Busca avançada



Criar

História

Do outro lado do muro

História de: Paulo Henrique Cipriano Seixas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância em Barra Mansa, Rio de Janeiro. Trajetória escolar do primário ao técnico em Informática. Primeiro dia de trabalho na Siderúrgica Barra Mansa. Aprimoramento profissional. Segurança do Trabalho. Aprendizados durante a trajetória de trinta anos na Siderúrgica. Conquista pessoal. Valorização da história e projeto Linha do Tempo. Expectativas sobre o Grupo Votorantim.

Tags

História completa

P/1 – Eu gostaria que o senhor dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Meu nome é Paulo Henrique Cipriano Seixas. Nasci em Barra Mansa, no dia 16 de janeiro de 1961.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Paulo Marcelino de Seixas e Teolina Cipriano Seixas. 

 

P/1 – Onde eles nasceram?

 

R – Meu pai é de Bom Jardim de Minas, e minha mãe é de Castelo, Espírito Santo. 

 

P/1 – Quais são ou foram as atividades dos seus pais?

 

R – Meu pai era um industriário na Siderúrgica Barra Mansa, foi chefe de transporte, almoxarife, trabalhou no Departamento Pessoal. Minha mãe sempre foi do lar. 

 

P/1 – Onde o senhor morava na infância?

 

R – Eu morei no Bairro Saudade, Vila Bananal, bairros adjacentes à Siderúrgica Barra Mansa. Morei na Vila Nova e recentemente moro no centro da cidade. 

 

P/1 – Vamos nos fixar na sua infância um pouquinho.

 

R – Sim. 

 

P/1 – Como era o cotidiano da sua casa?

 

R – Olha, lá em casa somos dois homens, eu e meu irmão e a minha mãe, ela sozinha, a gente antigamente tinha aquele trabalho meio que doméstico de encerar a casa, tentar ajudar a mãe. A gente tinha sempre o pai trabalhando e a mãe em casa. Então a gente ia para escola, voltava, ajudava a mãe, passava um pano ou lavava alguma coisa, ou limpava o quintal, né? Então, o nosso dia a dia era isso. Morava em frente, em uma certa ocasião, morava do lado do campo Siderantim que tinha uma janelinha que foi feita na cerca que era a divisória com o campo na nossa casa para gente ter o controle da mãe, a gente abria aquela janelinha e entrava dentro do campo e ficava jogando bola ali, e deixava sempre a janela aberta para gente ser vigiado pela mãe, né? Então a gente tinha um controle de brincar sempre no campo de Siderantim que as mães sabiam que os filhos estavam ali brincando, não tinha muito problema de dispersar para rua ou então para bairros diferentes, sempre a galerinha ali.

 

P/1 – O senhor tem alguma lembrança marcante dessa época?

 

R – Tenho. Foi até um fato, são dois fatos que eu gosto sempre de comentar. O primeiro é que nós, na época, fizemos uma vaquinha, né, cada um guardava um pouquinho de dinheiro e nós compramos um carro. Na verdade, quem comprou o carro foi um colega nosso, naquela época ele já tinha bastante dinheiro e a gente fazia vaquinha para por gasolina, que naquela época era difícil e ele ensinava, começava a ensinar a gente a dirigir, a gente andava com ele, então a gente andava só naquela rua, não passava dali. Até que um dia a própria Siderúrgica mesmo teve que fazer um trabalho lá, fez uma escavação, nesse dia um dos colegas que estava aprendendo a dirigir perdeu o controle do carro, o carro caiu no buraco, nós perdemos o nosso carro, depois nós não tivemos mais dinheiro para arrumar. E o outro foi um fato que eu até hoje agradeço de ter acontecido isso, coisa de criança: eu subi no telhado da casa do vizinho, peguei um alicate, e antigamente tinha aquela antena que a gente chamava de rabo de andorinha, né, então nós cortamos a antena, por quê? Porque nós compramos o cigarro escondido, também a gente indo para o colégio, nós compramos cigarro escondido e com medo da mãe ficar sentindo o cheiro do cigarro, naquela época tinha aquela Ofélia do Fernandinho da televisão, que tinha aquela piteira, né, então nós usamos da ideia dela de colocar o cigarro na ponta daquele caninho da antena para não sentir, para não ficar com o gosto de cigarro na boca para não apanhar em casa. E eu, como eu era o mais franzino da turma, fiquei por último para fumar, então o cigarro já estava no finalzinho, aí eu fiz força para puxar, o cigarro passou pelo cano, me queimou a garganta, fiquei três dias tomando sopa, eu tive que contar para minha mãe o que aconteceu e uma das promessas foi que eu nunca mais ia por cigarro na boca e talvez foi uma coisa que me ajudou e eu realmente nunca mais coloquei cigarro na boca, quer dizer, nunca fumei. 

 

P/1 – O senhor já descreveu um pouco os fundos da sua casa, o campo de futebol, né? Mas será que a gente podia ampliar um pouquinho mais essa descrição, o senhor nos dá um pouco mais de detalhes sobre o que era esse bairro?

 

R – Olha, o bairro, como eu já disse, era adjacência à divisória, ao muro da Siderúrgica, a gente jogava bola, né? Então naquela época tinha vilas de casas, fazíamos campeonatos de futebol, jogos, brincava com as meninas, naquela época tinha bandeirinha, né? Aqueles piques, então a gente brincava muito nessa época. E tinha alguns casos, que a gente jogava bola em um dos terrenos e a bola caía dentro da Siderúrgica, naquela época era uma briga danada porque não podia pular na Siderúrgica, né, não podia entrar dentro da Siderúrgica, era um local restrito. E como eu era o mais, como se diz, o perverso da molecada da época, o mais brincalhão, aquele negócio todo, então toda vez que a bola caía na Siderúrgica eu pulava, me colocavam em cima do muro, faziam pezinho, né, subia no muro e ficava olhando para ver se não tinha ninguém da Siderúrgica, né, para pular e ir lá dentro buscar a bola. Então teve uma vez que eu pulei, o guarda me pegou e eu fui parar na portaria, puxaram o líder do meu pai na época, eu lembro que são umas coisinhas assim de história dessa fase de criança. 

 

P/1 – Ampliando um pouquinho mais, você lembra da cidade nessa época, você lembra como era Barra Mansa nessa época?

 

R – Ah, lembro! Barra Mansa mudou muito a cidade, a própria Siderúrgica Barra Mansa também aumentou muito, nós tínhamos uma entrada que era lateral. A entrada principal, a portaria era numa curva entre a entrada do Bairro Saudade e mais a entrada do Bairro Vila Nova. Hoje ela é um pouquinho mais fora desse local. Naquela época, a Siderúrgica era, algumas áreas eram de arame, era cerca de arame farpado, não tinha muro. A gente via muito a Siderúrgica crescendo, quer dizer, aumentava um pouquinho o muro, aumentava um pouquinho o muro, alargava um pouco algumas ruas em função do crescimento da Votorantim, da Siderúrgica Barra Mansa. Também aconteceu de mudar o trajeto da rua, a gente tinha um caminho para ir para escola, depois mudou-se o caminho em função do próprio desenvolvimento da Siderúrgica. E a Siderúrgica nessa época, apesar de ter parado um pouco no tempo até mesmo em questão de crescimento, mas já existia algumas mudanças, quer dizer, na verdade todo o pessoal que morava nos Bairros Saudade, Vila Nova, Vila Maria, Vista Alegre vivia praticamente em função da Siderúrgica Barra Mansa. Então isso, as mudanças que tiveram dentro do Bairro Saudade, por exemplo, e dos outros bairros eram tudo em função do crescimento da própria Siderúrgica. Quanto mais ela aumentava, mais empregado vinha, mais a população aumentava, mais casas iam sendo feitas e o bairro com isso crescimento. Antigamente tinha muito morro, né, e hoje se você for olhar, grande parte daqueles morros dos bairros virou um bairro bem habitado hoje.

 

P/1 – A relação de vocês nessa época era mais com o bairro do que com a cidade, é isso?

