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História de: Maria Bernadete Mendonça
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2008

Sinopse

Órfã de pai e mãe ainda aos sete anos de idade, Maria Bernadete não desanimou. Fez das amizades do pensionato de freiras e do trabalho, sua família. Teve sua primeira consulta médica aos treze anos de idade, mas as doenças, que permearam a sua história, como no caso da morte de sua irmã quando tinha quinze anos, fizeram-na uma pessoa precavida em relação à saúde.  Aos dezessete anos conheceu o marido, com quem se casou após cinco anos de namoro e teve dois filhos. Descobriu um cisto no ovário e teve que operar, foi uma das primeiras cirurgias deste tipo no Brasil. Em uma das tentativas de engravidar, sofreu um aborto espontâneo, grávida já de cinco meses. Hoje Maria se sente realizada por ter constituído uma família e por ajudar as pessoas, e conta um pouco sobre sua história e sobre os meandros da medicina brasileira.

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História completa

P/1 - Bom, a gente queria começar a entrevista com a senhora pedindo para a senhora falar o nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R - Maria Bernadete Mendonça, seis de janeiro de 1935. Tenho 62 anos, graças a Deus.

 

P/1 - E onde a senhora nasceu?

 

R - Em Barracas, perto de Paraguaçu Paulista, Assis.

 

P/2 - E o que é isso, uma vila?

 

R - Não, era uma fazenda. Hoje uma cidade, mas naquela época era uma fazenda, e era o meu pai que tomava conta, que era dono.

 

P/2 - A senhora ficou lá até quando?

 

R – Ah, até, eu acho, cinco anos. Depois vim morar em Avaré, que era a terra dos meus pais, e sempre fiquei lá em Avaré, adoro Avaré.

 

P/1 - O nome dos avós da senhora?

 

R - Meus avós, pra eu lembrar é dureza, a cabeça... Basiliza e José.

 

P/2 - Isso aí é tudo parte do pai?

 

R - Da mãe era Basiliza e José, e por parte do pai eu não sei, não lembro. Não que eu não saiba, não lembro. Dela eu lembro que tem primas com o nome da avó, primos com o nome deles, do vovô. E eu ficava mais com eles, com a família do papai eu quase... Pouco fiquei, era sempre com a família da minha mãe.

 

P/1 - E a senhora falou que tem... Os seus avós, os seus bisavós vieram da...?

 

R – Ah! São estrangeiros, meus avós, por todos os lados. Papai e da mamãe são estrangeiros, são espanhóis e portugueses. Raça boa, né? Uma vez eu vi um homem falando: “Burro como um touro, brava e burra.” Eu falei: “Eu não sou não, sou bem inteligente”.

 

P/1 - Dona Bernadete, em quantos irmãos vocês eram? E com era a convivência...

 

R - Oito irmãos. Até sete anos, muito bom, porque mamãe viveu. Depois faleceu minha mãe e cada um foi morar com um tio.

 

P/2 - Como era o nome dos seus pais?

 

R - José Ferreira Martins, e Elvira Santos Ferreira era o nome da mamãe.

 

P/1 - E do que ela faleceu?

 

R - Ela faleceu de derrame cerebral.

 

P/2 - Quando foi?

 

R - Bem moça. O trabalho, né, ficou com oito filhos, viúva, muito trabalho. Ela faleceu e a gente ficou cada um com um tio, se espalhou a família toda.

 

P/1 - Seu pai já havia falecido?

 

R - Já havia falecido. Papai faleceu em uma festa junina, ele foi assassinado. Ele era o festeiro e um rapaz mocinho, por bobagem, fez isso aí. A mamãe ficou sozinha, né, lutando, trabalhando, fazendo, mas não dava mais para ela ficar, ela ficou doente quando nós fomos morar em Avaré, na chácara do vovô. Mas foi muito gostoso, a chácara era grande, espaço... E era na cidade, perto de todo mundo, foi muito bom.

 

P/1 – O que era o festeiro? O que ele fazia?

 

R - Ele era fazendeiro. Aquele ano foi festeiro de São João, na festa católica. Minha família toda é católica, papai, mamãe, avô, bisavó, todo mundo. Não é novidade eu ser católica, porque a família inteira... É tradição.

 

P/1 - Mas o festeiro, ele organizava festa? O que ele fazia?

 

R - Vocês não conhecem festa do interior, né? O festeiro de São João é o que faz aquela quermesse, aquelas barraquinhas, arrecada dinheiro para a igreja, trabalha, distribui. E meu pai este ano era o festeiro de São João, sempre foi, mas este ano ele era o festeiro de São João, na festa de São João. No dia de São João, 24 de junho, ele era o festeiro. E aí mamãe ficou viúva e viemos para Avaré, porque tinha toda a família dela. Lá no interior tinha família do papai, mas em Avaré era a família da minha mãe. Então nós viemos para os postos da família, do avô, da avó.

 

P/1 - E a senhora estudou em Avaré?

 

R - Estudei até o primário, depois vim fazer o resto aqui em São Paulo, porque eu vim com 14 anos... Continuei aqui em São Paulo.

 

P/2 - Quantos anos a senhora tinha quando sua mãe morreu?

 

R - Sete anos.

 

P/2 - A senhora, na escala dos filhos, qual é?

 

R - A caçula. Todos eram mais velhos.

 

P/1 - E aí a senhora estudava onde, lá em Avaré?          

 

R - No grupo da prefeitura municipal, na Rua Piauí. A gente estudava, todo mundo. Antigamente era só estudo do estado e era aquele que precisava entrar, porque o particular não era bom, era o estado que era bom, então era aquela concorrência pra entrar. Eu estudava... Era da prefeitura, o estudo.

 

P/1 - E como é que era? A senhora tinha colegas de estudos, como é que era? Conta para a gente como é que era a escola.

 

R – Ah, uma delícia, porque uma que tinha as amigas da mamãe que eram professoras, então me protegiam, tinham pena de eu ter perdido o pai e a mãe, então eu era mimada por eles. Eu adorava a escola, eu era amiga das professoras, ia às casas das professoras, se dava com todo mundo, tinha amigas para ir para a escola, para voltar, fazia parte de tudo. Sempre foi assim, sempre gostei da vida, então eu sempre fiz tudo. Marcou muito, sofri muito com a morte da família, porque eu perdi mãe, pai, irmão, irmã, tudo no primário, tudo isso no primeiro, o avô, tudo no primário. Mas foi muito bom, eu lembro muito bem da infância, foi muito gostosa.

