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História

Do sítio para o assentamento

História de: Maria Luiza Barbosa de Freitas
Autor:
Publicado em: 18/12/2014

Sinopse

Maria Luiza Barbosa de Freitas, conhecida por Bia, nasceu em Caucaia (CE) em 23 de maio de 1957. Filha de agricultores, desde cedo aprendeu a trabalhar na terra e na criação de animais. Nascida em uma família evangélica, casou-se e teve filhos. Mas o casamento não deu certo, o marido era "do mundo e gostava de festas", com as obras do Pecém, a separação deu-se de fato. Por causa da construção do Complexo, a família foi obrigada a deixar o sítio onde morava, foi indenizada e assentada no Assentamento Vila Munguba I, onde lá Bia nos conta a sua história, agora integrante da Associação do Moradores do Assentamento.

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História completa

Meu nome é Maria Luiza Barbosa de Freitas, nasci na cidade de Caucaia, no interior, numa comunidade chamada “Olho D’Água”, em 23 de maio de 1957. Meu pai Francisco Barbosa de Moraes e minha mãe Francisca Benvindo Barbosa eram dessa comunidade e trabalhavam na agricultura, tinham criação de animais, de cabra, de porco, de muita galinha. Tenho cinco irmãos. Meu pai vendia algodão, vendia mamona e arroz. Meus pais eram pessoas boas que sabiam educar.

A infância era só tomar banho de rio, no Rio Cauípe. Também íamos nos açudes, no sertão tem muito açude nos barrancos das serras, dos serrotes. A gente brincava de bonequinhas de pano e fazia a roupinha delas. Eu lembro que nós íamos dar água aos animais, em cacimba, que se faziam no chão das serras, nos pés do serrote. Aí a gente ia de animal, nós entrávamos nas casas dos vizinhos, dentro de casa das pessoas, com os cavalos e jumentos. Nós ajudávamos nosso pai a apanhar arroz, algodão, fava.

A nossa escola era longe. A minha primeira escola foi a Maria Cleomar Pereira Gomes num lugar chamado Lagoinha. Lá foi onde eu fui alfabetizada, fiz até o segundo aninho. Depois mudei de escola até os últimos anos.

Nasci numa família evangélica. Nós fomos criados desde meninazinhas ali na Igreja. Tinha os cultozinhos lá, tinha a escola dominical, tinha o aprendizado, tinha os cultos por semana. Eu tô dessa idade, pode me perguntar o que é uma festa que eu não sei lhe dizer o que é.

Com 25 anos eu me casei. Fui morar em um sítio da família do meu marido no Cambeba. Casamos num cartório em Antônio Bezerra, Fortaleza. Fizemos uma festa com muita comida e aluá, uma bebida feita de pão, parecido com refrigerante.

Nossa casinha era de taipa, mas toda rebocada, toda cimentadinha. Uma cozinha, um quarto, uma salinha, uma sala grande e um alpendrezinho grande na frente. No sítio tinha muito coco, cana, milho, feijão, batata doce, melancia, jerimum. Havia muita fartura. Eu cuidava dos meninos e ajudava na casa de farinha, casa de moagem, que era pro canavial. Ajudava a fazer rapadura e fazer doce. A gente vendia a farinha e as rapaduras nas comunidades da região. O dinheiro que entrava a gente reinvestia na produção.

A época da mandioca é quando chega logo ali o mês de janeiro, a pessoa prepara a terra e planta os pauzinhos de mandioca. Além da mandioca, nesse período, a gente plantava o feijão e o milho. Quando era no meio de abril, maio, já estava tudo brotando. Aí quando era no outro ano em julho tinha mandioca madura pra fazer farinha. A mandioca boa pra fazer a farinha é chamada aqui na região de “mandioca do céu”. Já a de comer cozida, é a macaxeira “preta” e a “água morna”.

Em 1997 apareceu o pessoal do Idace [Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará] medindo as terras e dizendo que iam desapropriar, porque ali ia ser um polo industrial perto do Pecém por causa do porto que estava sendo construído lá. Eles precisavam daquela área que era pra ser a refinaria da Petrobrás, como é hoje. Na época, muita gente se sentiu muito mal. Tem gente que morreu de raiva, de ficar com aquela ansiedade de sair do lugar que nasceu e se criou, pra ir pra um canto que ninguém sabia nem onde era. Só a pessoa mesmo que era equilibrada é que ficou de acordo e que recebeu aquilo como uma coisa normal, mas muitos não aceitavam. Eu disse: “Eu vou por causa dos meus filhos que eu tenho os meninos e eu penso neles. Eu não vou ficar mesmo, não quero voltar pro sertão da minha família. Eu vou pra lá!”.

No ano seguinte, o Idace comprou o terreno do assentamento e construiu as casas que existem hoje. Eu vim, olhei, gostei do terreno, a casinha era direitinha com energia, com água. Era difícil os acessos, mas eu vou pra minha casa. Em seguida, 40 famílias foram transferidas pra cá. O governo deu uma cesta por dois anos. Mas muitos foram embora, abandonaram as casas do assentamento.

Eu vim primeiro e meu marido não queria vir, queria ficar lá. Depois ele veio, mas não gostou. Passou uns três anos e pouco, ele ficou pra lá e pra cá. Eu fiquei. Nos separamos.

Hoje tenho os meus trabalhozinho de apanhar o feijão, que eu sempre gostei de plantar. Tenho minha areazinha de milho. E o meu cotidiano de dona de casa, eu zelo a minha casa, o meu quintal, as minhas plantas, cuidar das minhas galinhas, dos meus bichinhos.

Hoje eu estou achando bom o meu lugar. Hoje eu já tenho o meu aposento, graças a Deus. Tenho a titulação daqui e participo da associação dos assentados. Estou com a minha casinha, tenho o meu cantinho pro resto da minha vida. Eu gosto do meu lugar. E uma coisa também, gosto do silêncio. Aqui é tranquilo, você passa o dia e não vê ninguém, só se você sair na rua, for ao comércio mercantil, ou tiver uma reunião. Ainda é uma benção.

O meu sonho hoje que a gente fique melhor do que o que nós já estávamos. Nós tenhamos mais uma tranquilidade, o que acontecer não venha por mal, mas venha por bem pra gente viver bem. A comunidade, as pessoas, o pessoal também tenha mais amor, tenha mais Deus no coração pra poder trabalhar, porque sem Deus nós não somos nada, nós não resolvemos nada.

Eu me senti bem contando a minha história. É o mesmo que eu tivesse visitado a minha memória, meu tempo que eu nasci e me criei, onde eu passei.

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