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História

"É a síntese de Minas Gerais"

História de: Roberto Vieira de Carvalho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/11/2004

Sinopse

Em seu depoimento, Roberto Vieira de Carvalho conta sobre a mudança do interior para a capital com o intuito de estudar e como acabou se envolvendo na luta sindical, falando principalmente das Diretas Já. Comenta também sobre a repressão e os cortes na cultura durante a Ditadura Militar. Fala sobre o Clube da Esquina como símbolo das lutas populares e o que o movimento significa para Minas Gerais. Conta um pouco do bar do seu Valter como um dos muitos lugares de encontro do movimento e sobre ser o autor da Lei Pró-Cachaça.

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História completa

P/1 – Roberto, boa tarde. Queria começar a entrevista, perguntando o seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – Roberto Carvalho, Vieira de Carvalho. Sou nascido em Ubá, em 22 de junho de 1953.

 

P/1 – Você passa... Você mora em Ubá muito tempo? Como é que você vem para Belo Horizonte?

 

R – Não, eu fiquei em Ubá até 18 anos. Cheguei aqui em 1971. Aí estamos aqui até hoje.

 

P/1 – E você veio para cá para estudar?

 

R – É. Aquela trajetória forçosa. Como não tinha perspectiva lá, eu vim para estudar. Estudar e trabalhar porque também não tinha.

 

P/1 – E aí, o que você foi fazendo?

 

R – Aqui eu mexi muito em comunidade de base de igreja e depois a gente começou a mexer em movimento popular. Daí, também ajudei a fundar o PT. Comecei a participar da luta sindical. Sou funcionário da UDN, então militava muito no movimento sindical dos servidores públicos. Ajudei a fundar a CUT e, posteriormente, acabei sendo candidato a vereador. Fui vereador aqui em Belo Horizonte durante três mandatos e estou como deputado estadual.

 

P/1 – Como é que você veio a conhecer o Clube da Esquina? Foi através das pessoas ou foi através da música?

 

R – Primeiro, pela música mesmo. O Clube da Esquina, eu até comparo com Liverpool, com os Beatles. Lá em casa tenho um filho de 21 anos, ele é apaixonado com os Beatles e com o Clube da Esquina. Tem todos os discos. E eu acho que é um movimento, assim, que ultrapassa todas as nossas fronteiras. Então foi através da música. Posteriormente, eu conheci o Marilton, em função do movimento sindical. Quando o Newton Cardoso assumiu, infelizmente, o governo do Estado, ele demitiu todo o pessoal que estava numa fase fantástica da Rádio Inconfidência. Fernando Brant era diretor da Rádio Inconfidência. Então ele (Newton), demitiu todo mundo que pensava ali. O Marilton também participava e ele era da diretoria do sindicato. O sindicato inteiro foi demitido... Eu era presidente da Coordenação Sindical. Lá eu travei uma amizade com o Marilton em função dessa luta. Mas, assim, a relação é realmente com a música do movimento do Clube da Esquina.

 

P/1 – Eu vou te perguntar um pouquinho, assim, se você lembra do impacto dos primeiros LP’s. Você se lembra disso? Assim, primeiros LP’s, o próprio LP duplo lá, o Clube da Esquina? Ah, que bom. Então a gente fala disso um pouquinho. Então, quais são os primeiros vinis aí do Clube da Esquina que chegaram nas suas mãos?

 

R – Aquele álbum duplo, que é fantástico e a gente foi acompanhando, né? A trajetória, né? Mas eu acho que, assim, a força da música e da música é perfeita quando a letra casa com a música e diz uma mensagem. Eu acho que, assim, o Clube da Esquina é a síntese em Minas Gerais do poder de criação nosso. Então a gente, aí já estava aqui, acompanhamos todo esse processo, essa trajetória, né? 

 

P/1 – Tem alguma música, assim, que te marca mais aí dentro da sua história pessoal?

 

R – Tem muitas músicas daquela, tanta do primeiro quanto dos outros, né? E até, assim, tanto as letras quanto as músicas. Acho que Toninho Horta e tantos outros que compõe o Clube da Esquina são... Mas eu acho que assim, aquela: “Nada será como antes e nada foi.” São muitas músicas que fazem parte da vida da gente. Eu lembro que uma vez: nós fizemos na Assembleia Legislativa, eu estava como deputado uma homenagem a dona Helena Greco e eu que fui o autor da homenagem, em função daquelas lutas todas ali das Diretas, da anistia, da redemocratização do país. Então, acho que foi um símbolo muito forte dessas lutas e a homenagem toda, nós fizemos com as músicas do Clube da Esquina.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Ao invés do discurso, eu coloquei as músicas que simbolizavam. Eu acho que toda aquela angústia e ao mesmo tempo a esperança de todos nós, do povo brasileiro.