 

P/2 - A senhora perdeu seus irmão...?

 

R - Agora depois de velha, tudo com idade, não foi antes, não. Só um que eu perdi com 15 anos, e a minha irmã que morreu com tuberculose, eu tinha dez anos quando ela morreu.

 

P/2 - E o seu irmão morreu de quê?

 

R - Um desastre, 15 anos, ele tinha. Também foi tudo perto.

 

P/2 - Lá em Avaré, também?

 

R - Lá em Avaré, ela também em Avaré, casada. Deixou uma filhinha, hoje já é avó, essa filhinha, essa filhinha dela quando ela morreu, mas foi tudo em Avaré, depois para São Paulo... Agora que eu estou perdendo meus irmãos.

 

P/1 - E me fala uma coisa, essa irmã da senhora que teve tuberculose, como é que ela se chamava?

 

R - Maria Luísa. Muito linda, foi a moça mais linda, foi a pessoa mais linda que eu vi na vida, muito linda, nossa! Como ela era linda! Mas...

 

P/1 - Ela morreu com quantos anos?

 

R - Ela tinha 24 anos.

 

P/1 - E a senhora lembra... Como ela era?

 

R - Ela era muito alegre. Quando a mamãe morreu eu lembro muito do colo dela, eu gostava muito de ficar no colo dela, ficar olhando. Eu achava ela muito linda, ela era loura, com aquele cabelão, aquele rosto lindo, então eu gostava de ficar olhando para o rosto dela. Quando ela morreu foi muito triste, porque eu acho que era uma segurança, uma mãe, porque não tinha outra irmã, o resto era tudo irmão, ela era a única irmã, éramos duas e seis homens, então eu gostava muito dela, achava ela muito linda, muito bonita, aquele cabelo louro que ela tinha, era a segurança que eu sentia. Também, além do amor de irmã, era a segurança que eu tinha com ela, que ela me pegava muito no colo, eu ficava muito no colo dela.

 

P/1 – E o que é que a senhora se lembra de quando ela ficou doente?

 

R - Ela foi ficando doente, assim, tristinha. Parecia um resfriado e era resfriado, era gripe, né? Naquela época eles não falavam gripe, falavam resfriado. Era um resfriado. Aí foi emagrecendo, teve a filhinha, já não aguentava tomar conta da filhinha, fraca, aí ela foi para o sanatório.

 

P/2 - Aonde?

 

R - Lá em Avaré mesmo, na Santa Casa de Avaré tinha o negócio separado, era lá na Santa Casa, porque tuberculose, como eu falei para você, era a AIDS [Síndrome da Imunodeficiência Adquirida] de hoje, então era separado o hospital da coisa... Eu lembro muito bem, eu era pequena, então quando eu fugia, ia lá espiar ela no sanatório, e às vezes eles me deixavam entrar para vê-la. Eu entrava escondido sem a família saber que eu tinha ido visitá-la, porque eu sentia muito a falta dela.

 

P/2 - E a família então não deixava...

 

R - Não deixava, não podia, imagina! Não podia ir de jeito nenhum. Ia domingo à tarde, uma tia, outra tia. Eu ia escondido e não contava que ia vê-la, porque não podia. Nossa, era uma tragédia! Como agora você vê todo mundo com a AIDS... Sabe que tem AIDS e ninguém aparece, ninguém faz uma visita, ninguém nada.

 

P/2 - E ela ficou muito tempo internada?

 

R – Ah, um ano, quase.

 

P/2 - Ela não conseguiu se curar?

 

R - Não. O médico sempre falava que o caso dela não era o pulmão, era pleura, e que ela não conseguia beber porque estava muito fraca. Antigamente davam aqueles fortificantes, mas era com vinho, com ovos, com coisa. Ela não gostava, eles falavam: “Mas toma”, ela não queria, sabe, tratamento de antigamente não era igual o de hoje, era fortificante. Eu não me lembro da minha irmã ter tomado um remédio, eu não vi. Eu via vinho com caracú, com ovos, sabe? Caracú com ovo batido, assim, no vinho do porto, com ovo e ervas. Mesmo na Santa Casa eu nunca vi. Quer dizer, eu era pequena, pouco ia, talvez ela tivesse, lógico, um tratamento, mas eu não lembro do tratamento dela.

 

P/1 - E doenças de crianças assim, o que é que a senhora teve, que a senhora lembra?

 

R – Normal, sarampo, essas doenças de criança... Eu nunca tive, era muito forte.

 

P/2 - E como a senhora tratava isso?

 

R - Do sarampo, minhas tias lá, com o bendito do emplasto. Eu tive negócio no pé, lembro que fazia aquelas papinhas e punha no meu pé, diz que era uma inflamação... Como é que chamava? Panarício! Eu nem sei o que é isso. Acho que inflamou a unha, então aquelas papinhas, aquele negócio... Porque ele precisava vazar, e remédio nada, não tinha, era iodo com as coisas comuns que desinfetava, só que doía pra burro, como doía. Mas coisa assim, importante, não tinha. Tinha que aguentar a dor, e era dolorida! Ai, como eu gritava! Eu achava ruim, não queria dor, não. Até hoje não quero dor.

 

P/1 - Então dor de garganta, essas coisas, você usava o quê?

 

R – Ah! Tive, por causa do sarampo, uma complicação. Vazou pelo ouvido, na cabeça, aqueles edemas... Essa cicatriz que eu tenho é sarampo que eu tive, então foi muito dolorido, porque tinha dor de ouvido e dor de garganta. Ah, como tinha dor de garganta! Eu detestava. Era gargarejo com vinagre com _______, com sal, com não sei o quê. Eu tinha um irmão que punha até com pimenta do reino, eu tenho horror até hoje à pimenta do reino, horror!

 

P/1 - Para fazer gargarejo?

 

R - Da garganta, porque aí matava os bichos, porque eu tinha um avô que tinha mania... Que precisava matar os bichos − ele não falava bactéria, não, falava bicho, eram os bichos − então, ah, como era triste fazer aquele gargarejo! Tomava alho sativo, era alho sativo.

 

P/1 - Para que é que servia?

 

R - Para febre. Na garganta a gente não tinha febre, então era sativo.

 

P/2 - Como é que era isso? Era nome?

 

R - Não, eu lembro que o nome era alho sativo, comprava na farmácia.

 

P/2 - Era o que, um comprimido?

