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História

Domingos Carlos Ataíde Cavalcante

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IDENTIFICAÇÃO



Meu nome é Domingos Carlos Ataíde Cavalcanti, nasci em 20 de agosto de 1951, numa cidade recém emancipada chamada Santo Amaro do Maranhão. A cidade era até então uma vila de pescadores, hoje é uma cidade importante para o turismo, tem um potencial turístico enorme, recursos naturais fenomenais, e recentemente o governo resolveu emancipá-la. Exatamente para dar uma oportunidade para ela ser desvinculada da outra, achar o seu próprio caminho e explorar esse filão que é o turismo.

INFÂNCIA



Minha infância foi muito gostosa. Não tive brinquedos, mas tive liberdade. Tive jogo de bola, e subi em coqueiro, em árvore e fazia mil e uma estripulias. Perdi a virgindade com nove anos. Mas é. Além disso, embora a gente não tivesse brinquedo, a gente pescava, eu pesquei muito quando era pequeno. Vários são os utensílios que eu usei para pescar. Eu ia pescar por diversão, por gostar. Nasci na região de água doce e água salgada, eram dois tipos de pesca, então a gente podia trabalhar com diferentes utensílios de pesca. Água salgada, você tem um tipo de pesca. Na água doce, outro tipo de pesca. E fora disso também tinha, digamos assim, muitas brincadeiras que não tem mais hoje.

Pescaria
Eu pescava de tarrafa, rede de arrastar, zangaria, espinhel, grozera, bóia, caniço, e choque, que é um utensílio de pesca feito pelos índios, com muitas varinhas pouco mais finas que um dedo, as pontas das varas são pontiagudas. E tem dois aros. Um aro central, um pouco maior e um aro de cabeça menorzinho. E em baixo ele é tecido para evitar que as varas abram. E tem uma peiazinha que circula, vai pescando com aquilo. E na hora que o peixe bate dentro, você tem que saber, porque assim como bate o peixe bate uma cobra. A gente descobriu logo cedo, quando criança, que o peixe ao bater dentro do choque ele bate com a cabeça. E a cobra bate com o corpo, faz um movimento diferente, ela faz vuuuup nas varas de choque. E a piranha, ela dá um gemidinho, então você opa, essa aqui não, é piranha, então a gente tira, que ela realmente é violenta.

Trabalhos domésticos
Eu comecei a trabalhar muito novo, desde os oito anos. Meu pai tinha comércio de secos e molhados. E desde o começo ele nos pôs para trabalhar com ele e também para fazer o serviço da casa. Nosso fogão era à lenha, tinha que buscar lenha, aí outro serviço que não é mole. É grosseiro. Pegava o machado lá para cortar, fazer aqueles feixes, botar na cabeça, andar uma meia hora de viagem. Não tinha água encanada também, e até hoje não tem nessa região. Pegava no rio ou em poço. Nós éramos uma família de15 irmãos, então os mais velhos eram os carregadores. A gente carregava água em lata, em tonel pequeno, carote, cabaça. Hoje, na torneira tem uma água encanada, pô, realmente mudou.

IMIGRAÇÃO



Eu fiquei em Santo Amaro do Maranhão de 1951 até 65, quando eu vim para São Luís estudar. Tinha 14 anos. Cheguei e foi um espanto. Puta! Para começar, a viagem nossa de lá para cá, demorava em torno de 14 horas. E era barco. Barco motorizado. Só recentemente tem essa estrada para Barreirinhas, que por ela a gente chega a Santo Amaro de carro. E na primeira vez que vim para São Luís, vim com meu pai fazer seleção no colégio Teixeira Mendes, em outubro de 65. Quando eu saltei em Ribamar, eu vi aquele mundo, é uma cidade provinciana também, e miúda, mas é primeiro mundo. Bom, foi o primeiro impacto. Outra coisa. Eu nunca tinha usado um transporte, um carro. Então, quando vi umas caminhonetes parecendo jardineiras, aquilo para mim já era espetacular, era um encanto. Aí eu, meio que mudo, sem poder me expressar. E meu pai, que era comerciante, fazia compra aqui em São Luís nos armazéns que tinha na praia grande ali, que foi a antiga área do grande comércio de São Luís, o atacadista. Era naqueles prédios velhos todos, que estão tombados e conservados, transformados hoje em atrativo.

