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História

Dr. dos Alicates

História de: Sussumi Mukotaka
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/04/2005

Sinopse

A infância e adolescência no interior de São Paulo foram marcadas pelas brincadeiras na roça. Quando migrou para a capital trabalhou em uma farmácia e, posteriormente, num banco. Entrou no ramo da afiação de alicates, ofício que aprendeu com o pai, conta as estratégias para conseguir clientes, o porquê do apelido “Dr. dos Alicates” e os requisitos necessários para um afiador de facas.

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História completa

P - Para começar a entrevista, diga o seu nome completo, data e local de nascimento.

R - Eu me chamo Sussumi Mukotaka, nascido na localidade chamada Novos Cravinhos, distrito de Pompéia.

P - São Paulo?

R - É, estado de São Paulo.

P - Que dia?

R - Aos 22 de janeiro de 1938.

P - O nome dos seus pais?

R - Papai, Hideo Mutotaka e minha mãe, Shimo Mutotaka.

P - Aonde eles nasceram?

R - Nascidos na região de Airagun, Kamocho, província de Kagoshima, Japão.

P - Tem irmãos?

R - É, somos atualmente quatro irmãos, dos quais três estão na atividade que estou, que passei a eles, mas que inicialmente herdei do papai e passei aos irmãos também. Como não sou tão egoísta, passei para certas pessoas da faixa etária que não conseguem emprego. Então, um pensamento: "Todo mundo tem direito a um lugar ao sol." Vamos dizer, meu local de trabalho tem sido uma verdadeira escola. Até imaginei passar para o SENAC a recomendação dos cuidados com os materiais, instrumentos como o alicate, a tesoura, que na maioria dos casos as pessoas danificam por falta de cuidado. Por mais que a gente faça um serviço esmerado, depende muito do cuidado das pessoas que utilizam esses instrumentos. De forma que até pensei em passar esses conhecimentos para uma escola de cabeleireiro, um SENAC, para retransmitir isso para os iniciantes que cursam a profissão de cabeleireiro, manicure, enfim.

P - Senhor Sussumi, gostaríamos de voltar um pouco...

R - Ah, pois não.

P - ... para o senhor falar um pouco da sua infância, como era a casa aonde morava?

R - Olha, chego a imaginar que talvez a gente tenha uma tendência vocacional para a profissão que hoje me dedico, pelo seguinte: recordo que na minha infância passamos uma fase tão pobre que nunca ganhamos brinquedo algum. A gente confeccionava. E esses brinquedos que a gente confeccionava, tenho lembrança que eu confeccionava sempre com uma moldagem mais bem feitinha. Com isso dá para imaginar que a gente de fato tinha uma tendência vocacional para um trabalho de arte

P - Senhor Sussumi...

R - Pois não.

P - Q ue tipo de brinquedo confeccionava?

R - Ah, era rudimentar, assim, automovinho... esperava a mamãe terminar o carretel de linha. Quando papai ia para a cidade, pedia para trazer tampinhas dos refrigerantes. Juntava, fazia uma camadinha para ficar mais grossa, fazia de rodinha. (riso) Aquilo, enfim, um estilingue, revolvinho de "tacar" feijão, que não sei o que, um bodoquinho, sabe, arco de "tacar" flecha, que não sei o quê. Enfim, a gente se distraia com esses brinquedos confeccionados pela gente mesmo.

P - Qual era a profissão do seu pai?

R - Ah, é bem lembrado. Papai (riso) possuiu as aparelhagens de afiação muito antes de eu nascer (riso) devido à necessidade da profissão que exerceu anteriormente, de barbeiro. Então, havia pouco recurso para cuidar dessas ferramentas e com isso, penosamente, devo ter aprendido praticando com faca, tesoura da casa, das vizinhanças e...

P - Ele era afiador de...

R - Bom, papai tinha uma certa noção de lidar com corte porque no Japão teve madeireira. Então afiava serra, formão, plaina, essas coisas de carpintaria, né, e não sei se por puxar um pouco papai, tinha uma versatilidade de executar qualquer tarefa que surgisse: de pedreiro, carpintaria, enfim.

P - Acompanhava seu pai, ele que o ensinou a mexer com a afiação de...

R - É, inicialmente.

P - ...de tesouras?

R - É, comecei ajudando e depois, não que queira jogar confete em mim, mas superei o trabalho do meu pai. (riso) E por fim até pedi para o papai se afastar, que eu não, não me conformava mais com o trabalho do pai, né? (riso)

P - Mas, quantos anos tinha quando começou a aprender o ofício?

R - Já 23, 24 anos.

P - Antes disso estudou em alguma escola, ou qual foi a sua formação?