 

R - Não, eram gotas, gotinhas para tirar a febre, o tal de alho sativo. Não tinha... A gente ia comprar na farmácia o remédio, parecia remédio homeopata, que a gente buscava porque era remédio de ervas, não tinha... Eu que vim conhecer antibióticos, vitaminas, essas coisas, depois de moça. Quando criança, no interior, nossa, era o fim do mundo! Uma vez me levaram no médico, todo mundo soube que eu tinha ido ao médico... Eu tinha o que, treze anos? Primeira vez que fui ao médico.

 

P/1 - Por que a senhora foi ao médico?

 

R - Porque a menstruação não descia. A minha tia estava preocupada e me levou. Era assim mesmo, não deu remédio, não fiz exame nenhum, não fez nada: “É normal, uns vêm mais tarde, outros eram assim, pronto” E continuou. Minha tia que me criou estava preocupada, porque eu já tinha 13 anos, já tinha corpo de moça − tinha o corpo de hoje, porque eu não desenvolvi mais − e não vinha, não tinha menstruação, então era...

 

P/2 - A família inteira ficou sabendo que a senhora tinha ido ao médico?

 

R – Ah, todo mundo. Meus amigos também, na escola também “nossa você foi no Dr. Paulo?” “Fui”, eu lembro até hoje: “E o que é que ele falou?” “Não, não falou nada”. Porque as meninas antigamente tinham uma curiosidade que hoje eu não vejo, demais isso, eu achava uma graça. Eu achava uma graça ela me perguntar como eu desenvolvi primeiro, então vinham: “Você já tem seio? Ah! Dói? Faz isso? Faz aquilo? Ah! você tem seio mesmo? Você vai usar sutiã?” Era coisa de outro mundo, era uma curiosidade... E gozado que o sexo a gente não se preocupava, o que aparecia que a gente se preocupava. Então era uma preocupação entre as menininhas, se já tinha seio, se ia usar o sutiã, se a tia tinha feito − porque não tinha pra comprar, tinha que fazer − e a gente usava que nem uns espartilhos, para ficar com o corpo bonito. Tinha que usar uns negócios daqui, apertar atrás, era que nem um espartilho, feito de fustão, um tecido grosso. A gente tinha que ficar retinha, e eu tinha vergonha, então ficava acanhada... Não podia, tinha que usar aquele negócio, durinha. Elas tinham uma curiosidade de saber isso. Não só a gente, de namoradinho, dessas coisas. Hoje eu vejo a juventude, 12 anos se pintando, já falando em danceteria, em boate. Ah, que judiação! A gente... Foi tão gostoso, tivemos uma infância tão boa, né? Ia passear, ia brincar com todo mundo. Eu adorava brincar de faroeste com os meninos. Minha tia ficava tão brava! Acho que por isso que me levou ao médico, minha menstruação não vinha, eu adorava brincar com menino... Tenho impressão que seja isso, ela não fala, ninguém falou nada, mas eu adorava brincar de “bang-bang”, mas só do lado do mocinho, nunca queria ficar do lado do bandido, porque apanhava.

 

P/1 - Como é que vocês faziam, dividiam, brincavam onde?

 

R - Meu tio tinha aqueles troles para consertar, antigos de fazenda, aquelas charretes. Então cada um tinha o seu território, tinha os caixotes, que vinha material aqui de São Paulo para ele, a gente pulava lá dentro para se esconder. Tinha espaço à vontade, no interior tinha muito espaço. Brincar na rua mesmo, na garagem... Tinham aquelas sacadinhas, mas a gente alugava para sacas de café. Lá a gente subia, descia, uma vez um amiguinho nosso caiu de lá, quebrou o braço, foi uma tragédia. E não podia subir, a gente ia fazer aquilo à noite, escondido, fui muito peralta. Foi muito gostosa a minha infância.

 

P/2 - A senhora falou que ia à farmácia. Tinha farmacêutico?

 

R - Tinha farmacêutico, era a Neufarmi, lá em Avaré. Era chique Neufarmi, tinha farmácia que aplicava injeção. Tinha tudo, era Neufarmi, lembro bem.

 

P/2 - A senhora ia lá, falava a doença e ele aplicava o remédio?

 

R - Preparava o remédio e tomava.

 

P/2 - Tudo na base da erva?

 

R - Aí veio essa Neufarmi, que já trazia remédios daqui de São Paulo, era mais antigripal, que era em uma cápsula “desse tamanho”, remédio de gripe, mas era imenso. Era assim, que nem uma massinha, não sei, uma cápsula grande e redonda, lá tinha uns remédios, então engolia aquilo. Era duro aquilo, e tinha que engolir. E tinha o posto de saúde que a gente contava no colégio. Tinha que tomar, era lombrigueiro, a gente tinha que tomar umas cápsulas grandes e eu, muito viva, toda vez que eu ia para o posto, ia com o guarda-chuva. Ninguém nunca percebeu, porque eu punha debaixo da língua, saía de lá, jogava no guarda-chuva. Eu sempre inventei moda, sempre fui triste. Sempre tinha gente atrás de mim e eu sempre tinha uma desculpa: “Você tomou”? “Que tomei, nada!” “Como é que você não tomou”? “Não tomei”. Aí saía na rua, abria o guarda-chuva e pronto, ia pra casa, ninguém percebia. Sempre fui peralta.

 

P/2 - Que remédio mais a senhora lembra?

 

R - Falavam lombrigueiro. “Imagina se eu tenho lombriga?” Achava uma coisa horrorosa. Imagina, nunca! Ah, não tomava.

 

P/2 - __________?

 

R – Não, eu não tomava, achava um absurdo. Morria de medo, eu pensava no bichinho andando assim por dentro, que medo eu tinha! “Não vou tomar isso não”. Não tomava, aí tinha que ir... De tantos em tantos meses a turma toda do grupo saía lá para o posto, tomar o tal do lombrigueiro, que eles falam, que eu nem sei o que é isso. Sei que era remédio para bicho, que deveria ser lombrigueiro. Aí eu nunca tomei. Quando era o tal dia: “Por que é que você está indo de guarda-chuva?” “Porque eu gosto”. “Deixa aí”. “Não deixo não”. Tem sol, tem chuva, sempre inventava uma história, mas eu ia de guarda-chuva, sabe, não fechadinho, assim, aberto, sempre fiz. E quando, com a minha tia... Eu sempre driblei. Podia tomar coisa assim, aquelas cápsulas imensas... E chá? Eu odeio chá até hoje, tinha que tomar chá de tudo.

 

P/1 - Chá do que, a senhora se lembra do que era, para que era?

