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História de: Déa Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2004

Sinopse

Dona Déa nasce na década de 1930 no interior de Minas Gerais. Desde criança trabalha entre lavouras e plantações dos pais onde aprende, desde muito cedo, a gostar do contato direto com as pessoas. Em função da necessidade de estudar, muda-se para Uberaba com a família, onde passa a se dedicar ao comércio como atendente. Atendendo a um chamado, se increve para um processo seletivo na CTBC, onde é contratada em 1962, ficando por dez anos na Companhia. Desse tempo ela relembra as relações existentes em seu âmago, dentre as quais e incluem as obrigações, restrições, a amizade com os colegas e chefes e, sobretudo, os momentos de confraternização, pelos quais sente uma enorme nostalgia. 

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História completa

P – Boa tarde, Dona Déa, obrigado por ter vindo. Eu vou lhe fazer algumas perguntas que a Norma já lhe fez, mas é que é pra gente ter esse registro. Eu queria que a senhora nos dissesse seu nome completo, o local e a data de seu nascimento.

 

R – Meu nome é Déa Silva, eu nasci em Patrocínio de Minas.

 

P – Que data foi?

 

R – Em 23 de setembro de 1934.

 

P – Nome de seu pai e da sua mãe, por favor.

 

R – Meu pai é Adécio Afonso da Silva e minha mãe é Dolores Maria da Silva.

 

P – Qual era a atividade de seu pai?

 

R – Olha, quando a gente morava na fazenda... Papai tinha fazenda, depois nós mudamos para a cidade aí ele mexia com comércio mesmo, bar, restaurante.

 

P – A fazenda era uma fazenda próxima a Patrocínio?

 

R – Não, de Patrocínio nós mudamos para Santa Juliana, era onde tinha a fazenda. Mas em Patrocínio também nós morávamos na fazenda. Ele tomava conta da fazenda do compadre dele.

 

P – E ele cultivava o que nessa fazenda?

 

R – Ah, ele plantava de tudo na lavoura, tomava conta de gado, aí nós mudamos para Santa Juliana e ele continuou com a mesma coisa, mexendo com fazenda. Em Santa Juliana ele mexia com fazenda, mexia com engenho... Eu tenho que explicar isso?

 

P – Por favor.

 

R – Ele tinha engenho de moer cana, fabricava açúcar, fazia pinga. Meu pai era muito trabalhador, sabe. Mexia com muita coisa na fazenda, tinha lavoura de café, colhia café.

 

P – Eram terras próprias, Dona Déa?

 

R – Lá em Santa Juliana eram, em Patrocínio, não. Em Patrocínio ele tomava conta da fazenda de um compadre dele.

 

P – A senhora conheceu seus avós?

 

R – Conheci. Aliás, não conheci meu avô pai de meu pai.

 

P – A senhora se lembra o nome deles?

 

R – É, ele chamava Joaquim Afonso. Agora minha avó, mãe dele, eu conheci. Se chamava Severiana Afonso.

 

P – Do lado materno?

 

R – Do lado da minha mãe eu conheci todos os dois. Era Balduíno Afonso e Balbina Afonso. O meu pai com a minha mãe, você vê que são tudo Afonso, eles eram primos primeiros.

 

P – A senhora tem iDéa da origem de seus avós, se eles eram mesmo da região, se foram para lá, enfim, migrando? Sabe de onde eles vieram?

 

R – Se sabe... Eu não sei mesmo onde eles nasceram. Os pais da minha mãe moravam em Patrocínio, agora os do meu pai moravam em Santa Juliana, mas eu não sei onde nasceram, eu não sei se foi em Patrocínio ou em Santa Juliana. Como eu falei para a Norma, depois eu vejo os dados direitinho e falo ela. Se eu soubesse disso eu teria procurado para trazer, né. A Norma me falou que era surpresa.

 

P – Como eram seus avós? Descreva um pouquinho a lembrança que a senhora tem deles.

 

R – Olha, a minha avó, pai do meu pai, era muito gorda, muito boa, demais da conta, precisa de ver. Agora, eu conheci mais os pais de minha mãe. O meu avô era muito trabalhador, mexia com fazenda também, depois eles mudaram pra cidade. Minha avó costurava pra fora, fazia doce, doceira que só ela. O que eu lembro mais é deles.

 

P – Na família da senhora são quantos irmãos?

 

R – Nós somos dez comigo, né.

 

P – Como era essa casa de tantas crianças assim?

 

R – Olha, era uma meninada, foi assim uma escadinha. Aliás, a minha mãe verdadeira eu a perdi eu tinha de três para quatro anos. Meu pai casou pela segunda vez com uma prima também e teve mais seis. Então quando veio o primeiro do segundo casamento, a gente já era grandinha e a gente mesmo que pajeava. Aí tiveram os seis e foram criado tudo na fazenda, uma casa enorme, fazenda antiga, e o cômodo menor da fazenda era menor que essa sala. Era muito grande. A gente foi criada na fazenda, ajudava muito meu pai a trabalhar, ajudava a moer cana, fazer melado, fazer pinga. Eu era mocinha e fazia tudo isso.

 

P – Já tinha obrigações pra fazer?

 

R – Já tinha. A gente madrugava na fazenda, moía cana, carregava aquele tanto de bagaço nas costas. Era uma vida boa mas parece que hoje estão tão diferentes as coisas. Nós fomos criados com aquela obrigação para fazer, apanhava café, ajudava na lavoura, uma vida sofrida mas, Graças a Deus, boa pra gente. Depois mudamos pra cidade, mudamos para Uberaba. Nós moramos não sei se foram cinco anos, por aí. Lá a gente estudava, trabalhava. Em Uberaba, papai comprou uma pensão. Então, além de trabalhar na pensão, eu trabalhava fora, como eu falei para a Norma, numa loja de aviamentos que chamava-se Rei do Armarinho. Trabalhei uns tempos, minhas irmãs também trabalhavam, estudava a noite. Depois de uns certos anos, eu não me lembro bem, cinco ou seis anos, nós moramos em Uberaba, aí mudamos para aqui, foi em 1961 parece, não ache que foi em 1960.

