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História

Do isolamento a confusão

História de: Mário Gracindo Cardoso Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/01/2021

Sinopse

Mário sempre gostou de estudar. Começou a trabalhar na Petrobras quando passou no edital da mesma. Logo após passar no edital, foi trabalhar na Selva Amazônica, onde dizia que viveu um longo período em isolamento com outras pessoas da mesma equipe que ele. Logo depois de casado foi transferido para o Rio de Janeiro. Era membro da Petros. Atualmente é aposentado.

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História completa

P/1 – Boa tarde. Vamos começar, eu peço para o senhor começar dizendo seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.


R – Meu nome é Mário Gracindo Cardoso Rodrigues. Nasci em Belém do Pará, no dia  7de setembro de 1930.


P/1 – Qual a sua formação?

 

R – Administrador de empresa. 


P/1 – E quando que o senhor entrou na Petrobras?


R – Eu entrei no dia primeiro de fevereiro de 1957.


P/1 – Como que foi isso?


R – O meu ingresso na Petrobras foi devido a um edital da própria Petrobras para um concurso para preenchimento de vagas naquela época. Eu já trabalhava, o meu primeiro emprego foi em 1947, comecei a trabalhar ainda quando tinha 16 anos, entrei com carteira de menor e tal. Quando houve esse concurso da Petrobras eu já tinha dez anos de experiência e naquela época, eles precisavam de gente com experiência.  O concurso foi vinculado a esse objetivo. Nessa época eu fazia concurso para vários lugares,  Banco do Brasil, Caixa Econômica, tudo o que aparecesse. Eu já tinha me formado técnico de contabilidade na época, não tinha curso superior lá em Belém, que eu pudesse fazer, o único curso que tinha era medicina e engenharia e só funcionava ali durante o dia. Eu trabalhava e não podia tentar. O único curso que eu fiz foi profissionalizante, foi o de técnico de contabilidade que equivale hoje ao de contador, é curso superior, na época valia como tal, tanto que quando foi criada a lei que criou o curso de contador, os que já eram formados em técnico de contabilidade se equiparam. Eu nunca pedi comparação, porque não me interessou ser contador. Parti logo para outra área, quando entrei na Petrobras, a área mais de pessoal, né? Mas o concurso lá foi feito com cerca de cinco mil candidatos, e só passaram 12, eu fui o segundo. Eu era rato de concurso, estava com tudo na ____. Estudava pra caramba na época, para mim foi moleza. Mas o interessante é que não era para trabalhar em Belém, era para ir trabalhar em equipes de campo no interior do Amazonas, na Selva Amazônica, na época, 1957.


P/1 – O que a Petrobras estava fazendo lá?


R – Exploração de petróleo. Ingressei na Petrobras, fui pra Manaus e de Manaus eu embarquei numa lancha da Petrobras e  nós fomos pra uma equipe de exploração sísmica – era equipe sísmica número três. Era chefiada,  por uma equipe de americanos, porque naquela época a Petrobras não tinha a experiência técnica que tem hoje, ela contratava essas empresas de técnicos americanos para exploração de petróleo na Amazônia. Eu fui pra lá como ___, por ter conhecimento, experiência,  principalmente na área de material na época e já ter formação de contabilidade, a Petrobras precisava de gente com essa experiência. Como entraram outros colegas meus  com experiências mais ou menos na mesma época, não era para ingressar para aprender, ao contrário, nós ingressamos na Petrobras para ensinar, para criar normas, porque a Petrobras não tinha nada, sobre normas, organização, essas coisas. Em 1957 a Petrobras tinha o que? Três, quatro anos de criação. Assim que tudo começou, eu passei nessa equipe cerca de um ano e pouco.


P/1 – Como que era o trabalho lá no interior?

 

R – Total isolamento. Não existiam leis trabalhistas na época, como existe hoje, que o cara vai pra plataforma, passa 14 dias. A única lei que tinha era tirar férias anuais, em princípio você ia para lá e só ia voltar um ano depois quando completasse para tirar férias. Consegui sair algumas vezes e voltar a Belém por permissão do próprio chefe da equipe que era americano. 


P/1 – E o senhor era casado?


R – Não, eu era solteiro na época. 


P/1 – E o senhor lembra de alguma história desse um ano que o senhor passou em Manaus e no Amazonas?


