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História

Do vinho para a água

História de: Evandro Gonçalves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/12/2012

Sinopse

Evandro Gonçalves nasceu em 1977 em Brejo, Maranhão. Criado pela mãe junto do irmão, não chegou a conhecer o pai. Aos quinze anos parte para São Paulo com a tia, com o objetivo de estudar. Trabalhando desde cedo, consegue uma bolsa na faculdade, onde cursa Análise de Sistemas e conhece Edna, mãe de sua filha Bruna. Embora seja analista formado, desde sempre trabalhou em cozinha de restaurantes, onde atua até hoje. Divorciado da ex-esposa, culpa a bebida pelo afastamento da família, reconhecendo que o vício atrapalha muito sua vida, de modo geral. Hoje em dia diz que sonha em abandonar a bebida para ter uma vida melhor e, quem sabe, reatar com a ex-esposa.

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História completa

P/1 – Qual o seu nome, o local onde você nasceu e data de nascimento?

 

R – Meu nome é Evandro, nasci em Brejo do Maranhão, dia oito de dezembro de 1977, tenho 35 anos.

 

P/1 – Como que era o nome dos seus pais, qual a origem deles?

 

R – Minha mãe é Maria Cícera Gonçalves. Meu pai, não convivi com ele, por isso nem lembro o nome dele. Eu convivi com a minha mãe. Vim pra São Paulo há vinte anos. Conheci uma bela de uma mulher, me casei. Agradeço a Deus todos os dias por ela ter me dado uma filha linda, de quinze anos.

 

P/1 – Como chama sua filha?

 

R – Bruna.

 

P/1 – E a sua companheira?

 

R – Edna.

 

P/1 – Você nasceu no Maranhão, seus pais são de lá?

 

R – São.

 

P/1 – Seus avós também, ou não? 

 

R – Não.

 

P/1 – Sua descendência é do Maranhão?

 

R – Não. Minha avó morava na Itália, não sei se ela é de lá ou daqui, só sei que ela estava na Itália. Não cheguei a conhecer ela.

 

P/1 – Por parte de mãe?

 

R – É, por parte de mãe. Por isso que não cheguei a conhecer.

 

P/2 – Qual lembrança você tem da infância? O que você lembra da sua casa, quando você era pequeno?

 

R – Ah, eu lembro que eu jogava bolinha de clac, bolinha de gude, que eu lembro que falava que era peteca, brincava muito. Aí logo eu já vim pra São Paulo, já.

 

P/1 – Você morava só com a sua mãe, com a sua avó, como é que era quando você era pequeno lá no Maranhão? 

 

R - Eu morei com a minha mãe. Morava com a minha mãe.

 

P/1 – Só você e ela?

 

R – Eu, ela e um irmão que eu tenho.

 

P/1 – Um irmão maior?

 

R – É, mais velho.

 

P/1 – Que veio junto com você pra São Paulo?

 

R – Não, não veio.

 

P/1 – Ficou lá?

 

R – É, ficou lá.

 

P/2 – Você se lembra dessa primeira casa, com ela era? Conta pra mim.

 

R – Ah, era uma casinha de barro. Coberta com... Não era telha que fala, né? Era tipo uma cabana que aqueles índios fazem, tipo uma palha. Era uma casinha bem arrumadinha, eu gostei de ficar lá. 

 

P/1 – Você gostava desse período da sua vida?

 

R – Gostava, gostava. 

 

P/1 – Você se dava bem com a sua mãe?

 

R – Me dava muito bem com a minha mãe.

 

P/1 – Com o seu irmão também?

 

R – Meu irmão também, me dava muito bem.

 

P/1 – E aí você ia pra escola nesse lugar? Como é que era? Tinha escola nesse lugar?

 

R – Ah, tinha, mas não totalmente no lugar. Era numa cidadezinha distante, que a gente passava uma hora pra chegar na escola. Foi onde eu comecei a estudar, mas eu não me formei lá, eu me formei aqui.

 

P/1 – Aí você veio estudar mais aqui?

 

R – Aí vim estudar mais aqui, porque eu já tinha uma tia que morava aqui. Aí ela perguntou pra minha mãe se ela podia me trazer, aí ela disse: “Pode, se ele quiser ir.” Aí eu falei: “Eu vou.”

 

P/2 – Como você ia pra escola?

R – A gente ia numa carroça. Você sabe o que é uma carroça, né? Que tem aquele cavalo na frente. (risos) A gente ia nela. Tanto eu como meu outro irmão.

 

P/1 – A sua casa era perto do mar? Da praia?

 

R – Era perto da praia. Uma praia de pescador. Uma praia deserta, praia de pescador mesmo, que já era fora da cidade. Não ia aquele tanto de turismo como ia pros Lençóis Maranhenses. 

 

P/1 – Vocês iam à praia?

 

R – Ia! A gente na praia ia pescar, fazia pesca, era uma vida boa! Eu amava essa vida.

 

P/1 – Até quanto tempo você ficou lá, nesse lugar? Era uma cidadezinha pequenininha, como é que chama?

 

R – É. Brejo. 

 

P/1 – Brejo?

 

R – É, Brejo. Hoje já tá maior, Brejo. Aí as pessoas às vezes até me chamam de sapo, porque quem nasce no brejo é sapo! (risos)

 

P/1 – E aí você ficou até que idade nessa cidadezinha? Conta um pouco esse período que você morou lá.

 

R – Nessa cidade eu fiquei até os dez anos. Até os dez anos de idade eu fiquei lá. Aí depois eu fiquei um tempo em Imperatriz, mais ou menos uns cinco anos em Imperatriz. Aí foi quando eu vim pra São Paulo.

 

P/1 – Aos quinze anos?

 

R – É.

 

P/1 – E no período que você morou em Imperatriz, aí também era mar?

 

R – Não, não era.

 

P/1 – Era cidade?

 

R – Era cidade. Já não tinha mar. Tinha mar, mas era distante mesmo. Pra chegar no mar você demorava umas cinco horas. Era como se fosse morar em Santos, mas Santos é mais perto. 

 

P/1 – E como foi essa mudança dessa cidade de mar, de praia, pra essa cidade que já era bem diferente?

 

R – Ah, eu sofri uns quatro, cinco meses. Queria voltar pra casa, que eu gostava de lá e tudo. Mas fui me acostumando e foi uma mudança boa.

 

P/1 – Você ia pra escola aí?

 

R – Eu continuei estudando, só que aí eu já não estudava mais na mesma escola porque aí já era Imperatriz, fui estudar mesmo na cidade. Mas continuei estudando.

 

P/1 – O que é tinha nessa cidade que você gostava?

 

R – Os amigos! Dos amigos da escola eu gostei muito. A gente saía um pouco, entrava no mato pra caçar fruta pra comer, que era uma delícia, né? Camil... Não sei se você conhece tamarindo, mas o que mais a gente gostava era tamarindo com sal! Foi uma vida boa, eu não tenho do que reclamar. Só que quando eu cheguei aqui em São Paulo, que foi quando eu comecei a estudar, conheci essa menina que é a mãe da minha filha, a Edna. Conheci ela na faculdade, aí ficamos juntos dez anos. Aí ela se separou por causa de traição. Ela me traiu com o Fabinho, não sei se vocês conhecem, é um cara que trabalha no Raça Negra, músico do Raça Negra na época, hoje em dia eu não sei mais. E foi aí que acabou e eu me levei na cachaça. 

 

P/1 – Evandro, nós vamos voltar um pouquinho, antes de você chegar em São Paulo, é que você foi muito rápido!

 

R – É que você sabe que eu sou rápido, né?

 

P/1 – Aí vamos contar sua mudança para São Paulo. Em Imperatriz você estava estudando, tinha uma vida tranquila. Aí depois você resolveu como vir pra São Paulo?

 

R – É o que eu estava falando, a minha tia perguntou pra minha mãe se podia me trazer. Ela falou: “Se ele quiser ir...” Aí eu vim, doido pra conhecer! Aí, a primeira casa que eu morei foi em Guaianases.

 

P/1 – Você veio de ônibus?

