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História

Do homem palito à bruxinha mais amada do país!

História de: Eva Furnari
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/03/2013

Sinopse

A entrevista de Eva Furnari foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 19 de março de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Eva veio para o Brasil com três anos de idade, no final dos anos 50, e conta sobre a vida de seus pais numa colônia Italiana na África durante a segunda guerra. Em seu depoimento, Eva relembra como foi o início de sua carreira como ilustradora e como começou a desenhar.

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História completa

Meu nome é Eva Furnari, eu nasci em 15 de Novembro de 1948, em Roma, na Itália. Eu vim no final de 1950, com dois ou três Anos de idade. Engraçado, eu sempre errei essa data. Existem informações equivocadas na internet e o equívoco é meu! Os meus pais foram para a África porque na época do Mussolini existiam as colônias, o qual ele queria que os italianos ocupassem. Era um lugar paupérrimo, seco, quase sem recursos – não tinha como viver ali. Então minha mãe e meu pai foram neste pacote. Tinha até um livro sobre Eritreia e Asmara, fazendo propaganda para que os italianos fossem para lá. Ai eles ficaram na África durante a Segunda Guerra, em1945, e quando a Itália perdeu a guerra, eles perderam as colônias, então eles tiveram que sair da África. Meu pai, na África, tingia peles e mandava para a Europa. Essa história eu nunca contei para ninguém, A minha mãe era uma pessoa que valorizava os livros. Só que os livros que nós tínhamos eram aqueles trazidos por ela. Todos em italiano. Eu me lembro que tínhamos um grande volume dos contos de Andersen (Hans Christian), com umas ilustrações belíssimas e padrões estéticos que influenciaram os meus desenhos. Eu comecei a desenhar o homem palito! A gente nunca sabe o quanto as memórias são verdadeiras, mas acho que foi assim. Às vezes a gente tem uns pedaços e completa. Eu acredito que estava no segundo ano primário, não sei o que corresponde hoje em dia, mas naquela época eu deveria ter uns sete anos de idade. E eu lembro de ter desenhado um homem palito e eu achei que ele merecia uma roupa. Ele estava muito magro para o tamanho da cabeça. Quando eu desenhei a roupa, eu fiquei muito surpresa porque eu achei que eu sabia desenhar! Eu achei que aquilo ficou com cara de gente mesmo. E isso ficou marcante pra mim. Bom, eu desenhava muito. Fazia até caricatura dos professores. Foi uma formação muito autodidata e aos 14 ou 16 anos a minha família começou a achar que eu tinha jeito. Nós tínhamos um senhor no bairro, não me lembro se ele era alemão ou russo, que era um grande aquarelista. Ganhei um pincel, um estojinho de aquarela, papel canson. E eu ia lá uma vez por semana e ele colocava na minha frente uma caixa postal ou uma fruta e eu tinha que copiar. Eu lembro que o teste para eu entrar lá era desenhar um cartão postal com margaridas. Ele queria saber na verdade se eu tinha condições mínimas para desenhar e depois pintar. Eu fiz duas ou três vezes, com sombra, um negócio sofisticadíssimo. Ficou muito bom, até ele levou um susto! A aquarela é uma tinta delicada. Mas eu não tinha muito contato com artistas. O meu contato foi quando eu entrei na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), que ai eu tive maior contato. No cursinho também, mas principalmente na FAU. Nessa época, eu comecei a frequentar a livraria Capitu, no bairro de Pinheiros, que é longe da minha casa. E lá descobri que existiam editoras brasileiras e estrangeiras, eu não sabia nada! E então comecei a anotar o nome das editoras e telefonar, mas não sabia nem o que eram direitos autorais. Liguei para muitas e achei que, nesse começo, eu poderia trabalhar como ilustradora. Não tinha a certeza de que eu poderia