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História

Do cristal ao calcário

História de: José Cândido Neto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

José Candido Neto, nasceu em Xambioá, desde cedo esteve envolvido na garimpagem, seja com seu pai coletando cristais na beira do rio, ou no comércio de ouro extraído de Rio Maria. Formado em Engenharia Civil, retornou para Xambioá onde trabalhou na indústria Votorantim com a extração de calcário para produção de cimento.

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História completa

P/1 – Nós vamos começar, José Cândido, a nossa entrevista, por favor, fala o seu nome completo.

 

R – Meu nome é José Cândido Neto.

 

P/1 – Você nasceu quando e onde?

 

R – Eu nasci aqui em Xambioá em 15 de fevereiro de 1957.

 

P/1 – José Cândido, que lembranças você tem na época de sua infância de seu pai e de sua mãe?

 

R – Bom, o meu pai já é falecido, ele era garimpeiro e veio ter nessa região no início da exploração do cristal de rocha, apesar que ele vinha de uma região produtora de diamantes e ele veio em busca dos diamantes, mas aqui chegando, como havia exploração do cristal de rocha, ele ficou. Aqui, ele conheceu a minha mãe, se casaram, tiveram três filhos e eu sou produto disso.

 

P/1 – Os outros dois irmãos são homens, mulheres?

 

R – São dois irmãos homens, nós três somos homens, não tivemos irmã mulher, infelizmente.

 

P/1 – E o seu pai já trabalhava com garimpo, onde?

 

R – Meu pai vinha do sul de Goiás, da região de Balisa, era uma região diamantífera em Goiás, e ele veio em busca do diamante na região de Marabá, mas como o acesso era feito por barco, quando ele chegou aqui a essa região, ele resolveu ficar porque tava no auge do garimpo de cristal de rocha.

 

P/1 – Agora, ele fazia… que atividade era a dele no garimpo?

 

R – No inicio, ele era extrator, ele era garimpeiro. Aí, pegou algumas pedras, arrumou um capital e se transformou em exportador de cristal de rocha. Essas pedras eram levadas para o Rio de Janeiro, lá comercializadas e iam para fora do país.

 

P/1 – Ele conseguiu essa mudança de extra… ele extraía, depois passou a comercializar, foi aqui que teve essa mudança?

 

R – Foi. Foi aqui em Xambioá mesmo que ocorreu toda essa parte, de garimpeiro a exportador de cristal de rocha.

 

P/1 – Quando você era criança, você lembra dele, assim, falando do garimpo?

 

R – Sim. Lembro perfeitamente. A gente tem um fato curioso que deve estar aparecendo aqui ao fundo que é o rio seco dessa forma. Já em 1962, eu criança, com cinco anos de idade, vinha com ele catar cristal nesse cascalho que tá aparecendo aí, provavelmente, ao fundo.

 

P/1 – Ah! Já tinha… nessa época, teve uma certa seca?

 

R – Teve uma seca, as pessoas hoje acham que isso é um caso anormal, mas já ocorreu no passado.

 

P/1 – Mas não tinha nada… pelo menos, vocês não atribuíam ao garimpo?

 

R – Não, não atribuía ao garimpo, não atribuía a camada de ozônio, nada, nada. Era tido como um fenômeno natural.

 

P/1 – E você disse que acompanhou seu pai?

 

R – Sim, acompanhei meu pai, a gente vinha catar cristal aí. É um tipo de cristal diferente, que os outros são facetados, esse chama… como é que é o nome que eles dão? Mandu, é uma rocha bruta que ela vai rolando e vai perdendo as faces, então pra você saber se é cristal, só depois que você quebra, mas com a luz do sol sobre eles, ela aparece, sabe, ela brilha, fica aparente.

 

P/1 – Deve ser bonita!

 

R – Muito bonita.

 

P/1 – Você lembra de achar alguma ou ele?

 

R – Sim, achava. Pedras pequenas, nada significativa, mas pedras pequenas se achavam várias.

 

P/1 – Você já sabia até a encontrar, né?

 

R – Já. Ah já porque… até porque quando a gente era criança, a gente, quando queria arrumar algum trocadinho, era aproveitar essas lascas que chamavam, que eram pequenos pedaços que você tirava aquela casca, né, e vendia, comercializava aquilo.

 

P/1 – As crianças mesmo?

 

R – A maioria das crianças. Todo mundo aqui quando criança tinha esse…

 

P/1 – E você vendiam para quem?

