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História

Do Ceará para Maués

História de: Raimundo Rodrigues de Souza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

Raimundo conta sua trajetória ao sair de Quixadá (CE), junto com o pai e os irmãos, para ir a Maués (AM) e como criou vínculos por lá, o que fez ser o único da família a ficar por lá. Do ofício do pau-rosa, Raimundo passou a trabalhar com o guaraná e conta como cultivava a semente, desde os cuidados naturais até os conhecimentos científicos que usaria se ainda trabalhasse com isso. Em Maués, passou pela política e também criou gados. Raimundo faz uma reflexão sobre a vida e também o quanto o guaraná passou a ser um item culinário diário importante.

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História completa

Lá em casa, minha família toda toma guaraná! A gente mói meio quilo, coloca numa boa vasilha bem tampada, tira todo dia de manhã e bebe. Só bebo de manhã e só uma vez. Se eu não tomar guaraná, não fico bacana, dói até a minha cabeça. Posso tomar o café que eu tomar, mas antes do café eu tenho que tomar o meu guaraná logo que eu me levanto. 

 

O meu nome é Raimundo Rodrigues de Souza, nasci dia 08 de janeiro de 1943 em Quixadá, Ceará, a terra da galinha choca. A gente saiu do nordeste porque tinha muita seca, não chovia. Até hoje é escasso de chuva. A gente perdia os animais, perdia as lavouras. Aí o meu pai veio para o Amazonas. Eu vim com ele, uma irmã e meu cunhado. Fomos trabalhar na usina de pau-rosa. Trabalhava de dia na usina e de noite, quando tinha festa, como meu pai era sanfoneiro, a gente ia tocar e eu batia no pandeiro para ajudar. Mas depois  também fui para o mato e abandonei tudo. Aí foi só o trabalho. 

Maués, onde estamos, era uma rua que a gente andava com a calça arregaçada porque o mato molhava a gente. Eram só três ruas que tinham. Fiquei trabalhando no pau-rosa dentro do mato. O meu pai foi embora, não se adaptou bem. Eu pedi para ficar, ele deixou e eu fiquei. Nós chegamos em 1968 e quando foi em 1969, ele foi embora. Eu fiquei sozinho, sem pai, sem mãe. 

Aqui a gente vive com a natureza, as matas, a floresta, o rio. E no Ceará tu já viu: quando não chove, é seco. É sacrificada a vida do cearense por causa da chuva que é escassa lá. Fiquei, mais ou menos, uns dez anos trabalhando com pau-rosa e depois comecei a plantar guaraná. E também porque quando eu cheguei aqui, os moradores tomavam guaraná e eram sadios, morriam velhos, pescavam, trabalhavam, não sentiam cansaço. E eu me meti nessas matas e só de malária eu peguei mais de 20. Me tratei e graças a Deus estou bom. Já sofri muita malária, já trabalhei muito, mas tomo guaraná até hoje e não sinto cansaço. Tomo guaraná todo dia. Se eu viajo para Manaus, eu levo o meu guaraná. Se eu viajo para o Ceará, eu levo o meu guaraná. Para onde eu for, porque se eu não tomar não está bacana para mim. Se eu e a minha esposa não tomamos guaraná, a gente já sente uma dificuldade até para trabalhar.

 

Então comecei a plantar guaraná em 74. O guaraná é muito fácil porque aqui, os antigos daqui de Maués, já plantavam guaraná. Os índios Sateré-Mawé, esses moradores velhos, todos eles tomavam guaraná. Só tomo o guaraná que os Sateré-Mawé fabricam, porque o índio fabrica um guaraná muito especial, de primeira! A gente aprendeu com eles. Tirava o filho da mata, arrancava e plantava. Esse que eu plantei em 62, olha, pra cá tem um bocado de anos, está dando e eu colho de lá. Ainda tiro fruta deles.

O meu, eu não adubo. É só pela natureza. Não borrifo com inseticida, com coisa nenhuma. Meu guaraná é da natureza. Ele dá como Deus quiser e a natureza que conserva. Só faço a limpeza. A Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] pede para você cavar um buraco de 40 por 40, adubar com adubo orgânico, com estrume de gado, ou com pau podre, aquelas coisas todas. Assim o guaraná se dá melhor. Se hoje eu ainda cuidasse disso, ia fazer como eles pedem. Agora, para plantar o guaraná de semente ou o de muda da mata, não precisa tanto luxo porque ele é nativo daqui mesmo. O guaraná é filho de Maués! Ele se dá com a terra sem adubação, sem ser o de muda clonada.

 

Muita gente já conhece o guaraná. Quem acostuma a beber não larga não. Agora tem muita gente que não toma o guaraná porque não sabe temperar o suco do guaraná, às vezes bota demais. Para quem nunca tomou, se ele botar muito vai tremer, ele vai cair. Dá uma fraqueza e o cabra treme! Eu só tomo de manhã, um copo bem reforçado.

 

Até me passou o sono, trocando essas idéias e falando das minhas passagens. Eu gosto de andar no interior, pescar, caçar. Pego o time de futebol e vou paras comunidades brincar. Gosto de festa, animar meus amigos no interior. E a gente viver a vida porque, de repente, a gente morre. Eu sou pai de 14 filhos, todos criados. E vivo trabalhando na minha pecuária e me divirto aqui e acolá que eu também gosto de brincar porque a gente não pode viver triste. Nordestino não entristece com pouca coisa, gosta de brincar, gosta de samba!

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