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História

Do campo para a cidade grande

História de: Juvenal Pereira de Alvarenga Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/08/2005

Sinopse

Juvenal nasceu em Bauru, mas ainda na infância se mudou para uma fazenda em Oswaldo Cruz, uma cidade recém-criada no interior de São Paulo. Nesta entrevista, ele nos conta sobre sua infância no campo e como se aproximou da área cultural em seu trabalho no SESC e no Senac.  

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História completa

P/1 - Senhor Juvenal, o senhor poderia começar dizendo o seu nome completo, o local e a data de nascimento?

 

R - Meu nome é Juvenal Pereira de Alvarenga Junior. Eu nasci em Bauru no ano de 1932, no dia treze de agosto.

 

P/1 - E o nome dos seus pais?

 

R - Meu pai se chamava Juvenal Pereira de Alvarenga e minha mãe, Maria do Nascimento Alvarenga.

 

P/1 - E onde eles nasceram?

 

R - Meu pai nasceu em Taubaté, em uma família muito tradicional - família Alvarenga, naturalmente. Minha mãe nasceu em Espírito Santo do Turvo, uma cidadezinha perto de Bauru.

 

P/1 - Senhor Juvenal, qual era a atividade do seu pai?

 

R - Meu pai, acho que foi… Desde que ele se casou ele foi sempre comerciante, sempre teve uma pequena loja que naquele tempo se chamava [de] secos e molhados, vendia de tudo. Foi assim que eu conheci meu pai, foi nesse ambiente de comércio que eu cresci.

 

P/1 - E o senhor estudou em Bauru?

 

R - É, eu comecei a estudar, naturalmente, nos locais onde a minha família morava, mais especificamente em uma fazenda para onde eles se mudaram depois da crise de 1932, quando eu nasci. Fiz ali os primeiros anos do primário e depois se mudaram para Oswaldo Cruz, uma cidade que estava surgindo naquela época, por volta de 1940. Lembro que a casa do meu pai foi a décima nona casa construída nesta cidade. Então, quando a família chegou lá a cidade estava ainda... As árvores estavam sendo derrubadas, havia queimadas, as ruas estavam sendo abertas e foi ali que eu terminei o primário.

Como a cidade era muito pequena e o local muito distante, chamada Alta Paulista - hoje é um lugar de progresso já bastante desenvolvido, mas naquele tempo era como se fosse o Amazonas. Estavam ainda abrindo aquela região do Estado de São Paulo; havia matas, animais selvagens, falava-se de índios até. E não havia escola, então eu sempre tive que sair dos locais que eu morava pra estudar.

Estudei em Tupã num colégio interno, no Salesianos, tenho grandes memórias desses dois anos que eu passei nesse colégio interno. O regime de internato já estava terminando naquela época com a liberalização, com a modernização, mas a gente gostava daquele convívio no internato. Fiz alguns anos do ginásio e depois, como não havia, ali em Tupã, ainda possibilidade de continuidade de estudos eu fui estudar. Voltei pra Bauru, onde eu havia nascido, pra continuar meus estudos.

Em Bauru eu terminei o ginásio. Naquele tempo se podia fazer os dois juntos, o clássico e o normal. Fiz o clássico e o normal, depois fiz faculdade e comecei minha vida profissional em Bauru.

 

P/1 - Senhor Juvenal, que lembranças o senhor tem da infância na casa do seu pai?

 

R - Diz que a memória ativa da gente existe a partir dos quatro anos, né? Eu tenho memória dos quatro anos de idade, nessa cidade, nessa fazenda, chamada Fazenda Santa Adélia; fiquei até os seis anos, então eu tenho pelo menos dois anos de memória, a partir dos quatro anos.

Eu me lembro que a escola era um pouco distante do local onde meu pai tinha essa vendinha de beira de estrada, então havia um percurso bastante longo que a gente tinha que fazer a pé. E a primeira vez que fui eu me lembro que tinha que atravessar uma pinguela; pinguela é um pau que se coloca em cima de um rio, que tem um valo mais ou menos grande. Eu era um menino urbano, porque a minha família era urbana, vinha da cidade, se transladou para a zona rural por questões financeiras. Então eu tinha hábitos de uma família urbana, não era muito peralta de fazenda, era um peralta de cidade. Eu me lembro que eu não conseguia atravessar a pinguela. Com muita vergonha eu atravessei sentado, aos poucos, como uma rã em cima daquele pau, porque eu não conseguia me equilibrar e [tinha] medo de cair. Naquele momento da minha infância aquele valo parecia ter duzentos metros de profundidade; na verdade devia ter meio metro, um metro, mas o medo me apavorava.

Uma outra coisa muito engraçada desse período é uma memória atávica que eu tenho, relacionada com a morte. Eu não devia começar essa entrevista com a morte, mas é um fato interessante. Eu era garotinho na fazenda e me lembro que o meu pai, minha mãe me chamou de um lado. Disseram que uma criança pequena havia morrido na colônia da fazenda e que eu, como criança, deveria comparecer a esse velório, cumprindo um dos primeiros deveres sociais da minha vida. Eu me lembro que, muito renitente, eu fui. À medida que eu me aproximava da casa onde havia o velório do ‘anjinho’, que se chamava, era uma criança recém-nascida ou muito nova, me lembro que eu senti um cheiro de alho - a família estava na hora do almoço, estava fazendo o almoço. Trabalham na roça e a morte não interrompia essa atividade. E me lembro que, à medida que eu me aproximava, o cheiro de alho na panela aumentava, e até hoje eu relaciono a morte com o cheiro de alho. (risos) Foi uma memória atávica que eu não consigo me libertar - e gosto de comer comida com alho. (risos)

 

P/1 - Senhor Juvenal, como se deu a sua escolha por Pedagogia depois, no curso superior?

 

R - É engraçado, eu... Na evolução da minha vida, na minha vida emocional, da minha vida cronológica, eu me senti sempre muito mais ligado à cultura do que a educação. Tenho um apego maior aos processos da cultura do que aos processos da educação. Hoje mesmo, trabalhando no SENAC, que é uma entidade voltada pra educação, pra formação profissional, eu tenho um desempenho quase que preponderante na questão da cultura e a educação, eu faço meio que profissionalmente.

O que está mais próximo da cultura, me parece, é a educação, né? Então mesmo na adolescência, percebendo esse interesse pela cultura, eu não via uma profissão que pudesse estar ligada à cultura. A cultura é mais um desempenho do que uma profissão, então eu achei que fazendo Pedagogia eu estaria mais próximo desse interesse cultural que marcava acentuadamente minha vida, as minhas preferências. Por isso eu fiz Pedagogia, e fiz em Bauru, onde estavam começando os cursos universitários.