 

R – Tinha vários compradores, tinha o seu Tiago, o Manuel dos Reis, já são todos falecidos, mas eles comercializam e viviam exclusivamente disso.

 

P/2 – Como você descreve seu pai e sua mãe, seu Zé? Como você poderia descrever eles pra gente?

 

R – Meu pai uma pessoa extremamente humana, carinhosa. Tanto o meu pai, quanto a minha mãe.

 

P/2 – O quê que vocês faziam assim, como lazer, seu Zé?

 

R – Na época, a relação assim entre famílias, pai, filho era muito rígida, né, criança não tinha muito esse lugar assim, nem essa liberdade total, né? E o meu pai não fugia à regra, né? Mantinha isso que era um hábito, costume os filhos não atrapalhar, não entrar em conversa de adultos. Criança tinha o seu lugar, mas já na segunda fase, após quando o garimpo exauriu, ele foi trabalhar com caminhão, comprou uns caminhões e trabalhava. E eu lembro bem da primeira vez que eu fui ao Rio, com cinco anos de idade, numa época extremamente difícil, de acesso difícil, porque se gastava daqui a Belém–Brasília 15 dias de viagem, se chegou a gastar, hoje você faz esse trajeto em uma hora e meia.

 

P/1 – Só para chegar na estrada?

 

R – Só para chegar na estrada. Depois, você encarava mais a estrada Belém–Brasília já tinha uma condição de trafego melhor, você gastava dois dias para Goiânia, aí Goiânia pra lá já tinha asfalto, já tinha um acesso.

 

P/1 – E foi quem para essa viagem?

 

R – Eu, meu pai, minha mãe…

 

P/1 – Foram os irmãos também?

 

R – Não, não, não. Porque a diferença de idade entre eu e os meu segundo irmão é bem acentuada, então ele não tinha nascido ainda.

 

P/3 – Seu Zé, o senhor lembra como era a casa onde o senhor passou a infância?

 

R – Lembro perfeitamente. A casa em que eu nasci era aqui a casa onde hoje mora o seu Airton Fontenelle, ali na beira do rio, bem na beirinha do rio, mesmo. E o que me impressionava assim e causava impacto era porque como papai comprava cristal, chegava o dinheiro em saco de estopa, aqueles sacos de café Bandeirantes e aquilo era guardado debaixo da cama. Imagina uma situação dessa hoje! Aquele dinheiro não era dele, aquele dinheiro era de alguém que financiava, mas o fato é que o dinheiro estava ali debaixo da cama, né?

 

P/3 – O quê que o senhor mais gostava de fazer nessa época, quando criança, com os irmãos?

 

R – Ah! Era tanta coisa, né, porque a vida assim da gente no interior é de total liberdade, né, era banhar no rio escondido, né, porque não tinha permissão pra fazer isso com total liberdade e o que eu não gostava muito de fazer era de estudar, né, mas…

 

P/1 – Vocês banhavam nesse rio?

 

R – No rio, no rio…

 

P/1 – Os pais não gostavam por quê?

 

R – Não gostavam porque tinha um fato curioso que o único acesso que se tinha a essa região ou era de barco ou era de avião. Em 1966 foi que foi feita a ligação de Xambioá com a Belém–Brasília, até então, você não tinha outro meio de transporte que não fosse. Esses barcos subiam de Belém e eram barcos imensos, muito grandes e aí, quando chegavam, era uma novidade, né, todo mundo queria correr para cima, para ficar saltando e era muita gente, corria o risco de alguém se acidentar, né, saltar em cima… então, os pais tinham aquela preocupação.

 

P/3 – E qual é a sua primeira lembrança da escola?

 

R – A minha primeira lembrança da escola, não especificamente assim, do primeiro dia, mas da escola em si, que era do colégio José Bonifácio, que eu fiz todo o primário e parte do ginásio, só que daí já em outro colégio, que era o Nossa Senhora dos Estudantes e depois, eu fui estudar fora.

 

P/1 – Teve algum professor assim que marcou, que você lembra até hoje?

 

R – Todos eles. Muitos. Dona Rosilda, Maria Dadonés, eu não queria nem citar, porque você esquecendo alguém, você tá sendo injusto com os outros, mas…

 

P/1 – Do quê que você lembra mais assim, de algum deles que até tenha te influenciado, ou não, mas uma lembrança mais forte?

 

R – Era de um professor que era italiano e a gente zombava muito dele, ria muito por causa da forma como ele falava, era um professor de Matemática, Irmão Angelo Bruno. E eu guardo muito boas lembranças dele.