R - Bom, estudei primário, o ginásio, comecei a fazer colegial técnico, mas colega que ia junto parava no meio. (riso) E eu ainda insistia, né: "Não porque o colega parou, devo parar." Mas é, colega gostava de fu..." Ah, vamos...." Mesmo a classe quando tinha futebol à noite:" Ah, vamo emend..." Faltava professor da segunda aula, que não sei o quê, daí emendava, cabulava o resto da aula. (riso) E por fim, tinha um professor rigoroso que dava tarefa nas férias e queria trabalho feito, senão... aquilo (riso) na nota lá e faltar à aula... Enfim, para ficar tudo 100% pedindo a matéria dada para o colega, ficava chato. Dois anos eu fui, até o meio do ano, e acabei desistindo. E uma coisa. No Interior cheguei a trabalhar na farmácia, fazendo tiro de guerra, estudava à noite, ainda fazia curso por correspondência. Tinha uma força de vontade tremenda. Cheguei aqui em São Paulo mais a propósito de estudar e acabei parando.

P - O curso de correspondência era sobre o quê?

R - É, taquigrafia. Era meio lerdo em copiar o que o professor ditava, então a gente, sabendo grafia de abreviações, dá para acompanhar mais. Com esse intuito, né? (riso)

P - Quando estudava também trabalhava ou só se dedicava aos estudos?

R - Não, sempre trabalhei. Família foi pobre, a gente tinha que dar uma ajuda à casa.

P - Na farmácia, como era?

R - Farmácia foi penoso para mim. Trabalhei em épocas que se aplicava injeção domiciliar. Naquela noite de frio, chuva, a época que a penicilina tinha cristalina de ação curta, três horas. Ih, meu Deus do céu, penei.

P - Com quem trabalhava? Quem...

R - Tinha um mestre, né, ele tinha talvez um curso bem adiantado sobre medicina, tal. Era considerado doutor, ele. Acompanhei e aprendi muitas coisas com ele. E também quando vim a São Paulo, com sete anos de prática de farmácia, copiei a matéria de um colega que prestou exame para oficial e estava afiado, na ponta da língua, afiadíssimo para tirar diploma, pelo menos de oficial de farmácia. Estava capacitado para isso. Mas o trabalho sete anos sem registro, me disseram que se houvesse uma comprovação de que tivesse trabalhado pelo menos um ano, um ano e meio... Ah, eu podia pedir uma declaração para o patrão que ficou no Interior, mas deixei para lá e acabei não prestando exame de oficial de farmácia.

P - Por que veio do Interior para São Paulo? Qual foi o motivo da mudança da família?

R - É que vários parentes já estavam em São Paulo. E antes da mudança da família já estava aqui um irmão, e as tias recomendaram chamar a família.

P - Quais foram as primeiras lembranças de quando chegou a São Paulo? Como era a cidade, o que lhe chamou mais a atenção?

R - Sei que a gente se perdia facilmente, que todo lugar que andava parecia a mesma coisa. (riso) Fui tirar carteira de trabalho na Martins Fontes, depois vim costurando a Bela Vista, cruzei pela rua que onde estávamos residindo. Fui reparar que havia passado da minha casa só quando cheguei na avenida. (riso)

P - Em que bairro veio morar?

R - Liberdade, quase na São Joaquim. A Condessa de São Joaquim cruza a Conde São Joaquim e eu só dei por fé quando cheguei na Avenida da Liberdade, quando percebi que já havia passado próximo à casa.

P - O senhor falou que veio com 7 anos?

R - Não.

P - Com quantos anos veio para São Paulo?

R - Não, para São Paulo vim com 20 anos.

P - 20 anos?

R - 20 anos.

P - Que tipo de trabalho procurou então? O que fez quando estava aqui?

R - Inicialmente, trabalhei um mês em uma farmácia. Meu pai queria que eu fosse trabalhar no ramo de farmácia porque, quando papai montou barbearia, na parede vizinha - que até meu pai ajudou a fazer as prateleiras da farmácia - esse patrício dele progrediu com a farmácia. Em japonês fala: "Soreko So Bai Jakuso Jakubai". É o seguinte: remédio, manipulação, dá para se ganhar 90, 900 vezes mais, a lavoura grande de semente multiplica 100 vezes mais, né? (riso) Por essa forma, papai ficou contente quando entrei de aprendiz de farmácia. Na farmácia eu gostava do trabalho em si, sabe?

P - O que fazia?

R - Ah Olha, fazia manipulação de pomada, cápsula, enfim, hoje tem tudo pronto, né, mas antigamente manipulava. Cheguei a ter acesso, assim, de manipulação até de derivado de morfina, que era de responsabilidade de um farmacêutico. Aplicação venosa, contra raiva, apliquei injeção de penicilina até para galo-de-briga depois da briga, todo machucado , cachorro, gato, cavalo. Iche, às vezes fazia até parto, (riso) no Interior.