 

R - Chá de erva doce era para má digestão e gazes. Chá de hortelã era para acalmar e para lombriga, odiava esse chá. Diziam que era bom pra lombriga, tinha que tomar chá de hortelã, até hoje... De menta, né, não sou amiga, chá de...

 

P/1 - Guaco?

 

R – Guaco, até hoje tem um negócio grosso, assim. Eu gostava do cheiro, o cheiro era gostoso. Tinha que tomar aquilo, aquele chá preto, que é o chá da índia. Eu não suporto, não sou amiga de chá. Hoje sei que é porque eu tenho pressão baixa e todo o chá é diurético me faz mal, mas quando criança eu não sabia né, então eu não suportava chá e era obrigada a tomar. O chá com canela pra gripe era com açúcar queimado, aquele chá... Quando veio o remédio, adorei, porque aí só tomava um comprimido, pronto. Não tinha mais que tomar, mas era difícil, nossa! No interior era muito difícil, e era criado assim mesmo, todo mundo à vontade, não tinha _______ saúde, quando vinha alguém que tinha apendicite, ou que foi operado, foi para a Santa Casa, era o fim do mundo, era uma coisa assim, que todo mundo: “Nossa, ele foi operado de apendicite! Mas de que jeito?” Era muito... Ou a gente não tomava conhecimento, por ser criança, talvez fosse isso também. A gente brincava muito, tinha muita brincadeira, cada dia inventava uma coisa. Um dia era pular corda, outro dia era bola, que são excelentes exercícios, hoje... Para motor, que a gente não sabia, mas fazia aquilo com mais liberdade. Andar de bicicleta, andar de patinete, jogar bola na parede... Porque hoje todas as escolas fazem isso, e é muito bom para a criança. Fazer roupinha para boneca, teatro, brincar de teatrinho... E eu queria sempre cantar, mas eu não tinha voz, então era vaiada. Eu ficava brava, queria sempre cantar, não sei porque. Não tinha voz nenhuma, minha voz era horrorosa e queria cantar, fazer teatro... Era muito gostoso.

 

P/1 - Com quem a senhora morava na casa?

 

R – Ah, na casa era bastante gente, muita gente. Eu era sobrinha e tinha a família toda, eu acho que eram nove filhos, e já tinha os casados, já tinha os pequenininhos.

 

P/2 - Eram todos da sua mãe?

 

R - É irmã da mamãe.

 

P/2 - Era ela, o marido e os nove filhos?

 

R - Eu acho que os nove filhos, eu nem sei dizer.

 

P/2 - Mais os dois filhos da sua mãe?

 

R – Não, cada um... Se separou. Meus irmãos se separaram, cada um foi para uma família. Os irmãos da mamãe eram bastante, então cada um ficou com um, e os grandes, adultos, já não precisava mais morar com mais ninguém, e ficaram na chácara do vovô. Então eu era muito pequena, eles não deixaram. Era muito bom. Depois vim para São Paulo.

 

P/2 - E aqui em São Paulo a senhora morava com quem?

 

R - Eu morei com uma tia e um pouquinho depois fui para um pensionato de freiras. Eu morei em um pensionato de freiras em São Paulo, eu tinha 15 anos quando fui, e só saí de lá casada, morei o tempo todo lá com elas.

 

P/2 - Onde era?

 

R - Ali na Luz, perto da São Cristóvão, bem ali na Tiradentes, no comecinho. Na 25 janeiro tinha um pensionato de freiras que era da liga das senhoras católicas, e eu morava ali e trabalhava lá embaixo, perto da Antônio Pais, que fica na matriz das Casas Pernambucanas. Eram lá, porque eu trabalhava no escritório, das pernambucanas, então era pertinho, era uma delícia. Todo dia ia a pé, voltava a pé, conhecia todo mundo. O bairro também, eu conhecia todo mundo no bairro.

 

P/2 - A senhora trabalhava de que, nessa época?

 

R - Eu comecei como escriturária.

 

P/2 - Nas Casas Pernambucanas?

 

R – É, escriturária. Na estatística, depois no faturamento, cada seção... Quando eu saía eles iam começar a pôr máquinas. Eu já estava trabalhando em uma máquina que fazia datilografia. A gente fazia o cálculo do lado e era transportado, não eram 500 fios, não era nada moderno como hoje, estava começando.

 

P/2 – Isso era 1950?

 

R - Não, essa... Em 61 já tinha essa máquina.

 

P/2 - Não, eu digo, quando a senhora foi trabalhar nessa...

 

R – Ah, era em 50. Aí eram só trabalhos manuais, não tinha nada... Eram máquinas de datilografia, máquina de cálculo separada, não tinha nada de... Depois que eu saí que começou, o computador foi bem depois.

 

P/1 - A senhora falou que começou a trabalhar com o seu tio mesmo, né?

 

R - Quando pequena, adorava tomar conta da loja. Ele ia almoçar e minha tia mandava eu descer pra ficar na loja. Precisava tomar conta da loja, ele achava importante ficar lá, e vendia tudo direitinho. Marcava − porque antigamente não se comprava a dinheiro, cada um marcava, tinha um livro grande pra marcar −, e eu marcava tudo direitinho. Ou então ele me chamava pra receber uma encomenda de uma carroceria, de um caminhão com tantas polegadas, tanta largura, tanto isso, a cor que... Punha direitinho. Nossa, escrevia direitinho! Achava lindo trabalhar no escritório, sempre fui... Serviço de casa eu não gostava, odiava, mas tinha que fazer, né? Gostava de escritório, sempre gostei.

 

P/1 - Eles tinham loja do quê?

 

R - De presentes e de ferragens. Antigamente era tudo junto, vendia presentes, vendia ferragens... E em frente tinha a oficina dele, muito grande, que também a loja servia a oficina. Então como ele tinha que comprar as coisas para tocar a oficina, já abriu a loja, e tinha loja desde 17, 18, sei lá, acho desde que veio para o Brasil.

 

P/1 - E aí, por que a senhora veio para São Paulo?

