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Dona Nelite, a mulher que pegava caranguejo utilizando lampião

História de: Nelite Moreira da Anunciação
Autor: Fernanda Peregrina
Publicado em: 25/09/2013

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História completa

Cabo Frio, Itapemirim, Macaé, São Francisco de Itabapoana e São João da Barra na Memória e Vida de seus Moradores. Depoimento de Nelite Moreira da Anunciação Entrevistada por Fernanda Peregrina São João da Barra, 21/03/2013 AECOM_SJB_HV05_Nelite Moreira da Anunciação Realização Museu da Pessoa Transcrita por Vanuza Ramos (MW Transcrições) P/1 – Dona Nelite, pra começar eu gostaria que a senhora falasse seu nome completo, local e data de nascimento. R – Eu não queria botar Anunciação, não, porque meu nome, ele é registrado só como Nelite Moreira. Só como tem Anunciação, bota, né? O que você tava falando? P/1 – Nome completo, onde a senhora nasceu, e qual a data do nascimento. R – A data do meu nascimento é (pausa)... A data do meu nascimento é 17 de dezembro de 1926. P/1 – Onde a senhora nasceu? R – Aí quando a minha mãe quando me registrou, ela me disse que eu nasci em Rio Doce, mas eu tô achando que é muito longe, né? Mas deixa assim mesmo. TROCA DE ÁUDIO P/1 – Qual o nome dos pais da senhora? R – Minha filha, eu não conheci pai e nem mãe. Eu fui criada por um casal de gente mais pra cá, pra banda de Gargaú, Guaxindiba. Eu fui criada pra cá. Eu sou filha única. Com dois meses de nascida, a minha mãe parece que morreu e o pai. Aí “apanharam" eu pra criar, sabe, pra cá. Aí eu entendi, na minha infância, eu entendi de criação e pai de criação. O nome era Luíza, agora o sobrenome é que eu não vou saber, né? E o pai era Zé Bento. De criação! P/1 – O que os seus pais de criação faziam? Com o que trabalhavam? R – Ele “estarraciava” no Paraíba, “estarreciava” no Paraíba. E a minha mãe fazia palhão, de criação, fazia esteira, nós também fazia. Aí de lá pra cá, eu vim pra cá pra ilha e aí comecei a “panhar” caranguejo, comecei a trabalhar nessas coisas desde idade de dez para 12 que eu sou caranguejeira. Pode entrar num mangue, vocês ficarem pro lado de fora, que eu rodo o mangue todinho e venho sair no mesmo lugar. Quatro, cinco mangues que eu rodo. P/1 – E quem ensinou a senhora a pegar caranguejo? R – Eu mesma via as outras e comecei a aprender, com as outras amigas, sabe? Aí nós vivia nessa vida. Depois nós viemos pra cá, mas daqui nós ia “panhar” caranguejo de lamparina dentro do mangue. Trazia o caranguejo e vendia aqui, mas depois que meu marido morreu, eu parei, que eu não tinha, assim, a canoa pra ir pra lá. Aí ficava ruim, aí eu parei, mas de vez em quando eu vou, sabe? Quando tem uma passagenzinha com as amigas, eu vou aí mais perto. P/1 – Dona Nelite, a senhora falou que foi criada por um casal. Tinha outras crianças também? A senhora teve irmãos de criação? R – Tinha muito irmão, veio muito irmão. Tudo, eu nem sabia que... Eu criei as irmandade todinha da minha mãe de criação. P/1 – Como era o dia a dia na casa? R – Era aquela vidinha mesmo, “panhar” caranguejo, fazer palhão, fazer esteira, fazer lombada, vocês conhecem o que é isso, né? P/1 – Não, conta pra gente. R – Fazer lombada é aquela que bota nos cavalos, bota aqui assim, e forrava o lombo do cavalo. Não era, esse menino? O forro do lombo do cavalo não era lombada? Agora que não tem mais isso, acabou, mas eu sei fazer, palhão, esteira, tudo eu sei fazer. Agora que não existe isso, e a gente vai vivendo com um salariozinho. Tem a profissão do mangue, mas eles não pagam a gente direito na colônia. O dinheiro vem do governo, eles abafa pra eles! Vem muito dinheiro, não vem pouco, mas eles rouba tudinho: secretaria, colônia e prefeitura, roubam tudinho! Quer que eu fale, eu falo! E quem quiser que segure o cavalo, quem quiser que passe o fone, que eles não liga. Ah, lá onde eu ando é três salários no caranguejo e aqui é dois. Um é pra eles dá às piriguete deles, mas não adianta falar, não. P/1 – Dona Nelite, vamos falar um pouquinho de quando a senhora começou a pegar caranguejo. A senhora falou que ia de lamparina pro mangue... R – Lamparina, era. P/1 – Como vocês se organizavam para ir pro mangue? R – Entrava com a lamparina, botava a lamparina no chão e os caranguejo vem tudo pra cima da lamparina. Aí o pessoal vai e bota no saco. É melhor que de dia; de dia eles correm, de noite não. É assim. P/1 – E quantas pessoas iam com a senhora pegar caranguejo? R – Ah, era muita. As amiga era muita, onde eu