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História

Do interior de Passo Fundo para as pistas do mundo

História de: Elói Rodrigues Schleder
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2005

Sinopse

Elói Rodrigues Schleder fala das origens de sua trajetória esportiva. Desde as grandes caminhadas ao colégio nas estradas de terra de Passo Fundo que levaram, mais tarde, aos destaques individuais em campeonato escolares, e que culminaram na consolidação de uma carreira como atleta profissional. Elói ainda conta sobre a vida no campo, o relacionamento com seus pais e de suas maiores conquistas nas pistas de atletismo.

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História completa

P- Então, Elói. É o seguinte: nós vamos começar por pelas perguntas mais básicas, simples… de a gente localizar na memória. A gente queria saber assim, começa com uma ficha, né? Você dá o seu nome, data e local de nascimento e eu vou perguntando mais algumas coisas, começando por aí.

R- Tudo bem. Meu nome é Elói Rodrigues Schleder, nascido em 26 de julho de 1951, numa fazenda no interior de Passo Fundo, no Estado do Rio Grande do Sul.

P- O nome dos seus pais e avós também.

R- Os avós... é... os paternos eu num... Tá. Eu conheci eles quando eu era muito pequeno. Então, eu tenho vagas lembranças deles. Era Antônio Garbis Schleder e Ubaldina Rocha Schleder, avós paternos.

P- Paternos.

R- Avós maternos Eustáchio Joaquim Rodrigues e Eudócia Ribas Rodrigues.

P- E seus pais?

R- Meus pais: Pedro Rocha Schleder e Francisca Rodrigues Schleder.

P- Você disse que conheceu pouco seu avós pelos dois lados, materno e paterno?

R- Não, os avós maternos eu lembro bem deles porque nas férias normalmente a gente ia passar a temporada de férias na casa deles, e tal. Agora, os avós paternos, como faleceram antes, então eu era muito pequeno quando eles faleceram e eu tenho lembranças muito pequenas deles.

P- Havia uma distância de idade maior, é isso?

R- Havia. Porque a família do meu pai eles eram em doze irmãos...

P- Doze irmãos...

R- Tá. Então, e não sei se os filhos tiveram os filhos já um pouco mais tarde. Eu acho que o meu avô também ele faleceu um pouco cedo, me parece.

P- Quantos anos? Você lembra?

R- Eu não lembro exatamente. Mas eu, inclusive, tem uma história que meu pai sempre conta que ele também tinha um certo medo de ir ao dentista porque meu avô faleceu,  parece, que de um dente que infeccionou...

P- Nossa! [risos]

R- [risos] Então, na época, as coisas não eram tão fáceis como hoje.

P- Com certeza.

R- Então, ele teve uma infecção dentária e faleceu. Por isso que eu acho que ele faleceu com idade não muito avançada.

P- E a gente está falando de que época? Você sabe, mais ou menos, que época que foi que seu avô faleceu?

R- Eu num lembro exato o ano, mas deve ter sido em 50 e alguma coisa, antes de 60.

P- Ok. E pelo lado da sua mãe, você teve mais relacionamento?

R- Tive, tive. Porque eu lembro bastante dos avós. Pô, eu já estava em época de escola tudo e... e eu lembro que uma das coisas que a gente gostava era nas férias. Ir passar na casa dos avós. Eles moravam numa cidade do interior do Paraná. Então, pra gente era uma viagem vir do Rio Grande do Sul pro Paraná. Uma época que o transporte era um tanto difícil e a gente passava a época de férias na casa deles. Tinha um tio, por parte do meu pai, que tinha serraria e meus avós moravam, trabalhavam nessa serraria. Então a gente passava as férias na casa deles, sabe? Ia na serraria, ia com os motoristas no mato buscar os pinheiros para serem serrados... Você ajudava por lá, mexia no escritório... Quer dizer, era uma festa.

P- E essas memórias dos seus avós, você sabe identificar a origem deles, de onde? Se eles são imigrantes? Porque os sulistas geralmente são imigrantes, né? Como é que foi a origem deles, familiar? A origem familiar dos dois lados da família...

R- É porque os meus avós maternos moravam no Rio Grande do Sul. Depois esse tio veio pro Paraná, montou uma serraria e meu avô trabalhava com ele na serraria. Então, a origem deles, a minha mãe tem alguma coisa de origem indígena.

P- Certo.

R- Eu não lembro. e parece que é por parte da minha avó que tinha uma descendência indígena. E, pelo lado dos avós paternos, meu avô não, mas eu acho que o avô do meu pai me parece que veio da Alemanha. Uma leva de imigrantes que vieram. Então teve uma parte que foi pro... acho que pro Paraná ou Santa Catarina. Outra parte ficou no sul. Então tem uma descendência. Meu pai, por exemplo, não fala alemão. Porque eu acho que na casa dele o pessoal, tipo, não falava. Mas me parece que o avô dele tinha vindo da Alemanha.

P- Schleder, né, sobrenome alemão.

R- É.

P- Bom, você conviveu mais, então, nesse período, com seus avós maternos nessas idas ao Paraná?

R- Isso. E normalmente, quer dizer, sei lá... Uma vez por ano também nas férias deles, eles também. Porque como eles moravam no sul e vieram para o Paraná, ficaram dois. Tinha a minha mãe e tinha uma irmã dela. Quer dizer, uma tia minha que também morava lá, no sul. Então, de vez em quando, eles iam visitar os filhos, e tal, e a gente também tinha o contato com eles lá. Mas o contato maior era quando nós vínhamos passar normalmente as férias na casa deles.

P- E os seus pais? Quais são as memórias que você tem dos seus pais? O seu pai fazia o quê? Que tipo de atividade ele desenvolvia?

