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História

Do futebol à barbearia

Sinopse

 

Apresentação do entrevistado; origens da família. Breve descrição da atividade dos pais. Infância no Parque das Nações, bairro popular da cidade de Bauru. As  brincadeiras de bola nas ruas do bairro e o ingresso nas categorias de base na cidade de  Batatais - SP. O talento que o levou para o futebol profissional, as experiências pessoais e profissionais que adquiriu no esporte, os times em que jogou e as regiões de residência por causa do futebol; ida para time do Uruguai e a lesão que encerrou sua carreira definitivamente. A volta para Bauru. O trabalho como vendedor e o reencontro com uma antiga habilidade. A tendência empreendedora. Descrição e cotidiano na barbearia Santo 7, no centro da cidade. A dedicação e os cursos de aperfeiçoamento. O trabalho e o destaque no ramo da estética masculina na cidade. A pandemia e a nova realidade do ramo. O visionarismo e a expansão do negócio para Lençóis Paulista.

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História completa

MCHV_003_Sérgio Santo

 

P1 – Seu nome completo, Sérgio, qual é?

R1 – Sérgio Santo Gagliani Neto.

P1 – Então, assim, a gente vai conversar, é descontraído. Se você não quiser responder alguma coisa, fica à vontade, tá? A gente vai começar, um pouquinho da sua história pessoal: infância, adolescência, onde você nasceu, a turma da rua, com quem você brincava e aí a gente vai entrando na questão, especificamente, do seu ramo de atividade, que é essa parte de cabelo, barba, um ramo que está muito em alta, né? Muito revisitado hoje em dia, certo?

R1 – Sim. Vê se melhorou a conexão.

P2 – Melhorou. Agora está mais alta a voz.

P1 - E aí, assim, o Guilherme está acompanhando a gente, quem vai fazer a entrevista sou eu e o Luís Paulo, mas o Guilherme também, se ele quiser fazer alguma pergunta, Guilherme, é só você abrir o microfone, fique à vontade! Tá bom?

P3 – Ok.

P1 – Podemos, Tiago?

P4 – Certo, podemos começar.

P1 – Então vamos lá, oficialmente agora:

 

Projeto Memórias do Comércio de Bauru

Entrevista de Sérgio Santo Gagliani Neto

Entrevistado por Cláudia Leonor e Luís Paulo Domingues

Bauru, 20 de janeiro de 2021

Entrevista História de Vida 003

Transcrita por Selma Paiva

 

P1 – Então, Sérgio, eu gostaria, assim, de agradecer muito a sua presença aqui, hoje, dessa forma virtual, como eu falei, inovadora e eu queria começar a nossa entrevista, eu vou perguntar de novo, pra registrar, o seu nome completo, o local e a data de nascimento.

R1 – Meu nome completo é Sérgio Santo Gagliani Neto, data de nascimento é 30 de abril de 1993.

P1 – Sérgio, o nome dos seus pais e o que eles trabalhavam, faziam?

R1 – Meu pai é aposentado, era segurança e minha mãe é professora.  

P1 – E, Sérgio, você nasceu em Bauru, mesmo?

R1 – Isso, eu sou natural daqui.

P1 – E que bairro você cresceu? O que você lembra dessa cidade, mais antigo, assim, do seu bairro?

R1 – Eu cresci numa comunidade, ali no Parque das Nações.

P1 – Descreve um pouco pra gente como é que era.

R1 – Era um bairro mais simples, mais humilde. Quem é de Bauru, conhece. Era um bairro, antigamente, um pouco mais perigoso. Era uma favela, como se fosse uma favela.

P1 – E você cresceu lá? Você brincava na rua, como é que era isso?

R1 – Sim. Eu cresci jogando bola. Fui atleta profissional, saí de casa muito cedo e viajei por mundo afora, joguei bola, totalizando 11 anos.

P1 – Olha só! Você começou no Noroeste?

R1 – Joguei no Noroeste em 2008.

P1 – Mas você começou futebol de várzea? Conta pra gente isso.

R1 – Sim. O primeiro clube foi o Batatais, uma cidade aqui da região; o segundo, o Noroeste, fui pra fora, tudo, morei em sete estados, rodei bastante.

P1 – Mas você já começou como profissional? Como é que é isso?

R1 – Joguei cinco anos em categoria de base, três anos como profissional.

P2 – Legal. Quais os outros times que você jogou, além do Batatais e Noroeste?

R1 – Passei pelo Grêmio, em Porto Alegre; pelo Flamengo, no Rio de Janeiro; pelo Operário, do Mato Grosso; Confiança, de Sergipe; Sete de Setembro, de Pernambuco; Guarani, de Bagé, do Rio Grande do Sul; Defensor, do Uruguai.

P2 – Legal.

P1 – Uma carreira toda, hein!

R1 – É, saí cedo de casa.

P1 – Mas como começou esse interesse pelo futebol, menino? Como é que começa, assim, essa história do futebol, na sua infância?

R1 – Como a gente morava na comunidade, não tinha muitas coisas pra ser feitas, a não ser brincar de bola, né? Daí a gente acaba pegando gosto e descobriu que tinha um certo talento pra continuar, mas devido a uma lesão, eu tive que abandonar, em 2014.

P1 – Quando você começou desse mais profissional, você fez peneira? Como é que foi? Como é que você deu essa virada, pra uma carreira mais profissional? Você foi pras equipes de base, mas quem te selecionou? Tinha um olheiro?

R1 – Quando a gente começa jogando campeonatos paulistas - igual eu disputei gaúchos, mato-grossenses, os campeonatos são vistos. Então, na categoria de base são pessoas, a gente chama de empresários, que acabam levando os atletas para os clubes. E assim foi. Pessoas que me viram, me colocaram nos clubes que eu passei.

P1 – Maravilha! Agora, falando um pouquinho mais, assim, da sua família. O que você sabe, assim, da origem deles, de onde eles vieram? Gagliani é italiano, né?            

R1 – Isso.

P1 – Você sabe alguma coisa, assim?

R1 – Ah, eu não sei a fundo, não. Eu sei que, na Itália, é uma família bem conhecida, né? Até o presidente do Milan é o mesmo sobrenome que o meu. Mas eu não sei qual é, de onde veio. Eu sei que meus avós vieram de lá, né? Meus bisavós.

P1 – E você conviveu com seus avós? Como é que era isso?

R1 – Não, não. ________ (08:47), não.

P1 – E, Sérgio, você tem irmãos? Assim, quando vocês eram pequenos, você tinha uma irmandade? Como é que é isso?

R1 – Tenho dois irmãos mais velhos. Um de 12 anos de diferença e outro de 14. São mais velhos, já, que eu.

P1 – Bem mais velhos, né? Maravilha! Descreve um pouco o seu pai e sua mãe, Sérgio.

R1 – Como pessoas?