 

P/1 – Era um padre?

 

R – Padre.

 

P/1 – Por que será que você guarda tão boas lembranças?

 

R – Porque a aula… já era uma coisa, a gente não gostava da escola, mas gostava da matéria, né, e isso lá na frente, até ajudou a decidir a profissão que eu iria ter, né?

 

P/1 – Você tava falando da sua infância que vocês gostavam de brincar no rio. Tinham, outras coisas que vocês faziam aqui na cidade, além do rio?

 

R – Era bola, era… tinha um senhor que já é falecido, mas que ele tinha… o transporte de material de construção todo, quem fazia era ele, então ele tinha uma tropa de jumentos, então toda criança gostava de ajudar ele que era o Seu Domingos. Para andar em cima do coitado do jegue.

 

P/1 – Você disse que enquanto criança, você logo foi para a escola. Seus irmãos nasceram bem depois de você?

 

R – Bem depois.

 

P/1 – Eles conviveram também aqui na cidade, seus irmãos?

 

R – Também. Toda a infância deles foi aqui.

 

P/1 – E por quê que você com seus pais foi para o Rio de Janeiro na época desse caminhão?

 

R – Nós fomos por causa da ligação que já havia anteriormente com ele. Ele sempre foi ligado ao Rio só que ele ia mais de avião pela PanAm, que tinha aeroporto em Carolina e depois, quando comprou o caminhão, a gente resolveu fazer uma viagem por terra, porque até então, só era pelo ar.

 

P/1 – Só ia ele, né?

 

R – Só ia ele, a gente não ia.

 

P/1 – E chegando lá no Rio, qual foi a impressão? Você era pequeno?

 

R – Pequeno. Eu tinha cinco anos, seis anos.

 

P/1 – Mas você lembra dessa viagem?

 

R – Lembro. Lembro do local em que nós ficamos, era lá em Botafogo e atrás, tinha um paredão de pedra, assim, como o apartamento da minha tia era no fundo, então, o que eu via do Rio era só aquele…

 

P/1 – Paredão.

 

R – É, o paredão de rocha. E vi o Papai Noel, que era coisa que eu achei… tirei até uma foto com o Papai Noel.

 

P/2 – Seu Zé, e na sua juventude? Sempre ficou por aqui, em Xambioá?

 

R – A minha juventude foi vivida entre aqui, Goiânia e depois, o Rio, quando eu fui prestar vestibular. Eu fiz até o segundo no ginasial, aqui, em Xambioá, depois eu fui para Goiânia, terminei o ginásio em Goiânia, fiz cursinho, prestei vestibular, fui para o Rio. Quando estava em Goiânia, prestei para Agronomia e fui para o Rio, acabei fazendo Engenharia Civil. Na fila do vestibular, eu conheci a minha esposa e aí, depois, casei e voltei.

 

P/1 – Deixa eu perguntar, você foi fazer faculdade no Rio?

 

R – Fui. Eu fiz Engenharia no Rio.

 

P/1 – E você conheceu a sua esposa…

 

R – Na fila do CESGRANRIO, que era o órgão na época que era responsável pelo vestibular.

 

P/1 – Então, ela é carioca?

 

R – Ela é carioca.

 

P/1 – E ela veio pra cá com você?

 

R – Veio pra cá. Nos casamos…

 

P/1 – Vocês estudaram no Rio?

 

R – Sim, eu terminei o curso de Engenharia no Rio, ela terminou Odontologia, nós nos casamos e eu fui morar em Rio Maria, mexer com mineração de ouro em Rio Maria. Rio Maria é um município aqui no sul do Pará em que na época, tava no auge a produção de ouro e eu fui para lá e ficamos lá, depois, nós resolvemos voltar para cá.

 

P/1 – Essa produção de ouro também é interessante, né? Como é que era isso?

 

R – Bom, o garimpo de ouro era no Município de Rio Maria e adjacências. Eu, no início, eu nunca tinha visto ouro e nem tinha ouro nem como joia. E de repente, virei comprador de ouro. Comprava esse ouro e ia para São Paulo vender esse ouro. No início, vendia em Redenção, que era a cidade a 75 quilômetros lá de Rio Maria, só que o acesso era extremamente difícil, porque você gastava quase um dia para andar esses 75 quilômetros. Então, eu comprava e vendia na Caixa. Depois, esse volume foi aumentando, eu tive ajuda de alguns conhecidos, eu conheci um pessoal da Alô Brasil e eles me ajudaram a chegar até São Paulo pra comercializar esse ouro e foi muito bom enquanto durou.