 

P – Antes de chegar em Uberlândia eu queria insistir um pouquinho mais na sua infância. Tudo bem que a senhora tinha lá suas obrigações de ajudar seu pai e sua mãe. Como as crianças se divertiam, tinha um tempo de diversão, o que vocês faziam?

 

R – Brincadeira em casa mesmo, fazer boneca de pano pra poder brincar. Naquela época a gente tinha tanta dificuldade de vida, não é que nem hoje que a gente vai na loja e compra uma boneca ou qualquer coisa pra criança brincar. A gente não tinha brinquedo, a gente brincava com cavalinho de pau que a gente fazia. Boneca... A gente mesmo fazia as bonecas, cortava assim os panos, costurava, enchia de algodão e fazia uma boneca. Então nosso brinquedo foi esse. Como a gente brincava desse jeito, a gente fazia as bonecas pra nossas irmãzinhas brincarem. Brincava de rodinha, eram os brinquedos que tinham.

 

P – E quando [você] foi pra cidade, essas brincadeiras se modificaram?

 

R – Aí, quando mudamos pra cidade, já estava todo mundo estudando. Não tinha mais criança. Quer dizer, tinha criança que já estava estudando.

 

P - E sua primeira escola, a senhora se lembra dela?

 

R – A primeira escola... Ah, meu Deus do Céu... Deixa ver se eu me lembro. Foi na fazenda. Mas eu não estou me lembrando onde foi que eu estudei a primeira vez. Se não me engano, a minha irmã mais velha do que eu... A minha primeira escola acho que foi em Araxá, no Colégio São Domingos. Acho que minha irmã mais velha tirou diploma e começou a ensinar a gente em casa, foi assim. Aí depois nós fomos pra Araxá e eu e minha outra irmã estudamos no Colégio São Domingos, em Araxá. A gente trabalhava no Colégio pra ganhar o estudo.

 

P – Que vocês faziam lá no Colégio?

 

R – No Colégio? A gente ajudava arrumar a cozinha do almoço, a gente lavava, passava, limpava o colégio, cada uma tinha sua obrigação. Tinha a capela do colégio, ajudava a tomar conta, varria o pátio... Serviço de casa mesmo. 

 

P – A senhora estudava em que período?

 

R – Lá elas controlavam direitinho. Por exemplo: eu tinha aula de manhã, eu ia à aula e a outra trabalhava. Então cada dia tinha um horário de aula e outro de trabalhar na cozinha, fazia todo o serviço de casa. Era um colégio de irmãs.

 

P – A sua família mudou para Araxá?

 

R – Não, nós morávamos na fazenda e, como não tínhamos condição de estudar na fazenda, tinha uma tia que morava lá e arrumamos um colégio para estudar. Como nós não tínhamos condição de pagar a escola, trabalhávamos para poder ter o estudo de graça.

 

P – Foi o equivalente ao curso primário, é isso?

 

R – É.

 

P – Eram bem meninas ainda?

 

R – Eu não me lembro quantos anos eu tinha, mas foi o curso primário.

 

P – De todo modo, trabalhando desde muito cedo?

 

R – Muito cedo. Porque meu pai ficou viúvo, minha mãe morreu muito nova, eu tinha de três para quatro anos, e logo depois ele se casou novamente. Parece que depois de dois anos depois que ele casou, veio o primeiro filho e nós já começamos a trabalhar, era pajem. Era menina. Eu era tão pequena quando eu comecei a trabalhar e minhas irmãs também, não só eu, que na fazenda eram os fogões de lenha, não sei se vocês conhecem. Eu era tão pequena que tinha aqueles caixotes que vinham com latas de querosene, a gente punha na beirada do fogão pra subir naquele caixote pra fazer comida porque a gente não alcançava.

 

P – A senhora fazia comida?

 

R – Fazia comida. Cada uma de nós, nós éramos três do primeiro casamento, as três mais velhas, nós trocávamos. Uma semana a gente fazia comida, outra lavava e passava, e minha outra irmã que era menor, que era a Daura, pajeava. Um dia eu arrumava a casa outro a outra arrumava, mas cada uma tinha sua obrigação e tinha que dar conta.

 

P – Enquanto seu pai estava na lida, né?

 

R – É. E a minha madrasta, que é a minha segunda mãe... Nunca apresentei ela como madrasta porque ela foi minha segunda mãe, foi quem criou a gente, que ensinou a gente a trabalhar, ensinou a gente ser uma pessoa honesta e de responsabilidade, ela costurava para fora e nós tomávamos conta da casa.

 

P – Depois desse momento de Araxá a senhora volta e vem pra Uberaba, é isso?

 

R – Não, aí eu voltei pra fazenda. Estudei um ano ou dois em Araxá e voltei para a fazenda. Aí continuou o trabalho que te falei, de fazenda. Depois, eu já era mocinha, não sei se eu tinha doze ou treze anos, e mudamos para Uberaba. Aí meu pai comprou pensão e nós ficamos trabalhando na pensão. Era muita gente, tinha que cozinhar, tinha que arrumar, era uma pensão.

 

P – Qual era o nome da pensão?

 

R – Pensão Santa Rita. Aí a gente começou a trabalhar fora, minhas irmãs também. E eu não me lembro mais porque, meu pai comprou outra pensão, ficamos com duas pensões e eu tive que largar o serviço pra tomar conta da outra pensão.

 

P – Esse serviço era na casa de aviamentos?

 

R – Na casa de aviamentos.

 

P – E seu trabalho lá qual era?

 

R – Atender o balcão, vender aviamentos. Eu trabalhava pra aquela família Cecílio, que tem em Uberaba. Doutor Romis, Doutor Rimi, eles eram médicos e tinham uns irmãos que tinham loja, então eu trabalhava com Munir, Munir Cecílio.

 

P – E era um contato com o público. Como foi essa experiência para a senhora?

 

R – Foi muito boa porque a gente aprende a viver. A gente aprende muita coisa que a gente precisa, lidar com o povo. Eu toda vida fui muito comunicativa no estudo, atender bem o pessoal na loja, eu sempre gostei muito. Na pensão também é uma coisa que a gente comunica muito.

 

P 2 – Dona Déa, porque o pai da senhora resolveu deixar a fazenda, aquela vida, e ir para Uberaba?