P - Como foi isso?

R - Então, num lugarejo assim , sem médico, tal. Meu mestre era considerado quase médico, fomos chamados para fazer parto.

P - E o senhor teve um pouco de...

R - É, ainda era garoto, (riso) aquilo era meio chocante.(riso)

P - Lembrando um pouco dessa fase aí de garoto, jovem, como conciliava o trabalho com a diversão, com as coisas que gostava de fazer?

R - Olha, desde criança a gente tinha uma ocupação de responsabilidade. Voltava da escola primária, antes de ir já tinha as obrigações a cuidar: água do poço de sarilho, enchia a tina de casa, japonês toma banho de tina, assim, imersão. Aquilo também ia três a quatro baldes, criação, né. Na minha infância escolar e primária tivemos criação, porcos, cavalos, tinha que carregar balde assim (riso) que nem um bêbado, assim, até levar no cocho do animal. Também irrigar a horta em volta da casa, iche, aquilo era obrigação diária, e também trabalhar pesado com carroça, arar a terra, pulverizar, né, que lagarta, as pragas não dão trégua, é feriado, domingo, tem que ...

P - Desde que idade começou a ajudar lá na casa?

R - Possivelmente já 8, 10 anos, já tinha aquelas obrigações severas mesmo, sabe?

P - Fala um pouquinho da sua mãe , que até agora só falou do seu pai.

R - A minha mãe era uma santa, papai era rígido. Chegamos a apanhar com um tal de ribachi que é de catar brasa assim, sabe, vareta assim de catar brasa. Ficava vergão nas costas. Que garoto quer brincar, quer brincar, chamava uma vez (hi hi) sim, sim, mas até obedecer, fazer a obrigação da gente, tinha que chamar três, quatro vezes, aí eu vinha. (riso) Mas não me queixo da vida difícil que a gente passou. É até bom.

P - E a vinda aqui para São Paulo? Ficou pouco tempo na farmácia?

R - Ah, aqui em São Paulo, que eu trabalhe...

P - É, aqui em São Paulo, é.

R - Somente um mês. Eu queria mesmo estudar. Então pensei: "Vou trabalhar em um banco, onde tem mais espaço para o estudo," enfim. No entanto, tem muita influência os colegas, viu. Eu que era esforçado, estudava, trabalhava, estudava à noite, fazia curso por correspondência, enfim, cheguei aqui para, só posso ter explicação pela influência do colega: "Eh, vamos no jogo, vamos no cinema", jovem acaba influenciado por outro colega.

P - Naquela época, quando queria se aproximar de alguma moça, como era?

R - Iche. Quanto a isso a gente era caipira. (riso) Mal botava a mão no ombro dela, e lembro vagamente que a moça, as mulheres eram mais, nessa matéria de amor, assim, elas eram mais "pra frentex", mesmo na nossa época. E a gente era tímido, sabe, (riso) mal botava a mão no ombro, assim. (riso).

P - Namorou bastante antes de se casar ou era uma pessoa mais intimista, mais preocupada com...

R - Namoro, assim, é?

P - O primeiro namoro sério foi com a sua esposa?

R - Ah sim, acho que sim. É, já estava mais amadurecida. Inclusive eu gostava de gente mais madura, enfim. Não era do tipo que gostava dessas meninotas mastigando chiclete, eu tinha até alergia, sabe?(riso)

P - Depois de sair da farmácia, o que foi que fez?

R - Banco, bancário.

P - Quanto tempo?

R - Três anos.

P - O que fazia no banco, qual era o banco?

R - Trabalhei num banco chamado Banco Federal de Crédito, é, deve ser o atual Itaú, porque o Olavo Setúbal, enfim, eram os diretores, Oswaldo Aranha. Passei uma fase gostosa, fazia excursão, time de futebol. Trabalhei três anos, primeiras férias em dinheiro, segundas férias em dinheiro, terceiras férias tinha que tirar em descanso, gozo mesmo. Mas a gente, o salário que a gente ganhava ajudava em casa, comprava uniforme, material escolar, roupa, calça da pindaíba. (riso) Não tinha para onde ir, aí tive que arrumar um bico de venda, e esse bico de venda era de cosmético. Então, visita instituto de beleza , salões.

P - Uma coisinha: O que fazia no banco, qual era a sua função?

R - É, fazia lançamento em ficha de clientes.

P - Lançamento?

R - É, seção de contabilidade

P - Sempre trabalhou nessa seção, ou foi...

R - É, todo esse tempo trabalhei nessa seção, entrei quase como um office-boy, tal, e depois passei a...

P - Pode voltar a falar do bico que fez?