 

R – É, porque na verdade não tinha muito aquele negócio de ir no centro da cidade, né, era coisa mesmo muito bairrista, porque o supermercado, essas coisas não existiam nos bairros, então era o momento que a gente ia na cidade. Não tinha como hoje, por exemplo, você está no bairro, você troca de roupa, “Vou no centro da cidade”, porque hoje tem shopping, tem cinema, tem várias opções dentro do centro da cidade. Antigamente não, antigamente você ia para cidade para comprar uma roupa ou para fazer compras de supermercado que era o único lugar que tinha essas coisas. Hoje já é totalmente diferente em função das mudanças que ocorreram no mundo inteiro, qualquer bairro hoje tem um supermercado, tem farmácia, tem tudo isso. Então nós éramos muito bairro, era muito difícil a gente ir na cidade, só ia na cidade quando tinha que ir ao médico ou tinha que comprar alguma coisa, era coisas do nosso tempo lá atrás mesmo quando criança, né?

 

P/1 – Bom, nosso tempo lá atrás também...

 

[interrupção]

 

P/1 – Bom, nós passeamos um pouco pela sua infância e eu queria que você começasse a nos dizer como era a escola na sua infância e, a partir daí, como se desenvolveram os seus estudos?

 

R – Muito bom. Eu comecei a estudar no parque infantil que é do próprio Grupo, né? Logo depois nós tínhamos uma escola chamada Escola Santa Helena, também do Grupo Votorantim, e que os professores eram pagos pela Siderúrgica Barra Mansa. Diga-se de passagem, na época, uma das melhores empresas, escolas da cidade porque os profissionais, os professores tinham um bom salário, eram professores de alta qualidade, né, na época em que nós fazíamos o primário. Então nós começávamos a estudar no parque infantil com uma estrutura boa, que era a estrutura da Siderúrgica Barra Mansa, depois, passávamos a estudar na escola, fazendo o primário dentro de uma escola que também era da Siderúrgica Barra Mansa. Então nós tínhamos refeição, nós tínhamos horários tudo pré-determinados em função da Siderúrgica, né? Qual é o cumprimento, qual é a diretriz de trabalho da empresa? Era a mesma diretriz de trabalho dos professores, ou seja, além de estudar, nos orientavam da forma que a gente tem: acordar cedo, cumprir horário, ter escola, saber o horário de ir para escola, então era determinante. Não tinha aquele negócio de ou faltar à aula, ou até mesmo deixar de estudar uma matéria ou alguma coisa nesse sentido, por quê? Porque o ônibus também da Siderúrgica Barra Mansa, que tem até na foto da história, o ônibus era também da Siderúrgica Barra Mansa, então, o motorista, ele passava na porta da nossa casa, nos levava até o colégio, e depois ele buscava a gente e levava para casa, então não tinha como a gente não ir na aula. Então era uma forma da gente se educar, de estar estudando. Então a minha história como estudante foi: começando dentro da Votorantim, dentro da Siderúrgica Barra Mansa, que é a escola, depois passando para uma outra escola mais estruturada. E na época falava assim na cidade: que aqueles que estudavam na Siderúrgica Barra Mansa, na Escola Santa Helena tinham uma melhor estrutura para galgar alguma coisa em termos de colégio particular ou um colégio estadual ou municipal que pudesse dar um suporte legal. Então a estrutura da escola era muito boa e isso ajudava a gente quando a gente passava para uma outra, uma série mais adiante. 

 

P/1 – A Escola Santa Helena ia até que série?

 

R – Quarta série ou quinta, não me lembro agora.

 

P/1 – Do primário?

 

R – Do primário. 

 

P/1 – Seria quarta ou quinta série do fundamental hoje?

 

R – Isso, isso. Depois nós saímos da Escola Santa Helena, a gente ia para o chamado básico que depois era o ginasial, né?

 

P/1 – Sim. E aí o ginásio?

 

R – E o ginásio. Aí eu estudei no Colégio Municipal Washington Luiz que é do lado, no Bairro Saudade, do lado também da Siderúrgica, porque a Siderúrgica Barra Mansa está em um ponto estratégico, né, apesar de ser em um bairro. Mas estudei na Escola Santa Helena... No Municipal Washington Luiz. Logo em seguida, fui para o Pereira Inácio, que foi dado o nome na época em função também dessa história. Pereira Inácio, depois eu fui para o Barbará. Depois eu fiz o meu primeiro curso técnico no colégio Verbo Divino. E em seguida, já trabalhando na Votorantim, já trabalhava na época, nos colégios anteriores que eu mencionei já estava trabalhando na Siderúrgica e depois eu fui fazer o curso técnico pago pela Siderúrgica Barra Mansa, que foi o curso técnico de Segurança do Trabalho, em função na época da deficiência de profissional dessa área. Então a Siderúrgica Barra Mansa convidou dez funcionários, desses dez um sou eu, que participei desse treinamento, desse curso técnico, até então, terminando o curso, eu já fui para área de Segurança do Trabalho onde eu estou até hoje. 

 

P/1 – Dessa época de escola, tem alguma lembrança mais marcante?

 

R – Quando a gente, assim, alguma coisa marcante de escola: tem um amigo que o pai dele deixava ele ir de carro, a gente ia. Era uma Rural Willys, né, e a gente matava a aula para sair com as meninas na Rural. Até o dia que nós batemos com a Rural, para variar, de novo mais uma batida, e o pai dele tomou a Rural da gente, nós nunca mais fizemos isso, né? E depois, quando eu estudei no Pereira Inácio, meu pai já deixava eu andar, já dirigia o carro, já tinha carteira de motorista, até então ele não deixava. Ele me deixou ir de carro, e uma época um colega meu pegou e falou comigo assim: “Poxa, já que você está vindo de carro” – que naquela época era muito difícil ir de carro, já tinha uma visão diferente, né, quem tinha carro –, ele falou: “pô, arruma duas namoradas pra gente”. Eu falei: “Pô, arrumar uma já é difícil, arrumar duas!”. Ele pegou e falou: “Não, arruma duas namoradas pra gente, você tem o carro é fácil”. Aí eu estava conversando com as meninas no recreio na época, aí ele pegou e falou: “Chama essas duas meninas que estão conversando com você”. Eu falei: “Não, essas duas não, são minhas amigas”. Só que naquela época não era muito mal, não existia igual hoje, infelizmente ou felizmente, o negócio mudou muito, mas naquela época eu peguei, tinha duas meninas, uma delas inclusive que eu tinha interesse de ficar com ela, eu peguei e chamei as duas para sair. Aí para mim não falar que ele ia junto, eu peguei e escondi ele dentro do carro, o Fusquinha tinha aquela parte de trás do banco, ele ficou escondido lá, ele era pequeno também, aí nós saímos. Só que, na hora que nós saímos, ele começou a gritar: “Para, para, para!”. Que a menina que eu arrumei para sair com ele era a irmã dele e eu não sabia! (RISOS) Ele quase brigou comigo, estudamos juntos e ele ficou quase que o final do ano letivo todinho com raiva de mim e eu não sabia que era a irmã dele. 

 

P/1 – (RISOS) Bom, curso técnico que o senhor fez foi qual?

 

R – Técnico em Informática.

 

P/1 – O primeiro?

 

R – Isso. 

 

P/1 – Bom, e aí o senhor disse que entrou para Siderúrgica...

 

R – Eu entrei em dezembro de 1977. Eu estudava no Municipal Washington Luiz que era próximo, tinha uma casa a Siderúrgica e o colégio. 

 

P/1 – Tá. 

 

R – Eram bem próximos. 

 

P/1 – Essa escolha por esse curso técnico já tinha esse planejamento de uma carreira, já existia uma tendência?

 

R – Na época, hoje por exemplo o foco é meio ambiente, um exemplo. Na época, quem era desenhista, ou quem era profissional da informática quando começou, na época quando eu fiz era o TK 85 que era, na verdade, um teclado, um gravador que a gente levava a fita e um visor, né? Era até difícil que, hoje ainda é muito caro o computador, mas na época era muito difícil porque eram poucos, são poucas as pessoas que tinham um gravador. Então aqueles que tinham um gravador tinham mais possibilidades de estudar porque levavam o gravador de casa, e eu na época não tinha essa condição, então eu ficava estudando depois do horário. Eu chegava em casa, apesar do colégio ser perto, eu ficava em casa, eu ficava no colégio depois da aula, ficava até, o colégio terminava nove e meia, dez horas, eu ficava, nós ficávamos eu e mais uns dois colegas na época até tarde, meia noite, uma hora da manhã estudando para poder recuperar o tempo e aproveitar até mais o computador, vamos dizer assim. Então naquela época o top de linha era informáticos...

 

P/1 – Que estava nascendo, né?