P1 – É.

P2 – E o que eles faziam também. A profissão deles. O que você lembra da sua infância, na época, sobre eles?

R1 – Meu pai e minha mãe sempre trabalharam muito, né, pra dar sustento pra nós, pra nos dar o melhor que eles poderiam dar na época, né? Então, assim, eu cresci vendo minha mãe e meu pai acordarem muito cedo e chegarem muito tarde dentro de casa, pra nos sustentar. Então, isso que eu levei dentro de mim, né? Desde pequeno, trabalhar muito.

P1 – E você ficava com quem, quando eles ficavam fora? Tinha alguém?

R1 – Meus irmãos, já eram mais velhos. Quando eu era nenê, mesmo, eu tinha uma pessoa, uma mulher que cuidava de nós, que era uma tia nossa.

P1 – Ah, tá.

P2 – E o que você lembra da sua infância, lá no Parque das Nações? Do que você brincava? Quando você saía na rua tinha os amigos lá da vizinhança? Como era?

R1 – É o que eu disse: era mais jogar bola, né? Jogava bola no campinho, na rua, golzinho. Era mais jogar bola. Cresci e o que eu gostava de fazer era jogar bola. Então, era pra escola, chegava, não via a hora de bater bola (risos) com a molecada.       

P2 – Qual era a escola que você estudava? Você lembra?

R1 – Estudei no Christino Cabral.  

P2 – E o que você lembra da sua escola? Você gostava da escola? Tinha algum professor que você se identificava mais, alguma matéria que você gostava? Como era o ambiente, lá?

R1 – Sempre gostei de Matemática, de números. A professora que me recordo – é que eu não sou muito bom de memória – é a de Português, que eu era bem atentado, bem levado e ela falava que eu dava um trabalhão danado.

P2 – Legal.

P1 – Você não gostava de Português?

R1 – Não, não. Eu sempre fui muito ágil, né? Eu terminava as coisas bem rápido. Então, eu terminava e em vez de deixar os outros terminarem, os outros eram mais lerdos, atrapalhava a aula.

P1 – (risos) Que ótimo! (risos)

R1 – Daí minha mãe, como professora, chegava na reunião, daí minha mãe ia com a ‘cara vermelha’ lá, né, porque falava que eu era um baita de um aluno, tirava só nota boa, mas atrapalhava os outros.

P1 – (risos) Era muito rápido. (risos)

R1 – Era. Os outros ficavam pra trás e não faziam, ficavam conversando, brincando e acabava atrapalhando os outros.       

P2 – Sua mãe era professora do quê?

R1 – Minha mãe é professora de Química, Matemática e Física.

P1 – Olha!

P2 – E o seu pai, qual era a profissão dele?

R1 – Segurança. Foi gerente, também, de algumas empresas.

P1 – Sérgio, você teve essa carreira ali de jogador. Quais foram os aprendizados, ali, durante o seu período de jogador de futebol?

R1 – O mais que eu levo comigo é a garra, né? Quem foi do futebol sabe que você mata dois leões por dia e amarra o terceiro. Então, o que eu mais levo comigo é a garra, determinação, não tem preguiça, não tem dor, tem que trabalhar, tem que treinar, entendeu? É o que eu mais levo comigo, a determinação que o futebol me trouxe.

P1 – E, assim, você saiu cedo de casa, né? Quantos anos você tinha?

R1 – Tinha 14.

P1 – E como foi esse momento de morar fora, super adolescente? Como é que foi essa história?

R1 – Tive que amadurecer bem antes do tempo, né? Tive que ‘virar homem’, que nem o pessoal fala. Na época que era pra eu ser criança, brincar, eu tinha responsabilidade, já e morava distante de todo mundo. Só conhecia estranhos. Então, a gente _________ (13:40). Passei por muitas coisas também, que me amadureceram. Então, a gente, desde moleque, já aprendeu a ser homem.

P1 – E, assim, você tinha um salário, já, quando você foi pro Batatais?

R1 – É. Categoria de base são ajudas de custo, alimentação, moradia. Então, não diz um salário, que nem tem muitas pessoas que tem crianças, jogadores pequenos que já recebem um salário, mas não era a minha realidade. Eu fui crescendo com o tempo.

P1 – Em alguns clubes eu sei que é regra manter a matrícula na escola também, continuar estudando. Você tinha...

R1 – Sim, nota vermelha, essas coisas, suspendia de jogos de campeonatos. Sempre foram muito rígidos em relação a escola.

P1 – É um valor que não deixa mais de fora, né?

R1 – Sim. O campeonato da categoria de base preza, né, a escola. O aluno tem que apresentar boletim, tudo. O próprio campeonato suspende, né?

P1 – Ah, o próprio campeonato! Eu achei que isso era uma coisa, mais, de time. Escuta, você falou que foi pro Uruguai também, né?

R1 – Sim.

P1 – Jogou no Uruguai. Como é essa experiência de morar fora do país, ainda que seja na América?

R1 – É bacana. É outra cultura, né? É outra classe de pessoas. São pessoas mais fechadas, não são tão comunicativas, porém são pessoas que acolhem bem. Brasileiro, às vezes, não tem muito isso. Brasileiro é meio... como eu posso falar?... não tenho a palavra certa pra dizer, mas é...

P1 - ... mais carinhoso, mais aberto?

R1 - ... desfaz dos estrangeiros. Lá no Uruguai são mais calorosos, eles acolhem você. Então, foi uma experiência muito boa. Tudo que eu passei lá, as pessoas que eu conheci foram fantásticas. São memórias que, pra sempre, ficarão comigo.

P1 – E, Sérgio, tinha, assim, esse peso de ser um jogador de futebol do Brasil, sabendo que o Brasil tem essa tradição toda de futebol?

R1 – A rivalidade entre eles?

P1 – Rivalidade, não, mas assim, admiração. Tinha um pouco isso? Ou não? Pelo fato de você ser um jogador que vem do Brasil, que é um país, assim, super tradicional de futebol, tudo, tinha alguma admiração, algum respeito a mais? Você sentia isso?

P2 – Ou rivalidade.

R1 – Sim, eles nos tratavam bem, sim, porque Brasil foi o país do futebol, né? Hoje em dia não é tanta essa realidade, mas naquela época lá, principalmente por causa de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, esses jogadores assim, a gente era bem - mesmo não sendo um Ronaldo, o Fenômeno - tratado, sim. Bem respeitado.

P1 – Maravilha! Teve algum clube que você gostou mais? Como é que é isso?

R1 – Fora o Uruguai, que eu fui muito bem tratado, eu gostei do sul. Os clubes que eu passei no sul, a recepção do sul também é bem calorosa. Eu acho que por ser próximo de lá, eles têm meio a cultura uruguaia, são bem afetuosos.

P1 – É um outro estilo, né, de tratar com as pessoas?

