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Dona Alzira: disposição sem comparação

História de: Dona Alzira
Autor: Juliana Renófio
Publicado em: 31/10/2018

Sinopse

A entrevista de Alzira de Oliveira, foi gravada dia 18 de Outubro 2018, no CRAS-II-BETINHA, e faz parte do Projeto: "TODO LUGAR TEM UMA HISTÓRIA PRA CONTAR". O depoimento de Dona Alzira começa com sua infância. Conta que antigamente as bonecas eram de papelão e que ela e suas irmãs deram banho nelas. Por conta disso, Alzira ficou sem a sua boneca.

Veio para a cidade com quatorze anos, e seu primeiro filho, foi um menino e faleceu quando criança, depois arrumou seis filhas, tem quinze netos, e seis bisnetos. Ainda com quatorze anos, desfilou pela primeira vez, no carnaval, em Santo Antonio da Platina, onde ganhou prêmios. Toda vida foi passista, pois, gosta de calça cumprida. Diz: “O carnaval é movimento, eu gosto, é divertido. Daqui uns dias acho que terei que parar, porque estou com a junta dura”.

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História completa

Alzira de Oliveira, tem 72 anos, nasceu no dia 18 de Dezembro de 1945, nas Três Barras, em Santa Cruz do Rio Pardo-SP.

Entrevistada conta sobre sua infância no sítio em que morava e sobre como superou tantos desafios em sua vida.

"Nós trabalhava tudo na roça, até os nove anos fui na escola e depois chegava da escola e ia para o café, com o pai e a minha mãe. Somos em quinze irmãos, então trabalhava um perto do outro.

Brincava de roda, brincava de pique, ia para a escola, ai chegava em casa tirava o uniforme e ia pro cafezá, panhava café.

Chegava o dia de ir na cidade, minha mãe falava: tem que comprar qualquer coisa pra essas crianças. Meu pai ia pra cidade na época das Festa de São João, Santo Antônio, pra comprá as coisas para as crianças. Quando chegou na venda do seu Julio Scudeler, e antigamente as bonecas eram de papelão, bonecas grandes, ficamos todas cheias, comprou cinco, e cada um ficou com a sua. Chegando lá fomos dar banho nas bonecas. Eu fiquei sem a boneca, o mês inteiro porque o pai pagou caro, apanhei bastante. Ai o pai falou, no dia que eu for na cidade eu compro pra você. Ai o pai comprou outra com a cabeça pelada pra mim, só que era preta, ai eu não quis, e aí falei nunca mais vi e nem quero ver.

Vim para a cidade com quatorze anos, quando saiu a primeira vila na Estação, Vila Popular, o pai comprou uma casinha, foi morar lá, depois mudou pra Vila Divinéia, em seguida, depois deixei o pai com a mãe, e fui morar uma época para São Paulo, aí voltei. Meu primeiro filho, foi um menino e faleceu quando criança, depois arrumei seis filhas, tenho quinze netos, e seis bisnetos.”

Dona Alzira cata reciclagem, porque só aposentadoria não dá.

E o Carnaval?

- “O Piriquito Pretinho que arrumou um carrinho pra mim,... saio cedinho, quando é onze horas tô chegando, onde você passa e der pra você, você cata, não tem dia, é papel, alumínio, latinha, plástico, tudo.  Quando é subida é duro, aí pego um saco e vou catando, e jogo no carrinho. A gente cata tudo, aí separa. Depois o dono vem e vai pesando e marcando, e paga você ali mesmo. É tudo na hora, mas é bom.”

O carnaval, começou na usina São Luiz, o Carlos (Piriquito), mais dois, naquele tempo o Azor, abriram a escola lá, lá que começou o samba onde o Fernando Quagliato deram uma mão para eles e veio pra cá, e o Andrioli deu uma mão para eles, ai a primeira escola de samba se chamava "Escola de Samba Califórnia". Quando desfilei pela primeira vez tinha quatorze anos, em Santo Antonio da Platina, onde ganhei prêmios. Saímos da cidade de madrugadinha e fomos pra lá. Antes tinham mais baianas, agora tá acabando. Eu toda vida fui passista, eu gosto de calça cumprida. O carnaval é movimento, eu gosto, é divertido. Daqui uns dias acho que terei que parar porque estou com a junta dura.”

A vida na cidade e no campo

“Meu pai era de Santa Cruz mesmo, das Três Barras e minha mãe era de Santa Tereza. Quando viemos para cidade e eu já era mocinha, tinha que ajudar a mãe e a gente não saía de casa. À noite com a luz de querosene, ai todo mundo jantava, e cada dia um lavava a louça. Depois sentava todo mundo em roda e estudava ali.

 Na roça tinha que panhar o café, terriçar, levantar, rastelar, levantar, então isso a gente aprendeu tudo, e isso eu sei tudo. Porque nós aprendeu. Até nesse ano catei café ainda. “Bano” café juntinho com os homens. Não tenho preguiça. Meu pai ensinou. Eu vou, não é um bicho de sete cabeça. Depois toma um folego. Trabalha o dia inteiro. Para só para tomar café e almoçar. Fica dia todo e só para as cinco da tarde.

