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História

Do direito ao jornalismo

História de: Nemércio Nogueira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2020

Sinopse

Nemércio Nogueira destaca em seu depoimento o quão agradável era a cidade de São Paulo e sua infância e juventude. Lembra dos trajetos de bonde entre o Ipiranga, onde morava, e o colégio Mackenzie, onde estudou até ir para a universidade. Conta como abandonou os cursos de Direito e Ciências Sociais por descobrir a vocação para o jornalismo, e da convivência com o grupo de amigos que trabalhavam no “Estado de S. Paulo”, Vladimir Herzog incluso.

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História completa

Lembrança dos pais

Meu pai era bancário. Ele veio do interior de Minas, do Sul de Minas, cidade de Passos, e ele veio para cá mocinho, sem eira nem beira, com 20 moedas no bolso daquele tempo, que eu não sei o que era, real, cruzeiro ou sei lá o quê. E o primeiro trabalho dele foi ser lavador de escada na estação da Sorocabana, que hoje é o auditório da orquestra [Sala São Paulo]. E aí ele foi arrumando empregos, virou informante de banco, trabalhou em banco a vida inteira, trabalhou no Banco Real do Canadá, Royal Bank of Canada, aprendeu inglês, tinha aula com um senhor inglês na Avenida São João. Uma vez ele me levou, era seis horas da manhã a aula. E ele estudou e aprendeu inglês, e foi, e foi indo, foi indo, galgando degraus na carreira. Acabou diretor de uma empresa do Comind, quando o Comind ainda era um banco respeitável. Então a vida inteira dele praticamente foi bancário. Minha mãe era de casa, ela era... minha mãe. Muito do lar.

 

Escola de jornalismo

Um amigo muito próximo do Mackenzie, meu colega de classe, chamado Carlos Muntovicce, descobriu que a vocação dele era ser publicitário. E, sempre, aos 18, 19 anos, a gente pensa não em ser funcionário de alguém, a gente pensa em abrir uma agência – sem ter clientes, claro. Aí fizemos uma agência chamada Delta Propaganda, registrada, bonitinha, com bloco de fatura e tal, cuja sede era na sala que era o estoque da loja de bolsas que o pai do Carlos tinha na Rua Capitão Salomão, perto da Praça do Correio. Ele tinha uma loja de bolsa, chamada Bolsas Carlos, e o estoque era num prédio trinta metros abaixo, na esquina da avenida, e o Carlos conseguiu convencer o pai não só a esvaziar o estoque e dar aquela sala para a gente usar, mas também a pôr uma extensão do telefone da loja dele – um “gato” – lá para cima para a gente poder usar. Consequência disso, mais tarde, tempos depois, as pessoas ligavam para a Delta Propaganda, atendia "Bolsas Carlos". "Ah, não, transfere para lá, seu Maurício." Bom, e aí a gente tinha uma agência, compramos móveis e uma máquina de escrever, para pagar a prestação, e tinha uma menina que era colega de escola do Mackenzie que virou nossa secretária meio período. Tinha as mesas dos diretores, que éramos nós, e a mesa da secretária, que ocupavam a sala inteira: se entrasse algum cliente desavisado ali não tinha onde ficar, porque nós ocupávamos a sala inteira. E não tinha clientes. E nós dois andando, batendo em portas, arrumou um amigo não sei onde, mas nada de clientes. Então a gente tinha que pagar as prestações da máquina, das mesas, e tínhamos que arrumar um emprego – isso com duas faculdades, mais não sei o quê, o Carlos também fazia Direito. Eu falei: "Bom, o que eu vou fazer se não tenho tempo durante o dia, não dá para fazer outra coisa, não cabe. Quem trabalha à noite? Porteiro de boate, mas não é lá essas coisas. Jornalista. Jornalista!". Aí um dia, andando ali no Anhangabaú, passei na frente da “Última Hora”. Aqui tem um jornal. Aí eu fui lá. Bati, entrei, uma barafunda a redação, uma confusão dos infernos, todo mundo falando ao mesmo tempo, no andar térreo, não tinha recepcionista, esses luxos: a gente entrava e pronto. Aí eu falei: "Quem é o chefe aqui?" "Aquele careca ali." Aquele careca ali era o Remo Pangella, que era o chefe de redação, secretário, alguma coisa assim. Aí eu fui tentar falar com ele e tinha um monte de gente em volta da mesa, todo mundo querendo falar o mesmo tempo. Eu consegui um buraquinho ali, falei: "Olha, meu nome é Nemércio e eu queria trabalhar aqui. Como é que a gente faz?". Ele olhou... imagina, eram seis da tarde por aí, tudo acontecendo, o “Última Hora” era um jornal muito dinâmico, muito movimentado, muito à flor da pele, e chega esse moleque e vem me amolar. Ele falou: "Senta lá". Senta lá, quer dizer, era um cocho, uma espécie de balcão que tinha meia dúzia de máquinas de escrever em cima. E falei: "Então está bom". Fui, sentei e fiquei lá. E fiquei, e fiquei e fiquei. Aí uma hora ele falou: "Vem cá, você". Fui lá e ele me deu um convite para uma exposição de obras de artes de loucos, num hospício, em algum lugar similar. Faz uma notícia aí. Falei: "Sim, senhor". Voltei lá e fiz, provavelmente três laudas, sobre "vai haver uma exposição blablablá", caprichada, peguei aquilo e levei para ele. Ele não abriu, nem leu, nem nada, e falou: "Corta". Falei: "Como, corta?” Uma obra de arte eu vou cortar? “Mas quanto que é para cortar?". E ele falou: "Corta". E não me deu mais bola. Bom, eu fui, tirei provavelmente uma linha e meia, que era a única coisa que podia sacrificar ali. Eu tinha 19 anos, imagina o que acontece na cabeça. Voltei. "Corta." Ele não olhava o texto. Dizia "corta, corta, corta". Fiquei nisso, assim, uma hora e meia, vai e volta, cortando e cortando e cortando, em lágrimas, em prantos, sacrificando a minha obra de arte. E finalmente ele aceitou. Deve ter desistido de mim.

