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Dora sonha em ter seu próprio restaurante

História de: Maria Auxiliadora Galdino Soares
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Maria Auxiliadora Galdino Soares conta como fugiu com 15 anos pra Manaus, desobedecendo ao pai, para trabalhar em casa de família e como não cedeu ao marido e continuou a trabalhar fora depois de casada.

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História completa

Meu nome é Maria Auxiliadora Galdino Soares, nasci em vinte e dois de setembro de mil novecentos e setenta e seis em Manicoré no Amazonas. Meus pais são agricultores. Eu era meninota, ficava olhando sentada eles trabalhando. Às vezes, eu ajudava, só que mamãe não gostava muito, porque às vezes, eu me cortava, ela evitava eu pegar pesado. Ficava só olhando e brincando com os outros irmãos, que fora eu, nós somos mais nove. Como no interior é difícil, a gente fazia as garrafinhas de boneca, eu, minha irmã e as minhas primas. A gente fazia os vestidinhos delas, era assim, coisa de criança mesmo. Até que um dia, eu ganhei uma boneca de verdade da minha avó! Era o meu sonho ter uma boneca! A minha avó gostava muito de mim, eu sempre ficava com ela. Aí comprou uma boneca pra mim e me deu de presente, uma bonequinha que não era a Barbie, não era nada disso, era aquelas bonequinhas, sabe como é interior. Ela mesma fazia as roupinhas pra minha boneca, que ela sabia costurar muito bem. Eu não aprendi a costurar, minha mãe também costura, tentou, mas eu não consegui. O nome da minha boneca era Maria. Tanto que no dia que eu tive a minha filha, eu coloquei o nome dela de Maria, Maria Vitória.

Eu ia pra aula, tinha vez que a minha mãe me levava, mas pra ir é de barco, vai e volta no mesmo dia. Aí fui crescendo, desisti dos estudos, que é o meu erro. Até que um dia, teve uma oportunidade de adolescente... Como eu era teimosa, eu vim pra Manaus, fugida. A gente pegou o barco e veio, eu tinha 15 anos. Eu e minhas colegas de infância, a Aurilene e a Aurea, vizinhas também, sabe como é vizinha (risos), é uma benção. “Maria, a minha tia ligou e tá precisando de três moças pra tomar conta de criança numa família em Manaus”, eu falei: “Mas eu não conheço Manaus”, “Tu quer ou não quer?”, “Eu quero”, ela ligou pra tia, quando foi no outro dia, chegou lá em casa falando, só que os meus pais tinham viajado para o interior. Nesse dia, o papai chegou de tarde, eu pedi, só que ele não deixou. Ela falou: “Tu não falou que ia, agora vamos” “Como que eu vou? Não tenho nem dinheiro” “A gente dá um jeito”. Aí nós viemos (risos). A mulher depositou dinheiro e as meninas tiraram o dinheiro lá em Manicoré. Chegou aqui, já tava esperando pra pagar a nossa passagem, o dinheiro era só pra gente lanchar, tinha uma senhora me esperando. Eu fiquei morando com ela, ela ligou pro meu pai, minha mãe. Uma ótima pessoa...

Quando eu voltei [pra Manicoré], eu senti muita falta das minhas amigas, praticamente, eu não conhecia mais ninguém. Os que estavam lá vieram pra Manaus ou pra Porto Velho, já tinha uma nova geração que eu não conhecia mais. Até mesmo meus irmãos, quando eu saí de lá estavam pequenos, quando eu voltei, já estavam tudo grande. Meus pais também, mas a minha mãe sempre vinha pra cá. Eu “nossa, como cresceram”, meus sobrinhos que eu nem conhecia e agora, tudo moça... Fiquei um mês, só que eu não gostei mais de lá. Isso que eu acho incrível. Eu me acostumei pra cá, aí falei pra mamãe que eu não queria mais ficar. “Mas por que, minha filha?”, “Ah mãe, não sei, eu não gosto aqui de Manicoré, não é de casa, é de Manicoré”. Vim de novo pra Manaus, fiquei morando uns tempos com as minhas tias, não gostei de morar com elas, porque morar com parente é estranho. Tanto que eu fui de novo pra casa de outra senhora, no centro da cidade. Foi o tempo que eu conheci o meu marido… A gente casou, não no papel, a gente vive junto há 16 anos, 17 anos que estou com ele. Tive meu filho, que faleceu com oito meses. Ele faleceu de laringite aguda, insuficiência respiratória, que dá na criança. [Ele se chamava] Gildásio, o nome do pai. Parece que o mundo se acabou. Que era o meu primeiro filho, mas passou e uns cinco anos depois, eu engravidei da minha filha, a Maria Vitória, que é a minha vitória. Eu pensei que não ia mais engravidar...