 

R – Estava começando, quando eu comento alguma coisa com o pessoal, TK 85, o pessoal nem sabe o que que é isso. O pessoal pergunta: “Mas como que um gravador pode funcionar?”. E falo assim: “É um multimídia antigo, hoje você tem com grande facilidade, antigamente era um gravador”.

 

P/1 – Houve alguma influência na sua escolha, assim, externa na sua escolha profissional?

 

R – Não. Não diretamente. Até porque, na época, na Siderúrgica Barra Mansa não existia ainda o computador. Mas o que mais influenciou de eu estar fazendo esse curso? É que não tinha outros cursos no mercado na época, não tinha o Senai como tem hoje, tinha o curso Cafop que era uma entidade dentro da cidade no qual o meu pai foi diretor, um dos fundadores, diretor e até hoje continua como um dos diretores, mas o Cafop não funciona hoje por falta de apoio financeiro, infelizmente. Mas na época tinha cursos ligados à indústria que era um Senai hoje, né, o Senai se adequa a essa função. Então a única coisa diferente era a Informática. Então eu estava querendo fazer a Informática com o objetivo de a gente já estar pensando que um dia a Siderúrgica Barra Mansa fosse se especializar ou então, não sei, se automatizar em função do computador que era uma coisa que estava chegando. Então eu falei: “Quando o computador chegar, eu já estou preparado para talvez ser um dos profissionais dessa área”. Só que eu acabei terminando curso, não aproveitei a profissão.

 

P/1 – Então, já que você não aproveitou a profissão vamos lá fazer uma outra viagenzinha para aquele primeiro dia que você entrou como profissional...

 

R – Na Siderúrgica.

 

P/1 – Na Siderúrgica Barra Mansa, quantos anos você tinha?

 

R – Eu tinha catorze para quinze anos. Eu morava muito próximo, morava em um prédinho em frente à Siderúrgica. E nesse dia a minha mãe falou: “Olha...”. O meu pai já tinha me avisado: “Olha, você vai trabalhar naquele local ali”, que do prédio onde eu morava dava para ver onde eu estava trabalhando. E eu falei com a minha mãe: “Então a senhora fica aí na janela que eu vou ficar dando tchau para senhora”. Então o que aconteceu? Eu cheguei no setor, o pessoal me apresentou a área e eu toda hora saía do setor para ir na rua para ir dar tchau para minha mãe, e aí o pessoal falou: “Pô, por que tanto você vai lá fora? Que tanto que você vai lá na rua?”. Eu falei: “Eu tô dando tchau pra minha mãe!”. Então quer dizer, coisa de criança vamos dizer, adolescência ainda. Então no primeiro dia foi legal porque o pessoal começou a me mostrar o serviço e começaram a mexer comigo porque eu entrei no dia 20 de dezembro, então a poucos dias do Natal, e todo mundo começou a brincar que eu ia ser o privilegiado porque pô, eu mal começo a trabalhar a já vou folgar um dia, quer dizer em quatro dias de serviço eu já vou ter uma folga. Então eles falaram assim: “Pô, nós entramos aqui e quase um mês não tivemos uma folga, você entrou aqui, daqui quatro dias você vai ter uma folga!”. Então o pessoal nesse primeiro dia acabou brincando bastante comigo, eu acabei me identificando com as pessoas apesar de ter sido o primeiro dia, eu até hoje tenho muita facilidade em me adaptar rápido às coisas, mas eu vi que o pessoal brincou muito comigo, o pessoal mandava eu buscar uma coisa que não tinha nada a ver, falava um nome de ferramenta, falava: “Pega isso assim pra mim”, pedia para eu pegar um martelo de borracha para bater em um rolamento. Aí eu fui lá, falei para o pessoal da ferramentaria: “Me empresta um martelo de borracha pra bater num rolamento”. E o cara falou: “Volta lá que não tem essa ferramenta, você não está sabendo falar”. Eu voltava lá e o cara: “Não rapaz, pede um martelo”. E isso eu ia e voltava, eu ia e voltava e falava: “Poxa, será que eu tô falando a coisa certa, não é possível que daqui ali eu tô esquecendo o nome do negócio!”. Então essas brincadeiras que o pessoal fazia comigo no segundo dia, apesar dessa sequência, no segundo dia pediram para fazer café. Eu ajudava a minha mãe, na época a passar roupa, a passar pano no chão, encerar, passar enceradeira, mas café nunca tinha me ensinado. Aí o cara pegou e falou: “Vou te ensinar: você coloca tantas canequinhas”, que naquela época não era fazer café, era fazer caldeirão de café porque era muita gente, na época quando eu entrei, eram trezentos e quarenta e cinco na área que eu, não conhecia todo mundo ainda. Aí pediram para eu fazer o café e aí falaram: “A medida do café é essa, a medida de água é essa”. Eu falei: “Tá bom!”. Peguei e fui fazer o café, um bule grande dessa largura assim, bem alto. Fiz o café: “Olha, na medida que vocês me pediram a quantidade de açúcar, a quantidade de água, a quantidade de pó, tá tudo aqui, vê se o café ficou gostoso?” Aí o pessoal começou a experimentar e o pessoal começou a sentir um gosto esquisito, eu falei: “Caramba, será que eu fiz o café errado?”. Aí o chefe, né, na época falou: “Paulo Henrique, o que você fez de errado?”. E todo mundo começou, como eu era novo, o pessoal começou: “Pô, vamos botar pilha pra sacanear ele, é o segundo dia dele!”. Sei que todo mundo começou a sacanear e depois falou: “Alguma coisa você fez de errado”. Falei: “Não, a única coisa que eu fiz...”. Ele falou: “Conta pra mim como você fez o café”. Eu falei: “Ó, a primeira coisa: lavei o coador”. Falou: “Com o quê?”. Falei: “Não tem o sabão de coco? Eu peguei o sabão de coco e esfreguei”. Então o café ficou com sabor, com gosto do sabão de coco. Então o pessoal no segundo dia já começou a tirar onda comigo porque eu fiz o café errado. Então foi gostoso nos dois primeiros dias, até hoje está gostoso trabalhar lá, mas foi legal, assim, a minha trajetória lá dentro porque eu me dei bem, eu me identifiquei com o pessoal, mas essas coisinhas foram as coisinhas que eu não sabia fazer no dia a dia, então eu fui me adaptando lá. 

 

P/1 – A unidade que você trabalhava no início qual era?

 

R – Era a oficina mecânica. 

 

P/1 –  E você trabalhava com?

 

R – Eu fazia, eu entrei como, na época falava-se office boy ou aprendiz. O que que eu fazia? A minha atividade era fazer limpeza de peça, que, na época, mecânica era muita graxa, então fazia lavagem de peça, naquela época fazia com gasolina, fazia lavagem de peça. Eu fazia controle de máquinas, o que que a máquina está fazendo, que tipo de serviço ela executa, né, e qual o controle, quantas horas demorou para fazer aquela peça. Era o controle interno que a gente tinha, como se fosse um atendimento, né, daquela ordem de serviço. Depois eu comecei a aprender a mexer no equipamento, eu fui, me adaptei ao torneiro mecânico que era uma máquina. Depois eu fui ajustador. Logo em seguida eu trabalhei também como operador de empilhadeira. Naquela época não tinha operador de empilhadeira dentro da usina, só tinha uma empilhadeira e eu era o único que sabia dirigir, apesar de menor, mas eu era o único que sabia dirigir aquela máquina. Aquela máquina veio de São Paulo e ninguém sabia dirigir, aí eu comentei com o pessoal que eu poderia estar aprendendo, queria aprender para mostrar que eu poderia me desenvolver ali dentro. Então eu comecei a dirigir empilhadeira. Logo depois eu passei para o corpo de administração, acharam que eu tinha uma habilidade legal para trabalhar no escritório, eu fiquei no escritório da mecânica. Essa era a minha atividade lá dentro. 

 

P/1 – Naquele momento?

 

R – Naquele momento.

 

P/1 – Talvez seja... O senhor viveu na volta da Votorantim, vizinho da Votorantim e com o contato indireto com a Siderúrgica desde que nasceu?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Mas existia uma imagem que o senhor tinha da Siderúrgica antes de entrar lá?