Naturalmente não havia muitas opções. Os outros cursos eram Direito, eu não tinha muito apego por ele; era Geografia, que eu achava que estava mais distante da cultura por ser mais técnico, e eu achei que fazendo Pedagogia eu estaria mais vinculado no estágio da minha vida, aos movimentos, aos procedimentos culturais. É uma coisa que eu reconheço até hoje. Tanto que no SENAC... Na minha vida profissional, comecei a trabalhar no SESC. O SESC é uma entidade… Embora pertencente à mesma federação, a Federação do Comércio, ela está mais voltada à cultura, ao lazer. Então comecei no SESC, me dei muito bem no SESC, desenvolvi movimentos culturais, muitos dos quais eu me orgulho, movimentos de teatro, de música.

 

P/1 - Isso foi em Bauru?

 

R - Não, no SESC eu entrei aqui em São Paulo, mesmo.

 

P/1 - Em São Paulo?

 

R - Em São Paulo.

 

P/1 - Qual foi sua primeira função no SESC?

 

R - Eu fui Orientador Social, era um cargo de uma certa relevância na estrutura da organização. Mas eu não sei se por sorte ou por outra razão qualquer, eu logo fui chefe de setor e o meu setor chamava-se Setor de Cultura. Logo em seguida eu fui diretor da unidade que está hoje na Rua do Carmo - hoje se chama SESC do Carmo, se chamava Mário França de Azevedo. E ali, como diretor e mesmo como chefe do Setor de Cultura eu desenvolvi muitas atividades, de uma certa significação que, para a época, eu achava que eram até temerárias. Era a época que estava começando o movimento dos Beatles; o SESC era um pouco tímido em relação ao seu trabalho, fazia uma espécie de serviço social um pouco cartorial, muito organizado; fazia o chamado serviço social de grupo, mas era uma coisa meio estática, né? E eu, como vim de fora, não estava preso à tradição do SESC até aquele momento. Consegui implantar alguma coisa que eu achei significativa.

Havia o movimento dos Beatles, então eu comecei a fundar conjuntos musicais ligados ao movimento musical dos Beatles. Eu me lembro que cheguei a formar quatorze conjuntos, eram todos amadoríssimos, e o interessante [é] que um dos líderes desses conjuntos era irmão da Regina Duarte, que era a namoradinha do Brasil naquela época. Eu me lembro que a Regina Duarte, de vez em quando, ia lá buscar um deles pela orelha, porque eles ficavam até muito tarde tocando as músicas dos Beatles. Lá desenvolvi também um trabalho com teatro, no Mário França de Azevedo, no atual SESC do Carmo.

Comecei profissionalmente no SESC. Agora, a vida não é... A vida tem seus próprios caminhos. Eu não sou um homem de religião, mas dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. É um fato pitoresco. Eu, quando lecionava na Faculdade de Filosofia de Bauru, vim fazer um pós-graduado aqui na Escola de Sociologia e Política. Eu estava meio temeroso da minha carreira universitária, eu não sabia até que ponto isso iria dar certo em Bauru, e ganhava-se pouco.  

Eu me lembro que ganhei uma bolsa da CAPES e graças a essa bolsa eu vim fazer o curso na Escola de Sociologia e Política. E passando no SENAC eu vi qualquer coisa lá relativo... O SENAC ficava na Rua 24 de Maio. Então eu resolvi prestar um concurso no SENAC para ser monitor. Eu me lembro que subi, me candidatei, me fizeram um teste e eu fui aprovado no teste pela psicóloga, que era a dona Adelina Perito, uma mulher que tem também muita história do SENAC para contar. Fui aprovado e tenho até o documento [em] que ela me aprovou, me considerando bastante competente para aquilo que eu me candidatava, mas eu não fui chamado por uma razão ou por outra.

Um ano depois, eu estava passando exatamente em frente à Rua do Carmo, nessa unidade do SESC. Vi que um amigo meu descia a escada do prédio e me disse: "Juvenal, você não está ligado a esse negócio de sociologia, de social? Eles estão procurando alguém com esse nome aí de social, de sociologia." Eu me lembro que subi rapidamente a escada e me candidatei, e quem me recebeu foi o Benedito Caprioli, um antigo funcionário do SESC, que hoje é aposentado. Ele fez uma entrevista e eu acho que ele gostou de mim, porque disse que as inscrições já estavam esgotadas, mas ele ia abrir uma exceção. Enfim, fui admitido pelo SESC. Entrei para prestar um concurso, passei no concurso, e depois descobri que o teste de admissão que me colocou dentro do SESC foi aquele teste psicológico. Foi aquele teste que a dona Adelina me aplicou para eu entrar no SENAC, então eu entrei no SESC pela via do SENAC e hoje estou no SENAC pela via do SESC. É um imbróglio da vida profissional, eu sempre me recordo desse fato: entrei primeiro para o SENAC, depois pelo SENAC fui para o SESC e do SESC vim para o SENAC.

 

P/1 - E depois você poderia contar um pouco como se desenvolveu sua carreira no SENAC?

 

R - Ah, sim. Bom, no SESC eu tive uma longa carreira, trabalhei uns doze anos no SESC. Eu tive, felizmente ou por benevolência dos meus superiores, uma ascensão bastante rápida. E do Mário França de Azevedo, que era [o SESC da] Rua do Carmo, eu fui diretor lá [por] uns três ou quatro anos. Passei a ser diretor da maior unidade do SESC naquele tempo, que era o SESC Vila Nova, aquele que tem várias quadras esportivas, que tem o Teatro Anchieta. Então me senti muito bem, eu me dei muito bem no SESC Vila Nova, do qual eu era diretor. Eu era diretor de uma parte esportiva que ocupava acho que 80% do edifício, mas era diretor também do Teatro Anchieta. Eu sei que a minha cabeça estava muito mais voltada para o Teatro Anchieta do que para os 80% das atividades esportivas.

Me lembro que o edifício tem quatorze mil metros quadrados de construção, é um número que a gente tinha que ter sempre na cabeça porque um Conselheiro, alguém podia perguntar: "Qual é o tamanho?" Porque era realmente um monstro. Na época, para atividade de lazer, foi uma conquista muito grande do SESC construir aquele prédio, com essas proporções e um teatro, na ocasião - e acho que até hoje - um dos mais perfeitos do Estado de São Paulo. Foi construído tecnicamente com muita perfeição de acústica, de iluminação etc.