R1 – Sim.

P1 – Maravilha!

R1 – Eu falo assim: paulista é um povo um pouco mais cismado; carioca mais esperto; e o sul, mais caloroso.

P1 – (risos) Ótimo! E aí, quando e como se dá o seu retorno pra Bauru? Você falou que você machucou, né? Você teve uma lesão.

R1 – Eu retornei em Bauru em 2014, quando eu parei minha carreira de futebol. Aí, em 2014, eu retornei à cidade, meio - muitas coisas aconteceram – que quebrado, tive que me reerguer, perdi muitas coisas a problemas particulares, então eu tive que me refazer, então escolhi a cidade que eu nasci pra me refazer.

P1 – A sua família estava aqui, seus pais?

R1 – Não, não. Eles tinham mudado pro interior, pra cidade de Dracena, de onde eles vieram, só que a cidade é muito pequena e eu não queria ficar por lá, decidi vir pra Bauru. Como desde pequeno aprendi a me lidar sozinho, decidi vir sozinho pra cá.

P1 - E você tinha, assim, alguma amigo pra reencontrar? Alguém, alguma referência aqui?

R1 – Então, é aquele ditado, né? “Quando você tem tudo, você tem todos; quando acontece alguma coisa, você perde e não tem nada”. Então, eu tinha muitos conhecidos, sim, mas que me estenderam a mão foi nenhum, foi eu e Deus.

P2 – Mas você não conseguiu fazer um ‘pé de meia’ com todos os clubes que você jogou, ganhar uma boa grana?

R1 – Como eu era moleque, eu gastava. Nunca imaginava que, do dia pra noite, ia perder a carreira ________ (19:15). Então, alguns problemas particulares fizeram eu perder um tanto e outros, por eu ser menino, não guardava. Então, eu vivia bem. Daí, do dia pra noite, eu perdi tudo.

P1 – Como que aconteceu essa sua lesão? Você pode contar pra gente?

R1 – Eu tenho três lesões na coluna. A lesão que mais me impossibilitou de continuar minha carreira foi __________ (19:46) estável, que é onde chuta, onde corre. Então, na última vértebra da coluna, é onde eu tive uma lesão que não deu pra eu continuar. Tentei à base de injeção, tratamento, tudo, mas não conseguia ter estabilidade naquele local.         

P1 – E aí, como é que você resolveu ir pro ramo da barbearia? Ou o ramo da barbearia que te achou? Como é que foi esse momento da sua vida? Descreve pra gente.

R1 – Então, a barbearia, em si, desde quando eu jogava em categoria de base e tudo, em alojamento, hotéis, tudo, a gente, só entre nós, então tem máquina, a gente tem tudo, tinha máquina de corte, tudo. Daí sempre cortava o cabelo da rapaziada quando eu era moleque. Mas sem curso, sem nada. Geralmente era raspar, moicano ou social, passava uma máquina só e tesoura em cima. Então, tipo gostava desde quando jogava, já fazia pros amigos de graça. Não era nenhum rei do corte, mas também tinha uma noção.

P2 – E na volta pra Bauru, como é que foi? Você voltou pra Bauru e primeiro você tentou se achar em outra profissão ou já foi direto?

R1 – Sim, sim. Eu voltei pra Bauru, trabalhei em duas lojas, na Polishop e na Claro, onde eu falo que Deus tirou o dom das minhas pernas e colocou na boca, né? Eu descobri que eu sabia pronunciar, fui um destaque na Polishop, fui o melhor vendedor da região e na Claro também, então ganhei algumas premiações e eu me reergui. ___________ (21:45), que era o dom da comunicação, pra dentro da barbearia, num negócio que eu gostava, de cortar cabelo e comecei a cortar pra mim.

P1 – E como é que você foi conhecendo o ramo da barbearia, assim? Você falou que quando vocês estavam jogando era tudo na raça, né? Era intuitivo. Como é que foi, aos poucos, assim, que você... porque foi um ramo que atualizou muito também, né?   

R1 – Sim, eu me especializei muito. Antes de eu abrir a minha própria barbearia, eu continuei trabalhando pra Claro, na época e fazendo os cursos, né? Então, ia pra fora. Como, graças a Deus, eu tinha uma moral dentro da loja, meu supervisor gostava de mim e tudo, ele me ajudava nesse meio, de sair um pouco mais cedo, às vezes trocava o dia da folga, pra eu estudar o ramo da barbearia. Então, eu consegui me especializar bem pra, daí sim, eu abrir a nossa porta e acho que foi isso que fez toda a diferença pra mim. 

P1 - Onde você começou a fazer curso, Sérgio?

R1 – Eu fiz um básico aqui em Bauru, só pra pegar a prática, mas meus cursos, mesmo, foram todos fora.

P1 – E como você localizou esses cursos? Assim: a escola, o curso específico. Como você fazia pra achar esses cursos?

R1 – O mundo da bola me deixou um pouco mais esperto, né? Então, a gente começou a pesquisar onde eram as pessoas que tinham, quais eram os melhores e eu procurei buscar o conhecimento com os melhores. Ainda falta algumas coisas, que nem: eu quero fazer um curso lá fora também, do Brasil, sobre a barbearia, os cortes. Então a gente vai, aos poucos, buscando um conhecimento. Que nem esse fim de semana a gente trouxe, segunda-feira agora, um barbeiro famoso lá de São Paulo, pra dar um curso específico pra minha equipe. Eu tenho uma unidade em Lençóis, daí foi em Lençóis o curso. Então, a gente procura sempre estar entre os melhores.

P1 – Que maravilha! Conta como é que foi o processo de montagem da barbearia, Sérgio, assim: o ponto, a decoração. Conta um pouco como é que você foi pensando tudo isso.

R1 – Então, o ponto foi meio que tipo assim: passei, olhei e gostei. (risos) Não foi nada muito estudado, não.

P1 – Mas não era uma rua vazia, que ninguém passa?

R1 – Não, não. É na Duque de Caixas, em frente ao supermercado Tauste. Na época eu sabia que o Tauste ia inaugurar daqui uns anos.

P1 – Já estava construindo, né?

R1 – Foi depois que eu mudei pra cá. Daí eu sabia que seria um ponto movimentado. Então, olhei, gostei do ponto e __________ (25:05). A decoração foi tudo da minha cabeça, dos lugares que eu passei, tudo, então acho que tem um pouquinho de _________ (25:15) foi fazendo.

P1 – Conta um pouco pra gente, que a gente não está aí na loja, a gente está vendo algumas coisas: tem madeira. Descreve um pouco a loja pra gente.

