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História

Dos secos & molhados às ferragens: a Casa Sampaio

História de: José Ferraz Sampaio Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/03/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família. Breve descrição da atividade de seu avô no ramo de secos e molhados anteriormente ao ramo de ferragens, junto a inauguração da Casa Sampaio em 1936. A visão de seu avô para os negócios e a tentativa de inserir os filhos no ramo e o seguimento do legado através de Juarez, pai de Neto; A Infância tranquila de Neto no condomínio Shangri-Lá. As idas na igreja de domingo e o almoço em família. A adolescência reservada e as idas ao shopping. As divergências e conflitos familiares, o ingresso de Neto na faculdade e na Casa Sampaio; o fim da sociedade com os tios e a mudança da loja da rua Batista de Carvalho, para a Rua 1° de Agosto, se mantendo no centro comercial da cidade. A consolidação da Casa Sampaio no ramo de ferragens, a clientela fiel e o investimento no setor da indústria. O aprendizado com a pandemia, bem como, estratégias para lidar com esse momento delicado. O planejamento para as vendas online e e-commerce. 

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História completa

          Meu nome é José Ferraz Sampaio Neto, e eu nasci em 14 de setembro de 1988. Os meus pais são Juarez Vieira Sampaio e Maria Terezinha Jorge Abreu Sampaio. O meu pai tem uma ascendência portuguesa distante, mas ele é brasileiro, bem como minha mãe. Eu sou nascido e criado em Bauru.

          Eu estudei num colégio não religioso, mas de formação batista, que é o Colégio Batista de Bauru. Então, na minha infância, eu me dediquei ao estudo e só comecei a frequentar a loja, Casa Sampaio, anos mais tarde. Eu sempre morei com os meus pais. Minha família é pequena: só eu, minha mãe e meu pai. E nós sempre moramos no Shangri-la, que é o primeiro condomínio de Bauru. Ele era originalmente um condomínio rural - os terrenos têm uma característica de ter metragens grandes, não havia muro, era cerca viva. E a gente pegou ali a transformação urbana, pois a Avenida Comendador José da Silva Martha era uma via de mão única ainda. Então, eu vivi num contexto que não digo ser totalmente rural, mas também não tão urbano. Era meio a meio.

          Na época de faculdade, eu ingressei na ITE em 2008, no curso de Administração de Empresas, e gostei muito. Em seguida, fiz também Ciências Contábeis. Então, isso te permitia o aproveitamento de disciplinas, por isso eu fiz em dois anos. E foi muito natural, pois como eu sou filho único, eu vi que só caberia a mim dar continuidade aos negócios! Aí, logo que eu entrei na faculdade, já comecei a trabalhar na empresa - em 2008.

          Meu pai não fazia, por exemplo, compras da empresa, não fazia necessariamente vendas, mas ele fazia todo o controle, que era uma espécie de auditoria interna, e eu enveredei por essa área. No passado, nós não tínhamos concorrência e dominávamos a área de ferragens e ferramentas aqui em Bauru. Hoje nós temos mais de dez, 15 concorrentes aí no nosso segmento.

          Mas a gente vai aprendendo as particularidades do negócio no dia a dia. Os fornecedores, por exemplo, eles têm as peças com polegadas, com centímetro. (risos) Então, cada segmento tem a sua particularidade, mas ninguém me ensinou isso propriamente dito. A gente vai vendo, tem a curiosidade de aprender, e é tudo na prática.

          Meu pai faleceu em 25 de dezembro de 2019, num Natal. E na véspera do Natal, ele estava na loja. Ele não vinha cedo trabalhar, ele tinha horário mais reduzido, mas estava na loja até o último dia de vida dele. Eu falei que ele era tão comerciante, que faleceu num dia em que não precisava fechar o comércio, que não ia atrapalhar a venda da loja. Até nisso ele pensou! Porque a vida dele foi o comércio, e eu não lembro de meu pai ter faltado na loja nenhum dia, pois ele era muito rigoroso em certo sentido.