 

R – Tinha a vontade de entrar lá porque eu só entrava lá para buscar a bola e eu via caminhão, eu via aquele bruta, material, né, o processo, né, a matéria-prima. Eu via aquelas pontes rolantes, eu via os galpões. Então quando eu entrava lá às vezes os guardas me pegavam porque eu pegava a bola, botava no braço e ficava admirado com aquilo tudo. Porque se eu fosse lá, pulasse, pegasse a bola e saísse correndo eu não seria pego até mesmo pela diferença de um guarda ser uma pessoa de idade e eu ser um jovem que a velocidade era muito maior. Então aquilo acabou aguçando um pouco mais a minha trajetória. Então eu fiquei com vontade realmente, a gente tinha vontade de entrar na Siderúrgica, tinha colegas meus que falavam: “Pô, deixa eu buscar a bola hoje”, justamente para ver como era lá dentro. A gente só olhava quando a gente botava o pézinho assim para olhar como é que era, mas o guarda não deixava a gente nem olhar às vezes. O guarda tinha época que a gente tentava olhar, tinha caminhão parado do lado de fora, a gente subia no caminhão para olhar do outro lado do muro para ver se não tinha guarda perto para gente poder botar pézinho, para gente olhar lá, né? Então isso, trabalhando em volta da Votorantim acabou mexendo um pouco com o brio da gente. Todo mundo que tinha em volta, todos os colegas, todas as amizades que a gente tinha ali, todo mundo só falava em trabalhar: “Quando eu crescer quero trabalhar na Siderúrgica Barra Mansa!”. Porque era o nosso dia a dia ali, era a nossa volta. Todos nós que morávamos ali, tipo assim, de cem por cento da população noventa e nove vírgula nove eram pessoas que trabalhavam na Siderúrgica Barra Mansa. E a maioria delas via o pai trabalhando, então todo mundo queria trabalhar ali onde o pai trabalhava, seria o nosso exemplo, seria o nosso pai trabalhando.

 

P/1 – Que impressão você teve nos primeiros dias depois que você passou a trabalhar lá?

 

R – Era a sensação de que eu tinha conquistado um passo da minha vida. Porque a gente, quando criança, a gente tinha muitas vontades, umas das vontades que eu tinha, que eu sempre tive quando eu estava andando de carro com o meu pai na estrada, eu falava assim: “Pai, quando eu crescer eu não quero ver morro, eu vou pegar um morro, vou comprar um trator e vou tirar esse morro tudinho, isso aqui vai ser tudo reto”, né, coisa de criança! E quando eu entrei para trabalhar na Siderúrgica eu me senti realizado porque era aquilo que eu queria, porque eu estava do lado de fora, né, eu sempre estive do lado de fora e sempre via as pessoas trabalhando, via os pais dos meus amigos, os meus pais sempre indo trabalhar, botando a botina para ir trabalhar, todo mundo botando a roupinha. E a gente falava assim, tinha dias que às vezes a gente ia andando junto com os pais até chegar à portaria e voltava, só para ter a sensação de que estava indo para Siderúrgica. Coisa de criança mas era uma coisa gostosa.

 

P/1 – Você parou em um determinado momento do seu desenvolvimento profissional. Nós estávamos em um primeiro momento onde você fez o curso técnico e esse curso técnico não foi o curso que foi utilizado como profissão dentro da empresa. Como é que se desenvolveu a sua profissão, porque até hoje você trabalha na empresa.

 

R – Até hoje eu trabalho.

 

P/1 – Então como é que desenvolveu a sua profissão dentro da empresa até chegar um segundo curso técnico?

 

R – Sim. Aí o que aconteceu? Como eu tinha feito esse curso, outras pessoas começaram a fazer esse curso, e gradativamente as coisas foram – computador, se você comprar um hoje, ano que vem você já tem que comprar um outro, é diferente de repor uma peça, você pode até repor mas é totalmente diferente, as capacidades são diferentes. O que não foi diferente na época em que eu fiz o curso, eu fiz o curso com um tipo de equipamento, no ano seguinte quando chegavam os computadores eram coisas extraordinárias para gente. Então eu teria que estar fazendo um outro curso para eu me aprimorar ao outro equipamento que estava chegando, né, era totalmente diferente. Então eu não consegui acompanhar esse processo de desenvolvimento. O que que eu fiz? Eu comecei a fazer cursos ligados à minha atividade dentro da empresa. Como eu era mecânico, eu comecei a fazer curso de torneiro. Eu fiz curso de almoxarife. Eu fiz curso de ajustador. Eu fiz curso de controlador de matérias-primas. Eu fiz curso de soldador. Eu fiz curso de maçariqueiro. Então todas as atividades possíveis e imagináveis que dentro da empresa eu poderia estar crescendo, porque para gente profissão a gente sempre tem, começa ajudando alguém e sempre querendo chegar ao mesmo posto de alguém. Então eu acabei não dando uma sequência com relação à parte de informática, procurei me ligar mais ao foco da empresa porque eu queria crescer dentro da empresa. E o que que eu fiz? Eu comecei a me aprimorar dentro das atividades que a empresa tinha no mercado, ou dentro da empresa, para que eu pudesse crescer dentro da empresa naquelas profissões. E aí, até surgir a oportunidade que a Siderúrgica Barra Mansa deu, em função até mesmo de uma necessidade primeiro dela de completar o quadro profissional que na época era muito escasso. Então foi onde eu fiz um segundo curso de profissionalização que é o de técnico de segurança.

 

P/1 – E hoje o senhor dá palestras sobre Segurança do Trabalho?

 

R – Sim.

 

P/1 – Foi essa área na qual o senhor se desenvolveu... 

 

R – Eu me identifiquei. 

 

P/1 – Há quanto tempo o senhor trabalha nessa área?

 

R – Desde noventas e dois. 1992, fevereiro, dia 11 de fevereiro eu fui para segurança do trabalho, transferido, de lá estou até hoje. 

 

P/1 – É possível perceber o desenvolvimento ao longo desses quinze anos?

 

R – Muito, muito. Até porque não só o desenvolvimento interno como externo, ou seja, no mundo inteiro fala-se em vidas humanas, e a minha área está totalmente ligada a preservar a vida humana. Então naquela ocasião, né, não tinha-se muita preocupação com relação à segurança das pessoas. Tinha uma preocupação de não acontecer os acidentes, mas não tinha projetos, não tinha trabalho, não tinha atividades relacionadas, campanhas para se buscar o foco de comportamento, que segurança é simplesmente comportamento. Não necessariamente eu preciso ser treinado para ser uma pessoa com segurança, automaticamente até dentro da minha casa eu preciso ser uma pessoa relacionada à segurança. Eu vou cortar um tomate, se bobear eu corto a mão, isso é uma segurança. Então, na época não tinha tanto trabalho focado nisso. Então o nosso trabalho foi muito pesado, o nosso trabalho é muito árduo até hoje. A atividade de técnico de segurança, eu costumo brincar às vezes nas palestras que eu faço, a gente faz uma reunião que a gente chama de integração, segunda, quarta e sexta dentro da Siderúrgica Barra Mansa, onde nenhum funcionário entra sem ter o conhecimento de segurança. E dentro desses tópicos que a gente fala tem algumas coisas que eu relaciono que se eu tivesse autonomia ou autoridade para bater em alguém eu estaria batendo em muita gente dentro da Siderúrgica, por quê? Por causa de comportamento. Quando a gente está em casa, eu dou o seguinte exemplo, eu faço uma comparação: eu acabo de dar o banho no meu filho em casa, a primeira coisa que eu peço dele é: “Não fique com o pé descalço, você acabou de tomar banho, põe o chinelo!”. Se ele não coloca eu vou lá, eu tenho autoridade para bater nele, ou então intimidá-lo de alguma forma. Já dentro da Siderúrgica, normalmente quando eu estou dando a palestra eu pego o cara mais forte, o cara mais robusto, peço ele para levantar e falo assim: “Já pensou se ele estivesse sem o protetor e eu tivesse que bater nele igual eu bato no meu filho?”. Então é comportamento. Então nós temos trabalhado nisso desde 1992. De 1992 a 1998 não se tinha muita consciência, apesar desse trabalho ser feito desde 1992, que desde quando eu entrei foi quando começou isso. Mas nós não tínhamos assim a eficiência, até mesmo da própria empresa, um compromisso total. Tinha-se um compromisso: eu fazia a programação de um treinamento, aí convocava vinte pessoas, aparecia cinco, seis, não deixava de dar o treinamento, fazia o treinamento porque eu achava que aqueles seis poderiam ser os meus multiplicadores nas áreas. Então o meu trabalho hoje é focado em cima disso: comportamento. 

 

P/1 – O senhor falou em filho, o senhor é casado hoje?