R- Meu pai ele nasceu no interior. Quer dizer, na época, não sei se por dificuldades de instrução, frequentou acho que só até… não sei se o terceiro ou quarto ano primário. Minha mãe também. Então, eles sempre foram do trabalho bem rural mesmo. A minha mãe sempre cuidou de casa, e tal. Meu pai trabalhou, essencialmente, na agricultura. Porque, na época que eles se criaram, quer dizer, era normal eles lutarem para conseguir alguma coisa. Quando saíam de casa, quando casavam, formavam a sua nova família. Então, eles vendiam aquilo que eles tinham conseguido com o trabalho, compravam um pedaço de terra pra se fixar. Eu lembro que o meu pai conta que ele trabalhava numa serraria, ou coisa assim, e conseguiu alguma coisa. Depois, na época de casar, ele vendeu tudo aquilo que ele tinha pra comprar um pedaço de terra pra ele. Até hoje a atividade dele é com agricultura. É claro que hoje ele já está com uma certa idade. Então,  ele não trabalha diretamente. Mas tem as pessoas que moram nas terras que ele tem. Que plantam, que colhem, que dão uma percentagem da produção pra ele. Outras partes ele tem arrendadas. Quer dizer... então a atividade dele é essencialmente agrícola. Um pouquinho que ele planta e é claro que quem tem um pedaço de terra também tem criações, tem gado, cavalos... Uma vez ele teve uma pequena, mas teve, uma criação de ovelhas. Quer dizer, a maior parte pro consumo. Porque normalmente, no interior, as pessoas, digamos, têm mais fartura das coisas agrícolas do que normalmente a gente tem na cidade. Então, ele criava tipo pra consumir, pra… sei lá, festas de aniversário dele, esse negócio assim. O próprio alimento era produzido lá. Ele mandava beneficiar, guardava, o excedente era vendido.Trabalhava especificamente com esse tipo de atividade e era basicamente isso. No início, morava-se na fazenda, na terra. Depois, por necessidade de estudos da gente, dos filhos, ele foi morar nessa vila Água Santa que ficava, sei lá... seis ou sete quilômetros distante da fazenda onde a gente morava anteriormente. E depois, essa vila só tinha até acho que a 5ª série. Parece que era. Aí a gente foi pra Passo Fundo, que já é uma cidade bem... bem maior, onde tem uma universidade e tudo. Então, por necessidade de estudo, a gente foi se transferindo. E hoje ele ainda mora nessa cidade. Mas sabe,ele está sempre ligado às atividades agrícolas dele. Porque está toda semana indo pra lá, vendo como as coisas estão andando, controlando. Está direto em contato.

P- A mesma fazenda que ele tinha desde que ele se casou, ele tem até hoje.

R- Isso, isso. Quer dizer, se desfez de alguma parte, e tal, com o tempo. Mas, basicamente, é a mesma.

P- E seus irmãos? Vocês são quantos irmãos?

R- Nós somos em três irmãos. Eu estou aqui em São Paulo. Meus dois irmãos estão no sul. O mais novo é gerente de uma unidade da Caixa Econômica Federal em Espumoso, uma cidade próxima a Passo Fundo. E tenho uma irmã também, mais velha que eu, que trabalha e mora em Passo Fundo. O trabalho, a atividade dela, é comercial. Trabalha com loja de roupa, de confecções. Então, foi ligada a esse ramo de atividade.

P- Você foi o único que saiu pra mais....

R- É... Eu comecei a fazer atividade esportiva na época de colégio. Quer dizer, eu tive duas opções na época que estava, sei lá, crescendo na atividade esportiva. Eu tive um convite para ir a Porto Alegre, o outro pra vir pra São Paulo. Então, na época, eu pesei. Pensei e decidi ir mais longe [risos]. É claro que os pais sentem a saída de casa. Minha mãe: "Pô, vai ficar longe”. Sabe, uma vez por ano às vezes vou pra casa. Mas, com o passar do tempo, ela acabou entendendo. Não interferiu em nada. É claro que qualquer pai, eu acho, sente a distância quando um filho sai de casa. Mas sabe que está indo pra seguir uma atividade profissional, o seu caminho. Faz as suas ponderações, mas não coloca obstáculo nenhum.

P- Ô Elói, e lembrando assim um pouco mais do cotidiano da família. Como é que era a sua infância e o cotidiano de casa? Como é que era o jeito do seu pai, da sua mãe, em relação às filhas, os filhos, os irmãos, enfim, como era isso tudo?

R- Bom, meus pais. O relacionamento com a gente, com os filhos, eu coloco assim: como nasceram, se criaram no interior, sabe? Família grande, descendência germânica, então tudo isso aí colocam... tá... Um bom relacionamento com os filhos, mas não muito afetivo. A gente tinha dificuldade de chegar, se aproximar, abraçar, beijar... Porque você foi criado numa... sabe num sistema de criação um pouco diferente do que a gente percebe ou exerce hoje em dia? Então, quer dizer, a gente tinha aquele relacionamento, todas as coisas, não teve necessidade de nada na fase de crescimento da gente. Estudou nos melhores colégios da cidade, não teve necessidade praticamente de nada: de alimentação, vestuário, estudo, instrução, nada disso. Simplesmente, sabe aquela afetividade que não sei... cada um tem uma? Uma forma de perceber, de sentir. Eu acho que poderia ter sido mais próximo. Um relacionamento mais afetivo. Com os irmãos a gente tinha um bom relacionamento. Daquele irmão que protege o outro, que brinca junto, sabe? Eu acho que a infância minha, dos meus irmãos, foi bastante rica. Porque a gente passou, se criou no interior. E no interior as opções são muito maiores do que na cidade. Quer dizer, as opções são naturais. Na cidade, elas são muito artificiais, muito construídas. Então a gente andava muito, sabe? E as coisas naturais da vida: subir, descer, pular, mergulhar, cavar… tudo aquilo que o garoto normalmente faz. Eu lembro que a gente tinha os times, por exemplo, que a gente andava quilômetros pra ir jogar uma partida de futebol. E aquilo era gostoso. Você ia, não cansava. Por quê? Porque fazia parte do seu cotidiano. Meus primeiros anos de escola, eu andava quilômetros pra ir na escola. Questão de gastar uma hora, uma hora e pouco pra chegar até a escola pra estudar. Por quê? Porque era o meio de transporte. Quando você ia visitar alguém, você tinha que andar também quilômetros. Então fazia parte do seu cotidiano. E não sei, parece que a gente, as coisas eram mais naturais, mais saudáveis. Então os obstáculos se tornavam pequenos. Hoje em dia, pra andar cinco: “ah não, é longe”,  “ah, não vou”, “ah, sobrecarrega”. Quer dizer, não sei. Parece que, com o passar do tempo, as coisas evoluem e a vida parece que vai se deteriorando um pouco.

