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História

Dona Sissi, uma contadora de histórias africanas

História de: Nancy de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/06/2008

Sinopse

Nancy de Souza, chamada de dona Sissi, relata seu encontro com o candomblé, após a morte do pai, e todos os encontros que teve após se iniciar na cultura afro. Sua principal atividade foi produzir legendas nas fotos de Pierre Verger, sendo sua assistente. Pelas fotos, Sisi aprende sobre a história da formação do povo brasileiro, tendo um imenso conhecimento nos países e povos africanos que vieram escravizados para vir ao Brasil. Junto com a religião, Sissi apresenta seu maior dom: contar histórias. Durante o depoimento, somos agraciados muitas vezes por histórias sobre orixás e a trajetória de Pierre.

História completa

Sou de Engenho Velho de Brotas, Salvador, um local bastante cheio de causos! O meu nome é Nancy de Souza, mas todo mundo me conhece pelo Sissi, nasci em 2 de novembro 1939 e a minha vida é cheia de aventuras. Minha infância foi no Rio de Janeiro, e foi ela que me deu forças quando eu me tornei adulta e passei a conhecer as adversidades da vida.

 

Quando a gente vai crescendo, passa por tantas histórias, e foi na escola que eu comecei a ver que a vida não era aquilo da infância. Eu queria ficar com a professora, não queria passar de ano pra não deixar ela. "Mas se você passar, eu vou estar com você." Eu disse: “A senhora vai comigo?” "Claro que vou!" Que nada! Aí começaram as decepções. Sei que era uma coisa importante, a imagem da pessoa que a criança faz. Eu tenho muitas crianças hoje, elas criam vínculos e a gente também cria vínculos com eles, é muito triste, é muito triste...

 

Mais tarde fiz uns cursos e fui trabalhar na parte administrativa de uma escola. Depois eu perdi meu pai, fiquei muito doente, entrei em depressão e voltei pra Bahia, onde eu ainda tinha alguns parentes. Fiz minha iniciação no candomblé e tô aqui até hoje. Vivi pouco tempo no Rio, meu cabelo ficou branco aqui na Bahia. Encontrei o lado que me faltava, a gente sabe onde nasce, mas não sabe onde morre, ninguém sabe, só Deus! Cada um tem seu destino e o destino tem me ensinado toda hora. Então a partir da minha iniciação em candomblé, a minha vida mudou totalmente.

 

Uma das coisas mais interessantes da minha vida foi entender as pessoas: por que ela é assim, ela é assada? Por que uns têm isso, outros têm aquilo, outros não têm nada,? Por que um tem o toque de Midas, toca o dedo e tudo se transforma em ouro, outro arrocha, arrocha, arrocha e não consegue? Fui aprender tudo isso, depois que a gente entende um pouco, a vida é bem melhor… Fui aprender depois que eu fiz iniciação no dentro do candomblé.

 

Até que eu queria um trabalho, fui ser cobradora de ônibus e ali comecei a passar por muitas histórias, muitas experiências, conviver com muitos tipos de pessoas, conhecer todas as reações. Nunca tinha visto como as pessoas têm vários filhos de pais diversos! Uma vez, foi pelos anos 75, eu vi uma criatura com um menino no colo. Lembro que ela vinha mal humorada. Pensei: “Hum, hoje é dia 30, ela foi buscar o dinheiro do menino e o homem não deu”, aí ela entra no ônibus com o menino. Eu olhando, ela de pé assim, não estava sentada num banquinho, ela começou a andar com ônibus em movimento, aí virou para o menino e disse: "Se segura, seu porra." Eu disse: “Êpa, você, uma mulher velha com esse pedaço de saia não está se equilibrando, como que um menino de três anos vai se equilibrar?” Ela me tirou de cima abaixo e não disse mais nada. Foi aí os primeiros passos que eu fui entrando para essa realidade que batem na criança sem necessidade, porque está com raiva, de crianças que passam o dia inteiro na rua…

 