 

R – Porque nós éramos em muitas, naquela época nós éramos em nove. Por que tinha o décimo? Deixa eu acabar de te contar da fazenda. Por que deixamos a fazenda e fomos para a cidade? Como éramos em muitas, já te contei, fomos para Araxá porque trabalhava no colégio, porque não tinha condições de pagar estudo. As outras cresceram e na roça era só o primário. Tinha que estudar, e aí foi onde mudamos para a cidade para poder estudar todo mundo. O motivo foi esse.

 

P – Então a senhora saiu da fazenda bem pequena e foi para Uberaba, que era uma cidade grandinha. Como era Uberaba nesse tempo? Qual é a lembrança que a senhora tem desse tempo?

 

R – Olha, quando eu mudei para lá, Uberaba já era uma cidade bem grande, depois dessa época cresceu muito. Era uma cidade já formada.

 

P – Não teve nenhum problema de adaptação, a senhora se deu bem na cidade?

 

R – Acostumei bem. Eu não sei se por causa daquela vida dentro do colégio, parece que a gente apanhou um pouco daquele ambiente da cidade. Então, pra mim, não foi difícil, não. Vai muito da pessoa, eu sempre fui comunicativa e então eu gostei muito de morar na cidade.

 

P – E a escola, como era?

 

R – A escola de Uberaba... A gente estudava a noite. Eu estudei no Colégio Triângulo, hoje acho que nem existe esse colégio lá, ou fechou, mas lá não tem mais esse colégio, não. A gente estudava a noite.

 

P – Trabalhava de dia?

 

R – Trabalhava de dia e estudava à noite. 

 

P – A senhora teve algum professor ou professora que tivesse marcado sua vida?

 

R – Em Uberaba? Deixa eu te falar, em Araxá também, antes de estudar nesse colégio, eu estudei numa escola particular, Dona Borondina. A primeira escola que eu estudei acho que foi essa. Ela era uma senhora paralítica, lecionava, como eu estou aqui, então ela sentava na cadeira e os alunos iam aonde ela estava. Ela ensinava muito bem e eu aprendi muita coisa. Eu estava me esquecendo dela. Era uma professora muito enérgica, muito boa para ensinar e a gente aprendia mesmo. Depois que fui pro colégio, em Uberaba, eram tantas professoras que eu não me lembro mais dos nomes, acredita? Tinha um professor de inglês, que eu gostava tanto dele, como ele chamava gente... Ele brincava muito comigo porque eles falavam que o meu nome em latim era Deusa. Aí eles falavam: “Eh, Deusa!” Eu gostava muito dele, brincava muito com a gente. “A Deusa está chegando.” 

 

P – Seus pais com as pensões, a senhora estudando a noite e trabalhando de dia. E como foi a mudança de Uberaba? A troco de que eles mudaram pra cá?

 

R – Naquela época Uberaba era muito ruim de emprego, eu estava te contando que eu trabalhava nessa loja. Minhas irmãs trabalhavam cada uma em um lugar, em serviços que ganhavam muito pouco. Ele resolveu vender a pensão lá, eu tinha um tio que morava aqui e falava que Uberlândia era melhor pra arrumar um emprego que Uberaba. É uma cidade mais desenvolvida. Aí meu pai achou melhor mudar pra aqui. Quando ele mudou pra aqui, ainda ficou uma pensão em Uberaba que ele não conseguiu vender. Eu que fiquei lá com outra senhora viúva que trabalhava com a gente, tomando conta da pensão até vender. Todas as meninas vieram e começou todo mundo a estudar e trabalhar também. Depois que vendeu a pensão lá eu vim.

 

P – Nesse período dos irmãos e irmãs trabalhando, quando recebia-se o salário, como era o procedimento? Botava na mão da mãe e do pai, como era?

 

R – Olha, a gente tinha a mensalidade de dar em casa, sabe, uma dá tanto, fulano dá tanto pra poder fazer as despesas, porque eram muitos filhos. Então todo mundo tinha sua mensalidade para dar todo mês para mamãe e o papai. 

 

P – Sobrava alguma coisa pra vocês? 

 

R – Muito pouco, porque naquele tempo era tão pouco dinheiro, às vezes a gente recebia e tinha mês que a gente precisava dar tudo em casa. Não podia comprar nada. Só de comida era muito porque era muita gente, então tinha que controlar muito bem.

 

P – E fazia-se compras uma vez por semana, uma vez por mês? A compra pra despesa de casa.

 

R – A gente comprava às vezes toda semana, às vezes mensalmente porque... A gente estava em Uberaba, agora em Uberlândia. (risos) Você me perguntou porque quis mudar, né? Era assim, nós mudamos pra aqui; quando ele conseguiu vender a pensão, ele comprou um restaurante, um dormitório e um bar tudo junto. Chamava-se Restaurante Copacabana, ficava na Cesário Alvim, esquina com  a Coronel Antônio Alves. Hoje parece que é um laboratório que tem lá. Ficava de frente ao posto, que era também Posto Copacabana. Comprou restaurante, aí que a gente trabalhava mesmo. Era bar, restaurante e dormitório, e agente mesmo que fazia a obrigação. Como eu fiquei tomando conta da pensão, algumas das meninas, quando eu cheguei aqui, já estavam trabalhando. Elas trabalhavam na Real Express. A Daura e a Daira, minha irmã. Depois de um ano que eu vim para Uberlândia... Cheguei aqui primeiro, naquela época não existia esse negócio de currículo. A gente fazia teste nas firmas. Fazia teste numa firma, fazia em outra, pra ver se era capacitada para trabalhar. Aí eu fiz aqui em várias firmas e fiz na CTBC.

 

P – Quando era isso?

 

R – Eu fiz em 1961. Eu cheguei aqui... Quando meu pai vendeu, veio todo mundo menos eu, que em vim em dezembro de 1961. Eu cheguei aqui e, de imediato, fiz teste na CTBC. Fiz em dezembro e a CTBC me chamou para trabalhar no dia dois de abril de 1962.

 

P – A senhora já tinha tanta experiência de pensão, restaurante... Por que a senhora não quis trabalhar no restaurante Copacabana?

 

R – Não, aí todo mundo arrumou emprego e continuamos com o restaurante durante muito tempo ainda. Por exemplo, se alguém trabalhava meio período, chegava em casa e tinha obrigação de fazer lá também.