P- É... Quais são as memórias da casa? Como era a casa da sua infância assim? É sempre uma memória que fica muito forte, né?

R- Bom, a casa. Eu lembro que a casa onde eu nasci, pra interior, pra ritmo de fazenda, era uma casa de madeira, mas muito boa. Porque, normalmente, eram feitas de madeira, madeira bruta, que a gente morou inicialmente. Onde eu nasci, era uma casa de duas paredes, como a gente falava. Forrada internamente, era uma casa... tinha, eu acho, que três ou quatro quartos, varanda, sala… aquelas casas grandes, coberta de madeira também, de tabuinha. Por quê? Porque era construção da época. Casa como de fazenda. Ela ficou tipo em pé acho que quase 40, 50 anos. Uma casa de madeira que durou todo esse tempo.  Era muito boa. Depois, a gente mudou pra uma outra nessa outra vila que a gente foi morar, que era Água Santa. Aí já foi uma casa comprada, mas também num terreno. Eu não lembro a metragem. Mas tipo dois, três mil metros de terreno. Uma casa muito grande, com gramado, horta, espaço pra você ter animais como a gente tinha. Vaca de leite e tudo. Depois disso, a terceira foi essa que meus pais moram atualmente, que foi em Passo Fundo. Também por ser uma casa já num centro urbano, numa cidade, mas também era grande. Um terreno de... acho que mil, mil e duzentos, mil e quinhentos metros quadrados. Uma casa com três ou quatro quartos, sabe? Bastante grande. E hoje em dia meus pais moram lá. Pra ritmo de cidade, onde é hoje, por exemplo, eu moro numa casa que tem, sei lá... cento e cinqüenta metros quadrados de terreno. Meu pai mora numa casa que tem o terreno de mil e duzentos… Os espaços são maiores, a liberdade é maior, a casa também. Com o passar do tempo, era de madeira. Ele mexeu, reformou, não destruiu a casa. Simplesmente suspendeu, construiu paredes de alvenaria por fora. Internamente, ela continua de madeira. Então, tem todo um ritmo, sabe? E eu morei nessa casa de 61 a 72. São onze, doze anos. Uma fase da sua infância, de crescimento, que você guarda muitas lembranças. Onde a cidade era pequena. Nesse período que eu morei lá, ela cresceu. Coisas que existiam próximo da nossa casa que passaram a não existir. A rua era de terra, depois foi calçada. Passava um córrego próximo. Hoje, o córrego já está canalizado. Você não vê mais. Nesse córrego, a gente fazia, eu lembro que com os irmãos, com meu irmão na época e com os amigos, a gente brincava de fazer caverna, coisas que hoje até você fica pensando: "Pô, como a gente tinha cabeça pra fazer?" Até corria risco, porque você faz uma caverna, entra três, quatro metros lá pra dentro. E se aquilo aquilo desmorona? Coisas que na época eram brincadeiras. A gente tinha tipo um exército de... sei lá, uma brincadeira que a gente fazia muito de espada, escudo, que fazia de madeira, de lata. Pô, a gente tinha um exército. Da rua de baixo contra a rua de cima. Um fim de semana a luta era no reduto dos adversários. Depois, na outra semana, eles vinham no nosso forte. Umas coisas que hoje em dia você não vê mais esse tipo de coisa. Isso aí eu acho que grava, marca muito. E não sei se essa formação que eu tive, muito com a natureza, de muito movimento, acho que tem influenciado, mais tarde, no tipo de atividade esportiva que eu vim a fazer. Porque é uma atividade que exige, perseverança, resistência. Eu acho que isso eu adquiri na minha formação. Então por isso que hoje em dia, não sei... Parece que poucos se destacam porque os movimentos são pequenos. O espaço é reduzido. Você cresce, se desenvolve, mas num desenvolve todas as potencialidades físicas. Eu acho que você fica meio bloqueado. Passa a não usar todas as capacidades que você teria condições de usar e, às vezes, um possível talento fica meio perdido, ofuscado.

P- Então, você está falando das atividades assim de brincadeira de infância. Eu queria saber como é que o seu pai reagia, porque você disse que ele tinha um certo distanciamento. Como é que ele reagia em estimular o aprendizado dos filhos, e como é que que você foi descobrindo os seus talentos aí pra área desportiva, né?

R- Não. Com relação aos pais, eles num direcionavam, sabe? Tipo, não influenciavam. Então eu acho que  o que aconteceu, principalmente, comigo foi um negócio mais espontâneo. A gente tinha liberdade de fazer as coisas. É claro que, primeiro, a responsabilidade pelo trabalho, que seria o estudo na época. A gente só estava estudando. Eu até saí de casa. Eu só estudei, não trabalhei nem nada. Eu vim trabalhar quando eu me transferi pra Santo André. Então, a preocupação deles era com a formação dos filhos. Minha irmã estudou em colégio pago. Meu irmão, eu... a gente concluiu os estudos até entrar na faculdade. A preocupação deles era com a formação, com as condições que os filhos teriam.  Tipo, tem necessidade de roupa, de material… Tudo a gente tinha. Agora, as atividades não… eles num direcionavam: "Vamos! Vai estudar pra ser isso, vai ter essa profissão ou aquela" . Quer dizer, meu irmão decidiu fazer o que ele achou que deveria fazer. Minha irmã também. E eu, na época de fazer, eu fiz. Eu lembro que fiz contabilidade, colegial. Comecei a fazer contabilidade, depois: "Ah não, quero fazer colegial também." Aí fiz os dois cursos paralelos. Então, nada foi direcionado. Meu irmão também fazia atividade esportiva e tal, mas não se encaminhou pra fazer isso como profissão. Eu já comecei a fazer, peguei gosto. Meu pai, pra você ter uma idéia, nas atividades que eu fazia lá na cidade, que eram atividades de corrida, às vezes ele ficava lá numa esquininha, num cantinho, olhando, e tal. Mas não era aquele que, pô, ia junto, vibrava, dava força. Não. Por quê? Porque era o jeito dele. Ele foi criado assim. Então num era de dar força, de chegar: "Pô, não filho, vai lá. Faz, num sei o quê... está certo." Sabe? Dar um apoio. Ele não falava, não dizia “não”, mas também não chegava e não te dava um incentivo maior. Se você queria fazer, tudo bem. Vai, faz. Era o jeito dele. Até hoje em dia ele é assim. Quer dizer, a gente vai, chega em casa... Agora, eu fico às vezes um ano sem ir pra casa. Chego lá, vou cumprimentar, vou dar um abraço… Sabe quando ele vem e abraça? Mas meio... Porque é o jeito dele. Eu não culpo que ele esteja errado. Ele foi criado assim, pra ele está certo. Eu sinto às vezes uma necessidade. Daquele pai que chega, abraça, bate nas costas, dá um apoio, se aproxima mais. Mas o jeito dele não é assim. A mãe não. A mãe já é mais carinhosa, mais próxima. Por quê? Porque teve mais contato com os filhos. Agora, ele não. Era o jeito dele. Então, quando eu resolvi começar a fazer atividade, ele se ligava e tal. Mas não demonstrava. Eu acho que, interiormente, ele até sente. Ele gostaria de ser diferente, mas ele não demonstra. Eu percebo hoje em dia. Eu vou em casa, como há pouco tempo eu fui com meus filhos, então ele  está com os netos. A gente sente que ele quer fazer carinho, quer se aproximar. Quando a gente sai de lá, a gente percebe que as lágrimas correm, correm… Ele tem sentimento, só que a forma de extrapolar, de manifestar, é que é  diferente. É de acordo com o ritmo da criação que ele teve.