Entrada no Ateneu
Aí papai fez as compras, e nós fomos nos inscrever no Ateneu. E ficamos hospedados ali pelo mercado central. Dali eu subi com meu pai, levando na cabeça uma lata de ovos de galinha caipira para agradar o diretor da escola. Subimos a Magalhães de Almeida, tal, e depois adrentramos a Rua do Sol. Aí eu ia assim, pô, que rua longe essa que era só subindo e descendo para chegar lá. Até que chegamos na praça Deodoro. Outro encanto ver aqueles bustos, escritores, pessoas renomadas e tal, influentes. Ai eu ficava olhando. Aí chegamos no Ateneu. Lá eu fiz uma seleção, era em 65. Fui classificado, embora tenha ficado reprovado lá na minha cidade.

Problemas com moradia
Em São Luís eu passei um pouco de desagrado na vida, porque na época meu pai não pôde comprar uma casa para nós, quatro irmãos estudando em São Luís. Todos em colégio pago. E esses quatro ficaram morando tudo espalhado, na casa de um e de outro. Eu morava com um deles, que hoje é juiz, na zona do baixo meretrício, dentro de um cabaré. Passei doze meses naquilo. Ô, inferno. De dia via aquele monte de mulher nua se lavando, lavando suas roupas, aquele negócio, e de noite a porra da festa, um barulho infernal. E eu ficava dormindo dentro de um quartinho assim, por trás de uma dispensa que tinha. Passamos doze meses nesse sofrimento. Foi o suficiente para a gente ficar totalmente estressado. Aí meu pai resolveu alugar uma casa, aí ficamos. A família, meus irmãos outros vieram para cá, até que meu pai comprou uma casa para nós.

PRIMEIROS TRABALHOS



Belém-Brasília
Aí eu comecei a trabalhar em São Luís. Saí do Ateneu na época, fui fazer prova numa escola técnica, passei, e de lá que eu terminei o curso resolvi trabalhar para ganhar um dinheiro para o curso. Foi quando em março de 73, fui contratado pelo pessoal do Rio de Janeiro que estava em Belém. Eles mandavam as passagem para mim aqui, mais dois colegas, nos fomos para lá e quando iniciaram o trabalho na construção da Belém-Brasília. E lá ficamos até o final daquele ano. Até dezembro de 73.

IMAGEM DA CVRD



Projeto Carajás
Quando viemos para São Luís de folga, eu e mais seis companheiros de lá e também ex-colegas de escola técnica, foi quando soubemos desse projeto Carajás. Ninguém tinha a menor noção da magnitude disso. E um amigo meu que está hoje em Carajás, Gilberto, foi na minha casa e disse, “Ó rapaz, tem uma empresa chegando aqui, que vai mexer com projeto de ferro, um negócio astronômico demais, e eles estão precisando de pessoas que já têm experiência. Tu não queres ir lá fazer uma ficha para tentar?” Eu disse: “Pó Gilberto, não tem como a gente ir, porque estamos aqui passando dez dias de folga para ir para o Rio Grande do Norte. Nós estamos até com o dinheiro da empresa que trouxemos de Belém para cá.” Ele disse: “Não, mas eu vou.” “Nesse caso, também vou. ” Aí fomos, com mais um colega.

ENTRADA NA CVRD



Primeira entrevista
Chegando lá, cada um fez a sua ficha, aquele negócio todo. Aí eu preparei aquilo lá, coloquei o meu salário aumentado, que eu não estava muito interessado no emprego. E, para a minha surpresa a gente foi selecionado. Nós três. E quando fomos chamados para a entrevista final, acertamos detalhes, porque o projeto não era em São Luís. Era só a cabeça, porque o corpo estava ao longo do que é hoje a ferrovia. Entrei na sala para ser entrevistado e receber as informações do contrato, tal, e quando a pessoa puxou minha ficha, ele riscou aqui assim de tinta vermelha, e aumentou o meu salário. De 1500, botou em cima 1900. Puta, com isso eu me considerei milionário. Imagina, 1900. Só que era em 74, que foi quando a inflação começou a galopar naquele período que o Delfim Neto era ministro. Pois no momento que eu saí do prédio, saí contente. Nós estávamos no segundo andar, era o prédio do Banco do Brasil, na Rua João Paulo, no primeiro degrau lá do segundo andar, eu ssssssssssssss, vim rolando degrau por degrau, de tamanha emoção. Mas não machuquei absolutamente nada. Quando cheguei lá embaixo, olhei para os lados, bati a poeira e fui para casa.