 

R – Sim, casado, segundo casamento. Tenho uma filha de vinte e um, uma neta de quatro, uma filha de oito e uma filha de dois anos. Mariana, Paula e Giovana.

 

P/1 – E...

 

R – E a esposa Giovana... A esposa Gislaine...

 

P/1 – A segunda esposa?

 

R – Senão dá briga, né, não falar dela! 

 

P/1 – É. (RISOS) E alguém da sua família trabalhou ou trabalha na Votorantim?

 

R – Sim. A Votorantim, hoje eu tenho o meu irmão que não é propriamente dito Votorantim, mas é um terceiro. Tem o Guilherme que é um primo que trabalha lá conosco na manutenção elétrica. Somos hoje as duas pessoas da família que trabalhamos no Grupo. Mas nós temos, tivemos, né, dos meus pais, os meus tios, cinco deles, inclusive o meu pai, foram supervisores, encarregados ou chefes dentro da Votorantim. E outros primos também que já passaram por lá. Vou dizer aí que, de dez ou doze primos, com certeza oito já trabalharam conosco lá na Siderúrgica. 

 

[Pausa]

 

P/3 – Viu, a questão do teatro! Então que tipo de atividade que eles fazem para sensibilizar e mudar o comportamento das pessoas. Então essa parte de teatro, o que sair.

 

P/2 – Nas palestras?

 

R – Não, nós fazemos a Semana Interna de Prevenção de Acidentes.

 

P/2 – A Sipat?

 

R – É, a Sipat.

 

P/3 – É, você podia explicar...

 

P/1 – São campanhas, né, são atividades.

 

R – São atividades e eu fiz dois teatros, foi nós mesmo profissionais lá internos que fizemos uma, um colega nosso... 

 

[Pausa]

 

P/1 – Você trabalha na parte de segurança de trabalho. Eu queria, que se pudesse, nos desse um histórico até porque que surgiu esse setor dentro da empresa.

 

R – Esse setor, ele na verdade é uma parte da legislação, as empresas têm que cumprir, para uma determinada quantidade de funcionários deve haver essa quantidade de profissionais na área de segurança. Na Siderúrgica Barra Mansa nós tínhamos um histórico muito ruim em números de acidentes. Até 1998, um dado bem superficial, nós tínhamos uma média de cento e sessenta e  oito acidentes por ano. Nesses acidentes estariam inclusos aí: queimadura, cortes, perfurações, lesões com perdas substanciais de mão, de pé. E com isso o que que a Siderúrgica resolveu? Fazer campanhas. Então nós começamos a trabalhar, nós fizemos todo um levantamento, um histórico dos acidentes como eles ocorreram, onde eles mais ocorriam, quais os horários em que mais ocorriam acidentes, qual o mês em que mais ocorriam acidentes. Nós chegamos à conclusão de alguns fatos, nos deram por escrito, baseados em dados, que nós tínhamos um número de acidentes muito grande na época de final de ano e carnaval, talvez em função dessa época ser uma época, talvez não chegamos nesse ponto de descartar essa situação, mas como é muita época festiva, a preocupação de estar sempre olhando o lado da bebida, falta de sono que às vezes com uma festa não se dorme direito. Mas, na verdade, nós conseguimos um trabalho muito forte em cima das situações de acidentes. Então nós tivemos acidentes lá em que nós começamos a fazer campanha: Campanha das Mãos, Campanha de Comportamento, né, palestras, começamos a fazer grupos de teatro, começamos a fazer trabalhos, campanhas trazendo pessoas de fora, nós trouxemos o pessoal de uma empresa que fez um teatro. Logo no ano seguinte nós resolvemos fazer um teatro interno com os próprios funcionários para poder buscar isso nas pessoas, quer dizer, fazer com que as pessoas vissem nós profissionais de segurança não só [como] aquele profissional que impusesse alguma coisa, mas mostrasse para ele a importância deles terem um comportamento dentro da empresa que não ficasse na imagem deles que nós seríamos ou somos os guardiões deles, mas na verdade que eles tivessem esse comportamento. Então nós fizemos campanha com sombra, o pessoal nos refeitórios, tem a Sipat, de repente algumas campanhas que nós fizemos internas com faixas, cartazes, treinamentos.

 

P/1 – Fala um pouquinho, algumas como você possa citar como exemplo com um pouco mais de detalhe, Sipat talvez que seja e alguma...

 

R – Tá. O Sipat é a Semana Interna de Prevenção de Acidente. Durante a semana de segunda à sexta é feita programação baseada em assuntos ligados à segurança: trabalho com a mão, pessoas que já se acidentaram em empresas, trouxemos profissionais de outras unidades ou de outras empresas que pudessem nos dar esse testemunho. Já trouxemos funcionários e ex-funcionários que já foram, hoje são pessoas, vamos dizer assim, lesadas ou que sofreram acidente em alguma empresa, até mesmo para criar um impacto nas pessoas, para ele contar: “Olha, eu não tive cuidado com a segurança, eu me acidentei e hoje eu vejo que faz falta uma pessoa chegar para mim e falar para mim o que eu tenho que fazer”. E, na verdade, ele levava isso no pessoal, incorporava isso no pessoal e mostrava até mesmo que muitas das vezes ele era relutante ao passo de não estar colaborando com a segurança e isso aconteceu com ele, quer dizer, aconteceu uma primeira vez, aconteceu uma segunda. Levamos pessoas que faziam um testemunho que muitas das vezes ele teve um risco de acidente próximo a ele por não ter um comportamento adequado. E pensar que pessoas do foco, né, a segurança do trabalho, eram pessoas que não eram bem quistas na empresa em função da atividade que a gente executa. Na verdade, é o quê? Ninguém gosta de ser chamado a atenção. Então o comportamento é muito difícil, muitas das vezes as pessoas não aceitam um tipo de comportamento. Como que nós tentamos mudar isso? Como que nós tentamos fazer com que as pessoas mudassem? Através de teatro, o teatro nosso ele é totalmente voltado a comportamento, mostrava um trabalho, um cara, uma pessoa fazendo um trabalho, um determinado trabalho, uma outra pessoa sendo aquela que queria levar ele sempre para o lado ruim: “Pô cara, você tá fazendo isso aí, pô que troço feio esse negócio aí! Não tem coisa bonita pra você usar?”, “Capacete, que isso!”. Pegava o capacete e jogava fora, quer dizer, agregava alguma coisa daquela pessoa que não queria colaborar com a segurança e de repente vinha outro e falava com ele: “Ô, que isso rapaz, você está trabalhando sem o óculos, não faz isso não!”. Quer dizer, fazia um teatro voltado para o comportamento daquelas pessoas ali dentro. Então nós fazíamos, nós fizemos várias vezes levantamentos das atividades dos números de acidentes, das formas que os acidentes aconteceram e criávamos aquele acidente dentro daquilo que foi apurado, porque a gente apura todo acidente. Então nós apuramos o quê? Que o acidente aconteceu por causa de X, então nós pegávamos e fazíamos um teatro ligado àquele X para isso levar para as pessoas, para eles verem no modo brincalhão o que que leva uma pessoa sofrer um acidente, então a Sipat serve para isso. Na Sipat nós levamos pessoas alcoólatras, programa de Aids, então alguns programas que são obrigatórios até dentro da empresa ou então até mesmo por lei. E hoje a gente foca muito também a parte de meio ambiente, que hoje a própria Siderúrgica Barra Mansa uniu a área de segurança ela é gerenciada por uma pessoa que é segurança e meio ambiente. Se os dois não andarem juntos, alinhados nós temos uma defasagem muito grande que é o que acontecia no passado, nós tínhamos a produção muito alta e a segurança muito baixa. Nós fizemos um trabalho em que hoje eu posso dizer que, se nós não tivermos no mesmo topo, nós estamos muito, mas muito perto disso. Eu diria até que nós já estamos próximos e até alavancando mais porque hoje nós temos uma determinação dentro da empresa, uma diretriz de que ninguém faz o serviço se não tiver totalmente seguro daquilo que está fazendo. Obviamente, nem todo mundo tem essa percepção ainda, talvez até pelo medo de perder o emprego, porque fala: “Olha, eu não posso subir nessa escada porque ela não está amarrada!”. O outro fala: “Bicho, se você não subir, você pode perder o emprego”. E, na verdade, isso não está incorporado na pessoa, no eu de cada um, mas está incorporado dentro da diretriz da empresa.

 

P/1 – Dentro dessas... Você citou algumas campanhas, você tem essa semana aí, provavelmente vocês tem outras campanhas além dessas, né?