 

R – Não, vim de avião por aquela empresa... VASP [Viação Aérea São Paulo], VARIG [Viação Aérea Rio-Grandense], acho que até já faliu, foi pro leilão! Eu vim com ela e fui morar em Guaianases. Aí eu já tinha uns quinze anos. Cheguei aqui e ela arrumou escola pra mim, foi onde eu fui começando a conhecer São Paulo. E eu sofri um pouco, porque quando eu cheguei aqui estava um frio, um frio... Na minha cidade o tempo mais frio é quarenta graus. Imagina, você sai de um lugar muito quente e quando chega aqui você vai falando e a fumaça vai saindo, parece que você tá fumando. Aí eu falei: “Não tia, vou voltar, não vou ficar aqui, não!” E ela falou: “Não, fica, fica!” “Mas faz três meses que eu estou aqui e ainda nem vi a cor do céu, só garoa.” Aí ela disse: “Mas fica, você está estudando, não volta pra lá ainda, não.” “Tá bom.”

 

P/1 – Você estava indo pra escola?

 

R – Estava, estava. Estava estudando, depois comecei a trabalhar.

 

P/1 – O que você estava fazendo de trabalho?

 

R – Meu primeiro trabalho aqui em São Paulo foi no Habib’s. Eu trabalhei no Habib’s, ali na Praça da Sé, saía às dez horas da noite, aquele frio, aquela garoa... Eu me falei: “Aqui não é pra mim, não, eu vou voltar pra minha terra! Como é que o pessoal consegue?” Aí eu saia às dez horas e ia pra Guaianases, pegava o ônibus Parque Dom Pedro/Jardim Popular, que me deixava em Guaianases! Meu, pelo amor de Deus, sofri. Eu falei: “Não, tia, eu não vou aguentar ficar aqui, não.” “Calma, acostuma!” Aí passou mais ou menos um ano e me acostumei. Aí falei: “Agora já era, não volto mais pra minha terra, não. Agora já me acostumei aqui, já conheci as pessoas.”

 

P/1 – E a escola?

 

R – Continuei estudando!

 

P/1 – Você gostava? 

 

R – Gostava, gostava. Ah, na escola foi super legal, porque o pessoal sempre me chamava de Maranhão: “Maranhão, Maranhão, ó o Maranhão aí” Eu fui conhecendo as pessoas, nunca levei bullying na escola, graças a Deus as pessoas gostavam de mim. Eu me dou bem com todo mundo, quem não se dá bem comigo, não se dá com ninguém. Aí fui conhecendo as garotinhas, aí me peguei: “Daqui não saio mais, não!”

 

P/1 - Já tinha um namorinho?

 

R – Já tinha um namorinho aqui, outro ali, já estava trabalhando. 

 

P/2 – Você saía com seus amigos? Onde é que vocês iam?

 

R – Saia. Ia pra uma baladinha que tinha perto de casa, era forrozinho. Que vocês sabem que o que mais tem nesses lugares é forró e samba! De final de semana eu não trabalhava de domingo, aí no final de semana tinha aquele pessoal que fazia um sambinha. Vila é assim, né? Você sabe que em vila o pessoal gosta de fazer uma bagunça no final de semana. Encontrava os meninos da escola e ia junto, aí já cantava as meninas da escola, e era assim que ia indo.

 

P/1 – E nesse período escolar tinha alguma coisa que você tinha vontade de fazer? Que você pensava em estudar, em trabalhar? O que você mais gostava de fazer?

 

R – O que eu mais gostava de fazer naquela época era estudar. Estudar, mesmo. Não via a hora de chegar o dia seguinte pra poder ir pra escola.

 

P/1 – Mas tinha alguma coisa que você gostava mais? Você tinha algum sonho?

 

R – Olha, o sonho que eu quis, graças a Deus, era fazer uma faculdade. Aí eu consegui! Eu estava muito nos estudos e falei assim: “Um dia eu vou mostrar pra minha mãe, quero que a minha mãe tenha orgulho de mim.” Porque minha mãe foi uma mulher batalhadora que fez de tudo pra me cuidar até minha tia me trazer, até eu ir pra Imperatriz. Ela foi uma mulher que me deixou fazer de tudo pra me ajudar. Aí eu dei esse orgulho pra ela, eu consegui, graças a Deus.

 

P/1 – Faculdade do quê você queria fazer?

 

R – Analista de sistema, foi nisso que eu fui. Aí me formei e fui pra Economia. Graças a Deus eu consegui.

 

P/2 – Voltando um pouco atrás, quando você foi pra Imperatriz, sua mãe não foi?

 

R – Não foi, fui com a minha tia.

 

P/2 – Pra imperatriz você foi também com a sua tia? E de lá ela te trouxe pra São Paulo?

 

R – Isso, e minha mãe ficou lá.

 

P/1 – Essa tia acabou sendo também uma segunda mãe pra você? 

 

R – Foi, foi uma segunda mãe pra mim.

 

P/1 - Como ela chama?

 

R – Daniele. Chama Raimunda, mas todo o pessoal chama ela de Daniele. Chamava, porque ela faleceu. 

 

P/1 – Como que ela era? Descreve um pouco ela.

 

R – Ela era uma pessoa tipo você. 

 

P/1 – Como assim? (risos)

 

R – Bonita, inteligente, muito educada, me deu todo apoio, todo carinho. Tudo eu podia fazer, também nunca dei motivo, né? Mas ela foi uma pessoa maravilhosa. 

 

P/1 – Você veio morar com ela em São Paulo?

 

R – Eu vim morar com ela.

 

P/1 – Como era esse lugar em que você morava com ela? Onde era?

 

R – Aqui na... Acabei de falar. Guaianases, Zona Leste. Foi o primeiro lugar que eu morei em São Paulo.

 

P/1 – Era uma casa?

 

R – Uma casa. Ela tinha um filho mais velho. O filho dela já morava aqui em São Paulo. Aí ela veio com o filho, o filho trouxe ela e ela me trouxe. Mas ele já morava aqui. Aí morei eu, ela e o filho dela, em Guaianazes.

 

P/1 – Você vai estudar todo esse tempo, você quer fazer sua formação. O que, além do bailinho, você gostava de fazer?

 

R – Eu gostava de tomar uma cervejinha. Chegava o final de semana, eu ia pra balada, tomava uma cervejinha, comecei a tomar pinga.

 

P/1 – Isso quando você estava no Habib’s?

 

R – Isso, eu já estava trabalhando no Habib’s. Que aí eu já tinha dinheiro, estava trabalhando. Vinha um amigo, vinha uma amiga, aí a gente ia sair, tomar uma cachacinha, ouvir um pagode, um forró. Foi antes. Não chegou na esposa ainda, não, né?

 

P/1 – Fica à vontade!

 

R – Aí sai de Guaianazes. Já estava com dezesseis, dezessete anos, aí falei assim: “Tia, vou embora, que vou morar sozinho agora.” “Tudo bem, você vai morar onde?” “Eu tenho uma amigo que mora no Treme-treme.” Não sei se você já ouviu falar naquele Treme-treme, Parque Dom Pedro, que até já destruíram. Que hoje não existe mais. “Tem um rapaz que mora uma kitnet lá no Parque Dom Pedro, vou morar com ele.” Que já estava na hora de eu andar sozinho. Aí eu fui morar lá. Saí do Habib’s, fui numa churrascaria, consegui arrumar um emprego. Mas estudando, sempre estudando. Estava estudando de noite e tomando umas cervejas! Em dia de folga eu ficava daquele jeito. (risos) Comecei a trabalhar nessa churrascaria, já ganhando mais.

 

P/1 – Você fazia o quê nessa churrascaria?

 

R – Eu era ajudante de cozinha. Aí eu fui gostando de trabalhar com comida, com o público: “Aqui é que eu vou ficar.” Hoje, graças a Deus, sou cozinheiro, chefe de cozinha, mas o que está atrapalhando é a cachaça.

 

P/1 – Nesse período de ajudante de cozinha, você ficou quanto tempo?

 

R – Dois anos. 

 

P/1 – E aí você continuava estudando?

 

R – Continuava estudando, nunca deixei de estudar. 