R – Olha, a história lá é que a gente vivia confinados, porque ali você não via nem índio. Depois nós mudávamos a equipe e não ficava tanto tempo no mesmo lugar. A primeira experiência eu fui para um rio chamado Rio Urubu, já ouviu falar? 


P/1 – Não.


R – É um rio enorme no Amazonas. De lá nós fomos pra outros rios, o Mamuru, Rio Madeirinha – Madeirinha é um afluente do Rio Madeira, são rios que têm uma velocidade, uma correnteza tremenda. Houve casos curiosos, por exemplo, nessa vez que nós estávamos nessa equipe do Rio Madeirinha,  morávamos em umas balsas, igual essas que jogam fogos no fim do ano, aquelas enormes. Ali foi construído um alojamento, dois andares, mas muito bem feito, tinha cama, tudo direitinho, tinha todo o conforto.  Embaixo normalmente era refeitório, tinha a cozinha, tinha várias balsas desse tipo, balsa-alojamento, balsa onde tinha escritório, onde tinha os técnicos, escritório da parte administrativa e a gente convivia ali com as mesmas pessoas. A primeira permanência que eu tive foi de cinco meses lá, fui para lá em fevereiro e voltei cinco meses depois para Belém, para tratar de um outro negócio que eu tinha deixado pendente, um emprego que eu não pedi lá a demissão para entrar na Petrobras. Naquele tempo não tinha fundo de garantia, era estabilidade mesmo. Eu voltei pra rescindir mesmo o contrato e ficar na Petrobras. Quando entrei na Petrobras já tinha dez anos de experiência de trabalho, não foi meu primeiro emprego, foi meu segundo e único, só tive dois empregos. Bom, depois de passar de um ____. Eu era solteiro, quando  viajei eu já estava noivo. Uma única vez que voltei a Belém depois de ter ido pra lá, eu deixei tudo certo para o casamento, deixei na mão da noiva e da família, para preparar, marcar, tudo. Só que quando eu recebi a carta dizendo quando ia ser feito o casamento, eu recebi na semana do casamento, porque para chegar uma carta onde nós estávamos era muito difícil, demorado. Eu saí de lá que nem um louco, nós estávamos em um rio que ficava perto de Parintins, essa cidade que tem o boi ___. Naquela época não tinha essa divulgação toda. Pra pegar um avião que passava por lá, um avião da Panair, Catalina, não tinha reserva de passagem, a sorte é que os passageiros que vieram de Manaus para pousar lá, mas não iam ficar lá, iam prosseguir viagem, estavam passando mal e desembarcaram, daí deu vaga, foi a sorte de eu pegar essa vaga e chegar em Belém. O casamento era no sábado, eu cheguei na quarta-feira antes, pra fazer terno, tudo. Eu convidei os padrinhos dentro do avião, vieram dois engenheiros colegas meus para serem padrinhos. E assim foi feito, o negócio era todo ____ [risos], não foi mole naquela época.  Eu casei, passei três dias depois de casado e depois eu voltei para a equipe de novo. Só voltei de novo três meses depois, mas já com uma vantagem, porque eu fui indicado para ser transferido, para morar em Manaus, para chefiar o ______ do pessoal lá. Em Manaus tinha uma base de apoio, e a base de apoio é toda a operação de exploração de petróleo na Amazônia, no Amazonas, né? Porque existia uma base em Belém também, existia outra em São Luís do Maranhão. E essa base de Manaus dava apoio a uma outra base que era a base Nova Olinda do Norte. A história da base Nova Olinda é interessante porque ela foi construída às margens do Rio Madeira, em um lugar à margem esquerda, ela fica a uma distância de lancha de Manaus para Nova Olinda, levava umas cinco a seis horas de viagem e de avião levava uns 20 minutos. A Petrobras depois adquiriu dois aviões desses, chamava ___. Antigamente ela usava os aviões da Panair, depois ela comprou dois aviões e eram pilotados por pilotos da Panair. Era o AXN e o AXL, as siglas eu me lembro muito bem, eles faziam viagem por toda região, porque tinham várias perfurações, equipes sísmicas, e vários tipos de equipes de exploração, em toda região. Naquela época a Petrobras eu acho que ela investia para exploração de petróleo, praticamente todos os investimentos, eram na Amazônia, para exploração de petróleo. Depois é que andou mudando a questão e passaram a explorar petróleo aqui em águas profundas, na Bacia de Campos.


