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História

Do interior de Minas ao sindicalismo paulista

História de: Sirlei Márcia de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/05/2019

Sinopse

A entrevista percorre a trajetória de Sirlei na Dieese, com ênfase na atuação à frente da Secretaria de Projetos. No depoimento, ela conta sobre a descoberta do interesse no campo da Sociologia. Descreve as múltiplas tarefas desempenhadas pela empresa e disserta sobre o processo de conscientização social adquirido a partir dessas experiências. 

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História completa

P/1 – Você pode começar dizendo seu nome completo, local e data de nascimento? 

 

R – Meu nome é Sirlei Márcia de Oliveira, nasci em Douradoquara, Minas Gerais, em agosto de 1964. 

 

P/1 – Sirlei, qual é a sua formação? 

 

R – Eu sou socióloga. 

 

P/2 – Onde você fez? Faz muito tempo que você fez o curso? 

 

R – Eu terminei o meu curso em 1982, eu entrei na universidade já com 24 anos e aí depois segui carreira, fiz mestrado, fiz doutorado e tudo lá na FFLCH [Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas]. Eu demorei um pouco, eu passei por um curso de Matemática antes e aí depois que eu fui para Sociologia, influência das minhas amigas sociólogas do DIEESE [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos], Solange Sanches e Suzana Sochackewski que vocês, se já não entrevistaram, provavelmente vão entrevistar. 

 

P/1 – Você chegou a se formar antes em outro curso? 

 

R – Não, não, eu abandonei o curso de Matemática, que eu iniciei na PUC [Pontifícia Universidade Católica], em 1987, e aí depois eu fui fazer vestibular novamente e ingressei na USP [Universidade de São Paulo] e aí o curso era realmente o que eu queria mesmo [risos]. 

 

P/1 – Tá. Sirlei, vamos falar assim um pouquinho de antes da sua entrada no DIEESE. Qual foi o seu primeiro trabalho? 

 

R – O meu primeiro trabalho foi numa padaria no bairro que eu morava. Eu morava na zona norte de São Paulo e com 16 anos de idade eu já comecei a trabalhar. Então eu trabalhei sem carteira durante uns sete meses nessa padaria, né, depois disso trabalhei em uma imobiliária também no bairro, depois trabalhei numa empresa de processamento de dados durante dois anos, chamada Prodas, e na área de Recursos Humanos. Depois foi um período que, assim, o interesse muito grande pelas pessoas por informática, não sei o que o meu interesse em fazer Matemática porque tinha a ilusão que ia ganhar dinheiro trabalhando na área de Tecnologia e aí fiquei durante muito tempo insistindo, fazendo vestibular para a área de Tecnologia, só que era muito concorrido, muito, muito concorrido. Na área de Tecnologia mesmo, eu não consegui entrar, mas entrei no curso de Matemática, mas aí percebi que, integral, diferencial, cálculo, não era mesmo a minha área e aí resolvi desistir e fazer, é, vestibular para outra área. Fiquei um tempo tentando descobrir o que era essa área mesmo e aí acabei me achando na área de Humanas e fui fazer o curso de Sociologia. 

 

P/1 – Tá. Você falou que você tinha já umas amigas sociólogas, né? Como que você conhecia elas? Como que você... 

 

R – Não, conhecer as sociólogas, só a partir da minha entrada no DIEESE, né, então eu estava falando um pouquinho da minha, do meu percurso de trabalho. Foi uma padaria, uma imobiliária, depois a empresa de processamento de dados, depois o Bradesco, uma corretora de valores e aí eu tinha um amigo que trabalhava no DIEESE, que não era sociólogo e que trabalha, inclusive, na área de informática e aí foi através dessa pessoa que eu vim trabalhar no DIEESE, mas, assim, na área de digitação, eu não tinha formação para a área de tecnologia e então em 1982, 1983, o DIEESE estava fazendo a pesquisa de padrão de vida e emprego, que foi a pesquisa que deu origem a PED [Pesquisa de Emprego e Desemprego]  e tinha um trabalho de digitação grande e eles contrataram e foi aí que eu fui entrar, que eu entrei no DIEESE, mas aí eu não estava na universidade nessa época! Eu ainda insisti e comecei a conviver com as sociólogas dentro do DIEESE e conversando, conhecendo um pouco a pesquisa que eu estava fazendo a digitação, e aí começou o interesse por uma outra área que não era a área de tecnologia, mas isso só se deu com a minha entrada no DIEESE mesmo. 

 

P/1 – Qual ideia você tinha do DIEESE antes, quando você fazia essa outra faculdade? Você conhecia o DIEESE já ou não? 

 

R – Oh, eu posso dizer que quando eu entrei no DIEESE eu não fazia a menor noção do que era o DIEESE, na verdade o DIEESE só era, só foi um outro trabalho para mim, né? Assim, tinha mais ou menos noção do trabalho que fazia, mas não em profundidade, né? Então, não sabia que era uma entidade, que tinha sido fundada por trabalhadores, que fazia todo um trabalho voltado para organizar e dar subsídios para os trabalhadores, que tinha um trabalho, assim, que era uma defesa de uma classe mesmo, não tinha a menor noção. Primeiro pela origem que eu tinha e também pelas convivências todas, então eu só fui descobrindo mesmo o que a instituição fazia, o papel que ela tinha, depois da minha entrada lá. Então, na verdade, assim, toda a minha formação se deu dentro do DIEESE. Pensando assim, eu acho que do ponto de vista de cidadania mesmo, sou uma pessoa que tem uma origem muito simples. A minha mãe trabalhou o tempo inteiro como auxiliar de serviços e eu fui a primeira filha a entrar na universidade. Então o DIEESE acaba tendo um papel emancipador para mim, pensando no ponto de vista de oportunidade mesmo. Ali dentro foi a descoberta de um mundo, não que se eu não tivesse entrado no DIEESE talvez eu não tivesse ido para universidade. Eu acho que sim, porque já tinha isso como uma meta, mas eu acho que tem um papel, que é um papel emancipador mesmo, e aí eu acho que é do ponto de vista de oportunidade também, porque aí depois eu fiz toda uma carreira dentro da instituição, né? 

