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História

Drag queen e pedreiro

História de: Igor William (Safira O'Hara)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/07/2021

Sinopse

Infância no Morro da Pedreira e interesse por História. Paixão por livros e convivência na biblioteca da escola. Descoberta da sexualidade e bullying na adolescência. Colégio com alunos revolucionários. Consciência política e racial. Conflitos com a família por causa de sexualidade e religião. Canto, teatro, história africana e candomblé. O nascimento de Safira O'hara, a jóia rara. Visibilidade como Drag queen e pedreiro. A relação com o carnaval e construção de figurinos. Estudando dublagem durante a pandemia.

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História completa

P1 – Bom dia, Igor, tudo bem?

R – Bom dia.

P1 – Então, vamos começar com a sua entrevista, primeiramente, pelo seu nome completo, local e data de nascimento.

R – Meu nome é Igor William. Sou do Rio de Janeiro (RJ) e tenho 32 anos. Nasci no dia 21 de setembro de 1989.

P1 – Qual o nome dos seus pais?

R – O nome do meu pai é Alfredo Antônio da Silva Lopes e da minha mãe, Denise Maria de Santana.

P1 – Qual é a ocupação de seus pais, Igor?

R – Meu pai é vidraceiro e minha mãe é dona do lar.

P1 – Você tem irmãos?

R – Tenho. Oito irmãos.

P1 – E onde você está, nessa escadinha?

R – Hum... Eu sou... Minha irmã faleceu, né, a mais velha faleceu e eu sou o mais velho, agora, de todos, né? O primeiro mais velho dos homens e o mais velho de todos.

P1 – A sua família é do Rio também, Igor, ou eles vieram de algum outro local para morar no Rio de Janeiro?

R – Sim, são todos do Rio de Janeiro.

P1 – Certo. Então, eu gostaria que você me contasse um pouco sobre a sua infância. Você se lembra da casa onde você passou sua infância? Como era?

R – Lembro. Eu morei no Morro da Pedreira. Era uma casa de esquina e dentro dessa casa aconteceram muitas coisas. Por ser casa de esquina, era uma casa que também lutou muito, né, para a gente viver dentro dela, porque quando tinha guerra de facções, guerra de policiais com traficantes, a casa de cima era toda furada de bala. A casa virava uma peneira e a gente, todos nós, quando acontecia essa guerra de tráfico, né, a gente tinha que se esconder no banheiro, que era a parte mais segura da casa.

P1 – E como era essa casa? Vocês tinham, por exemplo, quintal? Vocês brincavam dentro da casa ou na rua? Como era esse cotidiano, né, da sua infância, com a sua família?

R – Quando tudo estava calmo no morro, a gente brincava na rua de frente, né, da nossa casa. Ou então a gente brincava em casa mesmo, né, brincava com meus irmãos. Às vezes a gente brincava na rua, entendeu? Coisas de criança: na época, eu adorava pião. Eu adorava riscar pião em cima do paralelepípedo e, se eu não visse o fogo do pião, (risos) eu não sossegava. 

P1 – E do que mais vocês gostavam de brincar?

R – Ah, alguns dos meus irmãos gostavam... Assim, quando era pequeno, com uns amigos meus, gostavam de soltar pipa, gostavam de... As minhas irmãs gostavam de brincar de boneca, só que eu não gostava... Eu, hoje, o brinquedo... Eu venho de uma era que, assim, (risos) o brinquedo tinha gênero, né: bola para os meninos, bonecas para as meninas, entendeu? Então, venho de uma época [em] que se eu bebesse num copo rosa, já sofria preconceito. Então, para mim, o brinquedo não tem... Como eu posso te dizer? Gênero, a criança não tem preconceito, né? Foi essa experiência que eu tive na minha infância e que levo para dentro da minha casa. Aqui na minha casa, a criança brinca do brinquedo que ela quiser, bebe no copo da cor que ela quiser, entendeu? A criança é colorida, ela se diverte. Se quiser beber no copo verde, menino quiser beber no copo rosa, vai beber no copo rosa; se menina quiser beber no copo verde, vai beber no copo verde; e por aí vai. Só que, na minha infância, eu não tive isso, né? Se eu usasse alguma coisa diferente, que fugisse dos padrões, né, eu era vítima de preconceito. Tanto que chegou uma época do Natal, a gente foi... Isso nunca esqueço. São duas coisas da minha infância que eu não esqueço até hoje: que a gente foi para o Natal, era no "shopping" e eu sentei no colo do Papai Noel, e só as meninas sentavam no colo do Papai Noel. Eu falei assim: “Mas toda criança - eu questionei, falei - senta no colo do Papai Noel. Por que eu não vou sentar no colo do Papai Noel para bater foto?”, “Ah, mas só menina senta e menino bate foto do lado”. Outra coisa também foi a famosa época da Xuxa, né, os anos 80 e 90. Não tem um adulto hoje que não, pelo menos, gostou da Xuxa, né? E a minha madrinha perguntou: “Ai, o que você quer ganhar de presente?”. Aí a gente escutava aquele burburinho: “Ah, escolhe um totó, uma bola, uma camisa de futebol, 'não sei o quê'”. Eu falei assim: “Eu quero o disco da Xuxa, um LP da Xuxa, o Sexto Sentido”, eu nunca esqueço disso, [até] hoje. Nossa, aquilo me traumatizou tanto! Foi ali que eu sofri o primeiro caso, assim, que... Hoje, né, entendo isso, como um caso até de homofobia, no caso, né? “Ah, ele vai ganhar o disco da Xuxa? Ai, ficar dançando na frente da televisão, esse garoto vai virar viado, vai virar 'não sei o que'”. Mas eu era apenas uma criança que gostava daquela música, estava curtindo aquele momento. Então, aquilo me marcou, mas, mesmo assim, a minha madrinha foi lá: “Toma, está aí o disco da Xuxa. Ele quer e vai ter o disco da Xuxa”. Aí ganhei, mas foi difícil.

P1 – E você teve contato com o restante das duas famílias, por parte de pai e de mãe, avós, primos, tios?

R – Olha, por questões familiares, né, sempre rola aquela briga. A gente não… Viveu um pouco distanciado, né? Porque brigas familiares, coisas familiares, algumas tias eram preconceituosas, alguns primos eram preconceituosos, então eu não gostava de ver,l. Não me sentia bem, não queria ir, entendeu? Então, eu não gostava. Hoje, depois de adulto, né... Eu, na época - depois eu conto essa história -, quando me revelei, né, parece que os primos se revelaram. Os primos das tias preconceituosas, entendeu? Então, meu primo virou gay, minha tia que era meio a... Como posso dizer? Homofóbica, não entendeu nada. E ele até casou. A minha tia. A outra tia, que era também preconceituosa comigo, a prima também casou com a mulher dela. Então, todo mundo, assim, saiu do armário, arrancou a porta do armário (risos) e foi para fora. Para você ver.

P1 – E você tinha algum sonho, Igor, quando você era criança, do tipo: quando eu crescer, quero ser tal coisa?

R – Quando eu era criança, tinha um sonho de ser professor de História. Por quê? Quando eu sentava para estudar História no meu colégio, achava que a História não era bem contada Porque eu sempre gostei de livros, eu sempre fiquei dentro de uma biblioteca. Então, eu sempre li a História, fazia perguntas aos meus professores de História e eles não me contavam a História como ela é. Aí eu rebatia muito os professores de História, quando eu era criança. Ele falava “descobrimento do Brasil”, eu falava: “Era invasão”, entendeu? Não se descobre nada, como que a gente vai descobrir [se] já era... Já criava essa guerra política: “Ué, como é que eles descobrem se aqui já tinha gente?”. Abolição da escravatura: “Abolição para quem?”, entendeu? O negro está sendo escravo até hoje, o pobre está sendo escravo até hoje, então a gente é uma terra de índios, negros e pobres. Então, a História do Brasil está sendo contada errada, né? Vocês estão contando aquilo que… E, então, os professores ficavam meio assim, meio assustados comigo. Eu falei… [O professor pensava] assim: “Meu Deus! Uma criança falando isso comigo?”. Porque o professor até entendia o que eu estava querendo dizer, mas, para minha idade, aquilo poderia se gerar, assim: “Meu Deus! Ele está falando a verdade, mas eu não posso dizer que ele está falando a verdade”. Então, os professores tinham essa saia justa. Quando eu fui pesquisar a História, realmente, do Brasil, né, e vi que muita coisa é contada errada. Então, eu torço até hoje para ter essa reforma dos livros escolares, para a História do Brasil ser contada como ela realmente é. Está na hora da gente ouvir a versão do negro, a versão do indígena, a versão do nordestino, porque é a História do Brasil.

P1 – Então, vou aproveitar o seu gancho e vou entrar, então, na sua vida escolar. Qual a primeira recordação que você tem, de ir para a escola?

R – Ah, a recordação que eu tenho para ir na escola? Olha, eu estudava num colégio chamado Thomas Jefferson e eu não gostava daquele colégio, né? Eu fiz de tudo - criança tem um jeito manipulável -, eu fazia de tudo... Eu gostava de estudar no Escultor Leão Velloso, né? Escola Municipal Escultor Leão Velloso. E eu gostava de sair do morro, subir aquele morro, andar, era sete horas da manhã, sentir aquele frio gelado, sabe? Eu gostava de caminhar, descer com a minha mochilinha. A gente estudava no último andar e era tanta escada que eu subia, era tanta escada, [ainda] era larga e o meu pé era pequeno, então tentava pular os degraus, assim, até chegar no CEU, né - que antigamente era CEU -, e a professora dava aula para a gente dentro de uma biblioteca. Então, ela dava aula, eu puxava o livro e ficava lendo debaixo da cadeira. É uma recordação, assim, que eu tenho.

P1 – E tinha alguma matéria que você gostava mais, um professor que te marcou?