morava, sabe? Elas ia tudo junto. P/1 – Onde era esse lugar? R – Era Piaçanha. P/1 – E quantos anos a senhora tinha quando pegava caranguejo? R – Desde os dez anos. De dez anos, mas eu muito tola ainda, "panhava" aqueles que trepava nos pau. P/1 – A senhora vendia o caranguejo? R – Vendia. P/1 – Para quem a senhora vendia? R – Pro pessoal de fora, assim, os veranistas. Pra Campos, tinha apanhadora de caranguejo que levava pra Campos, os saco. E tinha o motorista que levava no barco pra trazer, levava os sacos de caranguejo no trem, embarcava tudo no trem, no tempo que tinha trem. P/1 – E como era aqui a região antigamente quando a senhora chegou aqui? R – Pra nós era melhor do que agora, porque hoje só dá ladrão! Como que os pobres vai viver? Pra nós lá não tinha ladrão, hoje em dia que tem. P/1 – E como era a região de mangue? R – Era a mesma coisa: da gente ir de manhã cedo, quando chegava a maré morta ia tirar de braço; quando chegava a grande, cheia de maruim, tinha que entrar dentro do mangue para “panhar” o caranguejo andando. P/1 – E quantas horas a senhora ficava pegando o caranguejo? R – Ah, o dia todo! Vinha em casa, entrava outra vez, enchia os sacos, era assim. P/1 – A senhora falou que aqui a área de mangue era maior, né? R – Era maior, eles acabaram com tudo, eles corta por vontade deles, derruba, não tem quem faça nada não. Meio ambiente aqui ganha dinheiro sentado, nem de casa não sai. Se chegar um pessoa e tombar, fica tombado, que nem aqui vem ver. P/1 – E qual é a área hoje em dia para pegar caranguejo? R – A área da onde? P/1 – Que a senhora tem aqui de mangue? Ainda tem? R – É lá do lado de lá do Paraíba, não é aqui, não. P/1 – Como a senhora faz quando tem que pegar caranguejo lá? R – Como que faz? Entra na baitera, na canoa, e vai pra lá. P/1 – E a questão do gasto, como é? Como a senhora faz pra pagar esse barco? R – Não paga, não. Vai remando daqui pra lá. P/1 – E de quem é o barco? R – É dos pescadores aí. P/1 – E quando a senhora colhe o caranguejo, a senhora tem que dar alguma parte para... R – Não, não. Ele não cobra nada, não. A nós do caranguejo ele não cobra nada, não. Tem uns que já tem a canoa pra ir e vir, sabe? Eu que não tenho. Eu "panho" passagenzinha com elas quando eu quero ir. P/1 – Dona Nelite, a senhora falou que o seu marido era pescador, né? R – Era pescador, não tinha nada na vida. Pagava a colônia e deu luta pra ele vencer isso pra mim. Eu passei até fome com seis filhos! Que eles não ligaram pra nada, e pagava certinho à colônia. Se eu não tenho os documentos dele guardados, eu não tinha esse salariozinho, que não dá pra nada. Ajuda, ai de mim se não tivesse ele. P/1 – Como a senhora conheceu o seu marido? R – Como que eu conheci? Nos fados de viola, lá nos mato. P/1 – Tinha festa? R – Tinha! Tinha festa, tinha tudo. P/1 – Como eram essas festas? R – Aí a gente saiu de lá acompanhando ele cá pra ilha. Eu não conhecia nada, não. Fui judiada, quiseram me matar com facão, mas tá tudo no inferno quem fez isso comigo (riso). Tá tudo no inferno, é a raça do marido meu. P/1 – Quantos anos a senhora tinha? R – Ah, isso eu era bem novinha, nem sei mais. P/1 – E quem ia nessas festas? R – Era o povo daqui, o pessoal, nós de lá. Nós ia! P/1 – E como era o dia a dia quando o seu marido saía pra pescar? R – Ele pescava, panhava o produto dele e trazia pra vender. P/1 – Pra quem ele vendia? R – Aqui na Atafona pros donos de frigorífico. P/1 – A senhora ia pro mar com ele? R – Ia! Pesquei muito no mar, camarão. Quando o camarão era aqui na beirada da porta, aqui assim, que da janela nós fazia assim e via colhendo a rede. Agora tá lá em 58, ninguém vai. A gente já sofreu muito. P/1 – E como era esse dia de pesca, como era a rotina quando vocês iam pescar? R – Assim, você fala o que? P/1 – A hora que vocês acordavam, como vocês se preparavam? R – Acordava quatro da madrugada pra pescar manjuba no Paraíba. Quatro da madrugada quando ia sair daqui, e duas horas a gente acordava, por aqui pra pescar a manjuba. E o camarão, a gente saía seis horas de casa, era pertinho, agora não é mais. P/1 – E quanto tempo vocês ficavam no mar pescando? R – Ah, isso levava até meio dia, levava até duas horas. P/1 – Os filhos da senhora também iam? R – Ia! Todo mundo é pescador, todo mundo. P/1 – Quem ensinou os filhos da senhora a pescar? R – O pai. Pescavam com o pai desde novinhos. Aí o pai foi ensinando um por um lá onde a gente morava. Hoje eles são pescador. P/1 – Eles tinham que idade quando começaram... R – Que nada! Era com oito anos, com