P- E como é que foi acontecendo essas descobertas da sua carreira profissional assim?

R- Isso aí foi através da época de escola que eu comecei a fazer. Sempre a gente foi muito ligado atividade esportiva. O que o garoto normalmente faz? É o futebol. Então é futebol na rua, na esquina, no campinho... Onde tem um espaço vazio está se jogando futebol. Claro que eu não fui diferente disso. A gente tinha, próximo de casa, por exemplo, uma serraria que jogava a serragem num espaço, num brejo lá. E aquilo foi se acumulando. Com o tempo, ficou um perfeito campinho de serragem. Era, como se fala, a maior delícia pra se jogar. E a gente, pô, toda tarde jogava lá até escurecer. E aquilo ali, depois campinho aqui, time ali, e a gente sempre jogando. Eu cheguei a fazer parte da equipe do colégio. Depois, tinha um clube profissional na cidade. Cheguei a fazer parte da equipe juvenil do clube.     Jogando futebol, e como está, não é que eu não tivesse habilidade. Se eu fazia parte do time, era porque me destacava. Mas eu sempre fui muito de... Não sei se porque como eu nasci na fazenda, andava muito. Então, eu tinha muita resistência. Mesmo no jogo de futebol, eu corria o tempo todo. E essa resistência que eu devo ter ganho na minha fase de formação, no meu desenvolvimento, eu vinha trazendo isso. E tinha as olimpíadas. Eu lembro que olimpíadas escolares na escola, eu fazia de tudo: jogava vôlei, futebol, basquete, fazia atletismo. E lá eu me destaquei. Participava. Não tinha biotipo. Mas eu lembro que fazia peso, dardo, salto em distância, velocidade, resistência. E nessas atividades, sabe quando dá aquele estalo? "Pô, se eu tô ganhando aqui, eu tenho alguma qualidade a mais que os outros. Sem treinar eu tô me destacando. Se eu treinar, será que não vou fazer melhor?" Aí deu aquele estalo: “Vou começar a treinar". Só que meio sem orientação. Por quê? Porque a cidade num tem equipe, um grupo, um técnico, nada. Então você começou a treinar instintivamente. Eu corri e ganhei. Se eu treinar, não vou conseguir ir mais longe? Eu comecei a treinar, tipo, duas vezes por semana. Tinha uma, duas corridas na cidade. Comecei a tomar parte. Eu chegava lá: segundo, terceiro… Chegava na frente. Aí você começa. Eu acho que foi um negócio assim meio espontâneo, instintivo. Comecei a pegar gosto. E a partir daí que você começa a fazer a atividade. Os degraus começam a se modificar. Eu estava aqui, eu não via o passo seguinte. A partir do momento que eu comecei a subir, comecei a visualizar novos caminhos. A partir daí, você vai pegando mais gosto pela atividade. E chegou a um ponto que eu acho que é isso que eu quero. Então, um exemplo: eu estava fazendo 3º colegial e no colégio a gente optava quem iria pra humanas e pra biológicas. Aí eu digo: "Não, vou fazer. Está na época. Eu acho que eu queria fazer medicina”. E foi na época que eu estava começando a fazer atividade esportiva. Aí chegou tipo na metade do ano e eu disse: "Não, não vou fazer medicina. Vou fazer educação física pra continuar ligado com a atividade esportiva". Mudei o direcionamento e pá. Fiz. Tentei Educação Física direto. Por quê? Porque eu acho que foi uma inclinação natural. Meus pais não falaram nada: "Não, não, tem que fazer medicina. Porque medicina tem mais status, ganha mais". Nada disso. Ninguém falou nada, tá. Eu fiz Educação Física porque eu estava começando a ter contato com a atividade e estava me fascinando aquilo. Aí fiz Educação Física. Passei, comecei a cursar a escola, e dando seqüência ao treinamento dentro da atividade esportiva, competindo já. Então eu já estava competindo a nível municipal. Já fui competir a nível estadual, já ganhei competições. O negócio começou a abrir o espaço. Aí eu digo: "Não, é isso que eu quero fazer". Aí me dediquei a fundo e eu acho que fui longe.

P- Com certeza. Falando de escola aí, eu queria que você recordasse pra gente como é que foi essa formação, sua relação com a escola, né? Como é que te influenciou, pegando assim meio retrospectivamente desde o início?

