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História

Dona Beth e um legado de tradição, requinte e nobreza

História de: Elisabeth Zwölfer Americano
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/04/2017

Sinopse

Elisabeth Zwölfer Americano, a dona Beth, mora em São Paulo e diz não ter planos para o futuro. Explica: considerando tudo o que conseguiu na vida, desde o que sempre quis e muito mais do que imaginava ter, ela nada mais precisa almejar. Principalmente porque tem uma família grande e linda, aliás, lindíssima! Não se conta a sua trajetória de vida sem contar a de seu pai, José Zwölfer: a Primeira Grande Guerra levou o velho Zwölfer para a Argentina, onde casou-se. Indo posteriormente para o Brasil, enviuvou duas vezes e casou-se novamente com a mãe de Elisabeth. Quando Beth nasceu, a família já tocava um hotel que, ao longo dos anos, tornou-se referência em hospedagem e padrão de qualidade no atendimento, nos serviços e na comida. Até futuros presidentes, como JK, Jânio e Jango, estiveram lá. Tudo era produzido, criado ou pescado no local, indo direto para a mesa: legumes, verduras, carnes, peixes, lagosta, sopa de tartaruga… Aos 17 anos casou-se com um engenheiro de 28 anos da família Americano. Com 23 já passeava com uma prole que chamava a atenção justamente pela juventude da mãe: um menino e quatro meninas. Hoje, dona Beth continua atarefadíssima, ativíssima, mas sempre encontra tempo para agradecer a Santa Teresinha, de sua devoção, por não ter nada mais a desejar na vida, nem a pedir, significando que tudo com que podia sonhar já foi obtido.

História completa

Nasci em 11 de abril de 1942, na praia de Cabeçudas, ao lado de Itajaí, em Santa Catarina. Não conseguiria contar a minha história sem contar a de meu pai, José Zwölfer. A trajetória de vida dele, extraordinária, fala por si. E explica, através de seus desafios e conquistas, a grande influência que ele exerceu sobre todos nós, seus filhos. Mas, certamente, ele influenciou, também, o seu tempo, a sociedade com a qual interagiu e os seus inúmeros amigos. Meu pai nasceu na Áustria, na cidade de Melk, onde estudou no histórico mosteiro de mesmo nome, um dos três na região onde ainda se trabalhava as Iluminuras.

 

“Era histórica a casa que meu pai tinha, lá em Melk, a sessenta quilômetros de Viena; tinha uma parede de dois metros e meio de largura, que era um túnel que seguia por baixo do mosteiro, por onde os monges  escapavam dos ataques”.

 

A Primeira Guerra Mundial o trouxe, como imigrante, primeiro para a Argentina, depois para o Brasil. Estabeleceu-se em Blumenau com uma bem sucedida churrascaria - choperia, linguiça, comida alemã. Imigrantes alemães, ali radicados, incentivaram-no a desbravar a então quase selvagem praia de Cabeçudas. Queriam um lugar onde tivessem um pouso e comida de qualidade. Meu pai então montou um hotel - o prédio foi financiado pela Caixa Econômica e destinava-se, originalmente, a abrigar pessoas idosas da região em uma Casa de Saúde. O fato é que, com o tempo, ele transformou aquele empreendimento em um referencial na área de hotelaria, atraindo hóspedes ilustres, famílias as mais prestigiadas da região, e também de Curitiba, da Capital e do Rio Grande do Sul, além de Rio de Janeiro e São Paulo. O hotel passou a ter uma demanda de hóspedes cativos, que retornavam todos os verões, todas as temporadas, famílias inteiras, sucedendo-se as gerações, surpreendendo pela quantidade de empresários, políticos - governadores, senadores, prefeitos. Em épocas diferentes por lá passaram Juscelino Kubitschek, que me levou a passear na praia, Jânio Quadros e João Goulart, quando ainda não eram presidentes. Mas, claro, tudo isso aconteceu ao longo de um tempo de consolidação do hotel, cuja excelência de serviços começou a fazer história. Só que antes disso ele ficou viúvo, casou de novo e novamente enviuvou. Seu terceiro casamento foi com minha mãe, Maria Tarnowski Zwölfer, e foi uma linda história contada pela tradição alemã: quando a pessoa, no caso, o homem, ficava viúvo, os amigos escolhiam quem seria a futura mulher dele.