 

P/1 – O garimpo, vocês sabem que vai chegar uma hora que vai acabar…

 

R – Isso.

 

P/1 – Vocês vão para uma área e vai…

 

R – Exaurir.

 

P/1 – Exaurir. E como que era lidar com isso?

 

R – Na época, não havia nem essa preocupação, porque tava no auge da Serra Pelada, tava… tinham vários garimpos, então, não havia preocupação do garimpo exaurir e você ficar sem trabalho. O que me fez abandonar foi o inicio da violência, né? A preocupação com a violência, nesse interim, eu me casei, minha esposa veio do Rio pra gente morar lá, era uma condição completamente diferente. Aí, nasceu a minha primeira filha e eu fui ficando preocupado e resolvi sair do negócio e enveredar para o outro lado.

 

P/1 – Essa parte é bem interessante de quem viveu, mesmo, né? Você falou agora: “Bom, se acabasse lá, sabia que tinha a Serra Pelada, poderia caminhar para lá”, e essa violência a gente vê em filme. Mas você viveu alguma situação assim, que foi…?

 

R – Sim, uma situação que foi quando eu resolvi sair da atividade, foi quando um outro conhecido foi assassinado para roubarem o outro. Aí, acho que chegou o limite, a hora de sair porque o próximo seria…

 

P/3 – E qual foi o seu primeiro trabalho, depois desse, na sua área?

 

R – Quando eu aí, encerrei a atividade do ouro, eu voltei para cá, para Xambioá. Com os ganhos efetuados no comércio do ouro, eu já havia formado um rebanho pequeno, mas que já permitiria eu viver dele. Aí, eu fui entrar para o lado de produtor rural, né? Eu virei pequenininho, mas agropecuarista, então, eu sobrevivia disso daí. Quando da criação do estado de Tocantins em 1988, eu abri uma empresa que se chamava Prisma Engenharia e fui trabalhar realizando obras para o governo do Estado, para o governo do Tocantins, trabalhei durante oito anos e resolvi encerrar e continuar só com a roça.

 

P/3 – E o senhor exerceu durante esse tempo, a Engenharia?

 

R – Sim, Engenharia. Quando eu fui para Rio Maria para trabalhar que eu optei pelo ouro, eu fui para trabalhar como engenheiro da prefeitura, só que chegando lá, o salário era muito baixo. Eu trabalhando como engenheiro da prefeitura e a Ana trabalhando como dentista. E eu vi o mercado de ouro como algo a ser explorado e aí, eu iniciei nessa atividade, eu comecei comprando ouro em pequena quantidade, comprava dez gramas, saía pela manhã, voltava, meia-noite, às vezes, até no dia seguinte, porque eu ia comercializar aquele material com a Caixa, voltava e reaplicava o dinheiro. Então, até formar um certo capital para você aumentar. E à medida que foi aumentando, a gente foi…

 

P/1 – Você fazia o mesmo caminho do seu pai, né, pelo Rio de Janeiro… pelas asas da PanAm?

 

R – Pelas asas da PanAm. Só que era pelas asas da VOTEC, mas…

 

P/1 – Você falou que como a Jeniffer perguntou, você exerceu sua profissão nesse período, mas continuou com gado?

 

R – Continuei como produtor rural, sempre mantive… uma atividade que a gente ainda continuou com ela, até hoje, mas quando eu encerrei a atividade do ouro. Que eu encerrei a atividade da empresa foi quando iniciou a construção da fábrica da Votorantim. Então, eu me candidatei a uma vaga e fui o primeiro contratado da Votorantim aqui, né? E fiquei lá durante nove anos e aí, sai já faz… sai em outubro do ano passado, né, e agora, eu tô só na roça.

 

P/3 – O senhor pode falar um pouco do quê que o senhor achou da chegada da fábrica? Porque o senhor é quem esteve mais próximo desse encaixe da fábrica na cidade.

 

R – Quando da vinda do projeto inicial, eu me interessei, porque vi ali um fator de desenvolvimento local, algo que pudesse incrementar a receita local e melhorar a qualidade de vida das pessoas. E eu sempre quis trabalhar numa empresa que pudesse me apresentar algo mais, algo que eu pudesse aprender um pouco mais e foi com esse intuito que eu fui ter na Votorantim e fiquei. No início, com a parte civil, quando finalizou a construção da fábrica, eu fui chamado a migrar para mina e aí, na mina, eu fiquei como chefe de mina cinco anos, foi um novo aprendizado, muito bom, muito ótimo.