R – Ah, eu gostava de Português, né? Eu não era muito bom em Matemática, não. Não sei se é por causa do ensino, né, que ensinava. Não sei... Existe uma forma… Eu acho que a Matemática, né, para as pessoas não gostarem da Matemática, hoje, porque existe… É a forma de ensinar, né? Mas eu sempre gostei do Português, né? Eu sempre gostei do Português, da Literatura, das histórias que... Sempre, os livros escolares daquela época, tinham uma história: tipo, do rato e a uva, da casinha e 'não sei do que'. E aí eu gostava das histórias. Gostava muito também dos professores de Português, entendeu? Tanto que, até a oitava série, eu ficava duelando: ou professor de Português ou professor de História. A História me puxava mais, mas pra eu falar História melhor, tenho que ter uma base boa de Português, para poder falar um português correto, para as pessoas entenderem a minha história.

P1 – Falando em histórias, você gostava de histórias quando era criança? Alguém te contava histórias?

R – Não, ninguém me contava histórias, né, eu torcia para poder chegar no colégio. Torcia para dar seis e meia da manhã. Tadinha da minha mãe, cansada - [ela] lavava roupa, cozinhava -, mas eu torcia para dar seis e meia da manhã para ir correndo para a escola, porque a gente estudava numa biblioteca e aí eu puxava um livro e lia os livros bobinhos. Adorava também quando não tinha aula, porque a professora segurava a gente na biblioteca: então a gente ficava brincando, lendo, estudando, ela contando histórias.

P1 – Certo. E, na escola, você falou que você mudou de uma escola, né? Você estava numa, que era essa que você gostava, e se mudou para outra escola. Era uma escola... Como você ia para a escola, sempre a pé?

R – Minha mãe me levava, entendeu? Minha mãe me levava, porque tinha medo. A gente morava no pico de um morro, né, de comunidade, então minha mãe sempre me levava. Eu não gostava dessa escola, porque tinha alguns preconceitos muito bobos, né? A Escola Leão Velloso já era mais libertadora, entendeu? Era mais acolhedora. Já a Escola Thomas Jefferson, na minha época, ela não era assim. Então, era... Tinha que ter um determinado comportamento e eu era uma criança de comportamento diferenciado. Sabia que era diferente, entendeu? Mas, eu não me enquadrava e sempre tinha... Hoje, a gente tem aquele famoso "bullying", né, aquelas brincadeiras sem graças. Então, na minha época, tinha essas brincadeiras sem graças, tinha essa coisa de “mulherzinha” e eu tinha uma voz muito agudinha, entendeu? Tinha essas brincadeirinhas sem graças e não eram legais, então não gostava de estar lá. A minha mãe me botou lá, me mudou de colégio, aí eu me senti menos à vontade: não tinha livros e quando a biblioteca estava fechada, não sei porquê a biblioteca fica com a porta fechada... Hum!

P1 – E, passando, avançando um pouquinho mais na sua vida escolar, né, você terminou na mesma escola o seu ensino fundamental e mudou para outra? Me conta um pouco como isso aconteceu.

R – O ensino fundamental eu terminei, sim, na minha Escola Leão Velloso e, na oitava série, foi quando eu estava me despedindo do colégio. Eu fui descobrindo a minha orientação sexual, né? Foi, nessa época, lá pelos 13, 14 anos, eu já estava entendendo que eu era diferente, né? Alguns amigos meus tinham determinado comportamento, também estavam mudando também, sabe assim? Tipo, assim: eu tinha alguns amigos que já eram de outras turmas, já tinham um determinado comportamento, a gente trocava entreolhares, assim, tipo, porque a gente tinha medo, né, do que os pais vão pensar, professoras vão pensar. Porque, antigamente, o preconceito rolava mesmo, entendeu? E fora o "bullying'' que a gente sofria dos garotos, né? Os garotos vir querer bater [na gente], porque isso acontecia lá para os anos de 2004, entendeu? E a gente já sabia que era diferente. Eu tinha um amigo que era gay, mas ele não sabia que palavra era essa. Ele era assim e eu sabia que eu era diferente, mas não sabia se eu era gay, se eu era bissexual. Mas eu gostava de meninas também, entendeu? Só que eu não entendia a parte burocrática das meninas, né? Com o tempo, eu vim entendendo o porquê dessa burocracia, dessa resistência delas, né? Eu fui entendendo isso com o tempo e por ser mais velho: que tem a violência, essas coisas de assédio. Depois que eu fui entendendo isso, né? Mas, como criança, eu também sofria, como todo garoto sofre, bifobia, homofobia, entendeu? Aquele gay carimbado: “Esse garoto é viado, não vou ficar com ele, não” e 'não sei o quê'. Na época, isso rolava, infelizmente. Era a oitava série, a turma dos 14, 15 anos. Aí já começa a adolescência.

P1 – E aí você foi direto para o ensino médio?

R – Sim, a partir daí eu fui para o ensino médio, né? A minha mãe queria que eu estudasse mais próximo de casa. Eu não queria estudar próximo de casa, porque eu queria fugir, né? Fugir entre aspas: queria botar o pé no mundo, entendeu? Pegar ônibus, ir para longe. Tanto que eu fui estudar no Méier. Até chegar do Méier, era uma hora e meia. Queria ficar um pouquinho liberto disso tudo, entendeu? Queria fugir do meu mundo, ser um pouco mais livre, ir para um lugar onde eu pudesse ser eu e voltar para casa sem ninguém saber, né? Aí cheguei no Colégio Visconde... Escola Estadual... Colégio Estadual Visconde de Cairu, no Méier, Rua Soares, 95. Eu não esqueço, era um colégio bem militar... Era um colégio que era todo cheio de grades, né, que viveu a época da ditadura, viveu a época do militarismo. Nessa época, em 2005, né, o colégio tinha esse aspecto, mas os alunos eram bem revolucionários, eram bem... (risos). Tinha esse contraste dos dois mundos. Era como se você botasse alunos rebeldes dentro de um colégio de ditadores, entendeu? Mas era legal, tanto que teve um período lá que se chamou “A Intervenção”. "Intervenção" [porque] o estado demitiu todos os professores e diretores, biblioteca, até o pessoal da limpeza e colocou outros. Os alunos, né, muitos alunos, aí se reuniram e a gente fez uma grande guerra, querendo todos os professores, [e] os diretores de volta. Foi um período chamado "Intervenção", né? Foi esse período. Até liderei um pouco a parte do terceiro andar, outros amigos que lideraram a volta dos professores e a gente conseguiu a volta dos professores, até o pessoal da limpeza. A gente os queria de volta, senão a gente não entrava na sala de aula. Foi legal o período da intervenção, um período de ditadura, assim, que a gente... Assim, da história, para você poder entender, né? A gente voltou e botou todo mundo de volta. Eu sou orgulhoso dessa época, 2006.

P1 – E você sabe por que houve essa intervenção, de tirar todo mundo, colocar outras pessoas?

R – Na época, a gente não entendia muito bem o porquê, né? Talvez algum pai, algumas mães criticavam tanta liberdade dos alunos, né? Os vizinhos também. Mas a gente gostava dos professores, entendeu? A gente gostava das aulas, né, lutava por aquilo. Era o nosso espaço, então tinha que ser do jeito que a gente queria. E a gente... Imagine, você chegar em um local para ter aula e saber que o seu professor querido não estava lá, entendeu? Até o professor se juntou junto com a gente, caiu na luta junto com a gente, e criamos essa guerra aí com o Estado e nós, alunos, conseguimos, a turma de 2006, entendeu? É a área da intervenção, tanto que chegou lá um diretor que a gente não conhecia e a gente o apelidou de “bigodão”, né? (risos) É, Bigodão: “Fora Bigodão!”. Ele tinha um bigode, tipo de leão marinho, aqui, que cobria tudo, né? Só vestia preto, fechado. Então, nós alunos, que éramos rebeldes, achamos que já era alguma coisa do Estado, né? A gente batalhou e conseguiu voltar a antiga diretora e todo o pessoal. Foi um período bem legal. Foi um período que eu me senti político, fazendo alguma coisa para o estado, para o lugar onde eu estava.

P1 – Igor, eu queria que você me contasse um pouquinho mais de detalhes a respeito desse seu período do ensino médio. Você disse sobre essa liberdade, sobre essa sensação diferente dos alunos, desse jeito mais livre dos alunos. Como foi essa mudança para você? Dentro da escola, fora da escola, né? Me conta um pouco sobre esse período do ensino médio.

R – Ah, o meu período no ensino médio foi onde eu tinha voz, né? A criança não tem voz. A voz da criança, naquela época, era comandado por um adulto, né? Então, adolescente, jovem do período dos 14 até os 18 anos, já começa a ganhar voz, começa [a] ganhar sentido. Então, naquela época, eu podia beijar às escondidas, poderia ficar às escondidas, entendeu? Tinha... Eu poderia beijar uma garota, beijar um menino, entendeu? E ainda confrontava a realidade se eu era gay ou se eu era bissexual, mas eu fiquei muito na letra... Fiquei muito na letra G, né? Porque eu... A questão, não sei se é a palavra adequada de dizer, não sei se é a palavra certa, estou falando... Remetendo minha cabeça para a época, né? Não sei se era mais fácil me relacionar, não sei. Como eu me relacionava com garotos, os rapazes gays, né, e eu gostava da turma da rebeldia, então me relacionava, ficava... Pra mim era mais fácil [dizer que era gay], entendeu? Porque tinha muitos rebeldes [e] eu sempre fui da turma dos rebeldes, rebeldes certos. (risos)

P1 – E na escola, em relação às matérias, você continuou gostando de Português? Você descobriu uma outra coisa que você gostava? Alguma recordação nesse sentido, que você tem até hoje?

