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História

Duas amigas e uma promessa

História de: Ana Maria da Conceição
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/04/2020

Sinopse

Em sua juventude, Ana Maria foi para São Paulo para seguir o seu sonho de morar em uma cidade grande. Chegando lá, hospedou-se em uma pensão, onde conheceu uma amiga que suplicou que ela fizesse uma promessa: “Se acontecer alguma coisa comigo, você fica com a minha filha?”, pedido que Ana Maria não conseguiu recusar. Entre diversas casas de família onde trabalhava e os programas de auditório, que gostava de ir para se divertir, Ana Maria conta sua história e como conseguiu sustentar sua família.

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História completa

Eu conheci uma menina em uma pensão e ela morava com duas amigas. Quando eu mudei, ela ficou muito triste, porque ela não se dava bem com as amigas. Aí eu disse assim: “Vamos comigo”. Ela estava grávida também, as duas grávidas. Todos os dias ela chegava e trazia pão para a gente tomar café. Aí, um dia, ela chegou para mim e falou: “Se acontecer alguma coisa comigo, você fica com a minha filha?”. Eu disse: “Para com isso, vai”. Ela disse: “Fala a verdade”, aí eu disse: “Fico, mas para de falar besteira, né?”. Depois nos mudamos, não tive coragem de deixá-la lá e levei-a junto comigo. Estava eu, ela, as duas crianças e o pai do meu filho. Aí ela mudou, acho que apareceu alguém na vida dela, ela foi morar com alguém. E eu fiquei sozinha com meu filho e com marido.

Então, depois de um tempo, a mãe da menina chegou a falecer e eu fiquei com a menina. Leucemia.
Era engraçado, quando eu ia ao posto, o pessoal perguntava a idade, porque via os dois do mesmo tamanho, praticamente, e diziam assim: “São gêmeos?”. Quando chegava ao posto o pessoal dizia assim: “Ô, mãe, tem alguma coisa errada aqui”. Aí eu dizia assim: “O que aconteceu?”. “Por que os dois tem a mesma idade?”. Aí é que eu explicava: “Não, eu adotei. A mãe dela tal...”. Eu contava tudo que tinha acontecido. Mas eu adotei no papel tudo bonitinho, fiz tudo direitinho.

Para mim, quando eu falo meus filhos, é porque são meus filhos. Quando eu digo assim: “Depois que meus filhos nasceram”, é porque foi como se eu estivesse de resguardo dos dois, já que os dois chegaram tão pequenininhos. 

O patrão da minha mãe falou: “Não faça isso. Imagina, você vai pegar essa menina? Você nem tem onde ficar, como vai pegar essa criança?”. Eu disse: “Não, onde eu ficar, ela fica”. Aí a patroa da minha mãe, que era cunhada dele, disse assim: “Pode buscar”. Como eu morava dentro do quintal dela, pedi permissão para ela, pedi permissão para o cunhado dela, que eu trabalhava na casa dele. Aí ele deu permissão para eu ir buscar. Quando foi depois, o patrão da minha mãe aceitou, porque viu que não tinha jeito, né? Para mim, foi muito gratificante.

Eu era muito severa com ela, eu acho que o que a minha mãe me ensinou, eu queria fazer a mesma coisa, “Não pode, não pode, não pode”, aí depois voltava “Não pode, não pode, não pode”, entendeu? 

Hoje ela tem uma filha e quando ela diz assim: “Minha filha está assim...”, eu digo: “Paciência”, hoje eu falo para ela ter paciência. Eu só espero que ela entenda que estou falando “Paciência”, porque era o que a minha mãe não falava para mim. Então, será que se a minha mãe falasse para eu ter paciência eu ia ter? 

Um momento muito especial do meu passado foi quando a minha filha, eu fui busca-la, eu sempre falava para ela me chamar de madrinha... Aí ela nunca me chamou. E quando ela chegou, eu não pedi, mas ela começou a me chamar de mãe no dia que ela chegou. Porque, assim, ela viu o meu filho me chamando de mãe, ela era pequena, então pensou: “Não vou mais chama-la de Nana”, ela me chamava de Nana, começou a me chamar de mãe.
A minha mãe nunca colocou a minha cabeça no colo dela... Eu não lembro da minha mãe chegar e falar: “Põe a cabeça aqui na minha perna”, fazer um afago na minha cabeça, minha mãe nunca foi de fazer isso. A minha mãe mexia no meu cabelo quando ela ia fazer minhas tranças, sabe? Então na perna da minha mãe, eu nunca sentei. Nunca tive isso da minha mãe. Então acho que criei meus filhos do meu jeito: “Estou indo trabalhar, não está faltando comida, não está faltando roupa”. Eu acho que foi por isso que eu criei distância deles, aí depois cresceram e todo mundo saiu de casa... Acredito que eles devem sentir a mesma coisa. Mas eu não comprava uma roupa para um se não comprasse para o outro. Eu não comprava um tênis para um se não comprasse para o outro. Não conseguia, “Não, não vou comprar, só compro se der para comprar para os dois”.

Então, se eu não fui a mãe perfeita para ela, não sei. Mas tem esses pedacinhos, assim, que me deixaram muito orgulhosa dela. E, hoje, ela é uma mãe maravilhosa. 

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