Tive que me aposentar porque fiquei com problema nos dois joelhos. Então fui trabalhar com o Pierre Verger. Tive a oportunidade de trabalhar com 11 mil fotos dele. Ele era de uma família burguesa, e como todos já tinham morrido, ele saiu da França, começou a fotografar e vender as fotos pra turismo. Ele falava muito bem inglês e espanhol. Quando ele foi de Togo para o Benin, ele agradeceu o motorista e perguntou o nome. Ele disse e o sobrenome era “de Souza”. Aí ele: "De Souza... Português?" "Não, brasileiro”. Foi o primeiro contato com a palavra Brasil que ele teve. "Ah, Brasil!" Aí ele chegou ao Brasil. Ele me ensinou de mais, trabalhei mais na parte negra com ele, identificando cerimônias passadas que se encontrava similaridade aqui.

 

Comecei a ver a situação das pessoas, as necessidades de cada qual, o costume de cada qual, isso tudo foi escola para mim, foi o meu melhor professor... Aí quando eu saio das fotografias da África do Norte, entro no antigo Congo… Tudo eu aprendi com Pierre Verger. Aquilo que hoje eu falo: a África do Oeste que formou o povo da Bahia, a maior concentração de negros fora da África. O negro baiano, sua composição maior historicamente é no final do século 18, com povos que vieram a maioria da Nigéria, para abastecer a cidade. O povo da Nigéria começa a ser jogado no mundo através de um negreiro chamado Francisco Félix de Souza que sai do Rio de Janeiro e em 1810 se torna o maior negreiro de todos os tempos.

 

Eu fazia legendas fotos das cidades da África do Norte. Ainda tem o caderno com tudo marcado, o número das fotos, a letra dele. A gente fazia legendas para exercitar a memória para que ele não se esquecesse. Então tem lugares, tem cidades, tem figuras humanas, pessoas, e eu comecei, então, a fazer anotações e aprender. Tudo isso foi interessante pra mim. Eu vi as fotos que ele fez de Trotsky no México, vi as fotos de Diego Rivera, que eu sou apaixonada por Frida Kahlo, mas ele não fotografou Frida Kahlo. Os momentos históricos do mundo, tudo fotografado por ele, mas Europa mesmo eu não trabalhei, trabalhei mais África. Mas quando eu queria distrair a cabeça, aí eu pegava a Europa.

 

Eu sempre gostei de histórias. A importância da Ação Griô é acordar o que estava esquecido, porque infelizmente o povo brasileiro não tem memória, ele lembra uma coisa aqui, daqui uma meia hora ele já esqueceu porque ele não anotou, ele não ensinou, ele não desenhou, ele não pintou... Ele não registrou! A Ação Griô resgata os conhecimentos que estavam adormecidos, mas que na realidade a gente não teve oportunidade de contar, porque talvez querem que o brasileiro continue sem memória. A minha universidade é a vida. Eu não tenho uma linguagem elaborada, mas eu tenho aquela que a criança me escuta, aquela que eu falo e eles não esquecem. Então a Ação Griô pra mim, veio resgatar tudo isso, a forma natural de se aprender a viver.

 

No Brasil, se a senhora coloca um atabaque ou qualquer tambor debaixo do braço, a pessoa aponta: "É macumba!” Tem que aprender história, tem que aprender o mapa da África, tem que saber sobre religiosidade, tem que saber como entrou a religião, como chegaram os pastores, as primeiras igrejas protestantes, como entrou o muçulmanismo até chegar aqui eles encontraram pessoas, cada grupo tinha a sua deidade, tinha sua crença, os que vieram pra cá tinha sua determinada crença. Tem que ensinar que o mapa da Nigéria é grande, tem cidades e que cada cidade tem um grupo étnico, cada grupo zela por um orixá, o dessa cidade muitas vezes não conhece o orixá daquela cidade, são coisas próprias dos locais, costumes próprios do lugar, tudo isso tem que passar pra criança.


Tenho muito amor pelo que é a nossa ancestralidade, é não esquecer os nossos saberes porque um povo sem memória não tem alma. Estou apenas aprendendo e quero que Deus me dê mais um pouquinho de vida porque eu preciso aprender muito! Ainda estou muito pequena..

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