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História

Do Acre aos Aces: as conquistas do Capitão da Seleção

História de: Carlão (Antônio Carlos Aguiar Gouveia)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/02/2009

Sinopse

Infância em Rio Branco, no Acre. Peraltices de crianças em meio a Amazônia. Trajetória de vida ligada ao esporte. Viajou o mundo jogando vôlei. Campeão olímpico. Capitão da seleção brasileira de voleibol. Família, esposa e filhos. Incentivador do esporte que tem o potencial de mudar vidas.

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História completa

P/1 – Então, Carlão, bom dia! 

 

R – Bom dia!

 

P/1 – Pra começar, eu gostaria que você dissesse: o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Antônio Carlos Aguiar Gouveia. Eu nasci em Rio Branco, no Acre, no dia 20 de abril de 1965.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – É José Nelson Gouveia e Maria do Socorro de Almeida Aguiar Gouveia.

 

P/1 – Qual é a atividade dos seus pais, o que eles fazem ou faziam?

 

R – A minha mãe é professora aposentada, né, e meu pai era autônomo, atualmente é aposentado também.

 

P/1 – E o que ele fazia?

 

R – O meu pai gerenciava supermercado, transportadora, enfim, trabalhava basicamente no comércio, né? E também era funcionário do município dentro da profissão de radialista. Não esportivo. Desculpa! É, ele fazia uma... Porque na época, em Rio Branco, a telefonia não era tão adiantada. Então, meu pai trabalhava numa empresa chamada Radional. Toda essa parte de rádio, de transmissão, tudo que chegava de um município pro outro, era ele que coordenava essa empresa. Que depois, com a chegada da..., enfim, da empresa, a atual Embratel, foi que abriu a telefonia no meu estado. Essa empresa, ela foi extinta. 

 

P/1 – Você sabe a origem dos seus pais? 

 

R – A minha mãe nasceu em Feijó, né, que é um município do Acre. E meu pai é de Tarauacá, também é outro município do Acre. E meus avós, Napoleão Perez Gouveia, eles migraram do Nordeste pro Acre, naquela colonização, enfim, há aproximadamente 100 anos atrás. Meu avô morreu com 89, 90 anos. 

 

P/1 – Paterno ou materno?

 

R – Meu avô paterno.

 

P/1 – E dos maternos, você sabe alguma coisa?

 

R – O meu avô materno sei, né? A minha avó Tereza e meu avô Osório também. Meu avô era funcionário do Tribunal de Justiça e minha avó, enfim, era professora e dona de casa porque naqueles tempos áureos tinham-se muitos filhos, né? A minha família é uma família grande. É uma família de sete filhos e meus avós também não eram muito diferentes. Então, a gente sabe que naquela época as coisas eram mais fáceis, se tinha uma quantidade grande de filhos. Então é uma família grande, enfim, pessoas que eu guardo na lembrança com muito carinho. E hoje estão espalhadas pelo Brasil.

 

P/1 – Você, então, tem seis irmãos ou são sete, como é isso?

 

R – São seis irmãos, sete comigo, são três meninas e quatro homens.

 

P/1 – E como é a ordem, os nomes, como é?

 

R – A minha primeira irmã, né, eu vou falar, assim, do mais velho pro mais novo. A Doris é a primeira. A Ester Meire é a segunda, vamos dizer, mais velha. Depois vem meu irmão Junior. Eu, o Carlos Alberto. A Jana, né, é Janaína o nome dela. E o André, que é o mais novo, seria o caçula. Então, assim, cada um hoje mora numa região diferente. Meu irmão continua morando na Amazônia, o Junior, ele é piloto de avião. Minha irmã, mora em Campinas, São Paulo. A Ester Meire é professora em Santa Catarina, da Unisul. E o meu outro irmão resolveu ser padre e foi pra Belo Horizonte, o mais novo. [RISOS] E a menina, atualmente, é jornalista, e mora em Fortaleza. Então, apesar de cada um morar numa região, a gente tem laços bem juntos, a gente está sempre se falando, né, de alguma forma, a gente sempre se reúne todos os anos. Se não é em Santa Catarina, é em São Paulo, é em Fortaleza, onde os meus pais moram atualmente, enfim, o que a gente nunca conseguiu foi se reunir em Rio Branco novamente. [RISOS]

 

P/1 – Agora, vamos falar um pouquinho da sua infância. Então, o que você falou dos seus irmãos, você se lembra da sua casa, da rua onde você morava, do bairro, como era isso?

 

R – Ah, lembro de tudo, né? Acho que, assim, principalmente, porque foi uma infância maravilhosa. Eu tenho muito orgulho, né, de ter nascido na região da Amazônia. E, principalmente, de ter tido uma infância de uma criança. Hoje, a gente mora nas grandes cidades e até mesmo pela violência, enfim, pelos cuidados que os pais têm que ter. Eu tive muita liberdade, eu joguei muita bola, eu soltei muita pipa, né, a gente tinha uma turma na Marechal Deodoro, que foi a rua onde eu nasci e vivi até os 17 anos, até sair de Rio Branco pra estudar em Fortaleza. E tínhamos uma turma grande. Eu morava no bairro Ipase, em Rio Branco. E foi uma infância maravilhosa. Eu tive a oportunidade de formar todo o meu caráter lá e, inclusive, eu acho que o esporte na minha vida começou em Rio Branco porque eu, enfim, sempre amei esporte, sempre pratiquei muito esporte nas escolas onde eu estudava. Cheguei a estudar numa escola pública lá, que era...era o Colégio Dutra, mas se eu me recordo, e depois estudei num colégio de padre por algum tempo e a gente praticava muito esporte. Então...

 

P/1 – A gente já vai chegar no esporte, deixa só eu matar uma curiosidade. [interrupção na entrevista] Carlão, deixa eu voltar um pouco na sua casa, você consegue descrever a sua casa, por que eram sete filhos, né? é muita gente, como é que era isso, quantos quartos, tinha quintal?

 

R – Tinha, tinha! A gente morava numa casa, ali, no Ipase, na Marechal Deodoro que, inclusive, ficava perto do Estádio José de Melo, né, estádio de futebol, e a gente tinha uma... Eu dormia, era um quarto, assim, que eu me recordo, dormiam as minhas duas irmãs mais velhas juntas, eu e o meu irmão mais novo, que na época ainda estávamos só em cinco, que eram as minhas duas irmãs e meus três...o Junior, Carlos Alberto e eu, né? Então, dormiam a Meire e a Dora juntas, eu e o Carlos Alberto, e o Junior tinha um quarto sozinho, né, porque, vamos dizer assim, era o mais esquentado, então, o meu pai sempre procurava dar um espaço reservado pra ele. E a gente morava numa casa onde tinha um quintal grande. Eu lembro. Tinha tudo, várias frutas no quintal: era coqueiro, jaqueira, cajueiro, bem aquela coisa de interior mesmo, né? E em Rio Branco todo mundo conhecia todo mundo, né? Então, tinham todos os meus amigos, era um quintal ligado ao outro. A gente estava sempre pulando a cerca, brincando e era muito divertido. E meu pai procurava dentro dessa família grande...que meu pai sempre trabalhou muito, sempre foi um cara que, apesar de presente, sempre esteve muito fora. Às vezes, viajava pra São Paulo, ficava dois, três meses fora, eu me recordo disso, é uma coisa que ficou marcada pra mim porque eu sentia muita falta. E a gente conviveu muito bem ali, em família. A própria família da minha mãe também era uma família grande e, assim, é super interessante. Eu sinto muita falta daqueles tempos porque eram tempos que eu estava com a minha família o tempo inteiro, né, as pessoas que realmente conviveram comigo muito tempo. Apesar de eu já ter filhos hoje, e também meus irmãos, a gente sente saudade. E toda vez que a gente se encontra, a gente recorda das peraltices, das molecagens que a gente fazia lá. [RISOS]

 

P/1 – Você se lembra das brincadeiras, peraltices?

 

R – Bastante, bastante, né? A gente aprontava pra caramba porque tinha uma turma grande no bairro. Ah, eu lembro aqui de uma: Sábado de Aleluia, a gente resolveu juntar o grupo todo. E todo mundo sabe que no interior, a gente tinha aquele costume que você roubava galinha do vizinho, preparava e convidava o vizinho pra comer, né? Aí, a gente juntou uma turma grande, pô, exagerou um pouquinho na conta. Acabamos, pegando, sei lá, umas cinco, seis galinhas do vizinho e deu pouco, uma confusão e, eu lembro, que no dia seguinte, a minha mãe fez a gente colocar tudo dentro de um saco, eu e meu irmão, e devolver, né? Foi, assim, uma coisa meio confusa até porque ela fez questão porque a gente sempre reunia a turma num certo local. Fez questão que a gente passasse lá e todo mundo viu. E a coisa até acabou se tornando uma brincadeira e a gente deu bastante risada. Então, eram coisas, assim, de interior mesmo, de cidade pequena, que trazem grandes recordações, né? A gente aprontava bastante. Fazíamos uns torneios de futebol contra os bairros e era uma coisa muito divertida. Muito divertida, bem diferente de uma cidade grande, né, como: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, enfim, era uma vida onde você estudava, convivia com os teus amigos e, principalmente, com a família, né, porque depois que meu avô morreu é que a gente se separou. Não se separou, mas a gente perdeu um pouquinho aquela... Que sempre tinha um jantar, todo ano tinha um almoço, enfim, reunia a família toda. Então, foram momentos maravilhosos na minha vida! 

 

P/1 – Você estava começando a falar da região amazônica, né, uma criança que mora lá. O que tem de diferente, você lembrando hoje, que agora você já andou o Brasil inteiro, um monte de cantos e, você lembrando de você lá, naquele local, o que tinha de particular lá?