 

P/1 – Nesse período que você estava trabalhando, como era o seu dia-a-dia, o seu trabalho? Tinha alguma coisa que você aprendeu e que você gostou muito?

 

R – Foi onde eu aprendi a cozinhar que eu gostei, né? 

 

P/1 – Tem algum prato que você lembra que você gostou?

 

R – Olha, o primeiro prato que eu aprendi a fazer foi por causa da cachaça! Adivinha. Ó, é sério, essa história é muito interessante! (risos) Era quarta-feira. Cheguei de manhã e tinha um chefe lá, chefão. E eu doido pra beber umas! Aí ele falou assim: “Evandro, feijoada é o prato mais fácil que tem pra fazer. Hoje vai ter feijoada, eu quero que você tome conta dessa feijoada.” “Então me fala o que é pra colocar aqui?” “Ó, você vai colocar folha de louro, laranja e cachaça.” “Não acredito! Tô ferrado!”  Aí ele saiu, estava do outro lado porque tinha outra cozinha, a cozinha dos pratos quentes e a cozinha dos pratos frios, que era pra montar o buffet. Aí eu falei assim: “Rapaz, e agora? Se eu beber cachaça, vão me mandar embora.” E eu estava doido pra tomar uma. Aí eu não sei se você conhece aqueles baldinhos de maionese. E a panela daquele tamanho, rapaz! E lá não podia beber, porque se bebesse os caras mandavam embora, não podia ninguém beber. E o dono era quem trazia o litro de cachaça, e ficava olhando a vitrine. Entregava na janelinha da porta da cozinha e ficava olhando pra ver. Eu olhei pra pia e vi aquele balde: “Ah, tá. Até parece que eu não vou fazer uma arte aqui!” Aí eu peguei o balde, coloquei dentro da panela, e ficou esse balde dentro da panela. Falei pro cara: “Traz três laranjas e um litro de 51, por favor, pra colocar na feijoada.” E o balde lá dentro da panela, a panela desse tamanho e o balde dentro. (risos) “É essa que eu vou fazer!” Aí eu pedi, o cara trouxe a laranja, eu cortei, joguei dentro da panela, coloquei a folha de louro igual ele falou, e peguei e fiquei derramando. Só que eu não estava derramando dentro da panela, estava derramando dentro do balde. Ai o cara falou: “Vem cá, você vai colocar o litro inteiro de 51 dentro da panela?” “Não, não é na feijoada? Eu estou aprendendo. Mas tá bom, tá bom.” E ficou uns quatro dedos, mais ou menos, na garrafa, e o resto estava tudo. Aí, quando eu devolvi o litro pra ele... Só que ele não estava vendo o litro, ele estava do lado de fora, não estava vendo o balde dentro da panela. Aí, quando ele saiu, eu peguei o balde, coloquei na pia e fiquei tomando, fingindo que era água. Colocava num copinho e glup! Na feijoada não foi nada de pinga, só laranja. Eu que tomei tudo. Aí foi o primeiro prato que eu aprendi a fazer na vida. Esse aqui vai ficar pra história, até hoje eu não esqueço!

 

P/2 – Quando você morava com a sua tia você já bebia? Ela falava alguma coisa pra você, ficava incomodada? 

 

R – Não, porque quando eu morava com a minha tia eu não bebia muito, só de final de semana, mas normal. Bebia uma cervejinha normal, chegava em casa normal.

 

P/1 – Aí teve um dia que você começou a beber e não conseguia mais ficar sem, é isso?

 

R – Aí teve um dia que eu já não conseguia mais.

 

P/2 – Quando foi esse dia, você lembra?

 

R – Ai, eu não lembro. Aí assim, ó, acordava de manhã e já estava batendo também.

 

P/1 – Você já trabalhava na churrascaria quando você sentiu isso?

 

R – Foi.

 

P/1 – Mas não foi na churrascaria?

 

R – Eu comecei a beber mesmo, de verdade, quando eu estava na churrascaria. 

 

P/1 – E na cozinha, não te atrapalhava isso no trabalho?

 

R – Não, não. 

 

P/1 – No dia da feijoada, por exemplo, você ficou normal?

 

R – Fiquei normal. Não... Fiquei normal até às quatro horas. Depois das quatro horas, que foi quando eu saí, eu já estava trupicando as pernas, nem sabia mais onde era a porta. (risos) Mas eu trabalhei normal.

 

P/1 – E a feijoada ficou boa? 

 

R – Ficou, ficou boa. Aí, no outro dia, o meu chefe, que era o chefe da cozinha, falou: “Ó, parabéns pela feijoada, aprendeu a fazer?” “Ó, pode ter certeza que eu aprendi!” (risos) Também, porque não aprender a fazer feijoada, que é o prato mais simples que tem pra fazer: “Pode ter certeza que eu aprendi a fazer, foi muito bom você ter me ensinado a fazer essa feijoada!” Mas eu estava pensando na cachaça. Saí de lá naquele esquema.

 

P/1 – E aí a cachaça tomou conta da sua vida?

 

R – Aí foi indo devagarzinho.

 

P/1 – Era só cachaça?

 

R – Só cachaça. De droga, só a cachaça. Nem cigarro comum eu fumo.

 

P/1 – De bebida era só a cachaça?

 

R – Não, tudo! Cachaça, cerveja, o que tivesse eu bebia. Até soda cáustica, se colocasse num copo, eu bebia. (risos)

 

P/1 – E sempre foi assim ou aconteceu algo que te fez diminuir, parar? 

 

R – Não... Eu comecei a beber forte mesmo, porque eu sempre bebi razoável, como um cidadão bebe todos os dias, uma dosezinha pra almoçar, pra ir pra casa quando sai do serviço. Eu comecei a me descontrolar na cachaça mesmo, no sério, quando eu me separei. 

 

P/1 – Como é que foi que você conheceu essa companheira?

 

R – Ah, eu conheci ela na faculdade. A gente estudava na Mooca, na Universidade São Judas. Fui conversando com ela, conheci ela lá.

 

P/2 – Conta pra gente como foi entrar na faculdade. Você já estava na churrascaria? Como você decidiu prestar vestibular?

 

R – A faculdade foi assim, pra eu entrar na faculdade foi a minha tia que me ajudou. Quando eu terminei os estudos, ela falou assim: “Homem, o que é que você quer fazer?” “Ah, tia, eu quero fazer analista de sistema.” “Você quer uma força?” “Eu quero.” Aí ela arrumou um documento e conseguiu uma bolsa pra eu estudar lá. 

 

P/1 – Onde foi essa faculdade?

 

R – Ali na Universidade São Judas, que fica ali na Mooca, no Belém. Aí eu não paguei nada, porque se fosse pra pagar eu não teria condições. (risos) Aí ela conseguiu arrumar pra mim e eu entrei lá. 

 

P/1 – Você fez vestibular? 

 

R – Isso. Foi onde eu conheci a menina.

 

P/1 – Foram nos primeiros dias que você estava na faculdade que você conheceu?

 

R – Não, eu já estava fazendo o segundo ano a primeira vez que eu vi ela.

 

P/2 – E você lembra a primeira vez que vocês se viram?

 

R – Eu lembro!

 

P/2 – Como é que foi? Conta pra gente!

 

R – Quer saber? (risos) A primeira vez que eu vi ela foi numa sexta-feira, o dia eu lembro. Foi numa sexta-feira, a gente saiu, eram dez horas da noite, a gente saiu mais cedo, ficamos todos conversando na rua. Aí eu cheguei perto dela: “Oi, tudo bem?” “Tudo.” “Você quer beber alguma coisa?” “Não.” “Só um pouquinho!” “Ah, eu só tomo vinho.” “Então vamos ali no bar tomar um vinho.” Aí eu já chamei ela, e meus olhos daquele jeito na menina! Já estava interessado. Eu tinha visto ela de vista só, mas nunca tinha conversado com ela. Aí eu perguntei o que ela estava estudando, ela falou, ela perguntou de mim e eu também falei.

 

P/1 – O que ela estudava?

 

R – Ela é dentista.

 

P/1 – Ela estudava odontologia?