Já cortei soja, ranquei feijão, cortei arroz, já passei por tudo na vida. O mais difícil era bardear arroz nas costas porque pinicava.

Agora ficou mais difícil, porque cortar cana, não se corta mas cana, corta só na onde a máquina não sobe, ai vai cortando e jogando na carreta...

Eu acho que piorou, porque de primeiro colocava uma sacola no ombro e precisava trabalhar, aparecia um fulano e ia trabalha.

Antes levantava cedo, pegava uma garrafinha, ou garapa ou café e um pedacinho de pão era o almoço, ai chegava no almoço e comia aquilo, tirava doze cruzeiro por dia, passava na venda e com os doze cruzeiro comprava arroz, feijão, açúcar, sal, óleo, tudo o que precisava na casa. Ai chegava em casa ai: mãe já demos banho nas criança, a água tá no fogo, agora vamos fazer comida. Hoje você sofre pra pegar cem reais na mão, é duro.

Cheguei na Vila não tinha nada, não tinha luz, não tinha água, era uma escuridão. Eu que fiz minha casa, ai depois minhas irmãs foram vindo pra cá. Mas antes só tinha minha casa. Eu ponhava a bacia na cabeça e lata pra fervê e levava água na mina. Arrumava um “bardinho” pra cada um e todo mundo trabalhava. Descendo a casa da dona Geraldina, tinha uma mina e a gente levava água da mina. Tio Grilo jogou quinze pedras bem grandes e nós lavava roupa tudo lá, tinha dia que dez lavava e outras dez não lavava, ai a gente lavava roupa no rio. Cada uma tinha sua pedra, tinha que lavar, esfregar e dar um jeito, porque senão a correnteza levava a roupa. Enquanto lavava roupa conversava e passava o dia e ninguém via.

Minha casa foi a primeira da Vila Taturana. Depois que mudou para Divinéia. Quando colocou Taturana aqui, teve a outra que era Esqueleto, porque era perto do cemitério. Mudou para Divineía aqui, mas não sei o porque. Tinha um trilho que só nos passava, e bem no fundo na berada do rio, tinha a casa do seu Américo que tomava conta do tiro de guerra. Então eles passavam marchando ali. Era gostoso. Tempo bom. Porque não tinha essa coisera que tem hoje que tá demais, fulia de droga, se não abrir o “zóio” não sabe o quê que faz. Acho que agora tá mais difícil pra viver do que antigamente, porque não tinha essas coisas.

Naquele tempo a gente ia no "Jardim", tinha o coreto e a gente andava ali. Os homens ficavam parados na berada da calçada e as mulheres ficavam virando em roda. E dali saia namorado, saia casamento, tudo dali.

Meu pai era meu marido, ele que me ajudava, ele que criava meus filhos.

Minhas filhas: Amarilis, Izabel Cristina (faleceu), Tatiane, Francislene, Albertina e Josiane. Eu fiquei muito pouco com eles, porque minha vida era no serviço, né, então minha mãe que criou eles... chegava de tarde elas já tinham tomado até banho, ela cuidava tadinha, só que chegava à noite ela tava morta de canseira, porque né?! É uma judiação.

Moramos no sítio do Betão, pertinho daqui, na entradinha de Ipaussu ali,... aconteceu um problema e minha irmã pegou a casa do meu pai, e o pai chorava tadinho, ... não fala nada pra tua mãe que vamos embora filha, vamos embora, conversei com “Ondó” e pedi um terreno, ele deixou a gente fazer uma casa lá, fizemos uma casa de pau a pique, eu sei fazer uma casa de pau a pique, se você pedir pra eu fazer uma eu sei fazer, eu faço, qualquer casa eu cubro aí, eu sei fazer, porque a gente aprendeu tudo, então de noite colocava um pau assim e pronto, a porta tava fechada. Por dentro nós embarriou né, fomos embarriando tudo, era quatro cômodos. Eu, meu pai, minha mãe e meus irmãos, todos nós amassava barro. Fomos rancar sapé, cavocou uma rodona, ia jogando água, pisando ali, cortando sapé picadinho, ia sapateando ali pro barro ficar macio e poder jogar. Ai você começa de baixo pra cima, porque de cima pra baixo não presta. Eu sei fazer, quatro cômodos, por fora nós cerco tudo e embarriou, por dentro minha mãe ponhava lençol. Ai moramos lá, eu nessa época já tinha minhas meninas.

Mutirão na Estação, trabalhamos dois anos e pouco nessa casa. A comadre Bete era fiscal geral nessa época com a Sonia. Nós trabalhava diretão, não tinha dia. Foram quitando os terrenos e nós fomos fazendo as casas.”

“Não tenho sonho difícil não, sonho de ter minhas coisinhas, arrumar bem minha casinha, ficá por ali mesmo, se parecer alguma coisa mais a gente fazer.”

Ao contar sua história pra gente Dona Alzira disse: “eu senti bem, que pelo menos põe pra fora o que guarda tanto tempo, né?! Por que, se você guarda, só guarda só pro cê... a gente falando já descansa”.

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