P/1 – E as condições de trabalho?


R – A minha que era administrativa era na balsa, tinha escritório ali, tudo. O escritório era eu e mais um outro colega, fazia tudo, folha de pagamento, tudo o que era necessário. A equipe tinha mais ou menos 150 pessoas, a maioria era tudo peão e trabalhava fazendo as linhas. A equipe sísmica  usa dinamite, eles fazem uma pequena perfuração, introduz uma dinamite lá pra explodir e é ligado uns pinos, chamados geofones e  cabe num aparelho como se fosse um eletrocardiograma e aquilo é registrado, quando quando explode a dinamite, aquela explosão irradia pelo geofone e registra as ondulações do terreno todinho, aquilo era estudado manualmente. Hoje em dia tudo é feito de outra forma.


P/1 – Senhor Mário, quando que o senhor vem para o Rio de Janeiro?


R – Eu fui transferido para Manaus, já depois de casado. Então, praticamente a lua de mel foi em Manaus, três meses depois. [assoa nariz]. Eu fui pra Manaus, não tinha filho nenhum, não tinha parente nenhum, só eu a minha mulher lá, começamos a vida lá, aí começou a nascer os filhos, nasceram quatro, cada um em um ano [risos]. Eu passei sete anos em Manaus, quando justamente nesses anos coincidiu com a Revolução de 1964. Começou a mudar o governo e houve uma mudança quase total na Petrobras, começou a diminuir a exploração de petróleo, foi quando passaram a explorar a Bacia de Campos, essa área aqui. Ficou uma diminuição e eu fui re-transferido para Belém. Essa base em Manaus foi extinta. Voltei pra minha terra.  Fiquei em Belém de 1964 até 1968, quatro anos,  quando eu penso que vou ficar em Belém, já me metem na cabeça para trazer pro Rio de Janeiro. Tanto forçaram que acabei vindo para o Rio, aceitando a transferência,  em 1968. Naquela época a Petrobras ainda não tinha esse edifício sede,  cada obra tinha um prédio aqui no centro da cidade. Fui trabalhar na Avenida Rio Branco, 81, aquele edifício de esquina com a Presidente Vargas, 18º andar. No dia em que eu cheguei aqui para me apresentar, houve um conflito na Rio Branco,  estudante com polícia, aquela confusão, cavalaria, jogavam as bolinhas de gude e o cavalo blo-ló-ló, a gente olhava lá no 18º andar. Jogavam gás e  a fumaça subia, todo mundo chorando [risos]. Foi a minha chegada aqui [risos].


P/1 – E o clima interno na Petrobras?