R - Ah, o bico Então, pela necessidade de um dinheirinho, tive que arrumar um bico de venda. Meu irmão caçula, que hoje está na profissão também, trabalhava de office-boy , de entregador numa loja , uma casa de cosmético. Falei: "Será que teu patrão não arruma um bico de venda? Ele me deu a lista, tal, saí para vender nos salões. Nisso aí veio a idéia de coletar serviço para o papai, para ganhar uns troquinhos de comissão também. (riso) E um certo dia veio na cabeça: "Será que eu vou tentar afiar?", que nunca havia passado na minha cabeça. Na minha infância a gente mexia apetrechos do papai para afiar canivete, enfim, no sítio para chupar uma laranja a gente não dispensava um canivete e a gente mexia nos instrumentos do papai para cuidar do canivete, simplesmente, mas nunca que houvesse passado na cabeça de aprender a afiar alguma coisa. É, mas se vê que entrei por acaso e me dei bem. Me dei bem porque talvez tinha talento vocacional para isso.

P - E o seu pai lhe ensinou?

R - É, papai se dedicava mas não era profundo conhecedor, quebrava o galho. E eu me aperfeiçoei, superei o meu pai, e hoje cresci.

P - Quando fez essa opção de entrar na área de afiador, de afiador de facas e outros materiais? Aonde foi o primeiro local de trabalho?

R - Foi demolido. Era no antigo trajeto leste-oeste, do minhocão à Radial Leste, estava na confluência da Av. da Liberdade com a Jaceguai. Havia uma vila, foi por água abaixo.

P - Como fazia para arrumar a clientela no começo?

R - Ah sim. Meu irmão caçula, que hoje também está nessa atividade, percorria Brigadeiro, Paulista, Angélica, saía no Arouche catando serviço. Além do que entrava direto nas portas.

P - Qual era a especialidade?

R - Alicate, tesoura, navalha, enfim, para ter mais quantidade de serviço. Também depois plantamos, chegamos a ter 30, quarenta e poucos postos de coleta. Até em Cuiabá, Campo Grande, Sorocaba e muitas perfumarias dentro de São Paulo. Cheguei a ter cinco, seis boys coletando e entregando. E pensei em termos grandes, empresariais, também em utilizar uma exclusividade com o Sindicato dos Zeladores, enfim, prédio domiciliar que a gente não tem acesso. Um zelador ajuda e também ganha uns troquinhos a mais. Por minha vez também me benefício em pegar mais quantidade de serviço. Pensei nesses termos. Cheguei a ter três, quatro elementos autônomos que eu terceirizava o serviço também, mas pensei: "Ou expando, ou restrinjo". Preferi restrição sabe por quê? Tive que chamar a atenção de um senhor que poderia ser meu pai. Não é que eu queira falar mal, mas tem gente que necessita de trabalho e não presta devidamente. É uma pessoa com competência, e que por ser um serviço barato, marretava. Tive que chamar a atenção dele: "O senhor tem que botar a mão na consciência, a coitada da manicure é que vai pagar a fatia minha, do senhor e do lojista, que tem que ter a comissão. Da forma que o senhor está fazendo, não está fazendo juz à coitada. O senhor está ganhando sentadinho na sua casa...", que eu mandava o garoto levar, buscar, sentadinho, em duas três horas de trabalho aí, ganha mais que muitos operários, bóias-frias, acordando quase às 5 horas da madrugada para ganhar o pão do dia. "Não estou de acordo com o que o senhor está fazendo."

P - E aí, o que o senhor fez?

R - Aí, aquilo me machucou de eu ter que falar algo a mais para uma pessoa mais velha que a gente. Então fiquei pensando: "Não tenho capacidade para sobreviver? Tenho." Queria ajudar as pessoas. Os garotos que usei também me sacaneavam. A gente fazia., digamos, cobrança semanal, vendia em consignação, e no dia da coleta do dinheiro: "Ê, o trombadinha me levou, que não sei o quê". Fiquei chateado com essas coisas, preferi voltar a restringir, ficando só com o meu trabalho. Pode ser que com terceirização, a firma, no sentido ganhar dinheiro bem controlado, pode ser que ganhe, mas não faz meu gênero.

P - Foi aí que então chamou seus irmãos menores?

R - É, na época que havia bastante loja chamei meu irmão, que ele fazia um trabalho assim, quase de gerente, enfim. Estava trabalhando de venda: inspeccionava a fábrica, fazia de tudo, era um curinga para o patrão e não estava ganhando o justo pelo que fazia utilizando o carro dele. Falei: "Não, então você vem e me dá uma retaguarda, cuida dos garotos". Dei carta branca para ele. Por fim montei uma oficina de produção e acabei passando a clientela plantada em 10, 15 anos, enfim, para ele.