 

P/1 – O quê que é ser chefe de mina? Porque construção, a gente imagina, né, mas de mina?

 

R – Ser chefe de mina…

 

P/1 – O quê que faz essa pessoa?

 

R – Essa pessoa é responsável por um volume significativo de colaboradores e encaminha as atividades para a produção do calcário, que é a matéria-prima para a fabricação do cimento.

 

P/1 – E como é essa produção, assim, né, se você puder contar um pouco, assim, do…

 

R – Bom, o inicio da abertura da mina é algo muito trabalhoso porque você fica exposto a intempérie, você trabalha no sol, chuva, porque fábrica tem um cronograma a ser cumprido para entrar em operação e você tem que ter matéria-prima para que ela possa produzir o cimento. Isso, no início, você tem que fazer a retirada do material que cobre a rocha, né, e depois, quando tá na rocha, você tem que perfurar rocha, detonar a rocha e transportar e britar. Então, é uma atividade…

 

P/1 – Bastante intensa, né?

 

R – Intensa, muito intensa.

 

P/1 – Aí, tinham muitos homens, muitos trabalhadores…

 

R – Muitas pessoas, nós éramos um grupo de 34 pessoas.

 

P/1 – Você vê alguma relação desse trabalho com o garimpo?

 

R – Sim. De certa forma, sim, não deixa de não ser.

 

P/1 – Ou tá vendo agora? Ou na época, você percebia alguma coisa?

 

R – Percebia sim, porque a gente já tinha uma curiosidade por mineral. Tudo que é mineral chamava a atenção e a extração dele em si me motivava cada vez mais porque eu via uma ligação com atividade que eu já via desde os meus pais. Uma outra forma, mas tudo era escavação, cristal de rocha para você retirar, você também tem que cavar um buraco, você tem que fazer a remoção do material. Há uma semelhança bem…

 

P/1 – E nessas minas da Votorantim é fácil achar? Você começa a perfurar e já acha o calcário?

 

R – Não. No inicio, não. Primeira etapa é fazer a remoção do estéril, que é o solo que cobre a rocha. Como a rocha, pelo processo de intemperismo, tem umas mais acentuadas, outras mais fáceis, você tem que fazer… criar uma condição para perfurar e detonar, então, você tem que eliminar primeiro aquelas rochas que são mais pontiagudas para criar um meio para o equipamento poder trabalhar. Então, você detona aquela rocha naquela primeira camada e depois, você perfura e já vai fazer o trabalho de bancada, mesmo, que é de exploração mais intensa.

 

P/1 – E tanto na construção, quanto na mina, você lembra de algum fato assim, marcante? Acontecimento, sabe, um causo? Nesses nove anos.

 

R – (risos) Nesses nove anos? Tem um causo que o pessoal… abriram mais um turno de trabalho noturno e um belo dia lá, um dos colaboradores chama pela rádio o pessoal da segurança para que eles fossem lá rapidinho que tinha uma mulher lá na mina e aí, ficou todo mundo apavorado, né? E o rapaz da segurança montou na moto e foi lá, mas quando eles chegaram lá, o que ele viu foi um cabelo longo, assim até atrás, porque ele viu o que conseguia ver com os faróis do caminhão. E aí, ninguém queria encostar, todo mundo preocupado, todo mundo com medo, depois vieram a descobrir que era um tamanduá bandeira, que ele se sentindo ameaçado, ele levantava a cauda e parecia o cabelo de alguém.

 

P/3 – Nesse critério que vocês levaram para a fábrica vir e tal foi uma coisa que veio aqui para Xambioá que foi interessante foi a chegada do Senai e a gente vê o trabalho que jovens, que a população teve para colocar na cabeça dos jovens que eles tinham que estar ali porque ali era uma oficina de preparação para trabalhar na fábrica, como os meninos que passaram pelo Senai. O senhor acha que muitos jovens perderam essa oportunidade?

