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História

Do bar para a turnê

História de: Neném Batera
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Esdra, mais conhecido como Neném Batera, nasceu em Belo Horizonte. Começou a tocar desde pequeno, mas entrou em contato com uma bateria mesmo pela primeira vez aos dezessete anos. Apresentava-se em bares, e foi "descoberto" por Flávio Venturini em uma noite. Dali, já saiu em turnê com o músico, conhecendo os integrantes do Clube da Esquina. Passou a tocar com o Clube, músicos que já adimirava bastante. 

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História completa

P1- Eu gostaria de iniciar essa bate-papo com você falando seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R- Meu nome é Esdra Expedito Ferreira, eu nasci em Belo Horizonte em seis de julho de 1954

 

P1- Eu queria que você falasse agora como foi a sua iniciação na música.

 

R- Eu comecei pequeno, minha mãe tinha uma escola de samba, então eu já aprendi a tocar cuíca, tamborim, essas coisas, novinho. Depois eu fui tocar candomblé (risos), toquei muitos anos candomblé e aí foi lá que eu vi a tal da bateria, foi daí que eu comecei. Mas bateria mesmo eu comecei a tocar com dezessete anos.

 

P2- E como foi, Neném você ganhou a primeira bateria, você foi tocar com banda? Como é que foi?

 

R- Eu não ganhei não. Eu estudava no colégio Sete de Setembro lá no Alto dos Pinheiros e tinha uma banda que ensaiava lá, no porão. Então eu ficava lá olhando eles ensaiarem e um dia eu falei com o cara, “Será que você me deixa mexer na bateria?” e ele falou assim “Pode mexer, a aparelhagem vai ficar aí mesmo, desde que não estrague!”. Aí eu fui começando devagarzinho.

 

P1- Com que idade isso?

 

R- Devia ter uns dezesseis, por aí, dezessete.

 

P1- E essa turma, você começou a tocar com eles?

 

R- Eu comecei a tocar lá sozinho, aí tinha um cara que estudava comigo que tocava violão, aí a gente resolveu fazer um conjunto que chamava Os Solitários, porque era só nós dois o conjunto (risos). Assim que eu comecei a tocar.

 

P2- Era uma dupla.

 

R- Era uma dupla, exatamente.

 

P1- Então vamos passar ao Clube da Esquina. Como você viu o disco? 

 

R- O Clube foi o seguinte: eu tocava em um bar chamado 890 e um dia o Fernando Orli, você conhece o Fernando Orli? Ele tinha um grupo chamado A Arca de Noé e ele me chamou para tocar nesse grupo. Aí eu gravei com ele e o Flávio Venturini ouviu isso e falou: “Que legal, o cara toca legal, vamos chamar ele para tocar”. Mas um dia eu tocando nesse bar, apareceu o Beto Guedes e ficou lá me olhando tocar e falou, “Eu vou começar uma turnê nova e o que você acha de a gente fazer uns ensaios?”. Aí eu falei, “Claro, o que você quiser”, o Beto Guedes, não é?!

 

P2- Para que disco que era?

 

R- Não lembro, acho que foi o Sol de Primavera, foi a primeira turnê que eu fiz com o Beto que foi inclusive com o grupo Vera Cruz, que era Juarez Moreira, Zé Nami, Mauro Rodrigues eu e Yuri, foi com esse grupo que eu fiz primeira turnê com o Beto.

 

P2- Então você foi do bar para um turnê já?

 

R- É, mas ele já tinha ouvido a fita que eu tinha gravado com o Orli, ele e o Flávio. Parece que o Flávio falou com ele, e ele foi ao bar ver.

 

P1- E o disco Clube da Esquina 1 propriamente dito. Quando você ouviu, qual foi a sua reação?

 

R- Eu vou ser bem sincero com você, foi umas das coisas mais absurdas que eu ouvi, principalmente porque eu sou ritmista, baterista e muito novo naquela época. Você ver uma quantidade de compassos compostos como Asas da Panair, mesmo depois, mas já aquela criação de Robertinho Silva, com Milton, foram eles mesmo que fizeram isso, o Bituca fazia a música, mas quem botava o ritmo era Robertinho Silva, com certeza. Aquilo foi espantoso, bicho, inacreditável! Porque a gente tocava o trivial, baile, mais simples e tal, aí você ouve cinco por quatro, seis por oito e tudo tocado invertido, altamente criativo, é assustador. Aquilo mudou a minha vida como baterista completamente. Eu ouvia muito jazz, samba e bossa nova, quando eu ouvi aquilo eu não acreditei, eu falei “Nossa, isso é diferente de tudo do que eu já tinha ouvido”, para mim foi o máximo.

 

P2-  E você depois disso mudou a sua forma de tocar?

 

R- Mudei bastante. Eu ia aos shows antes mesmo de tocar com o Milton, era fã como sou até hoje, eu ia a tudo quanto era show que ele fazia aqui, com Som Imaginário, eu ia porque eu queria ver como era aquilo de perto, se aquilo era verdade mesmo (risos). E era verdade mesmo.

 

P1- E você chegou a tocar com o Bituca também?