 

P/1 – Você entrou em que ano? 

 

R – Eu entrei em 1985, em novembro de 1985, completando 21 anos agora. 

 

P/1 – E logo que você entrou, quais foram as suas primeiras impressões, assim, a sua adaptação? Conta para a gente esse comecinho. 

 

R – Foi muito bom porque assim, o ambiente de trabalho no DIEESE é um ambiente muito bom, então é meio que um ambiente familiar, as pessoas são acolhidas, não interessa como são as pessoas, de onde vem, o que elas pensam. Acho que por ser até uma instituição plural tem essa facilidade de acolher as pessoas e mesmo que sejam pessoas sem uma visão do que é o papel do DIEESE. Não tem. O tratamento para uma pessoa que trabalha na área de serviços gerais ou o tratamento do presidente é o mesmo, entendeu? É de um cidadão, é de uma pessoa então, assim, eu me senti muito bem acolhida, eu fiz amizade logo, e aí eu era muito nova e o tratamento era assim, de alguém que está chegando, vamos acolher com muito carinho, né? Então assim, para mim é até emocionante lembrar porque é mesmo de se sentir assim, sabe, olha, você percebe que tem um lugar para você que é um lugar especial nesse mundo, uma vontade de ajudar as pessoas, não é assim?. Para uma pessoa que passou pelo Bradesco entrar no DIEESE, você percebe que é uma diferença tão assim, brutal, que aí... Bom, nunca mais quis sair do DIEESE e acho que não vou querer nunca, entendeu, né? 

 

P/1 – Como, fala um pouco dessas diferenças? O que você compararia entre as duas 

 

R - Entre as duas instituições? Falando assim de... 

 

P/1 – Dos dois trabalhos para você assim? 

 

R – Tá, então, a entrada no Bradesco, assim, é uma coisa muito, castradora. Eles tipo, te olham o tamanho da sua unha, a forma como você se senta, a forma como você se veste, a forma como você fala e um controle muito grande. Assim, você não é uma pessoa, não é um indivíduo, você é um posto de trabalho, entendeu? Você é um pedacinho daquela engrenagem do banco. Eu não sei isso hoje, mas pensando isso assim na minha experiência de seis meses ali no Bradesco era isso. Não era Sirlei Márcia de Oliveira, entendeu, com uma identidade, com uma vontade, com pensamentos e com visões no mundo, não, eu era um pedacinho daquela engrenagem ali e aí todo o treinamento, todas as noções que você recebe é para você cumprir bem aquele papel e nada mais além disso, então. Agora, a entrada no DIEESE não, as pessoas se interessam por você, querem saber o que você gosta, o que você faz, como é que você faz e te dão oportunidades para você... Então, assim, eu entrei para fazer digitação, que era o mesmo trabalho que eu fazia lá trás no Bradesco, mas eu não fui só digitar, então assim, desde o momento que o 

trabalho é apresentado para você, ele não é apresentado assim: “Olha, é isso que você tem que fazer. Pronto e acabou!”. Então era um questionário, era um questionário complexo, a entrada ela se dá apresentado para você. Bom, é uma pesquisa, essa pesquisa ela tem essa finalidade, então você se sente importante no processo, você entende o processo. Eu acho que isso, para mim, foi muito marcante, eu acho que até por isso eu acabar mudando, entendeu, a minha área de interesse, por ter vontade até de conhecer mais, né? Então isso para mim foi marcante, a entrevista não é para a sua chegada, é totalmente diferente da chegada lá no Bradesco. Você ali, eu me lembro que eu fui muito nervosa para a minha entrevista no DIEESE e aí o Luis (Irano?), que já não está mais no DIEESE, que foi a pessoa responsável lá trás pela área de TI e então eu fico lembrando a forma como ele me tratou, sabe, eh, eu falei: “Puxa vida! É aqui que eu quero mesmo. É aqui que eu quero ficar!”. Muito distinta, entendeu? 

 

P/2 – Como foi a entrevista? O que ele perguntou na entrevista? 

 

R – É, não foi uma entrevista assim focada no que eu ia fazer, entendeu? Foi uma entrevista ampla entendeu, o que é isso... A preocupação é em quem você é, em que você gostaria de fazer, entendeu? É muito mais, o olhar ali para a pessoa não é só para o que ela pode dar de resposta em relação aquele trabalho, entendeu? Te olha mesmo. Acho que para mim a diferença foi aí, te olhar no ponto de vista de indivíduo mesmo, então na entrevista não foi uma entrevista, para mim foi mais uma conversa e que foi muito prazerosa, e óbvio que falamos de trabalho também, mas foi uma coisa mais que é justamente que: “Olha, não estou aqui só para checar se você sabe ou se você não sabe”, até porque eu acho que o olhar é um olhar assim: ”Bom, de repente você pode não ter essa habilidade aqui, mas você pode ter outras habilidades, você pode ter outras experiências, outros conhecimentos.”, e que isso eu tenho que levar em consideração, que isso é importante, você olhando do ponto de vista de um trabalhador que está buscando uma vaga, você sabe o quanto o trabalhador, ele quando está buscando uma vaga ele está ansioso, ele está nervoso, então você precisa também dar esta oportunidade para ele poder relaxar e poder contar as coisas que ele pode ou não ter oferecer. Eu acho que foi essa diferença para mim. 