 

R – Ah, até nessa loucura de mundo, de viajar pra caramba, né, toda vez que eu estou precisando me revigorar, sentir um pouco de energia, eu volto pro meu estado, porque eu acho que nada é melhor do que as raízes, de onde você veio. E eu acho que principalmente o que tinha de bacana, na minha opinião, era a inocência da própria floresta da Amazônia, da gente tomar banho de rio, a gente pescar em açude. Eu lembro, saíamos descalços, pegava e...chegava em casa e tomava umas porradas do meu pai, mas estava tudo bem, né? Tomava banho de chuva, jogar bola na chuva. Então, tinha isso tudo, né, que era muito legal. Como eu te falei, como todo mundo se conhecia, os pais, as famílias de alguma forma, a gente tinha sempre uma guarita. Então, é uma época que eu lembro, assim, contando uma outra peraltice aí, né? Meu pai comprou uma espingardinha de chumbo e logo no primeiro dia, pô, a gente inventou de dar uns tiros, também, na galinha dos vizinhos, lá, né, pra [RISOS]. Então, essas coisas que aconteciam na cidade pequena, né, então, que eram relevadas porque no outro dia você resolvia porque éramos todos amigos. Não tinha violência, assalto, nada, e era uma vida muito legal. A gente se reunia, arraial. Ah, tinha um pouco de tudo. Assim, tudo que acontece no interior, a gente tinha, eu tive na minha infância. Eu tive a possibilidade de estudar em vários horários, né, eu passava o dia inteiro no colégio, e isso me dava um prazer muito grande. Eu ia de manhã pro colégio e só voltava à noite. Então, eu acho que isso tudo faz parte da região amazônica. E hoje cresceu, obviamente, né? O próprio estado, Rio Branco, cresceu muito, mas continua aquela cidade, assim, bem... Quando eu volto lá, eu tenho voltado várias vezes lá, mas continua aquela mesma cidade, com cara de cidade pequena, aconchegante, uma cidade bonita, muito bem cuidada que as pessoas têm um carinho muito grande, né?

 

P/1 – Tinha alguma festa tradicional que você se lembre?

 

R – Ah, principalmente as festas de São João eram tradicionalíssimas, né? Assim, tinham nos colégios, nos bailes. Eu lembro, a gente fazia fogueira, assar milho, comer canjica, enfim, a gente também, é... Pô, eu ia passar... A gente fazia as festas na fazenda... porque o meu pai tinha uma fazenda lá, quando a gente morava em Rio Branco. Então, quando entrava de férias, passava meses lá. Então, tinha toda, assim... meu pai também tinha uma educação muito rígida, né? Então, aconteceu tudo da maneira como tinha que acontecer.   

 

P/1 – Que lembranças você tem da fazenda, como era, tinha animais?

 

R – Tinha! O papai tinha uma fazenda, a gente criava gado, né? Tínhamos ali em torno de...entre 70, 100 cabeças de gado. E a gente sempre criava galinha, enfim, a gente ia pegar leite lá sempre. O meu pai saía de manhã cedinho, a gente tinha uma Kombi, né, logo que foi lançada, então, eu ia com os meus irmãos, o meu pai, a gente sempre ia na fazenda de manhã pegar leite. Ficava, mais ou menos, uns 50 quilômetros, que, na época, 50 quilômetros eram distantes pra caramba, né? Então, todos os dias a gente fazia, a gente pegava o leite, o meu pai levava pro seu Raimundo, que era o padeiro, vamos dizer assim, era o padeiro que todo mundo frequentava na cidade e a gente vendia o leite pra ele. Naquela época, ainda não tinham aquelas indústrias que beneficiavam o leite. Então, meu pai... a gente tinha essa vida, né, saía de manhã cedinho, ia lá, pegava o leite, levava pro seu Raimundo. E na época do carnaval, a gente, assim, 14 anos, entre 14 e 15 anos, meu pai nunca gostou muito disso porque, também, o carnaval sempre foi uma festa tradicional em Rio Branco, principalmente nos clubes, a matinê, o carnaval à noite e que era muito bacana também. Era só família. E o meu pai resolvia, às vezes, que a gente tinha que ficar lá um mês, acabava o período das aulas e a gente ia, levava os amigos. Tinha um açude grande. Então, a gente brincava, andava a cavalo, tirava leite de manhã do gado. Então, a gente fazia essas pequenas coisas, né, que são coisas importantes. E realmente, eu sinto falta um pouquinho disso porque hoje eu tenho uma vida muito atribulada.     

 

P/1 – Como é que foi a sua entrada na escola, você se lembra da primeira escola?

 

R – Eu lembro, assim, quando a minha mãe me levou pro jardim de infância, né, que ficava na Marechal Deodoro, eu estudei nesse jardim de infância, que chamava Escola Jardim de Infância. Era eu e o meu irmão. E na época, uma das coisas que eu me recordo, era, principalmente, que eu era muito maior que todos, né, eu sempre fui grandão. É, eu tive um problema, assim, mais uma das coisas que ficam guardadas, mas são esquisitas, né? Eu lembro que meu pai gostava de cortar o nosso cabelo militar, né, e eu nunca gostei. Militar, você dá aquele talho aqui e fica só o... Eu lembro que no primeiro dia de aula, ele resolveu cortar o cabelo assim e eu não queria ir de jeito nenhum, que eu chorava pra caramba, né, porque... Ah, pra não ser gozado pela meninada, né, que eu era muito grande e tudo. E minha mãe também dava aula nesse jardim, minha mãe dava aula no jardim de infância e eu... Essa foi a minha primeira escola e logo depois eu fui pro Colégio Acreano, que ficava um pouco atrás. Que eu estudei por muitos anos lá também.  

 

P/1 – Até que série, mais ou menos?

 

R – Ah, eu fui no Colégio Acreano até a quinta série, depois é que eu mudei pro colégio de padre.

 

P/1 – Foi também em Rio Branco?

 

R – Também em Rio Branco. Ficava tudo, mais ou menos, perto, né, no mesmo bairro. Aí, nesse colégio de padre, eu estudei até...estudei da sexta até a oitava série. Depois, eu fui pra Fortaleza pra fazer o segundo grau lá.

 

P/1 – Antes da gente ir pra Fortaleza, você se lembra, tem alguma recordação marcante dessa época de escola, um professor ou uma professora que tenha te marcado bastante?

 

R – Ah, tive várias pessoas, assim, que me marcaram, né? Tinha o professor Moacir que era o professor de português, era um cara, pô, super extrovertido, que marcava todas as viagens. Eu lembro muito porque ele foi, por incrível que pareça, acho que, na época, com 15, 16 anos, eu não me recordo muito, foi onde eu fiz a minha primeira viagem, que a gente foi de ônibus, fez uma excursão, né? E eu lembro muito dele porque ele era um cara muito bacana. Estava sempre ajudando a gente, marcava as aulas pra fazer reforço no sábado, apesar de ser professor de português, ele ajudava a gente em tudo. É um professor que eu me recordo com muito carinho dele, né? E até outras vezes que eu fui, agora, eu tive a oportunidade de encontrá-lo novamente. Então, foi um professor que eu tenho uma recordação de muito carinho dele porque era um agregador, era um cara que estava sempre jogando a gente pra cima, estimulava a gente como aluno, né, pra que a gente tivesse um conhecimento bacana, nos ajudava em pesquisas, reunião de grupos. É um cara que eu tenho recordação dele, assim, de bastante amizade.  

 

P/1 – E essa viagem que você falou que fez?

 

R – A gente foi numa viagem pra Sena Madureira que é, também, um município perto de Rio Branco. Foi a primeira viagem na escola que eu fiz. Foi a primeira vez que eu dormi fora de casa. Então, tudo, assim, foi aquele clima bacana e a minha primeira experiência de ficar, sair todo mundo, dormir num município. Sair da minha cidade, né, que eu nunca tinha saído pra nada. O máximo que eu tinha ido era até a fazenda do meu pai. E foi muito legal porque ali eu comecei já a dar os meus primeiros passos de sair de casa, de ficar dois, três dias fora. Eu lembro que a gente foi pra uma festa, algum tipo de festa que teve, que agora eu não estou me recordando, mas foi uma excursão muito proveitosa, de estudo também, né? Eu lembro que foi o professor Moacir que fez essa excursão pra que a gente conhecesse também um pouquinho da história do Acre. E a gente fez várias depois de Sena Madureira, a gente chegou a ir pra Brasiléia, enfim, quando se faz fronteira, nós fizemos fronteira com o Peru e Bolívia. Então, eu tive a oportunidade de ir na Bolívia. Foi a minha primeira viagem internacional. [RISOS]

 

P/1 – E o que você achou? Você chegou a conversar com os bolivianos, como é que foi esse encontro?

 

R – Assim, nessa época que eu fui pra Bolívia... foi pra Cobija, a gente foi também jogar, né? Que eu jogava futebol.

 

P/1 – E como é que começou esse negócio de futebol?

 

R – O futebol é que tinha um amigo meu, que era o Paulo, né, o Paulinho era jogador do Rio Branco. Eu sou torcedor do Rio Branco que é uma das equipes que tem lá e eu morava do lado do estádio, então, a gente estava sempre pulando o muro, né? Eu saía da minha casa, atravessava, passava o quintal, atravessava a rua, passava o quintal do vizinho, do outro lado, e tinha um muro e a gente pulava, chamava Estádio José de Melo. Então, a gente ia assistir os jogos, pô, a gente ia jogar bola, ia brincar. E eu, nessa frequência de estar sempre ali com os meus amigos, né, eu comecei a jogar. O goleiro do Rio Branco, na época, o Limani que era o técnico do infantil. E aí a gente, até como estava sempre ali, era amigo dele. Ele começou a chamar a gente, reunir, vamos dizer, o que hoje se chamaria de uma escolinha organizada, né? Ele começou aos poucos montando a equipe infantil do Rio Branco. E eu era goleiro. Treinei pra caramba, né, que essa profissão é meio de maluco também. Goleiro é o que mais treina e o que mais sofre. [RISOS] E quando toma um frango, né? Eu fiquei ali por três anos, fui campeão infantil. Ali foram, assim, os meus primeiros passos dentro do esporte, de começar a treinar, ter que ir cedo, ter horário, participar de competições. E essa viagem pra Bolívia foi exatamente uma...foi um intercâmbio que a gente fez pra jogar com a seleção boliviana. E foi muito bacana!

 

P/1 – Como é que foi o jogo?