dez, já levava pro mar. Aí foi aprendendo, aprendendo, cresceu na pesca. P/1 – E como vocês faziam? A família inteira ia pescar junto? R – Não, a família inteira não. Era um pai e um filho, aí era só trocando, quando crescia, ia só trocando de filho pra ir ensinando todo mundo. P/1 – Os seus filhos também pegam caranguejo? R – Pegaram muito, agora não pegam porque tão na pesca e eles moram aqui, mas já pegaram muito. P/1 – Conta das festas. Como era quando os pescadores se reuniam? R – Faziam festa e faziam forró no salão. P/1 – Quem tocava? R – Assim, tocador de fora, de sanfona, lá do Norte, daqui, de Nossa Senhora da Barra, de outros toque. P/1 – Onde eram essas festas? R – Eram lá em Peçanha e Convivência, tem Peçanha e tem Convivência. Eram lugares muito bonito, agora não é mais. O mar comeu aqui a metade, lá a metade, mas tem ainda. O melhor lugar do mundo é lá, não tem droga lá, não tem nada. P/1 – Onde são esses lugares da Peçanha e da Convivência? Onde fica? R – O povo de lá onde fica aqui? P/1 – Não. Onde são esses lugares de Peçanha e Convivência? R – Lá. Peçanha é lá e Convivência lá, onde tão aqueles matos lá. P/1 – São ilhas? R – Ilhas. P/1 – Vocês conseguiam viver da pesca? R – Ah, era muito bom, menina! Era muito bom! A vida de lá era melhor do que o que hoje tá aqui, que ninguém tem pena da fome. Aqui só dá cartão, a prefeitura, quem tem título; quem não tem, não dá. O governo marcou isso aqui, quando ele veio, que o governo já teve aí. Marcou isso? Não marcou, né? Tem gente passando necessidade na Atafona e eles não dão o cartão. Só vem prefeito ladrão pra prefeitura, só entra ladrão, é um monte. P/1 – A senhora falou que antigamente dava pra viver da pesca, né? Onde vocês compravam alimento pra complementar? R – Lá tinha supermercado, tinha venda, tinha tudo certinho lá. P/1 – E vocês vendiam o peixe, né, e como era pra... R – Vendia. Trazia pra cá e vendia pros frigoríficos daqui. P/1 – Vendia fresco? R – Fresquinho, panhado na hora. P/1 – E qual era a quantidade? R – Ichi, panhava às vezes... O que Deus desse, né? Ou 30 quilos, ou 50, ou 20 ou dez. O que Deus achasse de dar, a gente trazia. P/1 – E caranguejo, qual era a quantidade? R – Caranguejo eram muitos sacos. A mulher de Campos vinha comprar, levava o barco cheinho, embarcava no trem e levava pra lá pra Campos, ela fazia assim. Nós vivia assim com os filhos. P/1 – E hoje em dia, quando a senhora sai para pegar caranguejo, quantos a senhora consegue pegar? R – Não, agora é difícil eu sair pra “panhar” caranguejo. Quando eu saio pra “panhar” uns caranguejo pra comer, eu “panho” um negócio de três dúzias, quatro, cinco só pra mim, que eu não vendo mais não. A gente panha tudo miudinho pra vender aqui, é as sacada. Pra vender os caranguejo é assim, acabou com tudo, eles acabou com tudo lá. P/1 – Normalmente quem vai pegar caranguejo são mulheres? R – Mulher, homem, vai tudo. P/1 – E como sendo mulher pra trabalhar o dia inteiro pegando caranguejo, peixe? R – Não tem nada a ver, não. Nós somos acostumadas já com isso, atravessar na água, nadar, somos viciado, remar canoa. Se criamo nisso. P/1 – Tem que ter muita força pra remar? R – Tem que ter força, não tendo, não vai. P/1 – Com relação à... R – Hoje eles acabando com tudo, eles não respeitam mais a gente, eles não respeitam nada, não. Acabam com tudo. P/1 – Quem está acabando? R – Os próprios pescadores mesmo acaba com a pesca. Certos, não são todos. Eles não marcam a hora de pescar, não guardam, quer pescar porque quer! E tem os cartão pra comer. P/1 – Dona Nelite, até quando a senhora pegou profissionalmente o caranguejo pra vender? R – Até uma idade de 58 anos, por aí, 60. P/1 – E nesse período era a mesma quantidade de caranguejo? R – Não. Ia diminuindo por causa de redinhos que eles botavam, panhavam os caranguejinhos de isca de peroá no mar, aí foi acabando. Eles não respeitam, nós já respeitava, mas eles não. P/1 – E como a senhora preparava o material para pegar caranguejo? R – Bem, quem bota redinha, tem a redinha pra “panhar” o caranguejo. Já a gente cá não. Eu e mais três panhava andando e de braço, com a mão no buraco. P/1 – A senhora já passou alguma situação difícil no mangue? R – Já! Já passei fome, os filhos já passou fome, mas não morri, não, estou aqui. Trabalhei muito na vida e trabalho ainda, mas é mais pouco. Mas não arrumei nada, que a minha família não rouba. Em vez de roubar, vender cocaína, plantar maconha, eu mesmo vou plantar no meu quintal agora (riso). Não tá liberado? Vou plantar pra