No dia seguinte eu saí correndo de casa, fui procurar o jornal para comprar, para ver minha notícia. E torno a olhar o jornal, e procurar e volta, e vai, e volta. No fim saiu assim, uma linha e meia no pé de uma coluna. Caramba, reduziram, acabaram com a minha notícia, fiquei muito desanimado. Eu falei: "Eles não me merecem", pensei comigo. Aí eu lembrei que eu tinha um ex-professor de português, do colégio, que era jornalista e trabalhava no “Estadão”. O “Estadão” naquele tempo era a elite do jornalismo, que ganhava melhor, não atrasava o salário, fora o prestígio. Aí eu falei: "Ah, eu vou lá". Chamava Nilo Scalzo. Ele era um redator graduado no “Estadão”. Eu procurei ele, falei: "Nilo, eu estou querendo trabalhar, jornalismo me atrai e eu preciso pagar dívidas". Ele falou: “Vem aí à noite que eu vou ver se consigo um estágio para você". Voltei à noite e aí ele me apresentou ao meu primeiro chefe no jornalismo, que era o Luiz Mascarenhas Neto. O Mascarenhas era o editor de política nacional do “Estadão”. Ele falou: "Você vai ser estagiário, senta aí". Tinha três mesas: a dele, a de um outro redator e uma outra, vazia, que era essa minha vaga. E eu comecei naquela mesma noite. O Mascarenhas falava: "Olha, eu não tenho tempo para te ensinar, ninguém aqui tem. Leia o jornal todo dia, vê como é que é. Vê como é que o jornal faz as suas notícias e organiza isso. E tenha isso na cabeça sempre". E aí eu comecei a ser o que anos depois se chamaria copidesque, que era o redator, quer dizer, o sujeito não é o repórter, é o cara que fica na redação, recebe o noticiário – a gente recebia noticiário do Brasil inteiro, de telex, teletipo, telegrama da Western, que era um maço de papel assim que a gente tinha que ler porque o correspondente mandava aquilo, a sucursal mandava. Às vezes, sobre uma mesma notícia, apareciam informações de diversas fontes, de diversos lugares do Brasil, as notícias mais importantes, e a gente tinha que harmonizar aquilo e fazer um texto. E o jornal fechava, não como hoje, que fecha às cinco da tarde, fechava uma hora da manhã, ou quando desse. Mas tinha que fechar porque no dia seguinte tinha caminhão para sair com o jornal pronto para ir para Presidente Prudente [e demais cidades em que era distribuído]. Então, amigo, tem que fazer. E foi uma baita escola porque eu comecei lá, acho que foi 1961, e foi até começo de 1963, acho. Foi uma época muito quente no Brasil, de noticiário político muito quente.