 

R - Porque eu queria estudar e eles não me deixavam, eu queria trabalhar fora e não podia. Naquele tempo moça não podia falar em estudar, em aprender piano, coisa... “Você vai aprender piano no fogão”. Ficava doida quando ouvia isso, eu ficava louca: “Que aprender piano no fogão!” Eu queria aprender, sempre quis aprender, e não podia. Eu falei “Eu estou aqui, ela é minha tia, ela não manda em mim. Eu vou embora.” Vim embora para São Paulo, escrevi para o meu irmão até conseguir que meu irmão fosse me buscar pra eu vim embora para São Paulo. Ruim foi ter ficado na casa da minha tia, mesmo ritmo lá: moça não podia estudar, moça não podia trabalhar fora, moça não sei o quê. Fui, até que descobri uma amiga da minha mãe que era prima de 2º grau meu. Sem ninguém saber, descobri onde ela morava, ela tinha vindo do interior menina. Descobri onde ela morava e fui pedir emprego para ela nas Pernambucanas, mas que não contasse para ninguém, só quando ela tivesse arrumado. Ela arrumou, porque ela trabalhava lá, desde o tempo de 30 ela já trabalhava nas Pernambucanas, amiga de todo mundo lá dentro. Quando ela chegou em casa avisou:  “Olha,  a Bernadete vai trabalhar comigo, arrumei emprego para ela.” E foi aquele não, mas bati o pé e fui. Daí queria estudar à noite, não deixavam porque antigamente não era estudar à noite, era namorar e eu pensava: “Que namorar nada. Eu quero estudar, eu quero aprender”. Fui embora, consegui arrumar o pensionato, fui morar no pensionato, inclusive a madre superiora era de Avaré, me conheceu com sete anos, e eu tinha mentido a minha idade, quando ela viu disse... Ela me chamava de Vendramine, porque o meu tio que me criou era Vendramine, né: “Ah! Vendramine, você aqui, não sei o quê, como é que vai Avaré?” Eu falei “Avaré está bom”. Me abraçava, ela:  “O que é que aconteceu?” “Menti madre, e agora?” “O que é que você mentiu?” “Menti a minha idade”. “Ah, está bom, minha irmã Sofia vai ficar sim, ela pode ficar”. Pulei de alegria, porque eu não podia ficar no pensionato.

 

P/2 - Qual era a idade?

 

R - Eu estava com 15 para 16 anos.

 

P/2 - ___________?

 

R - Dezoito anos, mas como eu tinha o corpo que eu tenho hoje, sempre meio gordinha, então eu dizia que tinha, porque eu ia fazer 18 anos. Mas que 18 anos nada, eu tinha 16, e ela me conhecia quando pequena, então ela sabia a minha idade, quando ela viu: “Fiquei contente”. Quando eu lembro, falei assim: “Madre, fiquei tão contente em ver a senhora, mas estou tão triste” “Mas por que, Vendramine?” “Porque eu menti a minha idade, a senhora me conhece”, falei baixinho. Quando ela falou para a secretária dela: “Tá, ela vai ficar sim, eu conheço ela desde criança, ela vai ficar” Pulei, porque era pertinho, dava para eu estudar, dava pra eu aprender coisa no Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], no Sesi [Serviço Social da Indústria], não sei, onde davam aquelas aulas de graça né, bordado...

 

P/1 - Culinária?

 

R - Curso para formar moça, não sei, ensinava a bordar e eu ia poder sair, porque a gente, no pensionato, tinha ordem para sair quando tinha compromisso, e eu descobri uma moça que fazia o curso lá porque estava noiva de bordado já, aí eu fui, fiz todos os cursos que tinha, toda noite.

 

P/1 - No Senac?

 

R - Olha, não sei se aquilo era Sesi, Senac, era uma coisa antiga, não é de agora. Era lá na Penha, o único que tinha. Eu tomava o bonde ali na Luz, na São Caetano, e ia até a Penha. Hoje eu procuro o lugar “Aonde será que era a coisa aqui...” E eu ia, porque saía toda a noite, via gente, conversava e voltava. Fiz tudo, curso de culinária... Na época ela ensinava os valores da comida, aí já fui aprendendo o que era vitamina, o que era... Adorava, não era como hoje, nem rudimentar, mas eu gostava, me achava importante.

 

P/2 - E dona Bernadete, o que a senhora lembra de quando chegou aqui em São Paulo? Da cidade, assim?

 

R - Ficava encantada! Porque antigamente a gente ia passear... No ano 50 a rua direita era chique, a cidade, a Praça da Sé era bonita, então a gente ia todo o domingo para lá. Eu me encantava de olhar os prédios, de olhar a arquitetura. Minha tia falava que era do Paulo Garbo, um prédio Francês, eu sabia lá o que era Francês? Eu ia lá olhar a arquitetura, adorava, achava lindo, nossa! Me sentia realizada em São Paulo. Ia para a Praça da República, ia para a Luz , naquele jardim da Luz. Quando eu vim, São Paulo era bonita, eu tenho até a fotografia, pena que não sei onde é que está, mas eu tinha fotografia do jardim da Luz. Era chique passear lá, porque minhas tias contavam “quando moça ia que era assim, agora está uma porcaria”, aí eu dizia: “Não está feio.” Porque eu não entendia né, porque no tempo delas era diferente. Eu dizia: “Não está feio, está tão bonito”, adorava. A Praça da República era tão linda, era tão gostoso.

 

P/1 - Como é que era a Praça da República?

 

R - Era florida, mais mato, mais coisa. Você podia sentar, falar da Caetano de Campos. Eu dizia: “Ah meu Deus do céu, eu vou estudar aqui.” Eu ia lá olhar a Caetano de Campos, achava... Naquele tempo não podia, porque dizia que era só de dia, mas eu queria estudar na Caetano de Campos, achava lindo, importante, gostava de teatro já, já ia a teatro, achava lindo ver a Bibi Ferreira no “moças do chapéu verde”, eu me lembro que foi a primeira peça que assisti assim naquele...

 

P/2 - Que teatro era?

 

R - O teatro eu não lembro, mas era a Bibi Ferreira, eu achava lindo.

 

P/1 - Dona Bernadete, qual era o cotidiano do pensionato, lá com as freiras?

 

R – Ah, uma delícia. Bom, eu não posso dizer para vocês uma delícia porque pra mim tudo é bom, porque eu sou uma pessoa feliz, realizada, tudo para mim é bom. Eu tinha apelido de “disquinho”, porque diziam que eu estava em todas, tudo o que acontecia de bom, de coisa, eu estava. Então para mim era uma delícia, porque lá tinha senhoras de idade, então eu tinha avó, tinha sogra, tia, mãe, irmã. Porque eram 100 pessoas, então era uma delícia. Eu conhecia todas e eu convivia com todas. Se tinha uma festa, não sei o quê, eu estava junto. Se tinha isso, não sei onde lá para visitar um asilo, não sei o quê... O único lugar que eu não ia que eu lembro tão bem era vila Mascote, eu achava que era o fim do mundo ir do pensionato na vila Mascote, porque tinha que vir para o Jabaquara, depois do Jabaquara tomar uma condução até o Aeroporto e depois do Aeroporto vinha a vila Mascote, eu achava o fim do mundo. Esse lugar era o único lugar que elas não me pegavam para visita, o asilo dos velhinhos, que me parece que não tem mais, porque esse ano, o ano passado, parece que desativaram. Vai ser um prédio de apartamentos ali, e hoje eu moro perto da vila Mascote. Quando moça achava o fim do mundo... E era muito bom.