R1 – A nossa barbearia eu trouxe um pouco do rústico e do moderno, pra dentro da barbearia. Então tem assim: jogos, uma decoração rústica com moto dentro, com madeiras, com músicas. Tem um pouco do moderno, que é um sofá um pouco mais aconchegante ___________ (25:59). Tem uma sala retrô, onde eu estou aqui, que tem uma cadeira há mais de cem anos, uma sala bem retrozona. Um pouco aqui, deixa eu virar a câmera aqui e vocês vão ver, estão trabalhando aqui, que é onde a gente corta. Então, são duas salas de corte e a sala da frente lá é de lazer.

P1 – Legal.

P2 – E você tem também... hoje em dia, na barbearia, não é só pra cortar o cabelo e fazer a barba. Tem barbearia que tem jogos, cervejas especiais. Você está nessa parte também, nessa área ou não?

R1 – Sim, sim. A gente oferece, acredito eu, quase todo tipo de cerveja pro nosso cliente, que a gente sabe que hoje o homem gosta. A barbearia já não é mais só corte de cabelo. É um lugar que o cara espairece a mente, se desestressa, descansa. Então, é mais um point masculino, a barbearia se tornou.               

P2 – Tem música também? Porque tem barbearia que tem até aquelas caixas de som, que a pessoa escolhe a música. Aí toca um som também.

R1 – Tem. A gente não tem a caixa de som, a gente tem uma tela bem grande, de sessenta polegadas, onde o cliente escolhe a música que ele quer. Então, a gente coloca todo tipo de música. Vai ao gosto do cliente.

P2 – Legal.

P1 – E como você formou essa clientela, Sérgio?

R1 – Acho que foi muita oração. (risos) Muita reza, muita fé e atendimento, né? As lojas que eu passei, por eu ter sido destaque, melhor vendedor da região, com mais de quatrocentos vendedores abaixo de mim, não quis dizer que eu era melhor do que as pessoas, mas que eu tinha um diferencial, que era o atendimento. Então, eu trouxe isso pra dentro da barbearia e, se você der uma olhada no Google, a gente é a barbearia mais bem avaliada em Bauru, graças a Deus primeiramente, depois graças ao atendimento que a gente presta e o que eu cobro dos meninos aqui é prestar sempre o melhor atendimento para os nossos clientes.

P1 – E como você foi formando essa sua equipe?  

R1 - Meus barbeiros são todos de fora. São cidades da região que, conforme eu fui ficando conhecido, as pessoas vieram até nós e a gente abriu a oportunidade e deu certo. Já tive barbeiros da cidade, alguns tive alguns problemas. Então, não foi de início que eu acertei a equipe. Hoje a minha equipe é certa, mas eu apanhei um pouquinho.

P1 – E, Sérgio, de onde veio o pessoal que está trabalhando hoje? É de Agudos, Lençóis? De onde que eles vêm? De que cidade que o pessoal da sua equipe está vindo? De perto?

R1 – Dois de Avaré, um de Ibitinga e eu tenho três em Lençóis, na unidade de Lençóis.

P1 – E tem a unidade. Como é que você começou essa expansão lá pra Lençóis? Quando e como?

R1 – Eu comecei na pandemia. (risos)

P1 – É mesmo?

R1 – Me chamaram de louco, né? Dizem que Deus usa os loucos, pra confundir os sábios. Então, eu tenho isso dentro de mim também. Enquanto uns fechavam as portas, eu decidi abrir, mas graças a Deus, deu certo.

P1 - Olha que interessante! Porque, assim, a pandemia mexeu bastante com os horários do comércio, né? Ficou muito tempo fechado. Como é que você se organizou, então?

R1 – A gente, devido ao decreto, que a gente teve que fechar a porta, começou a atender os clientes nas casas. Então, os clientes, por gostar bastante de nós, não nos abandonaram e começamos atendimento em domicílio, como era o decreto firmado, né? Daí, depois que o decreto foi dando uma trégua, nós fomos voltando, aos poucos, pra barbearia.

P1 – E aí, nesse contexto todo é que você abriu Lençóis. Por que Lençóis?

R1 – Porque é a cidade, acho, do futuro, né? A Bracell, a maior fábrica de celulose, indústria de celulose, indo pra lá, eu achei que o futuro de Lençóis seria produtivo, né? Principalmente para o meu negócio, que são várias pessoas de fora vindo. Então, em Lençóis, a nossa barbearia, na minha opinião, é a mais bonita da cidade.                   

P1 – Seria a primeira nesse estilo retrô?

R1 – É. Lá eu puxei a atenção do retrô pra fora e, dentro, eu coloquei bem mais modernidade do que aqui, que fora ela é toda preta, mas uma coisa ___________ (31:34), mas cor preta e aqui dentro é madeira. Lá, não, foi ao contrário. Lá dentro tem as partes pretas e fora tudo madeira.

P1 – E onde você buscou inspiração pra esse estilo? Alguém te ajudou? Como é que foi? De onde veio essa...

R1 – Então, é como eu disse: a inspiração foi devido a minha vivência. Então, assim, a gringa, lá fora, traz muito esse ramo de trazer pra barbearia o rústico e o moderno juntos. Então, eu olhava bastante as barbearias de fora e eu tentei trazer pra cá uma ideia totalmente diferente, que na cidade não tinha. Então, se você pesquisar também, o nosso interno aqui é bem diferente de qualquer outra barbearia daqui de Bauru.

P1 – Mas, assim, quando você montou, já estava esse... vou chamar de revival, essa modernização das barbearias?  

R1 – Sim, sim. Já tinham pessoas, aí, conhecidas, que trouxeram essa ideia pra Bauru, mas não igual o que eu trouxe. Eu tentei ser um pouco diferente deles, pra não ser mais um, entendeu?

P1 – Entendi. E tem estilo de corte? Como é que o pessoal fala, assim: “Eu quero assim, eu quero assado”? Fala pra gente um pouco.

R1 – A nossa escola, como eu disse, eu tentei me aperfeiçoar em todos os sentidos dentro da barbearia. Então, todo tipo de barba, de tratamento facial, barboterapia, até o corte mais clássico, que é aquele todo na tesoura, até o mais moderno, como são as mechas coloridas, blindado, as mechas spike, fantasy e tal, a gente traz de tudo. Tudo que o cliente quiser fazer, a gente consegue entregar aqui.

P1 – Então, vamos com calma, porque é assim: pensando que é uma entrevista que é pra ficar pra história, explica cada uma dessas mechas que você falou aí. (risos) Vai tentando explicar pra gente, pra deixar registrado.

R1 – Blindado é conhecido mundialmente com o Ariel, o Rei do Blindado, que estourou na TV, foi no Danilo Gentili, o programa agora está no SBT agora, então ele trouxe a ideia pro Brasil, desenvolveu o penteado e estourou, que é aquele penteado que não desmancha. Então, pode amassar, passar a mão, apertar, ele não desmancha.

P1 – Por isso que chama Blindado!