 

Rumo a Londres

E eu fui indo, fui indo, fui deixando os cursos de lado. Direito eu fiz até... eu terminei o terceiro ano, acho que talvez tenha começado o quarto, mas aí foi caindo fora, largando. Vendi a minha parte na agência para o meu sócio por, sei lá, um cruzeiro, e virei jornalista. No começo de 1963, ou fim de 62, briguei com a namorada, que era uma namorada que vinha do colegial; brigamos e eu fiquei meio solto no espaço. Aí o Luiz Weis, a gente estava no bar do hotel Claridge, que depois virou Cambridge e que hoje virou um cortiço; o Claridge naquela época era uma maravilha. A gente saia da redação do “Estadão”, ia para lá a pé e ficava ouvindo bossa nova, essas coisas, jazz. O Weis vira para mim e fala: "Você fica aí se lamentando pelos cantos, por que você não vai para a BBC?". Falei: "Como vai para a BBC, eu não sei nem onde é, como é". Falou: "Ah, se vira, escreve para lá, faz alguma coisa". Eu fiquei com aquilo na cabeça e falei: “Eu vou atrás”. Fui investigar quem era o chefe da BBC e escrevi uma carta, em inglês, para o Serviço Brasileiro da BBC. A gente era colega do “Estadão”. A gente vivia saindo junto. O Vlado, eu, o Luiz Weis, o Fernando [Pacheco Jordão], o [Antônio Marcos] Pimenta [Neves] e outros. E a gente ia para o bar do Claridge, ia para o Salada Paulista comer salsicha com maionese em cima do balcão, assistir sessão da meia-noite num cinema que tivesse sessão à meia-noite, no sábado. A gente estava sempre ali, na turminha. Aí o Luiz falou isso e, bom, para quem que eu escrevo? Fui descobrir o nome do chefe do serviço, escrevi uma carta em inglês e efetivamente eu disse: "Olha, o que vocês estão fazendo que não me contrataram ainda? Eu sou um gênio, trabalho do ‘Estadão’, sou uma maravilha, bonito, simpático, elegante, original", como diria o Juca Chaves, “e por que vocês não me contrataram ainda?”

Para minha profunda surpresa, uns meses, três meses depois, eu recebo uma carta num papel azul, timbrado, da BBC, dizendo "olha, a gente agora não pode porque não tem vaga, mas teu nome está aqui. A primeira chance que tiver, não sei o quê". Mais outra surpresa, daí a mais três meses, uma cartinha dizendo "olha, vai no consulado inglês, aí em São Paulo, faz teste de voz, teste de inglês, não sei o quê". Fui, fiz. Mais dois meses, três meses, "vai fazer exame médico em tal lugar assim e assim". Passa mais dois, três meses, "olha, anexo está o contrato de três anos e você pode retirar o seu ticket aéreo na Rua Bráulio Gomes, no escritório da BOAC [British Overseas Airways Corporation]". Aí falei: “Bom, agora o negócio pegou”. E resultado é que no dia 12 de outubro de 1963 eu descobri a Europa, porque foi no mesmo dia em que o Cristóvão Colombo descobriu a América. E quando eu pus os meus pezinhos, os meus sapatos de sola fininha tropical, no chão do aeroporto de Heathrow, o chão frio – aquele frio entra pela sola e toma o corpo inteiro –, falei: "Bom, cheguei aqui, tenho 23 anos". Ah, eu tinha casado quando teve esse episódio, essa coisa da BBC; falei: “Olha, é bom a gente casar com a namorada original", com quem eu tinha brigado. "Vamos casar, eu vou na frente e você vai depois. Eu vou arrumar um lugar para a gente ficar." E quando eu cheguei, botei os pezinhos lá, falei: "Cheguei na Europa, tenho 23 anos, sabe quando que eu vou voltar para aquela terra de índios lá embaixo? Nunca”.