Transferência para a CVRD
Mas combinaram que eu tinha que voltar no outro dia para levar a minha carteira, e eu fiquei tão contente que não falei que eu já era empregado de outra empresa. Aí no dia seguinte voltei, disseram que eu tinha só 24 horas para voltar com a carteira já dado baixa, para assinar o meu contrato. Aí eu disse que não dava, que nossa empresa tinha sede no Rio, com filial em Belém, mas eu estava mudando para o Rio Grande do Norte onde a gente ia fazer o projeto de uma construção também de ferrovia. E aí me mandaram para o coordenador do projeto, que se chamava Carlos Góes. Ele me atendeu gentilmente e perguntou da Belém Brasília, aonde era a minha residência, eu disse: “Ah, eu fico em tal cidade no estado do Pará.” “Ah, eu tenho uma pessoa amiga minha lá, nesse projeto, na Belém Brasília.” Eu disse: “Quem é?” " É o Souto Lima.” Eu nunca esqueci o nome desse sujeito. Eu disse: “Esse cara é meu chefe.” Ele disse: “Então tu tem oito dias em vez de 24 horas.” Fiquei com oito dias e saí já mais sossegado, com a missão de dar baixa no meu contrato de trabalho.

Rescisão de contrato
Só que cada um de nós tinha recebido um adiantamento de viagem para a gente fazer a nossa ida de São Luís para o Rio Grande do Norte. Então agora esse dinheiro tinha que ser devolvido, porque eu estava saindo da empresa. Então a minha cota eu levei. Eu peguei um avião aqui de manhã cedo e fui para Belém. Cheguei em Belém, parei um pouco, fui no escritório na Rua Almirante Barroso, fui para a casa do Mael, um meio parente meu. Almocei, bati um papo, peguei um ônibus e fui. Quando cheguei lá, todo mundo ficou surpreso, mas parte do pessoal não estava mais. Era final de obra, costuma ficar dois, três. Então foi uma surpresa eu ter saído de lá dia 24 de dezembro, e estar voltando dia 14 de janeiro. Eu disse: “Não, eu não voltei para ficar, voltei para me despedir, que eu estou saindo da empresa.” Aí eu contei logo: “Ó, eu vou ganhar milhões. O negócio lá é um projeto auspicioso de muito ferro, são 500 anos de ferro, e a gente entra já com ouro no bolso.” Mas eu tinha que falar com o engenheiro para poder liberar a rescisão. Fui na casa do dr. Ari, o engenheiro residente, e nessa conversa nossa ele não quis me liberar. Mas só que ele nem sabia que éramos três. Mas consegui vencer. E quando ele soube que eram três, disse que não podia ser. E foi até o ponto de eu falar realmente quanto ia ser o nosso salário, e aí ele então concordou. E no dia seguinte nós fomos então para o processo de rescisão, que também foi uma aventura. Quando terminou a rescisão do contrato, eram umas quatro horas da tarde. Foi quando eu saí para tomar o transporte para Belém. Um percurso de mais ou menos 220 quilômetros. Quando eu cheguei já não tinha mais passagem na rodoviária. E eu fiquei por ali, quando chegou um avião.

Avião da Mendes Júnior
Naquela obra nós éramos fiscais da Mendes Júnior. E o avião da firma pousou assim num campo de futebol. Eu fui lá e conversei com o piloto, e daí perguntei para o cara se ele podia me dar uma carona até Belém, ele disse: “Não, não tem problema não.” Aí eu peguei esse avião para Belém, saltamos no final da tarde. Tinha um outro avião já de carreira para São Luís, engrenei uma passagem no aeroporto mesmo. E cheguei em São Luís. Ao invés de gastar oito dias gastei menos de 24 horas. E aí realmente se deu minha contratação, no dia 17 de janeiro de 1974, numa companhia, que na época, era um consórcio entre a Vale do Rio Doce e uma empresa nos Estados Unidos. E lá começou, e em seguida eu não fiquei em São Luís também. Eu tive que ir para Marabá.