R- Bom, escola. Eu lembro que os dois primeiros anos eu estudei lá na fazenda, escolinha de fazenda. Onde… num lembro, mas eu acho que devia ser tipo de primeira série. Eu não sei se tinha quinta série, eu acho que não tinha. Primeiro, segundo e terceiro ano era uma classe só. Um professor para todos os alunos, como deve ter até hoje em dia em determinados sítios ou fazendas. Eu lembro que fiz o primeiro ano nessa escolinha próxima da minha casa. Depois, eu fui morar um ano na casa de uma tia minha pra fazer o… Pra você ter uma ideia, eu fiz primeiro ano atrasado e primeiro adiantado. Cursei duas vezes. Fui fazer o primeiro adiantado na casa dessa tia,  que ficava próximo de uma escola também. Depois, daí a gente mudou pra Água Santa que seria a vila. Lá eu fiz segundo, terceiro e quarto ano do primário. Eu acho que colégio de irmãs. Era colégio de irmãs. E eu lembro que a gente ia... Pô, a vila não tinha rua calçada, não tinha nada. A gente ia descalço pra escola. Teve uma época até que, acho que foi no terceiro ou quarto ano, eu não lembro, que meu pai… Tá, um presente que eu ganhei no Natal. Tipo, foi uma chuteira. Eu ia de chuteira pra escola. Por quê?  Porque eu ia calçado e todo mundo ia descalço. Era demais. E depois, no quarto ano, do quarto pro quinto, daí a gente mudou pra Passo Fundo. Aí eu já passei a frequentar um colégio de irmãos maristas. E lá eu fiz todo o primeiro e segundo grau. Fiz até contabilidade e colegial nesse colégio de irmãos maristas. E daí prestei vestibular lá na cidade também que tem universidade  e tal. Universidade particular. Ingressei na faculdade lá também. Então, a época de formação de escola foram essas três escolas. Digamos: a da fazenda, depois da vila, que já era um colégio maior, que tinham salas específicas pra cada série. E depois o colégio, esse de Passo Fundo que era o maior e o melhor colégio da cidade. Era colégio pago, sempre estudei em colégio pago. Só depois, na faculdade, que daí eu já consegui bolsa. Então o negócio facilitou. Mas senão, meus pais estavam bancando o colégio pago meu, do meu irmão e da minha irmã. A preocupação que os pais tinham, você vê, era investir nos filhos, na formação. Meu pai tinha aquela... tinha não. Tem aquele conceito: vou dar condições pra eles conseguirem. Não vou dar as coisas tipo gratuitamente, de mão beijada. Então a gente cresceu, saiu de casa, casou. Os três filhos são casados, mas todos têm o que conseguiram. Meu pai não deu uma casa pra um, um terreno pra outro, um carro pra outro, entendeu? Ele deu a formação. A condição da gente, posteriormente trabalhando, conseguir. Hoje, todos estão relativamente... têm as coisas necessárias. Não passam necessidades pelo que conseguiram, pela formação que os pais deram. Então essa preocupação eu acho que eles tiveram. Coisa que, hoje em dia, a gente até pensa: "Pô, será que é correto você dar as coisas sem saber o custo que teve, da onde veio". Talvez seja melhor você ensinar a pescar do que dar o peixe só pra mastigar.


 P- Pegando de lado assim de memória afetiva. Assim de passada essa fase, pode ser uma coisa mais abrangente, de infância, adolescência. uais são os momentos que você se lembra que você teve dificuldade, que você viu a vida assim... com problema? Onde é que você detectou problemas de decisões, de relacionamento?

R- Nessa fase assim eu não guardo muita coisa no sentido que foi uma fase difícil, que a gente teve que optar e o que pensar ou teve que dar um tempo pras coisas melhorarem e tal. Eu lembro que a gente não tinha aquilo que queria, mas você tinha o básico, o essencial. Eu acho que isso é o mais importante, sabe? A gente foi tendo as coisas. Meus pais conseguiam, mas não era assim: eu quero isso, pô, já vai atrás, já corre. Eu vejo hoje meus filhos. Cada dia que a gente sai, eles querem uma coisa. E às vezes a gente até, não sei se instintivamente, vai dando. Por quê? Pô, parece que ele fica mais alegre. Mas não sei se é o correto. Meus pais não. Quer dizer, a gente ia tendo. Mas, sabe, o negócio era mais demorado. Eu lembro que inicialmente, a gente assistia televisão na casa do vizinho. Lembro, na época, num sei, uma coisa que a gente gostava era... acho que a Família Trapo. Parece que é. Eu ia toda noite que passava. A gente ia lá pra assistir. O  vizinho tinha a televisão e a gente não tinha. E a gente tinha mais condições do que o vizinho. Depois, com o tempo, ele comprou uma televisão. Precisava comprar alguma coisa, ele comprava. Mas não era tipo: “Não, precisa. Já amanhã ou no mês seguinte vamos comprar”. Isso aí a gente era devagar, era lento. Carro, por exemplo, ele tinha um caminhãozinho que desde quando a  gente morou na fazenda, ele tinha condução, tinha carro. Na época, quem tinha carro, era mais que os outros. Ele tinha uma caminhonetezinha 29. Quem tinha aquilo era gente já que tinha posses, no caso. Depois ele vendeu aquela, comprou uma maior e tal. Quer dizer, tinha condição pra comprar um carro pra cidade? Tinha. Mas ele tinha aquele caminhãozinho. Por quê? Podia andar na cidade e atendia às necessidades dele, que ia lá pras terras, trazia as coisas, a gente ajudava. O que ele produzia, ele conseguia carregar, vender. Então, era o necessário. Isso ele teve até eu sair de casa. Depois ele vendeu, comprou outro. Hoje em dia, por exemplo, ele tem condição de ter um carro novo? Tem. Só que ele não tem. Ele tem um usado. Por quê? Porque é muito apegado às coisas materiais que lhe custaram pra ele conseguir. Ele conseguiu trabalhando, com o suor. Hoje em dia a gente, tipo: o que você recebe num mês dum lado, você já gasta na outra ponta. Ou já está tudo comprometido aquilo que você recebe. Ele pensa... ou pensava... Pensa no sentido de, pô, vamos guardar porque eu não sei o que que vai acontecer no amanhã. A gente, hoje em dia, já pensa mais no hoje. Talvez seja o correto. Vamos usufruir o que a gente está conseguindo. Inclusive hoje a gente fala: " Pega, vende alguma coisa, sabe? Vai viajar, vai passear, vai aproveitar". Mas ele não. É apegado às coisas. A gente comenta: "Amanhã… depois… todos têm o mesmo fim. Vai morrer e vai deixar tudo isso aí pros filhos. Pega e aproveita um pouco". Não. Não se desfaz. Tem muito apego. Por quê? Porque aquilo, na época que ele conseguiu, era realmente difícil de se conseguir. É muito apegado. Pra gente não teve, assim, um dilema maior no sentido: "Pô, teve um problema ou aconteceu alguma coisa, e tal". Coisas... dificuldades assim.  Mas que hoje são dificuldade, amanhã já não são mais. Então, são problemas pequenos, que não marcaram assim. Alguma coisa que marcou como, por exemplo: eu citei que a gente gostava muito, visitava muito os avós. Quando perdeu uma avó, um avô…  Isso aí foi uma coisa que marcou. Por quê? É uma perda de alguma coisa que você queria bem. Então isso foi um obstáculo, digamos assim, na formação, no desenvolvimento da gente. Agora, dificuldade que a gente teve pra chegar aonde chegou, eu acho que não. Que marcou principalmente, parece que não tiveram tantas não.

