprar o que pros filhos? Aí eu desisti. Tô no produto de limpeza, graças ao bom Deus. E assim tô vivendo, tem muitos anos que vendo.

 

P/1 – E a senhora, desde quando a senhora comprou aqui, até hoje, a senhora participou aqui da associação?

 

R – Sabe que eu nem lembro, acho que não. Sempre eu vim aqui, de vez em quando, às vezes, sim, às vezes, não, mas sempre a gente participava daqui, mesmo.

 

P/1 – E como era isso aqui?

 

R – Aqui era assim mesmo, era todo mundo humilde, o que podia ajudar, a gente ajudava; o que não podia ajudar, falava também. Toda a vida eles foram assim.

 

P/1 – E contaram que aqui tinha velório, aqui dentro. 

 

R – Era, era aqui, era primeiro, aqui era lugar de velório, mesmo. Todo mundo que morria, o povo trazia pra cá. Agora que… até pouco tempo atrás, trazia ainda.

 

P/1 – É?

 

R – É, mas como agora os velórios não vêm pra casa mais, quer dizer, lá do hospital, lá de onde morre, já leva. Mas aqui era isso, mesmo. Velório.

 

P/1 – E desses projetos que tinham, a senhora lembra de algum?

 

R – Não. Como assim?

 

P/1 – De ajuda, assim, que tinha. Tinha ajuda antes?

 

R – Por aqui era difícil, mas, mesmo assim, quando vinha, eles chegavam a doar pra todos, pras pessoas que moravam aqui.

 

P/2 – A senhora acha que agora está mais?

 

R – Agora está melhor. Agora está melhor do que atrás, porque antes, atrás, as coisas todas eram atrasadas. E era difícil. Hoje não, agora tem mais movimento. Tem o Ed Carlos, que é uma pessoa que tem cabeça e ele passou a botar as coisas pra funcionar. Tá indo.

 

P/1 – Quando a senhora chegou, não tinha tanta gente?

 

R – Não, não tinha nada disto, não tinha nem essa Casinha Amarela aqui, não tinha, era só barraco, só tábua.

 

P/1 – E quem que ajudava?

 

R – Qualquer, todo mundo tinha que se ajudar. Não tinha ajuda de nada. Cada pessoa tinha que se ajudar, a si.

 

P/1 – Se ajudavam?

 

R – Hum?

 

P/1 – Vocês se ajudavam?

 

R – Era a gente que tinha que se ajudar, procurar emprego, procurar o que fazia, pra trazer as coisas pra dentro de casa porque, como não tinha essa associação daqui, que está tenso agora, não tem. Agora está uma maravilha, né?

 

P/1 – O que a senhora, pensando, aprendeu de morar aqui, na Zaki Narchi?

 

R – Ah, o que eu aprendi é só isso mesmo, graças a Deus. Eu também não estudei, depois cheguei aqui, eu não estudei nada e aprendi só a convivência com o pessoal, as pessoas que estão aqui, as pessoas que chegam e minha vida é aquela mesma: “Tudo bem, tudo bem, pra mim, está tudo bem, pronto”. Se eu puder ajudar, eu ajudo e aí por diante. 

 

P/1 – Lá na vendinha da senhora tinha um monte de planta, né? Tem um monte de planta. A senhora gosta de planta?

 

R – Tem. Ave Maria, eu adoro planta. Eu pago água para aquelas plantas. Porque eu moro aqui no bloco um, então lá não tem água. Lá passa aquele negócio, aquela mangueira que passa ali por baixo, dali da barraquinha. Mas eu, toda vida, tive medo de fazer coisa errada. Mas se eu puxar a água dali, quer dizer que eu já não vou pagar aquela água dali. Aí, depois e se chegar a Sabesp, reclamar que eu tô usando, que eu tô roubando água? Eu não quero. Aí tem uma mangueira, pra não dizer que é mentira minha, por cima dos barracos. Do bloco um, vai por cima dos barracos, até chegar lá na minha barraca, pra aguar aquelas plantas. Aí, ali, eu pago água, para aguá-las. Mas eu não sei de hoje por diante, também não vou dizer pra você que eu sou a pessoa que não faço coisa errada, que não gosto disso, nem gosto daquilo. Mas enquanto eu puder fazer a minha obrigação, que eu não decepciono, eu faço.

 

P/1 – E como foi se tornar avó?

 

R – Ah, me tornar avó foi a coisa mais linda do mundo que eu achei. Porque, de qualquer maneira, eu voltei a ter nenê de novo. (risos) É a vida.

 

P/2 – Quantos netos a senhora tem?

 

R – Olha, parece que, na realidade, eu tenho oito. Acho que eu tenho oito. Se quiser contar, você conta lá, eu tenho Melissa, Érica, Liza, Jonatan, David, Mateus. É oito mesmo, né? Ou sete?

 

P/2 – Seis.

 

R – Jonatan. Ah, são oito. É Jonatan, David, Mateus, Felipe, Tamires, cinco. Cinco. Érica, Melissa…

 

P/1 – E Liza.

 

R – E Liza. São oito. Falei.

 

P/2 – Algum deles faz alguma atividade aqui na Casinha Amarela?