Um ano e meio depois eu estava seguro de que eu tinha que voltar, porque lá na Inglaterra ninguém precisava de mim. Eu era um parafuso; tira um parafuso, põe outro parafuso, dá na mesma. E a máquina era muito maior do que no Brasil. O Brasil precisava de tudo, precisava de trem, de hospital, de professor, de jornalista, de tudo. Lá não precisava de ninguém. A estrutura de empregos estava toda ocupada por senhores e senhoras de idade, muitos deles veteranos de guerra, de muleta. Você ia comprar um selo no correio para pôr numa carta, era uma velhinha que te atendia no guichê. E foi por isso que surgiram Beatles, Mary Quant, Rolling Stones, a moda masculina de Carnaby Street, a minissaia. Tudo isso surgiu porque a juventude tinha que achar meios de produzir alguma coisa, de fazer alguma coisa, e não podia dentro da estrutura existente, porque era petrificada. Sem contar que no Brasil eu podia ir para o interior de Goiás e ficar multimilionário. E lá eu nunca, jamais, ia conseguir nada parecido com isso. Aqui havia necessidades e oportunidades. E lá não, lá estava tudo abafado. E a Inglaterra nessa época estava num momento econômico muito deprimido, estava mal, tinha inflação, enfim, estava meio chato. Então, um ano e meio depois eu falei "não, eu vou é voltar", fiz os três anos [de contrato com a BBC]. Se quisesse eu podia estar lá até hoje.

 

Serviço Brasileiro da BBC

O Serviço Brasileiro tinha 12 pessoas mais ou menos. Depois que eu fui, eu consegui que eles contratassem o Fernando Jordão e nós dois conseguimos que eles contratassem o Vlado também. Então estávamos nós lá e mais dez pessoas. A gente fazia reportagem, apresentava noticiário que vinha da redação central do Serviço Internacional da BBC, que era no mesmo prédio, botava o programa no ar à meia-noite de lá, oito horas da noite aqui, gravava programas durante o dia, programa de todo tipo, de música, de literatura, comentários sobre fatos do dia. Foi lá que eu vi pela primeira vez uma coisa chamada DNA, por exemplo, era um texto sobre o DNA, isso em 1964. E entrevistas. Fazia de tudo. Eu fiz radioteatro, o Vlado fez radioteatro também, acho que o Fernando deve ter feito também. Pegava obras, textos que já tinham caído em domínio público, para a BBC não ter que pagar direito autoral, e eram obras antigas, mas ótimas, ótimos trabalhos, que a gente traduzia, gravava e botava no ar. A gente fazia de tudo. Não me lembro se foi um fim de ano, uma festa de fim de ano que eu saí na rua com gravador e fui fazer reportagem, ou se foi uma eleição, não me lembro, eu sei que eu saí pela rua à noite com gravador. E uma coisa que foi totalmente imprevista, e foi muito interessante, foi que o Fernando e eu irradiamos a Copa do Mundo de 66, de futebol, que foi na Inglaterra. E nós dois partimos do princípio de que "olha, nós temos que assistir a esses jogos. Vão ser aqui. Mas nós não vamos pagar ingresso porque é muito caro. Como é que a gente faz para assistir ao jogo sem pagar ingresso? Vamos transmitir a Copa do Mundo". Aí toca convencer os nossos chefes de que aquilo era a grande chance de aumentar a audiência do Serviço Brasileiro da BBC no Brasil. Depois da Segunda Guerra Mundial, era a Copa do Mundo a grande chance. Aí demorou e tal, mas "vocês acham que é tão importante, vamos contratar um locutor, não sei o quê". Falei: "Não, que contratar, está louco? A gente faz". "Como a gente faz?" "O Fernando e eu aqui." "Mas vocês nunca fizeram." "E daí? Eu não fiz um monte de coisa ainda, pretendo fazer essas coisas." Aí convenci, convencemos eles de que a gente treinaria e irradiaria os jogos. Então nós fomos a dez jogos do campeonato inglês, cujos jogadores a gente não conhecia. Imagina, o campeonato inglês não era como hoje, que se vê jogo da Inglaterra e França, todo mundo na televisão, aquilo era muito distante. Everton. Times assim que você nunca tinha ouvido falar. Arsenal. Fomos. A BBC comprou o ingresso para nós, a gente sentava na geral, nas cadeiras, por ali, o Fernando e eu, um gravador desse tamanho, o gravador de mão chamado Uher. Era um super gravador, mas era um trambolho. E a gente irradiava o jogo, comentava o jogo, no dia seguinte fazia uma fita desse tamanho e, na segunda-feira, levava para BBC e todo mundo ouvia e dava palpites. Olha, precisa melhorar isso; fala menos tal coisa, fala mais isso, fala mais aquilo, enfim, foram acertando as pontas e fizemos dez jogos assim.