Eu era, por força do trabalho, diretor de uma sauna, com todos os problemas de sauna, de quatro ou cinco quadras esportivas. Tinha até um campo de bocha, de boliche, dentro do edifício e tinha o Teatro Anchieta com 355 lugares. Mas eu me lembro que eu gostava muito mais do Teatro Anchieta, embora não descuidasse das outras atividades que assessores, assistentes meus faziam com muita competência.

Foi uma fase que eu achei muito interessante no teatro, na minha vida profissional, através do teatro. E me lembro também que implantei ali uma campanha, que até hoje o nome é usado. O teatro era difícil de conquistar público, e as peças tinham que ser escolhidas com muito cuidado porque era a época da revolução, então eram muito censuradas etc. As peças nem sempre eram do agrado do público, e o SESC, por ser uma entidade ligada ao governo, também não podia ser muito arrojada, colocar o “Roda Viva”, essas coisas que feriam o regime militar naquela época. Então as peças estavam sempre no meio do caminho, a gente queria ser arrojado mas não conseguia ser.

Eu lembro que fiz uma campanha que chamava-se "A Escola Vai ao Teatro", então coloquei um funcionário, o funcionário ia nas escolas e vendia a lotação para as escolas.  No começo vinham 30, 40, 60 alunos e depois aquilo lotava de ônibus na porta do teatro; as escolas, ou por comodismo dos professores, ou por interesse cultural mesmo, aderiram muito a essa campanha. Foi uma campanha muito bonita e ela foi inaugurada com uma peça que teve um sucesso muito grande com a Marília Pêra, que era "A Moreninha", que depois virou filme com a Sônia Braga. A Marília Pêra fazia aquela Moreninha de uma forma muito engraçada, muito comunicativa; até me lembro que outro dia a Elizabeth Savalla, dando uma entrevista, falou: "Engraçado, a minha vocação foi despertada quando eu fui a um teatro em São Paulo que estava levando “A Moreninha”, com a Marília Pêra. Eu era uma adolescente, e depois que vi este espetáculo eu falei: 'Eu quero ser atriz'." E é a atriz Elizabeth Savalla de hoje, né?

Esse período foi muito gratificante pra mim, e foi graças a esse trabalho que eu fiz no Teatro Anchieta, no SESC Vila Nova, que se chamava Carlão - eu me lembro que era Carlos de Souza Nazareth o nome do edifício da unidade e o apelido era Carlão. Para facilitar, hoje eles unificaram os nomes, então cada nome recebe o nome da região onde ele está. Então SESC do Carmo porque está na Rua do Carmo e aqui, o SESC Vila Nova hoje é SESC Consolação, eles ampliaram um pouquinho por causa do bairro.

Foi dali que eu saí para voltar. Eu não tinha chegado a ser do SENAC, apenas fui admitido, testado pela dona Adelina. Aí eu voltei pro SENAC, a convite do doutor Bahij Amin Aur, que era meu colega no SESC; tinha passado para o SENAC também numa mudança política que houve quando morreu doutor Brasílio, que era um presidente muito tradicional, e assumiu o doutor Papa Júnior. Nessa ocasião, me levou o doutor Amin pra renovar o SENAC, para modificar, dar outros rumos ao SENAC, por força do meu trabalho no SESC, onde nos relacionávamos muito bem.

Passei a trabalhar no SENAC. E comecei num cargo de certo prestígio dentro da estrutura organizacional. Ele me convidou para um cargo muito bom, eu aqui intimamente confesso que não me dei muito bem no cargo.

 

P/1 - Qual era o cargo, senhor Juvenal?

 

R - Eu era Diretor de Divisão, que era um cargo que vinha logo abaixo da diretoria do SENAC. Tinha várias divisões, não me lembro o nome de todas elas, mas a minha era uma divisão que cuidava dos cursos curtos, rápidos, acelerados. Como eu tinha desenvolvido muito bem o teatro - eu sempre me apego ao teatro -, o centro desportivo, [eu] tinha dado uma boa desenvoltura a ele, eles achavam que eu... Doutor Amin achou que eu me daria bem nessa área de desenvolvimento de cursos rápidos, acelerados, que movimentasse muita gente, mas eu estava... Eu fui colocado numa faixa mais estática do trabalho, de planejamento, de organização, e sempre percebi, por mim mesmo, que eu tenho uma vocação mais para ação, para o desenvolvimento de trabalhos práticos do que pra pensar o trabalho. Eu não sou muito pensar o trabalho, sei mais desenvolver o trabalho, então eu me dava muito bem desenvolvendo aquele trabalho no SESC; me trouxeram para pensar um trabalho e eu sinto que não correspondi muito bem.

Assim mesmo, sustentei o cargo durante algum tempo. Depois continuei no SENAC em outros cargos mais operacionais, onde eu me dava bem, e hoje eu trabalho numa área bastante operacional, que é uma unidade operativa. Coordeno quatro outras unidades da capital, de São Paulo e me sinto muito bem por estar ligado a uma atividade de cunho puramente operacional.

 

P/1 - Senhor Juvenal, quando o senhor foi para o SENAC, o SENAC estava dinamizando esses cursos rápidos ou estava implantando cursos novos?

 

R - Não, já existiam naquela época; se chamavam Cursos de Formação Acelerada porque eram rápidos. O SENAC vinha de uma fase do Ginásio Comercial, dos cursos, alguns cursos de segundo grau na área de Contabilidade, na área de Secretariado, mas o forte da aprendizagem do comércio, da qualificação profissional no comércio são cursos rápidos. O comércio não demanda em profissões de conhecimento aprofundado, sempre são conhecimentos ligeiros, superficiais, que coloca a pessoa diante do comprador, diante das pessoas que estão envolvidas no comércio que é o mundo todo, continuamente estamos mexendo com o comércio.

O SENAC precisou modificar sua estrutura de trabalho porque ele estava muito lento, fazendo cursos de segundo grau, que demoravam muito a terminar e as pessoas demoravam muito a se lançar no mercado de trabalho. Então ele criou os cursos rápidos, curso de Empacotador, de Vendedor, enfim, cursos de complexidade pequena e rápidos, que já jogavam as pessoas no mercado de trabalho logo em seguida. E esses cursos foram exacerbados; durante um tempo eles começaram a diminuir a carga horária, sintomaticamente, e a jogar muita gente no mercado de trabalho não tão bem preparados como se precisava, então houve um retorno. Nessa época, quando o doutor Papa assumiu e o doutor Amin assumiu também a diretoria regional do SENAC, o SENAC vivia esse momento mais ou menos estacionário, não por culpa de seus diretores nem nada, por culpa daquela entourage do momento que se vivia, da própria evolução da entidade. E o doutor Papa, como era um homem moderno, era um homem jovem, quis dinamizar o SENAC: de trinta mil formandos por ano, ele fez uma proposta pra [atingir] trezentos mil.