 

R – Não. Não. Só tem o Felipe, que acho que ele faz parte daqui, que ele joga bola. E eu acho que ele faz parte daqui. Ele joga bola aí na quadra. Mas ele tem, parece que tem de oito a nove anos. 

 

P/1 – E eles ficam aqui, com a senhora? A senhora cuida deles?

 

R – Não, não. Porque cada um fica mais com seus pais. Eu tenho a Melissa, que é essa que mora com minha filha, que mudou agora. Tem a Érica, que mora aqui também, com os pais, que mora na vilinha e tem a Liza, que mora com a mãe dela e cada um mora com sua mãe, sua família.

 

P/1 – E como é que é a relação com elas?

 

R – A relação com eles é aquele amor de avó, mesmo, amor de neto. Quando junta todo mundo, quando é o dia que é pra eles irem lá em casa, já gritam logo: “A senhora não sai de casa, porque nós estamos indo pra aí agora!” E assim nós vamos levando a vida adiante, graças a Deus. Nunca tive desavença com minhas noras, nem com meus genros. E a gente vive assim. 

 

P/1 – Dona Irene, queria perguntar se a senhora já sentiu algum olhar, alguma palavra, assim, difícil, de alguém que não mora aqui na comunidade, por você morar aqui.

 

R – Assim, reclamar porque achar que é difícil ou achar…

 

P/1 – Não, de ter preconceito. 

 

P/2 –  A senhora já sentiu - em algum lugar que a senhora já foi, quando a senhora falou que mora aqui, na favela, na Zaki Narchi - que alguém olhou pra senhora estranho, tratou a senhora mal?

 

R – Olha, pra falar a verdade, pra falar mal, a gente não fala, mas a gente ainda fala no que não quer falar. Mas, na verdade, até aqui, quando a gente morava aqui nos barracos, até pra emprego a gente não arrumava. Você ia pra arrumar um serviço, ali eles podiam fazer a ficha todinha, mas quando chegava no endereço, aí eles falavam: “Ah, espera aí, só vou ver ali dentro se ainda tem vaga, se não tem vaga, se tem vaga”. Ia lá, quando voltava, não tinha vaga mais. Não era preconceito? Porque não queria.

 

P/1 – E como que a senhora se sentia?

 

R – Ah, me sentia humilhada, porque a gente já sabia que era só por causa da moradia. Porque, quando era favela aqui, era feio, era feia a coisa aqui. Se dissesse que morava aqui, vixe, era horrível. Mas, graças a Deus, nós vencemos. Estamos aqui ainda.

 

P/1 – Nesse processo para mudar dos barracos pros apartamentos, a senhora lembra da associação? Não tinha ainda, a Casinha, mas você lembra dos moradores se organizando para lutar pelos apartamentos?

 

R – Era, porque, quando a gente foi tirado daqui, que foi pro morro, foi lá pro alojamento, a gente já sabia que a gente ia mudar de moradia. Então, aí a gente já começou a guardar o dinheirinho, pra comprar outras coisas, pra trazer pra casa, pra poder enfeitar mais a casa, quando a gente entrasse. Só que a situação era precária, mas a gente fazia o que podia.

 

P/1 – Dona Irene, como é que é o seu dia a dia hoje?

 

R – Meu dia a dia, hoje, é assim: eu fico em casa, cuido das minhas coisas em casa. Tem o meu filho que mora comigo. Cuido das minhas coisas em casa, quando eu termino, eu desço pra barraca. Lá na barraca, fico lá, o que eu fiz, fiz; o que eu não fiz, chegou a hora, eu venho pra casa e espero o próximo dia de novo, o que eu posso fazer, o que eu posso arrumar. E assim a gente vive.

 

P/1 – Todo dia a senhora vai lá na barraca?

 

R – É, todo dia. Às vezes, nem é todo dia, porque tem dia que as minhas pernas doem muito, principalmente no tempo da friagem, ela dói muito com a friagem, dói muito, aí eu não saio de casa.

 

P/1 – E o que a senhora gosta de fazer, no momento que a senhora não está na vendinha?

 

R – Ah, eu assisto a televisão, assisto aquela novela, qualquer coisa assim, que hoje em dia é só o que a gente tem pra ver, se divertir, é isso. (risos)

 

P/1 – Que programa que a senhora gosta de assistir?

 

R – Ah, eu gosto de assistir novelas. É o que mais a gente se entretém. Quando dá tempo também, quando não dá… (risos)

 

P/1 – E a senhora dorme cedo?

 

R – Durmo depois de dez horas. Depois das dez eu durmo, porque se eu deito cedo, aí eu acordo cedo. Mas cedo eu tô levantada, tô de pé, seis horas eu me levanto. Aí vou lá, faço café, faço isso, faço aquilo, aí volto, deito de novo, espero o dia amanhecer, acabar de amanhecer, para começar a luta.

 

P/1 – E a senhora tem algum sonho?