Aí veio a Copa do Mundo e nós irradiamos os jogos. Infelizmente o Brasil foi eliminado por Portugal e, com a eliminação do Brasil, acabou o patrocínio das emissoras brasileiras, que estavam lá em massa, estavam todas lá. E os locutores e comentaristas vieram todos embora, ficamos nós. Resultado, tempos depois, eu já tinha voltado para o Brasil, estava conversando com Narciso Vernizzi, na Jovem Pan, e o Narciso falou: "Olha, vocês dois, a gente pegava tudo que vocês irradiavam, pegava do ar e punha no ar aqui. A Rádio Continental do Rio de Janeiro transmitia os jogos inteiros com vocês irradiando", tudo de graça, não pagavam nada para a BBC. Foi uma coisa que não estava prevista, mas foi uma aventura interessante.

Nós éramos todos fãs de futebol, a gente curtia futebol. Mas nunca tínhamos trabalhado com futebol. Então, no começo do ano de 1966, que ia ter a Copa do Mundo, a gente lançou um programa da BBC, no Serviço Brasileiro, que no começo era mensal ou quinzenal, logo no comecinho do ano, a Copa do Mundo ia ser em junho, e chamava “Copa 66”: tinha notícias sobre futebol internacional, Brasil, era um programa de 15 minutos, que acho que no começo era o Fernando e eu que apresentávamos, ou Fernando ou eu, enfim, a gente fazia. E à medida que foi chegando perto de junho, esse programa passou de mensal a quinzenal, de quinzenal a semanal, e um pouquinho antes da Copa ele passou a ser diário. E o Fernando e eu tínhamos que ir atrás do time do Brasil, ou atrás do jogo, onde que vai ser o jogo, em que lugar da Inglaterra, Liverpool, Manchester, ou sei lá. E alguém tinha que apresentar o programa no estúdio, que era o Vlado. A gente estava viajando, a BBC alugou um carro e a gente saia por lá, viajando de um lugar para o outro. Então a gente mandava notícias para o Vlado por telefone, teletipo, sei lá o que, não tinha celular ainda, e ele pegava outras notícias que ele conseguia, de agência, de outras fontes, e fazia um programa diariamente. “Copa 66”. [Locutando, inclusive.] Ele tinha uma voz muito boa. Tinha uma voz clara, então dava bem, dava certo.

 

Convívio com Vlado

A primeira vez [que encontrei Vlado] eu não lembro, mas foi no “Estadão”, ou no convívio do “Estadão”. Se não me engano, quando eu entrei o Vlado estava em Brasília, estava na época da recém-fundada Brasília e ele andou trabalhando lá, fazendo reportagem, porque ele era repórter. E aí ele voltou para São Paulo e a gente enturmou com aquela turma que já existia e foi assim. Mas eu não me lembro uma situação ou um dia específico. [Ele] não era fechado, não. Por exemplo, tinha o Paulo Ecker Filho, que era um gaúcho, um cara muito inteligente, acho que ele virou poeta depois, e ele escrevia muito bem. Tinha o... era um professor português angolano, Fernando Augusto de Albuquerque Mourão, que trabalhava como jornalista, que tinha fugido de Angola por causa das guerras com Portugal e arrumou um emprego no “Estadão”. Ele também fazia parte do grupo. Enfim, era um grupo elástico, flexível, entrava gente, todo mundo era bem-vindo. Havia uma divisão na redação do pessoal mais de direita e o pessoal, digamos, de esquerda – esquerda meio relativo, porque naquela época o pessoal da direita foi tão para a direita que o centro ficou na esquerda. É um pouco parecido com o que acontece hoje. Sem a virulência e as bobagens. Mas havia um convívio: todo mundo convivia, não tinha guerras e brigas, mas havia uma divisória. Thomaz Souto Corrêa, que depois foi – acho que até hoje ele é – diretor da Abril, que não é mais Abril também. O pai do Mino Carta, que era o senhor Giannino Carta, que era o chefe da editoria internacional do “Estadão” e que era também correspondente; um senhor sempre de gravata, muito formal, com corrente de ouro do relógio aqui, do chaveiro. Ele era correspondente do “Corriere della Sera”, da Itália. Ele fechava a editoria dele aqui, sei lá, meia-noite, uma hora, e ficava na redação escrevendo matéria para o “Corriere della Sera”. Então foi uma redação muito qualificada. Friedrich Hayek, que era um economista austríaco que era o chefe da editoria de economia. Alberto Tamer. Enfim, só tinha nome bacana. Mas tinha essa divisóriazinha entre o pessoal mais de esquerda, que eram os mais jovens em geral, e os mais de direita, que eram os mais velhos.