 

P/1 - Isso foi exatamente quando?

 

R - Foi quando o doutor Amin assumiu, já na presidência do Papa Júnior. A época eu não me lembro bem agora, seriam doze anos, 70 e pouco, 76, mais ou menos.

O SENAC viveu esse momento de transformação porque mudou a presidência, mudou a diretoria regional, e viveu esse momento de efervescência muito grande, com acertos e erros, naturalmente. Mas se voltou para os seus objetivos mais específicos, de formar profissionalmente as pessoas e lançá-las imediatamente no mercado de trabalho, e com isso saturou um pouco também, o mercado de trabalho ficou saturado. Onde o SENAC tem unidades no interior, uma cidade que precisa de duzentos balconistas formava seiscentos, então criava-se uma celeuma em torno disso, não é?

Hoje o SENAC reduziu um pouco esse ímpeto e diminuiu também o número de pessoas formadas por ano, mas está procurando um aprofundamento maior, tanto que hoje tem cursos de terceiro grau, cursos universitários na área de Hotelaria, que naquele tempo nem se pensava. Achava-se até que o SENAC estava proibido de dar cursos de terceiro grau. Eu me lembro que com doutor Amin fomos visitar a presidente do Conselho Federal de Educação aqui em São Paulo, a doutora Ester Figueiredo Ferraz, e ela relutava muito em admitir que o SENAC pudesse dar curso de terceiro grau. Se pretendia, naquela época, fazer um convênio com a Fundação Getúlio Vargas para dar cursos de pós-graduação e ela foi soturnamente contra. Ela achava que o SENAC não tinha alcance para isso, e hoje o SENAC milita com muita tranquilidade nos cursos de terceiro grau, de pós-graduação, na área de Turismo, na área de Hotelaria. Já se pensa na área de Moda, em várias outras áreas em atingir o curso universitário, então foi um pulo muito grande.

Há uns vinte anos, a educação era muito eivada de preconceitos tecnológicos, uns podiam, outros não podiam; depois houve uma liberalização muito grande que também exagerou, todo mundo fundou faculdade de direito etc. O SENAC entrou nessa onda de liberalização, mas não levianamente, e com isso atingiu outros patamares da educação, o que eu acho muito legítimo hoje. Eu fui diretor do CEATEL quando o CEATEL, que era a área de Hotelaria do SENAC, criou um convênio com a Universidade de Cornell. Cornell tem uma das melhores escolas de hotelaria do mundo, então o SENAC foi buscar, através desse convênio, um melhor nível na formação hoteleira.

 

P/1 - Já existia faculdade quando o senhor foi diretor?

 

R - Não, ainda não. Quer dizer, existia faculdade através da Cornell, a Cornell é que era faculdade. Nós quisemos fazer aqui com a Getúlio Vargas. Não foi possível pelo preconceito da educação brasileira, mas conseguimos com a Cornell nos Estados Unidos. Eles são mais liberais, a educação está muito mais liberalizada lá, então se fazia um arremedo de curso de terceiro grau. A gente só aceitava pessoas com segundo grau e, naturalmente, depois do segundo é o terceiro grau, é universitário. Então o curso tinha um status de terceiro grau, mas não era oficialmente, cartorialmente não era de terceiro grau. Com isso, o CEATEL e a área de Hotelaria se dinamizou dentro do SENAC através desse convênio com a Cornell, porque era um convênio respeitável, com uma das melhores universidades do mundo.  

 

P/1 - Os alunos iam estudar nos Estados Unidos?

R - Não, os professores de lá vinham pra cá. No começo com muita dificuldade por causa da língua, então havia uma coordenação brasileira dos cursos de Hotelaria. Eu era o coordenador brasileiro e havia um preposto da Cornell, encaminhado por eles, que dava os cursos no estamento do terceiro grau. Era uma coisa meio anedótica às vezes, porque eles traziam muito conhecimento, mas [quando] chegavam aqui eles tinham dificuldade em aplicar.

Até essa época, o SENAC era famoso por dar cursos de garçom e de cozinheiro; eles estavam mais ou menos estereotipados e a população não aceitava, os comerciantes não aceitavam muito essa formação. As pessoas da sociedade em geral que procuravam o SENAC, elas procuravam com esse estigma de que o SENAC dava curso de Datilografia e curso de Garçom. Precisava romper essa barreira, esses limites, esse estereótipo. E esse convênio com a Cornell teve esse condão, afinal não é Garçom, nem Cozinheiro, nem Datilografia, mas é um convênio com a Cornell, uma universidade americana. Com isso, o SENAC trouxe para dentro de si uma plêiade de alunos, a maioria deles com nomes estrangeiros,  de pessoas viajadas, porque vieram buscar essa formação na área de Hotelaria, que no Brasil não era bem vista.

No Brasil, na época, talvez o maior hotel brasileiro era o Jaraguá. Depois é que veio o Hilton, veio Maksoud e essas cadeias, mas o Brasil, durante muito tempo, não tinha hotéis. São Paulo não tinha hotéis; tinha o Copacabana Palace no Rio de Janeiro histórico; tinham os hotéis de estância, que foram fundados para o jogo. O jogo acabou com o [presidente Gaspar] Dutra, e viraram sucatas de hotéis porque não tinham mais o respaldo do jogo. As grandes cidades não tinham hotéis.

 

P/1 - E onde que iam trabalhar os formandos no curso?

 

R - Pois é. Rompida essa pequena barreira, do curso de Garçom, isso coincidiu com a abertura dos primeiros hotéis de cadeia em São Paulo. O primeiro foi o Jaraguá, que era ali onde era o Estadão. Um hotel que recebia figuras internacionais. Depois já veio o Hilton, e com isso começou a se expandir. As duas coisas parece que são mais ou menos justapostas, a mão-de-obra e o investimento em hotelaria, então já tinha mão-de-obra e começaram os investimentos. Primeiro as cadeias traziam seus gerentes, seus administradores, depois já iam admitindo os brasileiros e uma boa parte deles vinha do SENAC. Muitas vezes, as cadeias de hotéis que vinham pra cá contratavam, roubavam, subtraíam do SENAC aqueles técnicos, aqueles professores que vinham da Cornell dar curso aqui, porque eram mais competentes, então havia uma espécie de... O SENAC teve como coordenador da Cornell pessoas que depois foram diretores do Hilton, foram diretores de outras cadeias pela competência deles. Saíam do SENAC pra ir trabalhar nessas cadeias.