 

P/2 - E a senhora fazia visita também?

 

R - As freiras às vezes pediam para a gente, moças, ir, para visitar, para conversar, para ver coisa de criança... Em orfanato, eles falavam, né? A gente ia ao orfanato, ia nesse da vila Mascote... Eu achava muito longe, gravei essa vila Mascote: “Nós vamos para a vila Mascote” - eu dizia. Eu sumia das freiras, me escondia para elas não me pegarem. Não vinha, mas era muito gostoso, e depois você tinha amizades com todas, eram moças que vinham estudar em São Paulo, moças já professoras, vinham começar a lecionar, porque antigamente a professora tinha que lecionar em diversos lugares para conseguir para a sua cidade, então eram moças que vinham lecionar, moças que vinham estudar, senhoras que já eram da minha idade. E naquela época, não é que elas não tinham família, elas tinham, vinham morar para não morar com os filhos, não morar com nora, pra não morar sozinha, então elas vinham morar no pensionato.

 

P/1 - E qual era a rotina, assim, tinha que acordar uma determinada hora, tinha café da manhã, missa? Como é que é isso?

 

R - Tinha. Não era obrigado a ir na missa durante a semana, todo mundo trabalhava, tinha missa todo o dia lá, mas a gente ia assistir missa aos Domingos, não dentro do pensionato,  fora − na São Cristóvão, fazia parte da igreja da São Cristóvão. Imagina se eu ia ficar lá dentro, eu procurava outro lugar, frequentava São Cristóvão, Nossa Senhora Auxiliadora, o Frei Galvão onde hoje é museu, São Bento, Santa Efigênia, eram igrejas lindas! E eu achava lindas, as igrejas, então cada dia a gente ia a uma igreja, mas tinha que ir, isso as freiras procuravam ver. Não falavam diretamente, mas sabiam por que não iam, o que acontecia. Mas era muito gostoso, e lá a gente convivia com todas, e todas tinham seus namorados, suas famílias. A gente ia passear na casa delas, elas levavam, convidavam... Eu principalmente, acho que fui na casa de todas elas: em Botucatu, Jundiaí, Jarinu, Bragança, todos esses lugares. Eu adoro viajar, então: “Vamos para casa”? “Vamos. É feriado, dá para ir”. Eu ia, tomava o trem e ia embora.

 

P/1 - Dona Bernadete, acontecia casos assim, de ter algumas pessoas doentes ali, que pegavam a mesma doença no pensionato? Tinha que ter um cuidado maior com as meninas?

 

R - As velhinhas, né, sempre cuidado com elas. Elas eram sempre cuidadas, e quando tinha doença... Eu lembro tão bem de uma amiga que teve caxumba, ninguém queria cuidar, porque diziam que pegava, mas o médico veio eu falei:  “Mas doutor, caxumba pega?” Ele disse: “Dela não, porque é infecciosa. Tem dois tipos de cachumba.” E falei:  “Essas ignorantes!” Eu sempre achei que os outros não sabiam nada, não sabem que tem dois... Passei a dormir com ela e cuidar dela... Fazia sucos − porque o médico falou que ela precisava de super alimentação − passei a dormir no quarto dela, porque a moça foi dormir no meu quarto, tinha medo de pegar caxumba, então eu que cuidava dela. Ela ficou meses, coitada, até tratar! Eu que dava o remédio...

 

P/1 - Que remédio era?

 

R - Ela tomava vitaminas e tomava remédio para... Não sei se era para infeção, não me lembro. Vitamina eu lembro que ela tomava bastante, tinha que fazer vitamina, então a gente roubava o liquidificador do quarto de um escondido que a irmã emprestava... A outra não podia emprestar, porque não deixava, então quando essa irmã saía, a gente pegava correndo de um quarto, trazia, fazia, arrumava, limpava e ela levava para pôr do jeitinho que estava no quarto da irmã dela, não da freira. As freiras também davam remédio. Os remédios era eu que dava, direitinho, as horas. Tinha medo de dar.

 

P/1 - Por que esse medo tão grande, assim? Era normal?

 

R - Achavam que caxumba pegava e que ia pegar, e todo mundo... E a dela não passou para ninguém, o médico falou que era infecciosa, e que eram dois tipos de caxumba que existiam. E eu sempre cuidava, sempre gostei de cuidar dos outros. Até que chamavam − ainda me chamam − de Irmã Dulce, porque sempre fui de fazer as coisas para os outros, então cuidava das velhinhas quando estava doente, com coisa, tinham que tomar xarope, era muito xarope, para a gripe, elas ficavam muito gripadas por causa da idade. Hoje a gente entende isso, entrar o frio e coisa, mas naquela época eu não sabia. Então é a idade, depois quando elas iam para o hospital eu ficava tão triste que levavam elas embora, eu ficava muito triste, gostava muito delas. Cuidava, cortava cabelo das velhinhas, fazia unha, fazia roupa, metida a tudo.

 

P/1 - Deixa eu perguntar uma coisa para a senhora. A senhora se lembra dos primeiros remédios que a senhora tomou? Porque a senhora falou que tinha muito chá, que quando veio o remédio foi um alívio. A senhora se lembra dos primeiros comprimidos que a senhora tomou?

 

R - O bendito antigripal, que era um negócio grande que a gente tomava, e depois teve... Sei que os benditos daqueles remédios com aquela cápsula grande, aquilo era duro de tomar e engolir. A gente tinha que tomar muito também aquele Emulsão Scott, que tinha gosto de peixe. Eu me lembro que quando a gente chegava em uma idade que tinha que tomar... Que coisa horrorosa.

 

P/1 - Para que é que servia?

 

R - Para crescer, para estar forte, devei ser com uma vitamina, Emulsão de Scott. E o outro, que até o meu marido adorava também, que ele contava história do Jeca Tatu lá.

 

P/1 - O Biotônico?

 

R - É, o Biotônico que tinha dele. Pena que eu não tenho em casa, mas o meu marido até guardou o almanaque com a historinha do Jeca Tatu. Tinha que tomar. Nos ônibus... Aliás, nos bondes, tinham as propagandas... O Biotônico.