 

P/1 – Então tá, você começou com digitadora, né? Como foi... 

 

R – Comecei como digitadora. Trabalhei quatro anos como digitadora no DIEESE. 

 

P/1 – E aí qual foi a sua trajetória aqui dentro? 

 

R – É, aí eu fui para a área de pesquisa de preços, fiquei um longo período também, fiquei durante sete anos, então trabalhei com o Maurício, não sei se vocês já entrevistaram, fiquei sete anos com ele. Primeiro eu entrei como auxiliar técnico, e aí depois, assumi a função de coordenação da pesquisa de campo, do índice de custo de vida. Aí fiquei um longo tempo até me formar. Participei em 94, 95 da pesquisa de orçamento familiar, né, aí também fazendo a supervisão do campo, aí depois eu achei que já tinha dado a minha contribuição para a área de preço do DIEESE e aí foi a minha solicitação para sair, para fazer outras coisas, conhecer outras áreas do DIEESE, né? Eu, na verdade, acho que já passei por quase todas as áreas dentro do DIEESE, na área de pesquisa, né? Aí depois na área de assessoria fiquei um tempo no escritório de São Paulo, depois trabalhei na área de educação do DIEESE, durante dois anos. Trabalhei com o Wilson Amorin e o Reginaldo, que foram supervisores de escritórios regionais e de sub-seções, fazendo uma assessoria para eles, depois, trabalhei durante um ano e meio numa sub-seção, na CUT [ Central Única dos Trabalhadores], fazendo assessoria a um programa de formação profissional e aí depois, em 2001, eu assumi a Secretaria de Projetos e aí estou nessa área desde 2001. 

 

P/1 – Eu queria falar agora mais sobre a Secretaria de Projetos. 

 

R – Tá. 

 

P/1 – O que levou a criação dessa Secretaria dentro do DIEESE? 

 

R – Então, a Secretaria foi criada entre 95, 96. Eu lembro que eu estava ainda trabalhando nos resultados finais da pesquisa de orçamento familiar. A gente fez um relatório sobre as mulheres chefes de família com os resultados dessa pesquisa e eu fui a responsável pela criação disso. E a Secretaria estava sendo criada e eu lembro que nesse momento eu, inclusive, fui pedir para o Prado, que era o coordenador de produção técnica, falar do meu interesse, porque essa era uma área que ia cuidar dentro do DIEESE, de toda a produção, então ela ia fazer a articulação das áreas de pesquisa, de assessoria e de educação, pensando no ponto de vista de resultados de relatório, de pesquisa e também foi uma área que foi criada pensando na ampliação do trabalho do DIEESE, na área de projetos, né?  

     Porque até o início da década de 90, o financiamento do DIEESE vinha prioritariamente de financiamento sindical das mensalidades que são pagas pelos sindicatos, depois eu acho que resultante de todo o processo de reestruturação, de mudança que aconteceu no país, a gente acabou tendo aí uma diminuição da contribuição sindical e a necessidade do DIEESE buscar outras formas de financiamento, né? E os projetos, embora o DIEESE sempre tenha trabalhado com projetos, houve a necessidade de você criar uma área que fosse especialista nisso, que pudesse primeiro elaborar os projetos, acompanhar todo o processo de negociação e de execução desses projetos. Porque precisa de um, você precisa conhecer quem são os possíveis financiadores, quais são as regras e tudo mais, e você precisa ter um acompanhamento fino porque você tem que ter, é, preocupação muito grande com datas de entregas de produtos e não sei o que, com a qualidade desses produtos que vão ser entregue, então a Secretaria de Projetos foi criada.      Quando a Secretaria foi criada, a Solange Sanches e a Rosana de Freitas eram as responsáveis. A Solange tinha um papel que eu tenho hoje e a Rosana cuidava mais da parte administrativa, financeira, prestação de contas, mas também ajudava na finalização dos projetos, né? Então, assim, a Secretaria nasce com a necessidade de mais um volume, ter um acompanhamento mais preciso sobre em relação as qualidade dos produtos que o DIEESE realizava, mas especificamente cuidar da parte do financiamento mesmo, de elaborar projeto, de assessorar a produção técnica nesse processo de busca de novos financiamentos, né? E isso só foi crescendo de meados da década de 90. Até agora só foi crescendo em ampliação da participação dos projetos no financiamento da instituição, só tem crescido. Então lá trás a gente trabalhava com quatro, cinco projetos. Hoje a gente está aí com uma carteira de cerca de 30 projetos nas diversas áreas. 

 

P/1 – Qual é a participação dos projetos no... 

 

R – No orçamento do DIEESE? 

 

P/1 – É. 

 

R – Hoje é quase 50 por cento, é, quase metade do financiamento do DIEESE vem de projetos. 

 

P/1 – Que tipo de projetos vocês  desenvolvem, tem temas variados ou... ? 