P- Bom, vamos falar da sua vida profissional, quer dizer, como que foi o início? Você disse que começou a perceber e já teve um instinto de que ia ser sua carreira. Já fez a faculdade, né? E a partir daí como que foi, como é que foi acontecendo os primeiros passos aí das...

R- Então...

P- ...suas vitórias?

R- Os primeiros passos começaram na escola. Teve uma atividade, uma competição interna, olimpíada interna nesse colégio que eu frequentava. Eu participei, me destaquei, algumas eu ganhei, outras não. E sempre eu tendo aquele gosto pela atividade esportiva. Não que eu não fosse bem na escola. Em aula, eu lembro que a gente passava sem fazer exame. Passava por média. A média, acho que acima de sete, você passava direto sem fazer exame. Então, normalmente eu passava por média. Era um bom aluno, aproveitava e também me dedicava bastante à atividade esportiva. Por quê? Porque eu tinha liberdade pra fazer e a gente tinha aquela consciência que a gente foi criado. De honestidade, seriedade no fazer das coisas. Como eu fiz essas atividades na escola, me destaquei. Aí a escola foi participar de uma atividade a nível estadual. É uma olimpíada estadual dos colégios maristas. Nós fomos participar. Eu fui, não lembro... Acho que eu fui fazer parte do futebol, voleibol e atletismo. E eu não era o melhor elemento do meu colégio pra correr. E chegou lá, na última prova, era a corrida. Corrida de resistência nas ruas da cidade e tal. E o meu colégio dependia de ganhar essa corrida pra ser o campeão geral da olimpíada. E aí a equipe toda foi. Vamos todo mundo... sabe? TIpo aquilo: “a união faz a força”. Então vai a delegação toda pra correr. E eu estava no meio só que não era o melhor elemento pra correr. Tinha o outro que era mais forte, que corria melhor. E nesse dia eu corri  e tal. O outro aluno lá não sentiu bem. Aí eu corri e ganhei a prova. E, sabe, comentários de outras cidades. Outros colégios tinham elementos que eram fortes, experientes já, e eu corri e ganhei deles. Digo, se eu ganhei de gente já tarimbada, se eu treinar, eu tenho condição. Aí eu comecei a treinar. Comecei a periodicamente fazer um treinamento. E todo ano, como tem aqui também, tem os jogos. Aqui os jogos abertos, lá eram os jogos intermunicipais, entre os municípios do estado do Rio Grande do Sul. Aí eu fui convocado pra fazer parte da equipe da cidade. Bom, comecei a correr tipo ontem e hoje já sou da equipe da cidade. Era o máximo, né. Eu fui pra esses jogos intermunicipais e ainda lembro que a equipe não tinha uniforme pra desfilar, e tinha que desfilar na abertura dos jogos. E nós, a equipe, não tinha uniforme pra desfilar. Eles retardaram a viagem pra chegar na hora que o desfile já estava acontecendo. Chegamos atrasados, não deu pra desfilar. Era uma justificativa porque não tinha uniforme. Aí quando chegamos, o desfile já tinha acontecido. E logo após o desfile tinha a corrida que era a abertura dos jogos. Era uma corrida, acho de que seis quilômetros. Eu lembro que eu desci do ônibus, na rua, pra sair correndo pra competição. Não se foi seis ou sete horas de viagem de ônibus até o local onde seriam os jogos e eu já desci, tipo, depois de seis horas de ônibus, já desci pra correr, pra competir. Acho que eu fui o quinto colocado nessa prova. Ainda eu fiquei super chateado, eu digo: "Pô, se eu tivesse vindo com tempo, descansado, me preparado física e psicologicamente pra prova, eu poderia até ter ganho". Até interiormente eu fiquei: "Fui quinto. Quinto do Estado. É bom, é muito bom, só que eu poderia ter sido muito melhor". Com essas participações, foram me dando consciência de que eu poderia ir além. Então voltei, continuei treinando. Aí eu comecei a participar de competições em várias cidades do Rio Grande do Sul e comecei a me destacar. Quer dizer, aí a consciência que você tinha condição foi se firmando, já sabia o que queria e tal. Depois, em 72, eu fiz vestibular, passei, entrei na faculdade. E como eu já vinha competindo, então tinha os jogos, ou ainda tem, os Jogos Universitários Brasileiros. Cada Estado tem a sua delegação, sua equipe. Cada ano é realizado numa cidade, numa capital de Estado. E o pessoal da Federação Gaúcha de Atletismo Universitário ficou sabendo que eu entrei na faculdade: "Pô, o Elói compete e ele é universitário, então vamos convocar ele pra fazer parte da equipe da Seleção Gaúcha". E aí eu fui convocado. Eu comecei a competir em 1970, 1970 e 1971, eu comecei no nível de Estado. Em 1972, eu fui convocado pra fazer parte da equipe do Rio Grande do Sul nos Jogos Universitários Brasileiros, que foram realizados em Fortaleza, no ano do sesquicentenário. Então, já fui viajar, fiz uma viagem aérea, Rio Grande do Sul, Ceará… Aquilo lá foi... e eu fui pra esse universitário. E eu fui segundo numa prova, nos 10 mil metros, e fui campeão brasileiro no 5 mil. Voltei pra minha cidade lá no interior como campeão brasileiro universitário. Manchete no estado, e tal. Aí eu já  sabia o que eu queria. Nesse ano de 1972, que eu voltei como campeão brasileiro, eu fui convidado pra fazer parte da equipe do Esporte Clube Internacional de Porto Alegre. Então me levaram no Beira Rio pra treinar, que o Internacional tinha equipe amadora do atletismo. Me convidaram pra competir com pelo Internacional. Como eu estava cursando a faculdade, então eu continuei morando na minha cidade, mas assinei. Passei a ser atleta registrado na Federação, competindo pelo Internacional. Competi o Campeonato Estadual do Rio Grande do Sul, fiz três provas, fui campeão em duas, e fui, acho que segundo, terceiro colocado na outra. E nesse ano como eu me destaquei nesse Universitário Brasileiro, eu fui convidado pra vir fazer a Volta da Cidade Universitária de São Paulo, competição que a USP normalmente promove, representando também a Federação Gaúcha Universitária. Eu vim fazer essa Volta Universitária de São Paulo e ganhei a Volta Universitária de São Paulo, que participavam atletas universitários do Brasil todo. Então, uma prova de âmbito internacional. Nessa Volta Universitária, tiveram acho que jornalistas da Gazeta Esportiva cobrindo. Me convidaram pra vir correr na São Silvestre dia 31 de dezembro. Eu comecei a competir, dali dois anos já estava competindo nas principais provas do país, e culminando com a São Silvestre que é a mais importante do país e com renome internacional. Aí me convidaram, fiquei com aquele contato. Se eu não pudesse vir pela minha cidade, a Gazeta me traria pra participar. Na cidade, a prefeitura, conseguiram um dinheiro, passagem, tudo. E eu vim correr a São Silvestre. Inclusive, viemos em dois, dois atletas. E eu participei da São Silvestre. Fui o terceiro brasileiro em 72, na primeira São Silvestre que eu fiz. Então fui o terceiro brasileiro.  Aí o SESI [Serviço Social da Indústria] estava nessa época, começando a formar a sua equipe de pedestrianismo, de atletas corredores de longa distância. Um dos diretores do SESI veio conversar comigo, fez o contato, e me fez uma proposta pra mim vir pra São Paulo pra estudar. Me davam bolsa de estudo, e pra trabalhar. Eu tinha o convite pra ir a Porto Alegre. Também me arranjariam emprego em Porto Alegre, bolsa de estudo, morar em Porto alegre, competir pelo Internacional, e o convite pra vir a São Paulo pra trabalhar, continuar estudando e competindo. Então, foi na época: pensei, pesei e entre o Rio Grande do Sul e São Paulo, que é o centro das atividades no país, eu prefiro... vou optar pelo centro onde eu estou mais próximo dos eventos, das grandes competições, das convocações. Aí fui, voltei, conversei com meus pais, falei que tinha um convite assim, assim, e tal. Não colocaram, não opinaram nada, tipo: “vai para Porto Alegre ou pra São Paulo”. Fiz um contato, e tal, e acabei vindo pra São Paulo. Se eu não tivesse vindo, eu não sei se eu teria tido as mesmas oportunidades que eu tive, mas pelo menos aqui eu estava numa equipe competitiva, forte, uma das principais equipes na época e até hoje do atletismo brasileiro. E tomando parte de todas competições a nível nacional. Você vê, eu vim em 1973 pra São Paulo. Em 1974 eu já peguei uma Seleção Brasileira e já fui representar o país numa competição internacional. Então as coisas foram se encaixando, se encaminhando.