R – Ali, eu gostava de História, né? Ali, ainda... Eu já gostava de História, mas também achei interessante as outras matérias, porque as outras matérias abriram os horizontes e sempre... Fui para a biblioteca, tanto que eu ganhei um certificado de melhor aluno da biblioteca, né, que a Biblioteca Eurídice me deu na época, né? Quando não tinha aula, ajudava a organizar os livros por títulos. Nessa época, até queria ser bibliotecário, achava que eu ia ser bibliotecário e acabei não sendo, né? Eu gostava de Biologia, porque eu estava entendendo o porquê das coisas, né? A matéria ficava mais pesada, mais política, aí eu estava entendendo o que era o movimento negro, o que era o movimento Lgbt. Eu estava tendo um pouco, um pouco de acesso à internet, porque, naquela época, era “lan house”, né? Você botava, né, lá na lan house. Você botava um real na “lan house”. Quando você ligava o computador… Eu não sabia mexer em computador. (risos) Uma hora já tinha ido - [se passou uma hora] - embora, então botava lá cinco reais. Quando tinha dinheiro, né, para poder entender. Mas eu lia pelos livros ou o que as pessoas falavam, né? Aí que eu fui entendendo a resistência das mulheres, os movimentos negros, movimento indígena, fui entendendo da biologia e me entendendo também, o porquê que eu era assim, porque que eu era diferente. O porquê eu não estava errado sendo do jeito que eu era, tinha mais gente do que eu, né? Tinha gay, tinha lésbica, entendeu? Tanto que eu gostava daquele colégio, porque tinha... A menina da portaria era sapatão declarada, entendeu? (risos) Ela botava uma roupa masculina mesmo, com uma calça e uma blusa, e ficava na portaria. Eu gostava de passar por ela e cumprimentar. Porque, assim, é representatividade, nosso povo, né? E eu gostava.

P1 – E depois do seu ensino médio, né, me conta um pouco como foi a sua saída do ensino médio? O que você foi fazer? Quais eram as suas ideias na cabeça, nessa época?

R – Então, da minha época, eu não sabia o que fazer, né? Aí chegou os 19 anos [e] chega uma fase negra da minha vida, né, que é um período negro aí que... Um período bem obscuro, né? Porque, naquela época, é como eu te falei: eu fiz tudo às escondidas ou fazia longe, então tudo morria lá. Então, quando voltava, já não gostava, porque já estava tendo... Como eu posso dizer? Minha mãe estava indo para a igreja, aí me levava para a igreja também [e] vem a parte religiosa, evangélica, né? Ela queria que eu a acompanhasse, entendeu? E, naquela época, algumas coisas da igreja eu gostava, né, [de] algumas [coisas], mas [de] outras, totalmente discordava. E lá, teve um dia… Tudo começou num carnaval. Eu sempre fui apaixonado por carnaval, porque carnaval conta história, né? É uma ópera popular. Naquela época, eu era estudante de música também, estudante de canto lírico, né, barítono. E, naquela época, adorava ópera. Carnaval é uma ópera popular e aquela passarela contava histórias nos sambas enredos. Aí, um dia, minha mãe foi para igreja e eu não quis ir para igreja, falei: “Eu vou ficar em casa e vou ver os desfiles das escolas de samba”. Beleza, arrumei a casa todinha, preparei a janta, tudo para ela não discutir. E, naquela época, um homem de dezoito anos, né, já tinha logo que procurar emprego. Acabou o colégio, acabou tudo: vai procurar emprego, vai trabalhar, né, para ajudar na renda e ‘não sei o quê’. Aí eu fiquei em casa nisso, falei: “Quer saber, tenho 18 anos, já sou homem e acho que vou lá na Pavuna. Vou lá na Rua Mercúrio assistir carnaval de rua, né? Acho que não tem nada demais comer um salsichão, tomar uma coca e ver as pessoas brincarem, né? Pesquisar esse material”. - Eu pesquisava, gostava. Sempre fui curioso de desfile de escola de samba. - Mas cheguei lá, adivinha? encontrei uns amigos gays, né, vestidos de mulher, vestido de ‘não sei do que’, com peruca na mão, com sainha, bruxinha, fadinha. Aí a gente relembrou os tempos de colégio, e ali eu fiquei. Eram meus amigos, né, também para me sentir seguro. Sabe que carnaval, sabe como é que é, né? É melhor você ficar sempre entre amigos na muvuca, na folia. Legal! Aí, para a gente passar para o outro lado, tinha que todo mundo fazer um trenzinho, um dar a mão para o outro, botar a mão no ombro, para poder fazer... Para poder passar no meio do povo, para ninguém se perder, porque era tanta gente. Olha, eu dei a mão para o Guilherme. Quando dei a mão para o Guilherme, ele estava vestido de mulher. Na época, ele estava vestido de mulher. Ele era gay [e estava] vestido de mulher, [no] carnaval! Eu estava de mão dada com ele. Quem surgiu no meio da multidão, assim, parece que pá, do nada, minha mãe! Menino, ali começa toda essa ladeira abaixo, foi uma discussão horrível que a gente teve. Ela falou: “Vai para casa agora, que eu já sabia!”. Aí eu falei para ela: “Você sabia do quê? Porque nem eu sei. Como é que você sabe?”, “Porque todo mundo já me falou”. O problema das mães, hoje, você sabe qual é o problema das mães hoje? Ela não quer saber da boca do filho, quer saber da boca do povo e já define pelo povo, entendeu? Então, essa foi a minha revolta, sabe, aquela minha revolta, a minha vontade – desculpe a expressão – de socar todo mundo com raiva, que eu fiquei com tanta raiva, minha cabeça explodiu, entendeu? Como é que os outros me definem? “Por que você não me perguntou?”, eu falei na cara dela. “Ah, porque você é gay. Você estava com viado, com ‘não sei do quê’”. Mas, na época, da Assembleia de Deus: “Ah, você era gay! Você é viado, ‘não sei o que’, vai para o inferno!”, aí começa as condenações. Eu falei: “Não vou para canto nenhum! Como é que eu vou para o inferno? É mais fácil Satanás tomar um café comigo, é isso que eu quero!”. Aí começou essa discussão toda. Eu sempre fiquei revoltado, porque isso que acontece hoje: as mães nunca procuram conversar com os filhos, nunca procuram saber o que o filho é, elas querem saber da boca do povo, entendeu? E essa condenação, né, vem desde quando eu era criança, esses fantasmas surgiram desde quando eu era criança, quando eu bebia no copo rosa: “Olha, esse menino vai virar viado! Ó, esse menino sentou no colo do Papai Noel, vai virar viado! Ó, esse menino está pegando a boneca da sua irmã para pentear, esse menino vai virar viado!”, entendeu? Então, isso vem desde pequeno. Então, a sociedade… Foi aí, quando adulto, [que] eu fui entendendo que a sociedade é preconceituosa, machista [e] racista, entendeu? Foi essa época, foi esse mundo que eu estava entrando, entendeu? E foi um mundo que... Eu fui expulso de casa, né? Fui morar com meu pai, mas também não deu certo, porque lá ele tinha uma outra mulher. A mulher era evangélica e a mãe dela era uma senhora evangélica da Assembleia de Deus, tradicionalíssima, né? E também não deu certo, porque não podia nem assistir “Harry Potter”. Eu ganhei um pôster do “Harry Potter”: “Ah, esse menino já é bruxo, esse menino vai virar bruxo!”. “Gente, é só um filme”, “Não, não quero ver essas coisas aqui dentro de casa, não, de bruxaria, de inferno! _______”, “Gente, mas é só um filme!”. Mas como a gente está na casa dos outros, né, então, tem que ser o que os outros são. Aí eu fui morar com a minha avó [e] também não deu certo, porque minha avó também tinha essas questões, né, de preconceito. Então, na família, pelos héteros, a gente sempre sofre preconceito, né? Aí eu decidi, falei: “Já sei o que eu tenho que fazer! Tenho que arrumar um emprego, porque com salário, eu meto pé, mando todo mundo pastar. Vou alugar uma casa e tchau. Também sou um homem de 19 anos, eu tenho que tomar uma atitude. Ah, eu tenho que tomar uma atitude, não adianta!”. Foi onde eu entrei na cozinha, aí… Hoje, eu sou auxiliar de cozinha, sou saladeiro, cozinheiro, "sushiman", né, consegui uma vaga na cozinha. Aí, na cozinha, naquela época, pagava um pouquinho melhor, acima de um salário-mínimo. Foi onde, [quando] eu aluguei uma casa para mim e fui viver minha vida. Mas foi um período obscuro, que eu não queria olhar para a cara da minha mãe, não queria olhar para a cara dos meus familiares preconceituosos, nem olhar para a cara do meu tio, que era pedreiro, né? Meu tio, nossa Senhora! Ele era.... Até hoje ele é homofóbico declarado, entendeu? E pedreiro, né? Quando ele viu... Quando ele viu a notícia da "drag" pedreiro estampada com a minha cara, (risos) ah, parecia que ele queria comer o jornal, entendeu? (risos) Eu falei: “É, chora querido!”.

P1 – E me conta um pouco dessa parte, antes da gente voltar para a cozinha e para o que aconteceu depois, você falou que estava fazendo um curso de canto lírico. De onde surgiu isso? Como te deu vontade de fazer isso?