 

R – Não, não tenho mais sonho, não. Graças a Deus, eu tenho paz na minha vida, com meus filhos, porque a paz da mãe são os filhos. Graças a Deus, até hoje, porque no dia de amanhã a gente não sabe o que pode acontecer. Mas, na minha idade, eu já tô satisfeita com a vida que eu tô levando, que Deus me deu até agora. O que eu quero mais, depois dessa idade? (risos)

 

P/1 – E a senhora gosta de morar aqui?

 

R – Olha, gostar, eu gosto de morar aqui, só que tem tempo, assim, no fim de semana, que a gente não tem sossego, porque tem muita zoeira, tem muito pagode, pra todo canto tem som alto. Mas eu prefiro morar aqui, do que ir para outro lugar que eu não conheço.

 

P/1 – A senhora gosta de ficar aqui, né?

 

R – É, eu gosto de ficar aqui. Paz a gente não tem, mas eu prefiro ficar aqui, do que ir pra outro lugar que a gente não conhece. Eu penso assim. Já meus filhos, não. Meus filhos já vão pra aqui, já vão pra ali, já vão pra acolá, tem um que mora na vilinha, tem outro que mora lá perto do mercado chinês. Mas eu moro aqui ainda, moro eu e minha... tem outra filha que mora aqui também. Mas é tudo pertinho.

 

P/1 – O Cícero não mora com você?

 

R – O Cícero mora comigo, porque ele é separado da mulher.

 

P/1 – E se a senhora fosse pensar, como foi a pandemia, pra senhora?

 

R – Olha, a pandemia, pra mim, eu acho que ela não foi essa coisa toda, porque eu já sou uma pessoa que já vivo direto em casa. Porque a pandemia é assim: as pessoas saíam e não podia sair, né? Então, pra mim, como eu já vivia em casa e já vivia em casa direto, porque é de casa para barraca, da barraca pra casa, pra mim, não foi muito ruim, assim, porque eu só fiquei mais parada em casa. Mais ou menos, eu fiquei um mês parada, a barraca fechada e eu em casa. Mas isso aí, pra mim, já era uma coisa comum, porque eu só vivo da barraca pra casa mesmo, não tem essa história de sair, ir em festa e aquilo, passeio pra cá… só quando tem necessidade.

 

P/1 – Seus filhos vinham visitar a senhora?

 

R – Vinham direto, direto. O telefone é de hora marcada. Chegou aquela hora, você pode segurar o telefone, daqui a pouco toca. (risos) Graças a Deus, estamos indo aí.

 

P/1 – E pras outras pessoas, a senhora percebe que houve uma mudança da pandemia? Teve muita gente que…

 

R – É que essa pandemia, teve muita gente que as pessoas nem respeitam, não.

 

P/2 – Mas a senhora perdeu amigos, que moram aqui na comunidade?

 

R – Dessa pandemia, não. Graças a Deus, não. Até agora, não. Mas morreu muita gente por aqui.

 

P/2 – Mas ninguém próximo da senhora?

 

R – Não, graças a Deus, não.

 

P/1 – Dona Irene, queria perguntar o que morar aqui representa, assim, pra senhora?

 

R – Eu acho que o que me representa não é nada, eu acho que o que me representa é só isso, que eu não tenho mais o que correr atrás. Na  minha idade, eu já tô na idade que tô. Então, eu vou correr atrás de quê? Se eu tenho paz na minha casa, eu tenho a minha casa pra morar e, graças a Deus, eu não tenho mais nada pra eu correr atrás, mais. Minha vida já está até aqui, então, graças a Deus, agradeço a Deus, até o dia de hoje ainda eu viver andando assim, não sei até quando. Porque eu tenho medo de operar de novo o meu joelho, não sei o que é que eu vou fazer, mas Deus sabe.

 

P/1 – E a gente está chegando no fim, já. 

 

R – Tá bom.

 

P/1 – Faltam só duas perguntas.

 

R – Que bom, porque a menina já está chegando lá em casa. (risos) 

 

P/1 – Eu queria te perguntar se você quer contar alguma coisa que a senhora lembrou e eu não perguntei.

 

R – Não. Por enquanto, não tô lembrando de nada. Então, mas eu só tô te falando que você está me perguntando, eu lembro e falo, porque se fosse pra eu lembrar pela minha cabeça, (risos) lembrava de nada. Que nem eu te falei, não foi: “Gente, eu não lembro de nada”. Você falou: “Não se preocupe, que a gente vai fazer as perguntas”. Não foi o que você falou?

 

P/1 – Sim.

 

R – Graças a Deus, não tenho nada. Só isso mesmo que eu tô falando.

 

P/1 – E como foi, pra senhora, contar sua história, hoje?

 

R – Pra mim foi bom, eu mesma gostei de ter vindo, porque eu não faço nada, nem nada, nem nada, quer dizer que participar de uma palestra assim, eu mesma gostei. Agradeço a vocês.

 

P/1 e P/2 – A gente agradece. (risos)

 

R – Pois é.

 

P/1 – Muito obrigada, Dona Irene.

 

R – Nada.

 

P/1 – Foi muito legal. A senhora falou que não lembrava de nada e lembrou de um monte de história.

 

R – É, mas eu lembrei porque vocês me perguntaram, porque se fosse pra eu lembrar da minha cabeça…

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