P- Daí até você chegar a ADC [Associação Desportiva e Cultural] como foi?

R- Aí como eu estava no SESI, competindo, me destacando, aí, nesse início, era um tanto difícil. Porque os clubes que levavam as atividades esportivas, as empresas não estavam ainda participando. Inclusive, hoje em dia, a gente comenta com atletas que estão competindo e com outros que fizeram o esporte comigo também, que a gente, em termos de ganhar dinheiro, como se fala hoje em dia, a gente competiu em época errada. Competiu numa época que o espírito olímpico, o espírito esportivo era o principal, que você corria por uma medalha, por um troféu, por uma valorização no sentido de que ganhou, foi o melhor. Hoje em dia já os prêmios são menores e o valor, o material, é maior. Hoje em dia, se paga pra participar, pra competir. No tempo que eu fiz, não. Você ia, às vezes até pagava, tirava do bolso pra fazer parte do evento. Em busca de quê? De uma medalha. Hoje eu tenho em minha casa uma sala cheia de troféus e medalhas. E atleta, nessa fase que eu fiz, em 18 anos de competição, no final do meu período de competição eu peguei provas onde também tinham prêmios em dinheiro. Mas a maior parte foram de troféus que, hoje em dia, a gente fala: ocupa um espaço. Pra mim representam alguma coisa, claro, mas ocupa um espaço. Sendo que o atleta precisa é de recurso pra ele desenvolver bem a atividade. Você precisa se alimentar bem, ter um material de acordo pra competir bem, e precisa se cuidar, produzir e representar bem. Mais recentemente as empresas começaram a entrar na atividade esportiva. E a ADC Eletropaulo estava montando, começando a formar sua equipe de pedestrianismo. Aí eles, como eu já fazia parte de uma equipe… Eu trabalhava no... inclusive, trabalho até hoje no SESI. Trabalhava e competia. Então, eles me convidaram pra me transferir. Sair do SESI e ir pra Eletropaulo. E... num sei, na época eu pensei: "Pô, já estou no SESI há algum tempo. Vou mudar. Eu não sei se essa atividade vai ser duradoura ou não". A gente conversou e se chegou a um ponto em comum que então a Eletropaulo me patrocinaria. Eu faria as competições oficiais de federação pelo meu clube. E nas competições não-oficiais , eu correria com a camisa da Eletropaulo. Então eu passei a competir com a camiseta onde tinha o logotipo Eletropaulo. Inclusive, tem fotos, troféus que eu ganhei competindo com a camiseta da Eletropaulo.  E depois, eu acho que no ano seguinte, foi a Federação liberou para os clubes filiados que os atletas poderiam usar num determinado espaço padrão um logotipo de um patrocinador. Porque antes, não podia ter patrocínio nas competições porque senão já ia infringir o espírito olímpico. Então, no ano seguinte, foi liberado e eu pude competir pelo meu clube, mas com uma camiseta onde tinha um logotipo da Eletropaulo. Eu fiquei acho que dois anos competindo pela ADC. Então, a ADC Eletropaulo era minha patrocinadora. Inclusive eu fui fazer uma prova importante numa Maratona Atlântica Boa Vista, no Rio de Janeiro, que eu competi com a camisa da Eletropaulo. Ganhei a prova, saiu em manchete, jornal, revista, passou em televisão. Assim como a Eletropaulo acho que acreditou no atleta Elói, o atleta Elói retribui à altura aquele investimento que foi feito. E eu fiquei na ADC até a época em que a ADC começou a ampliar, aumentar a sua equipe.Começou a montar uma equipe completa de atletismo. No início, era só atletas corredores de longa distância. Depois, ela já montou uma equipe completa com velocistas, saltadores, arremessadores. Aquilo que ela estava destinando a patrocínio de um atleta que não era seu, ela passou a direcionar para os atletas da sua equipe. Aí a gente rescindiu o contrato. Mas eu tenho as melhores lembranças da época em que eu entrei, que eu competi, fiz parte do corpo, da família da Eletropaulo.