vender! Quando eles quiser, moça, aqui tem uma poção de maconha, vou vender a vocês baratinho. Aí eu vou fazer a vida, vou ter uma casa pra mim, vou comprar um terreno, vou começar a roubar. A família minha, ó, mas não é disso, então sofre. Nem casa pra morar não tem, certos. Só fazendo assim logo. P/1 – Como a senhora veio morar aqui nesse bairro? R – Como eu vim? Minha nora, me trouxeram pra cá coma criançada toda. O mar comeu tudo lá, me trouxeram pra cá. Cegou aqui, comeu tudo ali, e agora eu tô ali, ó. P/1 – E foi a prefeitura que removeu vocês pra cá? R – Não, senhora. P/1 – Quem foi? R – Foi o tenente que deu um lugarzinho pra nós fazer um cantinho ali. P/1 – E como era esse lugar quando vocês vieram pra cá? R – Era bonito, era tudo coisa, mas as águas foi comendo. Certas gente também destruindo, lá foi fazendo cerca na praia, fazendo barraca na praia. Ninguém pode falar nada, porque tá errada, então larga pra lá. Eu que não vou falar nada, “panhar” "desamizade" com os outros? Eu não, deixa rolar. Não tem mais ninguém direito no mundo, não. Tem muito ladrão. P/1 – Antigamente quando a senhora pegava caranguejo, mesmo na pesca, como era a relação com o atravessador? R – A relação que você fala é o que? P/1 – Da venda. Como era, vocês vendiam sempre pra mesma pessoa? R – A mesma pessoa, é só uma pessoa. P/1 – Quem estipulava o preço? R – O mesmo preço, um preço só. Comprava sempre o cento, contava 100 caranguejo e pagava. Aí levava 200, levava um monte. P/1 – A senhora falou que a vida era dura, a senhora chegou a desenvolver outra atividade além de ”apanhar” caranguejo? R – Não, era negócio de fazer rede, “panhar” "unha de velho", marisco, era isso só que nós tratava e dali ia vivendo. P/1 – A senhora então chegou a pegar marisco? R – Panhamo marisco. P/1 – Como fazia pra pegar o marisco? R – Ia pra lá pra longe cavacar. A unha de velho é cavacada na areia, e o marisco dá nas pedras lá daqueles cantos lá, mexilhão, ostra, tinha outra que eu esqueci o nome. P/1 – Como vocês faziam pra trazer? R – Debulhava ela, ferventava ela, botava nos pacotinhos e trazia. Deixava o casco lá. P/1 – Quem mais ia com a senhora? R – Só eu ia lá pra Guaxindiba. P/1 – A senhora ia sozinha, então? R – Ia com as camaradas lá da Guaxintiba tirar mexilhão. P/1 – Eram mulheres ou tinha homens também? R – Homens também, nós ia tudo pra lá catar pra poder sobreviver, né? P/1 – E qual a quantidade que vocês conseguiam pegar de mexilhão, de ostra? R – O que você está falando? Tô meio surda hoje. P/1 – Qual a quantidade de mexilhão, de ostra que a senhora conseguia pegar? R – Era três quilos que nós debulhava e vendia, assim, nos hotel pra eles aprontar, que lá o povo gosta muito disso. Eram três quilos, eram cinco. P/1 – A senhora vendia direto pro hotel? R – Direto, direto, eu e as camaradas lá. Depois eu ia pra casa. Nós ficava na praia fazendo barraca pra tirar os marisco da pedra. P/1 – O fato de vender pro hotel mudava o preço que vocês vendiam? R – Não, não. Eles pagavam um preço só, era cinco reais, era dez. Naquele tempo não era real, era mirreis, dez centavos, não sei quanto dinheiro. Era pouco dinheiro, mas pra nós era muito! Hoje é que o dinheiro não vale mais nada. P/1 – E fazia diferença pra venda quando era época de turismo, época de temporada? R – Não, não fazia, não, era a mesma coisa. P/1 – E tem época do ano certa pra pegar caranguejo? R – Tem. P/1 – Qual é? R – O caranguejo é no verão. E também no frio dá tirando de braço. Eles bota redinha, aí que acaba com o caranguejo, a redinha, que vem os miudinhos. P/1 – E como a senhora fazia quando era inverno e não podia pegar caranguejo? Do que vocês viviam? R – No inverno tirava de braço. No inverno ele não anda, não, e nós tirava de braço. Assim, na maré morta, na grande nós não tira, não. Dá muito maruim, mosquito. P/1 – E muda a quantidade? R – Muda. A gente escolhe os maior e traz, quando a gente panhava, né? Agora não tem mais caranguejo, acabaram com tudo, a redinha acaba com tudo. Mas eles não tomam jeito, não. Não tem fiscal, né? Lá pro Norte tem, ninguém entra pra “panhar” caranguejo, eles multam! Dá multa neles, não entra mais. Agora aqui é tudo largado... Traz o Gargaú pra cá. P/1 – Quando a senhora pegava caranguejo, quantas vezes por semana a senhora saía pra pegar? R – Todo dia ia, até a maré encher. Quando a maré enchia, acabava, não tinha, não. O pior que tá acabando com isso tudo aí é as traineira, que vão lá pras pedras panham os bichinhos desse tamanhozinho assim. Aqui tem tenente aqui, tem