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História

Do porquê eu gosto de museus

História de: Leticia Borges
Autor: Leticia Borges
Publicado em: 25/07/2016

Sinopse

Redigido em 25/07/2016 por Letícia Lopes Borges Schoenmaker a história conta um pouco da infância e Tupã e de como comecei a gostar de museus e me interessar pela cultura indígena.

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História completa

Apesar de ter nascido em Jundiaí, aos três anos de idade me mudei para Tupã, uma cidade bem a oeste do Estado de São Paulo. Minha mãe era professora de português da rede estadual e pediu transferência pra lá, entretanto, devido a uma doença grave que ela tem, chamada Síndrome de Sjögren ( nome estranho não?) se aposentou bastante jovem e dedicou uma boa parte do seu tempo pra cuidar de mim. Costumávamos passear, ir tomar sorvete ( Tupã é uma cidade bastante quente e há muitas sorveterias lá) e visitar a biblioteca, íamos quase toda semana emprestar livros e aproveitávamos para visitar o Museu Índia Vanuíre, que na época dividia o prédio com a biblioteca municipal. Lembro da minha primeira visita ao museu, estava com minha mãe, eu devia ter uns 5 anos e fiquei impressionada com a exposição, eles tem uma coleção etnográfica muito interessante e bastante diversificada mas o que me chamou a atenção mesmo foi um crânio reduzido, não me lembro detalhes da origem do crânio mas era enigmático! Imagine, uma cabeça, mumificada com os ossos e cabelo só que pequenininha, pouco maior que uma bola de tênis, uma cabeça de verdade!Fiquei embasbacada e perdi as contas de quantas vezes visitei. Já na adolescência eu estudava em uma escola próxima ao museu também chamada Índia Vanuíre e uma das coisas que costumava fazer era matar aula pra ir ao Museu e à Casa de Souza Leão, residência do fundador da cidade que também virou museu. Tinha um jardim maravilhoso com muita sombra, aliás, o Souza Leão está enterrado lá. A parede da sala era pintada a mão, fundo vermelho com adornos dourados, os móveis eram todos rústicos, escuros, a casa tinha um pátio central que determinava também o sentido de circulação do espaço e lá fora tinha um salão de jogos.O muro era de pedras arredondadas pintadas de braço, pareciam vários pãezinhos.Quantas tardes não passei ali imaginando mil histórias. Outra curiosidade é que em Tupã a maioria das ruas tem nome de etnias indígenas, Tamoios, Aimorés, Caetés, Coroados, Guaranis, Nhambiquaras, Borebis, Botocudos, Caingangs, Macus e por aí vai... Porém, apesar de ter tantos nomes indígenas, não se via índio por lá. Havia sim uma pequena aldeia mas fora isso, tudo muito urbano, pautado no agronegócio. Na escola mesmo não aprendi nada sobre a cultura indígena, aliás, aprendi que os portugueses tinham chegado e matados todos os índios ou em conflito ou por doença parecendo que tudo havia acontecido há muito tempo. Na minha família sempre ouvi que minha tataravó era índia mas ninguém parecia se orgulhar muito disso e nunca soube dessa história mais a fundo.Só mais tarde, quando adulta é que li os relatórios da Comissão Geographica e Geologica do Estado de São Paulo , os relatórios da EF Noroeste Brasil e fui entender um pouco mais do que havia acontecido, que os povos indígenas continuaram resistindo e lutando contra assassinatos em massa, contra a “pacificação” que implicava na perda de sua identidade ao sujeitar os indígenas ao modo de vida do colonizador e aos valores cristãos, contra a destituição de suas terras, que para evitar conflitos transferiram tribos inteiras, que até o início do século vinte pouco se sabia sobre a região oeste do estado de São Paulo e mandaram expedições de reconhecimento pra região! Hoje em dia moro em Campinas, trabalho em um museu e recentemente fui conhecer a Amazônia mas queria poder ter sabido disso antes, ainda sei muito pouco sobre o Brasil.

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