Busca avançada



Criar

História

Dona do próprio tempo

História de: Renata Ostan
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/02/2021

Sinopse

Neta de italiano e índio; O pai faleceu cedo. Renata, suas duas irmãs e a mãe moraram num apartamento de quarto e sala. Tiveram uma vida dura mas feliz na Zona Norte de São Paulo. Quis deixar de estudar por conta de uma gravidez precoce; A mãe não deixou e a estimulou a estudar. Fez faculdade; trabalhou em grandes empresas. Para ser dona do seu tempo passou a atender como manicure à domicílio. Pensa em unir o seu lado administradora  com o de manicure.

Tags

História completa

 Assim que meu pai faleceu… Ele era zelador, então a gente morava no condomínio, porque ele era zelador. Tivemos que nos mudar rapidamente e minha mãe construiu uma casa no terreno do quintal da minha avó. Lá era uma casa bem modesta mesmo, que é onde vivemos os mais longos anos das nossas vidas. Quarto, sala e cozinha, com todo mundo junto. Bem apertadinho, bem modesto, mas também fomos bem felizes ali. Foi dali que cada um conseguiu se inspirar para ter coisa melhor e conseguir batalhar na vida.

 

Sobre a minha gravidez, eu comecei um relacionamento, assim… Foi muito rápido, foi praticamente nas primeiras relações que eu tive. Então, eu comecei a namorar, com o tempo contei para a minha mãe que estava namorando, e fiquei namorando um bom período assim, só que acho que engravidei com quatro meses de relação, quatro meses de relacionamento. Eu sabia que estava grávida, mas não tinha coragem de contar para a minha mãe, então a gente ficou esse tempo… Eu fiquei um tempão grávida e sabendo que estava grávida, mas não contei para minha ninguém. Fiquei segurando, porque lá no fundinho você pensa, "não é verdade", você fica com essa, "não pode ser, tem uma esperança no fundo". Eu engravidei em dezembro e minha mãe só ficou sabendo no final de maio. Minha mãe chorou absurdos, absurdos, absurdos, minha mãe chorou muito, muito, muito. Eu lembro disso e até me arrependo, porque fiz ela chorar bastante… Até me arrependo muito disso, porque ela não merecia. Mas assim, depois de duas horas que passou chorando, ela já estava, "você precisa comer isso", "não, mas a gente precisa comprar esse tipo de roupa para você, porque a outra já não vai caber mais". Então, duas horas depois, ao mesmo tempo que ela estava muito triste e muito brava, ela já estava toda preocupada com todo esse processo da gravidez, comigo, etc. Ela reagiu… Ficou muito triste, mas reagiu muito bem, me apoiou. A questão do estudo, eu falei que não iria mais estudar, e ela falou que não, que eu iria estudar sim. Me ajudou a estudar, me fez ir à escola, foi comigo pegar trabalho, conversar… Todos dias eu ficava, "tô com preguiça, para quê eu vou estudar? Eu já vou ter filho, vou ficar em casa cuidando de filho", e ela, "não, você vai estudar, você vai estudar, você vai estudar", então isso foi uma coisa que também me ajudou muito na vida e que agradeço muito a ela, porque ela não desistiu de mim, não me deixou fazer o que quisesse. Ela impôs o que achava que seria melhor para mim e realmente foi. Agradeço muito por isso. Eu engravidei com 15 anos e tive com 16. 

 

Depois que consegui fazer faculdade, saí da clínica e fui trabalhar na Cassi, que era Caixa de Assistência do Banco do Brasil, que é tipo o plano de saúde do Banco do Brasil. Era também na área da saúde e na parte administrativa. Trabalhei lá por pouco tempo, porque era temporário. Na época era bom, porque eu não ficava nem três meses desempregada. Era uma época muito boa.

 

Depois, fui trabalhar em uma distribuidora de medicamentos. Então, tudo isso aí. Lá na ACD, onde conheci o pai da minha filha, eu fui fazer pós-graduação em Inglês. Eu comecei a mexer com compras internacionais e falei, "vou fazer pós-graduação em gestão hospitalar e vou fazer inglês, porque preciso". Comecei e falei, "vou dar um boom na minha carreira".

 

Eu já conhecia bastante gente no mercado, porque estava há um tempo na área, mas a gravidez interrompeu esses nossos planos. Foi daí que mudei para outra área. Foi depois da segunda gravidez que decidi virar empreendedora e fazer o meu trabalho, o meu tempo, tudo isso aí. 

 

O que acho que é preciso para ser empreendedora… Precisa-se de muito esforço, você não pode ter preguiça de trabalhar. Você precisa ir lá e batalhar bastante, e ter uma visão legal do que… Você precisa fazer o que você gosta, precisa se encaixar em uma área que você goste. Não assim… Você tem que pegar uma oportunidade que junte o útil ao agradável, o que você gosta com a oportunidade de mercado, claro. Mas você não pode ser uma empreendedora que a sociedade… Por exemplo, com as paletas mexicanas todo mundo foi um empreendedor, mas um empreendedor moda, vai! Você não pode ser um empreendedor da moda, que você chega lá, todo mundo te dá uma ideia pronta e você vai… Acho que você tem que pegar a ideia, mas colocar uma coisa sua, uma essência sua para você ser empreendedora. Têm muitas manicures no mundo, uma manicure a cada esquina, mas eu peguei a oportunidade com o meu conhecimento e coloquei uma pitadinha do meu, da minha visão, do meu jeito para que isso seja um diferencial. Por que as pessoas querem fazer comigo e não fazer no salão da esquina da casa delas? Você entendeu? Então acho que é isso, você pegar uma oportunidade e ideia e colocar sua essência. Acho que para você empreender, você precisa colocar o seu diferencial naquele produto ou serviço que o mercado já oferece. Acho que esforço, trabalho duro e pôr a sua essência no seu produto ou serviço, acho que isso é ser empreendedor.