R – Naquela época o negócio ainda não estava bem, mas aí depois ____. Eu nunca fui de me envolver em política, coisa nenhuma, não tinha nada a ver. Graças a Deus eu tive sempre bom conceito com os chefes da época, em Manaus, por exemplo, quando eu estava lá, eu era chefe pessoal, aí começou a haver mudanças de chefia e acabaram me empurrando pra assumir a chefia da base do escritório mesmo, isso entre 1963, 1964, quando houve a Revolução. Mudou tudo, quem assumiu a Superintendência da Amazônia na época que comandava toda área foi o Coronel Jarbas Passarinho, era muito meu amigo, ele foi superintendente antes, depois voltou com o interventor lá,  ele me manteve na chefia lá de Manaus. Estava já em uma fase de extinção, né? Foi quando eu fui transferido de volta pra Belém. Em Belém, a minha atividade também era de viajar muito com aquele rio, viajava para todos os lugares onde tinha órgão da Petrobras, para fazer auditoria de pessoal, verificar se estavam seguindo as normas certas com relação a pessoal, não só a pagamento, controle, outras coisas, porque cada lugar tinha os seus órgãozinhos de pagamento, de pessoal, as equipes e eu viajava muito para São Luís do Maranhão. Houve muitos fatos interessantes, para ir numa sonda lá na ___. Já ouviu falar nos Lençóis do Maranhão? A Petrobras não tinha essa divulgação que tem hoje, mas os Lençóis já existiam lá. Tinha uma sonda da Petrobras lá em cima das dunas. As dunas se mudavam conforme o vento, estavam numa posição ___. Ali no carro não andava, tinha que em cima de um trator, andava de um lado pro outro de trator. O alojamento é aqueles pré-fabricados, que é montado, a areia anda por qualquer buraquinho. Chegava de manhã para abrir a porta, tinha o cara que primeiro tirar a areia para poder abrir a porta, porque a areia vai acumulando, né? E a viagem para lá? Eu ia de Teco-teco, sabe o que é Teco-teco? Já ouviu falar aquele avião que só tinha uma palheta assim de ___. Eu saía de São Luís do Maranhão, para ir para o continente onde tem os Lençóis que tem essas sondas da Petrobras, ia de Teco-teco, atravessa a baía, ali pega o vento e vai direto. Uma dessas viagens ia eu e mais um técnico de rádio que ia para uma outra equipe, o Teco-teco pousa em qualquer lugar, quando tem fazenda cheia de bois, o Teco-teco tem um vôo rasante para o boi afastar pra ele poder pousar. Pousou nesta equipe para o técnico descer, até que um desceu  e eu fiquei pra seguir viagem com ele para outra, para a equipe que eu ia, só que na hora que ele foi acionar, o avião não queria nada. O piloto disse assim,  “Olha, senta aqui no meu lugar e fica apertando aqui, tem umas maletas embaixo que eu vou virar lá a paleta quando pegar, aperta e não solta”,  ele virava ____. Rapaz, aquilo precisa ter força. Virou umas três ou quatro vezes até que pegou. Ele entrou, sentou do lado, pegou, eu passei para o lado. Eu contando isso para o pessoal, eu dizia, “Rapaz, já peguei avião, que quando enguiça, o avião pega no tranco”. Não é no tranco isso? [risos]. Essas paradas.  E tem outra,  o negócio é que a pessoa para lembrar de tudo isso em pouco tempo, às vezes uma coisa encadeia com a outra.


P/1 – Mas e no Rio, o senhor parou de viajar?


R – Não. Eu quando me fui transferido para o Rio, uma das missões era viajar o Brasil todo, fazendo a mesma coisa que eu fazia lá, viajar em nível maior porque eu passei a visitar as unidades da Petrobras, refinarias, terminais e lugares aonde tinha pessoal, principalmente na Bahia, Salvador, ia muito a Salvador, era onde tinha a maior concentração de empregado da Petrobras de unidades de trabalho. Eu viajava muito.

 

P/1 – E nessa época, já que o senhor conhecia ______ [interrupção].


R – O copo está cheio?


P/2 – Está cheio, é para o senhor mesmo essa água.


R – Ah, então ____.


P/2 – A gente serviu pra ficar mais fácil.


P/1 – Senhor Mário, eu vou cortar um pouco só o que a gente estava conversando, para entrar na AMBEP [Associação Mantenedores Beneficiários Petros], ao longo o senhor já vai comentando sobre o seu trabalho. Queria que o senhor falasse um pouco como que foi que surgiu a AMBEP ?