 

R – A gente ganhou! Eu lembro que a gente ganhou. Eu lembro que o jogo foi à noite, né, aí, deu um problema na iluminação no primeiro tempo. A gente estava ganhando, deu um problema na iluminação e o jogo continuou no outro dia, a gente foi jogar o outro tempo. Eu lembro que a gente ganhou. O placar que eu não sei se foi dois a zero, dois a um. Enfim, eu joguei bem pra caramba e o pessoal falava, e tal, que eu tinha futuro, que eu ia ser um goleiro bom pra caramba. Então, assim, eu estava sempre, de alguma maneira, dentro do esporte, né? E esse início pra mim foi super importante, principalmente, porque também peguei um cara muito disciplinado, que era o Limani. E ali, ele já começou a impor as dificuldades que eram realmente de você ser um atleta, de ter que treinar bastante, acordar cedo, se cuidar, estar, de alguma forma, sempre... Mas eu sempre estive envolvido no esporte e, sem dúvida nenhuma, esse início pra mim foi muito importante.

 

P/1 – Isso em Rio Branco ainda?

 

R – Em Rio Branco, tudo em Rio Branco!

 

P/1 – Por que depois você mudou de escola, né?

 

R – É, depois minha irmã... eu tinha uma irmã que estudava em Fortaleza, né? E meu pai, a gente já vinha conversando, ele queria que, de repente, eu tivesse a oportunidade de fazer uma faculdade fora. E ele já vinha pensando porque tinha um irmão meu, o Andre, o mais novo, que fazia um tratamento em Fortaleza, ele tinha uns problemas de saúde e ele tinha que ir pra Fortaleza todo ano. Meu pai começou a ventilar a possibilidade de morar uma época em Fortaleza, exatamente por causa do meu irmão André, né? E aí, na realidade, eu fui na frente pra Fortaleza, morar com a minha irmã e estudar. 

 

P/1 – Uma cidade diferente, não é?

 

R – Totalmente! Foi a primeira vez que eu vi o mar, né? [RISOS]

 

P/1 – Como que foi isso?

 

R – Ah, foi muito engraçado, mas foi uma coisa, assim, diferente, né, porque... E, também, a primeira vez que eu entrei num avião. Que eu fui pra Manaus, dormi em Manaus, na casa de uns tios meus, e depois fui pra Fortaleza. Eu lembro, na época, o avião saía, se não me engano era: Rio Branco, Manaus, não sei se de Teresina à Fortaleza.  

 

P/1 – É, não é qualquer percurso. E o medo?

 

R – Não! Era longe! Longe pra caramba! Eu com medo porque eu nunca tinha entrado num avião, né? Foi a minha primeira experiência. Mal sabia eu que iria passar uma boa parte da minha vida viajando o tempo inteiro, né? E, assim, foi uma experiência muito bacana. Apesar de Fortaleza ser pequena, naquela época, era uma cidade, com certeza, considerada grande, né, comparada com Rio Branco. Então, eu lembro, eu cheguei à tarde, a minha irmã resolveu me levar pra ver o mar e a gente foi na praia de Iracema. Eu lembro que a gente saiu, a gente atravessou a avenida, aí chegou. Quando eu vi aquela coisa, assim, pô, aquela imensidão, né? Eu nunca tinha...só pela televisão, eu tinha visto o mar, né? Então, foi uma visão maravilhosa pra mim, eu estava com 17 anos na época e foi espetacular. Na primeira chegada, ela fez questão, a primeira coisa, me levar pra ver o mar que eu nunca tinha visto. 

 

P/1 – E você começou a estudar lá, como é que foi isso?

 

R – Eu comecei a estudar no Farias Brito, né? Realmente, a minha intenção era ir pra Fortaleza estudar e fazer uma faculdade, que não tinha na época, eu queria fazer Processamento de Dados e não tinha em Rio Branco.

 

P/1 – De onde veio a ideia de Processamento de Dados?

 

R – Porque eu sempre gostei, né? E começava muito a se falar em Internet, não sei o que, e aí, eu fui pra Fortaleza e comecei a fazer uns cursos com uns amigos lá, na época, de Basic, ainda tinha Basic I, Basic II, no Fortran, vamos dizer, que é a linguagem de computador. E tinha um amigo meu que era muito fera nisso e começou a incentivar a gente, eu realmente não tinha muitas amizades em Fortaleza e comecei a andar com essas pessoas, né, enfim...

 

P/1 – Você terminou o colégio e, depois, fez um curso técnico?

 

R – Não, eu fiz todo o primeiro ano. O segundo e terceiro ano no Farias Brito.  

 

P/1 – Que era normal, colégio normal?

 

R – Normal, o colégio normal, né? E, depois, fiz a faculdade. Eu só parei...passei no vestibular e foi, exatamente, a época que eu fui convocado pra Seleção Juvenil. Eu já jogava em Fortaleza, na realidade, eu treinava duas vezes por semana. Era uma coisa, assim, meio amadora.

 

P/1 – Mas como é que foi, você chegou em Fortaleza e como é que foi esse contato pra jogar?

 

R – O contato foi no próprio colégio, né? Na realidade, eu comecei jogando basquete antes e um professor chamado Vicente que era do vôlei...que as duas quadras, treinava uma aqui de basquete e a de vôlei aqui, porque lá você tinha os jogos escolares intercolegiais, que jogava um colégio contra o outro, né? E isso sempre foi muito forte em Fortaleza, inclusive, eles davam bolsa pros alunos. Pegavam um aluno de outro colégio, né, tinha, assim, meio que uma negociação pra você ganhar essas copas, que eles chamavam de copas. Tinha a Copa Ari de Sá, a Copa Farias Brito, a Copa Anchieta, que são os colégios que têm lá. Então, eram todos, era tanto particular como público que se misturavam nessa competição, e era uma coisa muito bacana. Aí, ele me chamou pra jogar vôlei. Até então, eu não tinha contato nenhum, né? E na época, você podia bloquear, então, eu era o maior, vamos dizer assim, da turma e ele começou a me chamar. E o professor de basquete não tinha mais bolsa pra me dar. Mas também, eu estava ali treinando, jogando porque gostava e ele me chamou: “Pô, menino, você nunca jogou vôlei?”. Eu falei: “Não, não tive esse contato” “Quer experimentar treinar um dia comigo?”. Porque os treinos eram em dias diferentes, né? Aí, eu comecei a treinar basquete e vôlei e, apesar de ter uns amigos bacanas que treinavam basquete, eu comecei a praticar o vôlei. O Vicente sempre foi um cara muito legal e, assim, lá para um mês de treinamento, eu fiz algumas competições, que eu também só sabia bloquear o saque do adversário, que eu era muito grande. E ele começou a gostar de mim. Eu comecei a me enturmar com o pessoal de voleibol, onde me levaram pra jogar, né? Ele começou, perguntou: se eu não queria jogar, se eu não queria ir para um clube e me levou, na época, pro Clube Círculo Militar. Foi o primeiro clube que ele me levou. Assim, eu não sabia de nada, era totalmente desengonçado. Aí, eu fiz dois, três treinos lá. Sempre, pra variar, muito alto e o técnico, na época, o Sandi, no fim me dispensou. Ele disse que eu era muito desengonçado, que eu não... É outra história bem interessante que acontece com várias pessoas, enfim, em várias profissões, né, quando você tenta a primeira vez é dispensado. Ele me dispensou e tudo. O Vicente pegou e me levou pro Náutico, que é um clube, lá, que tem, o Náutico Atlético Cearense. E eu comecei a treinar com o José Raimundo, que foi o meu técnico, vamos dizer assim, o técnico que me introduziu dentro do voleibol mais a nível nacional. E ele era o técnico da Seleção Estudantil, que ia pra JEBs [Jogos Estudantis Brasileiros], jogos escolares. E dali eu comecei toda a minha carreira, toda a minha iniciação dentro do esporte, que eu, assim... eu sempre faço essa conexão, né? Apesar de eu não ter sido um profissional lá em Rio Branco, mas tudo que eu aprendi de iniciação dentro do esporte aconteceu em Rio Branco. O voleibol foi só um esporte que eu escolhi porque eu já pratiquei vários. Foi o que eu me identifiquei e onde eu consegui me destacar e ter um grande sucesso, né? E Fortaleza, quando eu fui convocado pra Seleção Estudantil, a gente foi campeão do JEBs em Brasília. Foi quando eu recebi a minha primeira convocação pra Seleção Juvenil e comecei a ter que optar. Eu tive que trancar a minha faculdade, saber se eu queria ir, aquela discussão em família, a minha mãe foi contra, né, meu pai ficou meio em cima do muro, não sabia, enfim, aí eu tranquei a minha faculdade, acabei indo pra seleção. Eu fiquei oito meses e nesse espaço de tempo, também, aconteceram algumas coisinhas assim, né? Tem até uma historinha interessante que eu gosto de contar, que foi uma coisa que aconteceu em Fortaleza. Quando eu fui convocado, o meu nome é Antônio Carlos, né, e o presidente da Federação Cearense, na época, mandou uma outra pessoa no meu lugar.

 

P/1 – Por causa do nome?

 

R – Não! Ele sabia, mas ele mandou o outro. [RISOS] O meu nome é Antônio Carlos Gouveia, o nome da pessoa era Antônio Carlos sei lá o que, só, que como eu já tinha participado desses torneios: JEBs, e não sei o que, tinham umas pessoas que me conheciam, outros juvenis do Brasil, enfim, até o cara que hoje continua sendo um grande amigo meu, que é o Luiz Alexandre que jogou comigo depois na seleção. Enfim, ele mandou essa pessoa no meu lugar. E eu fui descobrir isso, acho que umas duas semanas depois, porque um amigo meu, que trabalhava também na federação, viu o fax e viu o meu nome. E na época, eu lembro, eu fui até no presidente do clube, conversamos, essa pessoa me levou. Eu era jovem ainda e liguei, na época, pro Técnico José Carlos Brunoro e ele me falou: “Não, não! A gente convocou você, achamos até esquisito que veio uma outra pessoa”. Que o cara era baixinho, um cara de um 1 metro e 98 pra um que tinha 1 metro e 60 e poucos, é uma coisa, entendeu, que não tinha nada a ver! E os meus amigos davam risada pra caramba, que já me conheciam, né? Então, eu lembro... eu fiquei, o Brunoro: “Não! Então, vem pra cá. Pô, vamos iniciar o treinamento, pápápá, que o pessoal fala muito bem de você”. E aí foi, né, eu fiquei quatro meses com a Seleção Juvenil em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro e depois, aqui em São Paulo treinando no DEF Água Branca. Eu fiquei quatro meses em Jacarepaguá e quatro meses aqui em São Paulo. E já iniciando. E, pô, um cara assim, eu nem esperava, foi uma coisa muito rápida. Eu já comecei a morar sozinho, viajar e comecei a minha experiência de vida, que pra um garoto que tinha vindo lá de Rio Branco, poxa, é assim, né... 