colônia, não muda a malha da rede. Se eles mudassem, aí sim, pegava só os grandes, mas não muda. P/1 – E quando a senhora percebeu que as traineiras estavam influenciando na... R – Ah, todo dia! Descarrega aqui! P/1 – Mas faz anos que isso está acontecendo? Faz quanto tempo? R – Já faz mais de dois anos isso. P/1 – Teve alguma mudança do mar e dos rios com relação à poluição que a senhora tenha percebido? R – Teve sim, teve. O mar quando fica bravo, come tudozinho, come as costas tudo aí e depois vorta! E daí nós vamos. P/1 – Ainda tem mangue limpo aqui nessa região? R – Não, isso aqui é tudo sujo. Ninguém liga, não. P/1 – Até falando com relação a isso, como foi a mudança desse pedaço aqui? R – É o mar que veio comendo tudo, veio destruindo tudo, o pessoal saindo fora, depois voltando. É assim, que eles precisam ganhar o tostão, né? É assim. Lá comeu tudo também, acabou com as casas toda. P/1 – A senhora antes havia falado que tem área que era de mangue e hoje em dia... R – Hoje em dia é praia pura. P/1 – E a questão também da construção de casa onde era mangue? R – Era mangue. Pra lá naquele canto, eles tomaram conta, cortaram tudo pra fazer casa. Ninguém liga, não tem IBAMA, não tem nada. O IBAMA tá ganhando dinheiro pra tirar nós tudo daí, ó. Tá se juntando com o tal do Batista pra tirar nós dessa área todinha. Só não sabe pra onde que vai. P/1 – A senhora percebe alguma mudança com relação a essas mudanças da construção do porto? R – Ah, mudança que o pessoal não ganha nada. Eles fizeram essa ponte, que desgraçou os pescador todos. Os pescadores cambou tudo pro Norte pra pedra, que não tinha ninguém pescando em pedra, hoje em dia tem mais de mil lanchas pescando em pedra, acabando com tudo. Por causa deles lá, porque o lugar de peixe é aí. Fizeram aquela porcaria lá até onde o sol nasce, espantou os peixes tudo, os pescadores ficaram tudo a toa, passando quase fome. É por causa deles, por causa deles. P/1 – E além do porto, teve alguma outra coisa que a senhora percebeu? R – E não acabaram com esse lugar, como é que chama, dos velhinhos que tinham fazenda, tinha as coisas lá, não matou até um velho? Matou o bichinho, o bichinho morreu. P/1 – Que lugar é esse? R – É lá no Açú. Agora querem acabar com aqui, compraram São João da Barra, compraram Atafona, comprou Enseada e agora cambou pra aqui. Os povo tá tudo sem saber o que ele vai fazer. Se eles derem o lugar, tá tudo bom, né? Mas eles quer botar lá no calcanhar do Juda, lá ninguém vai morar, eu não vou! Deus me livre! Tá arriscado eu morrer do que o que eu vou fazer com eles. Porque não pode, tá atacando os pobre, dá o que quer. Dono de fazenda de gado pra lá pro Açú perdeu uma imensidão de dinheiro. O velhinho de paixão morreu, e não correram com o enterro, não. Largou a toa! Com esse homem ninguém pode, não. Diz que ele é o dono do dinheiro, mas mais do que Deus ele então é! P/1 – E com relação à exploração de petróleo aqui? R – Ah, isso aí, minha filha, está mexendo com tudo. P/1 – A senhora observou algum mudança pra pesca? R – Não tá acabando com tudo, menina, por aí? P/1 – Dona Nelite, como é a questão da colônia aqui dos pescadores? A senhora é associada? R – Ah, não faz nada pros pescador, não. Nada faz pra pescador! Pescador não tem nada com a colônia. Eles só quer receber o dinheiro de mulher, de homem. Eu mesmo pago há 13 anos, não tenho nada de colônia. O que eu tenho é esses dois salariozinhos por ano, que era três, mas um já roubaram. É só o que eu tenho na vida, eles não dão direito a nada. Trezes anos que eu pago colônia! E eu sou do negócio de mangue aí, dou entrevista de mangue e tudo, e eles não ligam pra nada. Agora vai ter uma reunião. Só chama a gente pra assinar pra eles poder ficar cheio e os outros sofrer. Eu não vou! Eles quer a assinatura do povo, menina. P/1 – E o qual é a importância de uma colônia para os pescadores que a senhora acha? R – Como assim? P/1 – É importante para os pescadores terem uma colônia para se organizarem? R – É importante para os pescadores ter uma colônia, mas não sai nada pros pescador! Dinheiro não recebe, quem vem dos pescador, mas eles não recebem. A colônia, se o pescador acertar os documentos dele esse ano agora, o ano que vem já não recebe. É pro outro que recebe, tem o espaço de um ano! Esse dinheiro nesse espaço de um ano não vem pra cá, não? Vem que o governo manda. Eles abafa e aí diz que no outro ano vem. Eu tenho um filho que vive de remendo de rede, ele paga a colônia tudo certinho, as coisas dele é tudo organizada, tudo