 

P – E os estudos continuaram?

 

R – Continuaram. Aqui em Uberlândia eu parei, mas minhas irmãs continuaram estudando.

 

P – A cozinha do Copacabana era boa?

 

R – Minha mãe era uma boa cozinheira, vocês precisam de ver.

 

P – Qual era a especialidade dela?

 

R – De comida que você fala?

 

P – É.

 

R – Cada dia era uma coisa porque elas gostavam de variar bastante, tinha o bar, tinha o dormitório. Cada dia era uma comida diferente pra poder variar.

 

P – E esse contato com a CTBC, a senhora fez o teste, foi trabalhar meio período pra fazer exatamente o quê? Alguma coisa em vista?

 

R - Não, eu trabalhava meio período porque era o horário de telefonista.

 

P – A senhora já entrou pra ser telefonista?

 

R – Já entrei pra ser telefonista.

 

P – E a senhora queria ser telefonista?

 

R – Nunca pensava na minha vida de trabalhar de telefonista. Mas cheguei aqui e a CTBC estava precisando, fui lá, fiz o teste, fiz o teste em mais algumas firmas. Aí quando foi nos fins de março, me chamaram, que eu tinha passado e era pra eu trabalhar. Mas aí, pra gente entrar na CTBC enquanto os papéis não estavam prontos, a carteira profissional, a gente não começava. Me disseram pra arrumar tudo, que no dia dois eu ia começar a trabalhar. Aí eu fiquei muito feliz né e fui arrumar carteira profissional o que precisava de documento pra trabalhar. Aí entrei alguns dias depois trabalhando como telefonista.

 

P – Mas não teve um treinamento antes?

 

R – Não. A gente entrava pra trabalhar pra aprender o serviço. A gente era funcionária e ia aprendendo o serviço. Aí a gente sentava perto da mesa com outra que já estava trabalhando. Até hoje é assim, não sei, aquela que estava trabalhando ensinava para a gente. Tinha reuniões. Hoje fala atendente, naquela época era telefonista. As supervisoras de hoje, naquela época era encarregada. Então, a encarregada tinha reunião com a gente, o que tinha que fazer, o que tinha que dizer, e a gente aprendia. 

 

P – Em que local era esse?

 

R – Eu trabalhava na João Pinheiro, na CTBC da João Pinheiro.

 

P – Era uma sala grande, como era?

 

R – Era grande, tinha várias mesas, mas as ligações eram muito difíceis de conseguir. Quando eu entrei na CTBC, tinha dez telefonistas comigo; quando em saí, eram 120. Eu vi a CTBC crescer. E tinha também, na mesma sala nossa, a CTMG [Companhia Telefônica de Minas Gerais] que era outra empresa de telefone, mas eu nunca trabalhei na CTMG, não, só na CTBC.

 

P – Como era esse trabalho? O que a senhora aprendeu nesses treinamentos, nessas reuniões? As encarregadas diziam o que a senhora deveria fazer, deveria atender... Como era?

 

R – Elas explicavam muito pra gente, que a gente tinha que atender muito bem pros assinantes, falavam que não podia falar alto, com voz baixa, tinha que ser delicada. Naquela época as pessoas xingavam a gente, os assinantes mesmo, xingavam de nome feio. Naquela época que eu entrei na CTBC era muito difícil conseguir ligações, não é igual hoje, que você pega o telefone e disca para qualquer cidade que você queira falar. Naquela época, pra gente falar de Uberlândia a Sacramento, sabe quantos dias gastava? Três dias. Era bilhete, a gente montava bilhete, não sei se até hoje fala assim. A gente atendia o assinante, ele pedia uma ligação para Sacramento, tinha no bilhetezinho lugar para anotar a cidade, o número do telefone, anotava o telefone de Uberlândia e o nome da pessoa que pedia a ligação. Aí a gente passava aquela ligação para São Sebastião do Paraíso para falar em Sacramento. Era muito difícil conseguir, passava às vezes três dias. Passava então a ligação para lá, aquele bilhete, depois no outro dia chamavam, tocavam para Uberlândia: “Está pronta a ligação de fulano de tal, número tal.” A gente ligava pra ele em casa ou seja onde for o telefone dele, chamando ele para falar em Sacramento. E, assim, não só em Sacramento como em outras cidades também, Rio de Janeiro, São Paulo. Era a maior dificuldade que tinha para conseguir uma ligação, então o assinante brigava muito com a gente: “A minha ligação, que dia que vai sair? Porque vocês não sabem trabalhar, não sabem ver isso nem aquilo.” Então a gente tinha que aguentar o que eles falavam, não podia responder de jeito nenhum. Eu nunca respondi ninguém.

 

P – Eu ia perguntar até onde ia a paciência.

 

R – Tinha gente que chegava a cancelar a ligação porque não conseguia, outros tinham necessidade e esperava. Mas era muito difícil, Nossa Senhora! Era muito difícil conseguir uma ligação. Na minha época era assim, hoje é tudo com computador. Na minha época era aquele telefone de “pega”, o senhor conheceu?

 

P - Explica para mim como que era, por favor.

 

R – Tinha a mesa, então os cordões eram todos embaixo da mesa e tinha um tipo de uma parede, e ali tinha, digamos assim, uns pinos onde enfiava aquele cordão. Por exemplo, se eu quero chamar Ituiutaba, eu levava a pega, tinha o lugar de colocar, colocava a “pega” naquele circuito, não sei como que chama hoje, e naquela chavinha da mesa eu puxava aquele sinal, a gente recebia com a lampadinha acessa o sinal de telefone, era uma lâmpada que acendia e chamava Ituiutaba. Dei o sinal, ela recebeu aquele sinal de luz, ela atendia Uberlândia, aí eu pedia a ela para ligar o número, ela ligava. Era um par de “pegas”, se chamavam “pegas” aqueles cordões. Como uma “pega” estava ligada em Ituiutaba à outra, eu ligava aqui do assinante e chamava para falar naquela ligação. De modo que não tinha essa facilidade que tem hoje, era muito difícil.

 

P – Tinha assim um procedimento, uma forma de falar com o assinante, alguma forma determinada? Tinha que falar com o assinante de tal jeito, com tais palavras?

