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História

Dona Messias precisava subir num caixote para botar a panela no fogo

História de: Messias Andrade de Jesus
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Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Messias Andrade de Jesus, da Associação das Lavadeiras, conta sobre a rotina das lavadeiras, fala do trabalho, do descanso e da organização do grupo.

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História completa

Meu nome é Messias Andrade de Jesus, nasci em Curaçá na Bahia, Mar de São Francisco, em vinte e cinco de dezembro de 1930. Meu pai era pescador. Mas a gente foi mais na roça. Ali ele plantava mandioca, a gente ajudava. Tudo que plantava ali, a gente ajudava. Vivia de roça e da pescaria. A gente tocava os bois no pé do engenho pra poder moer a cana pra fazer a rapadura.  

De noite a gente ia para os bailes, aos forrós em outras roças, amanhecia o dia. De manhã vinha tirar leite para o povo tomar café, os trabalhadores. Eu gostava muito desses trabalhos. Até hoje, como eu gosto desse trabalho que eu vivo. Eu acho que eu só vivo por causa desse trabalho. Eu adoro esse trabalho. Lavei 52 anos dentro do Rio da Pitanga. Meu pai morreu, a gente tinha que cada qual trabalhar pra se manter. Foi muito cedo que eu comecei a trabalhar, eu lavava roupa de ganho, eu me empregava em casa de família. Eu era tão grande, que a patroa botava um caixote pra eu subir pra botar a panela no fogo.

Aí eu não ia mais pra casa de família, ficava lavando roupa. Durante o dia a gente lavava, botava pra enxugar lá no rio mesmo, de tardezinha, umas cinco e meia, os meninos começavam a carregar as bacias de roupa. No outro dia, eu levantava duas horas da manhã pra passar depressa, pra deixar pronta pra quando o dono vinha buscar, pra seis horas eu ir para o rio de volta lavar outra. Era assim que a gente fazia. Era assim que a gente vivia. Tempo de manga, juntava aquele bocado de manga, cada uma levava um bocado de manga. Quando acabava de lavar roupa, tomava um banho, sentava na sombra, haja chupar manga! Vinha comer de tarde. A vida da gente era muito sofrida. Vinha comer de tarde, era alegria porque tava todo mundo trabalhando ali, todo mundo junto, conversando. Tinha delas que bebia: “Vamos beber um rabo de galo”. Mandava comprar a bebida, bebia, aí ficava mais alegre (risos). Oxe, foi o tempo melhor, porque a pessoa lavava dentro do rio. Depois foi que o rio não prestou mais, fizeram esgoto, aí a gente ficou sem lavar no rio.

Meus meninos, todos eles, iam tomar banho no rio. De noite, eu levantava quatro horas da manhã pra carregar água pra encher o tonel em casa, pra quando eu fosse para o rio, já deixar água dentro de casa pra eles. A gente juntava duas, três mulheres, e íamos para o rio quatro horas da manhã pra encher o tonel. Cantava enquanto lavava roupa lá no rio, hino das lavadeiras. Eu tenho um bocado de hino guardado daquele tempo. Tem um que é: “Sou lavadeira, mulher sofrida, vivo sofrendo, meu Deus, sem ter saída. E acordo de manhã cedo, vou lavar a roupa para o dinheiro ganhar. Lavar roupa, quando eu chego a casa...”. Eu sei que diz assim, agora não lembro, não. Tem um que diz assim: “Vamos todos ouvir nossas forças, vamos todos lutar pra valer. Porque Deus não despreza seu povo, só pedimos pra Ele atender. Vamos dar as mãos, companheira, pra nossa corrente ficar forte. Vamos dar as mãos, lavadeiras, porque essa é a nossa sorte”. Esse eu ainda me lembro.

A gente ia fazer assembleia na cidade, todo ano. Pra poder as patroas verem que a gente trabalhava e darem aquele salário justo. A gente mesmo organizava. Lá na cidade as freiras [do colégio] ajudavam muito as lavadeiras. A gente fazia manifestação na rua. Quando o rio poluiu, não podia mais lavar no rio. A Embasa entrou logo com a água aqui. Já tinha casa botando a água. Foi quando eu também botei lá em casa. Lavava em casa. Na rua tinha aqueles capinzinhos baixos, a gente escorava a roupa, enxaguava. Ficou ruim só por isso, porque cada qual ficou só na sua casa. Porque todo mundo botou sua aguinha e ia lavar.