certinho, foi receber a defesa, não veio não! Vem por ano ainda, no outro ano que vem. Quer dizer, acertou tudo e como é que não recebe esse ano? Aí tem um porém nesse meio. P/1 – E qual a importância do defeso pro pescador, pro caranguejeiro? R – Ah, tem diferença, que o pescador... Você quer falar quanto ganha, né? P/1 – Não precisa falar exatamente quanto ganha, mas se tem a mesma coisa, que época é. R – O pescador do Paraíba ganha quatro salários, a caranguejeira ganha dois. Até de guaiamum, que ninguém panha guaiamum aqui, tem. Ganham deis salários, seis! Que não panham nenhum guaiamum, mas eles pagam. Pra ganhar nome, sei lá como é o negócio. Vem do governo, aí eles ganham primeiro. É tudo assim, tudo no roubo. P/1 – Dona Nelite, qual a importância da pesca e da coleta de caranguejo pra senhora? É importante na sua vida? R – É! Assim, quando eu tava mais nova era muito importante, mas agora não é mais, porque eu não vou igual eu ia mais nova, sabe? P/1 – E como era essa importância antigamente? R – Ah, era muito bom, muito bom! O caranguejo tinha preço. Levava pra Campos saco e mais saco que nós apanhava, fazia um dinheirinho pra fazer compras, pra criar os filhos, pra dá o sustento dos filhos. Mas hoje acabou isso tudo, que não tem mais caranguejo. Os caranguejo dos mangue é tudo isso aqui, assim, ó. Quando a gente vai “apanhar” o caranguejo, que a gente gosta de comer o caranguejo, aí tem que escolher, ir lá pra longe escolher um caranguejo maior pra trazer. Que aqui não tem mais nessa região. P/1 – A senhora falou que seus filhos são pescadores, né? R – Todos pescadores. P/1 – E para eles, eles conseguem hoje em dia sobreviver da pesca? R – Consegue, um pouquinho, mas consegue. Um pesca manjuba, panha um bocadinho. Outro já bota uma “mijoada” lá e panha um peixinho. Já outro vai pescar de caída; não tem muito peixe, mas vai lá na linha do navio, arriscado morrer e tudo, que o barco parando, você sabe que o outro barco, que na linha do navio ninguém pode pescar, que o navio passa por cima do barco. Já passou, escapou porque teve outro navio de fora que panhou e levou lá pros Estados Unidos esses quatro pescadores. Aí queria ir pra fora, mas mais tarde veio. E eles panham um peixinho e traz com dez dias, com oito. Ficam no mar sofrendo, naquela distância braba, que não era assim e hoje está assim. P/1 – Antigamente eles pescavam mais perto da costa? R – Era! O peixe era aqui, ó. Cação, esses cação grande, eles panhavam, tiravam o "fígo", fazia o óleo, que eu sei fazer o óleo. P/1 – Como é? R – Bota o figo no depósito, bota no fogão a lenha, e mete lenha e deixa fazendo o figo. Quando tiver perto de dar o ponto no óleo, puxa a lenha e deixa fervendo devagarzinho. E mexendo! Depois coa, deixa esfriar e leva nos depósito pra vender. Eu mesma fiz muito dinheiro com óleo! Agora não panha mais o cação, que era aqui, assim, ó. P/1 – E quem ensinou a senhora a fazer esse óleo? R – Eu mesma aprendi a cozinhar o figo. P/1 – A senhora observava alguém fazendo? R – Não, não. Foi ideia minha, eu cozinhava. O óleo serve pra cavalo, pra porco, pra gado. Uma porção de gente procurando, mas não tem onde eles apanhavam o cação, mas não panha mais, acabou. Só lá pro Norte, os cação tá lá pro Norte, pra lá pra bando de Bahia, aqueles cantos tem cação. Aqui não, aqui é muito difícil panham unzinho. P/1 – A senhora disse que conhece marisqueiras e caranguejeiras de outra região. Como a senhora conheceu elas? R – Conheço porque a gente panhava caranguejo e panha ainda, mas não é aqui, é lá pro Norte. P/1 – E como a senhora fazia pra ir lá? R – A gente panhava aqui a Van, embarcava nas barcas de Gargaú, descia lá, apanhava a Van que vai pra São Francisco, de São Francisco apanhava a Van que ia pra Sossego e Guaxindiba. P/1 – E o pessoal ajudava lá, acolhia vocês para pegar caranguejo? R – Não. Eu ia pra casa da filha, já a outra ia pras casa das fias, e ficava tudo acomodada lá. Quando enxia os sacos do caranguejo, cozia, pagava uma condução até Gargaú; de Gargaú botava na barca e descia já na barca aqui. P/1 – Quanto tempo a senhora ficava lá pra pegar caranguejo? R – Só quatro dias. O caranguejo só quatro dia. P/1 – E quantas vezes por mês a senhora ia pra lá? R – Ia na quadra da maré morta - só na maré morta. Ia de mês a mês, que era só na maré morta. Tinha que pegar a maré pequena pra pegar o caranguejo, a grande não. A grande enche muito d'água e tem mar ruim. P/1 – Dona Nelite, a senhora era casada. Como a senhora conheceu seu esposo? R – Conheci lá na roça. P/1 – Na dança, né? R – Na dança. P/1 – E como foi? R – Aí de lá eu dei uma fugida pra ele ali. P/1 – A senhora também fugiu? Conta pra gente essa tradição aqui. R – Eu convivi com ele 48 anos, quando ia fazer 50, ele morreu. Morreu de repente, eu que levei ele lá pro hospital. Ele disse que ia morrer, eu falei: "Você vai fazer o que? Se você morrer, eu também vou". Não digo pra quem morre não, eu digo pra quem nasce. Quem morre descansa, quem nasce é que vai sofrer, ver as coisas erradas do mundo. Quem nasce é que vai passar pior do que o que a gente tá passando aqui! Que o que vem aí pela frente, ninguém sabe. E nós já tamos nela sofrendo, mas o mundo ninguém endireita mais, não. Acabou! Você não vê aí pra fora o que tá acontecendo aí? Quem quiser vai vivendo assim mesmo, devagarzinho. P/1 – Dona Nelite, quais são os nomes dos seus filhos? R – Ah, minha filha, são 13! Três são mortos e dez são vivos. Um vive na cama, é doente. Pra mim lembrar isso tudo, vai ter cabeça! Mas bota, bota os nome tudo, eu vou dizendo. P/1 – Quais desses são pescadores? R – Todos esses, não tem nenhum que não seja pescador. O que morreu que não é! P/1 – E filhas a senhora teve também? R – Filha, tudo doente da cabeça. Doida, ficaram tudo doida. E resisti a tudo, no Abrigo João Viana, 12 choque na cabeça, mas tá aí ainda viva. Tem aqui na Atafona, tem três, uma lá no Norte. Ninguém é certo de cabeça, pra gente resisti a isso, é dose pra leão! E os filhos também, é tudo nervoso, tudo não tem cabeça certa também, mas vive, sabe o que estão fazendo. Então pronto, eu vou dizer os nome e você anota. P/1 – Tá, pode falar. R – Manoel José Moreira Nunes. Agora as idade é que eu não sei. P/1 – Só o primeiro nome. R – Almir Moreira Nunes. O sobrenome tá como casada, mas eu não sou casada, sabe? Deixa eu ver, tem outros, Aprígio Moreira Nunes, não mora aqui, mora no Rio. Botou? P/1 – A senhora já falou Manoel, Almir, Aprígio. R – Moreira Nunes também, tudo uma assinatura só. Agora deixa eu ver... Carlos Augusto Moreira Nunes. Esses são os filhos homens que eu tô botando. Vagner Moreira Nunes. Valdeci já botou, né? P/1 – Não. R – Valdeci Moreira Nunes. P/1 – Até agora foram seis. R – Seis filhos home, né? São seis filhos homem. TROCA DE ÁUDIO P/1 – Vou lembrar os nomes que a senhora já falou: Manoel, Almir, Aprígio, Carlos, Vagner, Valdeci. R – Esses são os seis filhos homem. São dez filhos, peraí, deixa eu ver as meninas. As meninas são quatro, deixa eu ver quem é. P/1 – Tudo bem se a senhora não lembrar, é muito nome pra lembrar. R – São seis filhos homens. São dez filhos, quando eu lembrar eu digo, não pode esquecer, não! P/1 – E a senhora pensava que seus filhos poderiam ser pescadores quando eles ainda eram crianças? R – Não. O pai foi ensinando a pescar, levando pra pesca de pequeno. P/1 – Eles pediam pra ir com o pai? R – Pediam pra ir. P/1 – Algum quis ter outra profissão? R – Não. É só a pesca. P/1 – E quando eles eram criança eles pensavam em outra profissão? R – Pensavam não, porque lá no lugar onde eu morava não tinha estudo, não. Ficou tudo sem estudar. Aqui é que alguns vieram “panhar” um estudozinho na terceira série, na segunda, na quarta. Eu que tenho um estudozinho. E de menina, bota Luísa, mesma assinatura. Maria e Inezita, dois nomes, com a mesma assinatura. Jucilene, com a mesma assinatura. P/1 – Falta uma! R – Franciane com a mesma assinatura. P/1 – A senhora tem netos? R – Ah! Pra mais de 30 (riso)! P/1 – Dos netos também tem pescador? R – Tem. Tudo pescador. Assim, todos não. Uns trabalham em São João da Barra empregados nas lojas. Outros trabalham de pedreiro, de ajudante, e outros são pescadores. P/1 – A senhora acha que hoje em dia os jovens se interessam ainda em ser pescador? R – Se interessam, porque pescador, o jeito deles é só pescar. Pra trabalhar conforme eles querem, eles não se ajeitam. Alguns consentem porque vão pro troço ruim, compreende, né? Porque tem isso. E alguns não quer porque não sua isso, não quer desperdiçar a vida, né? Outros querem. P/1 – Dona Nelite, tem uma lenda aqui da moça do mangue. Como é essa história? R – Essa lenda pra contar, olha lá! (Pausa) Isso aí é vendido, essa lenda. P/1 – Conta ela pequenininha. Conta só um pouquinho. R – Eu vou dizer pra você. Esse mangue era o mangue da moça bonita, então veio um pessoal de fora fazer piquenique no mangue, assim, no alto. Aí veio uma moça muito bonita aonde tinha um namorado. Esse namorado, muita gente, enganou a turma, carregou ela pra lá pra dentro do mangue. Lá ele amarrou a