 

O meu pai ficou viúvo e o Fritz Schneider, que era o senhor que tinha o curtume de couro, e mais alguns amigos, foram buscar a minha mãe em Indaial. Porque ela era bonita, de saúde, muito bonita minha mãe era…"

 

Minha mãe era uma cozinheira excepcional. E ela passou a dar conta de toda a comida do hotel, numa época em que, aos sábados e domingos, servia-se uma média de cento e vinte refeições. Meu pai, contudo, não abria mão de provar a comida, antes de ser servida. O hotel tinha horta, então tudo o que era feito tinha a melhor procedência. Criávamos frangos e porcos. O peixe vinha direto dos pescadores e a lagosta - servida para hóspedes especiais - impressionava pela beleza e tamanho. Quando chegava tartaruga, por exemplo, fazia-se sopa de tartaruga. O casco, meu pai envernizava e pendurava nas paredes do hotel.

 

Tive uma família muito enriquecedora, em todos os sentidos. Nunca vi meu pai gritar com um empregado sequer, nunca! E também, nunca discriminar: tínhamos funcionários de cor, homossexuais, e todos eram tratados com respeito e consideração. Minha mãe era uma pessoa extraordinária. A autêntica matriarca, adorada pelas filhas mais velhas de meu pai e, mais tarde, pelos seis primeiros netos dele, filhos delas, que eram apaixonados por minha mãe. Na Páscoa, minha irmã cuidava de colocar os ovinhos na nossa porta, dizendo que por ali haviam passado os coelhinhos. O Natal era todo estilo alemão. Possuíamos charrete, um charme. E, nela, minha irmã sempre de luva de couro, com muito estilo. E nós brincávamos, é claro, mas só depois das obrigações. Que eu não cumpria propriamente como uma obrigação, mas com dedicação. Claro que era obrigada a ajudar, mas havia também o interesse em aprender, em fazer bem feito, em me qualificar. Por exemplo, aos dez anos eu conseguia distribuir, corretamente, os hóspedes nas dependências. Que as empresas aéreas - existiam três que desciam em Itajaí - desembarcavam naquela região os seus DC-3, o máximo para a época, com vinte, trinta passageiros de capacidade. Eu ia para a cozinha, com a minha irmã - tínhamos que usar saia e avental, não podia ser short - assim como - ainda que sob protesto e choro, porque minha irmã não era convocada, só eu -  ajudava a fazer lençóis para o hotel. Em determinado momento, antes de ir para a aula, eu tinha o cuidado de verificar se estava tudo encaminhado e os funcionários devidamente orientados, que era para o meu pai não precisar chamar a atenção deles. Quando houve um episódio muito grave, que, por uma denúncia maldosa e injusta, meu pai teve que se afastar do hotel para não ser preso - acusaram-no de simpatia pelo nazismo - as mulheres da família é que tocaram o hotel. Com muita responsabilidade e competência.

 

Mas, voltando às brincadeiras, nossas bonecas eram feitas pelas irmãs mais velhas ou por nossos pais, e a casinha delas quem construía era um tio nosso, utilizando engradados de cerveja que, na época, eram de madeira. Mas, nesse tempo, decidi acompanhar minha irmã e fui para o internato. De freiras alemãs, da Divina Providência. Aprendi muito. Verdadeiramente um período de rigidez, disciplina, mas um excelente aprendizado. Só saíamos uma vez por mês ou em algum feriado grande; aos domingos, no entanto, nos levavam as Irmãs para comprar balas. Rezávamos no almoço e na hora do Angelus, seis da tarde. Deitávamos cedo e tínhamos que estar de pé quinze para as cinco. A cama tinha que ficar impecavelmente arrumada, caso contrário, ao voltarmos do almoço, a encontrávamos toda revirada para que refizéssemos o serviço com a perfeição exigida. Não tínhamos que limpar nada, nem lavar louça, porém secá-la, sim. Às terças e sextas a gente tomava banho; nos outros dias, lavávamos os pés. Agora, o ponto alto era o ensino, as matérias básicas do ginásio ensinadas com o máximo de qualidade, por grandes professores. O aprendizado de Francês, por exemplo, era feito em livros que vinham direto da França. Geografia, tínhamos os mapas. As visitas dos pais eram em salas lindíssimas, porém só podiam durar, no máximo, cinco minutos!

 

“Formei no ginásio, vim para Itajaí. Ia fazer o curso de Economia Doméstica, que era espera-marido…”.