 

P/1 – Ah, que original. Como é que era isso? Você falava: “Agora vou tocar a tua música”?

       

R – Isso, é. Ao invés... Que discurso, principalmente discurso de política, normalmente é muito cheio de clichês. Então ao invés do discurso, eu fui colocando as músicas e colocando, assim. Foi mais ou menos isso, né?

 

P/1 – Que legal! Você lembra algumas músicas que você tinha lá selecionado?

 

R – Foi dentro da sequência nossa.

 

P/1 – E só para quem vai ler a entrevista, que não sabe, quem foi a dona Helena Greco?

 

R – Dona Helena Greco é uma das fundadoras nossas do PT. Foi vereadora, a primeira vereadora em Belo Horizonte, do Partido dos Trabalhadores e ela, assim, foi presidente do Comitê Mineiro da Anistia, uma das representantes nacionais da Anistia e foi tanto pelas direitos humanos, quanto de lutar pelo Brasil. Eu acho que... E o clube da Esquina vem daquela época, daquele massacre que nós tínhamos com a Ditadura, que as gerações mais novas hoje não tem uma dimensão do que nós sofremos naquele período. O fato de você não poder reunir, não poder expressar, quantas músicas censuradas e toda... Não só músicas. Então, assim, dona Helena foi aquela figura com muita garra, muita firmeza e muita serenidade. Num momento tão cruel que a gente viveu, do país, né?

 

P/1 – Roberto, esse ano está fazendo 20 anos da campanha das Diretas e o pessoal do Clube esteve muito presente nessa campanha, né?

 

R – Teve, assim, todos aqueles momentos das Diretas, que eu acho que é aquela efervescência. O Brasil começava a romper com aquele cerco daquele período de trevas que a gente viveu de repressão brutal, a inteligência, a expressão e realmente todo mundo, o Márcio, o Lô Borges, todo mundo do Clube da Esquina, o Milton,  todo mundo participou ali e a gente... E eu participei de todo os momentos daquela luta das Diretas, não só das Diretas e depois esses momentos da vida brasileira, né?

 

P/1 – Pois é. Nas Diretas especialmente teve algum momento marcante? Você tem alguma história aí que você lembra da campanha das Diretas, independente do Clube?

 

R – Você sabe que a coisa. Quando nós fizemos em Belo Horizonte o comício das Diretas, que foi aquela avalanche no Brasil inteiro, é impressionante quando você vê porque, na realidade, os militares na época e parte até das forças que lutavam contra o regime não acreditavam que a mobilização popular pudesse fazer com que nós apressássemos o fim do regime. Então eu lembro que, assim, naquele comício em Belo Horizonte, o grande comício que nós fizemos ali, em frente à rodoviária, na Praça da Rodoviária, o que você via da avalanche do povo e essa esperança que não pode morrer nunca. Assim, eu acho que mudar o país, eu acho que todo pessoal nosso que formou o Clube da Esquina que é algo vivo, né? Clube da Esquina não é algo que passou. Por isso eu acho que essa ideia sua é fantástica do museu. É o museu vivo. Na história é aquilo que... Aquilo que nós imaginávamos e as músicas retratavam do pessoal do Clube da Esquina. Nós ainda vamos fazer e vamos demorar muito ainda no Brasil para a gente concretizar aqueles sonhos, né? Mas, assim, esses sonhos não morrem. Então, o momento para mim era a avalanche das pessoas em direção... Eu lembro que na época parte da imprensa não divulgava para poder não crescer o movimento, mas aquela avalanche humana em direção ao comício, para mim é uma das coisas mais emocionantes que eu vi ali. 

 

P/1 – Roberto, contar a história do Clube da Esquina é contar um pouco também da história de Belo Horizonte, né? Então queria que já que estamos tendo o prazer aí de receber você aqui no estúdio, você pudesse contar uma história sua, pessoal, passada em algum canto da cidade.