moça num tronco de árvore: amarrou perna, amarrou braço, fechou a boca - amarrada, tudo na árvore, encostou no pé de árvore e amarrou. Ali a moça ficou, muito longe, ninguém escutava grito, boca tapada. E o povo aqui em terra. Eu sei que no alvoroço de muita gente, eles foram embora. O rapaz também foi, o que era namorado dela, pra não dar na coisa que ele tava com ela dentro dos manguezais, sabe? Aí o que ele faz? Ele vai embora e quando chegam lá na terra do povo, o ovo dá por falta da moça. Perguntam pra ele: "Você não viu ela, não?" "Eu não, eu tava pensando que ela tava aqui junto com vocês". Aí disseram: "Não, ela não veio". Aí voltaram pra trás, procuraram, procuraram e não acharam. Nada de grito, nada, nada. Aí desenganados, foram embora. A moça com aboca amarrada ia gritar como? Ali ela se acabou com mosquito, os bichos do mato, de caça e o maruim acabou com ela. Ela ficou no osso pregado no coisa, toda amarrada. Ali ela se acabou. Aí botaram o nome deste mangue "O mangue da moça bonita", é o maior caranguejo que tem. Nunca mais achou ela, nunca mais. E nós panhando caranguejo nesse mangue à noite, era um Siriba, que isso aqui é uma Siriba. Era uma casca de Siriba onde tá aquela menina lá naquele outro tronco lá, comprido, que essa Siriba caiu e se acabou lá mesmo. Então a casca ficou o fundo pro Norte e a frente no Sul. Mas naquela casca dava muito caranguejo, nós de noite tava panhando caranguejo, e quando nós olhamos lá pra dentro do oco da casca, nós vimos a cabeça dela e a canela das pernas. Menina, nós corremos dentro desse mangue e arrebentemo todinha. Eu tenho marca até hoje no meu corpo! Largamo caranguejo, largamo lamparina, largamos tudo! Saímos na queda dentro do mangue e o outro cá no átrio gritando nós pra nós não se perder, eu e as quatro camarada. Nós ficamos a tempo de morrer. Eu disse: "Gente, pense em Deus e vamos sair devagarzinho". O coco da cabeça da moça, deste tamanhozinho a cabeça da moça, e as canelas das pernas. Agora os braços ninguém sabe, o bicho carregou, né? Aí eu sei que ela se acabou ali. Aí botaram o nome "Mangue da Moça Bonita". Só trabalhava seis horas, que ela gemia da tarde, da noite, escurecendo. Todo mundo sentia o gemido dela lá dentro do manguezal. Quando chegava meio dia não podia trabalhar, era proibido; meia noite também era proibido por causa do gemido dela. Quem que entrava? Ninguém! Ficava esperando passar as horas pra ir “panhar” o caranguejo, que era o lugar do caranguejo bonito. Foi assim, a lenda é assim. Não é como o povo daí arrola não. P/1 – Dona Nelite, se tivesse alguma coisa na sua vida que a senhora pudesse fazer diferente, o que seria? R – Não tem, não, por causa da idade... Você quer dizer pra ganhar o trocado? P/1 – Na vida toda. R – Não pode, não. Eu tenho que procurar me aposentar. Eles dão não emprego pra quem é de idade, não. A gente vai, como no dia do carnaval, que eu trabalhei com uma dona lá. Que a gente é forte no serviço, a gente vai. Mas completado pra trabalhar, pra ganhar aquilo certo todo mês, não dão, não. A gente vai lavar uma louça pra ajudar a dona do bar, aí ela paga a gente muito bem pago pra ajudar ela. Mas pra ela dar, assim, não dá não, assim, assinar uma carteira, não dá não por causa da idade. É certo que as novas estão mais malandras que a gente. É! Lá em casa eu cuido de tudo, faço tudo, tenho tempo pra tudo. É assim, ajudo assim, menina. P/1 – Hoje em dia o que é muito importante pra senhora? R – Pra mim é que eu tivesse uma aposentadoria mais um bocadinho pra me ajudar e que eu pudesse comprar um terrenozinho, que ali nós vamos sair que o mar vai comer tudo. Sem ser o mar, eles mesmos vão tirar pra botar em outro lugar. Mas quem quer ir pra essa distância? Pois é isso, Deus me livre! P/1 – E como foi contar um pouco da sua história hoje? Como a senhora se sentiu? R – Hoje eu vivo assim mesmo, como Deus botou. P/1 – E como a senhora se sentiu contando agora pra gente a história? A senhora gostou, não gostou? R – Agora? É a mesma coisa. A do outro tempo onde eu morava era melhor do que agora, mas a gente vai rompendo, vai correndo atrás de uma coisa, vai correndo atrás de outra, vai rompendo. Passa um sacrifício hoje, outro amanhã e lá vai, tem que acostumar. P/1 – O que a senhora achou de falar pra câmera? Contando a história sendo registrada? R – Nada não, tá tudo certo. O que eu falo é tudo verdade, olhe no computador se é mentira. P/1 – Tá bom, então, Dona Nelite, obrigada! FINAL DA ENTREVISTA
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