R – Eu estava na... Era da... Eu estava indo para a igreja, né? Aí vi aqueles jovens cantando e eu sempre me interessei por artes, né, porque eu sempre quis atuar, tanto que comecei no teatro, naquela época, né? E vou fazer uma retrospectiva aqui. Então, naquela época, chegou uma companhia aqui, de circo, em São João de Meriti (RJ). É do lado da Pavuna, bairro próximo. Então, eles estavam selecionando jovens, né, para fazer uma companhia, para participar da companhia nova de teatro deles, né? Aí eles iam dar curso, dar tudo. Então, no tempo vago, eu fui para lá, né, participar, aprender os bastidores de um teatro, como era a maquiagem, como era tudo. E era uma companhia de jovens negros, que se chamavam "Griot", né, que contavam histórias africanas. Aí eu falei: “Eu estou em casa”, né? Mas minha mãe era evangélica, né? E eu ia para ela junto com a igreja, levava meus irmãos também. Então você sabe que, como eram jovens negros contando histórias africanas de Orixá, então, criou-se aquela guerra de: “Ah, lá vem o Igor com macumba, de novo”. Eu falei: “Gente, mas não é macumba, é história, né? Se hoje a gente tem Deus, lá no... Os africanos têm Oxalá, né? Cada religião tem o seu Deus. Éhistória! É teatro! E é isso que eu quero aprender”. E eu gostava de música também, né? Eu gostava, sempre gostei de música, gostava de cantar junto com... Qualquer filme bobinho da Disney eu tentava cantar junto, como qualquer criança hoje. E eu me interessei por música. Aí tanto que, dentro dessa igreja, né, evangélica, tinha um moço lá que me falou: “Vai abrir oportunidade para a escola de música, vai lá fazer música”. Aí eu fui, conheci um professor que, infelizmente, faleceu pela Covid-19, né? Faleceu pela Covid, já teve várias complicações. Foi tanta coisa generalizada, né? Ele começou a adoecer de tuberculose, pegou pneumonia, aí dentro de um lugar que tinha Covid, então, foi. Mas eu quero deixar nessa parte em homenagem a ele, que é o Flávio Guimarães, que ele era gay declarado, né, ele era um homem de Ossain, ele era um homem de Ossain e Oxum, era contratenor e um ótimo professor de canto. Foi esse homem que abriu a minha mente dentro dessa escola de música para tudo e eu levava lá também. Ele abriu essa minha mente, conversava comigo, explicava o que era ser gay [e] o que eram os desafios, os preconceitos de ser um homem de Orixá, né? E o canto, ele me ensinou a cantar, me deu teatro, me deu a música. Então, a morte dele levou um pedaço de mim. Foi tudo isso que começou, né, essa parte do teatro lá no Sesc, a música na escola de música, estudando lírico, sendo barítono e acompanhando na igreja. Porque eu a acompanhei, [minha mãe], entendeu? Mas rolava esse conflito. Foi aí, nesse período, que entendi a intolerância religiosa, né? A guerra entre evangélicos e candomblecistas.

P1 – E depois que saiu de casa, você manteve esse seu trabalho com teatro, com a escola de música? Ou não deu para você continuar, por algum motivo?

R – O trabalho, né, toma muito o nosso tempo, então a gente teve que modificar os horários, mas quem quer mesmo, faz a madrugada virar dia. Foi isso que eu aprendi, né? Então, eu largava do trabalho, meu professor ainda estava dando aula, eu corria para assistir aula e a gente sempre tomava... Tudo acabava em vinho, né? A gente sempre tomava um vinho e conversava sobre as coisas da vida, né? Mas isso foi, assim, no período que eu já tinha saído de casa, não estava conversando mais com a minha mãe, nem com a minha família: eu só gostava do teatro. A gente faz o que a gente se sente bem para essas outras coisas, né? Eu gostava de cantar, e, um pouco, esquecia os problemas da vida. Gostava de trabalhar no teatro, porque já esquecia das coisas, mas a gente fica meio abatido, né? Foi aí, nesse período, que começaram os movimentos, né, de homofobia crescer cada vez mais. E isso vem crescendo com o tempo, né? Foi o Flávio, o Flávio Guimarães, que me mostrou onde tinha esses movimentos, onde tinha essas pessoas. Então, dessa salada toda de vida, foi onde que nasceu a Safira.

P1 – Então, a gente chegou agora na Safira. (riso) Me conta como você teve essa ideia, de onde vieram as influências. Me conta como isso aconteceu.

R – Então, eu sempre fiquei apaixonado pela área da atuação do ator, né? E eu sempre gostei das vilãs de novela. As vilãs de novela, na minha época, eram quem? Era - que eu sempre fui pesquisador e sempre amei novelas - pesquisador de novelas. Eu gostava na época, estava reprisando a novela da Nazaré Tedesco, Odete Roitman, né? A vilã Rosa, da Escrava Isaura. Eu amava essas novelas, amava essas vilãs, amava essa parte de atuar, né? E foi onde, no teatro, que na época não era a Safira, eu criei para mim, mas não contava isso para ninguém, entendeu? Eu falei: “Se surgisse um personagem feminino, eu faria, né?". Assim, alguma bruxa, porque poderia mudar, né? Sei lá, fazer alguma bruxa, alguma vilã, né? Tanto que hoje... Isso reflete até hoje nos estúdios de dublagem, os meus amigos falavam: “Ah, você tem voz para fazer a Úrsula ["A Pequena Sereia"], você tem voz para vilã” e isso carrego até hoje. Começou lá, né? E eu ganhava oportunidade, né, para poder fazer essas vilãs, me maquiar de mulher. Porque tinha uns amigos… Você sabe que no teatro todo mundo é liberto. Rola aquele preconceito, mas todo mundo é liberto. "Vamos trocar a roupa na frente de todo mundo", entendeu? Tem sempre um amigo que dá em cima do outro. Então, tinha essa liberdade. Quando vi essa oportunidade, eu me vesti, né, de mulher em homenagem às mulheres mesmo. Eu falei: "Porque eu acho que a gente vem da mulher, então a mulher é merecedora de ser homenageada". É uma forma de homenagem, né? Nenhum homem sobrevive sem uma mulher. A gente sempre vai ter uma mulher ao nosso lado, e acho que todo homem tem uma mulher dentro dele, né? Então, na época, não era a Safira: era Jezabel. Eu botei esse nome de Jezabel, porque era a mulher mais odiada da Bíblia. Então, para criar essa guerrinha com o pessoal lá [da igreja], entendeu? (risos) E eu também era candomblecista, né, ainda estava sendo candomblecista. Minha filosofia de candomblé estava nascendo por causa do meu professor do candomblé, entendeu? Ou seja, porque eu estava me sentindo mais à vontade, porque dentro do candomblé tem isso, né? Não tem essa condenação de pecados. Lá, dentro do candomblé, você tem gays, lésbicas, trans. Então eu criei, na época, a Safira, Jezabel... Safira, Jezabel, Safira, Jezabel. Então eu criei a Safira, para poder atuar no teatro, mas, na cabeça do povo, eu fazia o povo entender que era só um personagem, mas para mim estava ficando algo sério, entendeu? Tanto que gerou outro preconceito também da família naquela época. Pronto! "O Igor... Espera aí, porque tudo é gay", né? Eles não entendem nada, já te carimbam, 'pá', como gay: “Ah, pronto, Igor já foi expulso de casa, agora está se vestindo de mulher e andando pela rua”. Eu falei: “Aff, Maria”. Deixei para lá e continuei com a Safira dentro do teatro, [que] foi onde a Safira e Jezabel começaram a nascer, foi onde eu participei de uma... Fui numa festa junina junto com meu professor, e lá… Em festas juninas, naquela época, sempre tinha uma "drag queen" fazendo as palhaçadas em cima de um palco e 'não sei o que'. Quando olhei, eu falei: “Ué?”. Aí olhei para a cara do Flávio, [que] já entendeu tudo, eu falei: “Quero estar ali em cima”, “Ué, por que não? Ele é ator, não é ator? Ele canta, não canta?”. Eu não sabia como, mas tinha que chegar até elas. Foi aí onde eu comecei a ir para as boates, tentar um contato, né, para eu poder me soltar, mas os preconceitos sempre vinham da minha família. Eu os deixava de lado, porque eu já estava vivendo a minha vida, entendeu? Já era um homem e ninguém tem nada a ver com isso, mas foi difícil até eles entenderem que a Safira era apenas uma... Um personagem vivo, né, que a "drag queen" é um personagem vivo, um personagem atuante.

P1 – E como foi essa sua aproximação com a cultura da "drag'' a partir do momento que você começou a querer entrar nisso? Você disse que começou a ir a boates, começou a tentar contatos… Como foi essa descoberta para você?