ENTRADA NA CVRD



Ante-projeto de Carajás
Eu entrei para acompanhamento de serviços topográficos do anteprojeto de Carajás. E o nosso alojamento- piloto ficava num lugar chamado Rio Gelado, que fica a uns 25 quilômetros abaixo da serra de Carajás. E o acesso se dava ou de Marabá, que descia de voadeira para o Rio Gelado, gastava dois dias de viagem, ou de helicóptero, que lá tinha uma clareira para pousar. A gente morava lá no acampamento. Aí eu fiquei em Marabá até a companhia decidir o que fazer, se nos mandava de lancha - porque a lancha demora muito e tinha o risco de capotar numa corredeira daquela, ou de helicóptero, um aparelho tinha ficado em Marabá para dar apoio ali pela região de selva. Esse helicóptero chegou. O piloto era um senhor chamado Chagas, de certa idade, que nos levou para Rio Gelado, eu o colega Antônio Carneiro. Quando ele nos deixou lá, que voltou batendo, ele caiu na margem do rio Itacaunas perto de Marabá Velho, que fica entre dois rios, o Tocantins de um lado e Itacaunas do outro. Pois ele caiu naquela passagem ali que vai para o aeroporto, na beira do rio, e faleceu. E lá fiquei durante 34 dias. Foi quando a companhia resolveu me tirar de lá. Eu adoeci, e ela me trouxe para São Luís. Só que eu saí de Rio Gelado, eu dormi em Carajás. No dia seguinte eu peguei um avião monomotor, que fez uma escala em Marabá.

CASOS DE TRABALHO



Caso do revólver.1
Em Marabá, e lá eu tinha um conhecido, o Raimundico, que era motorista nosso, dirigia um Jeep da empresa. Ele estava com uma filha doente e precisando fazer dinheiro para comprar remédio. Me pediu emprestado. Eu já estava vindo embora, transferido, então não tinha porque emprestar o dinheiro. Mas eu disse: “O que tens para me vender?” Eu sempre fui comerciante. Ele disse: “Tenho um revólver calibre 38, cabo madrepérola, eu te vendo por 200 dinheiros, digamos assim.” Aí eu meti a mão no bolso e disse: “Nesse caso, está aqui o dinheiro.” A avaliação que eu fiz era que chegando em São Luís eu estaria dispensado, de folga, o que era de praxe na companhia quando a gente chegava da Baixada. Pensei, eu chego lá, vou estar de folga, porque fiquei 34 dias, e aí eu pego este revólver e vou vender para uma pessoa da minha confiança. Aí passei dois dias, e fui me apresentar no escritório. E levei o revólver, enrolado num lenço aqui na cintura carregado de balas. Cheguei no João Paulo achando que depois de me apresentar eu seria dispensado para gozar minha folga, mas disseram: “Não, você vai jogar a sua folga para a frente, porque nós precisamos de você a partir de amanhã, e hoje tem que saber qual vai ser o teu trabalho. Eu disse: “Não tem problema.” Desci a escadaria, pegamos uma Veraneio, e fomos para o porto de Itaqui.