Enfim, rompeu-se aquela barreira e o SENAC começou a ser visto de uma forma mais digna do ponto de vista da formação profissional, sem os estereótipos, os preconceitos que regiam até então. Hoje ainda existe um pouco desse preconceito: às vezes me ligam lá no SENAC onde eu trabalho, o telefone às vezes cai na minha mesa, e a pessoa pergunta: "É aí que tem uma escolinha de cabeleireiro?" (risos) Dá vontade de falar assim: “Escolinha é a avó, é uma bela Escola de Cabeleireiro.” Eu penso se hoje na área de Moda alguém [que] atingiu o terceiro grau tem um convênio com uma escola francesa. Mas o estereótipo é uma coisa terrível de se livrar dele, então até hoje o SENAC, às vezes, é marcado por esse tipo de apreciação. Aos poucos foi se vencendo e se vencendo na prática, na objetividade, através desses convênios, através dessa insistência em buscar o conhecimento fora, num nível que fosse desejável à mudança da imagem.

 

P/1 - Senhor Juvenal, depois do CEATEL o senhor foi pro Multiemprego?

 

R - É, eu tive uma fase de transição. Depois que deixei de trabalhar nessa linha de planejamento da diretoria, eu tive uma fase de transição, talvez uma fase em que a vida, de um modo geral, não tivesse sido muito feliz pra mim. São as fases naturais da vida, né?

Eu sou uma pessoa muito realista do ponto de vista das coisas que ocorrem. Acho que tudo tem a sua hora e a sua vez, não sou uma pessoa que se frustra com os acontecimentos. Acredito que eu saiba enfrentá-los com uma certa dose de realismo. Pode parecer vaidade, mas é como eu me julgo. Então eu tive uma fase difícil no SENAC, uma fase em que eu estava saindo de uma posição de maior importância na estrutura e passei - por culpa minha mesmo, é óbvio -, por algum desencanto ou alguma coisa. Fui para outras atividades, mas que tinham já um respaldo assim mais operacional, que era o que eu gostava.

 

P/1 - Quais eram essas atividades, senhor Juvenal?

 

R - Era a do Multiemprego primeiro... A do CEATEL primeiro e a do Multiemprego depois. Quando eu deixei o CEATEL eu passei para o Multiemprego, que tinha esse lado operacional, mas ainda era um pouco cerebral, quer dizer, um pouco... São atividades mais pensadas do que executadas, porque a hotelaria estava muito incipiente no Brasil, ainda não se sabia bem pra onde ir, então ela tinha que ser muito pensada ao invés de ser operacionalizada. A estrutura mental da atividade era maior do que a estrutura prática, embora o SENAC tivesse o Hotel São Pedro, que é uma coisa muito prática, mas ele estava inteiramente voltado para essas atividades de garçom e de cozinheiro, e o CEATEL não chegava lá. Era uma outra coisa, o CEATEL estava aqui nessa área de hotelaria com o convênio da Cornell. De vez em quando ia lá fazer algumas demonstrações, alguns cursos de aperfeiçoamento etc.

A coisa, do ponto de vista do meu desempenho profissional, eu acho que caminhava precariamente, porque eu me sentia um pouco deslocado na área de hotelaria. Eu não tinha nenhuma vinculação com hotelaria, acho que nem sabia comer direito. (risos) Eu não tinha, não tenho esse apreço pela etiqueta, eu realmente não tenho, então achava que estava meio deslocado. Fazia aquilo profissionalmente, de uma forma muito isenta, sem me meter muito na atividade, e acho que isso não fluía bem.

Passei pro Multi-Emprego, que era um serviço de colocação profissional. Sempre... Em épocas de crise, o Brasil nunca teve um pleno emprego, então era muito difícil trabalhar com agência de emprego, ainda mais numa agência de emprego de uma organização formalmente estruturada como é o SENAC. Eu também não me sentia bem no Multiemprego, até que o Salgado, que é o atual Diretor Regional, a quem eu devo essa mudança na minha vida, me ofereceu pra ser diretor de uma unidade executiva do SENAC, até então não tinha sido. No SESC eu sempre fui diretor de unidades executivas, quiseram me ajudar e me passaram para uma atividade mais cerebral porque eu não me dava bem lá. Aí o Salgado me ofereceu a gerência de Santana, que era uma unidade nova, e enfim eu voltei ao meu métier, aquilo que eu gostava de fazer.

 

P/1 - Senhor Juvenal, o Multiemprego fazia, ele propiciava a colocação dos alunos formados nos cursos do SENAC efetivamente?

 

R - É, o SENAC sempre teve, muito rascunhadamente, sempre teve um serviço de colocação profissional. Os alunos que se formavam iam encaminhando para ali ou pra cá, mas eram pequenos setores, pequenas pessoas que cuidavam disso. Nessa mudança que houve no SENAC, com a mudança da presidência, se criaram novas unidades, novos serviços, e um desses serviços foi ampliar essa questão da colocação profissional.

O SENAC forma pessoas profissionalmente, então ele tem o dever ou a possibilidade de colocar essas pessoas no mercado de trabalho, o que não é muito automático. A formação profissional no Brasil tem pouco a ver com a colocação profissional, tanto que tem muito engenheiro guiando táxi no Brasil, né? Mas o SENAC quis dar uma força, essa possibilidade, e criou então esse serviço de colocação profissional que teve vários nomes; um dos nomes-fantasia que ele teve foi Multiemprego. Hoje tem outro nome também, hoje é CRH, ligado a Recursos Humanos, mas criou o Multiemprego.

No Multiemprego havia lá sua estrutura organizacional e era pra colocar alunos do SENAC, mas é muito pouco colocar alunos do SENAC, primeiro porque são pessoas sem experiência - pessoas sem experiência o mercado de trabalho não aceita, eles querem as pessoas com experiência. A formação profissional não basta, só com a formação profissional não colocava ninguém, então ele estendeu este serviço para a população de um modo geral. Como tudo que se faz no SESC e no SENAC se faz com uma boa intenção, se faz seriamente, era um setor de colocação profissional sério, que se contrapunha aos outros, que às vezes faziam um certo jogo ‘tira daqui, põe ali’ pra ganhar o percentual da colocação. O SENAC não fazia isso e não faz até hoje, então fazia a colocação profissional dos alunos formados e também a colocação profissional de outros candidatos de um modo geral, mas sempre na área do comércio. Não se metia muito na área da indústria, que é privativo do SENAI.

Com isso o serviço se desenvolveu, ganhou uma bela casa na Avenida Rebouças, uma casa muito bem montada; depois, por razões de mudanças políticas e da própria estrutura financeira do SENAC, teve que retrair um pouco. E hoje esse serviço está na Rua 24 de Maio, chama-se Centro de Recursos Humanos, tem essa ideia de trabalhar com Recursos Humanos. Fui gerente - naquela época era diretor, depois é que mudou o nome do cargo. Fui gerente ou diretor do CEATEL e do Multiemprego, depois de ter sido do CEATEL.