 

R – Nós fazemos projetos variados, mas a preocupação é que esses projetos eles possam ter como resultado produtos que sejam de interesse para os trabalhadores. Então assim, não é qualquer projeto, então os nossos projetos são projetos que são dentro das áreas temáticas que são desenvolvidos pelo DIEESE, que é negociação, emprego e renda. E aí, ou assessoria ou pesquisa ou educação, ou dentro dos eixos temáticos ou então das três áreas que são as áreas de especialidades do DIEESE.       Então vamos pensar, vamos fazer um projeto, nós temos hoje como financiadores o Ministério do Trabalho e Emprego, então é Governo Federal, 

Estadual e alguns Municipais e a algumas instituições, tipo Fundação Ford, BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] , OIT [ Organização Internacional do Trabalho] , então assim, são  várias instituições, mas, então fazemos um projeto que é um projeto de pesquisa. A gente vai fazer com que os temas desses projetos sejam temas que, assim, a gente tenha uma familiaridade, então um projeto de pesquisa, um projeto de pesquisa na área de mercado de trabalho, porque a gente já tem uma pesquisa de emprego-desemprego, porque a gente já tem uma metodologia, porque a gente já tem uma equipe que é uma equipe com uma capacidade de analise de formulação que pode estar desenvolvendo produtos nessa área, né? Então aí o tema emprego é um tema que a gente desenvolve, né? E aí os temas correlatos são empregos, sei lá, vamos pensar,  emprego e geração, emprego e raça, emprego do ponto de vista setorial, não é, então os projetos que a gente desenvolve a gente procura fazer com que eles resultem em um produto para o nosso financiador, mas que a gente possa estar usando a capacidade que a gente já tem, né, e que o resultado também possa ser utilizado pelo movimento sindical. Então a gente tem aí uma, embora tenha necessidade de trabalhar com esse financiamento, a gente traçou uma estratégia que, assim, não é qualquer projeto, entendeu, não é com empresa, por exemplo, tá, então tem... Para não descaracterizar a Instituição e na verdade o próprio Movimento Sindical tem aí um papel dele mesmo ser um articulador, de buscar, de incentivar, entendeu? E todo o projeto que a gente faz geralmente passa pelo crivo da direção executiva do DIEESE, né? 

 

P/1 – Você tem algum exemplo de algum projeto que vocês já tenham concluído, só para dizer para a gente como que foi, como que ele funcionou na prática, como foi a receptividade entre os trabalhadores? 

 

R – Tá, então vou dar um exemplo de um projeto recente que a gente desenvolveu. Foi financiamento com o Ministério da Saúde, né? Tinha como principal objetivo fazer um levantamento com base nos resultados das pesquisas de emprego desemprego sobre os trabalhadores da saúde, né? Então nós fizemos uma tabulação especial das pesquisas todas que a gente faz, São Paulo, Minas, Recife, Rio Grande do Sul e Distrito Federal e traçamos um amplo perfil do trabalhador da saúde, investigando remuneração, jornada, tempo de trabalho, escolaridade, o quesito cor e fizemos um relatório grande. Desse relatório nós já fizemos um release pequeno para distribuir para todos os sócios do DIEESE, e já realizamos com os sócios da área de saúde de São Paulo dois seminários para apresentar o resultado desses projetos. Às vezes a gente não consegue fazer esse, assim, isso rapidamente, porque você entrega o produto e aí você precisa de uma capacidade interna de trabalhar, re-trabalhar aquele relatório e oferecer atividade e organizar. No caso deste relatório, a gente terminou ele em março desse ano e a gente já conseguiu realizar essas atividades.  

     O projeto envolveu toda a equipe de emprego e desemprego e envolveu também os técnicos do DIEESE que trabalhavam também na sub-seções da área de servidores públicos, e aí, especificamente aqueles que atuavam com a área de saúde, tá?  

     Esse é um exemplo de pensar num projeto que assim, foi um projeto que foi financiado pelo Ministério e que a gente conseguiu dele, extrair produtos e outras atividades para, para uso interno de outras áreas, a área de assessoria, ou seja, a gente distribuiu isso e isso vai ser utilizado pelos sindicatos vários, no momento de negociar, porque ali você tem informação do tempo de trabalho, da jornada, da remuneração, e das  condições dos aspectos gerais desse trabalhador, né? E também conseguimos fazer atividades que são as atividades de educação, né? 

Então o... 

     Agora, não é todo o projeto que a gente consegue imediatamente fazer isso ou que o resultado você consiga transformá-lo em uma atividade direta para o trabalhador, mas ele pode subsidiar, por exemplo, o trabalho de reflexão da equipe técnica que está elaborando, vamos pensar num trabalho técnico que nós fizemos para IT, cujo tema era a questão da informalidade, do trabalho doméstico. Então daí já vem o desdobramento, que, assim, a gente faz seminário, a gente discute com o Ministério do Trabalho e Emprego políticas específicas para o emprego doméstico. 

Então, assim, as vezes ele não é direto na negociação, mas são nos espaços que o 

DIEESE está participando e que o DIEESE está atuando e que também, de alguma forma, ele vai ter feito sobre as ações gerais para o Movimento Sindical, né? 

 

P/1 – Então eles não são, assim, diretamente divulgados nos trabalhadores? 

 

R – Isso, exatamente. 

 

P/1 – Essa atividade de educação, você diz, é educação entre os sindicalistas? 

 

R – É, na verdade, podia ser uma área...Não sei se vocês já fizeram entrevista com o pessoal da área de educação do DIEESE, né? É que na verdade é assim, a área hoje a gente não tem. Hoje você tem a área de relações sindicais e a educação é uma atividade que é muito importante, pensando no ponto de vista das relações sindicais. Nós fazemos muitas palestras, seminários, cursos de longa duração e todas voltadas para dirigentes sindicais, cujos temas é, ou é a preparação para negociação coletiva, ou é a discussão de um tema específico da agenda de negociação, né? Ou você faz um seminário para preparar o dirigente para negociar, conhecer todas as etapas do processo de negociação, ou então fazemos um seminário, por exemplo, sobre terceirização, que é um tema de negociação sobre cláusulas de gênero, sobre PLR [Participação nos Lucros e Resultados], entendeu, então você tem os vários temas. Ou então sei lá, só palestras cujo interesse é só conhecer um pouco o que está acontecendo na conjuntura nacional, né? Essas atividades todas a gente chama de atividade de educação, né? 