fazer histórias, ou que eu era capaz. Então a minha pergunta era: “vocês precisam de ilustrador ai?” Uma coisa desse tipo, bem pouco elaborada. Eu lembro que teve uma anedota no meio do caminho. Uma pessoa do outro lado da linha me perguntou: “que tipo de ilustrador? Lustrador de móveis?” Eu era cara de pau. Era tímida mais ia, ia, ia. Eu seguia a intuição e tomava atitudes. Tentei diversas coisas e não consegui nada. Aí a minha irmã tinha uma amiga, Maria da Graça. É uma educadora portuguesa muito bacana, amiga da minha irmã desde o colégio e tal, que informou para a minha irmã que na Ática eles aceitavam ilustradores novos. E a Ática foi pioneira nessa produção. Faziam um trabalho muito bacana. Liguei e marquei um encontro com a Regina Mariano. Ela foi muito acolhedora. Bom, neste momento não foi tão acolhedora . Eu tinha feito um portfólio com um monte de ilustrações que eu achava que poderia ser interessante em um livro infantil. Inclusive em branco e preto, ou numa cor só. Os livros aqui no Brasil ainda era de muita má qualidade, a Ática era a melhor, mas tinha muito livro preto e branco, porque saía mais barato e tal – eu ainda tenho alguns desenhos desse portfólio – mostrei para ela e ela falou “ai ai ai ai...mais ou menos!”. Senti que ela não ficou muito entusiasmada com o meu desenho, talvez por ser uma coisa muito tímida, ainda muito europeia. Estavam acostumados aqui com aquelas coisas mais coloridas. E ela disse para eu deixar o telefone que, se eles precisassem, me ligaria. Mas eu senti que não tinha rolado. Aí eu timidamente falei: “olha, eu também tenho uma coisa assim, que é só com desenhos”. Não sabia nem falar que era uma história sem texto. Falou que ia conversar com o pessoal e me ligou depois de uma semana e falou: “queremos quatro livros” Aí eu fiquei nervosa! Fiquei super nervosa! Quatro!Porque obviamente, era o começo, não só meu, mas dessa grande indústria que tem hoje, com essa quantidade de livros infantis. Aí então ela me pediu para fazer quatro, com o desenho em papel e a tinta no outro, e eu não sabia fazer aquilo! Era para facilitar o trabalho da gráfica. Assim começou minha carreira. A bruxinha, hoje famosa, foi um personagem que surgiu na Folinha de São Paulo, de uma forma muito espontânea. A primeira história é uma pequena bruxa que encontra uma flor, transforma essa flor em bruxa e essa, que era originalmente flor, transforma a bruxinha anterior em flor. Então eu acho que a origem da bruxinha, é que ela já foi uma flor um dia! Eu retomei essa história e fiz a agora, na última edição reformulada. Não é nada racional, mas quando isso acontece, são esses os livros que vendem mais. Por incrível que pareça. Eu sou uma pessoa disciplinada. Gosto de horários, gosto de rotina. A aventura fica por conta da imaginação. Eu acordo às seis horas da manhã, todos os dias. Faço meditação, tomo café, faço caminhadas, trabalho. Tenho o horário de almoço fixo e hora para dormir. Eu não consigo sempre, é claro. Num mundo cheio de solicitações, é difícil. O mundo hoje está muito interessante e tem coisa demais, então é necessário escolher. E para escrever e desenhar é necessário disciplina. Como é muito trabalho, você só consegue fazer um pouco em cada dia. Então a maneira que eu encontrei é a disciplina. Eu estou cada vez mais organizada. Eu tinha uma rotina, mas não era tão organizada. Já que os meus filhos estão grandes, e tal, é mais fácil e para mim, muito agradável. Eu gosto da rotina. Ai eu sento e crio! Eu sempre invento coisas. Eu sou aquela pessoa que inventa moda e às vezes nem tenho tempo de administrar tanta coisa que eu invento. Mas estou com projetos novos. Estou escrevendo muito. Escrevo alguma coisa para adulto também, mas não sei se vou publicar. E é sempre assim, não posso contar a ideia nova porque é segredo. Eu adoro segredos!

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