Porto de Itaqui
Caso do revólver.2
Quando chegamos, tinha um barco motorizado, na época um projeto também desenvolvido nesse canal do Boqueirão. Lá a gente fez uns trabalhos enormes de sondagem no mar, sobretudo no canal. E essa sondagem aqui no Brasil não tinha estrutura de apoio. Ainda mais num canal desse, que é profundo, de correnteza freqüente e intensa. Foi feito. A Vale na época alugou uma companhia americana que dava suporte no Rio de Janeiro para essas grandes dragagens, essas grandes embarcações, e trouxe ela para cá. Eles tinham uns rebocadores enormes, e uma espécie de grande balsa flutuante. Aí chegamos lá, ficamos a tarde inteira sendo apresentados para o pessoal do Brasil que fazia a sondagem para aquela empresa no Rio de Janeiro que dava todo esse apoio, inclusive alimentação e tudo. Dormir você dormia lá dentro, no alojamento. Ficamos lá a tarde inteira. Eu saltei com o Dr. Oscar Romano Francisco Silva, e um outro rapaz , o Lauro, que era projetista na época. Então quem tem projeto fareja os dados do projeto na sua origem. E ele veio exatamente para farejar estes dados. E ficamos lá a tarde inteira, o Dr. Oscar que era o chefe nosso, geólogo, saiu, foi embora. E quando foi umas sete horas da noite anunciaram que ia ter um jantar no navio, e nesse jantar, hum, eu não tinha o hábito de andar armado, mas esqueci de deixar o revólver no desembarque da caminhonete com nosso motorista. Era até o Fonseca. Esqueci disso, passei batido. E lá foi que eu me lembrei que eu estava armado. Ia entrar na sala de refeição armado. Pensei então que eu tinha que deixar o revólver do lado de fora. E tinha uma pessoa que lavava a roupa para os americanos. Eu peguei, enrolei e disse: “Olha, guarda isso aqui enquanto eu vou jantar, na volta você me entrega.” Para minha surpresa, enquanto eu estava lá dentro jantando numa boa, eu escutei um som aqui na porta. Foi revólver. Aí me antenei, levantei, saí, cheguei na porta ele estava com o revólver quebrado assim aberto e ele pegando no cano do revólver pela parte superior, com as balas na mão. E o cara me apontando. Eu aí entendi. O revólver era o meu. E quem se explicava? Ele falando inglês e eu falando português. Foi quando eu tive a felicidade que o Lauro, que conheci naquela hora, interveio na história. Eu falei para o Lauro do que se tratava e o Lauro tentou traduzir para o americano. Bom, num certo momento ele realmente me devolveu a arma, pegou as balas e jogou na água. E eu fui para casa. No outro dia cheguei no escritório, surpresa. Eu estava demitido. A Selma disse: “Olha, o Joselí quer falar contigo.” Ele falou: “Você entrou armado no navio, assim assado, não é área de pistoleiro, não sei o que.” Aí eu disse: “Joselí, a companhia me absorveu recentemente, e do jeito que eu entrei eu quero sair. Agora, vocês vão escutar a minha história.” Aí eu contei. E ele disse: “Olha, não posso fazer nada.” Aí ele me encaminhou para falar com o Dr. Oscar, que era o meu chefe da região da embarcação. O Oscar: “Não posso fazer nada. Agora eu vou conversar com o Carlos Góes.” E aí foi, conversou com o Carlos Góes. Foi quando o Carlos Góes mandou me chamar, eu entrei na sala dele e ele mandou chamar o Joselí, um colega nosso já falecido. O Joseli entrou também na sala dele e disse: “Me pega lá a rescisão desse rapaz.” Aliás, quando eu entrei, que ele me olhou ele lembrou do fato dos oito dias. Ele disse: “É você?” Eu disse: “Sou eu doutor.” “Senta aí.” Aí ele pegou, rasgou a rescisão todinha, levantou, ele era baixinho, e disse: “Não me entre naquele navio sequer com uma gilete no bolso.” Aí eu disse: “Não, doutor, jamais entraria armado no navio, se você achar que eu devo sair ....” “Não, você vai continuar . Só que não entra armado nem com uma gilete.” Ano depois eu descobri que a verdade sempre prevalece. Mas eu soube anos depois que o Oscar Romano tinha tido uma briga com esse comandante da embarcação. Ele já era peitado com o cara, aproveitou a oportunidade e se tornou o meu advogado gratuitamente, me defendeu. Depois disso eu fiquei exatamente 18 meses aí dentro e o episódio sarou tudo sem nenhum problema.

Porto de Itaqui
Quando eu voltei de Itaqui para São Luís, era o mês de março de 74. Fiquei trabalhando nesse porto durante 18 meses. Foi quando o projeto realmente começou a construção e aí nós fomos fazer uma ponte. Parauapebas. Pois é. Ali onde mataram aqueles 18 sem terra nós tínhamos um alojamento nosso ali. Da Camargo Correia. E nosso alojamento era lá. Lá onde mataram aquelas pessoas, bem na entradinha daquele acesso, que foi construído com a nossa participação. Nós éramos fiscais da obra.

Ponte no Parauapebas
E aconteceu outro episódio interessante lá na época, foi que um colega de empreiteira, estava cavando um buraco. E a porra de um trator desbarrancou de lá para cá e passou por cima do buraco, por cima dele, numa boa. Ele ficou lá. O trator passou, era um tratorzão de esteira .O buraco pequeno. O trator grande. Então o trator veio. Baixou um pouquinho o buraco, mas o material consistente também não arrebentou as bordas da caixa, senão ele tinha arrebentado, esmagado ele lá embaixo. Ele se agachou. Então ali foi feito por nós. Isso aqui aconteceu em 75. Porque na época era interesse da Vale conveniar aqui com o Estado do Pará, então aquela obra saiu conveniada. E mais tarde, antes da obra daqui nós fomos fazer aquela ponte que tem no Rio Parauapebas, aquela ponte de concreto. Ali também eu trabalhei até terminar a ponte. Do início até o final. Aí quando acabou, me chamaram para ir para São Luís.