 

P/1 - E em Santana o senhor está desde que ano, senhor Juvenal?

 

R - Em Santana eu estou há oito anos.

 

P/1 - Oito anos.

 

R - Eu não sou bom de data, preciso fazer a continha. Acho que vai fazer oito anos ainda, mas fui o primeiro gerente e estou lá até hoje.

 

P/1 - Que tipos de atividades exatamente funcionam em Santana?

 

R - Santana é uma unidade operativa do SENAC, ela é polivalente. O SENAC tem as especializadas e as polivalentes. As especializadas, como o nome indica, cada uma é especializada em uma área: em Beleza, em Moda, em Hotelaria, em Línguas. Elas são especializadas, só ministram cursos daquela área e têm o papel também de desenvolver projetos, produtos educacionais dentro das áreas específicas de cada uma, respectivamente. E existem as unidades operativas, que são aquelas que são no interior e que são chamadas polivalentes, porque dão todos os cursos tratados pelas especializadas, juntam-se ali todos os cursos. Agora, cada unidade ganha um perfil próprio, independentemente da intenção da administração.

Às vezes a administração pensa, através de pesquisas, um determinado perfil para uma unidade, depois uma junção muito grande de valores ou de interferências cria um novo perfil para a unidade. Então algumas são mais voltadas para a cultura, outras são mais voltadas pra cursos da área de administração, enfim, isso depende muito das pessoas. A vida e o mundo é feito de pessoas, não é feito de coisas na vida social, então são as pessoas que estão ali que determinam.

Santana ganhou um diferencial das outras unidades, acho que exatamente por essa minha origem ‘sesquiana’, do SESC, que lidava mais com cultura. Então, sem prejudicar ou minimizar a área de formação profissional e todas as áreas [em] que ela atua, eu dei empenho também a esse lado cultural da unidade, fazendo exposições, abrindo-a pra teatro, pra lançamentos de livros, enfim, uma série de atividades mais com a cara da cultura do que com a cara da formação profissional -  se bem que eu sempre trabalhei com técnicos muito competentes, que se encarregam na área da formação profissional com muita competência e eu acho que não devo para nenhuma das áreas, nunca fiquei devendo.

Santana é uma unidade que tem a grande maioria dos cursos, só não temos Inglês lá porque inglês é diferenciado, tem uma área específica, Inglês e unidades específicas de Inglês. Mas as outras áreas -  Beleza, Moda, Decoração, Hotelaria, Contabilidade, Administração, Informática - são áreas que têm muito sucesso em Santana.

Santana também é um bairro diferenciado dos outros, cada bairro tem a sua natureza social e Santana é um bairro de classe média, né? Então as atividades de maior interesse pra classe média, elas se dão bem ali no SENAC de Santana. Há outros SENACs que têm uma certa dificuldade em desenvolver atividades culturais por causa da população, da região geográfica onde eles estão colocados, onde essas unidades estão colocadas, então isso diferencia um pouco o perfil da unidade. Começa pelo bairro, começa pelo gerente, começa por quem o gerente escolhe e vai por aí afora; onde ele dá mais empenho, dá mais liberdade pra trabalhar, porque quem é da área administrativa, por exemplo, acaba sendo o gerente da unidade e o gerente da área administrativa também, porque ele gosta daquilo, né? Então ele acaba interferindo, limitando ou ampliando aquela área, de acordo com o seu gosto. Quem tem um perfil mais voltado para a atividade cultural acaba fazendo, impondo a sua marca nesse tipo de atividade.

Santana tem sucesso nessas coisas, tanto que o último convidado nosso lá foi o Paulo Autran. Não é fácil levar o Paulo Autran: é um profissional caro, difícil, de uma agenda muito lotada, é um homem de uma certa idade. Fez uma bela de uma apresentação lá.

 

P/1 - Como foi esse evento, senhor Juvenal?

 

R - O evento tinha o objetivo de chancelar o início da atividade na área de Artes no SENAC como um todo, através da implantação do primeiro curso de Ator de segundo grau no SENAC, curso de segundo grau. Então foi feita uma pesquisa para ver o interesse do curso, foi feito um planejamento muito específico e muito profundo da área, montou-se o curso tecnicamente e precisava dar a ele um puxo, dar a ele um lançamento que fizesse com que a população soubesse que existe isso no SENAC, senão ficava lá dentro fechado, com muita dificuldade. O caminho pra isso foi escolher um grande ator, que fosse lá ser o patrono da turma, que aceitasse ser o patrono, aceitasse receber uma homenagem do SENAC, e nós escolhemos o nome do Paulo Autran, que é uma figura que está completando cinquenta anos de teatro, uma figura representativa no meio teatral brasileiro, e ele aceitou, de muito bom grado.

Estruturamos todo esse lançamento do curso de Ator através de três eventos simultâneos. Um foi uma homenagem ao Flávio Império, que foi um cenógrafo brasileiro que morreu muito jovem. Conseguimos levantar o acervo dele e fazer uma exposição no prédio do SENAC todo. O prédio tem quatro andares e durante... nos quatro andares, toda a extensão dos quatro andares, existem obras, estão lá expostas obras do Flávio Império. Uma exposição de fotografias da biografia profissional da atriz Bertha Zemmel, que é a coordenadora do curso de teatro, portanto um curso que está em ótimas mãos; uma atriz de tradição no Brasil, hoje um pouco afastada do meio teatral, mas ela também tem uma escola e se dedica com muito empenho a essa atividade. E uma figura exponencial, que era o Paulo Autran.

Isso tudo se juntou num dia só. Houve um coquetel, houve o espetáculo do Paulo Autran, a abertura da exposição das fotografias da Bertha e do Flávio Império. Com isso, se ganhou um pouco da mídia, se falou do SENAC, se falou dos cursos de atores. Recebemos muitos telefonemas e o curso se solidificou com essa...

 

P/1 - O senhor falou que é um curso de segundo grau?

 

R - É um curso de segundo grau.

 

P/1 - Mas a pessoa faz o segundo grau fora do SENAC e os cursos...

 

R - O SENAC trabalha sempre nos cursos de segundo grau. Ele trabalha só com a parte profissionalizante, não trabalha com a parte de cultura geral, porque os cursos de segundo grau juntam as duas coisas.