 

P/1 - Como é que era?

 

R – Ah, não lembro. Era interessante... Não lembro. Tinha um negócio do xarope São João, tinha do Emulsão Scott, que era um homem carregando um peixe nas costas.

 

P/1 - Era feito a base de peixe?

 

R - Era, cheira bem... Até hoje tem, esse remédio tem até hoje, e Biotônico Fontoura tem até hoje, e conheço muita gente que toma, viu?

 

P/1 - É?

 

R - É. Toma o tal do Biotônico e as vitaminas que eu tomava já naquela época. Eles diziam que tinha que comer muita fruta, comer muita verdura. Eu sempre tive uma alimentação boa, mas tinha que tomar os benditos remédios. Olha, era duro, graças a Deus que agora melhoraram bastante, porque era difícil tomar. Melhoral, então? Era o fim do mundo tomar Melhoral.

 

P/1 - Por quê?

 

R - Desfazia na boca e dava uma dor de estômago por causa da aspirina, não sei, tinha que tomar. Eu não contava quando eu estava ruim, quando eu mudava a voz com tanta dor de garganta, aí que falavam, porque a gente escondia. A gente não queria tomar remédio, pôr o negócio na garganta assim, era um lenço úmido com álcool, com cânfora na garganta, porque a cânfora era bactericida, então eles diziam que a cânfora era boa por causa do cheiro, o negócio que punha aqui no... Era triste! E tinha muito... Por exemplo, o que usava muito antigamente, que eles punham o álcool, a casca da fruta, a casca da romã... Cada coisa era para uma determinada doença.

 

P/1 - Punha no Álcool?

 

R - É.

 

P/1 - E depois passava na pele ou tomava?

R – Não, pra passar, pra passar na perna, para dor de perna. Eu lembro que tinha uma amiga minha que tinha sempre isso. Era álcool com a casca da romã, casca não sei do que lá, sei que era do álcool que punha.

 

P/2 - E ela usava para quê?

 

R - Para dor de perna, para passar na perna. Uma vez passei e não achei nada, então eu não queria, achava... O que eu queria, eu resolvia era tomar injeção. Não sei do que é que eu tomava injeção, eu resolvia era injeção, porque eu não gostava de chá, chá para mim era triste tomar. O que mais eu lembro? Emulsão de Scott, o xarope São João, Biotônico... Tinha uma coisa que eles falavam que era fortificante, na época da tuberculose, mas eu não lembro. O que mais, Cláudia?

 

P/1 - A senhora contou lá fora aquela história de uma moça... Até que o pai teve tuberculose...

 

R - Minha sogra.

 

P/1 - Sua sogra?

 

R - Minha sogra casou-se e veio para São Paulo. Ninguém sabia que meu sogro era tuberculoso. Nove meses dela casada, ela estava grávida e ele começou a pôr sangue pela boca. Tem um nome, né?

 

P/2 – Hemoptise.

 

R – Hemoptise. Aí ele foi para o sanatório, e ela tinha que voltar para Itapira, porque ela não tinha com quem ficar aqui. O pai dela, o avô do meu marido, exigiu que ela fizesse todos os exames, todas as injeções, para depois voltar para Itapira, porque o marido estava tuberculoso, senão ela não poderia voltar para casa, mesmo grávida já, precisando voltar para casa do pai, ela não podia ficar. Antigamente mulher não era assim, que podia arrumar emprego, minha sogra era muito dependente, então ela tinha que voltar. Ela trabalhava com bordados, fazia bordados muito lindos, mas ela tinha que voltar para Itapira, pra família dela. Ela teve que fazer todos os exames, senão ninguém aceitava. O pai não aceitava, então a sociedade também não aceitava que ela voltasse, era muito grave tuberculose.

 

P/2 - E o seu sogro?

 

R - O meu sogro morreu em São José, tuberculoso.

 

P/2 – No sanatório?

 

R – No sanatório. Esses dias eu fui pegar o atestado de óbito dele.

 

P/2 - Quando é que ele morreu?

 

R – Trinta e cinco. Ele viveu ainda nove anos no sanatório, que absurdo.

 

P/2 - Nove anos?

 

R – Nove anos, porque meu marido contava sempre, tinha nove anos. Eu vou ver o atestado de óbito dele, mas eu acho que era sim, nove anos no sanatório. Absurdo, né? Não tinha tratamento, era fortificante, só fortificante e um lugar que tivesse ar, que era São José e Campos do Jordão, sanatorinho. Não tinha em outro lugar tratamento de tuberculose, morria mesmo. O que é que adiantava ficar tomando fortificante, se era um bichinho, um negócio do bacilo?

 

P/2 - Seu marido era filho único?

 

R - Filho único. Tinha que tomar sangue de boi, ia buscar... Quando ele era criança ele contava, ia buscar no matadouro o sangue para fazer chouriço para tomar. Tomava líquido, ele quente ainda, ele tomava, era um absurdo, as coisas.

 

P/2 - Mas o que é que tomava?

 

R - Meu marido, porque o pai foi tuberculoso, então tinham medo que ele também pegasse a doença, que ele ficasse tuberculoso.

 

P/2 - Ele tomava o sangue?

 

R - Sangue do boi. Ele ia buscar, contava que ia ao matadouro pegar litro de sangue, leite quente com canela, não tinha... O que é que ia fazer? Não tinha remédio e eles tinham medo que ele ficasse doente, então ele tomava.

 

P/1 - Ele nunca teve tuberculose, nada?

 

R - Não. Ele morreu de aneurisma cerebral. Também foi uma tragédia, em 77, não está muito longe, só são 20 anos, né? Ele ficou três meses hospitalizado, desde a operação, voltou para cá, depois de cinco diziam que ele ia começar a melhorar a memória − porque ele ficou completamente esquecido... Já era pra falar isso? Acho que não ainda...

 

P/1 - A gente vai e volta, não tem problema.

 

R - Depois eu falo disso.

 

P/2 – Aqui, quando a senhora estava no pensionato, a senhora estava estudando o quê?

 

R - O ginásio, lá no Alfredo do Pucca ali perto, uma travessa da Santa Efigênia com.... Alfredo do Pucca, colégio famoso. Eu ia estudar lá porque a minha amiga trabalhava lá e eu estudava de graça, então eu ia à noite. Como ela trabalhava e tinha que vir − ela já era mais velha que eu −, então tinha companhia. As freiras deixavam até dez horas só, depois ninguém entrava, fechava o portão e ninguém entrava.