          A gente tem geração X, Y e Z aqui na loja; tem todas as gerações aqui. (risos) Nós temos funcionários com mais de 30 anos de casa, pessoas que se aposentaram e continuam trabalhando comigo. Este ano, dois se aposentaram, mas continuam comigo, e não são raros esses casos. É uma geração que pode não dominar essa parte de informática, não ter tanta familiaridade, mas eles têm uma constância, têm conhecimento, sabem falar, escrever. Os mais novos, hoje em dia, têm uma dificuldade enorme em falar e escrever, por exemplo, porque tudo eles digitam.

          A loja foi fundada em 1936, e quando completou 75 anos, meu pai escreveu um livro. Ele decidiu escrever um livro contando a história da família e da empresa, paralelamente, pois na empresa familiar as duas coisas se misturam. Esse livro foi escrito pelo Irineu Bastos, o historiador. Ele foi o ghost writer do livro. O ‘seu’ Irineu é filho de um ex-prefeito de Bauru. Então, ele também é bauruense das antigas e ajudou com muita propriedade a escrever a história da família, pesquisar documentação, fotos, e fazer esse compilado num livro, que foi o Sampaio, 75 Anos.  

          Antigamente, o meu avô ia fazer compras em São Paulo - isso era comum -, e ele começou a ver o Pão de Açúcar surgindo. O pai do Abílio Diniz foi o fundador dessa rede, que seria o que a gente chama hoje de autosserviço. No secos e molhados, até então, você fazia um pedido, entregava pro balconista, e ele separava: era arroz, açúcar, farinha. Mas meu avô foi o primeiro a implementar o autosserviço em Bauru. O Sampaio, pode-se dizer, foi o primeiro supermercado no estilo autosserviço. Depois ele foi sucedido pelo Santo Antônio, da família Svizzero, e depois vieram muitos outros.

          Quando meu avô comprou a Casa Moreira, era um prédio velho. Ele reformou esse prédio, construiu um prédio mais moderno - aquele prédio tem quatro andares e um apartamento, onde ele residiu até falecer. Depois, com o falecimento dele, o meu pai e os meus tios não conseguiram mais competir com o Supermercado Santo Antônio. Então eles encerraram o supermercado e voltaram pra ferragens e ferramentas, que nunca deixou de ser o nosso forte!

          Mas eu vim pra um outro lugar mais ao centro, então eu estou mais bem localizado. Tive aumento de fluxo de cliente, sou bem servido de estacionamento. Eu sempre falo: “Deus preparou esse lugar”. Porque aqui, depois do Júlio Meca, foi Santo Antônio, foi loja de calçados, foi o Bingo Cidade. Mas pra mim era um espaço perfeito, que veio na hora certa. A gente teve que fazer uma reforma, pois tinha muita coisa inacabada, mas graças a Deus nos estabelecemos aqui próximo a outras lojas. Aqui na quadra três, nós temos a Casa Company, que comprou o terreno do Kurosawa e ampliou; nós temos Magazine Torra-Torra; nas transversais, nós temos Beco do Armarinho e Casa São Jorge. Dessa forma, a gente está bem localizado de comércios vizinhos.

          Quanto à pandemia, o ano de 2020 não foi ruim pra nós. Pelo contrário, nós tivemos aumento de receita. E isso ocorreu por duas situações: com as pessoas em casa, elas começaram a ver pequenas reformas, coisas que elas tinham que consertar, e por isso vinham comprar na loja. Paralelamente a isso, a construção civil não parou - os prédios que a gente vê dessas construtoras continuam sendo feitos. Então nós vendemos muito de atacado para as construtoras, e não tivemos queda de receita. Pelo contrário, nós fomos abençoados com um aumento de receita, diferente de outros segmentos. Eu acho que eu só não estou mais contente que os supermercadistas, porque os supermercadistas estão rindo à toa!

 

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