Os cursos normais são de cultura geral apenas e no último ano têm um pequeno desvio para uma área profissional, que pode ser Contabilidade, pode ser Informática, pode ser Saúde, qualquer coisa. Mas cuidam mais da parte da cultura formal da pessoa: História, Geografia, Matemática, indistintamente, que servem pra qualquer área. No último ano é que, no segundo grau - hoje, né, antigamente nem isso - o último ano do segundo grau todinho era voltado para área cultural de um modo geral.

O SENAC faz o contrário, ele só dá a parte profissionalizante. Então, o nosso curso de Contabilidade tem mil, 1200 horas, mas ele só dá a parte profissionalizante, não dá Geografia, não dá História, não dá Português, nada disso. Ele só dá a parte profissionalizante. Temos um curso de Massagem, de Estética, são cursos de segundo grau também, mas só dão a parte profissionalizante.

 

P/1 - Mas ele faz convênio com escolas?

 

R - Não, não. Aí ele recebe o aluno já com segundo grau, então a exigência, o pré-requisito, é o aluno vir com o segundo grau completo. Se tiver mais candidatos do que vagas, faz-se um teste e ele, de posse de um certificado de segundo grau, faz o curso, faz a faixa profissionalizante do curso que ele escolheu.

O curso de Ator é um desses, todos eles têm que ter o segundo grau. O curso de Ator é mais exigente, eles têm que ter o segundo grau e tem que ter a vocação, né, porque isso não mede, não se mede nos outros cursos a vocação. Mas como é uma pessoa que vai se expor ao público, é bobagem um filhinho de papai dizer que quer ser ator, sendo que ele não tem condições de ser ator. A gente não vai enganar essa pessoa, durante... Custa caro o curso, não custa barato. Não vamos enganar, dizer que ele sai dali e tem condições de trabalhar na televisão ou subir num palco, então se faz um teste muito rigoroso onde ele tem que interpretar, em três linhas: ele tem que interpretar um texto decorado, um improviso e uma mímica. Se ele se sair bem nesses três testes e tiver o segundo grau, ele entra pro curso, senão ele vai ser aconselhado a não fazer o curso. Mesmo que ele queira, ele não faz.  

 

P/1 - Senhor Juvenal, qual é a valorização que a diretoria atual do SENAC faz desse perfil que o senhor está imprimindo à unidade Santana, vamos dizer, no contexto das outras mudanças de unidades especializadas e de, enfim, um lema de modernização. Existe um apoio total? Como funciona isso no dia a dia?

 

R - Uma resposta difícil porque não sei exatamente como os outros gerentes se sentem quanto a esse apoio, quanto a esse aval que se dá a atividade deles. Nas reuniões coletivas que a gente faz, eles são todos muito bem avaliados. Pessoalmente, eu me sinto muito privilegiado, talvez pelos anos de casa que tenho, tradição como pessoa dentro da entidade, então eu me sinto muito apoiado, muito valorizado nas coisas que a minha unidade faz.

Na verdade, eu sempre trabalhei e ultimamente, mais ainda, eu trabalho com uma equipe técnica muito boa, de boa qualidade, tanto do ponto de vista profissional como do ponto de vista pessoal; são pessoas boas, generosas. E são pessoas muito bem formadas também, tanto na área administrativa como na área técnica. Sinto que todas as propostas da unidade são muito bem acolhidas pelo departamento regional nas suas diferentes áreas e pelo próprio Diretor Regional. A gente mede muito isso, possivelmente ele vai me ouvir, o Salgado. Quando o Diretor Regional vai a uma unidade é sinal que ele está prestigiando mais ou menos. (risos) Ele não vai gostar disso, mas eu sinto que eu tenho recebido muito a visita dele, com muito carinho, com muita atenção, e isso me faz pensar que essas atividades são bem-vindas, que a programação é bem-vinda. Na verdade, é uma unidade que tem um bom retorno financeiro, ela cumpre com aqueles objetivos perseguidos pela entidade. Todas cumprem, se não cumprem é por dificuldades circunstanciais de tamanho da cidade, de programação etc. Mas Santana teve a sorte de sempre atingir seus objetivos.

A gente procura trabalhar também num espectro muito amplo de atividade. Tudo que é possível, que é bom a gente aceita e coloca lá dentro. Se não der certo, a gente passa por cima e vai procurar outra atividade.

A cultura brasileira é muito esfacelada, ela não é profunda, então é preciso ter muita coisa para, desse muito, tirar um pouco bom. A gente atinge, abrange todas as áreas possíveis que estejam enquadradas dentro do SENAC, e essas áreas culturais, de um modo mais específico, se dão bem em Santana porque é um bairro de classe média. É um bairro que tem um poder aquisitivo compatível com esse tipo de atividades que nem sempre são muito baratas. São as mais caras do espectro de atividades do SENAC.

 

P/1 - Senhor Juvenal, e o setor de ação comunitária ou ação para o trabalho, que é vinculada a ação comunitária?

 

R - Naquela fase de transição do SENAC, com a mudança da presidência, mudança da diretoria regional que eu falei algum tempo atrás, o SENAC criou um serviço que se chamava UNIFORT. A UNIFORT era uma espécie de atendimento móvel, composto de uma perua, três técnicos e um acervo de material próprio pra se ministrar cursos. Essas unidades móveis corriam o Estado de São Paulo, onde não havia unidade do SENAC fixa, onde não havia um edifício, chegavam essas unidades, com muito sucesso. O SESC tinha esse mesmo tipo de trabalho na área de lazer e o SENAC tinha na área de formação profissional. Isso se espalhava pelo Estado como uma rede, uma teia, e era muito bem recebido pelos prefeitos, porque eles levavam inovação, levavam os cursos. Mas aos poucos, como eu disse anteriormente, né, foi se esgotando, formava-se trinta, sessenta cabeleireiros numa cidade e esses cabeleireiros não tinham o que fazer. Na próxima vinda da UNIFORT não tinha mais aluno pra Cabeleireiro e depois não tinha mais aluno para aquilo, então foi havendo um enxugamento dessa atividade, ela foi se restringindo. Primeiro ela se encolheu para as unidades operativas do interior, cada uma na sua região, e dali ela fazia pequenos trabalhos, e depois as próprias unidades operativas se encarregaram de trabalhar regionalmente, e com isso ela veio pra São Paulo.