R – Quando eu fui para um bar, nunca tinha ido para uma... Eu sabia que isso rolava, assim, nos teatros, né, um homem se relacionar com outro homem. Rolava, assim, dava um beijo atrás das cortinas, rolava uma carícia, um convite para poder ir para a casa dele, mas eu nunca vi um, numa balada, numa pista de dança hoje, que é o normal, que sempre foi normal. Na vista dos outros não é normal. Mas, naquela época, o amigo falou assim: “Ah, vamos para a boate?”. Eu falei: “Boate? Vamos para a boate. Quero ir para a boate. Ah, então está bom! Vamos para essa tal boate”. Na época, Lady Gaga estourando, Beyoncé, Katy Perry, eu falei: “Aff, Maria”. Cheguei na boate, né, aí está para mim tudo normal, um show, todo mundo dançando. Quando deu três horas da manhã, lógico, todo mundo encachaçado na mente, de cachaça na mente, né, começa a “pegação”, né? O Satanás começa rodear o salão, né? (risos) Aí eu vi duas mulheres se beijando no meu lado, falei: “Meu Deus!”. (risos) Aí foi onde eu comecei, falei: “Gente...”. Aí o meu colega falou: “Ué, você está no nosso mundo agora. Não queria entrar no nosso mundo? Agora, esse mundo também é seu. Fica à vontade! Se você quiser beijar alguém, beija!”. Eu falei: “Mas e não vai acontecer nada?”. [Ele] falou: “Claro que não, esse mundo é nosso. Você está no nosso espaço!”. Foi, onde, um momento bem legal, que as cortinas do palco, né, eu, sentado, assisti e eu vi uma "drag queen" - não me recordo quem era na época - poder se apresentar. Mas ela se apresentou de uma maneira, meu filho, que parecia diva de Hollywood. Parecia uma... Parecia que ela estava pronta para ganhar o Oscar de melhor atriz. Um vestido, entendeu? Que ela já estava no palco vestida e ainda estava entrando da coxia, com plumas e paetês, com uma peruca. Eu falei: “Não, ela é mulher. Não, é mulher. Nossa, que mulher linda! Não, impossível, está muito perfeita”, eu falei assim. Foi onde vi que era aquilo que eu queria, falei: “Gente, mas eu não me vejo em cima de um palco, não. No mundo de teatro é diferente”. Aí meu colega falou: “É a mesma coisa, só que ela está apresentando para um público dela, né, que a gente tem o nosso público”. Foi aí que eu comecei esse universo, né, que eu fui lá, depois que ela se apresentou, [e] falei: “Ah, maravilhosa, que 'não sei o que', você é linda!”. Lógico, [era] mentira. Era para pegar o contato dela, né, saber quem era ela no Facebook, né? Porque, realmente, assim, se você quer alguma coisa, você tem que ir no pessoal que já está fazendo. (risos) Em qualquer lugar: se você quer fazer teatro, vai em cima dos atores; você quer dublar, vai em cima dos dubladores, né? Se você quer trabalhar em cozinha, vai dentro de uma cozinha pegar uma vaga de emprego. Foi [aí] que eu tive contato com ela. Aí eu conheci uma outra pessoa, que também já estava fazendo show: peguei o contato da Marcela Kenelo, da Xanadú, da Tamara Taylor, e aí a gente conversava e 'não sei o quê'. E aí um dia cheguei para a Marcela Kenelo e falei assim... Tomei a coragem, criei um figurino, né, criei uma roupa que eu achava que era, mas era roupa para teatro. Roupa de figurino "drag" era totalmente diferente: tem que brilhar, tem que ter brilho, entendeu? E eu falei para a Marcela: “Marcela, me dá uma oportunidade para eu me apresentar no palco e 'não sei o quê'”. Ela falou: “Ah, mentira que você agora está se montando! Por que agora você quer fazer palhaçada em cima do palco, você quer ser 'drag'?”. Eu falei assim: “Ó, por quê? Me dá oportunidade e 'não sei o quê'”. Aí foi que ela me deu a oportunidade. Na época, eu estava assistindo vários filmes de 007, né, e tem uma cena que é da Tina Turner, que era [do filme] "007 contra GoldenEye". Eu peguei um vestido branco, levei uma cadeira e tudo, falei: “Eu vou ser Tina Turner naquele palco. (risos) Vou fazer aquela música 'GoldenEye'”. Aí foi que na hora ela abriu as cortinas e até falava no microfone: “E agora, com vocês, esse bibelozinho, esse bebê - ai, que _____ a Marcela Kenelo falando essas coisas - e agora esse bibelozinho saindo da fralda, esse bebezinho. Com vocês - naquela época, né -, Safira Glitter!”, né? Que eu gostava dessa explosão de brilhos. Para minha ideia tinha que ter brilho, né? Safira Glitter, foi onde ela me lançou no palco. Aí, como as "drags" novas querem oportunidade, então elas vão cair para dentro, né? Já as "drags" antigas precisam de elenco e onde elas vão obter elenco? Com as "drags" novas, dando oportunidade. Aí a Xanadú [e] a Tamara Taylor me chamaram. Aí, meu filho, teve hora que eu não parei mais, né? A Safira já estava em cima de um trio elétrico, já estava dentro de uma parada Lgbt e dentro de Copacabana. Foi aí que eu conheci grandes nomes do meio artístico, né? Foi aí que eu fui, botei esse nome de pedra, da Safira, porque a pedra resiste ao tempo, né, a chuva, ao sol. Então a pedra resiste aos preconceitos. A pedra vai se transformando, até se transformar numa joia rara. E aí foi ficando Safira O’Hara. Esse O’Hara tirei de um filme também, do "O Vento Levou", né, da Sessão Corujão, que eu estava vendo lá Scarlett O’Hara, aquela mulher que tomou tanta 'coça' na vida, mas se reergueu. Eu falei: “Então, a Safira é uma mulher... Eu a vejo como uma mulher negra, uma mulher empoderada". Safira é Safira e Igor é Igor, né? É igual a Suzy Brasil fala que: “O Marcelo é o Marcelo, Suzy Brasil é Suzy Brasil”. Marcelo fala: “Eu não faço coisas que a Suzy Brasil não faz”. A mesma coisa eu: depois que a Safira estava evoluindo tanto, percebi que a Safira se tornou tão viva, mas tão viva que já... Eu não a comandava, entendeu? Era o que ela queria vestir. Eu fiquei assim, escravo, mas eu gostava daquele escravo, sabe? Sabe aquele homem de mansão que servia a ricaça, a dona que vestia, botava vestido, entendeu? (risos) Era isso que estava na minha cabeça, como se eu a vestisse o que ela queria usar, né? Naquela época, eu queria ficar mais confortável, não queria tanto brilho não, falei: “Ah, não, vou botar um sapato, uma calça social, um “blazer” e vou jogar uma peruca em cima, né? Aí, menino, eu fui, isso, para a boate; todo mundo olhou, falou: “Nossa, você está a cara da Ana Carolina! Sobe, só, pega, joga uma música da Ana Carolina aí, joga aí para você ver e sobe no palco, para ver se não é a Ana Carolina”. Olha, não deu outra: estava de calça, tinha acabado de fazer um casamento nesse dia, né, eu estava de sapato, calça preta e botei um blazer, joguei só uma peruca, me maquiei, né, dentro do carro mesmo, “drags”... Aventuras de “drags” é isso: maquiei no carro mesmo, né? E ninguém conhece o Igor, todo mundo conhece a Safira. Todo mundo só queria saber da Safira, que a Safira tava ganhando (fama?), ‘não sei o quê’. Eu fui... Botei a peruca, aí a Xanadú: “Vai lá, sobe no palco, para ver se não está Ana Carolina. Solta uma música de Ana Carolina aí!”. Menina, ela me deu o microfone, quando eu subi no palco: “Com vocês – que elas são farofeiras, né? - Safira Glitter”, aí eu peguei o microfone (canta): “Qualquer distância entre nós...”, menina, as sapatonas vieram abaixo. Eu falei: “Ah, (risos) agora eu já sei onde posso baratear minhas roupas, que eu posso só botar a peruca e um terninho”. Elas adoraram a Safira sapatão, porque eu falo que a Safira é sapatão. Ela não gosta de homem, né? Não sei porquê gostar de homem, gostar de homem é mais loucura. Gosta de mulher, ah, uma coisinha, assim, mulher [é] melhor, mais bonita, mais delicada, mais arrumada. E até elas mesmo falam - é uma doideira -: “Safira é sapatão”. E aí ficou Safira Sapatão também entre elas, né? A Safira ganhou essas coisas, enfim, ficou cover durante muito tempo da Ana Carolina. Até é mais fácil, né, que custava barato. Aí eu conseguia ganhar, porque “drag” é caro.

P1 – Mas voltando um pouco nas suas primeiras apresentações, você falou do dia que você fez o “GoldenEye” da Tina Turner. Quando você subiu no palco, viu a plateia: como é que você se sentiu, na sua primeira apresentação?

R – Primeiro... Eu ensaiava dentro de casa, né? Ensaiava dentro de casa e, assim, quando eu subi no palco, lógico, fiquei extremamente nervoso. E eu sei que a minha atuação foi péssima, mas o público, assim, até entendeu. Cachaça na mente, né? Vieram... Não tinha tanta gente, tanto que ela [me] deixou ser a primeira, né, assim, antes que a boate, que o espaço lotasse, né, vai... Ela falou: “Você é a primeira, porque tem pouca gente e aí você já vai se soltando”, né? Mas eu fiquei super nervoso, tremia: a cadeira caiu. E a gente que é ator fez aqueles truques, dizendo que era para cair mesmo, entendeu? Mentira. A gente tinha deixado a cadeira cair, o vestido rasgou, o salto quebrou, a peruca estava torta e... Olha, eu vejo as fotos hoje (risos) [e] era um palhaço de peruca, mas pula essa parte. (risos) Mas eu amo porque faz parte da história, entendeu? A Safira, hoje, está lapidada, bonita no Instagram. É por causa disso, que tudo tem uma história. Toda "drag" começa feia. Nenhuma começa, assim, entre aspas, né? Todas começam feias, caricatas. Por isso, na época, eu fui conhecendo grandes professoras que me ensinavam. Aí eu tive que chegar cedo no camarim, porque é sempre aquela bagunça, né? De várias... Homens se montando, né, botando peito, pegando… E "drag" faz de qualquer coisa a melhor roupa, né? 'Nego' cortando colchão, botando aqui dentro para fazer peito, entendeu? Cortando cortina, fazendo de vestido. A outra botava pó com esponja de lavar louça, sabe, aquela parte amarela? Fazia o ‘lapidamento’. Eu falei: “Gente, olha os recursos que a gente...”, que eram os recursos que se tinha, porque até maquiagem era caro. Foi aí que eu fui aprendendo, né, tendo as minhas grandes professoras: que é a Luana Muniz, a rainha da Lapa, né, a grande travesti Lorna Washington, tem a Divina Aloma. Foram elas que foram me dando aulas, mesmo dos brilhos, né? A turma do Cabaré Casa Nova, turma do Boêmio, o pessoal da turma OK, né, que é a casa Lgbt mais antiga do mundo. Foi nisso que eu fui entrando. Aí que a Safira foi se lapidando [e] que eu fui aprendendo, até eu botar a personalidade da Safira em palco, né? Eu falei: “Não, a Safira vai fazer coisas de bruxa, vai fazer o próprio figurino dela, vai fazer a cantora dela, Maria Bethânia, né?” E quando eu comecei fazendo Maria Bethânia, aí foi sucesso absoluto. Que entre as "drags" tem concurso de dublagem, né, e eu sempre falei: “Vou levar a Maria Bethânia, né?”. E eu levei Maria Bethânia dentro de uma escola de samba, falei: “Aff, Maria”... Eu peguei - eram 35 [pessoas] concorrendo - o número doze. Eu sempre com essas coisas de mago, falei: “Doze é número de Xangô, número da sorte! Eu vou ficar aqui”, "Ah, mas doze?”. Eu falei: “Ah, concurso começa, eu me apresento [e] espero o concurso começar de novo”, que eram 35 candidatas dentro de uma escola de samba. O povo quer ver bateria, o povo quer ver... Como eu falo? Quer ver Beyoncé, Lady Gaga, essas apresentações de "drag", né? Hã! Eu subi no palco fazendo Maria Bethânia: ih, minha filha, o público veio abaixo. Aí foi que eu sabia que poderia... Mas eu estava vestida africanizada, né, com umas unhas, com as garras de unhas desse tamanho. As unhas da Safira, antigamente, vinham até com quase um dedo de unha, né? Com as roupas africanizadas, fazendo Maria Bethânia e o povo gostou de eu fazer essa MPB: foi onde a Safira foi fazendo, se lapidando, trazendo... Falando do Brasil num palco, né? Ganhei até um prêmio no Theatro Net Rio, prêmio pelas mãos da Lilia Cabral, né, que ela foi através da Glória Perez, por contar a história do Brasil, né? Maria Bethânia é uma cantora que sou fã, ela sabe contar... Na voz dela, ela sabe contar a história do Brasil muito bem. Levei Maria Bethânia, eu falei de índios, falei do Brasil e obtive esse prêmio lá da Glória.