R1 – Isso. As mechas fantasy são as coloridas. É mais da gringa essa. Alguns barbeiros brasileiros trouxeram pro Brasil, mas nasceu lá fora. São os cabelos mais desconectados, despontados, com umas cores mais chamativas. Então, é bem diferente do que você vê no dia a dia.

P1 – Que cores que costumam usar?

R1 – Geralmente as que chamam atenção. As cores neon: azul fluorescente, rosa, verde, branca, prata. São as cores que destacam.

P1 – Certo. E aí você tinha falado um outro estilo também. Tem mais um?

R1 – É o spike. É tipo um porco espinho, né? É aquele todo espetado, bem duro, tipo Supla. (risos)

P1 – É mais uma estética punk, assim?

R1 – Isso, sim.            

P1 – E assim: virou moda essas barbas também, que nem você está usando, né? Há dez anos ninguém usava uma barba assim. Como é que veem, assim, essa questão da barba?     

R1 – Lá fora sempre foram muito usadas. É que aqui no Brasil tinha mais aquele pensamento quadrado, então as empresas não aceitavam as barbas, então foi quebrando esse paradigma. Então, hoje, o juiz tem barba; delegado tem barba. Então, algumas coisas foram mudando. E onde os caras, as empresas foram aceitando, que é como se fosse tatuagem também, que antigamente não podia.

P1 – Ninguém. É verdade.

R1 – Então, o pessoal foi botando a ideia de ter a barba grande, não porque é moda agora, não. É porque antes, realmente, não podia. Principalmente em trabalho. Hoje ainda tem algumas empresas que não aceitam.

P1 – É.

P2 – De que país que veio essa tradição da barbearia como lugar de encontro, da pessoa relaxar e essas barbas diferentes? Que país que é?      

R1 – Lá fora, nós, pelo menos... não sei se eu sei te dar essa informação exata, mas pelo pouco de conhecimento que eu tenho, lá fora é bem os Estados Unidos, um pouco e um pouco dali... não sei se é alemão ou holandês, aqueles loirões lá, ruivos, de barba grande também.

P2 – Que usa bastante.

R1 – Eu não sei qual é o certo, que fez aquela série Vikings, tudo. Então, aqueles alemães da barba grande, que a gente chama de lenhador, né?

P2 – Sim. Ali você pode ter opção de ver como eram as barbearias de lá, pra trazer influências pra cá também?

R1 – Sim. O Brasil repaginou, né? A gente, se olhar dez, quinze anos atrás, as barbearias eram simples, né? Eram básicas. E lá fora já vem, que nem tem vários cortes que chegam aqui, que lá fora já está ultrapassado, já foi. Só que, aqui, pra nós, é novo, porque infelizmente o Brasil está atrasado em quase tudo. Então, as pessoas começaram a analisar, que nem o ‘seu’ Elias, que é o barbeiro mais famoso hoje, na minha opinião, do Brasil. Ele foi muito pra fora e começou a trazer as ideias pra dentro, onde vários seguidores, barbeiros, o seguem, ele tem curso exclusivo na própria cidade dele, onde ele... como fala? Recebe os barbeiros, acomoda os barbeiros e dá todo suporte pro barbeiro fazer um curso com ele. Então ele trouxe, eu acho, na minha opinião, muita coisa de fora pra cá, onde revolucionou a barbearia.

P2 – Legal.

P1 – Sérgio, de que região da cidade você tem mais clientes? Ou a faixa etária. Qual o perfil da sua clientela, hoje?

R1 – (risos) Eu falo que a gente atende todo tipo de perfil. Aqui a gente tem todo tipo de cliente. Tipo assim: desde a classe A a classe C: “Eu quero fazer o corte com você, eu quero aquele corte desse jeito”. Todo tipo de cliente, graças a Deus, a gente é procurado.

P1 – E faixa etária não tem, especificamente? Varia também?

R1 – Varia por causa do estilo. Como a gente abrangeu todo tipo de estilo, tem desde o juiz, o delegado, que sentam na minha cadeira, que são amigos nosso, até...

P1 - ... moçadinha?

R1 – Não vou falar de profissão, porque não é desmerecimento nenhuma profissão, de ninguém, mas até daquele assalariado, entendeu?

P1 – Hum hum. E me fala uma coisa... oi, Lu, pode falar.

P2 – Criança também você corta? Jovem...

R1 – Todo tipo. A gente atende nenê de seis meses, nove meses, criança de um ano. A gente tem até uma postagem que a gente fez ontem, tem vários pais que chegam aqui: “Nossa, mas minha criança nunca deixa o barbeiro cortar o cabelo, nunca para quieta, chora, faz... “. Daí eu falo: “A gente tem que saber lidar. Primeiro você ganha a criança e depois corta o cabelo dela”. Então, aqui eles fazem vídeo, ficam felizes, nossa, comentam no Google, que eu postei lá alguns posts de alguns pais, algumas mães falando que os filhos adoram aqui, por causa disso: aqui eles chegam e se sentem em casa. Então, acredito muito que as crianças sentem a energia do lugar, tudo e então eu falo que aqui é um lugar abençoado.

P1 – Com certeza. Falando mais assim da parte prática, porque uma coisa é você saber cortar cabelo; outra coisa é você gerenciar o negócio. Como você aprendeu a fazer a gerência do negócio: compra, estoque, fluxo de caixa...

R1 – Então, o futebol me trouxe muita coisa boa. Uma delas foi a liderança. Então, a gente aprende a lidar com a equipe, a gerir, porque quem foi da bola sabe que não é fácil. Então, o futebol eu falo que foi uma escola da vida pra mim. Então, não fiz cursos, não sou formado em Administração, não tenho um curso de liderança. Porém, com a minha experiência de vida, eu acho que eu aderi isso na prática. Então, as lojas, lidar com vendas, com metas, com clientes, trouxe um pouco de tudo pra dentro do meu negócio.

P1 – Você chegou a fazer algum curso específico? Até alguma consultoria? Sebrae, essas coisas? Ou não precisou?

R1 – Não, não. Foi apanhando da vida, (risos) mesmo.

P1 – Intuitivamente. Está no sangue, né? (risos)

R1 – É. Eu falo que foi um dom que eu descobri que tinha. Nunca imaginei. Tanto que eu tenho tatuado no meu corpo que são planos de Deus. Nunca imaginei ser o que eu sou e estar onde eu estou hoje.

P1 – Maravilha! Falando um pouquinho da atualidade, Sérgio, a ideia não é a gente pegar a parte da reclamação, mas quais foram os aprendizados, os desafios do período da pandemia? Porque o comércio foi um dos setores muito atingidos, né?