R – A AMBEP surgiu da seguinte forma. Eu ainda estava na ativa e eu tinha um colega que era meu conterrâneo lá de Belém do Pará, chamado Antônio Ferreira Bastos, ele era muito meu amigo, por sinal foi meu padrinho de casamento. Ele foi transferido, veio para o Rio e tal e já estava aposentado. Encontrava com ele e ele tinha uma idéia de criar uma associação e me convidou uma vez: “Olha vamos fazer isso, fazer aquilo e tal, pra criar uma associação?” Eu disse assim: “Olha, Bastos, eu tô na ativa”. Eu estava chefiando um órgão de pessoal aqui na sede que não era mole nessa época. Não me deixava tempo para nada. E eu disse, “Olha, eu não gosto de entrar numa coisa que eu não vou dar conta de me dedicar”. E ficou nessa conversa. Passado um tempo, eu acabei decidindo me aposentar. Eu me aposentei  mais ou menos pelo mês de julho de 1981. Eu sei que uns três dias depois de eu já estar aposentado, saí com minha esposa. Eu moro na Tijuca, né? Na Valparaíso e sempre saí a pé, fui até a praça, minha esposa queria fazer compra e tal. Quando chegou lá em frente o shopping que ainda tem, o Shopping 85, é o shopping mais antigo que tem ali. Passando bem ali, quem é que eu encontro? Esse colega e a esposa dele, ele se virou pra mim e disse. “E aí, como é, tá de férias?”. Aí eu disse assim, “Não, agora as minhas férias são permanentes e tal”. Começamos a conversar, veio na minha idéia, eu me virei pra ele e disse assim: “Bastos agora que tá a oportunidade de criar a associação, agora eu tô aposentado”. Rapaz, o homem parece que acendeu na hora, ele era muito afobado, dinâmico pra caramba. E eu trabalhava onde o pessoal da Petrobras tinha todo acesso à informação. Ele disse: “Você vê se tu arruma na Petrobras uma lista de todos os aposentados com endereço, telefone.”Eu disse, “Pode deixar que amanhã mesmo eu arrumo isso”. Voltei na Petrobras, falei com uns amigos que trabalhavam na área de processamento de dados, tudo bem tirar aqueles formulários contínuos, sabe como é? Nós nos dividimos em três, foi quando eu convidei o Zuri, que era meu colega, esse eu conheci em Manaus. Dividimos essa listagem em três pedaços, ele ficou com um pedaço, eu com um pedaço e o Zuri com outro,  para cada um telefonar para esses aposentados e pensionistas, alguns para transmitir a idéia da criação dessa associação. O apoio foi praticamente unânime, a partir disso, nós combinamos de fazer uma assembléia com esse pessoal. Nessa assembléia, foi estabelecido, criado um grupo de trabalho para escrever os estatutos. Depois de elaborado o estatuto, foi marcada uma assembléia de criação mesmo da associação e na mesma ocasião foi eleita a primeira diretoria. 


P/1 – E o senhor já havia participado de uma entidade parecida ?


R – Não.

 

P/1 – Por que nesse momento o senhor resolveu participar?


R – Pelo entusiasmo desse colega que sempre foi meu grande amigo. Estudamos juntos, formamos na mesma escola de técnicos em contabilidade, conheci ele muito antes de ser empregado da Petrobras. Foram dois anos de diretoria, depois eu não quis mais. E outros saíram, alguns permaneceram e entraram outros diretores. Mesmo porque, nessa altura, dois anos depois de eu estar aposentado, e que participei da diretoria da AMBEP, houve um outro colega que era da Petrobras e que estava como ___,  eu não sei se diretor, tinha uma função lá na Petros, na fundação. E ele gostava muito de mim e me telefonou porque eles estavam precisando de pessoas para ir trabalhar lá, para fazer um levantamento de dados, porque tinha mudado um pouco o negócio do regulamento da Petros, e precisava fazer um levantamento de dados. Aí eu fui convidado a trabalhar lá na Petros, com contrato de 90 dias, depois prorrogaram por mais 90. Acabaram me efetivando na Petros depois de aposentado, trabalhei dez anos lá depois de aposentado. Eu aposentei em 1981, né? Entrei na Petros efetivamente em 1980 e eu não sei se foi em 1985 ou 1986 que pedi demissão, já não aguentava mais.


P/1 – E na AMBEP o senhor parou de participar, como  que foi?


R –  Deixei para essa turma. Naquela época,  o negócio foi bravo, hoje o cara entra lá, bebe _____. Naquela época, não tinha nem telefone, não tinha papel,  não tinha lugar. Depois foi aos poucos, até que conseguimos que o pessoal aderisse para poder descontar a contribuição, para formar um dinheiro, uma verba, para sustentar. E começou assim. Mas no início, a gente tirava do nosso bolso, para botar carta no correio, eu batia à máquina em casa, não tinha computador naquela época.


P/1 – E o que a AMBEP apresentava para conquistar essas novas pessoas? O que a AMBEP reivindicava?


R – Não, a AMBEP foi criada para uma defesa dos aposentados e em defesa inclusive da própria Petros, que é a fundação que sustenta a gente. Em termos financeiros a fundação é de dar suplementação da aposentadoria. 


P/1 – Mas por que defender a Petros?


R – É defesa em todos os sentidos, você sabe que essas coisas, a gente tem que defender aquilo, é aquilo que nos dá o nosso sustento. 