 

R – A gente atendia... Por exemplo, quando eu estava no interurbano, falavam: “Eu quero uma ligação para o Rio.” Aí eu anotava, perguntava: “Qual é o telefone do Rio? Quem vai falar, qual é o seu número? Com quem quer falar?” Eles davam os nomes e a gente anotava.

 

P – E como a senhora informava a ele o tempo de demora?

 

R – Às vezes a gente tinha aquele tanto de ligação anotada na mesa da gente, já tinha uma base. Do contrário, a gente pedia para ele aguardar que a gente chamava para dar a demora. Não era fácil, não. Tinha também a mesa de informações e quando a gente atendia falava: “Informações.” Tinha o “03”, precisando dele para usar telefones de três números. O normal era de 4 números. Na mesa era a mesma coisa. Por exemplo, se o senhor está em sua casa, o senhor pega o telefone, aquela lâmpada acendia para mim, aí eu atendia o senhor. Aí o senhor pedia o número que queria que eu ligasse e a gente discava o número.

 

P – Isso para ligação local.

 

R – É, para ligação local. Aí a gente discava o número, colocava lá a “pega” no circuito, discava o número aqui na cidade mesmo e ligava pra pessoa falar. Porque o telefone dele não era automático.

 

P – O Senhor conheceu o Seu Alexandrino nessa época?

 

R – Conheci, eu entrei lá e ele ainda viveu muitos anos. Quando eu entrei na CTBC, o Doutor Luiz estava terminando a formatura dele. Nós dois entramos na Telefônica, bem dizer, juntos. Quando ele terminou a formatura, ele começou a trabalhar e entrou para tomar conta da CTBC. Foi na época que eu entrei. Não tenho muita certeza, não, eu acredito que ele entrou pra CTBC deve ter sido em 1961, 1962, por aí.

 

P – E como era o Seu Alexandrino, Dona Déa?

 

R – Olha, eu gostava muito de Seu Alexandrino. Aliás, eu gostava de todo mundo na CTBC, que a CTBC foi meu segundo lar e muita gente tinha medo do Seu Alexandrino. “Ah eu tenho medo do Sr. Alexandrino.” Eu dizia: “O que tem o Sr. Alexandrino, gente, que vocês têm tanto medo dele assim. Não tenha medo dele, não. Tenha respeito.” Porque ele era o diretor, era o dono da CTBC, meu patrão, meu diretor... Eu tinha muito respeito, mas medo eu não tinha, não. Eu gostava muito dele, toda vida gostei, não tenho nada a reclamar do Seu Alexandrino, não. 

 

P – Ele deixou alguma coisa de que a senhora tenha uma lembrança forte, um exemplo, uma atitude?

 

R – Seu Alexandrino era muito nervoso, ele tinha uma coisa de limpar a garganta. Quando alguém escutava, dizia: “É seu Alexandrino.” Eu gostava muito dele, é isso que eu mais lembro dele.

 

P – Ele conversava muito com as telefonistas?

 

R – Não, ele não era de muita conversa, não, mas às vezes ele fazia alguma brincadeira, e eu, como gostava muito dele, conversava muito com ele, e ele falava: “Como é, está trabalhando direitinho?” “Estou trabalhando direitinho, Seu Alexandrino.” “É pra trabalhar direitinho mesmo.” Então eu tenho essa lembrança dele.

 

P – E, por sinal, o pigarro dele?

 

R – Ele limpava a garganta com uma força e todo mundo ficava, mais eu não tinha receio do Seu Alexandrino porque eu acho assim: eu estou trabalhando direitinho, estou fazendo minha obrigação, então porque vou ter medo do chefe chegar perto de mim? Eu, toda vida, fui muito honesta assim pra trabalhar, direita, fazia só aquilo que podia. Eu nunca pensei em fazer alguma coisa ali, escondido, e ter medo, não. Eu tinha meu respeito normal.

 

P – E suas colegas de trabalho dali, como era a amizade de vocês a convivência, a chefe de ________? 

 

R – Olha, era muito bom. Eu só tenho boas lembranças das minhas colegas, porque dia de telefonista o senhor sabe que é sem parar, então cada mês a gente tinha um horário para trabalhar. O serviço de telefonista não tem dia nem noite, nem domingo nem feriado, nada. Então eu trabalhei, aposentei nesse serviço trabalhando dia e noite, mas eu agradeço muito essa profissão. Eu gostei demais dessa profissão, gosto até hoje, até voltar a trabalhar eu queria. As colegas eram muito amigas umas das outras. Quando eu entrei na CTBC eu trabalhava, o meu horário era assim: uma parte da manhã, saía para almoçar; voltava, trabalhava mais duas horas ou três horas, não sei bem. Acho que trabalhava três horas de manhã, três à tarde. O horário de telefonista era de seis horas, aí depois eles fizeram aquele horário corrido. Quem entrava seis da manhã, saía ao meio dia; quem entrava à uma, saía às sete. Tinha o horário certinho pra tomar café, aquela telefonista que substituía as folgas do café, saía uma de cada vez, chegava a colega, sentava pra mim, eu saia pra tomar café; eu voltava, ela sentava pra outra, e assim ia até terminar todas. Então era muito bom, viu. Eu gostava demais do meu serviço, eu não tenho nada a reclamar. Eu só sinto saudades. E à noite, nos horários noturnos... Hoje acho que uma turma entra às dezoito e sai à meia-noite, e outra turma entra a meia-noite e vai embora de manhã. Na minha época não era assim. Eu entrava às seis da tarde. Eu não, todas que fossem fazer aquele horário. Entrava às dezoito horas e ia sair no outro dia, às seis da manhã. Então era assim, um mês nesse horário. Todo horário noturno no fim do último dia tinha uma despedida. Todo mês tinha aquela despedida, nós mesmas fazíamos, cada uma levava uma coisa, arroz e outras coisas. Fazíamos, por exemplo, uma galinhada, um arroz com linguiça e a gente comia aquilo na última noite para lanchar. Era muito bom, era bom demais mesmo.

 

P – Tinha algum espaço, acomodações para que as telefonistas pudessem descansar?

