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História

Dos palcos da dança à produção de figurinos

História de: Ricardo Camargo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/07/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família. Infância na Alfredo Ruiz, centro de Bauru. As brincadeiras de rua com os irmãos. A entrada para o teatro e  posteriormente o balé. O talento na dança, que o levou para São Paulo na companhia Passo a Passo. As experiências pessoais e profissionais que adquiriu na dança. A mudança para Ribeirão Preto para dançar numa companhia. O começo da produção de figurinos, onde o ofício foi aprendido com a sua avó. A saída da companhia e o ingresso numa escola de dança onde começou a ministrar aulas de dança e coreografar espetáculos. A oficina do SESC que te despertou interesse também por cenografia. O ingresso na faculdade de moda e a criação de sua marca autoral e individual, a Costume Camargo. A sonhada apresentação no Teatro Pedro II e a importância dos teatros e dos cinemas para a cidade de Ribeirão Preto. A criação da personagem, Marca Buba, uma brincadeira de amigos que logo fez sucesso, até a sua morte fictícia. A  chegada da pandemia e as aulas de modo remoto. Os aprendizados com esse momento e a continuação da vida apesar do isolamento social.

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História completa

          Eu sou o Ricardo Camargo Machado, mas meu nome artístico ficou só Ricardo Camargo. Nasci no dia 20 de novembro de 1968, em Lins. Meu pai era oficial do Exército e trabalhava lá, na 6ª CSM. Mas em Lins, ainda, ele faz a faculdade de Odontologia e aí virou dentista. Durante um tempo ele ainda continuou como militar, mas depois ele ficou só como dentista. E a minha mãe foi professora durante muitos anos e se aposentou como professora do estado.

          Eu só nasci em Lins e já fui pra Bauru. Morava ali na Alfredo Ruiz, perto do Preve Objetivo - morei durante muito tempo lá. Mas eu me lembro que foi uma infância muito gostosa. A gente sempre teve grandes atividades. Era uma época muito boa, que a gente brincava na rua, brincava na enxurrada. A minha mãe ficava muito preocupada, não deixava, mas quando dava aquela chuvona, que descia aquela enxurrada na Alfredo Ruiz, a gente pulava lá.

          Ah, Bauru eu acho muito gostoso! Eu acho que Bauru sempre foi um grande celeiro de grandes artistas. Tem muita gente legal que saiu de Bauru, e acho que saía, não dava conta de ficar lá, porque Bauru não expandia muito os horizontes pra quem era envolvido com a arte.     Acho que o teatro já começou na vida dentro de casa mesmo. A gente fazia essas coisas, de criar historinhas, personagens. Era muito legal. Eu tive três irmãos muito próximos, a gente é praticamente uma escadinha. Então, a gente brincou muito, foi uma infância muito junto. Nós fazíamos historinhas.

          Uma coisa que eu me lembro, que eu não me esqueço até hoje, foi quando teve o Festival das Águas Claras, que foi o Woodstock brasileiro, não é? E o meu pai saiu pra dar uma volta com a gente, de carro. Ele passou pela praça, e tinha hippie pra tudo quanto é lado. A galera tomando banho na fonte, e um povo muito estranho pra mim, um povo que eu nunca tinha visto na minha vida. Aquilo lá era meio surreal. Eu era uma criança, não entendia aquilo. Porque senão, se eu fosse um adolescente, da época que eu fui adolescente, (risos) eu acho que eu já teria me jogado lá na praça e falado: “Eu vou junto. Me leva junto, que eu quero ir pra esse lugar”!!!

          O meu contato com o teatro se iniciou cedo. Eu deveria ter o quê? Uns oito, nove anos, fazendo teatro nas peças da igreja, pois a gente tinha aqueles clubinhos de reunião. Aí formava aquele espetáculo e apresentava pro pessoal da comunidade. A minha primeira peça foi Branca de Neve, e eu fui o Zangado, não sei por quê. (risos) E aí, estávamos numa reuniãozinha de igreja, e o Silvio comentou que ele estava fazendo balé. E eu tinha uma recordação de balé, que eu vi o Baryshnikov na TV, numa chamada, quando ele veio pro Brasil. Tempos depois, eu fui assistir um espetáculo de balé lá no Luso. Foi muito legal, e eu falei assim: “Ah, eu acho que eu gostaria de fazer. Aí fui com a Dona Ruth, no BTC. Ela me ensinou muito mais do que a dança; ela me ensinou a gostar da dança.

          Mais tarde, eu tinha um grupo de amigos que fazia O Segredo da Tempestade: eu, Celso, Valéria e Carlos. A Valeria Mauriz, que hoje em dia é fisioterapeuta lá no Rio de Janeiro. Carlos Hortelã, que está dando aula de balé também - antes da pandemia, ele dava aula no Parque do Ibirapuera, ao ar livre. E o Celso Cardoso, que está em Londres, que é nosso amigo. E Marco Antônio Giaferi, que é diretor de teatro, e que inclusive já fez alguns filmes.

          Aí eu vi Tropical, do Marco Antônio, e eu fiquei maravilhado. Eu falei assim: “Ah, eu quero dançar com eles”. Também dancei em São Paulo, com o grupo Passo a Passo, que funcionava na escola do Cisne Negro. E depois, quando eu voltei, voltei pro Imagem, quando nós dançamos Danças Provincianas - fomos pra Joinville.

          Eu vim pra Ribeirão Preto para dançar com o Dançarte, que era da Luciana Junqueira. E já no primeiro ano que eu estive aqui, eu dei algumas ideias de figurino, desenhei todos os figurinos e fiz os adereços. Dancei com o Anselmo Zolla, que tinha outro grupo muito bom daqui de Ribeirão, que se chamava Ad Libitum - só que ele assumiu a direção do Dançarte, Aí, quando ele foi embora pra Europa, eu falei: “Ah, acho que eu não estou mais a fim de ficar batendo nessa tecla de ser bailarino”. E eu já tinha começado a dar aula, na escola que eu dou aula até hoje; já faz quase 35 anos que eu dou aula no Studium Carla Petroni. Aí que eu comecei a trabalhar mais coreograficamente. E foi quando começou a ficar mais forte essa questão da confecção de figurinos.

          A Costume Camargo foi um trabalho de faculdade, em que a gente precisava definir um nome de uma grife, fazer um cartão e fazer uma logo. Então fiz, dei prosseguimento, mas eu não tenho uma empresa, eu tenho a minha produção que é totalmente individual e particular. A gente esbarra em muitas coisas quando quer fazer uma empresa de produção, e eu tenho muito receio de fazer e não conseguir dar o suficiente aos meus empregados, como eu acho que tem que ser. Então, por enquanto, eu trabalho sozinho. Eu me mato no final do ano, quando eu tenho uma produção muito grande pra fazer. Eu me mato, mas eu dou conta de fazer tudo sozinho.

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