Dona Antônia chegou, disse: “Messias, vamos fazer um grupo de lavadeiras?”. Eu: “Pra quê, dona?” “Pra gente fazer um grupo”. Eu disse: “Vamos”. Aí começamos a ir pra cidade ver as coisas como eram, botamos uma reunião cada semana numa casa. A gente fazia aqueles bolos bem pequenininhos pra vender, a um real, a cada sócia que ia com a gente, pra poder juntar o dinheiro. E nisso foi fazendo o grupo, depois entrou esse prefeito, ele deu esse terreno aqui à gente, disse que dava a lavanderia. Eu disse logo a ele: “Não é nada de trabalho, porque eu não quero trabalho, eu quero é descanso para os idosos”, porque toda vida meu sonho foi esse: quando eu ver um idoso cansado, eu dar o abrigo. Aí ele me deu a lavanderia, eu digo: “Quem puder lavar, lava; quem não puder, descansa, passa o dia ali conversando”... “Porque eu não pedi trabalho, eu pedi descanso”. Dito, acontece mesmo, porque todo mundo vem aqui trabalhar. Só a gente mesmo, os idosos, senta um, dois, eu me sento ali também, a gente fica trabalhando ali. Dia de sábado a gente costura, mas se tiver um churrasquinho... Aqui tem uma que não pode passar uma carne: “Vamos comer uma carne queimada?” (risos). Aí todo mundo dá aquele tostãozinho e vai comprar a carne, faz aquela farofa, todo mundo come até seis horas, que vai embora, toma a sua cerveja. Eu boto a cerveja aí e tomo. Outro dia um falou que é lavanderia com cerveja. Aí minha filha foi lá e disse a ele “o que ele sabia daqui”. Porque quando eu fiz a ata, tinha o lazer das lavadeiras e ele queria se meter, um professor que tem aqui. Aí a minha menina o cortou logo, disse “o que ele sabia daqui da lavanderia, se ele sabia das atas como eram?”. Ele fechou a carinha dele e pronto.

Há dezoito anos, a gente era umas 42. Aí foi morrendo, uma adoecendo já de velha, de tanto lavar roupa, foi morrendo. E até que estamos chegando aqui, mas hoje em dia...

Eu disse: “Olha, nem que eu fique sozinha, mas eu vou dar conta, nem que eu fique sozinha”. Até hoje eu lavo. Eu lavo e passo! Eu não me sinto cansada no meu trabalho, eu me sinto cansada sem trabalhar.

Comigo não bolem, porque quem me deu sabe de que jeito me deu. Eu aqui cavei, cavei mais Vivaldina, a gente foi ver se o terreno tinha dono. A gente cavou, cavou, chegou lá: “Não tem dono, o terreno é do patrimônio”. Aí já estamos pra receber o documento. Dei meus documentos, mas tirei em nome da lavanderia, porque eu disse logo: “Aqui não sou eu só que digo”. [A prefeita] queria me dar uma lavanderia lá dentro dos matos pra ficar com esse espaço aqui pra outra coisa. Eu disse a ela: “Não, prefeita, eu não pedi trabalho, eu pedi descanso. E ali dá muito bem pra eu descansar mais minhas colegas”. Ela já veio aqui, muita gente já veio pra trocar, eu não troco, não.

Aqui se uma disser “vamos fazer?”, todas dizem “vamos”. Se disser “não”, é não, pronto. Se eu disser “vamos dar?”, “é bom dar?”, e elas todas disserem “dê”, vai. Se elas disserem “não”, não. Se tiver alguma pessoa que humilhe a gente, humilhe ao menos uma da família, que tá mais a gente, vai tudo embora, não fica, não. Porque a gente foi junto, então não tem que ninguém humilhar. Vem tudo embora. Aqui bole com uma, briga com todas. Bula com uma aqui dentro que buliu com todas. Aí vem uma, vem outra, quando vê, a senhora tá rodeada que não sabe por onde sair.

E a gente calada, só naquela coisa, calada, esperando... Porque ninguém espere, que do céu não cai nada! Ninguém espere. Tem que sair pedindo, nem que não diga que vai.

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