 

R – Não, depois é que... Quando a gente fazia as doze horas seguidas, a gente ia para trabalhar mesmo. Depois que começou o horário de seis horas e sair à meia-noite, aí a gente dormia lá e depois ia pra casa. Quem ia entrar à meia noite tinha que chegar até as 22 horas. Chegava ia deitar e dormir. Quando chegava mais ou menos onze e meia, meia-noite a gente ia chamar aquelas que estavam dormindo, elas levantavam, pegavam o serviço e a gente ia dormir até o outro dia de manhã. Não tinha quem levasse pra casa, não. Aí a gente ia embora pra casa e só voltava à noite. Era assim.

 

P – Não eram necessárias tantas telefonistas assim, né?

 

R – Não. Não eram tantas assim. À noite, quando a gente entrava às dezoito horas, eram parece que três; duas ficavam nas mesas pra atender os interurbanos e uma ficava para atender as informações, aquelas pessoas que pediam taxa à noite. Eram no máximo três pessoas.

 

P – E chegava a ter um movimento maior?

 

R – Tinha a noite toda. É como eu disse, tinha muito serviço à noite porque, às vezes, à noite a gente conseguia com mais facilidade, mas tinha sempre serviço.

 

P – As telefonistas podiam ir vestidas de qualquer maneira, podiam usar calça comprida?

 

R – Podia. Não com vestidos muito decotados, que eles não gostavam. Tinha que ir com uma roupa mais decente. Aí depois fez uniforme e a gente ia de uniforme. Era calça preta e blusa branca. Eu, inclusive, não gosto de roupa preta para meu uso. A primeira vez que eu usei roupa preta foi pro uniforme da CTBC. Uma calça preta ou uma saia preta e uma blusa branca. A gente tinha aquele uniforme de todos os dias, uma roupa bonitinha pra gente trabalhar. 

 

P – Porque as telefonistas não podiam casar?

 

R – Olha, até hoje eu pergunto pra mim: “Porque as telefonistas não podiam casar?” Casava, tinha que sair, casadas podia. (risos) Casadas podia, mas se casasse lá, não podia trabalhar.

 

P2 – Nem explicava por quê?

 

R – Não. Eu não sei te explicar por que não podia continuar, mas não continuava de jeito nenhum. E outra coisa, às vezes acontecia de uma moça não casar e engravidar. Lá não podia casar e continuar, e não podia engravidar também. A solteira que engravidar lá, tá na rua. Então, Graças a Deus, eu nunca arrumei filho, até hoje estou solteirinha “da Silva”. (risadas) Eu não sei se é sorte ou falta de sorte, mas estou muito bem, Graças a Deus.

 

P2 – E tinha algum preconceito da sociedade em relação às telefonistas? A senhora percebia isso?

 

R – Olha, na minha época era assim: telefonista conversa com todo mundo. Muita gente tinha preconceito por causa disso, então muitas vezes os namorados falavam que a gente era telefonista e desistiam por causa disso, brigavam. Às vezes outras famílias falavam: “Ela é telefonista.” “Por quê?” “Porque conversa com todo o mundo.” Então parece que a gente perdia aquela qualidade que a gente tinha. Mas eu nunca abaixei a cabeça por causa disso, porque eu trabalhava honestamente e naquela época eu tinha namorado. O meu namorado nunca falou a respeito disso. Contava que vinha muita gente falar. Naquela época a gente não podia chegar na porta com o namorado lá, não, a gente tinha que ficar um quarteirão pra cima ou pra baixo. Não podia chegar na porta com o namorado. E na hora de sair também, se o namorado vai buscar, tinha que ser um quarteirão pra cima ou pra baixo, onde a gente fosse. Eles não aceitavam, não. Eu não sei te explicar se era ordem do Doutor Alexandrino ou do Doutor Luiz, das chefes, das encarregadas... Eu não me lembro mais de quem era essa autoridade, mas não podia, não.

 

P – E ficava alguém tomando conta disso? Se o namorado ia buscar ou não ia buscar, ficava alguém de olho ali na porta?

 

R – Eu nem sei mais, eu sei que não chegavam e, se chegasse logo, dava notícia. Parece que ficava, sim. Se chegasse na porta com o namorado ou se o namorado fosse buscar, logo dava notícia de que o namorado foi buscar ou foi levar. Agora eu nem sei por que é que não podia casar, mas a moça que engravidava lá não aceitavam de jeito nenhum, casada também tinha que sair.

 

P – Esse preconceito que a senhora estava falando não era pelo fato de se trabalhar de noite? Mulher trabalhando de noite, mulher trabalhando fora?

 

R – Podia ser também, mas a única coisa que falavam é que telefonista conversava com todo o mundo, mas eu nunca me preocupava com isso, não, nunca abaixei a cabeça pra isso. Eu sabia que eu não estava fazendo nada de mais. Eu toda vida tive uma educação muito rígida, então nunca me preocupei com isso.

 

P – E os trotes, Dona Déa, e o pessoal que ficava passando trote?

 

R – Ah, eram muitos, muito mesmo. Eram muitos trotes, eles ligavam lá e falavam muita bobagem pra gente, muito palavrão, eu nem procurava saber porque eu nem queria saber daquilo.

 

P – Esses trotes eram registrados de alguma forma ou não?

 

R – Não, não eram. Naquela época não tinha como registrar. Depois de um certo tempo pra frente, parece que eles registravam, não sei como eram esses registros, não.

 

P – Quando acontecia uma ligação dessas, a senhora não podia identificar de onde é que ela vinha? 

 

R – Acho que não tinha meio da gente verificar, não. E a gente não podia responder mal, a gente tinha que ouvir o que fosse e tinha que fechar a boca. Não podia responder mal de jeito nenhum. Eu nunca respondi a ninguém mal.

 

P – A senhora teve vontade?

 

R – Se fosse pensar na vontade do que a gente recebia... Pensar, pensou. Mas a gente não podia falar isso. Eu nem pensava em alguma coisa para responder, ficava calada. Mas o povo era muito mal, maltratava a gente por causa de ligação que não saía. Mas no fim de ano, a CTBC mais os assinantes, mandavam muito presente pra gente, sabe? Muitos presentes, alimentos, roupas, vestidos... Ganhava muita coisa.

 

P – E o Dia da Telefonista, como era?

 

R – Era bom demais. (risadas) Fazia tanta festa...

 

P – É dezoito de junho o Dia da Telefonista?