R1 – Superação, né? Eu acredito que toda vida eu sempre tive uma certa dificuldade, desde pequeno. Então, quando eu saí de casa cedo, meu pai sempre falou pra mim e eu levo isso daí até o dia que eu partir pra outra: se você for fazer uma coisa, você seja o melhor. Não seja mais um. Se for pra sair de casa pra ser mais um, continua na sua casa. Então, veio a pandemia, vieram as dificuldades, o que tinha que fazer, pra ser diferente? Correr. Atendimento, prestar serviço fora, longe, indiferente de bairro, rodava a cidade inteira pra atender o cliente. Eu acho que o nosso diferencial também, além do atendimento, é o preço acessível, né, na verdade. Não que eu estou falando que outras barbearias que cobram mais, é errado. Não. Cada um coloca o seu preço no seu serviço. Mas o que ajudou os clientes na pandemia foi, acredito eu, nosso preço acessível.

P1 – Porque aí não teve um impacto tão negativo, então? O preço acessível ajudou.

R1 – Sim, porque a dificuldade veio. Se você tem um serviço de qualidade com um preço um pouco mais acessível, é óbvio que você vai procurar por ele. É igual produto: se você tem um produto bom, com um preço mais acessível do que você estava acostumado, você vai procurar por ele, porque muitas pessoas ficaram sem emprego, reduziram salários. Então, acho que foi um dos pontos positivos pra nós também.

P1 – Agora, como é que foi o começo da pandemia? De uma hora pra outra teve que fechar o comércio. Vocês ficaram muito tempo parados, até começar a atender?

R1 – Foi bem difícil. Falar pra você: “Foi fácil”, estou sendo hipócrita. Não foi fácil. Cabeça quente. Nossos gastos são altos. Então, assim, obrigações bem pesadas. Então, foi muita reza, muita oração.

P1 – Como você foi buscando essas soluções? Foi pelos decretos, que autorizavam atendimento em casa?

R1 – Sim. A gente tinha que ficar acompanhando. O comércio tinha que ficar acompanhando as notícias do governo. O que eles nos autorizavam fazer, nós fazíamos. Então, foi enquadrando algumas coisas. Conversava com os clientes, explicava a situação, os clientes foram entendendo, a gente foi buscando, né, como a gente trazer a barbearia pra dentro da casa do cliente, entendeu? Porque não é só um simples corte. Cortar cabelo, muitas pessoas cortam. Eu sempre falei isso. A gente procura ser um diferencial. Então, foi dentro de mim, noites e noites pensando, como eu conseguiria trazer um pouco da barbearia, da experiência que ele tem dentro da barbearia, dentro da casa dele.

P1 – E como você solucionou esse desafio? Como você achou esse caminho, assim? Porque você falou: “Não é só cortar cabelo”. Então, não é só levar uma tesoura, certo? Essa adaptação exigiu muito mais do que o seu funcionário ter uma tesoura junto. Como é que você resolveu essa questão de ter a barbearia na casa do cliente?

R1 – Como a gente participa de cursos, tudo, a gente consegue, tem o nosso material de trabalho tudo móvel, nosso material de trabalho é tudo sem fio, né? Então, a gente ia bem preparado, com álcool, com luvas, com materiais descartáveis pra, ao terminar o atendimento, descartar na frente do cliente, pra ele ver que, realmente, aquele material era pra ele e pronto. Então, trazia mais segurança pra ele e, como a gente aprendeu a lidar com a dificuldade, a gente consegue cortar em qualquer lugar. Sofria um pouco, né, por causa da cadeira, às vezes doía as costas, dói o braço, a posição não é a mesma coisa do que na barbearia, porém a gente tentava trazer aquela sensação pro cliente, que o cabelo ficasse igual o da barbearia e o atendimento também.

P1 – Maravilha! Tradicionalmente, independente de pandemia ou não, como é a forma de pagamento que o pessoal mais faz? É dinheiro vivo, cheque, cartão, Nubank? Como é que é, agora, a forma de pagamento?

R1 – As máquinas. A maioria das pessoas, hoje, principalmente por causa da pandemia, está evitando andar com dinheiro, né? Então, são as máquinas sem fio, de Banco, que a gente tem, né? A gente levava a máquina até eles e eles passavam.

P1 – É mais fácil, né?

R1 – É.

P1 - Agiliza também?  

R1 – Sim, porque não precisa, também, ficar andando com troco e tudo. Então, eu acho que uma coisa que eu tenho dentro de mim também é que o preguiçoso dá uma desculpa; o esperto procura uma solução.           

P1 – (risos) É verdade. (risos)

P2 – E o que você gosta de fazer, sem ser o ramo da barbearia? Quando você sai daí, onde você gosta de ir passear? Quais são seus afazeres, fora a sua profissão? O que você gosta de fazer? Onde você vai? Que tipo de atividade? Jogar bola acho que você não pode mais, mas você gosta de ir ao cinema? O que você gosta, além desse ramo da barbearia?    

R1 – O que eu faço, além da barbearia?

P2 – Sim.

R1 – Quando não está muito cansado, eu gosto de ir na academia, pra fortalecer principalmente as lesões que eu tenho, pra eu aguentar trabalhar. Mas nosso trabalho é bem exaustivo, então falar pra você que eu vou todo dia, é mentira.

P1 – (risos) Você continua a jogar futebol? Ou mais academia, mesmo?

R1 – Não. Futebol, depois que eu parei, eu perdi o encanto. Além da dor que eu sinto, se eu jogar, eu prometi que eu não queria mais. Não entrava em campo, mais, nem pra brincar.

P1 – Entendi. O que mais que ficou faltando a gente falar, Sérgio, que a gente não te perguntou?

P2 – E que você gostaria de dizer.  

R1 – Ah, eu poderia passar uma mensagem aí pra todos que, por mais que seja difícil e você esteja em dificuldade, tudo, só depende de você. É você que vai fazer a diferença. Ninguém vai fazer pra você o que tem que ser feito. Então, eu acredito que você tem que ter muita fé, muita perseverança e acreditar em você mesmo, porque só você pra mudar a situação que você está. Então, acho que é essa a visão que eu posso passar, principalmente nesse período difícil que a gente viveu, que não é colocar a culpa nas pessoas: “Meu patrão me mandou embora, meu salário diminuiu, não consigo arrumar emprego”. Não. Quando a gente tem fé, a gente consegue tudo.

P2 – Certíssimo. Você formou família? Você se casou? Tem filhos? Ou ainda não?

R1 – Hoje eu sou divorciado e tenho um filho de um ano e meio.

P2 – Legal.

P1 – Ele vai aí na barbearia contigo? Como é que é?

R1 – Vai. Eu o busco. Ele é de outra cidade. Eu o busco nas datas que eu posso, que estão regulamentadas judicialmente. Parece que ele vive aqui, ele adora. (risos)  

P1 – (risos) E aí você faz o cabelo bacana nele? Como é que é isso?

R1 – Então, por ele ser muito pequeno, tem um ano e meio, a gente não consegue, também, fazer tanta coisa, porque criança a gente sabe, não é quieta, então não adianta querer inventar muito, que não dá certo.    