 

P/2 – Dos projetos executados que conseguiram ser finalizados, quais você destacaria, assim, que foram mais significativos para o DIEESE? 

 

R – dos projetos? 

 

P/2 – É, que viraram referencia para a elaboração de outros? 

 

R- Olha, é difícil porque, assim, é muito projeto. Mas nós fizemos um projeto com o BID, que foi um projeto de duração de quatro anos, o Clemente foi, inclusive, o coordenador geral desse projeto e através... na verdade, o BID é assim: ele financia projetos que depois de finalizado o projeto, dá capacidade para a Instituição dela se manter e do resultado daqueles projetos, ela fazer novas coisas, vender e conseguir recursos para se financiar, né? Então esse projeto teve duração de quatro anos e o 

eixo dele era negociação, ficou negociação coletiva e, na verdade, ele financiou várias áreas do DIEESE. Ele financiou a elaboração de 16 kits que foram criados com a finalidade de organizar, sistematizar alguns seminários. Nem sei se tem algum aqui para mostrar para vocês, mas a gente fez umas maletinhas assim e sistematizou dois cadernos, que a gente chama de caderno do formador e caderno do participante, e todo o material que poderia ser utilizado durante aquela atividade, então sei lá, o que eu falei para você: “Ah, a gente faz atividades de negociação coletiva!”, então assim, um dos kits foi Estrutura e Processo de Negociação, o outro foi sobre PLS, o outro sobre Terceirização, outro foi sobre negociação no setor público, o outro sobre mercado de trabalho, então todos os temas que a gente desenvolve. A gente organizou durante quatro anos várias equipes de trabalho e formulou esses kits que eu te falei. Então isso já está tudo organizado. Então, para um técnico que entra na DIEESE e tem uma demanda de uma instituição sindical para fazer um seminário, para fazer uma palestra ou para fazer discussão sobre aquele tema, a gente já tem ali tudo organizado, bonitinho, então se você pensar no ponto de vista de resultado... Um dos resultados desse projeto, porque, assim, foram várias áreas, ele foi grande, mas eu acho que foi assim, foi um resultado importante, né?  

     Um outro projeto que foi financiado pela (FLSIL?), que nos permitiu elaborar um livro sobre a situação do trabalho no Brasil, então foi um trabalho longo de dois anos, também nos possibilitou fazer uma ampla reflexão sobre questões de mercado de trabalho. Então o livro está aí e é referência e, então o resultado desse projeto também foi poder sistematizar, refletir, ponderar sobre as coisas que a gente formulava e contribuição para o movimento sindical, para a própria instituição, para a comunidade acadêmica, então também resultados. Na verdade, assim, acho que projetos de uma forma geral eles têm essa preocupação de estar mesmo trazendo, de estar deixando um legado para a instituição e para o movimento sindical. 

 

P/1 – Quais as dificuldades que vocês encontram aqui internamente, com o pessoal do DIEESE, na definição dos temas dos projetos? 

 

R – Dificuldade? Assim, como eu te disse, não é qualquer projeto que a gente aceita, então começamos o contato com alguma possível financiadora e a discussão de quais seriam os tipos de projetos que ela teria ou não interesse, você já tem aí um momento que é de triagem, né? Então, quem está à frente fazendo esses contatos com os financiadores é a direção técnica do DIEESE que faz. Eu assim, eu faço contato, mas depois dessa primeira conversa, aí isso vem, a gente discute, e antes mesmo de formular o projeto, a gente já faz um pouco essa: “Olha, acho que não tem sentido!”, né? 

     Depois que a gente discutiu, então a gente vai agora fazer um projeto para o 

SEBRAE [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas], por exemplo, que é um anuário da micro e pequena empresa. A gente começou os contatos com a SEBRAE. Será que tem interesse do DIEESE fazer esse projeto com o SEBRAE? A gente discute: ”Bom, olha..”, reúne informações sobre micro e pequena empresa sobre, as características das ocupações das microempresas, olha, é um tema que é de interesse, né?  

     Passado essa primeira etapa, geralmente você reúne, dentro da instituição, pessoas com maior familiaridade com o tema, maior capacidade de formulação e aí você decide o escopo do projeto, então não vem para a equipe elaborar um projeto que não tenha relação com os temas do DIEESE, essa já acaba ficando lá na triagem que a própria Direção Técnica faz ou na discussão entre a Direção Técnica e a Direção Sindical. Porque sei lá, quando é um possível financiador que você fica meio em dúvida ou é um tema que você nunca fez nada dentro da instituição, então você, a discussão é geralmente na instância  mais alta, antes de, por exemplo, agora a gente está fazendo planejamento do DIEESE. A gente tem lá os nossos três temas que é emprego, renda e negociação, aí a gente começou a discutir: “Bom, mas é o tema do desenvolvimento. É um tema que é importante, então eu acho que a gente deviria entrar nisso...”. Aí sim, você abre dentro da instituição a discussão para ver o que as pessoas acham: “A tá, então o tema desenvolvimento é importante?”, aí vamos pensar: “Será que a gente não pode apresentar um projeto cujo tema 

Desenvolvimento Regional seja um eixo?”, então é... E acho que até por isso, as decisões demoram um pouco mais, porque elas precisam de todo esse acerto entre Direção Técnica e Direção Sindical, para que não haja nenhum problema nessa relação aí. Resolvido aí, a gente faz a discussão mais interna para ver realmente se tem sentido, de que maneira que isso pode ser feito. 