 

R – Aí nós começamos a conversar tomando um vinho, e eu na cachaça, já! Ela no vinho e eu na cachaça, cerveja, cachaça, cerveja... Ela me perguntou onde eu estava trabalhando, eu falei pra ela que estava numa churrascaria e tal. Foi assim que começou a nossa história.

 

P/1 – Você já tinha outras namoradas antes?

 

R – Já! Mais só que, quando eu olhei pra ela eu pensei: “Me apaixonei por ela.” E aí me apaixonei.

 

P/1 – No primeiro dia?

 

R – Aquele amor à primeira vista, né? Me apaixonei por ela. Depois que eu me apaixonei por ela, conversava com ela, mas ela se dava de difícil, não me dava muita atenção. E foi indo. Depois de três meses que ela foi me dar uma chance. Eu conversei com ela, contei que estava apaixonado, que não aguentava mais ficar longe dela. Depois de três meses que ela tinha tomado o vinho comigo, hein? O meu primeiro beijo com ela foi depois de três meses! (risos) Ela deu de difícil mesmo. Aí pronto, depois que eu beijei nós ficamos juntos, aí começamos a namorar.

 

P/1 – Na faculdade vocês se viam todos os dias?

 

R – A gente não se via, depois começamos a nos ver todos os dias. 

 

P/1 – Vocês ficaram namorando quanto tempo?

 

R – Ficamos namorando um ano e fomos casados dez. 

 

P/1 – Aí vocês resolveram morar juntos? Conta como foi essa passagem do namoro pra morar junto.

 

R – A parte do namoro que eu estava falando... Ela morava na Penha, até hoje mora na Penha, e eu morava aqui no Parque Dom Pedro, no Treme-Treme, que já não existe mais. Aí a gente se encontrava, eu vinha aqui pro Treme-Treme e ela ia pra casa dela. Aí teve uma hora que eu cheguei pra ela e falei: “Acho que está na hora da gente colocar os paninhos juntos, não tá, não?” “Ah, não sei o quê, minha mãe.” “Filha, você não vai ficar com a sua mãe o resto da vida.” Eu já conhecia a família dela, os irmãos dela e tudo mais.

 

P/1 - Ela era aqui de São Paulo?

 

R – Ela era aqui de São Paulo. Aí ela falava: “Ai, não vou morar, não vou morar.” “Então tá bom, você quem sabe, a vida é sua.” Aí teve uma vez que ela chegou no meu trabalho chorando, com um papel na mão. “Que foi?” “Eu fui na Santa Casa.” E não parava de chorar, e eu preocupado. “Ah, tô grávida.” “Graças a Deus, que assim nós vamos morar juntos!” (risos) Foi aí que a gente foi morar junto. Aí eu saí da casa do meu amigo, fui morar lá perto da família dela, lá na Penha também. Aluguei uma casa e fomos morar juntos.

 

P/1 – Você continuou trabalhando na churrascaria?

 

R – Continuei trabalhando. Aí meu chefe saiu e como eu já estava há mais tempo na churrascaria eles me perguntaram se eu não queria ser o novo chefe da cozinha. “Com certeza! O salário vai aumentar?” “Vai.” “Então com certeza! Está vindo uma moleca por aí, e eu preciso.” “Então tá.” Veio na hora certa. Uma menina bonita.

 

P/1 – Sua esposa trabalhava?

 

R – Ela trabalhava, trabalhava ali na avenida Penha de França, perto do shopping. Aí já estava trabalhando, já estava crescendo a barriga.

 

P/2 – O que ela fazia?

 

R – Ela já estava trabalhando de dentista. Ela estava num consultório, num sobradinho. Quando eu e ela ficamos juntos, a gente já tinha terminado os estudos, já. 

 

P/1 – E vocês viviam nessa casinha? Como era a casinha, o dia-a-dia de vocês?

 

R – Era muito feliz o dia-a-dia. Era uma casinha de dois dormitórios, sala, banheiro e cozinha. Um sobradinho muito bom. Ela perguntou: “Evandro, agora você vai continuar trabalhando na churrascaria?” “Vou, mudei de cargo e tudo.” Aí ela tinha um amigo chamado Edson, um irmão chamado Edson. Aí o cara falou pra mim: “Evandro, você quer trabalhar de segunda à sexta-feira no banco?” “Ah, eu vou.” “Mas são só quatro horas por dia.” Aí eu pensei: “Caramba, quatro horas?” E o salário não era muito bom. Era pra trabalhar no banco arrumando os computadores, tirando vírus. “Caramba, o que eu vou fazer? Ah, não, quero não! Meu salário da churrascaria é melhor e lá eu bebo mais cachaça.” (risos) Aí eu não fui.

 

P/1 – Mas você fez a faculdade de computador, de analista de sistema, mas você não trabalhava na área? 

 

R – Não trabalhava na área, eu trabalhava sempre em cozinha. Porque eu achava melhor e ganha sempre melhor trabalhar em cozinha. É a mesma coisa, mais ou menos, só que trabalha mais. Mas é a coisa que eu mais gosto. Meu primeiro trabalho no Habib’s, depois eu fui trabalhando com o pouco que vem, mas eu pensei: “Meu sonho é esse, eu quero ser analista de sistemas.” Foi aonde eu fui, mas eu não pratiquei, não trabalhei. Já tive muitos convites pra trabalhar, mas eu prefiro trabalhar na cozinha, dirigindo um fogão. 

 

P/1 – Aí você continuou na casinha, não quis trabalhar e continuou na churrascaria?

 

R – Continuei na churrascaria.

 

P/1 - E aí veio sua filhinha?

 

R- Veio minha filhinha. 

 

P/1 – Conta como foi o nascimento dela.

 

R – Ah, foi lindo! Primeiro, que desde o primeiro dia que ela contou que estava grávida eu falei: “Pelo amor de Deus, Senhor, manda uma menininha, que eu não quero um moleque.” Aí quando médico trouxe ela e falou: “É menininha!” Eu pensei: “Agora, sim, Deus está do meu lado!” Eu fui acompanhando a gravidez dela e tudo. Aí quando ela nasceu, foi ali na General Carneiro, ali pra quem vai pra 25 de Março. Aí a bolsa estourou. Ela falou: “A bolsa estourou” Só que, segundo ela, ela não sentiu dor. Eu vi a calça dela molhada e chamei a polícia. O policial perguntou: “Que convênio é o dela?” “Aviccena.” “Onde aceita maternidade aqui?” “Santa Joana, que fica no Paraíso.” Aí fomos pra lá, onde minha filha nasceu. Um hospital bom. Olha que eu tive sorte dessa vez, hein? (risos) Chegamos no hospital, a bolsa estourou e fomos fazer o parto. “É normal ou é cesária?” “Eu acho que vai ser cesária.” “Tudo bem, o importante é a criança vir no mundo, façam o que vocês quiserem, podem acabar com a barriga dela! Aí, galera, minha filha está vindo no mundo.” Mas eu falei brincando, não foi sério! (risos) 

 

P/1 – E foi cesária?

 

R – Foi cesária. Mas depois ela sofreu tanto, tanto. Ela sentiu muita dor. A minha filha não mamou no peito porque virou pedra, o leite não saia. Inchou o seio dela e ela não conseguia dar de mamar porque doía muito. Travou o leite, ela sofreu. Eu ficava trabalhando, aí parei de beber um pouco. Falei: “Agora minha vida melhorou.” 

 

P/1 – Quando nasceu sua filha você não estava no hospital? Não tomou umas pra comemorar?

 

R – Estava. Ah! Eu não tomei uma, eu tomei várias! Tomei foi um litro! Quando o cara falou: “Sua filha nasceu!” Que eles gravam o parto, né? E eu pedi pra eles gravarem. Quando eu fui ver a gravação... Mas eu vi minha filha nascendo, eu estava lá junto. Mas eles gravaram. Aí quando a menininha saiu chorando, eu falei: “Agora, pronto!” Desci no elevador e fui ao bar do lado. Aí eu já tinha ligado pra mãe dela, estava a mãe dela embaixo, esperando pra sair, e o irmão. E ele também gostava de uma, né? Eu falei: “Edson, a minha filha nasceu, vamos tomar o mijinho dela.” (risos) Aí fomos pro bar. Chegamos no bar, um litro de cachaça, Ypióca. Tomamos o litro todinho! Quando eu fui ver minha filha, não via uma, via duas. (risos)

 

P/2 – E sua mulher não ficava incomodada com a bebida?