 

R – São muitas, né? Realmente, assim, você falou Zé, Belo Horizonte é uma cidade singular. O nosso prefeito Fernando, ele gosta de falar que é uma cidade inventada. Santa Tereza é um bairro peculiar. Eu frequento muito Santa Tereza mesmo não morando lá. É um bairro que eu frequento assiduamente. No boteco do Seu Valter, onde alguns até vão, já encontrei com o Marilton lá e outros que frequentam o bar do seu Valter. Então, assim, e eu acho que a gente... O que foi feito e o que está sendo feito do Clube da Esquina, mais do que as histórias, a história que eu gostaria de falar é, mais assim, desse convívio ali. Santa Tereza é a síntese da... Não só da cultura, mas do encontro. Quem vai lá, o lugar que nós frequentamos, o bar do seu Valter, é chamado lá de a Clínica Santa Genoveva. Não sei se você conhece o bar do seu Valter. Um dos melhores bares. O seu Valter já aposentou. Ele é aposentado com mais de 40 anos... Têm mais de 50 anos de bar e todo dia está lá. Ele abre o bar às 10 horas da manhã e fica até às 23 horas da noite, pelo prazer de encontrar as pessoas. Eu acho que aqui em Belo Horizonte a gente vive esse prazer do encontro das pessoas. Muitas pessoas que vem de fora para cá, elas encontram esse ambiente de hospitalidade. Então, eu gostaria mais de falar do bar do seu Valter, que é a nossa Clínica Santa Genoveva, que todos deveriam ir lá. Assim como o Clube da Esquina, é essa síntese cultural e internacional de uma música de uma qualidade reconhecida no mundo inteiro está aí, todos os músicos do Clube da Esquina têm hoje um respeito internacional e vão ter muito mais. O bar do seu Valter é o lugar do encontro daqueles que gostam da boa convivência, né?

 

P/1 - E como que é lá? Descreve como que é o bar do seu Valter.

 

R – O bar do seu Valter é aquele bar o mais simples que existe, o melhor tira gosto que existe, que ele mesmo faz. Ele não tem funcionário. Ele mesmo que faz o tira gosto. 

 

P/1 – Ah, ele não tem funcionário?

 

R – Não, é ele. E o filho dele no fim de semana. Nós até fizemos lá... Eu fui autor de uma homenagem ao seu Valter, dando título de cidadão honorário a ele e fechamos a rua e fizemos a homenagem lá na rua em Santa Tereza.

 

P/1 – Ah, foi lá? 

 

R – Na rua. A primeira vez que a Câmara se deslocou para dar o título na rua. Então, lá é o seguinte: é pequenininho, é pé de porco, rabada, aqueles mais legítimos tira gostos que nós temos e o tempero dele é inigualável. (risos) Você pode ir lá que você vai ver que coisa extraordinária.

 

P/1 – Você não falou onde é. 

 

R – É ali antes de chegar na praça, na rua, aquela rua principal ali, que dá na praça ali, Santa Tereza. Eu não sei o número, mas todo mundo vai encontrar, viu? Todo mundo do museu e do Clube vão chegar lá.

 

P/1 – Ah, vamos lá. Eles já devem conhecer, eu que não conheço.

 

R – Você que não conhece, mas nós vamos te levar lá.

 

P/1 – Roberto, assim, chegando ao fim da entrevista, queria saber se você tinha ainda alguma coisa que você gostaria de destacar?

 

R – Eu só gostaria... Talvez seja chover no molhado, mas eu acho que nós precisamos... O Brasil por muito tempo, ele negou os seus próprios valores, que as nossas elites sempre viveram de frente para a Europa e para o chamado Primeiro Mundo, negando os autênticos valores, sejam culturais e todos os outros. Eu fui autor da Lei Pró-Cachaça. Fui eu que fiz a lei. E na época eu falava o seguinte: quer dizer, a cachaça é uma bebida popular, que nasceu a partir dos escravos. A cachaça, o samba e a feijoada são coisas genuinamente nossas. Então, assim, nós temos que valorizar a nossa cultura e o brasileiro nem sempre valoriza e nós, belo-horizontinos, temos que valorizar o que é nosso e divulgar, não só valorizar quanto divulgar. Por isso que eu acho que a oportunidade da criação do museu com essa ideia sua e de toda equipe, que é um museu vivo, eu acho fantástico. Eu acho que nós em Belo Horizonte produzimos uma música de qualidade fantástica. Hoje nós temos artistas espetaculares aqui, que tem condições de serem reconhecidos pelo mundo e eu tenho certeza que a idéia do museu é isso, não só resgatar parte da nossa história, quanto a partir daí divulgar o que nós temos de bom. Então eu acho que esse é o caminho. Nós temos que... Um país que não valoriza a si próprio e não conhece e não preserva a sua memória, ele não tem futuro e não tem perspectiva. Eu acho que iniciativas como esta, que mostra que o Brasil tem jeito e que nós vamos fazer desse país um país extraordinário como ele é e precisa ser na realidade.

 

P/1 – Então está ótimo. Te agradeço aí a entrevista.

 

R – Eu que agradeço a vocês aí.

 

Fim do depoimento.

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