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História

dúvida, prisão e alter ego

História de: Charlie de Zéfiro Ferraz
Autor: Charlie de Zéfiro Ferraz
Publicado em: 27/04/2022

Sinopse

uma dúvida eventualmente se torna uma prisão, a prisão te faz abandonar a si mesme, e abandonar a si mesme é o mesmo que morrer.

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História completa

Talvez todo mundo que veja uma pessoa trans pela ótica externa deve pensar que foi um processo longo e demorado pra ela se entender com um gênero diferente do seu sexo biológico, que devem ter sido anos em uma luta psicológica e que no fim de tudo o seu “lado trans da força” se sobressaiu sobre o seu “eu” anterior. Na real, não é nada disso. Eu sou Charlie de Zéfiro Ferraz, tenho 18 anos e sou uma pessoa agênero/gênero-fluido. Por mais estranho que seja, pessoas não-binárias (ou seja, aquelas que não se identificam com nenhum ou ambos os gêneros) estão sim no escopo de pessoas trans, afinal de contas não se identificam mais com seu sexo biológico. Quando finalmente entendi isso, minha vida mudou drasticamente. Me lembro do fim do ano de 2020, eu estava em uma ligação com um grupo de amigos que o baterista da minha banda havia me apresentado e lá conheci duas pessoas que se identificavam como trans, o que de certa forma era totalmente inédito pra mim. Eu me diverti tanto com as conversas que surgiam que passei a ficar cada vez mais próxime desse grupo, e passei também a compreender os desafios e os problemas que aquelas duas pessoas passavam. Ver que mesmo com todo o discurso de compreensão que a sociedade prega, um homem ser humilhado por simplesmente não ter nascido um e uma pessoa não-binária não ter nem seu nome social respeitado me deixava de certa forma revoltade. O tempo passou e meu cabelo, que já era grande, cresceu cada vez mais. Não sei se foi devido a isso ou se por todo o convívio que tive com aquelas pessoas, me olhei uma noite no espelho e não vi o homem que costuma ver todas as vezes que olhava meu reflexo. Eu via uma pessoa diferente da que eu achava que era, basicamente não me reconheci como um homem naquele dia. Essa dúvida persistiu por dias na minha cabeça “quem era aquela pessoa? Era eu mesmo, mas, ao mesmo tempo, não era”. Um detalhe importante é de que naquela época eu tinha acabado de ser diagnosticade com complexo depressivo e ansiedade. Toda essa dúvida só agravava todos esses fatores, ao ponto que nunca cheguei a contar pro meu psicólogo esse dilema que existia, pois, meus pais gritavam e dizia que os culpava pelos meus problemas. E essa dúvida acabou sendo soterrada por um longo período. Um dia a noite, ume amigue minhe chamou uma pessoa nova pra conversar e jogar com o nosso grupo, o nome dela era Isabella. Não sei por qual motivo ou circunstância me dei muito bem com ela naquela noite, não perdi tempo e a chamei pra sair no dia seguinte, não demorou muito pra começarmos a namorar. Isabella era melhor amiga de uma das pessoas trans que havia conhecido meses antes, o que a fazia quase uma expert no assunto: sabia como lidar com todos os problemas de sue amigue e, por mais que ela também tivesse as próprias questões, tentava me ajudar o máximo com minha depressão e ansiedade. Após alguns meses ao seu lado, resolvi contar a ela sobre minha dúvida em relação a mim mesme. Ela me explicou que tudo isso que sentia era algo chamado de “disforia de gênero”, quando seu subconsciente começa a duvidar e questionar se ele realmente se identifica com aquilo que é, ou se ele apenas está seguindo aquilo que considera correto. Cada vez mais fui tendo isso em minha mente, sempre pensando no meu reflexo “se eu não sou isso, o que eu sou?” e percebendo pequenos detalhes no meu dia a dia e até em mim mesme que não reparava antes, hábitos que os outros garotos não tinham e maneiras que as garotas não tinham, eu não me sentia confortável pertencendo exclusivamente a um “grupo” só. Eu queria ser os dois e, ao mesmo tempo, nenhum. Uma madrugada onde minha disforia estava no ápice, onde minha ansiedade por não pertencer a nenhum dos gêneros estava no limite, me lembrei de uma memória apagada da infância: o personagem “Charlie Brown” era um menino ou uma menina? “Charlie” é um nome de menino ou de menina? Quando esse pensamento inundou minha memória, finalmente entendi o que meus amigos passavam, finalmente entendi que eu não precisava me encaixar em nenhum dos dois gêneros, finalmente compreendi quem é Charlie. O problema foi que ao assumir a identidade de Charlie, eu tentei sumir com quem eu era antes de Charlie, e infelizmente eu demorei muito tempo pra entender isso. Eu queria ser o mais diferente possível do que era antes, me afastando de pessoas próximas e fazendo coisas de que me arrependo muito hoje. Foi devido a isso que meu relacionamento com Isabella começou a ficar frio e tóxico. Devido toda essa necessidade de sumir e mudar, nós traímos um ao outro uma porção de vezes, retornei com hábitos ruins, como fumar e beber e parei de tomar meus medicamentos pra depressão e ansiedade. Não demorou muito para terminarmos e ainda por cima de uma maneira péssima, ficamos sem nos falarmos durante um longo tempo. Algum momento depois de tudo isso, em meu estado deplorável de solidão, estava montando uma playlist de mpb para uma amiga, quando uma música do Seu Jorge toca. Senti que “Take easy my brither Charlie” dizia tudo o que eu queria entender, e me fez entender que eu não precisava deixar de ser quem eu era pra ser uma pessoa não-binária. Eu só precisava levar tudo no tempo certo e entender e conciliar aos poucos as mudanças que eu queria fazer em mim mesme e tudo o que eu deveria manter do “antigo eu”. Eu mantenho isso até hoje, porque independentemente de quem eu fui, sou e serei, ainda sou eu, e isso nunca vai mudar. Eu sou sim uma pessoa não-binária, eu sou sim uma pessoa trans e eu sou sim eu mesme em toda a minha essência, não importa o que aconteça. Obrigade por acompanhar até aqui, espero que esse pequeno e confuso relato ajude a pessoas que tiveram ou tem a mesma dúvida ou passam pela mesma coisa que eu passei a se entenderem e, acima de tudo, serem elas mesmas.
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