 

R – Ah muitos! Muitos. Houve, por parte até da própria população, uma desvalorização do Senai, porque como entidade, ele tem que continuar atuando e ajudando. Quantas pessoas não já foram formadas lá? Mas não há um interesse local pelos cursos patrocinados pelo Senai, você vê que tem uma maior quantidade de pessoas de fora em detrimento dos locais, pessoal não valoriza, mas o Senai é fundamental para o desenvolvimento local. Não só para formar mão-de-obra para fábrica, mas para formar mão-de-obra para o Brasil inteiro, é um serviço de muita qualidade. Na época, eu não sei se você acompanhou a briga que foi para se criar o Senai aqui. Havia uma entidade local que era o Clube Recreativo Associação Cultural e essa associação, ela caducou porque ela servia para bailes e aí, mudou os costumes, ninguém fazia mais baile ou carnavais em salão, mudou para beira do rio, local mais aberto e isso ficou lá estava abandonado. Então, um prefeito local resolveu que aquele local seria ideal para servir de instalações para o Senai. Havia o interesse por parte da fábrica e havia um interesse local da classe politica e trouxeram o Senai. Só que depois, se passou por alguns problemas, porque essa entidade celebrou um contrato com o Senai e queriam retomar o prédio. Mas agora, já foi solucionado, ele foi dado para uso sem tempo definido para o Senai.

 

P/1 – E no decorrer desse processo que o senhor falou, do garimpo, do desenvolvimento que a gente até aqui, o senhor acha que… como o senhor falou, que no começo, o senhor tinha visto o rio como ele tá agora, seco, um pouco seco. O quê que o senhor acha que a gente tem como sociedade, investir para que mude essa situação? Porque as que acompanharam desde o começo, elas sabem como que é difícil ver o rio dessa maneira, né, e a gente…falam que é porque estão desviando o rio, mas a gente sabe que cuidado não é só lá de cima, tem que ser daqui também e aí, como uma pessoa que tem toda essa visão, que já sabe o que é, o quê que o senhor acha sobre isso?

 

R – Bom, o rio é o bem maior que nós temos, é a coisa mais bonita que a gente tem aqui. No entanto, você vê as pessoas dando as costas para o rio. É meio antagônico eu falar isso porque eu tô de costas para o rio, mas…

 

P/1 – Você tá integrado ao rio na imagem.

 

R – Lá, você vê que o pessoal resolveu fazer aquelas… os pitdogs e voltaram com as costas para o rio. O que a gente tem de bonito tem que ser admirado e é um descaso total, porque essas pessoas pegam o resto de sobra de comida e jogam ali do lado. Não tem esgoto, não tem banheiro, nada disso e nós não podemos tratar o rio dessa forma, né? Hoje tá seco, é um ciclo, mas a gente contribui demais para sujeira e a gente tem que cuidar melhor, não podemos deixar dessa forma como está.

 

P/1 – Voltando para o Senai, quando o Senai apareceu, você já era mais… já tinha se formado, tudo?

 

R – Já.

 

P/1 – Mas você via os meninos que hoje estão na Votorantim no Senai. Qual era a tua impressão, assim, dele, dessa relação com o Senai, como é que você via, sabe, na época?

 

R – Bom, eu via todos eles enxergando um pouco mais do que os outros, porque aqueles que procuraram, todos tiveram sucesso, não que tivessem um emprego já garantido, mas tinham possibilidade melhor, tanto aqui quanto fora. Eu sempre os vi assim e até hoje, eu continuo admirar aquelas que procuram a entidade para realizar cursos, são cursos muito bons, de padrão de excelência nacional.

 

P/1 – José, a Votorantim aqui na cidade, você que conheceu desde o garimpo, como que você viu assim, essa mudança, se é que teve essa influência. A Votorantim para a cidade.

 

R – Havia na época uma expectativa e até hoje, ainda há uma expectativa muito grande em relação à Votorantim. O problema é que as pessoas esperam demais já por motivos culturais, acham que assim como prefeitura tem que ser pai e mãe, que a empresa viesse a adotar esse tipo de paternalismo, né, de ajuda, que iria… e no entanto, isso não acontece. A empresa está para explorar e entregar um retorno social, mas não da forma assim, deliberada e achar que tudo vai acontecer. A economia local foi fomentada durante a construção da fábrica, houve uma melhoria econômica, mas hoje tá meio que estagnado em função dessa crise já que atinge o país inteiro.

 

P/1 – A construção é uma fase…

 

R – Isso.

 

P/1 – Você viveu, também, a construção?

 

R – Também.

 

P/1 – Veio muita gente de fora?

 

R – Muita gente. Muita. Nós tivemos lá em torno de mil pessoas trabalhando na construção da fábrica. Isso movimenta…

 

P/1 – E isso para a cidade, você observou o quê?

 

R – Isso para a cidade foi muito bom, houve um plus econômico, né? Aluguéis, hotéis, tudo isso foi movimentado e várias dessas pessoas até hoje mantém uma relação com o local.