 

R – Ficava. Talvez por isso que ela me traiu, acho que foi por isso!

 

P/2 – O que ela falava?

 

R – Ela pedia pra eu parar de beber, pra pensar nela, pensar na Bruna. Mas já tinha entrado no sangue, já era.

 

P/1 – Mas você evitava, às vezes?

 

R – Às vezes eu evitava, mas aí voltava de novo.

 

P/2 – Mas você ficava violento com ela?

 

R – Não, nunca, nunca ficava violento. Quando eu bebia era só deitar e dormir, não fazia mais nada, nem tomava banho.

 

P/2 – E no trabalho, não te dificultou depois? Como era essa relação trabalho e bebida?

 

R – É que eu não bebia durante o dia, né? Mas quando eu saía, às quatro da tarde — era das seis as três — aí eram quatro horas e eu estava bebendo, chegava todos os dias bêbado em casa.

 

P/1 – E aí, quando você chegava, como era? Você via a sua bebê e não conseguia mais conviver com a família?

 

R – É, quando eu chegava em casa ela ficava triste, brigava que eu tinha bebido. Aí teve uma hora que ela não aguentou mais. 

 

P/1 – Isso levou quanto tempo?

 

R – Eu com ela fiquei dez anos.

 

P/1 – Em dez anos vocês ficaram convivendo assim?

 

R – Dez anos. Mas só que não, eu era um bêbado mas nem tanto, né? Ela brigava comigo quando eu bebia, mas eu não era aquele que bebia muito, muito. Mas eu chegava bêbado, chegava naquele modelo. Chegava, conversava com ela e ia dormir. 

 

P/1 – Então Evandro, aí você conviveu com a sua esposa durante uns dez anos. Vocês viviam bem? Era uma relação boa? E sua relação com a sua filhinha, como é que era?

 

R – Ah, foi bem com a minha filhinha. Lembro que quando eu chegava à noite... Nunca deixei de levar ela pra escola, acordava de manhã cedo, mesmo quando estava bêbado, zoado, acordava e levava ela pra escola. (risos) 

 

P/1 – E ela não se incomodava de ver você assim, a sua filhinha?

 

R – Se incomodava. 

 

P/1 – O que ela dizia pra você?

 

R – Ela pedia: “Se você não gosta de você, pensa em mim, para de beber.” “Ah, filha, mas o pai só toma um pouquinho.” “Não, você está se acabando. Será que eu vou chegar aos meus vinte anos e não vou poder mais te ver?” “Isso você pode ter certeza que vai. Talvez não, talvez sim.” (risos) Ela já chorou várias vezes quando me viu bêbado. A mãe dela brigando comigo, eu deitado lá, e a mãe dela me xingando, brigando comigo.

 

P/1 – Vocês tinham muitas brigas nesse período, quando ela era menor?

 

R – Tinha muita briga. Mas hoje, graças a Deus, nós somos grandes amigos. Eu e ela, minha filha. 

 

P/1 – Nesses dez anos você trabalhou com o quê? Como foi esse período de trabalho?

 

R – Eu trabalhava na churrascaria.

 

P/1 – Você ficou lá sempre?

 

R – Eu fiquei lá na churrascaria. Que eu não quis ir pro emprego que o irmão dela me arrumou, que era pra ir pro banco. Aí eu falei: “Ah, vou ficar na churrascaria.” E fiquei nessa vida, brincando. Eu estava empurrando a vida, chutando, não levei a sério.

 

P/1 – Você só tinha ela como esposa, não tinha outros relacionamentos?

 

R – Não, não tive. Nesse eu nunca trai ela. Nesse tempo todo eu nunca trai ela, graças a Deus. Só tinha ela mesmo. Mas teve uma hora que ela não aguentou. Eu não culpo ela, eu culpo a mim porque eu que fiz errado. Se eu não estivesse nessa de bebida, eu estaria com ela até hoje. Aí quando ela se separou...

 

P/1 – Como é que foi esse momento pra você? 

 

R – Eu cheguei em casa meio mamado. (risos) Ela falou assim: “Deita aí no sofá, dorme aí.” Só lembro que ela jogou uma coberta em cima de mim e eu acordei de manhã, e ela do meu lado. “Agora nós vamos ter uma conversa séria. Tá melhor? Tá bom?” “Tô.” “Então, eu queria com você porque ontem você estava ruim.” “Tá, bibibi...” “Eu estou me separando de você.” “Tá brincando!” “Tô me separando, vou ficar com a minha filha e vou pra casa da minha mãe.” “Não acredito.” “Não, é sério.” Aí eu comecei a chorar, chorar igual a um bebê. Olhava pra minha filha, a minha filha falava assim: “É, pai, desculpa, mas eu vou morar com a vovó também.” “Tá bom, filha, vão com Deus.” “Espero que quando você for me visitar, não vá bêbado.” “Pode ter certeza que vou!” (risos) Aí elas foram embora, pegaram as coisas e foram. Eu falei assim: “Não, pode ficar aí que eu vou procurar outra casa pra mim, eu vou embora.” “Não, você vai ficar aqui e a gente vai pra casa da mamãe, já conversei com ela, os meninos estão me esperando.” Não agredi ela, não fiz nada, falei: “Ah, tudo bem!” “Só queria que você me ajudasse a levar as coisas.” “Lógico que eu ajudo.” Aí liguei pro irmão dela, que tinha uma perua, falei assim: “Ô, Edson, vem buscar a Edna aqui que ela tá indo pra casa da sua mãe.” “Mas por que, cara, o que aconteceu?” “Não esquenta a cabeça.” Aí foi, depois ela me falou o motivo: ela tinha me traído e não estava mais convivendo comigo. Ela estava me traindo, aí quando olhava pra mim ela não tinha mais coragem de ficar comigo pelo o que ela tinha feito, aí beleza, mas não encostei a mão nela nem um minuto. “Não, beleza, tudo bem. Você fez, mas o culpado de tudo isso não é você, sou eu.” Por isso que até hoje nós somos grandes amigos. Tanto eu como ela, a família dela, todo mundo me ama quando eu vou lá, me trata super bem, porque eu fui uma pessoa que não jogou a culpa, eu que fui o culpado. Eu mesmo que fui o culpado.

 

P/1 – Evandro, quando você diz que foi o culpado por causa da bebida, você tinha essa consciência, você nunca tentou sair dela, fazer algum tratamento? Nunca foi em algum lugar buscar apoio?

 

R – Fui nada! Ela falava pra mim que ia me internar. Ela chegou e falou pra mim várias vezes: “Evandro, você quer ir numa clinica, ficar internado?” “Eu, ficar internado? Vou ficar sem a cachaça? Só se tiver cachaça lá dentro!” Eu falava assim pra ela. Aí teve uma hora que encheu, né? A pessoa pode ser calma e o que for, mas tem uma hora que ela não aguenta. Qual é a mulher que gosta de um cara deitado, bêbado?  Ninguém aguenta, mulher nenhuma.

 

P/1 – Mas porque você gostava tanto da cachaça, você sabe?

 

R – O vício, né? Peguei o vício, me acostumei. 

 

P/1 – Você acha que era só pelo vício ou tinha alguma coisa que te fazia beber?

 

R – Não, era puro vício.

 

P/1 – Você tinha alguma tristeza de criança? 

 

R – Pior que não, era safadeza mesmo. Até hoje eu bebo de safadeza. 

 

P/2 – E aí vocês se separaram e você continuou vivendo nessa casa? E depois, o que foi acontecendo?

 

R – Aí, quando nós nos separamos, eu ia todo domingo ver ela e minha filha. Mas eu continuei morando na casa uns quatro, cinco meses. Aí depois eu fui morar no Ipiranga. 

 

P/2 – Por que você decidiu mudar de casa?