 

R – Sim, nós fazemos, nós temos o cuidado de não deixar entrar dentro da Siderúrgica hoje qualquer pessoa sem que ela passe por um programa de segurança que a gente chama de Integração, onde nós falamos todos os riscos da empresa. O nosso horário, hoje, ele está alinhado no horário de nove até às onze, onze e meia, depende até da fala, ou então algum filme, algum slide que a gente coloca. Mas a gente foca muito hoje quais são os principais riscos dentro da Siderúrgica Barra Mansa e quais são os riscos que mais podem levar uma pessoa a acidente. Então ele já sai daquela sala ali totalmente consciente de que depende dele, que é o foco maior que a gente faz, a gente mostra todos os riscos e depois, antes de terminar essa palestra, a gente fala: “Olha, a responsabilidade de fazer segurança não é minha que estou falando para você, mas sim sua porque você é o maior responsável pela sua própria vida. Eu vou estar te corrigindo, mas não é essa a minha função, a minha função é estar te preparando para quando você entrar na fábrica você já ter todos os riscos alinhados e bem focados dentro da tua mente para que você não corra risco de acidente, nós não queremos aqui dentro da Siderúrgica Barra Mansa heróis, queremos pessoas comprometidas com a segurança e principalmente com a sua própria vida”. A Siderúrgica Barra Mansa hoje tem um foco principal que é a vida pessoal de cada um que entra lá, então ninguém entra na Siderúrgica Barra Mansa sem antes passar pelo aval da segurança. O que que é o aval? É a integração que é feita segunda, quarta e sexta ou alguma deles que podem surgir no decorrer da semana em função de alguma necessidade: “Olha, quebrou uma peça e eu estou trazendo uma pessoa de São Paulo”, essa pessoa pode ser a pessoa mais profissional possível na função dele, mas, dentro da Votorantim, dentro da Siderúrgica Barra Mansa, ele não entra sem fazer a Integração, porque ele não conhece o nosso risco, ele conhece a profissão dele, não o nosso risco. Então a gente hoje foca muito essa situação. 

 

P/1 – Solidez, empreendedorismo, responsabilidade, ética e união são valores do Grupo Votorantim. 

 

R – Sim. 

 

P/1 – Você identifica esses valores no seu dia a dia?

 

R – Com certeza. Cada vez mais nós temos solidez naquilo que a gente está fazendo. A gente está tendo um comprometimento, hoje nós não queremos pessoas que tenham vontade apenas de fazer, “fazer porque eu tenho que fazer, é uma obrigação minha, é uma atividade minha fazer aquilo”. Não. Em primeiro momento, a gente quer o comprometimento, “eu estou fazendo aquilo porque é uma atividade, é uma função e é uma obrigação minha, então eu devo estar comprometido com aquilo que eu estou fazendo. Não fazer aquilo porque estão me pagando”. Então todo esse trabalho e esse empreendimento relacionado ao Grupo, à Siderúrgica Barra Mansa principalmente. Nós  chegamos, igual aconteceu, na semana passada eu cheguei a pegar a chave do carro do diretor e pegar ele e colocar o carro dele em outro local para poder tirar o carro dele de uma situação em que nós estávamos, hoje, nessa semana, uma obra e que o carro, existe um estacionamento dentro da empresa, eu fui lá e peguei, no passado a gente podia falar assim: “Olha, não é meu esse carro, é do diretor, ele tem dinheiro, ele pode comprar outro”. Na verdade não, na verdade nós hoje vamos lá, nos colocamos à disposição das pessoas, quando ela está fazendo alguma coisa errada, a gente chama essa pessoa e convida ela, bate um papo com ela e, logicamente, como eu disse aqui, toda a vez que a gente vai falar com alguém, como a gente não gosta assim de ser chamado a atenção, muitas das vezes a gente acaba sendo o errado, que às vezes chega lá na frente o funcionário ainda fala: “O Paulo Henrique foi falar comigo ali, ele foi grosso, ele foi ignorante”. Na verdade eu coloquei para ele a situação em que ele estava, como a gente sempre tem a preocupação e o cuidado de não agredir as pessoas, que não é isso que a gente quer e não é isso que a gente faz, é que na verdade a resposta imediata dessa pessoa é às vezes retrucar aquilo que a gente está falando. Então isso é uma coisa normal dentro da nossa profissão, dentro do nosso dia a dia, tem que ter um pouquinho de psicologia aí até mesmo para falar com as pessoas porque a gente nunca sabe como que a pessoa está pessoalmente, ou então na família, ou no dia a dia. Então a gente tem que ter um cuidado muito grande. Isso é trabalhado, nós somos trabalhados para ter esse cuidado ao reportar alguém alguma coisa. 

 

P/1 – Você citou uma série de ações e de intenções dentro da empresa. Você tem conhecimento de alguma ação da Siderúrgica Barra Mansa junto à comunidade?

 

R – Sim. Nós fazemos hoje alguns trabalhos comunitários dentro da escola, por exemplo, no parque infantil nós convidamos as mães, né, fazemos palestras de segurança para as crianças e para as mães e muitas das vezes nós fazemos palestras, hoje nós estamos renovando o nosso teatro lá, nós fazemos palestras para os familiares, até mesmo dentro desse programa de Semana Interna de Prevenção, é muito importante, a gente chama a família para participar até mesmo para elas terem o conhecimento, passamos filmes, mostramos o próprio funcionário. A própria empresa tem contratado profissionais da área para fazer uma avaliação da nossa atividade, o que que a gente pode melhorar. Muito investimento está sendo feito, muito. De uns três quatro anos para cá nós temos recebido muito respaldo da diretoria para trabalhar forte em cima da segurança, é uma das premissas dentro da Votorantim hoje: não se trabalha se tiver algum risco e nós temos total autonomia de parar qualquer atividade se essa tiver algum risco ou levar a algum risco qualquer funcionário. Essa semana, por exemplo, eu parei quatro vezes quatro atividades para esse tipo de ação, ou seja, talvez não fosse necessário parar, que quando eu falo parar não é “parei a produção”, parei uma atividade para que essa atividade fosse melhorada, não que ela pudesse levar a risco de um acidente grave, mas ela poderia levar ao risco de um acidente e aí a gente não mensura se é acidente grave ou acidente pequeno, de qualquer maneira a gente não quer o acidente. Então nós profissionais, principalmente eu que quando eu fiz o curso no primeiro dia guardei muito bem o que o meu professor falou, ele se apresentou, fez com que nós nos apresentássemos e ele falou uma coisa assim: “Olha, vou dizer uma coisa para vocês: aqueles que quiserem ser profissional de segurança tem que ter duas mães iguais juiz de futebol, aquele que não quiser trabalhar na segurança, não quiser ser taxado como uma pessoa que é chata, que incomoda, troquem agora o curso porque tem outros cursos em outras salas que são muito melhores do que o nosso. Agora, aquele que quiser aprender vai ter que ter realmente um pulso firme porque trabalhar com segurança é mexer com comportamento, e a gente não consegue mexer às vezes com comportamento dos nossos filhos, quem dirá dos adultos que já têm uma formação própria”. Então essa é uma das virtudes hoje da Siderúrgica Barra Mansa: campanhas, campanhas, investimento, muito investimento. Nós tivemos o ano retrasado uma, eu até falo nas minhas palestras nas segundas, quartas e sextas que o Grupo, né, o Votorantim aí é um todo, convocou todos os profissionais da área, há uns dois anos e meio atrás, nos levou para Belo Horizonte, né? O meu público alvo é o pessoal de chão de fábrica, o pessoal de base, eu brinco com eles falando que a empresa me deu avião, eu nunca tinha andado de avião, a empresa me deu hotel cinco estrelas, eu nunca fiquei em hotel cinco estrelas, para quê? Quando eu sentei no auditório, foi até o João Bosco que falou conosco, né, fez a palestra e depois um outro profissional, não lembro agora o nome, mas também um diretor em São Paulo que falou assim: “Olha, eu estou trazendo vocês aqui não é para passear, estou trazendo vocês aqui para vocês me dizerem quais são os maiores riscos em que nós podemos ter acidentes graves ou acidentes fatais. E na sexta-feira, a hora que vocês forem embora, eu quero na minha _ quais são os maiores riscos das empresas de vocês”. Então nós discutimos, conversamos isso onde hoje nós temos uma campanha muito forte de você entrar dentro da Siderúrgica, hoje você vai ver placas enormes com os maiores riscos, ou seja, todos aqueles riscos que nós achamos e consideramos que eram riscos que poderiam levar a algum acidente grave ou até mesmo fatal, este risco está totalmente controlado mesmo que ainda há algumas pecinhas, vamos dizer assim, algumas coisas que mesmo que a gente queira cem por cento de aproveitamento, a gente sabe que é muito difícil chegar a cem por cento, mas eu diria que, os nossos riscos hoje dentro da Votorantim, eles estão controlados em função de campanhas, campanhas nós temos. Hoje não tem dinheiro que meça, ou seja, hoje não existe a falta do dinheiro para qualquer coisa. Se eu quiser agora uma placa para colocar em qualquer lugar eu vou lá, falo assim: “Olha, eu preciso de uma placa de segurança”, tira o dinheiro na hora e vou lá e compro. Antes eu tinha que fazer uma solicitação, fazer um pedido. Lógico, existe esse processo, é um processo interno, né, o que eu estou falando é mais assim a título de ilustração, ou seja, a facilidade que a gente tem hoje pelo respaldo da diretoria de nós hoje não deixarmos de fazer qualquer coisa, porque não é falta de dinheiro que vai fazer com que a gente tenha tranquilidade na parte de segurança.