P1 – Eu gostaria que você me contasse a respeito dessa questão da costura. Você começou a costurar para fazer os figurinos da Safira ou teve alguma outra motivação?

R – Porque eu sempre quis costurar, assim, fazer meus próprios figurinos. Conforme eu via, vi que isso não era uma tarefa fácil e quem fazia também cobrava muito caro, né? Cobrava muito caro e, naquele... E “drag queen” tem, está sempre envolvido no mundo artístico, no mundo dos maquiadores, cabeleireiros, costureiros etc. Então, eu trabalhava em cozinha, falei assim... Mas eu trabalhava em cozinha e... Surgiu, naquela época, eu falei assim: “Sempre vou...”, eu queria sair de cozinha, né? Falei assim: “Vou procurar fazer algo para trabalhar para mim, trabalhar dentro da minha casa”. Qual o primeiro objetivo? Ter a casa própria, né? Tudo começa antes, lá atrás. Então, eu tinha um amigo chamado Rodrigo Muller, que é [a] “drag” Raika Muller, e tem o Severino, né? O pai dele, [do Rodrigo], o Severino, que é pedreiro. Então, do lado da casa deles tinha um homem vendendo um terreno. Isso, eu, com todo dinheiro que tinha de cozinha, de coisa de “drag”, juntei e finalmente consegui comprar esse terreno, baratinho. Mas você sabe que material de obra é caro, então eu tive que cair para dentro, até para pagar pedreiro. Só que eu mantive uma... Eu tenho o meu amigo que é o Rodrigo, tenho amigo, que é o pai dele também, como eu falei, o Severino. Então, a gente... O pai dele falou: “Eu te ajudo, mas sou um senhor, né, de idade [e] você é jovem, um garotão, cai para dentro. Então, eu venho com a parte técnica e você vai pegando com o pesado, né?”, e foi assim que eu fui construindo a minha casa. Aí, um belo dia... Olha, eu tinha virado tanto concreto, tanto, para fazer essas colunas, tanto concreto, e eu botei, falei para o Rodrigo, para a [“drag” dele] Raika: “Bate uma foto aí”, com o pé todo sujo de concreto, em cima do concreto, do lado da pá. E aí peguei a foto, num grupo de “drag queens”, botei [essa] foto minha e [uma] da Safira, falei: “Olha o que eu faço de manhã e o que eu faço à noite”, né? Porque todo mundo estava ‘xoxando’ as maquiagens das “drags”: “Ah, você está parecendo um pedreiro maquiado, né, um homem de peruca”. Eu falei: “Então, está bom. Vamos ver o que vai acontecer agora”. Aí botei - mas, assim, de maneira inocente - minha foto todo sujo de massa com a foto da Safira [ao lado], que estava belíssima nessa época. Peguei a foto mais linda dela, a foto que estava mais caprichada [e] botei a foto [no grupo]. Isso era duas da tarde, dentro desse grupo. Aí o moderador lá aprovou a foto: “Mano, ______ prato de pedreiro, sabe como é que é, né? Prato de pedreiro, mano”. E dormi no sofá, apaguei em primeiro lugar. Isso foi duas horas da tarde. Amigo, quando foi nove horas da noite, meu celular estava apitando [sem parar] e eu não sabia o que era: quando eu abri o Facebook, tinha, sabe, assim: 300 solicitações de amizade. Eu falei: “Será que vazou algum nude meu? Será que eu matei alguém e não sei? Será que aconteceu alguma coisa?”. Aí tinha a Globo me procurando, o Jornal Extra, o UOL. Eu não sabia o que era, falei: “Meu Deus, que eu aprontei?”. Até, nem Severino, nem o Rodrigo sabia. Eu falei: “O que está acontecendo? Pelo amor de Deus, o que está acontecendo?”. Aí foi quando eu falei: “Ah, não, deve ser alguma coisa”. Meu Facebook só tinha, assim, acho que era 1000 pessoas, ele pá, jogou para 3500 e cada vez que eu entrava lá estava indo para trezentos, tudo aumentando, eu falei: “Que diabo que eu aprontei?”. Quando eu entrei no Facebook, foi aí que fui entender que aquela foto que eu tinha postado tinha ido, ela estava correndo para mais de 6000 compartilhamentos. Já estava em grupos, todo mundo erguendo a história da "drag" pedreira. Porque eu, realmente, fazia a obra de manhã e ia, me maquiava mesmo na obra e partia para fazer "show", né? Para fazer o dinheiro do gás, para fazer o dinheiro do cimento. E essa história de Drag Pedreira correu de uma maneira tão avassalador: eu fui para o Extra, para o UOL, me chamaram para um filme. Aí foi que as portas começaram a se abrir, né, nesse empoderamento todo das "drags", das "drags" ocupando espaço. Aqueles que xingavam, tiravam sarro da "drag" maquiada tirando de pedreira. E, realmente, a Drag Pedreira existe. Foi um período bem legal, divertido, né? E fiquei... Eu ganhei esse título de Drag Pedreira e fui construindo minha casinha aos poucos, né? E até hoje estou construindo, porque quero botar do jeito que eu quero, né? A gente não viveu, saiu desse período obscuro que eu te contei e a gente ficou dez anos pagando aluguel… E pagar aluguel eu não desejo isso para ninguém, porque é horrível. Você paga de manhã e paga à noite, né? Eu sei que nem todo mundo tem oportunidade, mas é bom a gente sempre reservar um dinheiro, guardar um dinheiro, nem que seja um real, dois reais: vai que a luz surge, a porta abre e a gente tem essa oportunidade, né? Eu sempre falei para os Lgbtqi+ sempre se preservarem, guardarem dinheiro, né, utilizar isso como empoderamento: "Vocês vão ter a casa de vocês, porque eu fui expulso…", aí tive que contar a minha história, né, que eu fui expulso de casa [e] construí a minha própria casa. A Drag Pedreira construiu a própria casa. Que, eu tinha um tio pedreiro, que é homofóbico [e] morreu de raiva. Minha tia contou que ele rasgou o jornal com toda raiva possível, eu falei: “Chora!”, (risos) né? Aí foi onde eu construí esse cantinho. Foi aonde que eu estava lá, nesse período, falei assim: “Eu agora vou trabalhar para mim”, né, que eu estava conhecendo alguns amigos de carnaval. Foi onde eu comecei entrar no carnaval. E eu sempre gostei da parte dos figurinos, né, de criar figurinos de época, de carnaval, porque eu sempre fui apaixonado por figurinos de cinema, figurinos de... Foi onde peguei o dinheiro de rescisão de trabalho, que eu saí da cozinha e fui comprando as minhas máquinas [de costura], né, as minhas máquinas que estão aqui, né? Aí foi onde eu fui começando a investir meu dinheiro no ramo da costura, dessa área. E, assim, graças ao meu Orixá, Logunedé, eu sou muito feliz, porque eu fiz o certo, né? Eu fui trabalhando em casa, fui tendo essa opção B, né, esse lado B, porque veio a pandemia, né, do Covid-19 e a gente teve o "home office", o trabalho em casa: e fiquei feliz, porque investi certo. Essas máquinas me ajudaram na confecção de máscaras, né, me fizeram entrar nessa luta do 'põe a máscara'. Então, foi que eu estava, que eu me senti no caminho certo, né? Estou nesse caminho certo.

P1 – E a sua vida mudou muito depois desse evento da Drag Pedreira? Em que ano foi isso, você se lembra?

R – Olha, isso foi, para você ver, em 2018 para 2019, né? A Covid ainda estava chegando lá... Em dezembro, alguma coisa. Se eu não me engano foi isso. Não me lembro se foi 2018 ou 2019, [mas] foi nesse balanço todo aí. Então foi uma explosão, né, que eu [fui] até no jornal dar essa entrevista. Fui chamado lá no jornal O Globo, né, conheci bastante jornalistas. Conheci o Ancelmo Gois, do jornal O Globo. A gente até brincou, né? Conheci Miriam Leitão, conheci o pessoal do jornalismo. Fiquei muito feliz, porque só os vejo pela televisão, né? Eu conheci até a própria Fátima Bernardes, só que eu estava totalmente distraído, né? Eu não... Só escutei uma voz e ela chegando próximo de mim, e eu distraído, porque estava maravilhado com tudo, né? Era outro nível de jornalismo. Eu estava lá, ela chegou para mim e falou assim: “Ei, não é você que é a 'drag', Drag Pedreira?”. Aí eu: “É”, “E como está a construção da sua casa?”. Nossa, sabe? Assim. Ela se apresentou para mim, chegou para mim e falou: “É um prazer, eu sou Fátima”. Eu falei: (risos) “Aff, Maria, quem não conhece Fátima Bernardes?”, eu falei, mas a humildade, né, da pessoa. Foi uma lição de humildade que eu tive, que a gente sabe que ela era a Fátima Bernardes, mas ela se apresentou, chegando para mim e se apresentou: “Não, prazer, eu sou Fátima”. Eu falei: “Prazer, sou Igor”. Foi aí que eu dei a entrevista lá, contando essa história. Fui primeiro capa do jornal Extra e eles queriam colocar isso num feriado de São Jorge, né? Foi matéria de “Salve Jorge”. Flamengo ganhou um... Tinha acabado de ganhar um jogo e logo abaixo vinha a Safira, né? Flamengo e embaixo, a Drag Pedreira. E foi maravilhoso, porque a vida mudou, a vida teve avanço, né, essa oportunidade. E como tem muitas "drags", hoje, ganhando espaços no ramo da comédia, (áudio travou) da Gloria Groove, né? Temos outras "drags" na comédia também: a Emma Salvatore, que foi capa da revista Elle. Então, a gente quer mais “drags” ocupando esses espaços, né, porque são... Não deixa de ser artista, não deixa de se maquiar, de fazer a alegria do povo. Mas que a vida mudou, mudou. Dei muita oportunidade, estou ganhando oportunidade até hoje com essa história. E a gente, como eu te falei... No começo, lá, da entrevista, eu falei: “A gente trabalha com tudo que aparecer, entendeu? O negócio é fazer fumaça...”.