[O que chamava a atenção na convivência com Vladimir Herzog era] a curtição dele com coisas da cultura. E não só a cultura brasileira, mas da cultura em geral; o gosto pelo cinema, acho que pelas artes cênicas, teatro também. Uma coisa que eu também sentia nele era a precisão das coisas, precisão do raciocínio. "Você falou tal coisas assim, assim e assim, mas não é bem assim, é tal coisa assim, assim. Não concordo com isso." Quer dizer, ele era muito caxias nesse sentido intelectual, era uma coisa que eu sentia nele, o que não significa que ele não fosse um sujeito de bom humor. Ele estava sempre dando risada, mexendo com os outros, provocando, cutucando. Enfim, era muito humano. Não tem assim “uma” coisa marcante. Mas era esse ser humano que era nosso amigo.

[Ele decidiu ir para a Inglaterra] porque ser jornalista no Brasil naquele tempo era muito insalubre. Você estava sempre arriscado a perder o emprego, a se ferrar de alguma maneira. Então, se puder, vamos tentar tirar quem a gente puder. Quem é que é próximo? É o Fernando, é o Vlado e vamos embora. Foi isso, não foi outra coisa. [Os três conviveram com as respectivas famílias, em Londres] porque nós três nos casamos antes de ir, pouco antes de ir. E a minha primeira filha nasceu lá, a primeira filha do Fernando nasceu lá, e eu acho que acho que o Rodrigo nasceu lá, o filho dele também. O Ivo e o André [filhos de Vlado e Clarice] nasceram. Mas o Ivo e o André nasceram depois que eu já tinha voltado. Porque como o Vlado foi o último a ir, também foi o último a voltar, porque tinha contrato de três anos. E o Fernando e o Vlado, depois que terminaram o contrato com a BBC, eles fizeram curso de produção de televisão, que foi mais uns meses. Se eu não me engano, o Ivo e o André nasceram depois que eu já tinha voltado. Mas, enfim, os nossos filhos nasceram lá, e tem uma foto lá no Instituto [Vladimir Herzog] de nós num parque que era perto da minha casa, Hampstead Heath, no norte de Londres, que tem um carinho de bebê onde está a minha filha. Minha filha mais velha está ali dentro, ela tinha um ano, qualquer coisa assim. E a gente estava num gramadão. Foi um convívio muito bom, muito agradável.

Às vezes eu entrava no tal Hampstead Heath, que é um gigantesco parque, pela porta do fundo, tinha um portãozinho, e a gente entrava e estava sempre aberto. A gente entrava ali e dava no Hampstead Heath, parecia o quintal da minha casa, era sensacional o negócio. Cada um de nós tinha as suas predileções, quer dizer, fizemos turismo, mas aí teve uma vez que eu levei o Fernando e a Fátima no meu Mini [Morris] glorioso, a gente foi para Paris. E choveu pra burro, e entrava água no motor pelo radiador, pela grade, e o carro parava na estrada. Mas também a gente tinha interesses diferentes, ou não tão coincidentes, em questão de datas por exemplo. Teve um ano, que foi 1965... foi o ano do Quarto Centenário de Shakespeare, e foi a época em que Londres estava super na moda, foi capa da revista “Time”, e a “Time” chamou Londres de "The Swinging City". Acontecia tudo lá, estava super na moda. Nesse ano, eu fui ao teatro, em Londres, praticamente todas as semanas na quarta-feira, porque minha mulher tinha que arrumar uma moça que ficasse tomando conta da Cláudia, a minha filha pequenininha, que era uma chamada "au pair girl", que era uma estudante que trabalhava [de babá] para ganhar um dinheirinho. Então tinha que combinar os horários. E eu comprei os ingressos para o teatro no ano anterior, já com as datas e cadeiras determinadas. Imagina. Aí, nesse ano, eu vi a Ingrid Bergman no palco, eu vi o Laurence Olivier fazendo Otelo, vi companhia italianas. Enfim, uma infinidade de gente importante, de peças importantes. O que era uma curtição minha, nossa. Agora, o Vlado gostava mais de cinema, o outro gostava mais de não sei o quê... A gente não ficava o tempo todo junto.