 

P/1 – É muito rápido, né?

 

R – É uma coisa, assim, muito acelerada, né? Eu não estava muito preparado pra isso até porque eu tinha aquela vida, assim, eu era muito família. Eu era um cara muito simples. Eu sempre fui muito extrovertido, então, eu tive que começar a lidar com uma série de situações, conhecer outras regiões, o mundo começou a se abrir pra mim. E foi, de alguma forma, também interessante, porque a minha vida... O esporte mudou a minha vida, mudou a minha vida em vários sentidos, né, principalmente me dando a oportunidade de conhecer o Brasil inteiro, conhecer o mundo inteiro. E realmente, ter uma visão de Brasil de uma pessoa que nasceu na Amazônia e depois foi morar, morou no Centro-Oeste, morou no Sul, morou no Sudeste. Eu acho que você se confrontar com todas essas culturas, todas essas,  vamos dizer assim, vivências, pessoas diferentes, culturas diferentes, maneiras diferentes de viver, e você ter que ir se adaptando porque, na realidade, eu saí de Fortaleza e, primeiro, fui morar em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul.

 

P/1 – Qual foi o primeiro impacto ali, o que mais que te chamou a atenção?

 

R –O que mais me chamou a atenção foi o calor lá [RISOS] que era muito grande. E assim, comecei a conviver: primeiro, fui morar numa casa que tinham 13 pessoas. A gente morava, tipo, quase numa república. Isso também é uma coisa que nunca tinha acontecido comigo, né? E ali, eu comecei. De Campo Grande fui pra Belo Horizonte, de Belo Horizonte vim pra São Paulo, de São Paulo eu fui pra Itália, né, depois fui pra Novo Hamburgo. Aí, eu rodei o Brasil inteiro, praticando esporte.  

 

P/1 – Mas você se lembra qual foi a primeira sensação quando você começou a jogar? Voltando à sua entrada na seleção, você se lembra qual foi a sua sensação quando você foi convocado, porque não era qualquer coisa, né? 

 

R – Não! Eu me recordo, assim, a Seleção Juvenil, a gente jogou um torneio em Maceió, a gente foi campeão, se não me engano, foi na segunda divisão do brasileiro, eu joguei pelo Ceará. O pessoal chegou depois do campeonato, né, eu fui escolhido o melhor jogador do campeonato e tinha um olheiro da CBV que é a Confederação Brasileira de Vôlei, estava lá vendo o campeonato. Eu lembro que neste torneio foram convocados dois jogadores pra Seleção Juvenil. Foi a minha primeira convocação, eu lembro, que eu fiquei super nervoso, exatamente por isso, porque na programação tinha que ficar oito meses concentrado no Rio e eu nunca tinha ido pro Rio. As coisas começaram assim, tudo embolado. Eu vim pra Fortaleza estudar, ficar aqui com a minha irmã, daqui a pouco, um ano depois, um ano e meio depois, já estou tendo que ir pro Rio ficar lá. Quatro meses depois, vim pra São Paulo pra ficar concentrado oito meses treinando. Então, tudo isso fugia um pouquinho do meu campo de planejamento, até mesmo do que eu estava prevendo. Mas foi tudo muito bacana porque a primeira vez é sempre muito emocionante. Mas eu fiquei, de repente, mais ansioso quando eu fui convocado à primeira vez pra Seleção Adulta, que foi um pouco depois. Que as pessoas perguntavam: “Pô, mas você iniciou quando no voleibol?” Primeiro, eu iniciei tarde, com quase 18 anos, né? Eu comecei no finalzinho de 1983 pra 1984. Em 1985, eu já fui convocado pra Seleção Juvenil e em 1986 eu já estava na Seleção Adulta. Então, foi uma coisa, assim... E ali, eu cheguei, eu entrei em 1986 na Seleção Adulta e nunca mais saí.       

 

P/1 – Nossa, e como é que foi isso? Agora dá pra você contar esse pedaço, porque daí, foi uma atrás da outra, né?

 

R – Ah, não! Foi uma história, assim, uma história maravilhosa, né? Que, como eu, outros que conviveram comigo também tiveram essa oportunidade. Eu fui no meu primeiro torneio na França, eu viajei, comecei a fazer umas viagens com a Seleção Juvenil. Eu me recordo, tinha até uma historinha, voltando um pouquinho, assim, antes, porque a primeira vez que eu fui pra Paris foi com a Seleção Juvenil, a gente foi fazer uns amistosos. 

 

P/1 – É a primeira vez que você sai desse continente?

 

R – Aí, eu saí do Brasil, foi a primeira vez. Foi uma viagem pra França, a gente foi fazer um torneio que fazia parte da preparação da Seleção Juvenil. Então, já dessa seleção permanente, vamos dizer assim, que o voleibol já vinha planejando, porque o voleibol é o que é hoje exatamente por esse planejamento que eu fiz parte. Que eu te contei, aqui, de ter ficado oito meses treinando, que nenhum esporte faz isso, por isso que o voleibol chegou aonde ele chegou. Então, eu fui pra França. Lá, eu lembro, tinha um jogo que estava marcado e já estava tudo...chegamos no ginásio um pouquinho antes. O Brunoro falou: “Então, vocês estão liberados um pouquinho, tal. Mas tal hora aqui”. E eu, pô, nunca tinha saído do Brasil, resolvi entrar num shopping lá [RISOS] me deslumbrei, fiquei rodando, quando cheguei o jogo já tinha começado, quer dizer, isso foi uma confusão. Eu lembro que o Brunoro me chamou, me falou um monte, mas com certeza ele entendeu que era a minha primeira viagem, eu não tinha experiência nenhuma. Então, as coisas foram acontecendo assim, de “rodão” pra mim, né? E depois, foi em 1986 que começou a Seleção Adulta e eu também passei por várias gerações. Primeiro, eu iniciei com a geração de Bernard, William, Montanaro, enfim, essa galera toda. Depois, veio a minha geração que foi o Maurício, o Paulão, o Giovane, o Marcelo Negrão, o Tande, enfim. Depois, ainda peguei a geração do Giba, Gustavo, Nalbert, toda essa turma aí. Então, foram anos, assim, maravilhosos dentro do esporte, defendendo a Seleção Brasileira. Uma parceria também espetacular com o Banco do Brasil. 

 

P/1 – Conta um pouco pra gente sobre Barcelona, como é que foi aquilo?

 

R – Barcelona foi um momento, assim, único, né? Um momento ímpar. Porque, primeiro, foi a primeira medalha de esporte coletivo, de um esporte coletivo no Brasil; segundo, porque a gente não era favorito. A gente saiu daqui, o jogador mais experiente era eu, que tinha 25 anos, e nós tínhamos o Marcelo Negrão com 17 anos, assim, a maioria: Tande com 18, 19, uma turma de garotos, né, que a gente saiu daqui, de repente, pra ficar entre os quatro e a gente chegou lá e se deparou... De repente, a gente fez uma primeira fase maravilhosa, a seleção cresceu e a gente chegou com uma grande autoridade, ganhamos. Fizemos uma Olimpíada, onde de seis jogos perdemos apenas três sets, saímos invictos e fizemos uma final ganhando de três a zero da Holanda. Foi um momento maravilhoso. Assim, um momento que é difícil até você descrever, porque, até hoje, quando eu vejo as imagens, quando vejo tudo aquilo ali, eu sempre me emociono porque a gente conseguiu, aquele grupo conseguiu naquele momento ali abdicar de uma série de coisas, de vaidades, de objetivos próprios em prol de uma conquista, em prol de uma coisa que é um resultado que faria um diferencial muito grande nas nossas vidas e também pro voleibol. Porque depois daquele resultado ali, as nossas vidas mudaram. Passou tudo a ser muito mais grandioso, tudo mais...as coisas passaram a acontecer. As cobranças aumentaram, mas, ao mesmo tempo, o reconhecimento do trabalho da gente, tudo aquilo, também, que você sempre busca, porque a Olimpíada é a coisa mais importante para um atleta, né? Tirando o futebol, pra todos os esportes, a competição mais importante é a Olimpíada. Você já estar ali é uma vitória e você conquistar uma medalha e, de ouro, entendeu? Eu acho que é uma coisa excepcional. Eu lembro que a gente chegou aqui no Brasil e os familiares... depois que volta... todo um filme. Poxa, a minha primeira entrevista, eu falei com o pessoal lá no Acre, o meu pai estava lá, eu falei com a minha família também, a minha esposa, os meus filhos, é uma coisa maravilhosa. Eu cheguei aqui... eu lembro que a gente chegou em São Paulo e tinham seis mil pessoas no aeroporto, não deu nem pra gente descer, a gente andou de carro de bombeiro pela 23 de maio, lotado! Onde a gente ia. A gente costuma dizer que: “Era uma loucura!” Quem vê as imagens, quem for buscar um pouquinho as imagens, vê os locais onde a gente ia, que a gente foi em Salvador, depois da conquista, e o pessoal invadiu a pista, as fãs rodearam o avião, foi uma coisa maluca assim. Então, é uma coisa bem maluca, uma coisa de Beatles mesmo, que nem eu, quer dizer, é outra coisa que eu não estava preparado também, porque foi uma invasão total da privacidade da gente. Então, não tinha mais paz, não tinha... E eu que sempre fui um cara tranquilo. É óbvio que você gosta de ser reconhecido, mas não aquela loucura que era, que a gente não podia chegar em lugar nenhum que a meninada estava em cima. E a gente se identificou muito com a garotada porque tinham pessoas jovens. E a maneira como o time jogou, porque o vídeo não mente, ele transparece a alegria que a gente estava jogando, a maneira que era uma coisa muito sensível, muito...  como é que eu vou dizer, muito natural, né, chegava até ser... Por isso que as crianças se identificaram com a gente, porque era uma coisa bem de alegria, sem muita firula, entendeu? A gente conseguiu, até nas entrevistas a gente transparecia isso. E depois chegar à Quito [?] e lembrar de todas aquelas pessoas que fizeram alguma coisa por você, né, que de alguma forma participaram da tua vida. Eu fui no Acre e fiquei lá quatro dias, não consegui dormir de tanto assédio. Desfilei em carro de bombeiro, o estado todo me esperando, passei na frente do meu colégio, porque aí você atravessa a...chega lá no aeroporto, atravessa a ponte, a ponte dá bem de frente do colégio que eu estudei, que era o Meta. Então, todos os alunos me esperando, eu fui lá. Assim, é uma recordação maravilhosa, é muito bacana, você ter a possibilidade de, como atleta, vivenciar um momento desses. E estar ali com os 12 jogadores, a comissão técnica, todo mundo imbuído daquele negócio ali, de colocar o Brasil no lugar mais alto o pódio. É bem emocionante você escutar o hino do teu país numa Olimpíada, eu acho uma coisa espetacular. E eu acho que aquela conquista... Até, ontem eu estava chegando aqui em São Paulo e desci do avião, encontrei um cara e o cara: “Pô, que saudade daquele time, cara! Não sei o que”. E começou a lembrar de todo mundo e falando. Então, e ele falou uma coisa muito engraçada, ele falou: “Pô, Carlão! Você pode ter certeza, que vocês vão ter 150 anos e sempre vamos lembrar daquele resultado, cara, porque foi uma coisa, assim, maravilhosa!”. Então, a gente viu que, mesmo depois de anos, ficou realmente marcado a maneira como a gente conquistou. Hoje, é óbvio, a gente é bicampeão olímpico, já tivemos outra conquista em Atenas, mas essa, com certeza, abriu e, como eu falei aqui, alterou o percurso das nossas vidas, mudou pra melhor, pra muito melhor! 

