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Dona Duduca: na roça da vida, deixa um legado de garra

História de: Nilza Maria Pinto da Costa (Duduca)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2019

Sinopse

Quando Nilza era pequena, o irmão mais velho inventou o apelido. Pegou. Hoje ela é dona Duduca. Criou os seis filhos com amor e muita dificuldade. De, às vezes, ter um pouco mais que o nada. Mas criou dedicando a eles o mesmo cuidado com que cuidou dos irmãos lá na roça. A mãe costurava para eles e Duduca ia, toda prosa, conduzindo para a reza. Foi um “pé de boi” - a expressão é do pai - na roça: plantava, carpia, colhia. Cantando. E, no caminho, pegava lenha. Depois casou. Viveu tristezas, amargura, miséria. Lutou como leoa e hoje tem o reconhecimento de seus leõezinhos. Já adultos, já formados. Mas a leoa foi humana, ensinando lições de solidariedade na doença do companheiro. Hoje vive a vida tranquila que merece. Que semeou, como semeou o milho lá em seu Visconde do Rio Branco. Ela própria diz que vive “quietinha” a sua vida muito boa.

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História completa

Nasci com o nome de Nilza Maria, em Visconde do Rio Branco - MG - no dia 07 de maio de 1940. O apelido Duduca veio do meu irmão mais velho. E pegou. O pai e a mãe eram de lá mesmo, ela do Morro dos Bueiros e ele da Gruta do João Pinto. João Pinto era meu avô. Em casa, nós éramos onze irmãos. Morreram três ainda pequenos, dois já depois de velhos e hoje somos seis. Cuidei de todos eles. Caía o umbigo, eu começava a cuidar. Para ajudar mamãe. E dormia todo mundo comigo, “aquele monte de menino”. Às vezes eu acordava de manhã cedo, toda urinada. É que eles faziam xixi na cama, criança é assim. Num desses dias não deu tempo de trocar de roupa e a pobre da Duduca, carregada de vergonha, foi para a escola com o vestido todo molhado. Porque a escola, eram três léguas e meia, a pé. E, invariavelmente, já chegava lá com a aula iniciada - o cabeçalho feito - porque tinha que, primeiro, dar conta das tarefas de casa.

 

Minha mãe era caprichosa. Por exemplo, para a gente dormir - eu e aquela criançada toda - ela fazia colchão de palha. E também fazia cada roupinha para as crianças… Lembro que lá no alto do morro tinha uma capela e eu levava os meninos para a reza. Mas eu ia toda metida, por causa das roupas bonitinhas que mãe fazia para eles.

 

Esse um aí, na hora de comer, tinha que pôr uma vasilha aqui no meu colo (...). Não pedia nada para a mãe. Era assim, e eu gostava.


 

Agora, triste mesmo foi quando eu me casei e oito dias depois minha mãe se mudou para longe - recordo-me dela levando “aquele monte de meninos sozinha, e eles chorando”. Eles choravam porque queriam que eu fosse com eles. Era eu chorando de um lado, eles chorando do outro. Porque essas crianças, apesar de ter que dormir com elas, e elas choravam de noite, urinavam na gente e tudo, “mas era gostoso, eu gostava, eu adorava essas crianças”. Outra lembrança daquele tempo: na casa, eram três quartos - o do papai e da mamãe, o dos irmãos mais velhos e o meu com a criançada. E aquele quintal com milho na frente e bananeira nos fundos. Mas, a rigor, não se pode dizer que a gente tenha tido infância não. Era só trabalhar. Trabalhava na roça, um serviço pesado; ajudava em casa, lavando roupa, carregando lenha. Na época da safra de cana, levantava de madrugada, ia cortar a cana, fazer assim uns feixes e deixar no carro de boi. Ah, e não ganhava nada não. O dinheiro era todo do pai, todo para a casa.


(...) o prazer que a gente tinha era de ficar lá na roça. (...) a gente cantava o dia inteiro na roça, era tão bom. E eu acompanhava o meu pai o dia inteirinho na enxada, o dia inteirinho, para você ver. E o papai (...) a gente começava a cantar e ele começava a assobiar o canto que a gente estava cantando.  