 

Influenciada por uma colega, quando saí do internato fui fazer a Escola Normal, em Itajaí. Mas antes, voltando ainda um pouco ao ambiente do hotel e ao ambiente familiar, quero falar da nossa maravilhosa praia, que era um paraíso, uma paisagem deslumbrante, inesquecível, os pescadores, as ondas imensas que furávamos, deixando minha mãe com o coração na boca. E as brincadeiras - patinete, bicicleta, as bonecas, e coisas mais lúdicas, como caixinhas de fósforo  onde fazíamos o enterro das formigas, a amarelinha riscada no chão, a brincadeira do passar o anel. Por falar em enterros, essa foi uma coisa que marcou muito a minha infância por causa da cerimônia, da tradição: portas e janelas das casas, fechadas, enquanto não passasse o cortejo e as calesses. Calesse - mais tarde eu voltei a vê-los na França - eram carros fúnebres pretos, com cortinas pretas e bordas de franjas douradas, puxados por cavalos com penachos. O número de cavalos determinava o grau de poder do falecido. E queria também enfatizar a estrutura do hotel, a ilha de excelência que era, o esmero com que as coisas eram feitas, a elegância presente no serviço de mesa, por exemplo nos talheres, na arrumação das mesas, na louça, e assim por diante. O leite - é inacreditável - servido todas as manhãs, era preparado a partir de dez latinhas de leite condensado, o mesmo leite Moça que existe ainda hoje. Tudo isso deve ter tido influência na dona de casa exigente que eu sou hoje - e sempre fui. Mas, não era para menos. Afinal, recebíamos as famílias mais finas, mais tradicionais, com maior prestígio ali de Brusque, Blumenau, Itajaí, Joinvile, fora a Capital, o resto do Sul todo, e de outros estados. Gente como os Konder, os Bento Munhoz, os Bornhausen, a família inteira do Evandro Lins e Silva, o Brizola, e tantos outros.

 

“O Jorge Bornhausen, governador, foi meu colega de aula. Desde que o pai dele foi governador, ele pôs um cabo de vassoura aqui e nunca mais ele abaixou a cabeça”.

 

Bom, mas aí foi um engenheiro para lá - um rapaz de seus vinte e oito anos - que, inclusive meu pai vetou a presença dele como hóspede fixo justamente porque era solteiro e novo, e que trabalhava numa empresa chamada CBPO, do Oscar Americano, por sinal, tio dele. Note que eu, nessa época, estava ali entre os dezesseis e os dezessete anos. Isso foi em 1959. Ele foi para lá trabalhar na construção de um trecho da rodovia que ligaria Curitiba ao Rio Grande do Sul. Para encurtar a história e para profunda frustração das solteironas do lugar, a mim é que ele escolheu para caminhar com ele pela estrada da vida: o que fazemos há 57 anos. São cinco filhos - um homem e quatro mulheres - netos e uma bisneta. Foram anos de luta, sacrifício, mas também de muitas conquistas, muita harmonia e felicidade com a formação de uma família linda. A partir de determinado momento, foram muitas, muitas viagens. E, olhando para esses anos todos e todos os caminhos que percorremos, fico com a sensação de que consegui tudo o que poderia querer da vida, tendo alcançado todas as metas que eu jamais imaginei pudesse alcançar.

 

Aos 23 anos eu já passeava no Shopping Iguatemi, por exemplo, com cinco filhos. As meninas, vestidas todas iguais apenas com cores diferentes. Mas, voltando um pouco, logo depois de casados fomos para Curitiba, em função do trabalho do meu marido. A propósito, morar aqui e ali foi uma constante depois de casada, sempre por causa de obras de que ele participava. Depois, viemos para São Paulo. E a filharada nascendo: Maria Ignez, Toninho, Silvinha, Aninha… aí já estávamos em Xavantes, interior de São Paulo, por conta da usina de mesmo nome. Já tínhamos então uma Kombi, a alternativa para a prole que crescia, e eram todos muito pequenos - uma escadinha.

 