P1 – Você deu uma entrada maior nas redes depois desse... Dessa...

R – Ah, eu tive… Tinha só para fazer... Porque os meus amigos pediam, né? Todo mundo estava fazendo e eu tinha, para poder até divulgar o trabalho mesmo, da "drag", né? Mas sem essas intenções, assim, de ser "influencer" - que hoje todo mundo tem -, eu falei: “Não, não quero ser famoso não, que a fama também, se você não souber administrar isso, ela te engole e bota na depressão. Não quero ser famoso não, só quero ficar aqui no meu cantinho, fazendo as minhas coisinhas”, entendeu? E tudo isso explodiu de uma maneira que eu fiquei assustado.

P1 – E a Safira começou a ser mais requisitada para "shows", eventos? Como foi essa virada?

R – Muito! A Safira foi... Aí que a Safira foi chamada para "shows" mais sérios, né? O próprio assistente de produção da Globo chamou a Safira, né, para participar, como se fosse uma "drag" da boate. De... Da produção [da série] "Eu, a Vó e a Boi", né? Eu ganhei oportunidade também de ser umas das "drags" lá da Globo. Então, qualquer coisa que estiver relacionado a "drag", eles me chamam também, né? E fiquei como, sendo... Qualquer coisa, me chama para produções em série. Como eu havia falado, ganhou participação em um filme. Qualquer coisa relacionado a "drag", assim, a galera me chama: “A 'drag' da Globo aí”. (risos) A gente vai.

P1 – A gente estava falando sobre, né, o filme, que você participou. Eu queria, então, te perguntar como aconteceu o convite [e] quando isso aconteceu? Como foi a experiência para você?

R – Foi uma experiência muito gratificante, porque eu fui chamado... Muitos convites estavam surgindo e eu comecei a ficar assustado, né? Depois dessa parte da Globo, aí chamou o rapaz: “A gente, é, [está] pra fazer um filme contando a história da sua vida, mas tem seis rapazes também que a gente quer contar a história da sua vida, né?”. E foi legal que o filme rendeu um dinheirinho: eles pagaram cachê. Tanto que eu bati a laje, né, consegui bater a laje. Aí foi... Essa história da laje está até no filme. Foi bacana. E o convite surgiu pelo Instagram, o diretor chegou para mim: “A gente gostaria de contar a sua história”. Então, ele pegou a história de homens que sofrem preconceitos, né, mas são homens que são afeminados. Eu sou homem, às vezes, eu estou de terno; às vezes, sou muito afeminado; às vezes, estou de brinco, estou de anel. Eu sou de fases, assim, é o período que eu estou. Então, a gente contou essa história da Drag Pedreira, da construção da minha casa. Me fez ser a drag do palco, né? E contar a história de outros jovens, de outros estados também. A gente queria lançar esse filme, porque a gente quer que todo mundo vá para o cinema, mas a gente teve que enfrentar a pandemia e a Covid-19, então não deu para a gente estrear o filme. Eu falei: “Porque também não quero, não”, entendeu? Vamos para o cinema todo mundo vacinado, né? "Não lance em lugar nenhum, quero esse filme correndo festival aí, rodando festivais", né, para a gente concorrer. Mas o filme ficou lindo, pelo que eu vi. O filme ficou lindo. Minha casa não estava nem do jeito que está hoje, né? E, assim, o filme... No fim, o filme vai ser marcante e a gente quer todo mundo vacinado dentro das salas de cinema, que é ambiente fechado, né? E quem sabe, no ano que vem. Então, o filme está guardadinho.

P1 – Eu só queria que você comentasse qual o nome do filme e o nome do diretor.

R – O nome do filme é "As Afeminadas" e o diretor é Wesley Gondim, né? Então, é um diretor bastante premiado aí. Eu fiquei feliz com as premiações dele, e o filme vai dar um impacto aí, né? Vai ser um filme bem legal, igual aqueles "Falas" da Globo, né? Foi bastante legal. Eu até fui chamado para poder participar, mas sou o tipo de pessoa que gosto de dar oportunidade para outras pessoas, né? É bom, às vezes, dar essa oportunidade para outras pessoas poderem contar a suas histórias, mostrar outros Lgbtqi+ contando sua história, né? Foi bem legal. Às vezes, sou consultado de alguma coisa: “Ah, você tem algum amigo? Tem alguém sobre essa história?”. Eu falei assim: “Vai lá até ele. pega, conta, vai até essa pessoa”, entendeu? É legal essa parte de consultoria. (risos)

P2 – A gente queria saber também um pouco sobre as suas ilustrações, como é que você as cria. 

R – Desenhos?

P2 – Uhum.

R – Eu, às vezes... Na época, às vezes, eu faço um desenho, faço alguma arte... Deixa eu ver se eu consigo pegar aqui. Está vendo? Esse aqui foi um desenho que eu fiz, ó, não sei se dá para ver. Às vezes, eu desenho... Porque a planta tem uma perna só: então criei essa mulher com essa perna só, com esse turbante, com essa flor, entendeu? Às vezes, eu desenho, crio, né, para depois surgir no figurino, que tudo muda.

P2 – E foi por causa do figurino que você começou a desenhar?

R – Sim! Porque tudo é criado. A gente se inspira nessas criações, né? Meu professor sempre fala: “Desenha primeiro o que você quer, para depois trazer isso à tona” e eu aprendi isso no carnaval, né, que foi bastante legal essa matéria de criação. Trabalho até... Trabalhando para Portela, né? Os amigos da Beija-Flor também. Aí foi que a gente cria. A gente tem essa liberdade de botar um pouquinho o que é nosso, né? De trazer à tona o que Renato Lage, o que Márcia Lage, o que os carnavalescos criam. A gente vai lá e cria e dá o nosso toque.

P1 – E me conta mais um pouco sobre essa questão da sua participação no carnaval. Você... Aconteceram... Você tem, é bem multifacetado: acontecem várias coisas ao mesmo tempo. Quando você realmente começou a se envolver profissionalmente no carnaval? Foi com figurinos [ou] antes?

R – É porque as minhas amigas, né, "drags", o que acontecia? Acontece o carnaval, lá na dispersão, no final do carnaval, né, [e] é jogado muito material de lixo fora Às vezes, é jogado um "strass", uma pena, uma fantasia jogada fora, então eu e as minhas amigas "drags" levávamos sacos de lixo preto e a gente catava lixo e, desse lixo, a gente fazia surgir a “drag”. É o lixo que sai do luxo, né? Então, uma pena era jogada fora, um rolo era jogado fora. Eu tenho amigas que já fizeram vestidos todo de uns "strass" que eram jogados fora, entendeu? Restos de fantasias. Então, a "drag" renasce - é uma fênix, né? - das cinzas: ela sai do lixo, que vai para o luxo. Como nosso diz… O grande mestre Joãosinho Trinta, né? Então, conheci muitas "drags" no lixo, catando restos de fantasia. Foi onde eu fui fazendo grandes amigos e ganhei a oportunidade, através do meu mestre Luciano Costa, um dos grandes figurinistas aí. [Ele] tem mais de 45 anos de carnaval, né, que ele tem uma "drag" também, que ele se montava desde a década de 70. Hoje, não se monta mais, que é a Silibrina Thompson, né? Então, ela falou: “Vem trabalhar no carnaval comigo”. Eu falei: “Vamos embora”. Meu professor de canto, na época, era o Flávio: “Vai, vai trabalhar no carnaval, aprender coisas de carnaval”, entendeu? Quando eu cheguei no carnaval, fiquei apaixonado com aqueles carros de oito, dez metros, aquelas criações todas, sabe? Aqueles materiais de brilho. É muito trabalho. Carnaval é trabalho à beça, mas eu amava criar. Eu chorava, choro na avenida quando vejo minhas fantasias passando no setor 1 e todo mundo vibrando, né? E eu choro também quando o folião recebe uma fantasia minha e começa a chorar também, porque ele esperou por aquilo, é o momento dele, de todo mundo brilhar juntos. A gente fica muito feliz. Foi assim que eu comecei a entrar no carnaval, né, nessa salada toda aí.

P1 – E sobre o candomblé, você acha que ainda tem uma influência muito grande no seu trabalho?

R – Sobre o candomblé? Sim! Eu tenho muitos amigos que são candomblecistas, hoje, devido a... Ano que vem, eu vou partir, fazer roupas de candomblé, né? Eu estou tentando junto com um amigo meu, Alexrandre Cheuen, da gente fazer um livro, né? Estudar a história da roupa do candomblé. O porquê da bata, o porquê da baiana, entendeu? Porque até como se faz, o porquê tem que ter aquele recorte, né? A gente está pensando em fazer esses estudos e em fazer até roupa de santo, para poder vender, né? Toca-lhe fazer dinheiro. A gente (risos) fazer uma saia, uma baiana, tem que fazer.

(P1 – E eu queria que você comentasse, contasse um pouco para a gente a respeito desse período da pandemia: o que acabou alterando na sua carreira, nas suas atividades diárias.