P1 – (risos) Que bacana! É um menino? Como ele chama?

R1 – Chama Henry.

P1 – Nome bonito!

R1 – E as crianças daqui, é o que eu falo pros pais: a gente consegue cortar o cabelo dela, sim. Não adianta querer um blindado, por exemplo, numa criança de um ano, dois anos. Então, tem que ser na medida do possível.

P1 – Sérgio, mas assim, vê se eu estou certa, eu queria a sua opinião, a sua visão, o seu olhar: vai mudando mesmo o corte pros meninos. Tem aquela coisa mais certinha, quem tem cabelo liso. A gente brincava, quando eu era criança, aquele ‘mamãe, quero bolo’ e chega uma fase do menino, que ele deixa de ser menino, ele quer arrepiar o cabelo, pintar. Como é que é isso? Como você vê isso?

R1 – Às vezes a gente dá, até, risada, aqui na barbearia, porque um filho fala: “Mãe, pai, posso fazer isso, fazer aquilo?” Aí tem alguns pais ainda que não gostam muito da ideia, falam: “Não, deixa pra próxima vez”. E a criança, conforme ela vai crescendo, vai pegando autoridade, as vontades dela. Então, às vezes tem pai que chega tranquilo, deixa o menino fazer o que ele quer. Tem pai que ainda quer ‘mamãe, quero bolo’. Então, varia.

P1 – É assim mesmo que fala ainda esse corte mais certinho? (risos)

R1 – Tem muitos nomes: Joãozinho, Vaca Lambeu, tem um monte de nome.

P1 – (risos) Os apelidos, né? Maravilha! Você está aberto há quanto tempo, Sérgio, aí na Duque?    

R1 – A gente vai fazer três anos esse ano. Em maio desse ano a gente completa três anos.

P1 – Você notou, principalmente o ano passado, uma alteração na rua, assim, na Duque de Caxias, como comércio? Acho que era bem movimentado, tinha um bar muito grande aí, quase na frente do Tauste. Você notou essa alteração no fluxo das pessoas, no horário? Você está em frente ao Tauste, que é uma referência, né, de público também. Como é que você percebe essa dinâmica do comércio de rua?

R1 – Sim, diminuiu o movimento, porque na nossa redondeza aqui são universitários, por causa da USC e tudo, então a maioria dos universitários foram pra casa, né, porque as aulas se tornaram on line. Então, o Bar do Valdir, que era na mesma quadra nossa, só era na esquina de cima, a gente é na esquina de baixo, era lotado à noite. Então, o movimento da Duque de noite diminuiu muito, porque parecia um formigueiro.

P1 – Parava a rua, né? A avenida.

R1 – Parava. Era muita gente, mas a maioria é o que eu estou falando: é universitário, então a pandemia mandou os universitários pra casa, daí diminuiu.

P1 – O Bar do Valdir fechou?

R1 – Ele mudou de endereço, né?  

P1 – Ah, tá. Mudou de endereço, não chegou a fechar.

R1 – Pelo que eu fiquei sabendo, ele mudou de endereço. Não sei pra onde foi.

P1 – Porque era bem grande, ali, né?

R1 – Era. E outra: ele tinha um nome, já, né? Então, os universitários gostavam bastante de frequentar ali o bar dele. Então, diminuiu. À noite já é tranquilo. À noite, principalmente dias de jogos, ali, era ________ (56:47).        

P1 – E você tem uma clientela do pessoal que vai nas lojas de carro que tem ali, do próprio Tauste? Você tem uma clientela que acaba descobrindo o seu ponto, o seu negócio, ali?

R1 – É, alguns clientes, sim. Às vezes vão no Tauste, ali, param no estacionamento. Como a nossa esquina também é grande, não é pequena, eu tenho umas fachadas bem luminosas dos dois lados, tanto de quem vem do Redentor pra cá, como de quem para no Tauste, como quem para no sinaleiro. Então, a nossa iluminação, a nossa divulgação visual é bacana. Então, o Tauste, principalmente, quando o pessoal senta ali pra jantar, a gente fica bem visível.

P1 – É, né? (risos) Que o restaurante do Tauste é bem na frente.

R1 – É bem na frente.

P1 - Naquela esquina, né? Oposta.

R1 – Bem na frente. Eles sentam de frente pra nós.

P1 – Um camarote, né? (risos) Fala, Lu, você ia perguntar.

P2 – Não, eu ia perguntar: você faz propaganda também ou é mais os clientes, no boca a boca, um conta pro outro...

R1 – É os dois. A gente trabalha bem as redes sociais, nosso Instagram é bem movimentado, nosso Google é bem movimentado. Como eu disse, em três anos, pra nós é muito satisfatório ser a barbearia mais bem avaliada da cidade. Então, assim, eu acredito que o marketing é o segredo do negócio, principalmente na pandemia que a gente viveu.

P2 – Legal. E quanto ao futuro, assim? O que você imagina? Você tem planos, assim, de abrir em mais cidades? Ou abrir filiais em Bauru também? Ou abrir até em outro estado? Fazer crescer bastante o negócio? O que você pensa do futuro?

R1 – Eu acredito que o nosso futuro será bem próspero. Nosso ramo, acredito que hoje o brasileiro não deixa de se arrumar, principalmente o homem. No século XXI, hoje, a realidade que nós vivemos hoje, acredito que o nosso ramo é um dos melhores, atuais, hoje. Então, acredito, sim, que esse ano, se Deus quiser, inauguramos a terceira unidade da Santo Sete e eu tenho um espelho, que nem eu falei no começo, é o ‘seu’ Elias, que tem várias filiais, várias unidades e é nesse método de trabalho que eu vou tentar ir, vou procurar ir.

P1 – Como você escolheu o nome da barbearia?   

R1 – Santo é meu sobrenome, né? E o sete é o número da perfeição. Então, por eu ser muito crítico, querer sempre, nas lesões que eu tenho hoje, quando eu fui atleta, de me esforçar muito, então eu procuro sempre o que meu pai me falou quando eu era pequeno: “Se não for pra ser o melhor, fica em casa”. Eu acredito muito na perfeição, que você tem que entregar o melhor pro cliente, pra sua família, o melhor pra todos.          

P1 - Legal. Você tem mais alguma pergunta, Lu?

P2 – Não. Eu ia perguntar exatamente o sete, o porquê do sete. Ele respondeu.

R1 – Muita gente pergunta. Acha que é isso, que é aquilo. Eu falo pras pessoas: “Eu acredito muito na força dos números”. Então, o número sete, além de ser o número da perfeição, é forte. Então, eu acredito que, quando eu jogava bola, eu era atacante, tudo, eu jogava aberto, então o clube que deixava eu escolher a camisa que eu queria jogar, eu escolhia sete e eu trago sempre comigo.