Em seguida, fomos para Paranaguá. Uma tristeza! Casa de palafita, a obra completamente parada, sem condições de continuar, eu já grávida do quinto filho, uma tragédia! Mas que também foi um divisor de águas na nossa vida. Armei-me de coragem e mandei uma carta para o tio do meu marido, Oscar Americano, pedindo que ele orientasse o Carlos - meu esposo - diante do insucesso de Paranaguá, ou seja, do último lugar onde havíamos estado. Essa carta, aliada à generosidade do tio e à capacidade de Carlos, significou o início de tudo o que obtivemos na vida. A empresa que daí surgiu representou, talvez, os anos mais duros da vida de meu marido, mas, após um começo modesto e até desanimador - a colocação de guias e sarjetas nas vias de São Paulo - vieram obras fantásticas: túneis - como o Noel Rosa, no Rio - viadutos, interceptor oceânico, Angra I, e por aí vai. Só que lidavam com o recorrente problema do Estado descapitalizado, atrasando todos os pagamentos. Assim, quando chegava, esse pagamento ia todo para o banco, quitar empréstimos. Mas, aos poucos, as coisas foram acontecendo na nossa vida. A começar pela primeira casa, no Morumbi. É bem verdade que não tinha água encanada, nem luz, nem asfalto, nem nada. Mas o Morumbi, naquele tempo, era como uma vila - todo mundo se conhecia. Mas, por exemplo, ficamos anos sem armários. A construção foi na base do acabou o dinheiro, acabou, nada de empréstimo. Mas as crianças estudavam em bons colégios e, até pela lonjura, foi necessário comprar outro carro. E assim foi que eu tive o meu primeiro carro pessoal: o Gordini, que tinha o apelido de leite Glória - dissolve sem bater.

 

“Eu tirei carta em Santa Catarina, dizendo para o delegado que eu sabia guiar; ele deu a carta, e pronto”.

 

Uma coincidência curiosa é que, sempre que a bomba do poço queimava, isso acontecia na hora do almoço dos domingos. Resultado: saía eu, com meu Gordini, atrás do homem que consertava. Mas os meus filhos aproveitaram muito. Primeiro porque, com o tempo, foi possível montar um parquinho para eles, com escorregador, balanço, e era muito espaço. Brincavam de jogar bola, cabra cega, pular no saco e, imagina, de escorregar numa folha de coqueiro descendo um morro que tinha lá perto de casa. E depois as crianças foram crescendo, minha mãe, já viúva, se dispunha a ficar com eles, e iniciou-se então um capítulo à parte na minha vida - as viagens maravilhosas e enriquecedoras que fizemos, em geral, eu e o meu marido. Sim, porque  os filhos estudavam, não é? Então, raramente nos acompanharam, e mais em viagens menores, por exemplo aqui pela América do Sul - Argentina, Chile… Mas as viagens internas, dentro do Brasil, eles sempre iam conosco.

 

Estivemos nos Estados Unidos e na Europa muitas vezes. No Canadá, no Marrocos - em Casablanca vimos o palácio do rei, todo de ouro. França, Inglaterra, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Holanda eu conheço como a palma da mão. Em trinta e seis anos, eu e meu marido rodamos trezentos mil quilômetros de carro. A partir de determinado momento, eu dirigindo. Estudávamos os mapas, preparávamos roteiros. Estradas fantásticas, hotéis, restaurantes, passeios e, sobretudo, museus. Eu sempre troquei as compras pelos museus.

 

“Uma vez, nós vimos o sheik mais chefe chegar na Suíça, no hotel Intercontinental, a família com quarenta filhos o esperava. Vimos passar barras de ouro! De mão em mão, tiradas do caminhão para pôr no cofre do hotel. E, no dia seguinte, nós viajamos e o avião dele era todo escrito em ouro”.

 

Nessas viagens conheci tudo, tudo sobre vinhos. Mantive contato com os mais tradicionais, os mais caros, os mais raros, e a região de Bordeaux, onde a fama e qualidade dos vinhos conquistou o mundo. Conheci restaurantes deslumbrantes, as sobremesas, os doces, o serviço mais esmerado, mais requintado - porcelana, louças, talheres. Visitei igrejas, santuários, capelas, castelos, enfim, conheci o melhor da Europa em seu apogeu. O esplendor de Veneza, orquestras tocando dos dois lados. Como, mais tarde, conheci uma certa decadência de tudo isso, a pobreza e sujeira de cidades outrora impecáveis. Observei, consternada, a perda de glamour, da elegância, das tradições.

 

Contudo, a vida não foi boa para mim apenas por essas viagens, por essas oportunidades, esses encantos, esses prazeres. Longe disso. Ela foi boa, generosa, pela família que tenho - aliás, a que herdei de meus pais e a que construí com meu marido. É uma família grande, alegre, feliz. Que se reúne nos aniversários, nas datas festivas, no Natal, é sempre muito festeira. A vida foi boa, também, porque os meus filhos estão bem, todos adultos, formados, os netos idem, alguns já trabalhando. E foi para essa família, acima de tudo, que eu contei a minha história. Que também é dela.

 

“E as minhas filhas, na mesa… porque o mais gostoso na mesa de uma família grande é o bolo e o cafezinho. Então, é a hora em que a gente conta histórias da família”.


Editado por Paulo Emilio Rodrigues Ferreira


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