P- Quais são ou foram os principais troféus, vitórias que você conquistou na época da fase ADC, e também as principais da sua vida, né?

R- Não, na época da fase de ADC, as provas que eu fazia, as provas oficiais, eu usava a camisa da ADC. Inclusive, eu tenho a camiseta com o logotipo até hoje. A nível estadual, eu lembro que eu ganhei competições. Fui campeão paulista de… Não lembro as distâncias, mas eu fazia de 1.500m, 3.000m com obstáculos, 5.000m, 10.000m, provas comemorativas, provas de rua. São Silvestre eu acho que eu cheguei a correr com a camisa da Eletropaulo. E a mais importante que eu classifico, que eu venci usando o nome da Eletropaulo, foi essa Maratona Atlântica Boa Vista, no Rio, que era uma maratona de nível internacional que tinham atletas estrangeiros também competindo. E essa maratona de 86 que foi que eu ganhei com a camisa da Eletropaulo. Eu não era cotado pra vencer porque eu estava com um problema, com uma lesão na panturrilha da perna e eu não estava bem fisicamente.  E o Rio é uma cidade muito peculiar pra esse tipo de prova porque ela tem uma umidade muito alta e a temperatura também que às vezes trai os atletas. Então os atletas internacionais saíram correndo a cem por cento e sentiram esses efeitos temperatura e altitude que a cidade tem. E se desgastaram durante a prova. E eu, que não era cotado pra vencer, chegou no final, eu acabei vencendo. Então foi uma uma surpresa, porque realmente eu não estava bem. Eu sabia que normalmente não teria condições de acompanhar os outros. Só que, pelas condições daquele momento, de condições climáticas, eu acabei vencendo. Me superei, claro que cheguei desgastado também, mas acabei vencendo. E… isso aí... a prova foi transmitida direto pela... eu acho que pela TV Manchete. Deu uma repercussão muito grande. E por ter realizado isso, a ADC me deu de reconhecimento um troféu, diploma, foi feito uma matéria também. Foi uma divulgação muito grande do nome da Eletropaulo a nível nacional. Porque a prova foi transmitida, foi mostrada, e o objetivo da empresa realmente era esse. Era divulgar o nome da equipe, o que mais tarde acabou acontecendo pela própria dimensão que a equipe tomou. Mas nesse início, eu acho que foi um marco muito grande. Eu acho que por isso que eu espero que tenha colaborado à altura daquilo que os diretores buscavam e aplicaram em cima.

P- Uma última então, qual foi sua maior vitória e qual o seu maior sonho?

R- Bom, minha maior vitória eu acho que, como atleta participante da Eletropaulo, foi esse na Maratona Atlântica Boa Vista, no Rio, em 1986. Minha maior vitória pessoal eu acho que eu não citaria apenas uma. Mas em 86 também, eu acho que inclusive eu estava ainda competindo pela Eletropaulo, só que como foi uma competição fora, eu não poderia usar a camiseta da empresa porque senão eu não seria identificado como um representante de um país. Eu venci a Maratona de Sidney, na Austrália. E, na época, eu melhorei o recorde brasileiro na distância na maratona, na prova de 42.000m. Se você melhora um recorde, é sinal que ninguém fez aquilo até aquele momento. Então, pra mim, fora do meu país, vencer uma prova importante com vários países participando, bater, melhorar o recorde brasileiro, foi uma realização muito grande. E uma outra que eu acho que seria a maior de todas, que embora eu não tenha vencido, mas eu tomei parte, acho que é o sonho de todo atleta participar de uma Olimpíada. Eu participei de uma Olimpíada. Fui na Olimpíada de Los Angeles, em 1984. E porque Olimpíada é o evento máximo dentro do esporte. Todo o atleta eu acho que sonha chegar até o máximo daquilo que ele faz. Participei da Olimpíada. É claro que não ganhei, não me classifiquei, não peguei medalha. Mas pra você chegar até ela, você passa por uma seletiva muito, muito difícil de ser conseguida. Porque você tem de atingir um índice. Outra coisa, eu participei de um campeonato mundial de atletismo, que também você precisa conseguir ter um índice pra conseguir se chegar até ele. E dentro então do esporte eu acho que eu consegui aqueles degraus mais altos. É claro que o objetivo maior seria chegar até o degrau mais alto com uma medalha. Mas como eu não consegui a medalha, ter tomado parte eu acho que já foi uma grande coisa. E eu espero que tudo aquilo que eu passei, que eu experimentei, que eu vivenciei, que eu possa passar pra alguém. Pra alguém também usufruir e ter uma dificuldade menor do que eu pra se chegar até a patamares.

P- Muito obrigado, Elói.

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