 

R – Era em junho, eu não lembro mais quando que era. Acho que é dezoito ou dezenove, por aí. Mas era bom demais, tinha festa para as telefonistas.

 

P – Como eram esses dias?

 

R – Olha, o Dia da Telefonista era comemorado com festa. Fazia festa na chácara do Seu Alexandrino, então tinha baile, tinha baile caipira. Eu ganhei uma vez em primeiro lugar, você acredita? (risos) 

 

P – Conta essa.

 

R – Então, tinha que fazer as roupas caipiras, caipira mesmo. Então nós fomos dançar lá na chácara. Foi o baile caipira e quem dançasse mais caipira ganhava um prêmio. Eu ganhei um vestido. (risos) Então eu não sei mais com quem eu dancei, só sei que eu ganhei em primeiro lugar. Ganhei duas vezes. Quando foi no ano seguinte teve um desfile da Miss Farrapo. Será que a CTBC não tem essas fotografias, não? Será que a CTBC não guardou?

 

P – Podemos procurar.

 

R – O desfile da Miss Farrapo. Fizeram lá uma passarela pra essas Miss Farrapo desfilar. Miss Farrapo você sabe como que é: vestidos todos feios e esfarrapados. E eu tirei o primeiro lugar outra vez porque eu pus um sapato de um jeito o outro do outro. Eles tinham umas roupas todas esfarrapadas, umas saias engomadas, mas aquilo era uma roda imensa, essa saia que eu fiz. Então eu não sei se eu não abotoei essa saia direito, a saia era uma anágua e tinha outra por cima. Eu não sei o que aconteceu que essa anágua que estava bem engomada, bem cheia mesmo, escorregou e caiu, acho que ela desabotoou. Gente do céu, caiu na passarela... Eu estou lá, desfilando, sapato de um jeito o outro do outro. Eu sei que a gente estava bem estrambelhada. E eu desfilando, essa anágua desceu! Eu fui andando e ela foi descendo, foi descendo e eu falei: “O que eu faço?” Aí, a hora que ela chegou nos meus pés, eu dei uma paradinha, peguei essa anágua, juntei a cintura dela, fiz assim e joguei no meio do povo. Tirei primeiro lugar também. (risos) Era muito bom, gente.

 

P - Foi acompanhando todo esse desenvolvimento que a tecnologia veio trazendo para o seu trabalho. Quando a senhora chegou eram dez telefonistas, depois eram 120, e ao mesmo tempo as telefonistas foram acabando.

 

R – Umas saíam, entravam outras... Eu sei que o número foi crescendo e quando eu saí eram 120. Essa festa que estou te dizendo, das telefonistas, era tão pequena, eram tão poucas telefonistas que tinha em cima do prédio um salão. As festas das telefonistas de primeiro eram lá, era em cima da CTBC. Aí todo mundo assistia, ficava um pouco na festa, desciam as que estavam trabalhando. Depois foi crescendo muito e a gente fazia lá na chácara do Seu Alexandrino.

 

P – A senhora fez algum tipo de amizade com telefonistas de outras localidades com as quais a senhora conversava?

 

R – Ah, sim, muitas. E nessa época de festa das telefonistas, as telefonistas de fora vinham e às vezes até se hospedavam na casa da gente também. Então tinha muitas de Franca, de Ituiutaba, Itumbiara, Frutal. Tinha uma menina que vinha e ficava hospedada em minha casa, se não me engano acho que ela já morreu, a Dirce. A Dirce era telefonista encarregada do Prata. De Ituiutaba era uma negrinha, não me lembro mais o nome dela. O apelido dela era “Negrinha”, já morreu também.

 

P – Eram daquelas telefonistas que conheciam todos os nomes de todos os assinantes.

 

R – Todos, é. Conheciam todo mundo. Era muito bom.

 

P – E como foi esse período que a senhora foi passando na Companhia, a tecnologia chegando e dispensando o trabalho mecânico da telefonista, começou a ter DDD, não precisava ter intermediação da telefonista... Como chegou tudo isso para a senhora, que estava lá há tanto tempo?

 

R – Olha, quando eu estava lá era muito pouca coisa. O telefonema direto foi depois que eu saí. Eu entrei dia dois de abril de 1962 e saí dia 23 de novembro de 1973. Foram dez anos e uns meses.

 

P – A senhora disse que saiu de lá aposentada?

 

R – Eu não saí de lá aposentada, não. Eu aposentei como telefonista, saí da CTBC e fui trabalhar no Hospital Santo Agostinho quase de frente ao que hoje é o Santa Marta. Ali era o Hospital Santo Agostinho. Então eu trabalhava no Hospital Santo Agostinho de manhã e trabalhava no supermercado Alô Brasil à tarde. Eu entrava no Santo Agostinho às sete horas da manhã e saía ao meio dia; entrava no supermercado Alô Brasil às duas e saía às dez horas. Fazia esses dois serviços.

 

P – Porque a senhora saiu da CTBC?

 

R – Eu preferia nem falar porque eu saí. Eu não fiz nada de errado, toda vida gostei muito, até o dia que foi pra eu sair, eu fui conversar com o Doutor Luiz e ele falou que não era pra eu sair, era pra eu ficar. Eu falei que aquele ambiente ali dentro não dava mais pra continuar, então eu saí.

 

P – Se a senhora quiser falar, não tem nenhum problema.

 

R – Não, eu prefiro não falar.

 

P – E aí, como ficou sua ligação com a CTBC depois disso, trabalhando no hospital. Dava vontade de voltar?

 

R – Continua a mesma coisa porque todo mundo que trabalhava lá... Eu gostava de todos e a minha amizade continua a mesma. Aí depois do Santo Agostinho... Os médicos do Santo Agostinho, onde eu trabalhava, compraram a antiga Santa Casa, que hoje é o Santa Genoveva, eu fui lá com eles, e lá eu aposentei como telefonista. Mas não que eu trabalhei na CTBC até aposentar. E minha irmã continuou trabalhando lá, nós éramos duas. Eu trabalhava como telefonista e minha irmã trabalhava no escritório, trabalhava na administração com a Dona Ilze, a Daura. Aí eu continuei aquela amizade, mesma coisa.

 

P – E a senhora trabalhou até que ano? Aposentou-se em que ano?