P - E o outro irmão?

R - O mais velho também. É, foi duro de botar nessa área, sabe? Quem foi comerciante acha que mão-de-obra é aquele passinho de tartaruga. Comércio é pá pá pá, ele colhe o que a gente ganha em uma semana, ganha em poucas conversas. Então o meu irmão, o mais velho, não era um tipo de garra para enfrentar o basquete. É tudo querer que os outros façam para ele. Foi duro, mais falei: "Isso aqui...não existe curso nessa área nossa, ninguém ensina, é de pai para filho, pode experimentar pesquisar, ir em uma oficina de um concorrente: ô, será que não dá para ensinar meu filho, queria que aprendesse essa profissão." "Ó, negativo, não ensinam, são egoístas e não têm um curso específico nessa área. Olha, eu me especializei nesse alicate, que foi uma coisa boa, então sempre digo: "Conhecer o avanço tecnológico, os robôs computadorizados, enfim, eles fazem coisas incríveis, mas até hoje não produziram alicate em condições de uma manicure trabalhar.

P - Há quanto tempo está nessa área?

R - Aproximadamente 33 anos.

P - E nesse tempo todo mudou alguma coisa, ou o seu trabalho continua mais ou menos igual?

R - Aperfeiçoei bastante. Hoje o que produzo é um motivo de orgulho. Pela, assim, aplicação de um algo mais que faço diante dos concorrentes, tenho uma satisfação enorme. Às vezes as pessoas contestam o que falo e então digo: "Vai tirar a prova, São Tomé, rode São Paulo, vire do avesso , vire São Paulo do avesso". Alguém que contestar a minha verdade eu desafio, minha mulher briga. Eu falo, desafio minha mulher em casa, o indivíduo que contestar.

P - O senhor agora falou na sua esposa. Quando se casou, e como a conheceu?

R - Ah, sim. A minha patroa foi cliente minha, sabe. Foi trabalhar lá no salão de uma prima, todas estavam sem namorado. Então, com o pretexto de arrumar namorado, minha prima fez festinha no salão e convidou a gente, os meus amigos, tal. Aí , minha prima botou fogo: "Ó, quer namorar fulana, que é gente muito bacana", de fato minha esposa foi uma loteria mesmo, ela é bacana com todo mundo. Na minha rua é a pessoa mais querida. Chega lá: "Cadê dona. Silvina, cadê dona..." As pessoas, sou meio rigoroso no meu trabalho, sou meio durão, sabe, mas minha patroa amacia as coisas, tal. (riso) Então as clientes gostam muito da minha patroa.

P - Ela ajuda o senhor?

R - Ajuda todo mundo. Olha, difícil ver pessoa igual à minha esposa.

P - O senhor se lembra do dia do casamento?

R - (riso) Estou dizendo que tenho memória curta. (riso). Parece que foi 29 de fevereiro, uma coisa assim.

P - Mas o dia, as coisas que aconteceram naquele dia? Lembra depois, as núpcias?

R - Ah, me fez falta um carro na viagem de núpcias, não possuía carro ainda. Foi, acho que por poucos dias , o trabalho da gente segura muito.

P - Já trabalhava na área?

R - É.

P - Para aonde foram ?

R - Fomos para Águas de Lindóia, Serra Negra, bem próximo. Não podia fazer viagem tão distante.

P - Tem filhos?

R - É, um casal de filhos.

P - Como se chamam?

R - Hélio e Marina, é, são filhos até bem comportados.

P - Fala sobre eles, os dois.

R - É, no caso do meu filho, herdou meu nome. É como já havia dito antes, eu queria... Meu filho nasceu quando o Brasil foi sagrado tri-campeão. Então, em homenagem ao Pelé, que admiro muito, eu pretendia, em homenagem ao Pelé, enfim, pela vitória do Brasil, botar Hélio, não, aliás, Vítor Edson Sussumi Mutotaka. Sussumi porque tenho uma auto-crítica de mim mesmo, de quem eu sou. Se for uma pessoa benquista , humana, me daria por feliz.

P - O Edson, pelo Pelé?

R - É, queria dar esse nome Vítor, pela vitória do Brasil da Copa de 70. Edson em homenagem ao Pelé, que admiro muito como jogador, como caráter de homem, acho muito, muito gente. Sussumi, como acabei de dizer, porque sei da pessoa que sou, mas por fim pensei que no ato de uma assinatura, assim, fica muito extenso. Vou pensar num outro nome, pensei, pensei, pensei: "Se for um elemento assim central de uma rodinha, de qualquer círculo de gente"... E de fato, os colegas da faculdade sempre estavam em volta do meu filho. É, acho que puxou um pouco a gente. (riso)

P - E o nome dele, senhor Sussumi?

