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História

Do trabalho como ambulante às antiguidades

História de: Marília Gessy Taddei Sorrentino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Marília relembra sua infância em São Paulo, fala do trabalho do pai como alfaiate, conta suas memórias da escola e as brincadeiras da época, o trabalho em fábrica de tecelagem e, posteriormente, em papelaria; a aquisição de carrinho de cachorro-quente, pipoca e algodão-doce e o início de trabalho como ambulante. Ela relata sua experiência de trabalho nas feiras de antiguidades e na loja de móveis, sua participação na Associação dos Expositores da Feira de Antiguidades do Bexiga, seu casamento e seus sonhos.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Marília Gessy Taddei Sorrentino. O nome do meu pai é Américo Taddei e da minha mãe Cecília dos Santos Taddei. Nasci em São Paulo, capital. Tenho sete irmãos. Meu pai era alfaiate, italiano, um senhor forte. Minha mãe, do lar.

INFÂNCIA
Morei no Brás, que antigamente tinha muitos imigrantes de origem italiana e espanhola. Das brincadeiras comuns daquela época a que eu mais gostava era amarelinha, faziam-se alguns quadrados no chão e com uma casca de banana dobrada ia acertando nos quadrinhos. Estudei no Brás, no Grupo Escolar Romão Puigari até a quarta série.

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
Minha primeira atividade de trabalho foi em uma tecelagem, aos 14 anos, tinha parado de estudar. Antigamente era comum os pais colocarem os filhos para trabalhar aos 14 anos, minha irmã também trabalhou no mesmo lugar, fiquei lá por três ou quatro anos. Trabalhava na seção de remate, eram produzidos sacos de juta, para arroz e feijão. Saí da tecelagem porque foi fechada, as pessoas foram mandadas embora. Eu entrava às 6 horas e saía às 14 horas, ganhava bem, era à base de comissão. Quanto mais a costureira trabalhava, mais a gente ganhava. Se a costureira andava mole, aí adeus. O remate era um nozinho no fim da costura, pro fio do barbantinho não soltar, aí cortava e ia empilhando. Eram muitas unidades por dia. Depois trabalhei em papelaria, na Papelaria e Tipografia Andreotti, meu sonho era ser balconista. Detestava trabalhar em fábrica, mas precisava ajudar a família. Então quando a firma fechou e eles mandaram todo mundo embora, fui trabalhar como balconista. Era registrada, tudo certinho. Adorava trabalhar na papelaria, fiquei quatro anos na Brigadeiro Tobias, era uma das melhores vendedoras. Havia comissão para o melhor vendedor, sempre fui a primeira. Depois eles abriram outra filial e eu fui ser gerente, foi na Alameda Glete. Porque eu ia formar freguesia. Depois passei pra José Bonifácio. A freguesia era de todo tipo, a maioria de boys que iam comprar coisas pras firmas. E na época da escola, que começava em fevereiro, era uma loucura! Vendia-se caderno, lápis de cor, todas essas coisas. Os cadernos não eram sofisticados como os de hoje, eram brochura, muito mixuruquinho. Vendíamos também muitos cadernos de caligrafia, que era costume na época. Os cadernos antigos tinham, atrás, o Hino Nacional, o Hino da Bandeira ou tinha uma bandeira na frente. Fiquei na papelaria uns dez anos, o salário era bom e também a base de comissão. Nesse tempo eu ajudava muito a minha mãe porque eu perdi meu pai com 13 anos, e dos oito irmãos eu sou a penúltima. A família toda trabalhava. Então eu dava dinheiro pra minha mãe, comprava roupas e enxoval pro meu casamento. Estava noiva, namorei oito anos. Após esses anos na papelaria ganhei o Marcelo, o mais velho, que está com 22 anos, então parei um pouquinho. Depois comecei a vender cachorro-quente, pipoca, algodão-doce, fazer festinhas de aniversário. Meu marido era dono de uma firma que ia mal, eu tinha que ajudar com alguma coisa em casa. Fiz panfletos e distribuí em alguns lugares. Geralmente, quando fazia as festinhas, uma pessoa que chegava e gostava pedia o endereço e a pessoa que fez a festinha dava e assim sucessivamente. Preparar as coisas era fácil porque geralmente cachorro-quente é pronto, é salsicha, o milho de pipoca também já é pronto e algodão era açúcar cristalizado, também é pronto. Então demorava uma meia hora, mais ou menos. Permanecia na festa de três a quatro horas, às vezes precisava ficar mais tempo, aí ganhava uma caixinha. Essa ideia de trabalhar com festas surgiu quando um amigo do meu marido nos ofereceu um carrinho de cachorro-quente para comprar e eu topei a parada. Cheguei a ter sete carrinhos. Em festas grandes, em que precisávamos de muitos carrinhos, levávamos colegas e sobrinhos para ajudar e os pagávamos. Umas duas vezes fomos para o interior, íamos de Kombi, que tenho até hoje. Tenho também ainda dois carrinhos de cachorro-quente, pipoca e algodão, mas não funcionam. Meu marido sofreu um derrame cerebral em 1990, ele não fala e não anda, mas ele não quer que os carrinhos sejam vendidos e a gente faz o gosto dele.