 

Às vezes a gente acha que está no caminho certo e que está fazendo tudo direitinho, e aí ouve a história das pessoas ou experimenta mais de um curso desses que te abre um leque de ideias que você fala… Por exemplo, eu sempre quis ter uma rede social profissional, mas tenho muito medo de rede social, por exemplo por essas opiniões que as pessoas dão que machucam e que influenciam. Esses comentários maldosos… A minha rede social pessoal eu também nem divulgo muito por conta disso. Acho que as pessoas julgam muito. Mas eles colocaram lá ideias…. Eu até já estou trabalhando essa ideia de fazer o profissional. Tenho clientes que vão me ajudar. E mudaram totalmente… Nisso, por exemplo, eles mudaram totalmente a minha visão. O 1000 Mulheres… Como eu venho de… Por exemplo, todos os meus amigos e a maior parte da minha família trabalham em empresa, têm um cargo  sim e querendo ou não, meus amigos da faculdade… Querendo ou não, eu saí de um cargo e as pessoas pensam, "nossa, ela virou manicure", elas não pensam assim, "empreendedora", sabe? Eu fui para um meio em que eu me sentia legal, onde as pessoas conheciam minha história e falavam, "nossa, que bacana, que legal", e isso também mudou, porque eu me sentia inferior até certo ponto. Quando fui para o Sebrae, principalmente para o Mil Mulheres… Quando você vê chega lá, conta sua história, faz as coisas e vê o incentivo de você ser uma mulher que está se sustentando sozinha, com um trabalho seu, um meio seu, você fala, "poxa, eu sou uma pessoa muito legal", você não é o que falaram de ter abaixado… Não, você é uma baita mulher que está fazendo uma coisa muito bacana. Então, mudou bastante a minha visão nesses dois quesitos, depois que eu comecei a fazer os cursos do Sebrae. 

 

 Na verdade, eu já pensei em unir esse lado administradora a manicure. Eu não pensei em ter um espaço meu, eu gosto de atender a domicílio. Isso que eu faço, gosto de fazer a domicílio. Mas eu já pensei em não ter um espaço meu, mas trabalhar em uma instituição ou trabalhar em alguma comunidade, por exemplo, em um centro de convivência, alguma coisa de comunidade para ajudar. Contar minha história, ou dar palestra e ensinar as pessoas a se virarem. Eu, por exemplo, aprendi a me virar… Eu tive contato com várias pessoas, no aplicativo por exemplo, que diziam, "ah, não consigo trabalhar, eu preciso trabalhar em salão, porque assim meu dinheiro não rende", e eu dizia, "gente, mas isso é tão fácil", porque como eu tenho esse lado administradora, consigo trabalhar meu dinheiro, administrar tempo, dinheiro, recursos, etc. Muita gente quer fazer, sabe trabalhar, mas não tem essa visão, então eu não tenho vontade de montar um espaço, mas de disseminar esse meu conhecimento para ajudar outras pessoas.

 

O que significa para mim ser uma mulher empreendedora? Significa muita coisa. Significa… Primeiro, que por ser mulher, já é tudo mais difícil. Eu que tive duas filhas para criar e criei praticamente sozinha, sei o quanto é difícil. Então, você ser uma empreendedora, ter essa visão em uma sociedade onde temos a cultura de que o homem que traz dinheiro para casa, o homem que era o chefe da família… Hoje eu ser uma empreendedora, chefe de família, com duas filhas criadas, para mim é sensacional. Ser mulher… Hoje eu sou tudo que quero ser. Sou a mãe, a empresária, sou a mulher, então ser uma mulher empreendedora é ser o que você quiser. Para mim, é isso, você pode ser o que quiser, você trabalha no que quiser, toma conta da sua casa, não depende de terceiros… É difícil, lógico, nem tudo são flores na vida. Você tem que batalhar às vezes muito mais do que se você estivesse na zona de conforto de uma empresa. Mas para mim significa muito, porque eu nunca gostei de depender de ninguém, sempre gostei de batalhar. Têm até umas amigas minhas que ficam rindo, porque eu fico falando, "preciso de um marido rico" brincando, e elas dizem, "duvido que você conseguiria ficar só em casa, nunca que você iria conseguir", porque todo mundo que me conhece sabe que independente de qualquer coisa, eu gosto de trabalhar. Você trabalhar no que gosta, conseguir sustentar sua família e ainda empreender, tendo essa visão igual a que puxei hoje de que saí disso e fui para isso, saí disso e fui para isso, é sensacional, não tem igual. Ser empreendedora é ser o que você quiser.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+