 

P/1 – Agora, você foi capitão durante dez anos, como é isso, porque não é qualquer coisa, a responsabilidade, como é isso?

 

R – É até estranho porque eu nunca me vi como um capitão. Até, como eu já falei, eu sempre fui uma pessoa muito extrovertida, né? E eu acho que depois que o esporte me abriu pra essas coisas, porque depois eu tive que dar entrevistas, eu tive que me comunicar, você tem reuniões em grupo, você tem que expor as suas opiniões, e eu fui escolhido, ali, num momento bem complicado, que foi a saída da geração de prata, que foi um pouco confusa. Nós estávamos em Teresópolis e o pessoal resolveu não ficar mais na seleção, teve uma reunião, na época o técnico era o Bebeto de Freitas e, enfim, dessa reunião ficamos em Teresópolis, lá na Granja Comary. Pampa, eu, Maraca e Paulão, só, o restante do time inteiro desceu, não queria mais defender a seleção. A gente desceu, foi na sauna, tomar uma sauna com o Bebeto e: “Pô, o que a gente vai fazer? Como a gente vai fazer?”. E eles resolveram convocar a Seleção Juvenil. Veio o Maurício, o Marcelo Negrão, o Tande, Giovane e mais outras pessoas, o Betinho, enfim, Renato, pra jogar o Sul-Americano, que faltavam 15 dias. Aí, na sauna, batendo um papo e pápápá, conversando, o Bebeto falou: “Oh, vamos escolher aqui um de vocês quatro. Eu vou escolher o capitão, tá? E a gente estava pensando: pelas características, maneiras, por comportamento, pápápá, resolvi escolher o Carlão, né?”. Então, eu tomei até um susto. Eu falei: “Ah, tudo bem! Pra mim [RISOS] não tem problema”. Aí, ali eu comecei, né? Assim, porque eu sempre fui...eu acho que esse...a liderança pra mim, existem várias maneiras de você liderar como capitão, né? Existem várias lideranças dentro de uma equipe. Mas eu, como capitão da equipe, sempre procurei dar o exemplo. No sentido de você se sacrificar pela equipe. Eu já joguei em várias posições, inclusive posições que não eram minhas, que eu não rendia o que poderia render como atleta, como jogador. Mas no momento, a seleção estava com problema, até o próprio clube. Eu aceitava a alteração tranquilamente até porque eu sempre fui, vamos dizer assim, um jogador bom. O Bebeto sempre me usou como um coringa. Às vezes eu jogava na saída, outra no meio, na ponta, né, e isso foi muito importante pra mim, porque mesmo, às vezes, eu não conseguindo render o que eu podia render, eu acho que eu tinha na segurança do grupo um cara que estava sempre disposto a se sacrificar, né? Qualquer coisa que acontecia, eu era sempre o primeiro a estar à frente, eu sempre brigava pelo grupo. Dificilmente você ia me ver na quadra brigando com o meu companheiro, eu estava sempre brigando com o adversário, eu sempre fui um adversário muito difícil de jogar contra, assim, um cara. Eu acho que quem jogou contra mim, a maneira como eu jogava, entendeu? Não era nada, assim, porque pra mim, quando eu entrava na quadra, eu me transformava, pra mim aquilo ali era uma... Não que você tinha que ganhar de qualquer maneira, né? Mas eu ia fazer tudo pra sair com a vitória. E nesses 16 anos que eu fiquei na seleção, dez anos como capitão, foi uma experiência também espetacular pra mim. Porque, como eu falei, eu passei em três gerações, né, e eu aprendi muito como pessoa, porque é muito difícil você trabalhar em equipe, né? É muito difícil você conseguir fazer com que as pessoas sigam o mesmo objetivo, tenham os mesmos objetivos, abdiquem de algumas coisas em prol de outras. Então, eu acho que você só consegue construir um grupo vitorioso quando você consegue realmente, como capitão, como líder, escutar e se fazer escutar, e conhecer as peças do grupo, conhecer as pessoas, como elas funcionam, de alguma maneira, é sempre procurar estar sempre disposto a ajudar, eu acho que você é o representante técnico dentro da quadra. Então, por onde eu passei, todos os clubes que eu joguei, eu acho que uma coisa que sempre foi determinante na minha carreira foi a garra, a disposição, a superação, até tive vários momentos, um dos momentos mais marcantes na minha vida, é óbvio que a Olimpíada foi um deles, né, o primeiro. Mas de superação foi quando eu joguei com a Frangosul. Eu jogava na Frangosul, que era o time do Rio Grande do Sul, em Novo Hamburgo, que eu morava, e aí a gente ganhou uma final, de Suzano. Eu estava com o pé quebrado e eu não sabia. Eu achei que tinha torcido o pé, enfim, eu lembro que, depois desse campeonato, eu fiquei 80 dias com gesso. Então, pra mim foi, assim, o ápice da minha superação, a superação de um atleta, de uma pessoa, e de querer estar ali naquele momento, de querer, de alguma forma, ajudar a equipe, né? Então, isso ficou muito marcado na minha carreira. 

 

P/1 – Isso foi quando, em que ano? 

 

R – Isso foi em 1995 quando eu voltei da Itália. O meu primeiro ano que eu joguei aqui, na Superliga, foi a primeira Superliga. Que antes era Campeonato Brasileiro, depois, passou a ser Superliga. Em 1995, eu joguei pela Frangosul Ginástica, que era a equipe de Novo Hamburgo, e a gente foi campeão, ganhamos aqui de Suzano na final. E eu, no primeiro set, torci o pé, achei que tinha torcido e tinha quebrado o pé, e eu enfaixei o pé, tomei um anti-inflamatório e joguei os três sets. A gente ganhou de três a zero, eu só saí no finalzinho do terceiro set, que eu não estava mais conseguindo pisar. E a gente foi campeão, né? E ficou muito marcado isso pra mim e na minha carreira e, sem dúvida nenhuma, toda a minha história dentro da seleção.    

 

P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho. Como é que foi essa sua ida pra Itália? Porque foi uma coisa também inusitada ali no momento, não?

 

R – Eu acho que da Itália, pra mim, já foi um desejo que eu tinha. Eu estive na Itália jogando no Campeonato Mundial Juvenil, e eu tive a possibilidade de assistir algumas partidas do campeonato lá. E desde que eu fui pra esse campeonato, eu vinha sonhando em ir pra Itália. Então, depois eu passei pelo Minas, primeiro, aí joguei mais dois anos na Pirelli e dali eu já comecei meio que planejar ter a possibilidade, porque lá, vamos dizer assim, você tem um campeonato muito forte. E é uma experiência de vida maravilhosa, de você ter a oportunidade de morar fora do teu país, uma outra cultura, né? E pra mim foram anos, assim, também...

 

P/1 – Quanto tempo que você ficou lá? 

 

R – Eu fiquei cinco anos lá. Foram anos, cinco anos excepcionais, onde eu cresci muito como profissional, né? As cobranças lá são muito grandes, pra que você realmente consiga render dentro daquilo que eles esperam de um estrangeiro. E eu, apesar de ter passado momentos de adaptação difíceis na Itália, principalmente, com a língua, inicialmente, depois foi tudo mais tranquilo, né? Eu tive a oportunidade de jogar numa grande equipe. Fui bi campeão italiano, campeão europeu, campeão da Copa do Campeões. Enfim, lá foi, assim, o momento que eu me aperfeiçoei como profissional, fui lapidado como profissional. Fui ensinado a ser cobrado, a jogar bem em cada partida, a fazer bem aquilo que eu me propunha. Eu acho que foram cinco anos excepcionais. Eu já tinha recebido um convite em 1988, não fui, porque sofri, tive uma cirurgia, um problema.    

 

P/1 – Você estava no início?

 

R – Eu estava no início da minha carreira ainda, também fiquei em dúvida, né? Mas no segundo convite, eu fui. Na época, no Maxicono, jogava o Renan, que eu fui lá e ele era o brasileiro... 

 

P/1 – Como aconteceu o convite, como foi isso?