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – ANTIGUIDADES
Hoje minha atividade é outra porque meus filhos não quiseram continuar, estou fazendo as feirinhas de antiguidades aos sábados e domingos. Entrei nesse mercado vendendo lanches, nos carrinhos, em barraca. E fui sentindo a coisa, que não é do lanche. Vi que a turma expunha e vendia coisas de antiguidades, louças, móveis e entrei no ramo também. Meu marido ficava na barraca e eu ficava nas louças e nos móveis, ele ganhava dinheirinho de um lado e eu de outro, na mesma praça. Expunha as coisas no chão, na Praça Dom Orione, no Bexiga.

RELAÇÃO COM FORNECEDORES
Estou há 12 anos na feira do Bexiga e há sete na de Pinheiros. Pra conseguir as peças antigas é assim: alguém oferece, fala que tem louça, tem móvel e caso haja interesse vou na casa da pessoa pra negociar. Tem pessoas que sabem dar o preço, outras não, só têm uma base. Há também as promotoras de vendas, por exemplo, tem muito estrangeiro que fica alguns anos no Brasil e vai embora, as promotoras vendem as peças deles e ganham comissão. Elas entram em contato e perguntam se há interesse em alguma peça, geralmente só vou se tiver antiguidade, elas que colocam os preços. Compro se perceber que dá pra comprar, vender e ganhar. Pra vender tem bastante cliente, na Benedito Calixto, em Pinheiros, eu não sei, mas na feira do Bexiga, nós somos 280 expositores e todo mundo vende. Entre os clientes da feira há os antiquários que compram da gente. E também decoradores, artistas, produtores. Tem a Márcia Fasano, que é irmã do Víctor Fasano, quando ela está montando uma peça vai até o expositor e pergunta se eu quero doar a peça e tudo bem. Se não, ela vai falar com o presidente da feira que chega na barraca e fala: "Olha, quanto dá pra você vender essa peça, é pra ajudar o teatro." Se a pessoa quiser fazer mais baratinho, tudo bem. Como eu fiz, essa Márcia Fasano foi na feira, estava fazendo aquela peça 'Greta Garbo quem diria, acabou no Irajá', eu cedi uma vitrolinha dos anos 50, um vaso de morano e mais umas coisinhas. Doei para o teatro. Já fiz aluguel de peças, mas geralmente os artistas vão aos antiquários para alugar. Em troca das peças ganho convites para assistir as peças. Como estou no ramo há 12 anos sei identificar se o objeto é original ou cópia. Tem cópias bem feitas, mas é possível identificar. Por exemplo, móveis antigos são embuia, que é madeira boa mesmo e essas réplicas que eles fazem são de madeira bem comum. Agora, a turma lá na feira fala que o estilo provençal está muito na moda. É dos anos 40, mais ou menos. É daquele móvel que tem a perninha meio tortinha. Tem a penteadeira, que tem aquele espelho bonito. Geralmente a gente pega, tira o espelho, e a parte de baixo da penteadeira a turma faz aparador.

COMÉRCIO DE ANTIGUIDADES NOS ANOS 1990
A gente compra os móveis de particular ou das promotoras de vendas, que vão na loja oferecer. Normalmente, tem mais oferta que procura, o comércio está meio paradinho. A gente compra e vai colocando na loja, geralmente, compramos tudo à vista, mas quando vendemos eles querem pagar em duas vezes. Geralmente, se você compra por 20, você vende por 40. Antigamente a gente colocava, no segundo cheque, um acréscimo de 30%. Agora a turma chega e fala assim: "Ah, porque vocês não fazem em duas vezes? Não tem inflação." Às vezes você chega a ficar com um monte de cheque pré-datado, e não pode comprar mercadoria, porque tem pessoas que não o aceitam. Então às vezes não dá pra comprar e você não compra. A não ser que a pessoa aceite cheque pré-datado, mas é muito difícil.