R - É, Sussumi.

P - Não, o nome do seu filho.

R - É, mudei para Hélio para encurtar. Hélio porque pensei: astro- rei, o sol, então se for um elemento central de qualquer roda, assim, já é uma pessoa que acho que representa ser querido, né, considerado. Já é bom. Pensando dessa forma, botei Hélio e Sussumi. Porque se for cópia de mim, já está muito bom. (riso)

P - O senhor lhe ensinou também o ofício de afiar, assim como seu pai lhe ensinou?

R - É, está interessado. Está chegando à conclusão de que, vamos dizer, é mesmo um trabalho artesanal, modesto que seja, dá para escolher, desde que se torne um bom profissional, dá para escolher o razoável. Olha, tem o pai da garota do meu filho que é um elemento, digamos, do alto, um gerente regional de banco. Meu filho estava vendo: "Acho que papai fatura mais, até". (riso) Então, se ele ganha mais, o meu ganho é continuo, sabe, não tem muita oscilação.

P - E a sua filha?

R - A filha? A filha é uma menina muito responsável também, sabe? Está empregada numa empresa japonesa multinacional, acho que querem bem a ela, sabe, dão presentes bons. A gente também procura orientar de uma forma que tenha, como se diz, não ficar faltando sem motivo, tem que ser responsável nas coisas que faz.

P - Ela não se interessa pela afiação?

R - Ah não. Minha atividade não cai bem para mulher.

P - Por quê? É muito insalubre o trabalho, é perigoso, pode, sei lá, pegar alguma doença?

R - Ah, sim, estamos muito sujeitos a adquirir enfisema pulmonar. Perdi um amigo assim, enfisema.

P - E por quê?

R - Aspira muito pó, o óxido abrasivo é nocivo, muito nocivo para... e no entanto, por ser uma atividade insalubre, a gente teria que ter uma aposentadoria em um prazo bem menor que o normal. No entanto, o empregado agora tem. Porque não o patrão? Em trabalho nosso quem é que trabalha? Não é o patrão? Não tem empregado, o patrão que tem que exercer o trabalho e o governo é injusto nessa.

P - Mas, existe sindicato...

R - Estava num sindicato patronal, que nossa área pertence aos metalúrgicos, estava sindicalizado. No entanto consultei, diz que não tem esse direito. Por que não, né? Sei que é comprovadamente insalubre.

P - E como combatia isso para não ficar, para não pegar doença, problema de saúde?

R - No ato de retífica, que levanta muito pó, a gente bota uma máscara. Teria que usar máscara direto no horário de trabalho, mas a gente fuma, aquilo incomoda, então, (riso) acaba dispensando.

P - O senhor fuma muito?

R - Fumo.

P - Desde que idade?

R - Comecei tarde, comecei aos 19 anos, por brincadeira, mas é um vício danado que preciso tentar largar. Que se não for pelo cigarro, acho, viveria um bom tempo, mas não sei não, esse cigarro vai acabar me matando mais cedo do que o tempo que eu poderia viver. Meus filhos pegam no meu pé, sabe. Graças a Deus, os filhos não fumam. A filha tem alergia, renite, meu filho tem bronquite asmática, então, felizmente, não aderiram a esse vício do pai. (riso)

P - Tem outros vícios, gosta de beber, ou sei lá...

R - Bebo até um pouco mais do que socialmente, (riso) mas no fim do dia, só. No horário comercial, evito.

P - O que faz fora do horário de serviço?

R - Reúno com os amigos, assim, de jogar palitinho, se não, bilharzinho. Depois, gosto de assistir noticiário, televisão.

P - Desde quando está no local atual de trabalho, ali na Liberdade?

R - Esses trinta e poucos anos, 33. Mudei só uma vez. Nesse local atual estou em torno de 30 anos, aproximadamente 30 anos. Que foram uns três anos até a demolição do local onde estive anteriormente, depois me mantive sempre ali mesmo.

P - Lá na Tomás Gonzaga?

R - Na Tomás Gonzaga.

P - Tomás Gonzaga, agora.

P - E seu maiores clientes, quem são?

R - É, olha, vem desde a periferia da Grande São Paulo, Itaquera, Guarulhos, Osasco, Diadema, São Bernardo, Santo André e também, olha, essa semana, semana passada, seguiu material para Bauru, hoje mandou para Curitiba, veio de Santo André, Itapeva, São José dos Campos, enfim. Até trouxe na pasta a prova do Sedex enviado para o Mato Grosso, para Santa Catarina, Itajaí, Brusque. Então, estou incentivando esse uso do Sedex que até hoje não deu pepino, não deu crepe ainda. Deu crepe assim, por um endereçamento errado que retornou, mas desde que esteja notificado certinho o endereçamento, a pessoa recebe na porta por uma tarifa baixíssima. Curitiba, 6 reais.