     Agora de qualquer forma, eu acho que, assim, acaba que tem uma equipe, que é a equipe que está mais próxima da Direção Técnica que faz assessoria mais direta e a Secretaria é uma dessas áreas  que acaba trabalhando mais na discussão e na formulação desses projetos mesmos, porque como a gente tem o papel de acompanhar todo o processo, então, às vezes essas primeiras discussões e impressões a gente já tá junto. 

 

P/1 – Sirlei, você acha que esse trabalho de desenvolver projetos está em expansão no DIEESE? Tem uma perspectiva de ser uma coisa muito, de ser uma área muito forte aqui dentro do DIEESE? 

 

R – Eu acho. Eu acho que, é como eu falei. A gente lá atrás trabalhava com quatro ou cinco projetos. Hoje a gente trabalha com 30, e já tem uma carteira, sei lá, de mais ou menos 20, discussão e negociação, até porque o projeto  têm um tempo de duração, sei lá, varia de seis meses há dois anos, não vai além disso. Ah, um ou outro projeto, três ou quatro anos, como a instituição, sei lá, tipo BID, então você acaba um projeto e você já tem que estar gestando outro e elaborando. Mas eu acho que, assim, a Secretaria hoje tem um papel que é um papel que é importante porque realmente a gente, se você pensar, 50 por cento do financiamento do DIEESE vem de projeto, então isso já demonstra o quanto cresceu essa área. Eu acho que não vai para mais que isso. Na verdade, todo o nosso movimento está sendo no sentido de fazer com que as receitas sindicais cresçam dentro do DIEESE, porque eu acho que, assim, óbvio que desenvolver projetos ele é importante dentro da instituição, ele permite essa formulação, você pesquisar novos temas, mas por outro lado também, não é fácil porque as receitas não são fixas. Você está sempre, o tempo inteiro, correndo atrás. Eu acho que a gente vai continuar trabalhando com projetos, mas, assim, ampliar mais do que a gente tem hoje não. A nossa briga hoje está para ampliar as receitas sindicais, e tentar fazer o máximo de otimização possível dos resultados dos projetos que a gente já está formulando. Então eu acho que assim, ficar nessa faixa dos 50 por cento talvez sim, mas para isso, sei lá, se permitir, de repente, ter um fundo, e nos permitir, de repente, comprar uma sede, entendeu? E não ficar só correndo atrás porque o trabalho é muito pesado. Não é fácil você conseguir mais 50 por cento de financiamento só através de projetos, né? 

 

P/1 – E como é para você, pessoalmente, estar trabalhando na área de gestão de projetos? 

 

R – Como eu falei, desde que a Secretaria foi criada lá atrás em 96, eu já tinha manifestado meu interesse por trabalhar na Secretaria de Projetos. Acho que lá trás eu talvez não tivesse a dimensão do que viria a tornar a Secretaria, então assim, mesmo não estando trabalhando diretamente na Secretaria, porque eu entrei em 2001, mas eu sempre trabalhei assessorando a Coordenação de Relações Sindicais e de escritórios e sub-seções, então, assim, o meu contato era sempre muito próximo e eu acompanhava  isso, inclusive, conhecer a instituição, conhecer todas as áreas, já ter passado pela área de pesquisa e tudo mais, foi isso que foi me capacitando para depois assumir a Secretaria. Porque eu acho que essa também é uma exigência, né?  

     A Solange era uma pessoa muito experiente, que foi a pessoa que trabalhou na Secretaria antes que eu, conhecia todas as áreas, a Rosana também, e aí quando eu assumi, o que eu ouvi no momento do convite é  que, para eles, era importante era justamente essa minha experiência dentro da instituição, conhecer todas as áreas.  

     Então eu não tinha dimensão do que era, mas, para mim, é muito, é instigante, entendeu? Porque é isso. È participar de absolutamente tudo que está acontecendo na instituição. Porque, como eu falei, os projetos atuam dentro das várias áreas. Então, se tem projeto na área de assessoria, eu estou lá discutindo, se tem na área de pesquisa, eu estou lá discutindo e acompanhando. Então isso me permite, embora não possa estar desenvolvendo, porque o trabalho de gestão é muito pesado, me permite participar, me permite qualificar e contribuindo também com a experiência que eu tenho. Que foi a experiência adquirida dentro de DIEESE, que foi a experiência adquirida na academia. Então fazer mestrado, fazer doutorado, não é porque eu queria ser professora, mas porque eu sabia que essa... 

Então para mim é, está sendo uma experiência muito boa estar trabalhando na Secretaria de projeto, né? Eu acho que é um trabalho muito exigente, porque tem que ter um, falando em memória, tem que ter uma memória muito boa, porque todos os projetos têm muitos detalhes, muitos desdobramentos, muitos produtos e eu sou uma pessoa que tenho, como responsabilidade, organizar todas essas informações, acompanhar o que está acontecendo em cada projeto, se está dando errado, se está dando certo e informar o Diretor Técnico. Na verdade, a Secretaria é um staff da Direção Técnica, então, na verdade, eu estou muito próxima à Direção e eu gosto muito, entendeu, do trabalho que eu faço. Eu me realizo nesse trabalho. Às vezes é estressante, às vezes eu me canso e falo: “Aí! Por que eu não fui ser dona de casa?”, mas no momento seguinte eu já esqueço isso. 