 

R – Sabe que eu não estou lembrando, podia dar uma olhada nisso. Mas tem uns seis ou sete anos que eu aposentei, ou mais.

 

P – Depois que a senhora aposentou, tendo trabalhado desde criança, desde o tempo da fazenda... Como é se aposentar e não ter mais obrigação assim?

 

R –  Eu vou te falar uma coisa. (risos) Olha, eu nunca fiquei sem obrigação, porque quando eu trabalhava na CTBC eu bordava muito, fazia enxoval de neném, aí quando eu saí da CTBC e fui trabalhar no hospital, eu comecei a vender roupas. Eu ia para o Paraguai e trazia coisas pra vender. Eu vendia Avon, eu vendia produto de beleza, eu trabalhava no hospital, eu controlava minhas folgas e ia para o Paraguai comprar coisas pra vender. Pelo contrário, eu quase não dava conta do meu serviço. Eu nunca tive um dia de falar assim: “Ô, gente, hoje eu vou descansar.” Porque esse negócio de venda fica até de noite, domingo, feriado, não é mesmo? Aí eu aposentei e continuei trabalhando com as minhas coisas, vendendo produto de beleza, vendendo Avon, vendendo coisas do Paraguai, e até hoje eu vendo produto de beleza. Eu nunca senti que ia ficar à toa hoje, não ter serviço. Você está dizendo, como eu me senti de parar de trabalhar? Nunca parei, aposentei daquele serviço de telefonista mas continuei trabalhando. Mas eu tenho saudade daquele tempo. Era um tempo sagrado pra mim. Da CTBC, eu falo que a CTBC foi meu segundo lar, porque o serviço que eu fazia, como eu estou te falando, em casa, na fazenda, trabalhando no restaurante, na pensão, era serviço de casa. E na CTBC, não. Eu aprendi um serviço que eu nunca tinha visto na minha vida. Entrei ali para trabalhar e pra aprender. Aprendi muita coisa boa mesmo na CTBC. A CTBC eu considero meu segundo lar porque foi onde eu conheci o trabalho do comércio. Então eu tenho saudade daquele tempo, que foi um tempo muito bom. Eu dou muito valor à CTBC porque ela me deu essa oportunidade de trabalhar e aprender aquele serviço, e aposentei com essa profissão. Eu devo muito essa obrigação à CTBC, ao Seu Alexandrino, ao Doutor Luiz e todo mundo que foi meu chefe lá, eu devo muito essa obrigação.

 

P – A senhora teve alguma chefe que tenha ficado marcada na sua memória? Alguma lembrança?

 

R – Você diz de coisas boas ou ruins?

 

P – Uma que tivesse marcado. Chama-se monitora?

 

R – Hoje chama monitora mas no meu tempo chamava-se encarregada. Olha, eu gostava de todas, todas eram ótimas e então eu não tenho nada a reclamar de ninguém, só mesmo elogios. Era uma coisa muito boa, o Doutor Luiz era uma pessoa muito boa, o Seu Walter também, mas o Seu Walter já não fazia parte da CTBC, ele era irmão do Doutor Luiz, então eu sei que eu tenho saudades e eles foram muito bons pra mim. Eu não tenho nada a reclamar, não, só tenho que elogiar.

 

P – O que a senhora diria a uma pessoa fosse entrar na CTBC agora? Com sua experiência, o que a senhora diria para ele?

 

R – Isso eu já disse e não foi só para uma pessoa e nem agora. Eu já disse para várias pessoas: “Entra na CTBC que vocês vão ter sucesso.” Inclusive tem um vizinho meu agora que entrou na CTBC, não tem nem dois meses. Ele entrou na Call Center, ele entrou lá e está trabalhando, eu falei pra ele: “Não deixa.” E ele falou: “Mas eu estou ganhando pouco.” Eu falei: “Continua. Serviço hoje está difícil e você entrou na CTBC, é uma ótima coisa, uma ótima profissão, você pode melhorar pra frente.” Inclusive, eu tenho uma sobrinha que trabalha lá, ela gosta muito também, que quando ela entrou eu falei pra ela: “Continua até se aposentar na profissão que sua tia aposentou.” Porque eu gosto muito do serviço de telefonia, fora de brincadeira. Hoje eu sei que eles não vão me aceitar lá, mas se eu arrumasse um lugar pra trabalhar de telefonista... Inclusive um médico do hospital me convidou: “Porque você não vem trabalhar, não volta para aqui.” Outro dia eu estava falando com minha irmã que, se eles precisarem, [é] capaz de eu voltar. A gente conversa com todo mundo, a gente faz amizade... Bom, tem que gostar como eu gosto, né? Trabalhar num serviço que a gente não gosta. Mas eu aconselho todo mundo que entrar na CTBC a ir de cabeça erguida, que ele vai pra frente.

 

P – Beleza, Dona Déa.

 

R – Eu gosto muito da CTBC, dos funcionários, da Companhia, e sinto saudades mesmo.

 

P – Ok, nós estamos satisfeitos. Alguma coisa que a senhora gostaria de ter dito e que a gente não provocou pra senhora dizer?

 

R – Olha, vocês fizeram várias perguntas, não ficou nada pra trás, não.

 

P – O que a senhora achou de ter dado esse depoimento?

 

R- Eu gostei porque, pelo menos, eu senti que a CTBC ainda está lembrando de mim, como eu lembro dela todos os dias. Então a qualquer hora que precisarem de mim eu estou aí, só tenho coisa boa para falar, então eu fiquei muito grata, eu tenho que agradecer vocês e à CTBC por terem me convidado para dar essa entrevista, eu achei maravilhoso e espero que todos que vierem para ser entrevistados gostem como eu gostei.

 

P – Muito obrigado, então!

 

R – De nada, eu é que agradeço.

 

P – Beleza, Dona Déa, é isso aí.

 

R – Agora, se vocês gostaram da entrevista, eu não sei.

 

P – Bom, muito bom, foi ótimo.

 

P 2  - Eu não falei que a senhora não precisava se preocupar?

 

P – O nosso maior esforço é para deixar vocês à vontade. Quem está sendo entrevistado tem que ficar absolutamente à vontade. Às vezes a gente não quer interferir, tem que deixar o pensamento fluir, isso é muito legal.



 





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