P/1 – Mas ela corria algum risco, uma ameaça ?


R – Não é correr risco, mas é questão até de legislação, de previdência, porque tem muito envolvimento com a previdência social e uma série de coisas. A Petrobras que instituiu a Petros.


P/1 – Foi quando ____?


R – A Petros foi instituída em 1970. Eu fui um dos primeiros a entrar na Petros, muita gente na época achava que não, depois se arrependeu.


P/1 –  Por que? Tinha resistência?


R – É, sempre tem quando cria alguma coisa nova, sempre aparece alguém para ser contra, né? Algumas muito inteligentes julgavam que era melhor ao invés dele contribuir para Petros, juntar o dinheiro numa caderneta de poupança e no final de 30 anos ele tinha tantos milhões lá, né? Só que isso não acontece, não aconteceu pelo menos. Quando chegou na época deles se aposentarem, viram que não tinham apoio, eles iam ter só o INSS [Instituto Nacional do Seguro Social]. É que tiveram que abrir o negócio para eles poderem participar, mas já não receberam o que poderiam ter recebido se tivessem entrado desde o início. Tiveram que pagar, inclusive, aquilo que não tinha sido pago antes.


P/1 – E o que a Petros garantia depois de aposentado?


R – É suplementação da aposentadoria para  manter, pelo menos, 90% do que ganhava na ativa. O pessoal só com o INSS ia se aposentar? Eu por exemplo ganhava muito mais que 20 salários mínimos na época e a aposentadoria do INSS me dava só oito salários mínimos. Imagina o baque que o camarada ia ter ali em termos econômicos. Uma pessoa que tem um nível de vida na base de 20 salários mínimos, de repente, cair para oito, né? Já a contribuição, foi a fundação que foi criada para dar esse suporte. A nossa contribuição para fundação não é barata, eu pagava de contribuição para Petros e ainda continuo pagando depois de aposentado, é equivalente a duas vezes o que eu contribui para previdência social, o desconto não é barato. Era 13%, sobre o salário bruto.


P/1 – E a AMBEP no início tinha uma mensalidade, como  que era?


R – Foi criada uma mensalidade de meio por cento e até hoje todo mundo contribui, os que são sócios.


P/1 – Com dois anos, o senhor se desligou totalmente da AMBEP?


R – Não, eu ia prestar alguns serviços para os próprios associados, por exemplo, declaração de imposto de renda, chegava na época lá eu fazia declaração para todos os caras que apareciam e tinham dificuldade. É isso que eu fazia, mas depois ____. Tem gente que só gosta de chegar nas coisas que estão prontas,  daí usufruir, é o que acontece muito [risos].


P/1 – E o senhor lembra desses dois anos dentro da AMBEP, uma conquista, um melhor momento ?


R – Não, o nosso intuito, o nosso objetivo, foi atingido e está sendo atingido, né? Ela cresceu baseado na firmeza daqueles que criaram, que fundaram e aguentaram durante, pelo menos, a consolidação de suas bases, de gamas de apoio, e aí começou a entrar muito sócio. Não só gente aposentado, mas o pessoal da ativa também.


P/1 – E existia uma entidade parecida com a AMBEP?


R – Existia, Salvador na Bahia tinha. Tem várias associações, a AEPET, Associação de Engenheiros da Petrobrás.


P/1 – E como que era a relação com essas outras ?


R – Normais. São todas em defesa justamente dos mesmos interesses.


P/1 – Existe uma singularidade para ser funcionário da Petrobras?


R – Como assim?


P/1 – O senhor como trabalhador da Petrobras, existe uma diferença de ser um petroleiro, quem trabalha na Petrobras aos demais trabalhadores do Brasil ?


R – Não. É só o seguinte, em termos de tempo, hoje você vê um rapaz que está tentando trabalhar, entrar numa grande empresa, o interesse do camarada de saber logo quanto é que vai ganhar. Na minha época não era bem assim,  o entusiasmo pela Petrobras. A pessoa ingressava na Petrobras com uma vontade de trabalhar e até esquecia de quanto ia ganhar.  Era uma noção de muito patriotismo que existia naquela época com a Petrobras. Principalmente a juventude, aliás, deve ser a juventude a criação da Petrobras, a famosa história do  “Petróleo é nosso”.