O SENAC, como toda grande empresa, tem um compromisso com o social, em proteger aquela faixa da sociedade menos aquinhoada economicamente, socialmente, culturalmente; é um dever das grandes empresas, mais ainda do SENAC, que é financiado de certa forma pra isso. Então o SENAC não pode abrir mão desse serviço, que é destinado às classes menos privilegiadas. E com isso essa antiga UNIFORT se retraiu pra São Paulo, o que já é bastante, porque São Paulo tem a metade da população do Estado, a cidade de São Paulo tem metade da população do Estado. Então ela organizou o seu trabalho na periferia de São Paulo, a Grande São Paulo, e atende os bairros menos favorecidos economicamente com cursos adequados ao interesse deles. São cursos de profissionalização mais rudimentar, que procuram dar uma segunda renda pra família, diferente dos outros, que é a primeira renda. Quem vai trabalhar pra ser gerente de uma loja, gerente de um hotel, é a primeira renda dele, então forma as pessoas para a primeira renda, e na periferia forma-se para a segunda renda. É a mulher que frequenta geralmente, o filho menor; o pai trabalha numa indústria, numa fábrica e a família precisa reforçar o orçamento. Então toda a atividade dessa unidade, que é o CCT, voltado para a ação comunitária, é programado no sentido de atender essas faixas mais carentes.

Com a regionalização do SENAC, cada regional se responsabiliza pela administração de um conjunto de unidades, então em São Paulo coube ao regional de São Paulo, do qual eu sou o gerente, as unidades de Tatuapé, da Vila Prudente, de Santo Amaro e essa UNIFORT, que antigamente era um serviço mais especializado, mas como é muito operativo, se convencionou que ele se tornaria uma unidade operativa também. Deixou de ser uma unidade especializada, como é a de Moda e Beleza, de Informática, perdeu esse caráter de unidade especializada e se tornou uma unidade operativa como as outras, só que com uma diretividade mais definida, que é atender a população de baixa renda. Isso está ligado ao meu trabalho também e tem uma diretoria própria, tem um corpo técnico próprio que desenvolve o trabalho na periferia com esse destino, para as classes menos favorecidas.

 

P/1 - Senhor Juvenal, infelizmente nós estamos chegando ao fim da entrevista e eu queria lhe fazer ainda duas perguntas. Uma: o senhor poderia falar um pouco sobre quais são seus projetos para o futuro, enfim, independente do SENAC ou dentro do SENAC?

 

R - Diz que o mundo não gira segundo as nossas esperanças. O mundo gira e a gente vai se encaixando dentro dele. Eu estou nas vésperas da minha aposentadoria, depois de 35 anos dentro do SESC e do SENAC, e me desviei da carreira universitária que eu pretendia no início. Desviei com muita consciência, eu achei que não teria muito sucesso porque, como eu disse, a minha cabeça está mais voltada às atividades mais operacionais, embora eu tenha uma grande vinculação com a preocupação cultural do conhecimento humano. Mas me dei muito bem no SENAC, me dei muito bem no SESC, eu não tenho queixa nenhuma; estamos vivendo uma fase muito boa, muito alvissareira, pra minha idade e pro meu histórico profissional. Me sinto muito feliz no meu trabalho, mas eu sinto que com a idade a gente vai mudando um pouco as perspectivas.

Eu vou me aposentar graças a um projeto que existe no SENAC de complementação de aposentadoria, espero que ele prevaleça com as mudanças aí constitucionais. Se ele prevalecer, eu vou ter uma aposentadoria condizente com o meu nível de vida, que não é nada elevado nem difícil de ser atingido. Mas eu tenho essa expectativa da aposentadoria: eu gostaria de ter um pequeno negócio meu, uma pequena ocupação, e pra isso eu conto com esse meu filho adotivo, essa pessoa que vive comigo e que eu estou ajudando a estudar já há mais de quinze anos, e que tem uma grande solidariedade com a minha vida, com a minha doença. Eu sou diabético, um diabético muito paparicado por ele, e isso me faz até prolongar a minha expectativa de vida. Então eu tenho esse projeto de encaminhar essa pessoa na vida e junto com ele também me ocupar de alguma coisa.

Um dos grandes sonhos meus… Embora eu tenha um pequeno sítio, tenha propriedades no interior, sempre fui um homem urbano, sempre vivi no asfalto, na cidade, na luz elétrica. Vivi muito próximo às modernidades, sempre gostei das coisas novas, pelo menos de ter televisão, de ter telefone sem fio, de ter essas quinquilharias da modernidade, sempre gostei. Mas sempre há aquele atavismo: a minha mãe era de origem rural, o meu avô foi fazendeiro, criador de bois, meu pai também foi um grande fazendeiro em Taubaté, uma pessoa que trabalhava na roça. Aquelas famílias antigas faziam os filhos trabalhar de verdade, então essa força atávica me leva um pouco a esse mundo rural, esse mundo da natureza, e o meu sonho é pequeno, meu sonho é ter um cachorro. (risos) Em torno do cachorro, naturalmente, existe toda uma estrutura material. Eu não quero ter um cachorro num apartamento, eu não quero sacrificar o animal; quero ter uma vida num lugar mais tranquilo, onde essa ideia da convivência com a natureza seja mais compatível. Então essa é a minha grande preocupação nesse momento, essa passagem da minha vida profissional de quase quarenta anos, 45 incluindo outras atividades que eu tive, mas elas foram fundamentalmente voltadas para o SESC e para o SENAC. Então eu tenho essa expectativa de fazer um franchising, fazer, construir um pequeno negócio.

O meu filho adotivo está estudando Farmácia e eu estou discutindo com ele a possibilidade de uma pequena farmácia ou de um laboratório. Apesar de eu não ter me casado, ter sido um homem solteiro a vida inteira e não ter filhos, eu conquistei também esse aspecto da... Sinto que conquistei através do meu sentimento íntimo, esse aspecto da família que eu não tive. Sempre vivi fora da minha família também, por força de estudo, de profissão; minha família foi ficando lá longe, lá em Oswaldo Cruz, e eu fui encaminhando para outros lugares, para outras regiões, para outras cidades, sempre num envolvimento urbano. E agora eu tenho uma pequena vontade de retroceder, de voltar em busca da natureza.

Eu gosto muito de escrever. Enquanto a minha diabetes permitir eu vou desenvolver essa atividade, escrever coisas pra mim mesmo. Gosto muito de escrever, meu hobby fundamental hoje é a correspondência. Eu tenho mais de duzentos correspondentes, eu troco cartas bissextas com eles; uns escrevem com mais assiduidade, outros com menos assiduidade, mas tenho amigos no mundo inteiro e que são amigos mesmo, são pessoas que se revelam, se mostram. Os que não conseguem atingir esse grau de intimidade naturalmente deixam de ser correspondentes, mas eu tenho um universo de amigos bastante grande e que me permite também aquela solidão, que a idade reclama. Eu tenho os amigos mas não tenho o aborrecimento de ter amigos, de pagar visitas, trocar visitas. A gente se comunica intelectualmente.

 

P/1- Muito obrigado senhor Juvenal, agradecemos muito seu depoimento.


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