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História de: Maria das Graças de Araújo Ximenes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/11/2014

Sinopse

Nascida no município do Eirunepe (AM), Graça mora num sítio na comunidade de N. S. de Fátima (Rio Negro, AM, próxima a Manaus). Produz e vende os sorvetes do Sabores do Tarumã, empreendimento assessorado pelo Consulado da Mulher, feitos com frutas da estação típicas da região (cupuaçu, buriti etc.), além de trabalhar na roça, plantando mandioca, macaxeira e frutas.  

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História completa

Meu nome é Maria das Graças de Araújo Ximenes. Nasci em Eirunepe no dia 11 de junho de 52. Meus pais Francisco Rosa Ximenes de Araújo e Maria José Ximenes eles trabalhavam com negócio de borracha, de seringa. Eu saí de lá quando eu tinha só dois anos de idade porque meu pai morreu. Meus avós já moravam pra cá, aí mandaram buscar minha mãe porque nós éramos em seis irmãos, eu era a menor, doentinha, e minha mãe não tinha a possibilidade de ficar lá e me criar. Aí ela foi prum interior que tem por aí, pro Marrecão. Quando chegou lá meus avós pediram à minha mãe pra me criar porque eles tinham recursos e minha mãe me deu pros meus avós de parte de pai. Foram eles que me criaram.

Minha infância não foi muito boa porque eu tava trabalhando direto na roça, na juta. Pra mim não foi muito boa, melhorou depois que eu vim pra cá, pra Manaus. Uma tia minha veio pra Manaus e como ela queria trabalhar, ela tinha um casal de gêmeas e ela pediu que eu viesse para cuidar das meninas. Foi quando eu arranjei um marido aqui, me casei, tive cinco filhos. E de lá eu to pra cá, na comunidade Nossa Senhora de Fátima.

Eu estudei, mas só que não foi aquelas grandes coisas porque onde eu tava não tinha escola, era longe. Era uma escolinha, a professora ia nas casas matriculando os alunos e a gente ia estudar com ela, em casa mesmo. De vez em quando passa no pensamento da gente, tudo quando a gente era criança passa. Era muito legal no interior. A gente jogava bola, a gente brincava de corda na hora do recreio. Hoje em dia as crianças não fazem isso em colégio, não brincam de bola, não pulam corda, nem nada. Eu era pior do que homem pra gostar de bola, de papagaio, de tudo eu gostava. Uma vez eu tava no campo puxando papagaio quando meu pai [seu avó] chegou, ele não gostava de jeito nenhum que a gente puxava papagaio, nem andar de bicicleta ele gostava, dizia que quem andava de bicicleta era homem. Aí eu fui pro campo puxando papagaio, meio-dia. Rapaz, quando eu vi o velho chegar perto de mim eu só fiz torá [quebrar] o papagaio e ia na carreira (risos).

Ele era bem branco, daqueles cearenses mesmo, eu tinha um medo dele que só! Eu peguei uma surra dele, mas foi uma surra, colega. Nós íamos pra beira do rio pegar os materiais porque ele tinha feito compra. Ele tinha comprado um saco de farinha de tapioca. Eu escorreguei, não era naqueles plásticos de agora, era naquele saco de papel, aí eu derramei o saco. O saco estava molhado, espocou a farinha de tapioca (risos). Foi a única surra que eu peguei, não peguei mais.

Arranjei um namorado e foi o único. Tá com 12 anos que ele morreu, eu sou viúva. Ele é pai dos meus cinco filhos. Eu conheci assim, o meu tio trabalhava com o SPC, ele era segurança. Aí conheci ele, gostei dele e nós nos casamos, nos juntamos, eu não sou casada. Vivi 14 anos com ele, aí ele adoeceu, morreu. Só que eu já tenho outro (risos).

Eu e meu marido atual gostamos muito de festa, agora não porque ele tá com um problema nas pernas também, uma tal de osteoporose e não tá podendo, mas ainda ontem ele disse: “Eu to indo na festa endireitar meu joelho”, eu digo: “Vamos embora”.

Eu trabalhava em cozinha, na Sanyo, ajudante de cozinha. Eu trabalhei quatro anos na Sanyo. Trabalhava porque minha sogra morava comigo e tomava conta dos meus cinco meninos. A mãe dele sempre morou comigo, aí eu trabalhava. Ela ficava com os meninos. Nessa época que ela morou comigo eu só tinha dois filhos, aí eu trabalhava. Eu trabalhei em outro restaurante, no Lica Refeições, eu passei dois anos na Lica. Era a mesma profissão, cozinhar também. Ajudante lá. Depois da Lica Refeições eu fui pro Educante.