 

P/1 – Bom, além da segurança, você conhece alguma ação, você falou em preservação de meio ambiente, tem alguma ação que você possa pelo menos citar?

 

R – Sim, também. Hoje nós fazemos o controle de toda a, vamos dizer, poluição que a Siderúrgica Barra Mansa pode estar jogando na atmosfera. Nós temos vários monitoramentos, nós temos várias empresas trabalhando em paralelo conosco, fazendo um acompanhamento. Todo o trabalho nosso hoje relacionado à segurança, ele tem que estar alinhado com o meio ambiente, nós não fazemos nada. Para ter uma ideia, todas as empresas, para virem trabalhar conosco, elas têm que apresentar um documento para segurança e, esse documento, ele passa pela segurança e passa pelo respaldo do meio ambiente para ver se aquela atividade tem algum foco ligado com o meio ambiente, onde eles vão descartar algum material, por exemplo, hoje nós temos obras dentro da empresa, quer dizer, nós estamos demolindo alguns galpões, construindo, fazendo escavações e tudo isso requer um trabalho forte com a parte ambiental. Então nada é feito hoje, o mesmo foco que estão dando para a segurança do trabalho está sendo dada para o meio ambiente. Aí a ideia de se unir o grupo – o grupo que eu digo a parte de meio ambiente com a parte de segurança. Hoje a segurança, só para você ter ideia, a segurança hoje está justamente naquele local onde o Paulo Seixas falou que dormia. Então quer dizer, o que era dormitório hoje, onde se dormia hoje não se pode cochilar. 

 

P/1 e P/2 – (RISOS)

 

R – Ou seja, se a gente cochilar, o acidente acontece, fazendo aí uma brincadeirinha. 

 

P/1 – Bom, dessa história toda e de tudo isso que você fala de uma forma tão empolgada, quais os principais aprendizados que você tirou ao longo desse tempo que você, já tem quinze anos que você está trabalhando com a mesma coisa.

 

R – Isso. O aprendizado que eu tenho é que mexer com comportamento, mexer com pessoas requer muita responsabilidade. O aprendizado que eu tenho é que cada vez mais eu acabo aprendendo porque, nós, por mais que a gente queira ser o sabedor, porque eu sou o profissional da área, não quer dizer que eu sei tudo. Mas mexer com o comportamento das pessoas é um aprendizado muito grande porque você tem que saber lidar com a resposta que ele tem para você. Toda vez que você vai falar alguma coisa, você vai pensando como você tem que falar, e a pessoa já tem na ponta de língua a resposta. Então você tem que saber o que que você vai ter que voltar para ele sem que ele seja agredido. Então o aprendizado é muito grande. O aprendizado é que cada vez que, cada dia que passa eu aprendo mais, eu ajudo mais as pessoas e tenho consciência de que o meu trabalho é feito baseado no comportamento. E comportamento é uma coisa muito difícil de mexer, principalmente se falando em comportamento de pessoas, que já têm comportamento próprio. Então é mexer mesmo com o brio das pessoas.

 

P/1 – Bom. E você tem alguma perspectiva profissional a partir disso tudo que você viveu até agora, você tem ainda um caminho que você deslumbra dentro da empresa?

 

R – Tenho. O caminho que eu deslumbro dentro da empresa é justamente ter o meu trabalho reconhecido. Que são quase trinta anos e eu já tive decepções, quer dizer, já cheguei ao ponto de não querer mais trabalhar dentro do Grupo, dentro da própria Votorantim, dentro da própria Siderúrgica Barra Mansa em função do meu trabalho não ter sido reconhecido e isso eu acho que não é só comigo, acho que todos nós temos uma participação em alguma coisa e a gente gosta de fazer aquilo com carinho. E eu costumo dizer que eu não visto a camisa da Siderúrgica Barra Mansa, eu abraço a camisa da Votorantim, da Siderúrgica Barra Mansa, eu gosto de trabalhar no Grupo e isso faz com que, deixe a gente assim com perspectivas boas, né? O trabalho hoje que a gente está fazendo é um trabalho educativo, trabalho educativo é gostoso, saber que as pessoas mais na frente estão conscientizadas daquilo que eu estou falando e isso é o retorno do meu trabalho. O resultado do meu trabalho é não ter acidente e ter a satisfação das pessoas, ou seja, o meu cliente. E hoje a Siderúrgica Barra Mansa num todo, uma das particularidades dela é a satisfação do cliente. E o meu cliente na Siderúrgica Barra Mansa são os funcionários. Então a partir do momento que eles estiverem satisfeitos a minha perspectiva é que cada vez mais eu consiga galgar o entendimento das pessoas, eu acho que isso não é só eu, mas a minha equipe, os meus colegas de trabalho, a gente tem uma equipe muito boa. Então a gente tem um trabalho muito forte em cima disso. Então a minha felicidade, a minha perspectiva é de que, com certeza, nós vamos alcançar o objetivo da Siderúrgica Barra Mansa e principalmente do Grupo Votorantim que é realmente ter a preocupação com a vida das pessoas. Nem sempre a gente alcança o tópico, né, mas a gente está trabalhando para isso e a minha satisfação vai ser saber que isso tem um resultado muito grande. Só em termos de número igual, eu comentei agora há pouco, nós tínhamos uma média de cento e sessenta e oito em 1998, foi a última estatística que nós fizemos. O ano passado nós acabamos o ano, terminamos um ano com vinte e quatro, vinte e cinco acidentes por ano. Aí o fruto do trabalho, o resultado. Nosso trabalho hoje, o nosso desafio hoje é aumentar, né, aumentar cada vez mais, ou seja, diminuir essa taxa de frequência, diminuir esse número de acidentes e a felicidade vai ser chegar no final do ano e eu ver a estatística lá de que nós alcançamos isso até mesmo com a própria Siderúrgica Barra Mansa, a própria Votorantim cobrando isso da gente, porque antes era o contrário, antes a gente em 1998, a gente teve que fazer acontecer, hoje as pessoas que estão no Grupo de diretoria querem que as coisas aconteçam, estão vindo de cima. Tendo um respaldo da diretoria, com certeza a gente consegue um resultado bem mais favorável. Eu acho que, eu acredito que mais dois anos porque é um trabalho realmente, não é um trabalho a curto prazo, mas provavelmente daqui uns dois anos a gente tem um resultado muito bom dentro da Siderúrgica Barra Mansa, se Deus quiser!

 

P/1 – Você tem notícia desse mesmo tipo de trabalho no restante das empresas do Grupo?

 

R – Tenho. A própria, o próprio Grupo Votorantim vem trabalhando forte sobre isso, nós fazemos, nós temos feito visitas em outras unidades fazendo um ________, cada um em uma unidade, vendo o que que de melhor foi feito lá para gente poder agregar, para que a gente possa trabalhar aqui. Então eu tenho ido em outras unidades, outras unidades tem vindo aqui ver conosco. Sempre tem facilidade em uma e dificuldade em outra. Então o que é bom em uma nós estamos agregando à nossa, o que é bom para nós estamos agregando para as outras unidades. O Grupo, eu poderia dizer que hoje o Grupo Votorantim tem uma preocupação muito grande relacionada à segurança. E o mais importante, nós temos o respaldo, isso para gente como profissional não tem coisa melhor. 