 

R – Pra minha filha não me ver. Porque às vezes, como eu morava perto, eu chegava bêbado e aí pensei: “Sabe de uma coisa? Eu vou é sair daqui pra ela não me ver.” Aí eu fui e aluguei uma casa no Ipiranga, eu já conhecia o rapaz, que hoje graças a Deus é minha, eu consegui comprar, e foi indo assim.

 

P/2 – E você continuava trabalhando na pizzaria?

 

R – Churrascaria! Pizzaria eu nunca trabalhei. Eu sei fazer pizza, mas nunca trabalhei em pizzaria.

 

P/1 – E aí depois você conseguiu ter algum outro relacionamento? Você foi se adaptando a essa vida de solteiro?

 

R - Eu fui me adaptando à vida de solteiro, hoje eu não quero casar com mais ninguém. 

 

P/1 – Não teve nenhum relacionamento depois?

 

R – Já. Mas, assim, não pra morar junto, né? Quando eu me separei dela eu namorei normal, mas pra morar junto, não. 

 

P/1 – Não gostou de ninguém?

 

R – Não. Gostar assim pra morar, não. Foi sempre sozinho mesmo. Pode até ser que amanhã eu me apaixone por outra menina, case, e vá morar junto, mas por enquanto não estou pensando nisso, não. (risos)

 

P/2 – Você continua trabalhando na churrascaria?

 

R – Continuo trabalhando.  

 

P/1 – Daqui a pouco você já se aposenta?

 

R – Só que essa não é a mesma que eu trabalhava, é outra.

 

P/2 – Então conta, como é que você mudou de trabalho?

 

R – Eu mudei de trabalho. Não é que eu mudei de trabalho, é a mesma rede, Frigideira Grill, é o mesmo dono. Eu estou na mesma empresa, mas em outro lugar. Antes era na Rua das Palmeiras, agora eu estou ali perto do Centro Cultural, que fica ali na Paulista, na Vergueiro. 

 

P/1 – Como é que é o seu dia-a-dia de trabalho?

 

R – É gostoso, é legal. O pessoal me respeita. Só que às vezes eu chego lá bêbado, zoado, sujo.

 

P/1 – Mas você continua fazendo a comida? 

 

R – Continuo fazendo a comida, né? Quando eu chego lá, eu tomo um banho, me limpo direitinho, que lá tem vestiário. Continuo mandando na cozinha. 

 

P/1 – Você tem algum ritual para ficar mais lúcido?

 

R – Tenho. Quando eu chego o pessoal já está lá, tem os ajudantes, tem um pessoal pra ajudar, eu só vou pedindo pra ajudar. Só não mexo na faca, senão eu perco meus dedos. Vou falando: “Gente, faz isso, por favor. Por gentileza, meu anjo, faz isso.” O pessoal faz mais comida do que eu, eu fico mais pedindo, né? E mamado. Aí, de vez em quando, eu peço pro cara trazer uma dose de conhaque, aí ele vai lá e eu tomo. Aí, mais meia horinha e mais uma dose de conhaque, aí eu tomo. 

 

P/1 – E o teu superior, você tem um chefe?

 

R – Não, o chefe lá sou eu.

 

P/1 – Mas não tem ninguém que reclame de você estar nesse estado durante o trabalho? Nunca ninguém reclamou?

 

R – Não. Porque eu não deixo ninguém ver o que eu estou fazendo, eu finjo que é pra fazer molho madeira e os caras acreditam. “Me dá aqui o conhaque que eu vou fazer mais molho madeira.” Só que eu não coloco no molho madeira, eu tomo. Porque quando você vai fazer o molho madeira, você coloca um conhaquinho ali pra poder ir o clac! Mas eles percebem, né? Porque não tem como não perceber, você tomar uma cachaça e quem está ali do seu lado não perceber. Eu já estou meio embriagado, o cheiro é daquele jeito. Não tem como não perceber. Pior é que eu faço as coisas e sou consciente de que eu estou fazendo a coisa errada.

 

P/1 – Sua filha tem quantos anos?

 

R – A Bruna tem quinze.

 

P/1 – E agora que ela está mais adolescente, isso não a incomoda?

 

R - A gente conversa bastante sobre isso. Ela só me pergunta até quando eu vou levar essa vida da cachaça. “Ah, filha, até quando eu me levar.” “Ah, tá bom.” Não fala nada. 

 

P/1 – A sua esposa casou outra vez?

 

R – Já. Não sei se está casada. Mas a ultima vez que vi ela estava namorando, até conheci o rapaz. Agora não sei se já casou.

 

P/1 – A sua esposa?

 

R – Minha ex-esposa. Agora não é mais.

 

P/1 – A sua ex-esposa casou novamente?

 

R – Não sei se está casada, porque quando eu vi ela...

 

P/1 – Ela não vive com outra pessoa, né?

 

R – Não. Ela estava namorando, mas não estava dentro de casa.

 

P/2 – Ela continua morando com a mãe dela?

 

R – Continua morando com a mãe.

 

P/2 – E com a sua filha?

 

R – E com a minha filha. É porque onde eles moram são três casas. Que a mãe dela alugou uma casa pra um inquilino, que é a casa da mãe dela mesmo. Aí tem a parte de cima, que a menina mora, e ela mora no meio. Mora na casa da mãe mas não é a mesma casa, é o mesmo prédio, que a mãe dela emprestou pra ela morar. Ela está lá até hoje, está bem, graças a Deus.

 

P/1 – Evandro, quando você bebe, você vai pra onde depois? Você fica no bar direto bebendo, ou você vai pra rua?

 

R – Eu vou pra rua, vou ao bar. Às vezes, quando acerto o caminho de casa, eu vou. 

 

P/1 – E quando não acerta?

 

R – Dorme na rua.

 

P/1 – E você já dormiu na rua algumas vezes?

 

R – Vish! Várias vezes. Uma vez eu dormi na rua lá, embaixo do Viaduto da Mooca. Acordei cinco horas da manhã e chovendo. E eu bêbado! Deitado na rua, lá. “Meu Deus, que vida!” O dia amanhecendo e os homens passando. “O quê? Não vou deixar ninguém me ver aqui, não.” Levantei rapidinho, não tinha escovado o dente, nada. Cheguei na padaria, falei: “Sabe de uma coisa? Vou tomar um café ali.” Quando entrei na padaria o cara falou: “O que você quer?” “Eu quero uma cachaça!” (risos) O dia estava amanhecendo, às cinco horas.

 

P/1 – E nessas vezes que você dormiu na rua, que foram várias, aconteceu alguma coisa especial? Como é que é dormir na rua?

 