 

R – Foi através até mesmo do próprio Renan, né, que me indicou. Também porque, eu jogava, na época, começou a Liga Mundial. Então, a gente estava sempre jogando, e de alguma forma eles já vinham me observando pra levar pra lá, pra eu ir pra lá, porque, antigamente, eles contratavam mais atacantes, eu sempre fui um atacante de muita força, né? Tanto que lá, eu joguei de oposto. Que seria a posição do Marcelo Negrão na seleção. Então, quando eu voltava pra seleção eu ia pra outra posição, porque era a posição do Marcelo Negrão. Eu voltava pra seleção e jogava de meio. E eu acho que até mesmo a maneira como esse time nosso jogava fez... deu ideias pra que o Zé Roberto montasse aquela equipe com quatro atacantes, né? Que jogava Tande, Marcelo, Giovane e eu no mesmo time que eram quatro atacantes, só tinha um único, específico, que era o Paulão e o Maurício. Enfim, e o Zé conseguiu montar essa equipe baseada, mais ou menos, nessa equipe da Maxicono. Que a gente jogava assim lá, que tinha o Giani, que era outro jogador que conseguia fazer, mais ou menos, a mesma alternância que eu fazia, uma hora jogava no meio, outra hora jogava na ponta. Porque você precisa ter nível técnico pra fazer isso. Então, eu acho que ali ele se baseou um pouquinho na nossa equipe pra montar a seleção. Até porque ele viu que eu jogava dessa maneira e ele tinha condição de mexer comigo. Então, foi isso que ele fez. E a gente cresceu muito assim. Principalmente, porque eu alternava muito com o Marcelo. Uma hora o Marcelo fazia meio de rede, outra hora eu fazia ponta e ia pra saída, e isso confundiu muito. A gente cresceu muito no bloqueio, né, e foi uma das vantagens nossa, naquela Olimpíada  

 

P/1 – Aliás, uma curiosidade. Teve uma época que a seleção do vôlei masculino alimentou uma rivalidade com a seleção americana, que eles tinham uma raiva, como é que foi isso?

 

R – Eles dominaram o voleibol de, mais ou menos, 1982 até 1988, né? Então, era uma rivalidade grande com o Brasil. Já com a geração anterior, e depois a rivalidade veio com a gente, né? E a gente sabe que se você for pegar todos os resultados do vôlei, você vê, em termos de Olimpíadas, Mundial, o Brasil, de alguma forma, está sempre se confrontando com os Estados Unidos. Eles deram uma caidinha, depois voltaram de novo. Então, tanto na praia como na quadra, a gente sempre tem muita dificuldade de jogar com a equipe americana, porque eles são muito determinados taticamente, eles estudam muito bem todas as equipes. E, realmente, a gente tem, sempre teve grandes dificuldades de jogar com os Estados Unidos. Mas eu acho que foi uma rivalidade bacana. Foi uma rivalidade, assim, saudável, até porque eu tinha essa rivalidade lá na Itália também, porque os dois americanos jogavam em outro time, o meu time estava sempre fazendo a final com esse outro, que era o Mensageiro. Então, lá jogava o Kiraly e o Timmons. Então, a rivalidade saía da seleção e ia pro clube, porque era normal, né? Tanto que se nos livros de...num livro lá que eles fizeram de 50 anos do vôlei italiano, eles falam que a maior sfida, a maior disputa era entre essas duas. Foi uma das maiores disputas dos 50 anos, foi essas duas equipes, né? Aí, eles falam, e tal, conta da rivalidade dos brasileiros com os americanos. Porque jogava eu e o Renan, o Bebeto era o técnico, né? E o Mensageiro jogava o Kiraly e o Timmons e tinha Doug Beal como técnico, um americano.

 

P/1 – Não teve um episódio, até que eles rasparam a cabeça pra jogar, você se lembra? 

 

R – Esse episódio foi em Barcelona, mas foi... Eles fizeram um jogo contra o Japão, que o juiz fez uma marcação errada. O Matsudaira , né, que hoje é dirigente, era, vamos dizer, um dos grandes chefes da FIVB [Federação Internacional de Voleibol], desceu, reclamou, bábábá, que era um japonês, e o juiz mudou a marcação, e eles pra fazerem um protesto, eles acabaram perdendo a partida por causa disso, pra fazer o protesto eles rasparam a cabeça. Todos, em conjunto, né? Mas não deu muito certo, não, porque eles perderam [RISOS] de qualquer jeito pra gente. 

 

P/1 – Oh, eu sei que é difícil isso pra você, nossa, quantos jogos você tem computados na sua cabeça, você consegue ter esse cálculo? 

 

R – Eu devo ter aproximadamente, eu computei, eu acho que eu tenho... Eu sou o segundo atleta que tem mais jogos com a Seleção Brasileira, o primeiro é o Maurício, né, que ficou também mais tempo que eu, e, também, é levantador. O levantador, com certeza, joga muito mais que um atacante, né, no sentido que a gente contunde mais, tem mais problemas físicos. Eu devo ter em torno de 480, 490 partidas oficiais pela seleção, eu sou o segundo atleta com mais número de partidas. Eu acho que é: Maurício, eu, depois vem Bernard, Giovane, uma coisa assim.

 

P/1 – E dessas partidas, assim, teve Olimpíadas, teve esse episódio que você estava com o pé quebrado, mas, assim, qual o jogo que mais vem a sua lembrança?

 

R – Ah, eu tive vários jogos! Assim, de torcida, com certeza, foi aqui no Brasil, né? Foi um jogo: Pirelli e Minas. Vamos dizer, falando de clube, né? De clube, com certeza, um dos jogos mais, que era final de campeonato, eu jogava pela Pirelli, né? A gente foi jogar no Mineirinho, acho que foi o maior público que eu já vi. Olha, devia ter umas 24 mil pessoas dentro... Foi a maior vaia que eu já tomei na minha vida. Eu lembro que [RISOS] a gente resolveu entrar antes, né? Pô, secou até a minha boca. Eu, assim, o atleta fica tenso, um pouquinho. E eu fiquei bem tenso, pra caramba, no jogo, até por a gente estar...que esse jogo, essa partida, a gente ganhou esse campeonato. Nessa partida, era a melhor de cinco, a gente estava ganhando de dois a zero e perdemos de três a dois, né, só com a pressão da torcida. E, depois, óbvio, e depois a gente virou, veio pra São Paulo, ganhou no Ibirapuera, voltou lá e ganhou de novo, ganhamos de três a um no campeonato, né? Mas foi uma das partidas, assim, que eu me recordo, com o maior número de público e uma partida muito tensa, né? E na seleção, sem dúvida nenhuma, a final da Olimpíada. Pra mim, a semifinal e a final. A semifinal foi contra os Estados Unidos, né? Foi o jogo mais difícil. Contra os Estados Unidos foi o mais difícil! Holanda, eu acho que foi até, vamos dizer assim, um jogo fácil! Vamos dizer assim, pra uma final, né? Foi um três a zero tranquilo. Contra os Estados Unidos, a gente sofreu bastante pra ganhar deles, de três a um, mas foi um jogo duríssimo, eu lembro! A gente teve que jogar pra caramba, perdemos o primeiro set e depois recuperamos a partida. Então, assim, como partida, essas duas. E como eu te falei, a outra, como superação, foi aquela da Frangosul. 

 

P/1 – Dessas suas viagens, dessas saídas você se lembra de alguma gafe, de uma situação constrangedora que você tenha passado? 

 

R – Ah, várias coisas assim! Ah, tem umas comédias, né, umas coisas que aconteceram comigo. Eu acho que as coisas que são comigo, são mais esquecimento, entendeu? A pior gafe que eu lembro foi um jogo aqui em São Paulo, foi numa final do campeonato paulista: Pirelli e Banespa. Eu lembro que eu ia de São Paulo, eu morava aqui em São Paulo e ia pra Santo André, né, o jogo era em Santo André, e eu, na pressa, estava um pouquinho atrasado, peguei um trânsito, cheguei atrasado, já estava tendo a preleção e eu entrei. O técnico era o Brunoro, da Pirelli. Troquei a roupa, tudo, fiquei só de meia, né, e na hora de pegar o tênis, tirei o tênis da bolsa, coloquei na frente assim e ficou todo mundo olhando, né? Eu falei: “O povo tá olhando pra mim”. Aí, eu olho, todo mundo olhava e abaixava a cabeça e ria. O Brunoro perguntou pra mim: “É, Carlão, como é que você vai conseguir jogar com dois tênis do mesmo pé?” [RISOS] Eu tinha levado o tênis do mesmo pé, direito, entendeu? [RISOS] Cara, foi, assim... E eu calço 48, eu tive que jogar com o 47 porque não tinha. Aí, ele foi pegar um 47, eu joguei a final com um 47, com um tênis apertado. Essa foi uma das gafes que eu cometi, assim, né? E inúmeras histórias que a gente tem. Poxa, assim, coisas que se eu for escrever um livro, né, das furadas que os amigos dão. Eu lembro que teve uma, a gente estava no Japão, a seleção, e eles usam aqueles kimonos, né? Têm os kimonos nos hotéis, pá, não sei o que. A gente tinha chegado de viagem, em cada quarto eles põem um kimono, né? E têm aqueles carrinhos que ficam na, as pessoas vão, a camareira, né? Uns engraçadinhos resolveram pegar uns kimonos e embolsar. Só que aquilo ali é tudo contado. E no Japão, você tem câmera por tudo quanto é lugar. Aí, eu estou na mesa lá, a gente está comendo, têm meia dúzia, os outros quatro ou cinco estão lá em cima, não sei o que, de repente chega o chefe da delegação pra mim, que eu sou o capitão: “Pô, o que está acontecendo, Carlão? Não sei o que. Veio o gerente aqui me reclamar que o pessoal está pegando aí os kimonos, é o seguinte: eu vou...agora, vai subir todo mundo pro quarto e eu vou revistar tudo”. [RISOS] De repente, a gente está, né, tinha uma bay window, assim, era transparente no restaurante que a gente estava, começou a voar, eu olhei, assim, e começou a voar uns kimonos, caíam, eu falei: “Ué, o que é isso, cara?”. Eram os engraçadinhos que tinham pego e estavam jogando pela janela agora, pra não serem descobertos, né? Pô, eram, assim, umas gafes. [RISOS] Eu não vou citar os nomes aqui, mas, né, essa também foi uma das piores.       

 

P/1 – E, assim, você era muito jovem. Bom, está na veia, né, o vôlei está na veia, mas como é que você fazia, com divertimentos, como é que você dosava isso?   

 

R – Oh, eu sempre fui um cara... Eu não sou da noite, né, eu sempre fui um cara... Mas eu sempre gostei muito de cinema. É óbvio, eu não tenho nada contra quem gosta de noite, contra quem gosta de sair, né? Mas eu acho que faz parte. Mas como atleta, eu acho que não combina muito, eu acho que tudo você tem que dosar, né? Mas eu procurava, assim, sempre, a minha diversão era ler, ir ao cinema e estar com a família. Eu gosto muito de sair pra comer. Dentro do esporte tenho hobbies, gosto muito de estar em casa vendo um filme. Eu sempre fui muito tranquilo. 