 

P/1 – Como que é assim o cotidiano? Você tem muita, como que é o seu tempo? 

Como que você se organiza para fazer esse trabalho? 

 

R – Então, olha, o que acontece? A gente faz um trabalho de acompanhamento que a gente chama de monitoramento de projeto, então, numa “planilhona”, onde a gente tem registrado todos os projetos que estão hoje em execução no DIEESE, quem é o financiador, quando começou, até onde vai cada um dos produtos, e a gente vai acompanhando isso mensalmente e isso é um dos instrumentos de gestão que a gente utiliza e aí, mensalmente, a gente apresenta isso para a Direção Técnica. Cada projeto dentro do DIEESE tem um coordenador. Ele que organiza as equipes de trabalho, ele é o responsável por aquele projeto, então, o meu contato é também direto com esse coordenador. Tudo que ele precisa, tudo que ele vai fazer, decisões a respeito de execução orçamentária, qualidade do produto, estrutura dos relatórios, como ele tem que ser feito, então, parte do meu tempo também é voltado para isso. Para as reuniões com as coordenações de projeto, para as discussões sobre como os produtos são feitos, e para revisão e acompanhamento de todos esses produtos que são elaborados, né? Por que tudo que é feito, a gente participa das discussões, dependendo do tema, às vezes, a gente até participa da execução e todo resultado final a gente tem que dizer: “Ó, é isso mesmo, está dentro do padrão, não sei o que...”, e aí a gente encaminha isso para o financiador, né? Então, do ponto de vista da negociação do projeto, então o Clemente foi lá, discutiu não sei o que. Tem cinco novos projetos que ele quer elaborar. Então a gente senta, discute, sistematiza tudo o que tem de informação, organiza as equipes que vão elaborar o projeto, olha esse projeto para ver se está dentro do padrão de exigência para o nosso financiador, conversa com o financiador para ver o que é necessário, o que tem de exigência e aí encaminha esse projeto, acompanha o processo de contratação. Então, depois de o financiador analisar, fechou, não sei o que, elabora todo o orçamento desse projeto, e aí a contratação, chegou o contrato, a gente olha, vê, está dentro do que foi combinado, prazo, valor, não sei o que, documenta isso tudo e aí depois o que eu falei, tem o coordenador, você vai acompanhar todo o processo de desenvolvimento dele, até o processo de prestação de conta. Então a Secretaria de Projetos está desde o processo de discussão, negociação, elaboração do projeto, contratação, execução e prestação de contas. Nós acompanhamos todo esse processo, então a minha rotina de trabalho tá dividida aí, é para essas atividades, né? 

 

P/1 – Quantas horas por dia que dá isso? 

 

R – [Risos] Olha a minha jornada é de oito horas, mas, sei lá, às vezes dez, às vezes 12, entendeu, depende, às vezes é um momento que está mais tranquilo, eu posso trabalhar até um pouco menos, agora, nos momentos de finalização de projeto, a gente já virou noite, tá? Já ficou 36 horas dentro do DIEESE, então, varia, né? A jornada, eu posso dizer, que é intensa [risos]. 

 

P/1 – É, eu estou dizendo isso porque as pessoas com quem a gente tem conversado demonstram um envolvimento muito pessoal, assim, com esse tipo de trabalho. 

 

R – Isso. 

 

P/1 – Porque me parece. No seu caso também é assim. 

 

R – Também , também, também. E finais de semana a gente, na verdade, como a gente tem uma responsabilidade grande dentro do DIEESE, assim, não tem tempo, entendeu? O tempo é o tempo necessário, a jornada contratual é de oito horas, a gente tem uma flexibilidade  de não preciso estar dentro do DIEESE às oito da manhã, mas também se precisar sair às dez da noite a gente nunca diz que não, né? Então se você: “Olha, são 30 projetos em execução!”, a gente envolve hoje cerca de 100 técnicos se você for pensar só do ponto de vista do corpo técnico do DIEESE, mais a equipe administrativa e de apoio a isso vai subir, sei lá, para 120 pessoas, que são pessoas que a gente tá em contato o tempo inteiro. Embora a relação mais direta seja mesmo com o coordenador de projetos e ele faz o vínculo lá com as equipes, mas a minha relação, pelo menos, com todos os supervisores e com todos esses coordenadores que, sei lá, dá cerca de 60 pessoas. Então o número de e-mails, de telefonemas, de reuniões que a gente faz ao longo do mês é considerável.  

Mas eu acho que para uma instituição como o DIEESE, para gente isso não se dimensiona a partir da quantidade de horas, eu acho que se dimensiona a partir do resultado que a gente espera que tenha, do alcance que a gente espera que tenha e da permanência desta instituição por , pelo menos, mais 50 anos, né? Eu, assim, eu tive o privilégio de conviver já com quatro Diretores Técnicos do DIEESE. A Heloísa Martins foi a minha professora, durante vários anos na USP, e depois o Barelli, o Sérgio Mendonça e hoje o Clemente, e aí, são pessoas com, embora a instituição seja, do ponto de vista mais geral, a mesma instituição, são pessoas que têm características diferentes ali na forma de conduzir e de fazer as coisas. Então para mim foi ímpar poder ter contato com essas pessoas todas e aprender com cada um deles a valorizar e amar essa instituição por tudo que ela representou, que ela representa e que a gente tem certeza ainda vai representar para os trabalhadores, né? 

 

P/1 – O que é? O que o DIEESE representa hoje na sociedade? Você acha que tem o reconhecimento? Como que é a importância? 