P - Como essas pessoas de outros lugares ficaram sabendo do seu trabalho?

R - É de boca em boca, vamos dizer. Quem fez cursos em São Paulo, conheceu a gente, por indicação talvez da escola, das lojas de cosméticos, enfim.

P - Mas o senhor me disse também que tem clientes em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia?

R - É.

P - Como é que cliente...

R - É, eu tive, podia trazer, guardando aquele, como fala, envio por correio, protocolo, eu tenho, eu trouxe papéis que a gente mandava a Campo Grande, assim, Campo Grande, Mato Grosso.

P - Mas de fora do Brasil é diferente, né, como é que um boliviano, sei lá, vinha para cá, como é que era esse contato?

R - Muitas vezes me apertava, sabe? Mandava ao portador, fica hospedado no hotel, traz 20, 30 peças, quer fazer de um dia para o outro, ou em dois ou três dias. Então, hoje estou forçando a pessoa, mesmo do Interior, que queira fazer assim dessa forma. Se não eu envio via Sedex, só que precisa um pouco mais de prazo, aí acaba deixando. E com certeza vou difundir isso. Recentemente até estava imaginando uma forma de cadastro, venho dizendo para o meu filho, que está fazendo Marketing: "Veja se não me arranja uma idéia de marketing", pensei fazer um cadastramento de quem de fato queira o meu trabalho. Cadastra cota de 5 peças, meia dúzia, 7, 8, 10, mensal, bimestral, trimestral, semestral, só que há um porém: para as pessoas cadastradas daria até uma certa vantagem, assegurava um prazo "x" . Agora, a pessoa não cadastrada ficaria à mercê da conveniência, minha possibilidade, e pagando mais. É a única forma que descobri para me valorizar. Mas então eu indago às pessoas: "Será que um médico, um engenheiro ou um advogado formado há 30 anos- que teve projeção com uma especialização, adquiriu um certo conceito bom na área dele - com certeza não deve ter se valorizado bem além do honorário inicial da carreira?" No meu caso não apliquei isso. O preço que cobro atualmente é equivalente ao preço de 30 anos atrás, que implantei há 30 atrás. Não dormi de touca? Eu pergunto. Dormi de touca, com certeza, porque podia aplicar um valor profissional um pouco melhor.

P - O senhor gosta de política?

R - Tenho alergia de uns políticos aí, que pelo amor de Deus. Ajudo uma pessoa, inclusive o candidato da gente foi vencedor. Tinha candidato, filho de um compadre do meu concunhado, mas dessa vez pedi licença para ajudar outro candidato que é amicíssimo de um colega que considero muito, sabe, e felizmente foi eleito. Ainda não o contatei após a eleição, mas posso provar que batalhei. Sabe por quê? Porque por acaso minha patroa, oferecendo o santinho para as freguesas pedindo que, se não tivessem candidato, para ajudar, cooperar com o nosso candidato, deparou com uma parenta que é sócia do candidato na empresa. (riso) Então, posso provar que só dentro da nossa família colheu, acho que em torno de dez votos. Fora os que, com certeza, com recomendação da minha esposa, dos que de fato nos admiram, uma boa parcela deve ter colaborado com o nosso candidato.

P - Atualmente o que gosta de fazer fora do trabalho?

R - O principal é a pescaria, que é uma terapia com certeza muito boa.

P - Como surgiu esse gosto pela pescaria?

R - Ah, desde infância a gente ia pescar pelos córregos, caça, pesca, é dentro do sangue, quase...(riso) Atualmente, vou muito aqui na Baixada, no canal, pesca de robalo, não pega coisíssima alguma, mas de vez em quando pesca alguma coisa a gente já volta satisfeito. (riso)

P - Senhor Sussumi, estamos chegando ao final, gostaria que falasse se tem algum sonho, o que deseja para os seus filhos, para o futuro...

R - O que poderia dizer? (riso) Bom, a gente, como todos, acho que desejamos que os filhos tenham uma segurança. Não precisa ser rico, mas alguma coisa segura para a sobrevivência, que está difícil para muita gente. Vejo, sabe, mesmo a pessoa tendo preparo, está difícil. Agora eu, felizmente, abracei essa profissão por acaso, e me realizei. Isso aqui completou, vamos dizer, para um artesão poder figurar em um depoimento desses é a satisfação máxima, porque dinheiro está em segundo plano para o caso de artista plástico, cinematográfico, teatral. O artesão, acho que a projeção do nome dele é o que mais satisfaz. E no meu caso me sinto muito satisfeito de chegar a isso.