Viagens com amostras
Só que nesse meio tempo eu fiz algumas viagens. Eu fui escolhido. Eu vou cortar um pouco, porque nesse período que eu fiquei na embarcação eu conheci uma pessoa que era figura do Projeto Carajás. Na época ele era chefe do transporte da Vale no Rio de Janeiro. Paulo Augusto Vivácqua. Capixaba, família tradicional no Espírito Santo. E ele me conheceu, eu nem sabia quem era a figura. E numa das vindas dele aqui em São Luís , ele me conheceu lá na embarcação, eu todo ativo, que eu sempre fui muito dinâmico, e tal. Ele marcou a minha pessoa. Quando foi à noite que eu fui para casa com meu chefe, ele disse: “Olha, aquele branco de óculos, aquele cara gostou de você. E ele escolheu você para fazer umas viagens para São Paulo e para o Rio de Janeiro por conta da empresa, para levar umas amostras assim assado.” Eu digo: “Que bom.” E começamos a fazer essas viagens, na primeira ele foi na viagem comigo, o dr. Oscar também, para me apresentar no laboratório. Porque daqui saía uma amostra do fundo do mar para ser examinada em São Paulo. As amostras saiam daqui na umidade natural delas, lacradas dentro de umas camisas de bronze, fechadas com parafina, toda etiquetada com as cota de topo da base. E só em São Paulo que era aberto. A hora que cortava lá, a água do mar estava fresquinha. Essa informação era superimportante para quem estava projetando. E na segunda viagem, eu fui só. Quando eu cheguei aqui de volta, era mais ou menos meia noite por aí assim. E para minha surpresa, alguém me esperava, porque tinha dado um problema aqui no cais. Nesse tempo a gente operava até à noite, porque eles tinham um aparelho de precisão, os americanos trabalham com raio infravermelho, coisa assim, eles faziam topografia à noite. Quando eu saltei no Porto de Itaquí, me levaram para aquela ilha. Se você chegar no escritório da Vale Central, observa uma ilha bem em frente assim. Chegou lá encontrei o americano dentro de uma caixa grande ancorado por um cabo de aço. A maré estava enchendo. E nós estávamos exatamente no cruzamento de pontos de topografia. Eu ia fiscalizar ele no cruzamento. Para fiscalizar o ponto, bastava fazer a leitura, não tinha que falar inglês porra nenhuma. Só que nesse meio tempo houve um transtorno no posicionamento da embarcação e nós não conseguimos fazer o ponto, ficamos lá de costas um para o outro, morrendo de frio, sem comunicar, e absolutamente nada. Lá pela madrugada apareceu a embarcação, nos tirou de lá, a gente veio para cá. Aí que eu fui realmente chegar em casa. Foi um teste de resistência;. E essa companhia realmente tem sido isso para muita gente e eu agradeço muito tudo isso que a gente passou.

Curso superior
Depois disso, aí me tornei burocrata. Trabalhei na área de contrato durante dez anos. Saí da topografia. Foi em 1980, eu já estava com oito ano na empresa e resolvi então fazer um curso superior porque eu não vou ficar nisso aqui todo o tempo. Eu preciso mudar de vida. Foi o tempo que começou realmente Carajás. Isso aqui que nós estamos foi o segundo lote. Foi o segundo trecho liberado que iam lotear. Então na época eu conversei com umas pessoas, tenho um conhecido no Rio Grande do Sul que é engenheiro aqui, e pedi a ele que me desse uma chance nesta obra e me tirasse da de lá. E ele me deu, porque ele já me conhecia do Rio de Janeiro e tal. Me deu essa chance. E eu saí de lá vim para cá, fiquei aqui seis meses e aí fui fazer faculdade. Fiz um curso de economia, que eu queria fazer engenharia mas só tinha à noite, e eu não podia renunciar a esse emprego. Na época economista tinha um prestígio enorme. Todos os ministros eram economistas. Então o negócio estava no auge. Eu fiz economia na Ufla, e saí em 84.

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