 

Lembranças do Brasil

A gente estava meio desanimado, falando "caramba, como é que vai resolver esse negócio, como é que vai [ser]?". Eu não posso falar pelo Fernando e pelo Vlado, mas, pelo que eu percebia, eles estavam tão desanimados quanto eu. Ninguém estava fazendo planos de "vamos voltar e assumir o poder pelo poder das armas", ou sei lá o quê. Ou, "eu vou ser um tribuno e seduzir as massas, e vamos acabar com essa ditadura". Não me lembro de a gente ter isso. Repito, eu não posso falar por eles, claro, eles talvez pensassem outras coisas. A gente era uma posição de revolta. Assim: “Olha, meu Deus, esse país não há meios, como é que vai resolver esse troço? Acabar com essa ditadura”. A gente recebia muito pouca informação do Brasil, quer dizer, a chegada de um jornal do Brasil lá ou de uma revista “Visão”, que de vez em quando chegava no Serviço Brasileiro, mas chegava com um mês de atraso, dois meses, a gente olhava, lia, lia, mas não animava muito.

 

Revista “Visão”

A “Visão” era uma revista originalmente de economia e negócios, que nesse período, nesses anos, sob a liderança do Zuenir Ventura, ampliou muito seu universo, incluindo assuntos que a rigor não eram de economia e negócios, quer dizer, eram assuntos de cultura, outras notícias de outros tipos, que podiam interessar o leitor. Lembrando que não existia a “Veja”, não existia nada disso. A “Visão” passou a ocupar uma posição quase que sem concorrência durante um bom tempo. O Vlado e o Rodolfo Konder, que trabalhou lá também, se queixavam de que nunca tinham arquivo. Precisava de foto de alguém, era uma loucura: onde que eu vou arrumar uma foto dele? Na pasta tinha três, então era um problema. Eles não tinham, vamos dizer, rios de dinheiro à disposição, mas conseguiam, com talento, produzir trabalhos importantes, e com uma abrangência interessante, uma combinação interessante de assuntos. Tanto que, eu contei aqui, quando eu estava na BBC a gente recebia a “Visão”, de vez em quando, com muito atraso, mas era a revista do Brasil que chegava lá.

Por exemplo, tem uma matéria do Vlado sobre a cultura brasileira, que é dessa época, que não é um ataque ao governo, não é isso, mas é uma matéria que vai fundo em assuntos, é uma matéria importante, sobre a cultura brasileira, uma matéria grande. São, não sei, meia dúzia de páginas, muito abrangente, muito detalhada – como era o Vlado, com esse detalhismo dele, de ir atrás da coisinha menor, mas que é importante. E até concluindo pensamentos, juntando coisas e formando uma figura da cultura brasileira. É muito significativa aquela matéria [“A crise da cultura brasileira”, revista “Visão”, 05/07/1971]. Isso é um exemplo que eu me lembro, mas havia vários. Tinha notícias menores, sobre assuntos interessantes também, que eram valiosos. Era uma revista que tinha muita personalidade. [Boa de ler.] Não só boa como [também] era importante você ter pelo menos o olhar, consultar, saber o que a “Visão” estava cobrindo. Já era importante, mesmo se você não lesse detalhadamente tudo.