 

P/1 – Não foram embora?

 

R – Foram embora, outros casaram, ficaram, outros… então, mantiveram uma relação e mantém até hoje.

 

P/1 – Mas e agora que ela funciona, né, desde 2008, 2009?

 

R – É, 2007 começou…

 

P/1 – E para a cidade, você disse que economicamente, trouxe um desenvolvimento. Teve alguma outra mudança, outra transformação… assim, antes e depois da Votorantim, além da mudança econômica, você acha que teve mudanças?

 

R – Há uma mudança eu acho que muito tênue, ela não é uma mudança significativa, que transformou, sabe? Mas melhorou muito. A empresa continua trazendo muita coisa para o local, apesar de pouca divulgação, mas continua trazendo. Agora, tem que ter um empenho maior também da classe política.

 

P/1 – O quê que você acha que de bom ela contribuiu ou contribui, assim, você disse que ela trouxe coisas boas.

 

R – O Senai é uma delas, que eu acho fundamental a educação, né, tem um projeto de melhoria e qualidade de mão-de-obra que é a produção de biojoias, que é um projeto muito interessante e tem vários outros projetos que a empresa realizou que não se tornaram públicos, mas que ajuda a melhorar a qualidade de vida local.

 

P/2 – Seu Zé, quando o senhor era chefe lá na mineração, tinha algum funcionário, assim, que lhe marcou assim como profissional, como pessoa? O senhor passava por algum momento, assim, da vida dele, o quê que ele contava para você quando ele foi empregado, alguma coisa assim?

 

R – Nós tivemos várias, várias pessoas, né, mas todos me marcaram, todos eu trago comigo boas lembranças, de todos, não tem um em especial que eu tenha. A minha função de chefe trazia também dissabores, não eram só alegrias, porque você tem que cobrar, você tem toda uma carga de produção por trás e que você é responsável por ela. Mas todos deixaram boas lembranças, eu trago comigo todos e mantenho relações até hoje muito boa com todos.

 

P/1 – Seu Zé, essas mudanças, você veio do garimpo do cristal com o seu pai, foi para o ouro, foi para mineração de calcário. Nesse momento, como é que a sua família se comportava? Sua esposa já tinha filhos quando você estava no ouro, né?

 

R – Já, já tinha a minha primeira filha, a Talita e na fase da mineração, já eram os outros… na abertura da empresa, da minha, nasceu o meu segundo filho e a minha caçula já foi durante a etapa da Votorantim. Então, cada um viveu um lado, mas a aceitação foi sempre muito boa, nunca houve rejeição ou qualquer…

 

P/1 – Sempre acompanharam?

 

R – Sempre acompanharam e acompanharam muito bem.

 

P/1 – Mesmo vindo do Rio para o garimpo…

 

R – Pois é, trocando o Rio de Janeiro pelo Rio Maria, mas… e com um agravante, de que ela é filha única, então aí, é doloroso, mas é o amor, né?

 

P/3 – E hoje, o que é a sua atividade hoje?

 

R – Hoje eu sou pequeno produtor rural.

 

P/1 – E tem a ver com alguma extração?

 

R – Não.

 

P/1 – Nem leite (risos)?

 

R – Não, nem leite eu tiro (risos).

 

P/3 – Seu Zé, se eu fosse perguntar quais são as coisas mais importantes para o senhor, hoje, o quê que o senhor responderia?

 

R – Quais são as coisas mais… eu não tinha parado ainda para refletir, mas eu acho que a família, união familiar como fundamental, saúde, são as duas coisas que eu… e me preocupo atualmente muito com a questão da segurança, né, porque a gente tá vivendo um momento muito complicado.

 

P/1 – Deixa eu perguntar, você tem também um acervo de fotos. Como é que é essa atividade ou esse trabalho?

 

R – Bom, eu tenho a fotografia como hobby, eu gosto muito de fotografia e sempre me interessou a cultura local de todas as formas, né, e uma delas é a preservação da memória. Então, a gente busca estar sempre registrando, no dia a dia, aquilo que possa ter uma importância lá no futuro. Não é nada artístico, nada, mas é documental e eu mantenho um arquivo particular com várias fotos doadas do início e a gente busca tornar público isso aí. Já fizemos uma exposição desse material, mas a intensão é a gente aumentar a quantidade e tornar público esse material.

 

P/2 – Como surgiu, seu Zé, a paixão pela fotografia?