R – Dormir na rua não é bom. Não acontece nada de especial pra gente dormir na rua, acontece maldade. Nunca me fizeram mal na rua, não que eu lembre. Foi uma coisa que eu gostei, a semana passada. Estava bêbado, bêbado, lá na Mooca. Falei assim: “Não vou pra casa, não.” Aí falei pra menina da tenda: “Moça, me arruma uma vaga no albergue?” “Desculpa, mas pra você a gente não dá não porque o senhor mora logo ali na frente, no Ipiranga, vai pra lá.” “Mas do jeito que eu estou eu não vou conseguir.” “Evandro, você tem uma casa, se a gente deixar você ir pro albergue, vai tirar a vaga de outra pessoa.” “Então tá bom.” Estava meio frio, estava sem coberta, falei: “Não, pra casa, não, vou dormir aqui, que se dane.” Aí eu andei e vi uma janela aberta, falei: “Vou meter uma de louco e vou pedir uma coberta ali naquela casa.” Aí eu bati na porta, dei boa noite, ela me respondeu. “Moça, me desculpa, mas eu estou numa situação de rua, está frio e eu estou sem coberta. Você não poderia me dar uma coberta pra eu dormir na calçada aqui do lado?” Chapado, chapado mesmo. Não estava nem conseguindo ir pra casa. Aí ela olhou pra mim e falou assim “Já comeu?” “Olha, eu almocei, mas jantar, não jantei, não. Mas não me dê comida porque eu não vou conseguir comer, porque quando eu bebo eu não consigo comer.” Aí ela abriu o portão e falou: “Entra aqui dentro, você quer uma coberta pra dormir ali na rua?” “É, porque eu estou muito bêbado, estou ruim.” “É, dá pra perceber, porque se eu riscar um palito de fósforo aqui você explode!” (risos) Daquele jeito! “Senta aí, quer tomar um banho?” “Não senhora, não quero incomodar você.” “Você vai tomar um banho.” Ela foi lá, pegou uma toalha, me arrumou um sabonete. Aí, tomando banho sem poder praticamente me segurar debaixo do chuveiro, estava naquele modelo, ruim. Aí quando eu tomei um banho, eu sai... Nunca na vida tinha visto a mulher, ela também não tinha me visto. Não sei se ela já tinha me visto, mas eu nunca tinha visto ela. A coberta estava em cima do sofá. “Não quer comer mesmo?” “Não, não consigo, não adianta você colocar comida pra mim e eu jogar fora!” “Tá bom. Você mora onde?” “Eu moro na rua, se eu estou falando pra senhora que eu moro na rua, é porque eu moro na rua, né?” Eu estava de olho na coberta. “Me dá logo essa coberta pra eu ir embora. É essa aqui a coberta, moça?” “É, mas espera aí um pouco.” Aí ela subiu uma escadinha, trouxe um colchão: “Você não vai dormir na rua não, você vai dormir aqui dentro.” Nunca tinha visto a mulher, aí eu olhei assim pra ela: “Posso dormir aqui?” “Pode, só que eu vou ter que sair cedo pra trabalhar, se você não se incomodar de sair cedo.” “Minha filha, pode ser até quatro horas da manhã que você acorda, que eu estou bom, vou dormir aqui!” Foi segunda-feira, que eu lembro que estava até passando um filme no Tela Quente lá. Quando ela colocou o colchão perto do sofá e falou: “Pode deitar aí.” Pronto! Deitei e desmaiei. Aí, quando acordei no outro dia, acordei porque ela acendeu a luz. Quando eu olhei assim já eram seis horas. Eu ainda estava meio bêbado. Aí ela me chamou: “Vem aqui na cozinha!” Aí eu fui na cozinha, aquela mesinha com mamão, melancia e leite. “Senta aí e come!” “Senhora, me perdoe, mas eu não vou comer, não, eu não como nada de manhã quando eu acordo.” “Não, você tem que comer!” “Não, minha senhora.” “Você mora na rua, não sabe que horas que você vai comer.” Que eu tinha falado pra ela que eu morava na rua, né? Pra poder ganhar a coberta, senão ela não dava. (risos) “Come aí!” Aí eu tive que comer pra agradecer. Aí eu comi. Depois me deu até dor de barriga aquele mamão que eu comi, por causa da cachaça, por causa de tudo... Não gosto nem de lembrar. Foi uma coisa muito diferente que aconteceu, até hoje, na rua.  Falei: “Nossa, a mulher nunca me viu!” Aí ela foi e falou assim: “Ó, quando você estiver por aí, pode passar aqui que eu te dou comida.” “Obrigado, senhora, Deus abençoe você e a sua família.” “Você trabalha?” “Não! Mas eu vou ver uma entrevista lá no Vergueiro, será que você podia me ajudar?” “O que você quer?” E eu doido pra tomar uma cachaça aquela hora. “Eu queria que você me passasse no metrô.” Mas mentira, eu queria que ela me desse dinheiro pra eu tomar cachaça no bar. Que a minha carteira já foi pro saco, né? 

 

P/1 – Sua carteira de trabalho?

 

R – Não, a minha carteira, que estava no bolso. Estava bêbado e não sabia onde tinha ido parar. Mas depois eu achei, porque estava com as meninas da tenda, elas guardaram. Aí meti a mão no bolso: “Ah, não, e agora? Como é que eu vou tomar uma cachaça?” Aí meti uma de louco nela: “Você não pode me passar no metrô?” “O senhor vai pra onde?” “Eu vou passar ali na tenda, tenho que ir nove horas no Paraíso e eu queria que a senhora me passasse no metrô.” Ela me deu dez conto. “Meu Deus do céu, olha o castigo!” Me deu dez conto. Saí, abri o portão e fui embora. Aí cheguei no mercadinho, entrei... Você conhece aquela barrigudinha né? Aquela redondinha! Falei: “É essa aqui mesmo que eu vou comprar! Quando é, moça?” “É dois reais.” Comprei a barrigudinha e fui beber. Eu folgo na terça, né? Quando eu saí do serviço, fui direito pra tenda, era segunda-feira, aí eu não trabalhava. Falei: “Ai, meu Deus do céu.” Peguei o corote e fui lá pra tenda. Toma, toma, toma, toma... Aí a moça: “Seu Evandro, sua carteira está aqui.” Eu falei: “Não acredito! Pensava que tinha perdido!” Porque estava com meus documentos e tudo, carteira de motorista... Meu Deus.

 

P/1 – Isso era que horas?

 

R – Isso eram oito horas da manhã.

 

P/1 – E você já estava bêbado?

 

R – Já estava bêbado, naquele modelo! Olhava pras pessoas e não via uma, via duas, três. Estava daquele jeito. Aí passei a terça bebendo, bebendo, bebendo...

 

P/1 – Evandro, você não tem medo de ficar na rua, desse jeito?

 

R – Ah...

 

P/1 – Digo desse jeito porque você tem ficado mais vezes, né? 

 

P/2 – Como é que você conheceu o pessoal da tenda?

 

R – O pessoal da tenda eu conheci através de uma colega minha que trabalha lá, que é psicóloga. Uma vez eu fui visitar ela lá, o nome dela é Valéria, e aí eu conheci um pessoalzinho lá. E gostei de todo mundo. Na tenda rola cachaça direto! Opa! Aí eu comecei a beber, beber e todo mundo pegou amizade comigo. Foi indo, foi indo, e assim eu conheci.

 

P/2 – A tenda é um serviço para moradores de rua, né? Você não tem medo de se transformar um morador de rua?

 

R – Eu nunca pensei nisso, boa pergunta. De ser um morador de rua...

 

P/1 – Eu só estou comentando.

 

R – Não, mas foi bom você ter falado disso porque eu nunca pensei nisso. Já pensou, por causa da cachaça eu perder minha casa, perder meu emprego, perder tudo? Aí eu vou ter que ser morador de rua.

 

P/1 – Você já perdeu os documentos e ficou disposto na rua, né? Você tem ideia do que você quer aqui pra frente? Sonhos, projetos?

 

R – Ah, eu tenho. O que eu mais quero é parar de beber. Porque eu já perdi tanta oportunidade boa, tanta mulher bonita por causa da cachaça. Uma vez eu conheci uma menina, agora, faz pouco tempo, não tem nem quinze dias que eu cheguei perto dela. Aí eu falei assim: “Vou falar com aquela menina, vou perguntar se ela não quer namorar comigo, vou jogar um xaveco nela!” Ao invés de ir conversar com a menina, fui para o bar beber. “Vou tomar uma pra tomar coragem.” Aí tomei uma, porque o cara, quando toma uma, não para, né? É uma, é duas, é três. Aí tomei uma, tomei duas, tomei cinco. Fiquei naquele modelo. (risos) Aí eu fui conversar com ela. Comecei a jogar ideia nela lá, falei que estava gostando dela e tudo, e você sabe que quando o cara bebe as pessoas percebem. Aí ela já percebeu, olhou pra mim e falou assim: “Evandro, eu te conheço já faz um ano. Esse período todo eu esperei que você viesse falar comigo bom. Eu juro pra você, se você estivesse bom, eu namorava você. Você nunca chegou em mim bom, agora você vem falar comigo bêbado? Tô fora, eu odeio cachaça!” “Tudo bem então.” Aí eu voltei pro bar e bebi cachaça! (risos) Perdi a menina por causa da cachaça. A cachaça estraga a vida da pessoa. Você perde tudo. 

 

P/2 – Então você está dizendo, né? E esse medo não te leva a parar de beber, por exemplo?

 

R – Não, mas eu vou buscar parar de beber.

 

P/1 – Além da bebida, tem alguma outra coisa que você gostaria de fazer nesse momento? O que te ajudaria talvez, a parar de beber?