 

R- Toquei com Bituca um tempo bom, a gente gravou um disco com a participação até da Gal Costa, que é aquele disco ao vivo, tinha até um solo de bateria lá. Depois viajei com ele para Cuba, já com o Chico Buarque, e toquei com ele muito tempo junto com o Robertinho. Às vezes o Robertinho não podia ir, eu tocava bateria mesmo, quando o Robertinho ia, eu tocava percussão e alguma coisa de bateria. Era uma escola, estava do lado dos mestres ali (risos).

 

P1- Mas como foi o seu contato para entrar na banda do Milton?

 

R- Tem um caso muito interessante com o Bituca que é o seguinte, eu não tinha tocado com ele ainda, mas ele já me conhecia através do Beto, dessa fita do Fernando Orli e ele me indicou para tocar com a Elis Regina, sem me conhecer. Acabou que quando eu ia tocar com ela, infelizmente ela faleceu. Aí depois passou o tempo, ele tinha me indicado para tocar com a Elis e eu não fui nada e continuei tocando com o Beto. E aí um dia o Robertinho não pode fazer um show que era uma gravação de um especial para Rede Globo, acho que foi o primeiro especial que o Bituca fez para a Rede Globo, era fim de ano, foi gravado numa cidade lotada, um espetáculo. Robertinho não pode e me chamaram para quebrar o galho, eram poucas músicas, eram dez músicas no máximo, não tinha problema e eu fui. Fui só Deus sabe como, eu fui mais por causa do Paulinho Carvalho, que já tocava com ele e foi até ele mesmo que falou, deu até uma força, ele e o Wagner Tiso. Como eu estava entre amigos, então não tremi muito nas bases (risos). Porque, poxa, tocar com Milton Nascimento, um cara que saiu de banda de baile de fundo de garagem, é um negócio meio complicado. Eu que ia ver os shows do cara, comprava os discos, compro até hoje, vou até hoje, gosto muito. Mas aí eu fui, encarei a onça, fizemos um ensaio só que foi à tarde lá em Diamantina mesmo, no hotel, e tocamos. Eu também me dediquei bem, quando eu fiquei sabendo da história, uns dois três dias antes, o Robertinho teve um problema, eu não sei o que houve, por que ele não pode vir, eu peguei os discos e comecei a ouvir aquilo. Eu já ouvia, já sabia mais ou menos, mas me coloquei bem preparado para tocar lá com os caras e deu certo. Dali eu continuei tocando com eles, toda vez que o Robertinho não podia tocar, lá ia eu.

 

P2- Duas coisas, gravação e palco, você tem alguma preferência dentre todo mundo que você já acompanhou?

 

R- Especial?

 

P2- Alguma coisa que te traga uma lembrança mais marcante?

 

R- Sinceramente, do Clube da Esquina eu prefiro todos. Sabe por quê? O que eu aprendi com o Beto Guedes, porque além de ele ser um super músico, compositor etc., fabuloso, um dos maiores que eu conheço, ele é um músico criativo demais. O Beto, por exemplo, senta em uma bateria e toca, então ele me ensinou muita coisa, ele Beto Guedes, sentava e falava “Você tem que fazer assim, assado”. Aí com o Lô eu já aprendi outro tipo de levada, de relação mesmo com a música. Com o Milton já foi outra história e o meu Papá mesmo, chama-se Toninho Horta, foi o cara que realmente falou assim, “Olha, você toca muito bem, você tem talento, mas você tem que botar isso dentro da música, você está jogando nota fora aí”, puxou minha orelha, então o Toninho para mim é um Deus (risos).

 

P1- Você já tocou muito com ele, não é?

 

R- Toco ainda com ele, já viajamos muito pelo mundo afora, inclusive no Japão, Moscou, que é um negócio impressionante, eu não sabia que o nome Clube da Esquina era um negócio tão importante assim, é um absurdo realmente. No Japão você não acredita, não só lá, mas eu não acreditava “Não é possível”. Você chega nas lojas e encontra tudo do Clube da Esquina, começa por aí. Eu devo ter ido ao Japão deve ter uns seis anos e eu recebo cartas das pessoas agradecidas, até hoje. Quer dizer, isso é o Clube da Esquina, isso é o Toninho Horta, Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes.

 

P1- E aí Neném, o que você está achando dessa iniciativa do Clube da Esquina virar um museu?

 

R- Olha, eu acho importante, estou achando fabuloso, é de uma importância fora de série mesmo e eu assim, ser um simples baterista e estar participando de uma entrevista tão bacana, a respeito de uma coisa tão séria que é o museu. Eu acho que a idéia é perfeita, façam esse negócio crescer mesmo, botem pilha mesmo, porque é o nosso troço grande aí. Eu sou assim, agradecidíssimo ao Clube da Esquina de ter tocado com eles e de continuar tocando com eles, com esse povo genial com quem eu aprendi e continuo aprendendo até hoje e a iniciativa é perfeita, estava até demorando (risos).

 

P2- Tem algum caso que você acha importante registrar?

 

R- Pode ser um agradecimento?

 

P2- Pode.

 

R- Eu gostaria de agradecer do fundo do coração a Deus antes de tudo a oportunidade de ter tocado, trabalhado e participado desse movimento tão fantástico que é o Clube da Esquina, eu quero agradecer a todos eles.

 

P2- Então em nome da Associação dos Amigos do Museu Clube da Esquina eu gostaria de agradecer o seu depoimento.

 

R- Eu é que agradeço.

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