P/1 – O senhor chegou a participar?


R – Eu não participei muito, houve mais participação dos estudantes da época, nessa época eu estava trabalhando, não tinha tempo de andar na rua gritando com faixa na mão [risos].


P/1 – Mas o senhor acha que foi importante?


R – Foi. Muita gente foi presa por causa disso, fichada como comunista [alguém interrompe].


P/1 – Só um minuto, só trocar a fita. [Troca de Fita].


P/1 – Vamos voltar um pouco quando você estava falando do Rio, do seu trabalho na ____. Onde veio trabalhar, o senhor viajava muito, ia contar uma história de uma viagem ____.


R – Não.


P/1 – Como  que eram essas viagens?


R – Fiz uma programação para o ano todo para fazer essas viagens de auditoria nas unidades da Petrobras, né? Eu viajava muito, principalmente para Salvador, mas eu viajava o Nordeste onde tinha Petrobras, ia até Belém,  ia para o Sul, em Porto Alegre e Curitiba, ia para  São Paulo que tem muitas unidades da Petrobras. Eu nunca fui a Mato Grosso, por exemplo, não tinha nada da Petrobras lá. Mas a área Norte, Nordeste e Sul eu viajava muito. Eram raros os meses que eu não viajava, tinha programação para o ano todo e coincidiu quando eu vim para o Rio porque eu fui concretizar o meu desejo de fazer um curso superior que não tinha em Belém. Eu cheguei aqui no Rio, uma das primeiras providências que eu tomei foi fazer vestibular para fazer faculdade, foi quando fui fazer administração. Isso também dependia de ser promovido na Petrobras, se não eu ia ficar lá como um sargento o tempo todo.


P/1 – Ficar como?


R – Como sargento.


P/1 – Sargento? Ah, sim [risos].


R – [risos] O curso superior eu passei a oficial.


P/1 – A presença dos militares estava muito presente?


R – O meu período da Petrobras foi praticamente todo com os militares. Meus chefes todos foram militares, todos [barulho de algo caindo]. Os presidentes da Petrobras era militar, general do Exército. 


P/1 – Teve algum momento em que o senhor considerou que foi mais tenso no seu relacionamento?


R – Não. Eu sempre fui muito prestigiado e muito apoiado pelos meus chefes, é uma coisa que eu sempre gosto de ser sincero [pigarreia]. Nunca fui puxa-saco, pelo contrário, sempre fui durão. Porque eu era de certa forma considerado um cara muito duro no meu trabalho, por questão de disciplina e tudo e isso eles davam muito apoio. De vez em quando eu era designado para fazer determinados serviços, e chefiar. Me nomearam para um cargo que era duro de roer, né? 


P/1 – E como que eram essas outras unidades da Petrobras, eram bem diferentes entre elas?


R – Não, essas visitas eram para haver uma uniformidade de tratamento com relação às normas e aplicação das normas, para não haver disparidade. Petrobras é muito grande, né? Você vai no Rio Grande do Sul,  na refinaria, no terminal [pigarreia], tinha que ter os mesmos sistemas de aplicação inócuo que  era aplicada aqui. Tanto no Nordeste, no Norte, tem a mesma ____. Inclusive foi feito na época uma atualização, praticamente foi criado um manual, os manuais de normas de pessoal foi o órgão que eu trabalhava e participei ativamente, quando ficou pronto, eu levei, viajei em todas as unidades fazendo palestras sobre aplicação dessas normas, explicando como elas deveriam ser aplicadas. Viajei essas unidades todinhas para implantação desse novo manual.


P/1 – E o senhor ficou até quando nessa função?


R – Eu fiquei [pigarreia] até 1973 ou 1974,  quando fui nomeado para chefiar um órgão de pessoal daqui da sede, aí eu deixei de viajar, porque passei a trabalhar com o pessoal daqui mesmo, mas em compensação o volume ___. Na sede eu comandava o meu órgão, o órgão de controle, o movimento me passou um controle de pagamento de todo pessoal da sede, só no prédio da Petrobras tinha mais de mil pessoas, fora ter outros pequenos órgão por fora, Ilha do Fundão e tal. Isso tudo era controlado, eu pagava desde o servente ao presidente, o meu órgão é que emitia folha de pagamento, só não podia errar, já pensou errar o contra-cheque do presidente, do diretor?