Quando eu vim pra cá [Comunidade Nossa Senhora de Fátima – AM] eu tava trabalhando por conta própria, eu tinha um bar, aí eu trabalhava com bar, em Manaus. Foi o tempo que meu marido morreu, eu arranjei outro rapaz e nós tínhamos um bar. Aí eu tinha uma vizinha que morava lá perto de casa, no Nova Esperança, ela disse: “Dona Graça, tem uma comunidade aí que estão dando terreno”. O nome dela era Érica. “E aí, Érica, como é que foi que tu conseguiu esse terreno?”, aí ela me disse. Eu disse: “Então eu vou fazer o seguinte, eu vou fechar o bar num domingo e a gente vai lá contigo ver se a gente consegue um terreno”. Ela disse: “Tá”. Eu vim e consegui esse terreno e ela nem ficou aqui, quem ficou fui eu. Vai fazer 25 anos que eu to aqui.

Os meus filhos estavam em Manaus porque eu tenho uma casa em Nova Esperança, eu não vendi. Lá onde o pai deles morreu. Os quatro estão lá, só a minha menina que eu trouxe pra cá porque ela tem dois filhos e eu que estava criando. Ela é deixada do marido, arranjou outro e eu não quis que ela levasse os dois meninos.

A gente trabalhava aqui na roça. A gente plantava banana, abacaxi, roça. A farinha dá dinheiro. A gente vendia aqui mesmo pros comerciantezinhos que estavam morando aqui. A gente vendia de repente, fazia três, quatro sacos por semana.
Tem muita pupunha, pupu, tucumã, mari, tem muita planta. Esse ano eu quero ver se faço pelo menos umas duas quadras pra plantar roça. Roça não, macaxeira, porque macaxeira a gente vende por saco.

Depois que chegou essa energia melhorou demais. Porque quando nós viemos pra cá, nós usávamos vela, lamparina. Gelo nós comprávamos de saco aí na beira, vinha um rapaz vender gelo e a gente comprava pra poder manter a carne e o peixe no gelo. Hoje em dia olha só, nós temos energia, lá em casa tem três freezers, uma geladeira. Ainda não to aposentada, mas graças a Deus não passo fome porque eu sei me virar. Eu vendo roupa, trabalho na sorveteria, vendo fruta. Eu não tenho vergonha de sair com o carro vendendo fruta. Eu rebolo mesmo. Eu quero é ter dinheiro. Tem rico que tem vergonha de vender, eu não tenho, não.

Teve uma inauguração ali na fábrica aí ela trouxe as amostras de sorvete. Eu conheci o marido da Daniele há muito tempo, mas não tinha conhecimento com ela. Aí ela trouxe aquele sorvete e no dia da inauguração que teve na fábrica nós provamos o sorvete gostoso. Depois ela chegou em nós e falou, se não ia dar certo se nós montássemos uma cooperativa de mulheres. Aí como tem muita mulher aqui que não trabalha fora e quer ter seu dinheirozinho porque esse negócio de estar pedindo dinheiro de marido não é bom não. Eles querem saber pra tudo, porque a gente quer. Aí elas chegaram com a Daniele, vamos formar a sorveteria, vamos. Aí começamos.

Ela trouxe um pessoal lá do Consulado numa casa que tem bem aqui, da dona Terezinha. Aí como a Daniele já tinha falado pra ela foram chamando quem queria se associar pra cooperativa e aquelas mulheres todas queriam. Hoje em dia somos em dez, mas nem todas as dez estão trabalhando agora, não sei porque. Acho que umas estão trabalhando fora, tem muitas também que, tem uma menina com nós que tem uma garotinha, mas a garotinha dela estuda, aí ela não pode estar direto aqui com nós. Aqui diretamente comigo tem só três trabalhando direto, a dona Sandra, a Rosinha e eu. Mas são nove mulheres que têm ainda. Aí eu sei que, aí a dona Eliasir veio, fez uma festinha ali e foi que começou esse grupo. Uma lida ali também que foi ensinado o sabor do sorvete, aí ela deu as notas todinhas e nós estamos levando em frente.

Hoje as pessoas já sabem o sabor do sorvete, então um comenta pro outro, comenta pro outro e assim vai. Boca a boca. Meu sonho era eu acertar na Amazônia dá Sorte (risos). Ajeitar a minha casa, fazer outra casa nova. Se Deus quiser nesse ano eu construo minha casa nova porque a minha já tá pedindo outra. Eu me sinto feliz porque vocês vieram de tão longe pra conversar com a gente aqui, foi legal.

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