 

P/1 – E como é que surgiu a namorada nesse meio?

 

R – A minha esposa ela é jornalista, né? E a gente se conheceu em 1988, antes da Olimpíada de Seul, numa entrevista. Eu estava no Rio de Janeiro e ela trabalhava na Bandeirantes ou, se não me engano, era estagiária e veio fazer uma entrevista. E tinha que ser comigo, que eu era o mais novo. E ela estava, também, fazendo, se não me engano, era o trabalho dela pra faculdade, ia apresentar. E o trabalho dela era sobre o voleibol, aí, ela tinha que fazer uma entrevista com o mais novo e o mais antigo da seleção. Era comigo e, se não me engano, com o William. A gente começou fazendo a entrevista, eu estava na Urca. E ela tem essa fita até hoje, que ela está entrevistando, que ela me entrevista e depois entrevista o William, tal, fez o trabalho dela. A gente se conheceu aí, no ginásio, ela foi no hotel fazer a entrevista, né? E, ah, combinamos pra sair, enfim, tomar um chopp. Eu lembro que a gente saiu. Porque na realidade, ela não bebe, ela só me enganou, ela era abstêmia, tomou um chopp [RISOS] pela primeira vez comigo, só pra me enganar. A gente começou a namorar, eu fui pra Seul, voltei e, assim, né? Eu também gosto sempre de dar também os louros à minha esposa. São 20 anos de casado, me acompanhando, pra cima e pra baixo. É uma pessoa que ama o esporte, que, de repente, ela queria ser atleta, mas não conseguiu. Mas é uma pessoa que sempre me deu uma força muito grande, sem dúvida nenhuma, a maioria das minhas conquistas, tudo que eu tenho hoje, eu acho que ela me ajudou muito nesse ponto, principalmente, de cuidar dos meus filhos no momento que eu estava fora, viajando, de me apoiar nos momentos difíceis, de ser sempre uma pessoa companheira em todos os sentidos. Eu acho que quando a gente tem essa estrutura, quando você realmente consegue conquistar, não tenha dúvidas que sozinho você não faz isso, você tem que ter o apoio de outras pessoas, você tem que ter um companheiro do lado. Eu vou ser bem sincero, é difícil você ser mulher ou marido de atleta, enfim, porque é uma vida, eu não digo desregrada, né, mas é uma vida que ao mesmo tempo é legal, porque você não tem cotidiano, não tem aquela... a quantidade de cidades que eu já falei aqui pra você que eu já morei, que eu já mudei, que eu já, né? Ao mesmo tempo é complicado quando você começa, os teus filhos começam a estudar. Então, nesse sentido, eu prejudiquei muito o meu segundo filho, porque mudou bastante de escola. Hoje, ele nos últimos anos, a gente conseguiu fazer com que ele estudasse na mesma escola. Então, teve que, também, fazer vários reforços, várias coisas, porque ele foi muito prejudicado nesse sentido. E a minha mulher foi uma pessoa que...   

 

P/1 – Como é nome dela?

 

R – Gilda. Me deu toda a estrutura, todo o apoio. Abdicou de várias coisas pra estar comigo, inclusive a profissão dela, né? E eu me sinto muito feliz. Nesse mundo maluco de hoje. Porque, também, o meu casamento não é um mar de rosas, tem problema como qualquer outra situação. 

 

P/1 – Quantos filhos que você tem?

 

R – Eu tenho três filhos.

 

P/1 – Qual é o nome deles?

 

R – Tem a Renata, Felipe e Gabriel.

 

P/1 – Qual é a idade deles?

 

R – A Renata tem 18, o Felipe 16 e o Gabriel 11 anos. E, assim, eu sou super feliz, né, porque, poxa, o esporte me deu praticamente, me deu praticamente, não! Me deu tudo que eu tenho hoje. Inclusive a minha família!   

 

P/1 – Carlão, e como é que apareceu o Banco do Brasil nessa história do esporte, sua e do vôlei, como é que é isso?

 

R – O Banco do Brasil foi uma história...acho que uma história a parte, né, no vôlei brasileiro, porque a gente tinha acabado de perder o patrocínio em 1990, e o Banco do Brasil veio. Na realidade, assim, pelo pouco que eu sei, na época que se costurou essa parceria com a confederação, o Banco do Brasil queria o vôlei de praia. Que na realidade, quem construiu o vôlei de praia, o circuito Banco do Brasil de vôlei de praia, foi o Banco do Brasil em conjunto com a confederação, né? Que eles começaram exatamente em 1990, ali naquela época. E o Nuzman, na época, então, presidente da confederação, falou que não, que o pacote tinha que ser tudo, tinha que ser também o vôlei de quadra, né? E foi uma coisa, assim, ah não sei, é como você ganhar na loteria, porque o banco era um banco, né? A ideia deles...porque era um banco formado por gente idosa, aposentados, é um banco de velhos, né, então, a ideia deles era o quê? Fazer rejuvenescer a marca. Eles entraram, em 1991, a gente já tirou o primeiro pódio, né? Que foi terceiro na Liga. E em 1992, a gente foi campeão Olímpico. Então, assim, foi uma coisa como se acertar numa Megasena, né? Como é que você vai saber que vai investir, né? Vai ser parceiro de um projeto e saber que o projeto vai dar certo pouco tempo depois, né? Então, ali, boom! Foi o boom, né? E realmente, depois eles, essa parceria, ela se estendeu muito além de um simples patrocínio, né? Porque o voleibol é o que ele é hoje, sem dúvida nenhuma, por essa parceria. Por todo o trabalho, todo o case que foi desenvolvido. Hoje, na minha opinião, não tem...a gente vê vários patrocínios, várias parcerias com outros esportes, mas, na minha opinião, com toda a experiência que eu tenho de esporte, não tem nenhuma outra empresa que tenha o case que o Banco do Brasil tem no marketing esportivo, a experiência, né? O Banco do Brasil sai na frente de tudo, nesse sentido. E a gente foi construindo essa parceria, né? Hoje, a gente...é até difícil você ver o voleibol sem o amarelinho do Banco do Brasil, né, você conseguir desconectar. E ao mesmo tempo, você construir uma parceria de 18 anos, é muito difícil! E o próprio Banco do Brasil, né, ele, o Banco do Brasil e a Confederação Brasileira, eles não pararam simplesmente nessa parceria, de seleção com um banco. Eu acho que isso envolveu todo um processo de massificação do voleibol, do esporte. Os projetos sociais que o banco tem, a maneira como, tanto o vôlei de praia como o vôlei de quadra, se espalhou pelo Brasil. Todo o apoio também que foi dado pra que a gente tivesse um centro de treinamento em Saquarema. Com certeza, tem uma boa parte do patrocínio e da parceria do Banco do Brasil ali dentro. Então, eu acho que todos nós do voleibol somos, não só gratos, porque, também, é uma via de mão dupla. Se não houvesse o retorno ... com certeza, mas de ter realmente o Banco do Brasil como parceiro. E depois de 16 anos, de seleção, vestindo a camisa do Banco do Brasil dentro da seleção. Agora, a gente está fora dela, né? Eu, acho que conversando com você ali fora, até eu te falei que a gente participa de um projeto chamado Embaixadores do Esporte, né, que pra mim também foi, assim, um outro diferencial na minha vida. É um projeto que já tem cinco anos, vai pro sexto ano, que a ideia do projeto era resgatar, principalmente ídolos, atletas que tinham parado. Pra que você, pô, participe dessa experiência com outras pessoas. A tua experiência vitoriosa de vida, o que você fez, como você planejou. Então, a gente dá palestras pra garotada, a gente visita projetos sociais, a gente faz jogos de apresentação com pessoas que nunca imaginaram estar próximas da gente, né? Então, esse projeto, ele foi construído. Eu considero mais um projeto vitorioso, que essa geração está participando, porque o projeto iniciou com o Paulão, Pampa e eu, né, em 2003. Depois veio o Giovane, o Tande chegou a participar, agora está o Maurício, o Marcelo Negrão. Eu considero que a gente construiu juntos, de novo com o Banco do Brasil, um outro projeto que tem dado um retorno maravilhoso! Porque a gente também cobra dos políticos, daqueles que de alguma forma decidem as leis, que vejam o esporte como qualidade de vida, como inserção social, como um... A gente procura mostrar pra eles tudo aquilo que o esporte conseguiu transformar na nossa vida, né? Não que todos vão conseguir ser um atleta de alto rendimento, mas que eles realmente...que a gente passe a valorizar o esporte, com todos os benefícios que ele tem. Eu acho que o esporte ensina você a se socializar, a você respeitar o próximo, a você... têm várias características, a ter objetivo, a buscar realmente, a se superar, né? Isso é muito bacana no esporte. E esse projeto, assim, tem me dado uma satisfação muito grande, principalmente porque... É, apesar de ter viajado o Brasil inteiro, eu estou conhecendo o outro lado do Brasil agora. Eu estou indo em outros locais que eu nunca fui também, interiores, aí do Brasil como: Xapuri, lá no Acre, Cassino, no Rio Grande do Sul, né? A gente, no início do projeto, a gente arrecadou alimentos. A gente conseguiu arrecadar quase três mil toneladas de alimentos, em um ano e meio de projeto. Mas sem dúvida nenhuma...                  

 

P/1 – E pra entregar, aonde foi?