P/1 – Houve algum caso?


R – Havia, mas a gente tinha que saber sair, mas eram gente boa, os diretores.


P/1 – O senhor ficou até quando?


R – Nesse órgão eu fiquei até me aposentar, em 1981. Eu fui pra lá em 1974. Esse órgão que eu chefiava, tinha 60 e poucos subordinados e cada ___, divididos em áreas de atividades, cada área de atividade tinha um encarregado [pigarreia], eu não podia comandar os 60 e poucos direto, tinha que ser através dos encarregados. Bem que eu ia, convivia diretamente com muitos, eu nunca ficava sentado, ficava correndo. Se você olhar o prédio da Petrobras era no quarto andar. 

 

P/1 – O senhor resolveu aposentar porque tava trabalhando bastante?


R – Não, eu me aposentei pela questão econômica, porque pelos cálculos que eu fiz, já estava trabalhando de graça, eu podia aposentar e ganhar a mesma coisa.


P/1 – Chegou um momento que não estava valendo mais a pena, né?


R – Não, isso na Petrobras, né? A da ____ já foi outra questão que não era questão do dinheiro, é que eu não queria mais ter preocupações e ficar aquela tensão. Lidar com pessoas, problemas de relações e tal, é difícil.


P/1 – A gente já está indo para o final da entrevista, o senhor comentou que não tem mais uma relação próxima com a AMBEP, mas o senhor teria condições de dizer como que vê o futuro dela?


R – Se eles souberem segurar a peteca,  a tendência é crescer. Porque às vezes uma entidade dessas, exige sacrifício, não é moleza. Primeiro que ali ninguém vai para querer ganhar dinheiro, ia dar mais sacrifício. Eu por exemplo, não ganhava nada na AMBEP, nem a AMBEP pode pagar salário para diretor, se não ainda vai ter que pagar imposto de renda, sabia dessa? Não pode!  A única coisa que se ganhava era o almoço,  não era um almoço de magnata, era um almoço normal.


R – Tem alguma coisa que o senhor quer falar? Para a gente já ir terminando a entrevista.


P/1 – Eu acho que eu discorri bastante sobre [barulho de algo se mexendo]. Eu tinha umas anotações, mas isso eu mesmo já falei. Foi justamente essas épocas em que eu fui três vezes transferido na Petrobras, de Belém para Manaus, depois de Manaus para Belém e de Belém para o Rio de Janeiro. Eu quando estava aqui no Rio de Janeiro, já há uns dois anos antes de me aposentar, me convidaram, aliás, para chefiar o órfão de pessoal na Bahia, Salvador,  eu tive que dar uma _________ , não aguento mais. Porque cada vez que você muda, principalmente de cidade, é uma parada, né? Principalmente quem é casado, tem filhos, é como se você tivesse casando de novo, começar tudo de novo, se adaptar em outro lugar, daí me pediram para indicar um outro colega para ir pra lá e eu indiquei,  esse rapaz se deu bem. Está hoje em melhor situação do que eu.


P/1 – Senhor Mário, última pergunta, o que o senhor achou de ter participado dessa entrevista, do programa Memória Petrobras? 


R – É muito bom. Eu já tinha tomado conhecimento no site da Petrobras, que tem uma parte lá para o pessoal contar pedaços das suas vidas. Achei muito frio o negócio, é muito melhor um papo, você não acha? Porque a outra pessoa acaba puxando mais alguma coisa da gente, que a gente às vezes não está lembrado na hora e é muito interessante. Eu quando converso com alguns colegas, por exemplo, sou sócio de um clube aqui na Tijuca e tem uns amigos lá e às vezes ficam puxando conversa e eu fico contando essas histórias da Petrobras.


P/1 – Então tá bom,  obrigado, tudo ótimo.


R – Pra mim foi ótimo, na época eu era solteiro. Eu andava de motor de ____________. Eu tinha direito a motor de popa, né, andar no rio: zuuuuuu! Era uma beleza daquela paisagem. Imagina eu com uma máquina fotográfica digital lá, o que eu não podia ter documentado na época.


P/1 – Então tá bom, Senhor Mário, vamos só ______.

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