R – Então, a pandemia, né, fez, tipo assim: quem tinha plano B se deu bem, quem não tinha, infelizmente, teve que esperar, né? Fazer o quê? Influenciou, porque, por exemplo, eu tinha... Era onde eu ia dar uma guinada na minha vida, falei: “É agora! Vai bombar, botar tudo para o alto”. Aí chegou. Porque eu tinha arrasado, né, no carnaval. O pessoal gostou do meu trabalho, meu amigo Luciano Costa também, então, quando veio a pandemia, tudo mudou, né? A gente teve, infelizmente, que esperar econômica e financeiramente, né? Tudo ficou caro, as pessoas reservaram o dinheiro, as oportunidades de trabalho se fecharam. Foi onde que, em 2019, 2018, que eu fiquei pensando: “Caraca, imagine se eu não tivesse comprado as minhas máquinas? Imagina se não tivesse feito um espaço de costura? Se eu não tivesse investindo dinheiro?”, né, sei lá, fazendo qualquer coisa. Porque o meu trabalho era externo, entendeu? Mas eu sempre tive aquele pensamento de poder trabalhar em casa. Se não fosse essas máquinas, eu tinha endoidado: foi uma fonte de renda. Foi uma jogada, assim, muito boa, e eu falo isso para qualquer pessoa: “Ó, aprende fazer bolo, um empadão", porque se a situação ficar triste, vende bolo, empadão, né? Aí aprende a fazer uma margem. Sempre, nós trabalhadores, temos que ter um plano B, entendeu? Para poder… O trabalho do "home office", [eu] já tinha essa ideia, de trabalhador "home office, de trabalhar em casa. Tanto que até hoje estou estudando dublagem, que agora o estúdio de dublagem é feito dentro da própria casa, né, com espaço, com internet. E é essa a minha ideia, de fazer meu atelier, fazer as minhas roupas, né, e botar para vender. Trabalhar em casa, não trabalhar mais na rua ou algo assim, mais reservado. Que a gente trabalhando em casa, a gente se sente mais à vontade, né? A gente faz o nosso tempo: toma um café, faz uma pausa. Não tem aquela pressão de trabalho por causa da hora. 

P1 – E agora, você... Vou puxar essa questão da dublagem. Isso começou quando? De onde veio seu interesse? Me conta mais alguns detalhes sobre isso.

R – Isso vem desde criança, né, que eu cantava as musiquinhas da Disney. Pelo fato de ser ator, tal, e os teatros terem se resumido, o que é uma pena, os teatros fechando. Então, eu já tinha essa gama de ator, né, através do ator, através do ator transformista. Eu tinha essa formação de canto lírico e aí falei: “E agora, onde eu vou jogar isso?”, né? E eu sempre fui apaixonado por dublagem e por fazer vozes, né, por estar no ramo da atração teatral. Eu tenho até uns amigos que são de dublagem, que me apoiaram também; minha madrinha, que é a Mônica Rossi, [faz] a Meredith de "Grey's Anatomy", né? Tem a Carol também, [que é] também é médica socorrista, entrou na batalha do Covid-19 - [médica e] dubladora -, também me apoiou à beça, me ajudou muito. Agradeço muito a ela, entendeu? E a gente está nesse ramo aí, estamos caminhando. A jornada é um pouquinho longa, mas a gente tem que estudar bem para apresentar um bom trabalho. Só quero que seja perfeito, que eu sou perfeccionista. Coisa de virginiano, entendeu, para a gente nada está bom.

P1 – E você tem feito, então, os exercícios "online" mesmo, né? O curso, você está fazendo pela internet?

R – É, sim, "online". Tem presencial também, mas ele é um pouquinho longe, né, então vou gastar tempo e passagem. Nesse começo ainda não é tão válido, não, entendeu? E a gente tem que tomar também determinados cuidados. Deixo o presencial mais para quem está, segue esse protocolo, né, álcool, horários. Porque é dublagem, a gente lida igual canto, teatro. Haja voz falando. Sem máscara... Não tem como botar uma máscara aqui e dublar. A gente lida com respiração, né, lida com ar, com ambiente, microfone, então tudo tem uma aparelhagem. A gente se resguarda um pouquinho, faz "online" mesmo, entendeu? Mais um trabalho, mais uma extensão "home office" que eu estou querendo fazer.

P1 – A gente vai para as últimas perguntas, Igor: quais são as coisas mais importantes para você, hoje em dia?

R – Hoje, as coisas mais importantes... Em relação a qual área que tu quer? Tudo?

P1 – A que você quiser: pessoal, profissional, o que realmente você acha, hoje em dia, que é importante, que você não fica sem.

R – Ah, hoje, é o meu trabalho, né? Eu trabalho também como "sushiman", (risos) de quatro à meia noite, que nessa pandemia me fez, tive que voltar para a cozinha, né? A gente teve que voltar para a cozinha, pegar esses extras, para poder aumentar a renda, né? Porque tudo ficou caro: tecido, a laje. As contas chegam e, se chegam, precisam ser pagas. E eu, assim, tem uma... Eu tenho, entre aspas, como todo mundo tem, todo mundo tem os seus luxos, né? Eu gosto de comer bem, gosto de internet. Isso tudo tem um preço, um valor, então a gente tem que trabalhar mais, né? Felizmente, é o trabalho que eu gosto, me sinto bem no meu trabalho, entendeu? Queria estar trabalhando em casa, fazendo altas produções, altas roupas, mas o carnaval também parou. Não dá para fazer uma festa sem vacina, né, não dá para fazer essa festa sem vacina, tem que todo mundo estar vacinado pra gente produzir carnaval. Então, se tem carnaval, tem dinheiro; não tem carnaval, não tem dinheiro [e] como produzir, entendeu? Então, a gente teve que 'se virar nos trinta', né?

P1 – E quais são seus sonhos para o futuro, Igor?

R – Olha, meus sonhos para o futuro, eu tenho, assim: ser um grande profissional no ramo de dublagem, ser um grande figurinista, né, trabalhar na minha casa, aqui na casa que eu mesmo construí, né? Ser um bom profissional, trabalhando da minha casa, fazendo figurino, coisas de carnaval que eu gosto, fazendo as coisas que eu amo. Pretendo, um dia, formar uma família, deixar tudo para minha herdeira, né? Eu sonho ter uma filha chamada Safira, né, que acho vai ser esse nome que eu vou pôr nela. Ela vai ser herdeira disso aí, né? Às vezes, eu fico… Temo em colocar, ter uma... Como eu posso dizer? É porque o mundo caminha, né? Graças, assim, ao universo, a gente está tentando, batalhando, mudando isso, que é difícil, né? É difícil, porque eu queria que o mundo não fosse tão bifóbico, tão homofóbico e que tivesse essas violências todas de agressão, né? E a gente sonha com um mundo com isso. Eu sonho com esse mundo e não ter mais [preconceito], igual eu sofri. Na época, por ter estacionado, né, a homofobia... Hoje, um pouco de bifobia, né? Então, a gente sonha por esses lados: lado profissional estar bem e esse lado, né, pessoal, não sofrer tantas coisas que eu sofri no passado.

P1 – E quais os sonhos da Safira, para o futuro?

R – Ah, meu filho, Safira... Se eu dependesse... Se eu for… Se a Safira fosse falar, queria estar em Nova Iorque (Estados Unidos), Safira queria estar com uma taça na mão, ir para a Itália, tomar banho lá na Fontana di Trevi, entendeu? Eu, no futuro, aos 55 anos, quero estar rodando o mundo, estar conhecendo vários países: Egito, África, fazendo trabalho humanitário, essas coisas, né, dando rodada no meu Brasil, comendo cuscuz lá no nordeste, acarajé na Bahia. Agora a gente tem que trabalhar, né? Vamos ver, tudo pode acontecer.

P1 – Então, vamos para a última pergunta, Igor, como foi contar a sua história para a gente, hoje?

R – Ah, eu fiquei feliz, fiquei gratificante. Espero que essa história sirva de empoderamento para muitos Lgbts, né? A minha bandeira de bissexual, para que todos os bissexuais tenham visibilidade, que a gente precisa da visibilidade bissexual como uma forma de empoderamento, né? Que tantos preconceitos que surgem na vida: que a pessoa seja essa pedra resistente, né? Que use resiliência, sabedoria, para poder dar a volta por cima, entendeu? A gente… Deixa os inimigos perto, para eles poderem ver a vitória. Foi isso que eu fiz: deixei os meus inimigos perto, para poder, eles, assistirem. Então, gente que foi homofóbico na época que eu tinha estacionado na letra G - hoje eu sou um homem bissexual, né? -, eu deixei a galera toda estacionada. E quando a galera viu a explosão da Safira, todo mundo quis se achegar, eu falei: “Você não, você fica aí”. Todo mundo virou… Olha, surgiu amigos que eu nem sabia de onde veio. Eu falo igual a Elis: “Só vai tomar do meu 'champagne' quem se fodeu comigo”, entendeu? (risos) Então, eu os deixo assistirem. Como forma de empoderamento, a minha vontade é que todos os Lgbts que foram expulsos de casa possam comprar sua casa, viver no seu espaço muito bem, possam construir as suas casas, né? A gente quer que as mulheres trans vivam até os 70, 80, 90 anos, né, que a gente precisa de mulheres trans, homens trans aí no mercado de trabalho, como modelos, como artistas, como atores de novela, né? A gente quer mais espaço para empoderamento para as pessoas poderem seguir em frente, tocarem suas vidas [de forma] normal, como tudo... Como todo ser humano tem esse direito, né? Então, que fica aí um empoderamento de crescimento. Acho que a Safira sempre passa essa mensagem: ela deu a volta por cima, renasceu das cinzas, foi expulsa de casa, mas construiu uma casa, entendeu, onde a felicidade dela pudesse habitar, né? Aquela joia bruta foi se lapidando até se tornar a joia mais bonita, mais bela, e está aí.

P1 – Então, em nome do Museu da Pessoa e do Projeto Diversidade da Colgate, agradeço muito. O seu depoimento foi incrível! Muito obrigado!

R – Gente, obrigado, Desculpa por não estar de "drag", porque as coisas da Safira estão guardadas, mas a gente [vai] ter muitos encontros aí, muitas coisas legais, se esbarrar. Depois de todo mundo vacinado, a gente senta num bar e toma um vinho, discute sobre política - se quiser discutir sobre política -, música, vamos para o cinema, a gente... Eu agradeço o universo por essa amizade de vocês três, tá bom? Obrigado e, se precisar, estamos aí.

[Fim do depoimento]

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