ROTINA
Geralmente acordo às 6h da manhã em dias de feira, meu marido que é doente vai comigo, quando ele não vai, levo meu filho. Os móveis ficam guardados na loja que fica na Mooca, pertinho de casa. Tem dia que levo pra feira guarda-roupas enormes, cômodas e se não vender guardo de novo na loja. Quando chove colocamos lonas por cima dos móveis pra quebrar o galho, mas mesmo assim molha a mercadoria. Chego na feira umas 9h e saio entre 17h e 18h. No final recolho do chão a mercadoria que não foi vendida, como as louças, dá um trabalhão pra desembrulhar, mas no final tem que recolher e guardar novamente nas caixas. Levo as coisas pra feira em uma viagem só, tenho a perua Kombi que dá pra carregar os móveis no bagageiro. Trabalho nas feiras porque o aluguel é baratinho, alugar um espaço no shopping, por exemplo, é muito caro.

TROCAS NA FEIRA DO BEXIGA
Antigamente, na feira do Bexiga tinha muita troca. A pessoa vinha com um bule e queria trocar por uma outra peça. Se interessava pra mim, eu trocava. Na semana passada eu fiz uma porque compensou, eu troquei três pratos por uma sopeira. Só que essa sopeira eu não estou vendendo, eu gostei dela e peguei pra mim. Antigamente, ia muita porcariada, todas aquelas coisas porcarias que tinham em casa iam pra feira. Achavam que a gente tinha que trocar, eles falavam: "Mas não é uma feira de troca?" A gente respondia: "É, só que isso daí a gente não vai vender nunca." Às vezes a pessoa que tinha muita troca dava um tanto a mais, e aí eu trocava a peça. Se interessava pra pessoa, tudo bem.

FAMÍLIA
Geralmente quem fica na loja é meu filho de 22 anos, ele também trabalha com móveis, desde os 12 anos. Eu o chamava para ir à feira comigo e ele foi gostando. Meu outro filho, o Luciano de 20 anos não trabalha comigo, ele estuda, faz Escola Pan-Americana de Artes, e à tarde, às 14h, vai para um estágio, trabalha numa agência de publicidade. Meu marido nunca gostou de trabalhar com móveis, trabalhava com os lanches. Eu vou todo dia à loja, mas eu não fico lá porque eu preciso cuidar do meu marido, meu sobrinho e meu filho que ficam. O ponto não é tão bom e acaba servindo como depósito. As feiras dão mais lucro. Há clientes que vão com frequência, vão garimpar peças que chegam, alguns fazem encomendas, então durante a semana batalho pra essa pessoa, guardo a peça pra ela porque tenho certeza que ela compra e paga.

CASAMENTO
Eu conheci meu marido num salão de baile. Ele tocava bateria em uma orquestra, tocava bolero, samba. Ia ao baile escondido da minha mãe, aos domingos, tinha uns 16 anos, era na Rua das Figueiras, no Brás. Fiquei um tempo sem trabalhar por causa do casamento e em 87 começamos a trabalhar juntos com os carrinhos.

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL
Tanto em Pinheiros quanto no Bexiga existe associação dos vendedores, sendo que faço parte da associação do Bexiga, sou a primeira vice-presidente. Os expositores arrecadam um dinheiro que serve pra manutenção da praça, por exemplo, dos banheiros ou som, também pagamos seguranças, pois já aconteceu de peças serem roubadas. Adoro meu trabalho, se me perguntarem qual é o meu lazer, esse é meu lazer. Tenho alguns sonhos, gostaria que meu marido ficasse bom, eu peço, mas sei que isso é da parte de Deus. O resto, o que quero é saúde pra ir à luta, é triste ter um marido que não fala, não anda, um homem bom, trabalhador. Agora, uma casinha a gente também gostaria de ter porque eu pago aluguel. O meu trabalho eu acho ótimo, o que estraga são as réplicas, as cópias. Por exemplo, eu tenho uma cristaleira, ela é antiga, eu vou pedir na minha cristaleira, por exemplo, 300 reais. O outro vem com uma cópia e vende por 150 reais, vende-se bastante cópia, tem gente que não liga pra isso. Algumas pessoas fazem questão de autenticidade, tem gente que tem bom gosto.

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