P - Quer dizer, se o senhor tivesse a chance de fazer tudo de novo, repetiria o que fez?

R - Agora posso dizer que batalhei tenazmente para que pudesse chegar a isso que cheguei no meu trabalho, que às vezes fico pensando: "O Manuel acertou na mosca." Porque se você tiver dúvida vá aos meus concorrentes e pergunte como é o trabalho do Mutotaka, da Tomás Gonzaga. E está de parabéns porque você acertou na mosca na busca de um profissional. Não querendo jogar confete em mim mesmo, é a pura verdade. Tenho muito orgulho em afirmar isso, e é gostoso.

P - Quem...

R - Estou meio rouco, não sei (riso)

P - Quem lhe colocou apelido de "doutor dos alicates"?

R - Olha, mais essa Esse ganhei por acaso de um elemento que falou essa frase para um diretor da Wolkswagen do Brasil. Ganhou até desconto de 50% pela frase que esse senhor me deu graciosamente. No aniversário do meu amigo que está em São Carlos, que é afiador, conversando, tal: "Existe "doutor das tesouras", porque não "doutor dos alicates"? Aí, eu falei: "Posso abusar de usar essa denominação porque ostento com muito orgulho o meu trabalho. Faço e justifico o apelido, com certeza".

P - E foi aquele amigo de São Carlos?

R - Não, o padrinho ou algum conhecido dele que encontrei no aniversário desse meu amigo.

P - Tem contato com ele?

R - Já me perdi, agora, desse colega que está em São Carlos. Quando ele vem a São Paulo faz questão de visitar a gente porque é meu fã número um, como sempre digo. (riso) É uma pessoa que ficou meio deficiente. Mas os médicos até admiraram a recuperação que conseguiu pela vontade de trabalhar no que gosta, sabe? Não está totalmente recuperado, mas o que ele faz, daquela forma defeituosa, meio com fala deficiente, muita gente acha que é de tirar o chapéu.

P - Quais são, na sua opinião, os requisitos para uma pessoa fazer o trabalho que faz?

R - Em primeiro lugar, percebo que requer um talento vocacional, muita perseverança, senão pára no meio do caminho, que é dificultoso. Muita concentração, habilidade e conhecimento técnico, o que utilizar para cada finalidade, certo?. Se não, tem certos casos que se não for utilizado o abrasivo adequado não sai nada, estraga o material. Um torno, um trambolho de máquina, o bits não estando em bom funcionamento pode danificar a peça a ser torneada, certo? São mais ou menos essas coisas.

P - Atualmente, com quem o senhor mora?

R - Minha esposa e os dois filhos, né?

P - E hoje como é a sua rotina, o dia- a -dia?

R - A rotina é levar trabalho para casa (riso) e não me sobra tempo para muita coisa. Que o trabalho prende muito, é muito trabalho para mim. Depois da volta da pescaria trabalhei, trabalhei no dia da eleição, trabalhei domingo e horas mais estendidas no dia normal também.

P - O senhor acha...

R - Mas eu gosto. No dia que trabalho, o dia voa. Acho que é, com certeza, porque a gente gosta do trabalho.

P - Tem saudade do passado?

R - Ah, tive infância assim gostosa também. É o sítio que fizemos. Depois de uma fase difícil, arrendamos de um tio e acabamos adquirindo um sítio modelo, no meu entender. Olha, até que meus pais souberam levar as coisas sem recorrer a financiamento bancário, é. Formamos dois pastos para revezamento do gado, chegamos a ter 60, 70 cabeças de gado. Um mangueirão, acho que erraram quase um hectare, hectare não, um alqueire, não é hectare não, cercado na pura rueira, era mangueirão semi- pasto que tinha animais de tração soltos. E tinha três alqueires de bananal, só que a broca acabou com ele em pouco tempo. Então, raciocinando hoje, até que se sabia fazer aquela rotatividade de cultura para não depender de financiamento. Quando a gente se apertava, vendia uma cabeça de gado para o açougue. Tinha engorda de meia ceva, aliás, ceva magra, meia ceva, ceva gorda, porcos para mandar para o açougue, e pagava a mão-de-obra da colheita para os bóia-frias. E tinha sempre fixo, 3, 4, 5, 6, peões...

P - O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa, antes de...

R - Ah, acho que já estou satisfeito com...(riso)

P - O que o senhor achou da entrevista?

R - Achava que (riso) eu ficaria, daria um branco por não estar habituado a isso. Mas, por haver contatado com vocês isso me desinibiu um pouco mais. (riso) Até me estranho que até falei demais. (riso)

P - Muito obrigado pela atenção.

R - Obrigado vocês, fico muito satisfeito em dar meu parecer aqui

P - Obrigado.

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