 

R – Talvez casando de novo, acho que mudaria. Se a partir de hoje eu arrumasse uma mulher que eu gostasse mesmo, acho que seria um grande passo que ajuda.

 

P/1 – Nesse momento o que você mais gostaria?

 

R – Parar de beber e talvez casar de novo, que me daria uma força, porque eu ia pensar no que eu perdi atrás por causa da cachaça. Aí eu ia dar mais valor à pessoa.

 

P/1 – E não tem alguma coisa que você goste de fazer, que te faça esquecer um pouco a vontade de beber?

 

R – Não! O pior é que não! (risos).

 

P/1 – Tem algum momento que você se entretém tanto que nem tem vontade de beber?

 

R - Tem, quando eu estou assistindo filme. Aí eu não bebo. 

 

P/1 – Filme no cinema ou em casa? Você gosta de ir ao cinema?

 

R – Eu adoro, adoro cinema. Sempre eu vou ao cinema, eu vou ao Centro Cultural. Às vezes eu saio do trabalho e dá tempo, eu vou ao Centro Cultural, que lá pode assistir. A gente pode assistir o filme que quer.

 

P/1 – Tem algum filme que você viu que te marcou?

 

R – Tem um filme que me marcou muito, que foi... Agora eu não lembro o nome do filme. 

 

P/2 – Conta a história dele pra gente!

 

P/1 – História de amor?

 

R – É uma história tipo de amor. É uma história muito bonita. Aliás, eu assisti ele hoje com ela. Com a que me trouxe aqui, nós fomos almoçar lá na churrascaria.

 

P/1 – Hoje você trabalhou?

 

R – Hoje? Não, hoje não. Eu só vou voltar a trabalhar no dia 22 porque eu tive um acidente, aí me deram atestado. 

 

P/1 – Você teve um acidente como?

 

R – Eu fui atravessar a rua bêbado, não vi a moto, aí ela me pegou. 

 

P/1 – Tá vendo? Você está perdendo o controle da sua vida, né? E aí, como é que era esse filme?

 

R – Esse filme era uma história assim... É que eu não sei contar muito história de filme, né? Tem um cara que é um delegado da polícia, ele é um moreno, e tem um irmão, que também é negro, só que o irmão dele era bandido. Uma história bem bonita. Esse delegado que tinha o irmão que era bandido, mataram o irmão dele. Só que ele só foi descobrir no final do filme. Aí ele era branco, ele estava na rua numa viatura, passou um carro. Ele pediu pra parar, tinha um casal, uma mulher morena e um outro rapaz moreno. Ele foi dar uma geral, estava ele e outro policial dentro da viatura. Aí o policial foi dar uma geral no cara e esse delegado foi dar uma geral na mulher. Mas a geral que ele dá é abusando, né? Metendo a mão onde não devia meter. Aí a mulher começou a chorar e brigou com o marido ela porque ele viu aquela cena e não fez nada. Aí ele fala: “Como é que eu vou fazer alguma coisa com os policiais armados e eu não estava armado? O que você queria que eu fizesse?” Aí eles começaram a discutir por causa disso, e ela saiu, pegou o carro e saiu. Aí ela teve um acidente muito grave, começou a derramar gasolina no carro que ela estava e ela estava presa. Já estava começando a pegar fogo. Aí quem que passa? O delegado que abusou dela e tudo. É uma história muito bonita, você precisa assistir esse filme, depois eu vou perguntar pra ela o nome do filme.

 

P/1 – E aí, quando você está nesse período do filme, você não tem vontade de beber?

 

R – Não, aí não. Porque eu me concentro muito no filme, não dá vontade de beber. Nem penso em cachaça, não penso em nada. Porque se o cara bebe e vai ver o filme, o que é que ele vai ver? Vai ver a tela tremer na frente dele. Porque eu já fiz isso. Não consegue ver, por isso que, quando eu estou assistindo a um filme, eu não bebo.

 

P/1 – Tem alguém te ajudando nesse momento? Por exemplo, quando você teve o acidente? Alguém que está sempre do seu lado?

 

R – Tem, tem.

 

P/1 – Quem?

 

R – Minha filha, a mãe dela está me ajudando. Me liga todos os dias pra saber como eu estou, o que eu estou fazendo. Se eu já tomei os remédios, pra eu não beber e não tomar os remédios. Aí eu falei: “Minha filha, os remédios eu já deixei pra lá faz tempo, agora estou só na cachaça!” Aí não tem jeito! Não adianta você querer ajudar alguém, se você não quer ser ajudado.

 

P/1 – Você tem que ter força de vontade.

 

R – Mas tem gente me ajudando. É porque não adianta a pessoa colocar coisa na minha boca pra eu não beber.

 

P/1 – E contar hoje essa história hoje pra você foi bom?

 

R – Foi bom, foi super legal. Nunca tinha conversado assim com as pessoas. 

 

P/1 – Como é que foi contar sua história?

 

R – Eu me senti bem, me senti super bem, feliz. Gostei de estar sentado, conversar com vocês, explicar um pouco da vida da gente que bebe cachaça! (risos) É cruel, viu? Você não bebe, né? Nunca beba, porque se beber a casa cai! E se beber, não dirija, também! (risos)

 

P/1 – E, se dirigir, não beba.

 

R – É e, se dirigir, não beba! 

 

P/1 – A gente também gostou de ouvir sua história e espera que você possa melhorar aí, tentar superar isso.

 

P/2 – Você querer parar, né?

 

R – Eu quero! Quero parar. Estou fazendo um esforço, já, pra parar de beber.

 

P/2 – E você pensa em fazer um esforço, ir pra uma clínica? Porque antes a sua mulher que falava com você...

 

R – E eu não queria. 

 

P/2 – E você não queria, mas agora você quer. Você já pensou em ir pra uma clínica?

 

R – Não adianta você ir pra uma clínica.

 

P/1 – Alcoólicos Anônimos é o melhor, né? 

 

R – Porque pra você parar de beber, você tem que ir andando, vendo aquela cachaça que tanto te fez mal. Se você vai pra uma clínica, você vai sair de lá e vai querer beber. Por isso, você estando no mundo, é a melhor clínica que existe, porque aí você acostuma.

 

P/1 – Mas é que nesse ponto que você está, você não tem controle. Você precisa de apoio externo. Pode ser que se internar seja mais complicado, mas o Alcoólicos Anônimos, todo mundo que bebia conseguiu sair. 

 

R – Eu já estou frequentando já. Já fui em duas uniões. Marquei pras dezessete e trinta. 

 

P/1 – Que bom, Evandro, acho que você já está em um bom caminho.

 

R – Estou tentando, né? Porque a pessoa que bebe não consegue parar de uma vez. É igual fumante, eu não vou parar de uma vez. Se eu chegar pra você: “Ah, hoje eu não vou beber mais.” Vou estar mentindo pra você, mentindo pra mim mesmo, entendeu? Por isso não adianta. 

 

P/1 – Não desista do AA [Alcoólicos Anônimos]...

 

R – Não, eu estou indo.

 

P/2 – Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, você mudaria?

 

R – Mudaria.

 

P/1 – O quê?

 

R – Eu faria tudo diferente do que eu já fiz. Parar de beber. Não beber tanto, beber menos. (risos) Eu pretendo ainda voltar com a minha ex-esposa, mas desse jeito... Ainda gosto dela, mas ela já tem outro. A última vez que eu vi ela, ela estava namorando. Não estava morando na mesma, mas estava namorando. E eu lá vou saber se ela vai casar com o cara? Por isso eu rodava a fita ao contrário e faria tudo diferente. Evitava de beber e de magoar ela. Não magoava batendo, mas já falei muita coisa pra ela. Você sabe que quando o bêbado chega em casa, arruma esposo pra mulher, né? “Ei, você tem isso, está me traindo, está falando que trai.” O bêbado arruma homem pra sua mulher, mesmo que a mulher, coitada, não tenha nada, mas arruma.

 

P/1 – Arruma encrenca, né?

 

R – É, arruma encrenca pra mulher.

 

P/2 – Muito obrigada!

R – Obrigada vocês, meu anjo, eu agradeço vocês.

 

P/1 – A gente agradece seu depoimento, muito obrigada.

 

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