 

 

Mas a gente era muito, muito preso. Parece que só tinha obrigações. No mês de maio tinha a coroadeira, festa religiosa; papai não deixava ir. Ele só fazia duas festas por ano - aniversário dele e aniversário de minha mãe. A gente escutava a festa, mas não podia estar nela. Na Semana Santa, se acontecesse de ir com alguém, tinha que ser na terça-feira: nesse dia terminava mais cedo. Vestidinho que mamãe fazia, tinha que ser de manguinha e não podia mostrar as pernas. Ir à cidade não era para passear não, era para entregar abóbora, banana, mamão que vendia para o botequim - a quitanda de lá. Ia a pé, voltava a pé, lugares perigosos, risco de encontrar cachorro bravo - uma vez, eu e meu irmão nos deparamos com um. Ah, e se estivesse chovendo, usava um chinelinho. Mas só para chegar na cidade, depois tirava que era para não estragar. Sabe, de fato, as coisas eram bem difíceis para nós. O Natal, por exemplo, como festa, luzes, enfeites, troca de presentes, não existia. Vim a conhecer em São Paulo. Lá na roça, o Natal era comida. Era deixar engordar o frango, matar o porco e o cabrito. Era só. E no fundo era muito triste matar esses bichos, fosse para o Natal, fosse para vender. Muito sofrimento; a gente, criança, sofria junto.

 

Aí, eu fui crescendo, ajudando a mãe a criar os irmãos, trabalhando na roça com tal disposição que o pai até chamava de “pé de boi”. E logo saí da escola: alguém disse que meu pai estava com filha casadeira na escola, e ele não gostou. Veio então o casamento. Não por amor, mas por vontade de sair de casa, de ganhar um pouco de liberdade, achando que aquilo que o pai proíbe, o marido vai permitir. Doce ilusão. No meu caso, o marido revelou-se bem pior do que o pai. Em tudo. E, na verdade, eu nem sabia exatamente o que era casamento. No meu tempo, não havia, ao menos lá na roça, propriamente namoro, ou seja, uma convivência que permitisse um conhecer o outro. Algum daqueles rapazes, que eu conhecia de vista, porque era da região, se entendeu lá com o meu pai, falou que queria casar e aí já acertaram tudo, fixaram a data. E depois o pai me avisou - avisou, ordenando - que eu iria casar. Ele ia em casa, aos sábados, e a gente nem se falava; na verdade, não podia nem sentar no mesmo banco - ficava lá na roça ou no futebol com meus irmãos.

 

Não tardou a se delinear toda a tragédia, toda a miséria daquele casamento: uma casa de pau a pique; um filho atrás do outro; o primeiro parto tão difícil que eu cheguei a quebrar um dente fazendo força. E coisas bem piores: ele se envolveu com uma menina de quatorze anos. Tivemos que deixar a cidade à noite, ele jurado de morte. Fui com cinco filhos para a casa do sogro. Que tinha mais cinco. Ele sem trabalho, escondido. Cheguei ao ponto de fazer visitas diárias à minha prima para me alimentar e alimentar meus filhos. O jeito foi vir para São Paulo, casa da minha mãe. Do ponto de vista de dificuldades, foram os piores momentos que passamos na vida. Sem trabalho, sem rendimento, minha mãe precisou mudar-se, a casa foi posta à venda, ficamos restritos a um cômodo. Lembro-me de quando cheguei aqui em São Paulo, os meus irmãos choraram copiosamente ao verem o meu estado: magra, abatida, sem dentes. Sem dinheiro, sem perspectivas, o marido sem trabalho, sem ânimo por causa da traição sofrida. E vivendo de favor num único cômodo, já aí cedido por um tio que se apiedou da situação, mas as condições eram as mais precárias possíveis.

 

Só que, aos poucos, as coisas foram se ajeitando: um irmão trazia sobras de um restaurante onde trabalhava; o marido conseguiu emprego, eu passei a lavar roupa para fora, ainda que escondido dele. Mas sempre as dificuldades. Muitas. Ora maiores, ora menores. E ele ‘aprontando’. Um belo dia foi demitido, depois de treze anos, e aí foi a oportunidade de comprar um terreno e construir um barraco. Nem mais, nem menos: um barraco! Mas… Hoje os filhos transformaram em três casas, na Penha. E histórias de traições, namoradas, desentendimentos… Aconteceu o inevitável: a separação em definitivo.

 

Bom, aí vem o penúltimo capítulo. O último é o que estou vivendo agora, com a graça de Deus. Mas enfim, ele ficou doente. Gravemente doente. Eu me mantive solidária, cuidadora até o final dos dias dele. Na verdade, um longo período entre marcapasso, AVC, nova cirurgia e morte. E eu sempre presente. Aí fui trabalhar e a vida prosseguiu. Poder-se-ia dizer que livre, leve. Mas sempre em torno de meus filhos, sempre junto deles. Hoje eu tenho a minha aposentadoria, minha vida tranquila.

 

A minha vida agora está boa demais. Fico quietinha aqui, tem uma moça que faz a faxina para mim, os meus filhos me ajudam muito.


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