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História

Do 'começo do mundo' ao topo da própria história

História de: Alberto Merchede de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/06/2007

Sinopse

Alberto Merchede de Oliveira é acreano de Sena Madureira. Filho de professora, herdou o gosto pelo magistério. Deu aula em Rio Branco – Matemática, Matemática Financeira – e mesmo quando se tornou bancário por influência do pai, permaneceu com aquela vocação. Fez carreira no Banco do Brasil, ocupou cargos relevantes, foi da agência onde começou para a direção-geral, leia-se, Sede do banco. Sentiu os rigores do isolamento de Brasília, principalmente em seus primeiros anos. Criou opções de integração e pertencimento à cidade: frequentou os espaços da música clássica e se envolveu com o saber – o aprender e o transmitir. Foi, em seguida, presidente/interventor de banco estadual, enfrentou lá e na etapa seguinte de sua carreira as agruras da era Collor. Esteve na cúpula da Fundação Banco do Brasil onde, merecidamente, aposentou-se.

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História completa

Chamo-me Alberto. Alberto Merchede de Oliveira, nascido “no começo do mundo”, ou seja, em Sena Madureira, Acre. Foi em 1943 e são, portanto, mais de seis décadas de histórias. Filho de família pobre – pai, funcionário público, que à época chamavam barnabé, e mãe, professora. Mais velho da prole, o que significa que era aquele a quem ensinavam tudo, e que fazia tudo: cozinhava, lavava, tomava conta dos irmãos e – pasmem  – até costurava. Minha mãe, além de dar aula, também costurava para fora. E eu ajudava. E, com tudo isso, ainda estudava. Tinha gosto pela escola, era dos primeiros alunos, daqueles que não pagavam o ano seguinte por terem sido excepcionalmente colocados. Com 20 anos entrei para o Banco do Brasil. Fiz concurso e passei. Foi contra a vontade, porque eu queria mesmo era dar aula. Como minha mãe. Mas meu pai quase me obrigou. Ainda bem. Mais tarde, refletindo, vi que ele tinha razão: um emprego estável, boa remuneração e – o que senti de mais importante – a possibilidade de ter uma personalidade bem formada. Ao longo da vida, descobri que os melhores profissionais com os quais trabalhei, tinham sido ou eram do Banco do Brasil. 

 

Costumo dizer que nunca o Magistério saiu de mim totalmente e eu nunca saí completamente dele: sempre professor por vocação. Em Rio Branco, Acre, professor de Matemática, Matemática Financeira; em Brasília, na Direção-Geral do Banco, voltei a lecionar. Mas a carreira iniciada no Banco do Brasil foi muito intensa, com uma carga de trabalho quase desumana, sem respeitar noites, fins de semana, Natais e tais. A grande vantagem foi a experiência que me trouxe, ou seja, um conhecimento amplo do trabalho em todas as suas fases, todas as rotinas de uma agência. E eis que, senão quando, me surge a oportunidade de um estágio na direção-geral da instituição, com duração de 90 dias, mas que para mim – e alguns colegas – representou a transferência para a sede da empresa. Ou seja, passei a estar no centro de decisões, no comando central, na mais privilegiada das posições, exatamente em Brasília, aquecido pelo sol da administração maior do Banco. Só que quase sem trabalhar. Pelo menos em relação ao que me era exigido no Acre. E vivendo  o isolamento da Capital recém-construída. A solidão. A escassez de amizades, a ausência de parentes, até namoradas rareavam. Mas foi um investimento na carreira, uma chance de crescimento profissional imperdível, ainda que me tenha custado o afastamento de algumas experiências outras, informalmente exercidas, e – o que foi deveras triste – o desligamento da Universidade. Ou seja, mais uma vez, a minha história com o magistério. Contudo, a minha realidade, naquele período, foi de pouco trabalho de dia, algumas viagens a serviço, e, à noite, a sensação de não pertencimento e de abandono. Como se eu tivesse deixado para trás o passado, a família, os amigos, os lugares, as referências. Até que uma decisão que eu tomei fez toda a diferença. Toda mesmo. Eu ingressei na Escola de Música. Fui estudar canto lírico, fundei um dos Corais do Santuário de São Francisco de Assis. Há 19 anos. E voltei a dar aula, fiz alguns cursos de outras especialidades, enfim, fiz aquilo que estava ao meu alcance para me ocupar, para me integrar, para não repetir a história dos que  se atiraram do alto da Torre de Televisão. Em Brasília, naquele tempo, corria o boato (será boato mesmo?) de que muitos sucumbiram, desta forma, à solidão.

Passado um tempo, fui indicado para a interventoria do Banco do Estado do Acre. Havia sido decretada a intervenção pelo Banco Central e, por circunstâncias, eu fui designado interventor. Fiquei lá um ano, e não seria conveniente alongar-me na função porque estávamos atravessando os difíceis anos Collor e até mesmo, neste caso, o retorno ao posto de origem poderia estar ameaçado. Mas voltei. Voltei para a sede do Banco, especificamente para a Coordenadoria Técnica da Presidência. Recebi, então, um interessante convite: a Fundação Banco do Brasil. A história é, em resumo, a seguinte: em plena era Collor, ou seja, quando havia uma acentuada inclinação para reformas, no âmbito da Fundação cogitava-se uma profunda alteração no Estatuto da instituição, segundo a qual o cargo principal poderia ser ocupado por pessoa estranha aos quadros do Banco do Brasil. Como isso não era visto com bons olhos por uma parte do funcionalismo, decidiu-se criar uma solução de consenso: nomear alguém do quadro intermediário, isto é, não no topo da hierarquia, mas do quadro funcional do banco. E quem foi escolhido? Eu!

 

Esse escudo protetor é uma das coisas que eu admiro no Banco. Uma das coisas que não fez o Banco falir.      

 

E assim… Guardo dessa época, secretário-executivo da Fundação, curiosas lembranças: do político pleiteando verba para um museu em memória de seu pai, eminente anônimo; de um outro político em busca de apoio financeiro para seus projetos e que eu consegui colocar refém de sua propalada amizade com o Presidente da República: “vai lá e libera o dinheiro com ele, que nós liberamos para você”; do empresário que se sentiu tão bem atendido que me deu um toca-fitas de presente: para evitar problemas para mim, recebi a prenda na frente de todos e instalei debaixo de minha mesa de trabalho. Histórias do dia a dia; episódios que foram marcando minha passagem pela Fundação. Que também foi rápida. Percebi que era hora de me aposentar. E de resto, com toda a dificuldade decorrente do inusitado confisco imposto pelo governo Collor, implantamos, nessa experiência vivida dentro da Fundação, uma dinâmica de trabalho em que, em vinte e quatro horas, dávamos, senão a solução pretendida, ao menos um posicionamento que significava atenção e respeito aos pleitos encaminhados. 

 

O presidente da Fundação era  de uma celeridade… Bem, lembrava o que um caseiro meu me dissera certa ocasião: mais rápido que imediatamente!

 

Era, reconhecidamente, um sistema ágil, mas que esbarrava em decisões a cargo de outra alçada. Enfim… Faz parte da cultura organizacional brasileira. Aí, chega um momento em que a gente cansa e, quando pode, se aposenta. Mas não deixa de reconhecer os méritos , muito mais dos outros e da instituição, do que próprios. Mas eu… Ainda que eu, como dirigente, ciente de minha transitoriedade de poder, tenha tido o cuidado de sugerir, sempre, aos meus superiores, políticas eficientes e permanentes.

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