 

R – Eu acho que do ponto de vista da sociedade tem muito reconhecimento, né? Eu acho que do ponto de vista do Movimento Sindical, eu acho que a gente pode ter um alcance muito maior do que a gente tem, né? E eu acho que é esse exercício que a gente está tentando fazer no momento, que é a de chegar mais perto, entendeu, que é de poder levar para eles toda a produção que a gente tem de uma maneira que eles possam compreender, que eles possam trabalhar e que isso possa de verdade ter, ser instrumento, na luta que eles travam diariamente. Infelizmente, acho que questões financeiras... Eu acho que a instituição passou por momentos nos últimos anos, por momentos difíceis, e acho que isso, óbvio, também afeta o trabalho que a gente faz dentro da instituição, de uma certa forma te fragiliza, mas eu acho que a gente está num momento que é muito bom hoje, eu acho que a gente está conseguindo fazer esse trabalho e chegar mais próximo do Movimento Sindical. A atividade de educação, eu acho que é uma atividade importante, a gente tem conseguido financiamento para poder fazer essa atividade, porque se o movimento sindical não pode financiar, então a gente tem que buscar isso fora, porque as atividades de formação são uma das formas de a gente levar para os trabalhadores tudo aquilo que a gente produz de informação. A informação, por si, não é absolutamente nada ,então... E a instituição não é nada, foi criada, justamente para isso. Eu acho que a gente está buscando isso de novo, buscando os instrumentos da tecnologia para fazer com que a produção que a gente faz, que ela chegue lá. Vocês provavelmente vão conversar com a Geni, que é responsável pela área de comunicação. Então, assim, a gente está buscando novos instrumentos para poder chegar mais próximo do trabalhador. E eu acho que, assim, o que é o DIEESE? O DIEESE é um instrumento mesmo da classe trabalhadora, entendeu, que é uma instituição produtora de informação. A gente sabe o quanto a informação é importante, a gente sabe o quanto a produção de conhecimento é importante e o quanto os trabalhadores são tolhidos para poder ter acesso à informação e ao conhecimento e acho que o DIEESE busca isso, fazendo com que ele possa se emancipar a partir do conhecimento e poder tomar decisões, poder saber o que é bom, o que é ruim, não é? Ele mesmo tomar, a gente levar, é uma instituição que busca levar informação tal qual ela é, e disponibilizar isso. Acho que não só para os trabalhadores, acho que para a sociedade de maneira geral, embora o nosso vínculo direto seja com os trabalhadores, né? 

 

P/1 – Então, a gente está aqui falando de projeto, e qual que é a importância do DIEESE estar realizando um projeto de resgate da sua história, desse projeto de memória hoje? 

 

R – Ah eu acho... 

 

P/1 – Por que vocês resolveram fazer esse projeto? Enfim, qual é a importância? 

 

R – Eu acho que a história de uma pessoa, a história de uma instituição, a história da classe trabalhadora é extremamente importante porque você consegue retomar aquilo que você fez, consegue olhar para as coisas que você fez certo, que você fez errado, consegue dar para as pessoas a possibilidade de conhecer coisas que elas não sabiam que existia, que estavam lá, coisas importantes que, de repente você não deu valor, coisas simples que você valorizou demais. Eu acho que é essa possibilidade de resgatar toda essa história, que para a gente é uma história extremamente importante e que a gente acha que resgatando, eu acho que é uma maneira de colocar na mesa de quem não conhece essa história, dos trabalhadores hoje, entendeu? Essa instituição, que é o resultado da atuação deles, da construção deles e de várias pessoas que tinham, interesse de estar contribuindo para essa história. Eu acho que é um pouco dessa possibilidade, desse resgate, para as pessoas que participaram de olhar para coisas que elas não tinham olhado, para as pessoas que não conhecem poder conhecer. Eu acho que é essa a possibilidade, né? E eu acho que é extremamente importante. 

 

P/1 – Quando você falou de você, que você trabalhou aqui mais de 20 anos, né? 

 

R – É. 

 

P/1 – O que o DIEESE significou na sua vida? 

 

R – Aí, vida [risos]! O que o DIEESE significou na minha vida? Acho que significou vida, né? Foi poder participar da construção de uma história, da construção dessa instituição, né? 

     Por um lado, foi isso e eu acho que, por outro lado, foi poder me emancipar enquanto pessoa, sabe, de poder conhecer, conhecer coisas, de poder olhar para o mundo tal como ele é, sabe? Sem, sem ficar [pausa], dizendo: “Não tem classe, não tem diferença, não tem desigualdade”, entendeu, “é todo mundo igual”. Na verdade não é isso, tem classe, tem diferença, tem desigualdade, tem pobreza, tem riqueza, entendeu? E mostrar para as pessoas que, independente do lugar que elas estão, elas têm valor, que elas podem contribuir, de poder acreditar nas pessoas, sei lá, são tantas as coisas que significou para mim. A possibilidade de fazer amizades, a possibilidade de, conhecer pessoas, de participar de momentos difíceis, que foram todas as crises que o DIEESE passou, mas, com isso aprender, com isso acreditar, com isso buscar se fortalecer, sei lá! Tantas coisas, não sei. Eu acho que não saberia [risos] sintetizar isso, não. 

 

P/1 – Tá, e agora só para finalizar, o que você achou de ter participado desse projeto de memória? 

 

R – Ah, eu achei muito bom, entendeu? De poder... Ah, me sinto, de verdade, fazendo parte da história, né? É assim que eu me sinto. 

 

P/1 – Tá bom, é isso. Obrigado.

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