 

R – A fotografia, quando criança, meu pai numa dessas viagens me trouxe uma máquina fotográfica e aí, de lá para cá, eu fui adquirindo outras e mais outras e…

 

P/1 – A primeira foto, você lembra qual foi?

 

R – A primeira foto eu no lembro, sei que saiu horrível, porque a máquina (risos) não tinha leitura automática, tinha que fazer toda… regular e aí, saiu aquele… era filme preto e branco, não tinha filme colorido.

 

P/1 – Você fotografou muito a cidade aqui, Xambioá?

 

R – Já bastante.

 

P/1 – Então, eu vou lhe pedir só mais uma vez, olhando a paisagem, né, até pela gente, a gente perguntou da Votorantim, que você foi o primeiro contratado. Essa paisagem mudou com a Votorantim? Da cidade.

 

R – Eu diria que não. A Votorantim trouxe mais alegria local, mas urbanisticamente, não mudou a paisagem, não, ela continua muito bonita.

 

P/1 – Você tem… dos seus três filhos, seu Zé, você tem algum que gosta de fotografia, também ou não?

 

R – Olha, as duas gostam de serem fotografadas (risos), agora, de fotografar…

 

P/1 – E de extração de minério?

 

R – Não, isso também não gostam.

 

P/1 – Não têm curiosidade?

 

R – Não.

 

P/1 – Você disse que a Votorantim trouxe uma alegria para a cidade, como assim?

 

R – Porque melhora a qualidade de vida das pessoas, vem emprego, que é o problema maior de toda cidade do interior, é as pessoas terem o que fazer, ou ganhar o seu sustento e isso foi proporcionado com a vinda da Votorantim pra cá.

 

P/3 – E hoje, o senhor tem algum projeto especial para o futuro, um sonho, um projeto? O senhor tem uma família, como o senhor já falou, muito querida, linda, tem três filhos e uma esposa. E quais são os seus projetos para o futuro nesse Xambioá em que nós estamos, nessa realidade agora?

 

R – Politicamente, nenhum. Eu não tenho projeto político. Projeto pessoal é dar uma volta, sabe, dar uma volta no mundo, né, vamos dar uma… viajar.

 

P/2 – Seu Zé, a sua esposa, hoje ela ainda trabalha ou tá aposentada igual o senhor?

 

R – Não, a Ana continua trabalhando, trabalha no hospital, ela tá perto de se aposentar, mas ainda não se aposentou.

 

P/2 – O senhor falou que é pequeno agropecuário, né?

 

R – Agropecuarista, isso.

 

P/2 – Onde é? Aqui em Xambioá mesmo, a sua…?

 

R – Eu tenho propriedade no Município de São Geraldo, 15 quilômetros de São Geraldo.

 

P/2 – O senhor vai frequentemente?

 

R – Quase todo dia, todo dia, que a gente é envolvido no labor diário, tem sempre uma atividade.

 

P/1 – O senhor trabalha lá?

 

R – Trabalho.

 

P/2 – E o lazer lá também é bom? O lazer?

 

R – Não, lá não tem muito lazer, não, tem mais trabalho (risos).

 

P/1 – A gente já tá perguntando como se o senhor já tivesse vivendo a aposentadoria…

 

R – Pois é, não é… (risos)

 

P/1 – Não é isso!

 

R – Ainda não (risos).

 

P/1 – Tá aprendendo muito lá?

 

R – Bastante. É sempre um aprendizado, né? Todo dia, a gente aprende mais alguma coisa, principalmente, procurar respeitar o meio ambiente, que é o que a gente pode deixar de legado para os que vão vir aí.

 

P/1 – Então, acho que terminamos, né? Você… nós concluímos as perguntas que a gente queria te fazer, outras que surgiram durante a entrevista, mas você gostaria de deixar alguma coisa gravada que nós não comentamos, que faltou?

 

R – Não, nada em especial. Eu quero agradecer vocês, não sei qual foi o critério da escolha, minha história não é uma história tão que mereça ser contada, mas eu agradeço a vocês e a gente se coloca à disposição.

 

P/1 – O quê que você achou de contar a sua história?

 

R – Muito bom, né? É sempre interessante (risos), não a vejo assim, como uma história interessante, mas… Me fez rememorar o passado, né, lembrar um pouquinho do que… a gente se vê no dia a dia, cidade do interior, o bom é isso, todo mundo se conhece, sabe quem é pai, quem é mãe, qual a cor da cueca que tá usando, mas tem coisas que você não sabe, o quê que a pessoa viveu, o quê que passou.

 

FINAL DA ENTREVISTA

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