 

P/1 – Na sua opinião, qual a importância da Votorantim para história da indústria brasileira?

 

R – Muita. O Grupo está aumentando, o Grupo está crescendo, o desafio sempre é querer sempre ser o maior e o melhor. A Votorantim tem feito esse trabalho, tem trabalhado para isso, está buscando mercado para isso não só aqui como fora do país, a gente tem notícia disso. Colegas que já trabalhavam conosco, inclusive, semana passada nós tivemos dois colegas que foram para outra unidade fora do país para trabalhar isso, né? Então, o Grupo Votorantim, ele tem uma preocupação de ser um grupo bem participativo, um grupo bem coeso e um grupo que quer crescer, quer buscar mercado, quer ser realmente, nós queremos ser os melhores seja em segurança, seja no aço, seja como, vamos dizer assim, como pessoas em que, ou então um grupo, em que as pessoas podem realmente querer um dia falar assim: “Pô, eu gostaria de trabalhar na Votorantim!”. Como eu trabalho. Tenho com certeza orgulho de trabalhar na empresa, senão eu não estaria lá há trinta anos. 

 

P/1 – A Votorantim completa noventa anos de existência nos próximos anos. Qual é o segredo da Votorantim para esse sucesso?

 

R – Humanidade. Humanidade, respeito. Há muito tempo que eu trabalho no Grupo e eu sempre fui respeitado como pessoa. A pessoa, dono, né, vamos dizer assim, a família Ermírio de Moraes tem uma responsabilidade muito grande e isso faz parte da educação familiar, né? Então é importante saber, vou fazer uma brincadeira aqui mas é mais ou menos isso: nós queremos o Grupo Votorantim com noventa anos como a gente quer o gol mil do Romário. Não só eu que quero, o mundo inteiro está torcendo para isso. Por quê? Nós queremos que realmente nós brasileiros tenhamos alguma coisa que tenha representação no mundo, por que não ser o Grupo Votorantim?

 

P/1 – Bom, com essa perspectiva, que expectativa você tem para os cem anos? Nós estamos completando noventa daqui a pouco, mais dez o que que você...? 

 

R – Eu tenho mais cinco anos para me aposentar e eu estava conversando isso na mesa semana passada, almoçando lá dentro da Siderúrgica e eu falei o seguinte: “Eu quero chegar na minha aposentadoria e aposentar! Não quero fazer mais nada, mais nada, quero aposentar!”. Como eu fui enganado pelo meu pai que ele me pediu para começar a trabalhar cedo e aposentar novo e hoje o país faz o contrário. Então, quer dizer, deixei de brincar, fui brincar de trabalhar. E agora na hora de aposentar não conseguia aposentar. Então, quer dizer, tenho trinta anos de empresa, poderia estar aposentado mas não posso estar aposentado por idade. E a minha perspectiva realmente é aposentar e fazer igual ele: me procurar em casa e não me achar. Só que eu sei que é muito difícil, eu tenho uma de oito, tenho uma de dois anos. Então a minha perspectiva é fazer o gol cem com a Votorantim. Ou cem anos com a Votorantim.

 

P/1 – Que importância você vê no Projeto Memória Votorantim?

 

R – Muito bom! Eu acredito que, muitas pessoas talvez vão pensar diferente, mas a minha preocupação não é essa, a minha preocupação é que eu, me sentir dentro do Grupo Votorantim, principalmente fazendo esse trabalho aqui, eu me senti como se eu estivesse no Faustão fazendo aquele programa que ele emociona todo mundo. Quer dizer, a coisa mais bonita é alguém contar a nossa vida para as pessoas e por que não eu fazer parte dessa história? Então eu me sinto feliz, né, com isso então a minha participação, o meu momento é esse, é um momento de satisfação porque eu estou sendo reconhecido. Eu acho que muita gente vai olhar diferente, pensar de forma diferente, mas a hora que eu estiver sentado ali olhando todo esse trabalho e eu tiver passando uma imagem, eu tenho certeza que daquele público cem por cento gostaria de estar na tela aparecendo, não aparecendo por aparecer, mas para contar que realmente alguém está contando a minha vida e isso para mim é tudo!

 

P/1 – Você teve uma participação na campanha Linha do Tempo. Eu gostaria de te pedir para contar para gente como é que você se envolveu com essa campanha e como é que você se envolveu e participou nessa campanha.

 

R – Eu sempre, o pessoal fala lá na Siderúrgica que eu sou enxerido e abusado, por quê? Na verdade, eu não sou enxerido e abusado, eu acho que sempre tem que ter alguém para fazer alguma coisa e eu tenho, eu me sinto com dom para isso e eu gosto de ajudar, eu gosto de participar. Então, quando isso veio, até a minha mãe, a primeira coisa que eu fiz, peguei aquilo e fui falar assim: “Nossa, eu tenho história para contar!”. Então eu peguei aquilo e comecei a rascunhar, em um determinado momento eu peguei e falei assim: sabe de uma coisa, isso aqui não sei se vai dar certo, se não vai dar certo, peguei e deixei de lado. Mas na semana seguinte eu retomei isso e peguei e falei assim: “Bom, eu vou contar uma parte que eu conheço e a outra parte eu tenho certeza que eu vou buscar aqui em cima que é onde o meu pai mora, que ele também tem essa, tem boa parte dessa história”. E juntos ele foi falando para mim e eu fui digitando, contando um pouquinho dele, contando de mim, corrigindo uma coisa, corrigindo outra para gente não citar nomes, algumas coisas. Porque muitas das vezes a pessoa pode não estar presente, mas alguém da família pode estar presente e não achar que isso, a gente não sabe como que as pessoas vão receber esse recado, vamos dizer assim. Então eu senti uma coisa legal porque eu achei, em um primeiro momento, que era a oportunidade realmente do meu trabalho ser reconhecido. Então é bonito isso, por quê? Porque, realmente, contar história de alguma coisa ou contar história de alguém é o que a gente mais se emociona hoje na televisão. Você vê pessoas em um programa de televisão querendo voltar para casa, contar história que o cara, a pessoa veio com a família tentar ganhar a vida em uma grande cidade igual São Paulo, morar em um lugar que não tem nem lugar, nem local direito para dormir, e qual é a história dele? Voltar para casa. Então quer dizer, aquilo na televisão emociona a gente, então, quando eu vi a linha do tempo, eu falei assim: “Olha, eu vou participar dessa linha do tempo porque numa dessas duas linhas eu vou estar direcionado com certeza”. E hoje está aí o resultado.

 

P/1 – Você vê alguma maneira do Projeto Memória interagir com a sua atividade hoje na empresa?

 

R – Vejo, por quê? Porque eu não era a mesma pessoa que sou hoje, talvez incorporado igual eu estou hoje. Talvez antes de eu entrar, até mesmo indo para Segurança do Trabalho ou até mesmo entrar para o Departamento Pessoal, eu não tinha um compromisso que eu tenho hoje. Então quer dizer, como que a linha do tempo implica nisso? Se eu não contar histórias do passado, o que que eu vou contar hoje? Hoje talvez eu tenha alguma coisa para contar, mas esse “alguma coisa para contar” eu tenho que ter um histórico, eu tenho que ter alguma coisa, alguma base para eu falar: “Hoje é isso!”. Mas por que hoje é isso? Você conheceu o passado? Então, se eu não tenho alguma coisa para contar de história, eu não posso contar nada. Então, a linha do tempo, eu acredito que não só eu que fiz alguns comentários, mas as pessoas que fizeram esse comentário, com certeza a linha do tempo vai mostrar toda uma história. E lógico, a história de cada um, cada pessoa, cada funcionário que teve lá, talvez até pela timidez das pessoas ou de alguns funcionários eles não tiveram essa iniciativa de escrever, mas a linha do tempo é importantíssima para gente ver como que a Votorantim, como a Siderúrgica Barra Mansa cresceu dentro desses setenta anos de Siderúrgica, noventa de Votorantim e cem se Deus quiser!

 

P/1 – Então, uma mensagem para os setenta anos da Barra Mansa:

 

R – É a mesma coisa que a gente ouve assim: não basta simplesmente fazer parte da história, não basta simplesmente ser alguma coisa, realmente tem que participar!

 

P/1 – O Museu da Pessoa agradece a sua participação e o Projeto Memória Votorantim também, muito obrigada.

 

R – Eu que agradeço.

 

[palmas]

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+