 

Repercussões de um crime

O que aconteceu com a morte do Vlado e aquele ofício na Praça da Sé, e a revolta, ainda que muda, uma revolta funda que eu pelo menos senti na opinião pública, isso tudo significa que ali foi a inflexão para o início da queda da ditadura. Que caiu por dentro. Ela não foi derrubada, ela se corroeu por dentro. Foi ali que começou. Foi ali que teve uma manifestação concreta de alguma coisa, uma coisa que foi determinante, que foi morte do Vlado, da maneira como foi. O cara de endereço conhecido, família, todo mundo sabia onde ele morava, onde trabalhava, tudo, vai na polícia espontaneamente, entra lá e não sai mais? E ainda dizem que ele se enforcou ajoelhado? Aquilo foi um absurdo tão grande, tão flagrante, que mexeu, na minha avaliação pelo menos, mexeu com a própria dignidade, se é que uma opinião pública tem dignidade, o sentimento de violação que eu acho que a população brasileira sentiu, que a opinião pública brasileira sentiu. Ainda que não pudesse nem manifestar direito, mas falou: "Não, isso aí não dá". E foi ali que começou. Não tenho dúvida disso.

 

Instituto Vladimir Herzog

O Instituto foi criado não para chorar a morte do Vlado. Desde antes da criação do Instituto isso sempre foi dito por todos nós. E sim para preservar e, vamos dizer, divulgar e promover os valores dele – de dignidade, de direitos humanos etc. – e para celebrar a vida dele. Não para chorar a morte dele, porque isso pode-se fazer o tempo todo, não precisa ter um instituto para fazer isso. O Instituto procura perenizar os valores dele, da história da vida dele, que não são valores teóricos, são valores que ele guardava profundamente nele e na sua vida diária. Ele era assim. Então é essa missão do Instituto.

A coisa está tão complicada que hoje o que a gente precisa priorizar é arrumar patrocinadores. É uma meia barbaridade dizer isso, mas é verdade. Quer dizer, não só pela situação atual em que o Brasil vive, pelo clima político, social, de mídia etc. que a gente está vivendo, as coisas de direitos humanos, que é a bandeira principal do Instituto, não é uma coisa fácil de as pessoas entenderem. Confundem isso com direito de bandido, passar a mão na cabeça de criminoso, ideologia de gênero, essa patacoada toda que está rodando por aí. Você convencer de que direitos humanos é seu interesse, não meu, meu também, mas é seu, porque você quer o teu direito de ir e vir, você quer ter o direito de votar em eleições periódicas, transparentes, você quer ter o direito de ter um emprego, você quer ter direitos humanos, que é isso que está na Declaração Universal [dos Direitos Humanos], que fez 70 anos agora. Está tudo lá, o Brasil assinou isso. Não é passar a mão em cabeça de bandido nem proteger criminoso, mas sim zelar pelos direitos humanos que esse criminoso tem, como todo ser humano. É isso. Só que você convencer alguém que não está ligado em nada disso, que está cuidando da sua empresa, que está cuidando da sua função dentro da empresa, do dinheiro do seu orçamento, das outras preocupações que essa pessoa tem na cabeça, você convencer de que isso é uma missão importante para todo mundo, não é fácil. Nunca foi fácil e agora está muito mais difícil. Tentativas de mexer com a lei de incentivos culturais é outra coisa que prejudica. Enfim, tem uma conjuntura de coisas que formam um ambiente que dificulta muito a própria capacidade do Instituto realizar suas ações. Então, infelizmente, é um pouco rasteiro dizer isso, mas essa é a verdade. Porque não faltam atividades que a gente possa fazer, tem uma infinidade de coisas que a gente poderia tentar abraçar, ou lançar, ou criar, ou ajudar a promover; tem uma porção de coisa. Tem missões. A Declaração [Universal] dos Direitos Humanos tem inspiração para tudo. E sem querer ser literal, ficar me apegando "ah, a declaração, as palavras, a declaração dos direitos humanos", nós temos um programa que chama "Respeitar é Preciso" que é para aluno de escola primária, pública, que ensina o quê? Que as crianças precisam respeitar umas às outras e a todo mundo. Aos funcionários, os professores, pai e mãe, vizinho, comunidade, todo mundo. Respeito. Isso é uma coisa que a minha mãe e meu pai me ensinaram. Eles nem sabiam que isso era um direito humano, nunca passou pela cabeça deles pensar nisso. Mas é. Agora, você convencer muita gente de que isso merece ser apoiado, tem meandros enormes, dificuldades enormes.

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