P1 - (risos) Eu achei que era sua camisa. (risos) Que tinha a ver com o seu número de camisa. (risos)

R1 – Também. Eu gosto do número sete.

P1 – Maravilha! A gente vai começar a encerrar, mas antes de começar a encerrar, ainda tem dez minutos, então, Sérgio, daqui pra frente, qual seria seu sonho pra realizar, pessoal? Da barbearia você já falou o que você tem como horizonte, mas pessoal, qual seria o seu sonho pós pandemia? (risos)

R1 – O meu é de me tornar realmente um empresário bem sucedido, bem renomado, reconhecido. Então, a pessoa, a hora que falar Santo Sete, todo mundo sabe quem é, entendeu? 

P1 – Já no seu ramo, né?

R1 – Sim. Assim como o Jade é conhecido de confiança. Todo mundo fala Jade, todo mundo sabe quem é. Então, a hora que falar Santo Sete, todo mundo saber quem é. Então, meu sonho, hoje, por eu ter crescido na favela, humilde, tudo, pra mim, está bom. Eu tenho sonhos que nem hoje, tinha um sonho de ter um carro, hoje consegui ter o carro que eu queria; tinha um sonho de dar um presente bom pro meu pai, pra minha mãe, consegui dar um presente bom pro meu pai e pra minha mãe. Então, assim, nunca fui muito de abrilhantar os olhos. Acredito que o que for pra ser meu, vai chegar até mim. Então, se for pra eu ter um __________ (01:02:37) lá no Lago Sul, uma mansão lá dentro, Deus vai me colocar lá dentro, mas meu sonho mesmo é ter a minha família bem cuidada, meu pai, minha mãe, minha mulher, meu filho, entendeu? Então, acredito que o melhor sonho é esse: estar em paz, estar bem com quem você gosta.

P1 – Com certeza. E pensando nessa entrevista que a gente está fazendo, assim, desse modo inusitado, mas é uma entrevista que vai pra um museu virtual, o que você achou de contar um pouco da sua história, da sua experiência e deixar registrada história do comércio de Bauru? Como é que você percebe isso, esse momento?

R1 – Ah, me sinto lisonjeado, emocionado, vocês desculpem o nervoso aí. “Mas você jogou bola, dava entrevista”. Mas a realidade é outra. É totalmente diferente isso aqui.

P1 – (risos) É totalmente diferente, né?

R1 – Pra mim isso daqui é um prêmio, tipo assim: um sonho. (risos) Você perguntou de sonho, é um sonho isso aqui. Então, ser conhecido. Pô, tem mais de mil barbearias em Bauru! E você ser escolhido pra falar, contar sua história, pra mim, sinceramente, é gratificante demais, emocionante demais.

P1 – Nossa, lindo isso que você falou! (risos) Porque você acaba falando pelo setor todo. Da sua experiência emana os desafios do setor todo, né? E mesmo pra gente estar localizando também não é fácil, né? Mas eu acho que você foi ótimo e pegou bem essa ideia. É uma entrevista diferente da jornalística, depois do jogo, né? É uma entrevista em profundidade, porque a gente busca, de fato, registrar essa história do comércio pela trajetória das pessoas.

R1 – Eu acredito que, assim, por eu ter vindo do nada, um sonho também, você falou ‘seu sonho’, esqueci de falar isso, vou voltar um pouquinho, é fazer um livro. Deixar a história, tudo que eu passei, dentro de um livro, pra inspirar pessoas. Então, por isso, pra gente chegar nesse patamar, a gente não pode ser um Zé. Ninguém vai ouvir um Zé, né? Zé da rua ninguém vai ouvir. Então, a gente precisa galgar os degraus e, se for da vontade de Deus, chegar no alto patamar, pra gente inspirar as pessoas. Então, meu Instagram, se você der uma olhada, é bem focado nisso, eu acredito que a força da inspiração muda a história.

P1 – É. Deixa eu perguntar uma coisa agora, no final, também: você fala muito dessa força, né, que vem de Deus, assim. Você tem a religião muito forte? Como é que é isso pra você, Sérgio? A sua crença religiosa é muito forte? Você sempre está referindo a Deus, àquilo que você merece. Você é evangélico, católico?

R1 – Eu acredito que quem fez a religião foi o Homem, então ‘em todos os lugares onde você está reunido, falando em meu nome, ali estarei presente’. Então, eu acredito em Deus.         

P1 – Maravilha! Você acha que ficou faltando falar alguma coisa, Sérgio?

R1 – Eu acho que foi muito bem conversado, _________ (01:06:20) de onde a gente veio, nasceu. Expressou um pouco da história sofrida (risos) que eu já tive. Relatou gostos e sonhos. Eu acredito que foi muito bem, muito boa a entrevista.      

P1 – Está bem contemplada. Guilherme, você quer fazer alguma pergunta? Porque o Guilherme que fez o contato contigo.

P3 – Olha, eu acho que eu não tenho nada a acrescentar. Foi muito boa a entrevista, também achei. Muito legal a participação do Sérgio. Legal ter conversado com ele há bastante tempo e está vendo o fruto disso agora, né? Também achei _________ (01:07:07) pra ser a barbearia aí que, como ele disse também, dentre tantas de Bauru, foi selecionada. Parabéns aí pro Sérgio e acho que foi excelente a entrevista!  

P1 – Tá ok. Então, Sérgio, oficialmente, em nome do Museu da Pessoa, do Sesc de Bauru e do Sesc São Paulo, a gente agradece profundamente a sua participação, disponibilidade. A gente ainda vai te perturbar um pouco, que vai ter um ensaio fotográfico, tá? (risos) E a gente vai pegar algumas imagens suas, também, mais antigas. Agora a gente vai encerrar oficialmente a entrevista. Obrigada, viu?

R1 – Muito obrigado! E, assim, só uma dúvida: minha mulher, enquanto eu conversava com vocês, fez alguns videozinhos pra postar na rede social. Tem problema?

P1 – Pode pôr. Pode. (risos) Então, você está casado de novo?

R1 – Casado, casado, não, mas...

P1 – Então fala um pouco da sua companheira agora.

R1 – A pessoa hoje que está do meu lado é uma baita duma pessoa, trabalhadora, guerreira também, tem uma história de vida muito bacana também. Uma vencedora, né? E acredito que seja uma das melhores pessoas que eu já conheci.

P1 – Como ela chama? O nome dela.

R1 – É Lilian.     

P1 – Está certo, então. Então, mais uma vez, obrigada, viu, Sérgio? Obrigada, mesmo. E a gente vai mantendo contato.

R1 – Muito obrigado vocês, viu? Obrigado, foi um prazer!

P2 – Eu agradeço.

P1 – Tchau.

R1 – Tchau.

P2 – Até logo! 

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