Nunca fiquei sem trabalhar, sempre gostei de trabalhar... O meu marido falou que se eu fosse trabalhar, eu não iria mais ficar com ele. Eu disse: “Não, eu vou trabalhar”. “Se você sair por essa porta, você não entra mais” “Eu vou trabalhar e eu vou voltar pra casa”, e fui embora. Quando eu cheguei, ele me aceitou de volta (risos). A porta tava aberta, porque eu penso assim, se ele tivesse falado: “Você não vai trabalhar. Eu não quero que você vá trabalhar”, e eu tivesse ficado, tudo que ele falasse pra eu fazer, ia aceitar. Então, não aceitei, aceito algumas coisas, mas mulher tem que ter também essa autoridade, tem que ter respeito. Porque senão, ele ia acostumar a falar isso, eu ia aceitar...

Trabalhando em casa de família, a gente aprende tudo. Tem gente que fala que é um horror, mas pra mim foi um aprendizado também, eu aprendi fazer tudo o que eu sei fazendo na casa de família. Um horror é quando a gente não sabe nada. Tem muita gente que crucifica quem trabalha na casa de família. Eu não! Eu sempre aprendi muitas coisas, então pra mim, trabalho é onde eu vou ganhar o meu dinheirinho. Meu dinheiro digno, então pra mim, é ótimo.

Eu achava bonito, quando eu passava nas lanchonetes: “Aí que lindo essas meninas todas fardadinhas”, que tem o Bob’s lá no centro, e o que mais a gente vê, a Glacial, tão bonitas. Quando chegou aqui, eu ia usar farda no meu trabalho: “Olha, agora eu vou usar farda, que nem as meninas da Glacial” (risos)... Quando os meus colegas falavam: “Maria, vai pra chapa”, meu Deus do céu, parece que a chapa era um bicho papão pra mim, eu não sabia fazer nada (risos). Eu ficava horrorizada: “Não, faz isso não”, o Salomão falava: “Mas Maria, tu tá aqui no aprendizado. O Espaço Solidário é um aprendizado, você tem que aprender a fazer tudo. O que a gente sabe, a gente tem que ensinar”, então quando tava pouco movimento, que os clientes pediam, ele falava: “Agora vai, faz o produto que eu vou ficar te observando aqui, aí eu vou te ensinar”. Uma vez, pediram dez tapioquinhas. “Maria, agora nós vamos te testar, vai fazer as tapioquinhas”. Meu Deus do céu, fiquei desesperada, “Vai, Maria, faz as tapioquinhas que eu quero ver”, aí eu montei tudinho, e peguei parabéns dele (risos). “Tá vendo como tu sabe, Maria? É assim mesmo”, aí pronto, fui aprendendo a fazer tudo no Espaço Solidário...

Fiz uma casa boa pra mim. A renda de lá me ajudou. Que a gente trabalha na casa de família, é pouco… Meu sonho, depois que eu trabalhar no Espaço Solidário, é montar meu próprio negócio, trabalhar pra mim mesma, porque trabalhar pros outros é bom, mas ter nossa renda do nosso trabalho, ter o nosso trabalho mesmo, ser dono do nosso próprio negócio é melhor ainda.

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