 

R – A gente entregava nos locais, iam pras entidades dos locais onde estivessem, né? Então, isso faz parte, é muito bacana, porque a gente vê toda aquela mensagem positiva que o esporte leva, né? E uma coisa que a gente vem batendo muito na tecla, o esporte teve várias conquistas como: a lei de incentivo, em 2007, que realmente o esporte estava necessitando. E é uma voz, é uma voz! E a coisa mais bacana foi o banco ter percebido e ter mostrado o seguinte: “Oh, a gente não investe no atleta só quando ele está jogando, não! A gente continua parceiro também e valoriza aqueles que fizeram alguma coisa”. Isso é muito bacana, entendeu? Isso é, assim, um exemplo fenomenal, né? E tanto que começou com os homens e agora, já está, vai ter os das meninas. Quer dizer, assim, a gente abriu uma outra porta pra atletas que estão parando. Então, como eu já repeti aqui, que consigam falar da sua experiência, de tudo que passou, de tudo que você passou, de tudo que o esporte conseguiu te transmitir, né? E eu já repeti várias vezes aqui, o esporte me deu tudo, inclusive a minha família, porque eu conheci a minha mulher dentro do esporte. Os meus filhos, eu procuro sempre estar... Pô, me viram dentro do esporte, viram o pai vitorioso, viram o pai que conquistou muitas coisas. E eu acho que não adianta você guardar tudo isso dentro da tua casa, pra você, né? Você tem que compartilhar com as outras pessoas. E através desse projeto eu também estou tendo a oportunidade de me comunicar, de estar com o público. Eu sou uma pessoa, assim, que eu gosto muito de me envolver com as pessoas mais carentes, com as pessoas mais humildes, o povão mesmo, né? Eu acho muito bacana, eu acho que é meio isso aí, faz parte. E esse projeto está me dando essa oportunidade. Então, mais uma vez é uma parceria que pra mim mudou a minha vida. E sem dúvida nenhuma, eu era um cara que, até, nem gostava de falar muito, entendeu? Assim, apesar do esporte exigir isso de você, através de entrevistas e de uma série de coisas. Quer dizer, até palestras eu estou tendo que dar, então, eu estou aprendendo uma série de coisas, que pra mim era muito difícil, falar com o público. Uma entrevista, até, porque eu já estou habituado, né? Mas falar pro público é diferente. A gente fala pra plateias de 300 pessoas. Como a gente deu, num colégio militar, uma palestra em Brasília que tinham mil e quinhentas pessoas dentro do auditório. Foi uma loucura! É muito bacana isso, você ter esse contato. Até com crianças que nunca viram a gente jogar, mas os pais viram e reforçam a importância da gente, de tudo aquilo que a gente fez.     

 

P/1 – E durante esse processo também, você teve o lance da tocha, como é que fala?

 

R – Tocha Pan-americana e a tocha olímpica também.  

 

P/1 – Como foi isso?

 

R – Ah, foi maravilhoso! Eu me emocionei bastante! Eu sou um cara muito emotivo, né? Porque eu fui convidado pra ser embaixador da Amazônia. Então, eu fui em Manaus, eu fui em Porto Velho, né? E o momento que passou no meu estado foi uma coisa, assim, excepcional. Eu...eles fizeram lá uma nova ponte, né? Então, entregaram pra mim e eu fui o último atleta a levar lá. E também fiquei muito feliz pela consideração que eles tiveram, porque tinham outros atletas, enfim, a gente sabe que nesse momento se envolve um pouco de política, mas, assim, a consideração que eles tiveram por tudo que eu fiz pelo esporte. Que foi um momento ímpar, a tocha, tanto a olímpica como a Pan-Americana. A tocha Pan-Americana percorreu o Brasil inteiro. A tocha olímpica foi aquele movimento no Rio de Janeiro e foi legal, porque eu participei de tudo, as pessoas choravam, né? Porque isso é muito bacana no esporte. Na minha opinião, um dos poucos movimentos que conseguem realmente reunir todos os credos, raças, cor, religião. E você consegue se integrar em prol daquilo ali, daquele momento. E foi, assim, um momento especial pra mim atravessar com a tocha Pan-Americana, atravessar o Rio Acre, o rio que eu tomei banho durante anos, brincava ali pra caramba, os locais que eu... Acho que passa um filme na tua cabeça, as pessoas ali, vibrando, aplaudindo, gente que conviveu comigo durante toda a minha infância, pessoas que também participaram do revezamento, que eram atletas de lá, né? Então, foi um momento maravilhoso. E eu rodei vários lugares do Brasil e, sem dúvida nenhuma, toda vez que eu volto com um momento importante desse no meu estado eu tenho muito orgulho, né? Eu sempre faço questão, quando eu falo com o governador lá ou o prefeito, de ser convidado, né, pra qualquer atividade que tenha lá ou se eles quiserem contar comigo, enfim, porque eu acho importante, de alguma forma, é o estado que eu nasci, é de onde eu vim, eu estou sempre tentando de alguma forma ajudar ou se eu puder incentivar, né, eu estar junto deles. 

 

P/1 – Não nega a raiz, né? 

 

R – De jeito nenhum! Eu acho que ninguém deve negar. Como eu falei pra você, eu tenho muito orgulho, porque eu não tenho dúvidas, né? Eu acho que essa garra que eu tenho, essa disposição, tudo vem de lá, eu construí todo o meu caráter ali. Eu saí de Rio Branco com 16, 17 anos. E fico feliz do esporte ter me dado essa oportunidade de me enriquecer culturalmente, de conhecer outras culturas, né? De alguma forma, também, saber respeitar as diferenças. 

 

P/1 – Bom, a gente está fechando, não se preocupe com o tempo. Talvez eu vá até repetir aqui, porque você já falou em vários momentos. O que você diria que foi olhando a sua vida, toda a sua trajetória, as principais lições que você tirou? 

 

R – Ah, eu acho que uma das, até hoje, né, eu vou fazer 43 anos, e eu acho que uma das lições que eu tive – até por toda a convivência que eu tenho dentro do esporte, o conhecimento e todas as experiências – principalmente, é ser humilde naquilo que você faz. É saber respeitar, principalmente, o teu próximo, valorizar o trabalho dele, saber respeitar as diferenças. Porque, eu acho que, no mundo de hoje, você só vai conseguir realmente viver feliz e conquistar alguma coisa se você souber trabalhar em equipe, porque o mundo realmente está interligado. E eu acho que quando você sabe trabalhar em equipe, sabe escutar o grupo, né, e realmente consegue participar de um trabalho. Apesar de, às vezes, eu mesmo ter convicções diferentes, você ter humildade pra saber ceder pra que o grupo tenha sucesso, né? Isso é um dos maiores aprendizados meu, de não ser egoísta, de ser uma pessoa compreensível, de ser uma pessoa realmente que sabe dar um passo pra trás pra conquistar dois passos futuramente, né? Eu, nesse ponto, assim, eu acho que foi uma das grandes lições que eu aprendi no esporte. Porque todo mundo, de alguma forma, quer ter o seu momento de fama, então, é importante que você saiba dosar esse, vamos dizer assim, esse desejo e compartilhar com todos, né?

 

P/1 – Que legal! Porque no vôlei tem que ser assim, né, se não é a equipe, não vai pra frente.

 

R – No vôlei tem que ser assim, né, até porque, eu também já sofri algumas derrotas, e eu sei o porquê que acontece isso, tanto nas vitórias como nas derrotas. E o esporte, ele é isso aí, ele te ensina a perder, a ganhar, e isso faz com que você cresça, você aprende com as frustrações, que são sentimentos muito ruins que, às vezes, não te deixam crescer, porque você não sabe trabalhar isso dentro de você.  

 

P/1 – Bom, a gente está finalizando mesmo. Bom, o Banco do Brasil está desenvolvendo esse trabalho, de memória, contar a história através da memória das pessoas, é por isso que você está aí. O que você acha desse projeto? 

 

R – Eu acho uma ideia maravilhosa, né, principalmente, porque nós somos um país jovem, o Brasil é um país jovem. Eu acho que é uma ideia maravilhosa! Principalmente de um banco que tem 200 anos, que é um banco que é nosso, é um banco do Brasil. E você ter a oportunidade de contar a história de pessoas que fizeram, participaram de momentos importantes. Eu tenho muito orgulho de, não só ter participado da história do Brasil, mas de ter, nesses 200 anos aí, ter contribuído com 18 anos da minha vida pra fazer com que o Banco do Brasil tivesse, dentro desses 200 anos, dentro do esporte, uma história vitoriosa. Que eu espero que continue. E eu tenho certeza que vai continuar, até pelo trabalho que é desenvolvido. E dentro de um país, que a gente sempre fala que não tem cultura, né, um país que não tem memória, eu acho que são movimentos, assim, importantíssimos pra que as pessoas possam recordar, e não esquecer aquelas pessoas que tiveram um trabalho dentro do seu segmento, que tiveram sucesso. Isso é muito importante, independente do local que ela saiu, né? E eu, apesar de ter saído do Acre, dei uma demonstração de que independe do local que você nasça ou esteja, né, eu acho que depende muito da tua garra, da tua vontade, da tua disposição em vencer. E eu tenho certeza, que nesses 200 anos, nesses 18 anos de contribuição, foram muito mais coisas positivas do que negativas.   

 

P/1 – O que você achou de dar o seu depoimento, de contar um pouco da sua vida pra gente aqui? 

 

R – Ah, achei maravilhoso, né? Eu passaria horas falando do esporte, da minha vida aqui. Mas, não tenha dúvidas, que foram especiais, de uma pessoa que resolveu dedicar toda a vida pro esporte. De uma pessoa que saiu de uma região distante e que construiu a sua vida, construiu a sua vida particular. Tudo que eu tenho hoje, de material, de família e de sentimental, eu construí dentro do esporte. Eu espero continuar colaborando de alguma forma. E espero ver um dia, né, um filho meu fazendo o que eu faço.

 

P/1 – Aliás, nenhum deles joga? 

 

R – Não! A minha filha quer ser jornalista, que já está quase fazendo a faculdade. E o meu outro filho, os outros dois gostam mais de esporte, né? Eu espero que um deles, não o voleibol, né, mas espero que pelo menos estejam dentro do esporte de alguma maneira, porque o esporte também te prepara pra outras profissões, pra outros caminhos, não precisa você fazer um esporte simplesmente pra ser um grande profissional do esporte.   

 

P/1 – Bom, tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar, alguma coisa que eu não tenha perguntado e que você gostaria de abordar? 

 

R – Não. Eu acho que a gente falou um pouco de tudo aqui, né, e sem dúvida nenhuma só deixar uma mensagem pra aqueles que, de alguma forma, amam o esporte e que veem no esporte uma ferramenta importante na formação do indivíduo. Que incentivem. Agradecer, também, e dar os parabéns a todos aqueles professores de educação física, aquelas pessoas da área que batalham pelo esporte, que tiram o dinheiro do bolso, que compram o material, que a gente sabe das dificuldades da iniciação no país e que acreditam realmente que podem transformar a vida de uma criança, a vida de um jovem numa coisa melhor, né? Então, eu queria deixar os parabéns a essas pessoas, porque eu estou no esporte por causa de um professor de educação física, por causa de uma pessoa que acreditou no meu potencial, e isso é muito importante.

 

P/1 – É isso, obrigada! Muito obrigada mesmo pelo depoimento

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