 

P/1 - E se ficasse para fora, o que é que acontecia?

 

R - Tinha que ter motivo. Tinha que ter carta, tinha que dizer onde é que estava, endereço, se era irmão... Porque de vez em quando eu ia para a casa do meu irmão, mas ele tinha que telefonar ou me buscar. Era controlado, mas era muito gostoso, e também era normal, porque a gente se sentia também segura. Ali ainda tinha bonde e tudo, na Luz, na época que eu morava lá, era uma delícia tomar bonde. Tinha aquele ônibus “Estações” que a gente ia todo o lugar, parece que tem ainda, chama agora Circular, antigamente era Estações, porque passava em todas as estações. A gente tomava para ir em todo o lugar de São Paulo, era muito bom.

 

P/1 - E aí a senhora se formou, continuou trabalhando na Pernambucanas?

 

R - Continuei trabalhando, e ia começar a fazer o colegial, depois começar a estudar o último ano de colegial junto com o cursinho, mas esse aí eu já era casada, porque aí eu parei no ginásio e eu comecei... Fiz o colegial já casada.

 

P/2 - O colegial a senhora fez onde?

 

R - Aqui no... Esqueci o nome, ai, não me lembro! Aí eu fiz na Eugenio de Lima, eu fiz o coisa... Dirigia, vinha de carro, depois não deu para eu continuar, tive que parar porque o filho ficou doente e eu voltei a estudar no Indac [Instituto de Arte e Ciência]. Lembra do Indac? Eu fiz todo o curso lá, já estava fazendo cursinho com eles. Hoje tem ainda, mas não está na Eugênio de Lima. Eu já morava aqui, estudei com eles. O Indac está, parece, do outro lado da cidade.

 

P/1 - Ali perto da Franz Schubert...

 

R - Não sei onde está, mas sei que tem ainda o Indac.

 

P/1 - Deixa eu perguntar uma coisa, como é que a senhora conheceu seu marido?

 

R - Na rua.

 

P/1 - Conta para a gente?

 

R - Voltando da escola. Na escola eu fazia datilografia, era mocinha, tinha o quê, 17 anos? Eu fazia datilografia, tinha uma amiga que ia comigo, mas só pra fazer companhia e voltar. Então ela ia comigo muito alegre, ela ia voltando, mas: “Olha que carro, olha que rapaz bonito!” Eu olhando: “É, bonito”. A gente tinha medo, a gente tinha medo de rapaz que tinha carro. “Imagina, carro! Não sei o que” Eles pararam, viram eu e ela indo para o pensionato, pararam, desceram do carro e vieram conversar, e como eu tinha medo, fiquei seria e sisuda. Um mocinho que ela achou lindo, foi logo conversando, ela toda risonha. Aí diz − ele que falou pra ela − “Fica com a feia aí.” A feia era eu, estava carrancuda. E começamos a namorar, ele era de Itapira... Anos e anos namorando e deu certo. Foi na rua, na Ipiranga ali, a escola era na Santa Efigênia, bem lá atrás, e descendo a Ipiranga indo para o pensionato eu conheci ele, mas não podia namorar no carro não, as freiras não deixavam. Tinha que vir, deixar o carro ali perto onde elas vissem. A gente ia de bonde no cinema, voltava, tinha aqueles barzinhos na rua São Luís, depois de bem mais tempo, muitos anos de namoro, a gente ia de sábado à tarde, domingo à tarde, mas tinha que ter sempre a companhia de pessoas mais velhas. Então ele dizia: “Mas meu namoro custa caro”. Porque aí podia ir com o carro... Era sogra, ela era tão velha que eles chamavam ela de sogra, então podia ir com a sogra, podia ir passear.

 

P/2 - Quem é que acompanhava a senhora?

 

R - Era uma senhora de idade, meu marido chamava ela de sogra, porque eu já tinha idade, já era uma moçona. Solteira, mas era uma moçona.

 

P/2 - Morava no pensionato?

 

R - Morava no pensionato, e ela queria muito bem o meu marido, dizia: “Você vai casar com ele.” Aí eu falei: “Que eu vou casar com ele nada, não caso com ele nada.” “Vai sim, vai casar com ele.” Por causa disso, que ele queria bem a ela, e ela a ele, ele chamava ela sempre de sogra, ficou com apelido de sogra. Ele: “Sogra, sogra”, não chamava ela pelo nome.

 

P/1 – Por que a senhora não queria casar?

 

R - Porque eu achava ele velho. Ele não era tão velho, tinha os cabelos brancos, meu marido sempre teve cabelos brancos, então quando eu o conheci ele já tinha bem grisalho assim, 27 anos, imagina! Meu filho hoje também tem, os dois assim. Eu dizia “Ah, imagina, vou casar com um velho?” Fazia música pra ele.

 

P/2 – Quantos anos a senhora tinha?

 

R – Eu tinha 17 e ele tinha 26 anos. Eu já achava 27 anos... Eu achava que ele era velho, dizia que não casava com ele não, que eu ia casar com um broto. Eu namorei só ele. Ele tinha mãe em Itapira, ia sempre para Itapira.

 

P/2 - Quanto tempo isso durou?

 

R - Cinco anos, casei com 22 anos. Cinco anos.

 

P/1 - E como é que foi o casamento da senhora?

 

R - Foi muito lindo, nossa, foi muito... Eu tenho fotografias até hoje, porque eu fui menina pra Pernambucanas, tanto que quase todo mundo me conhecia, o pessoal do escritório, todo mundo, porque eu estava no armazém, em cima, tudo, e sempre falando, né, sempre conversando. E do pensionato também, então a igreja notou que tinha gente na rua e teve festa no pensionato, as freiras fizeram festa. Tinha gente... Só do pensionato tinha já 100 pessoas, mais os que foram... Parentes e pessoas da Pernambucanas. Então foi uma festa, um negócio! Eu tenho fotografias, se der eu mostro para vocês.

 

P/1 - Que igreja foi?

 

R - Na São Cristóvão. Era o padre Guilherme, na época, da São Cristóvão, que tinha a Santa Filomena. Como tem São Judas hoje, lá tinha Santa Filomena, todo dia dez. A igreja enchia de gente, porque eu já era conhecida, depois teve... Fez o São Cristóvão dia 25 de julho, era uma igreja bastante movimentada. Hoje está feinha, coitadinha, mas foi muito linda. Esse padre, o Monsenhor, ele reformou toda a igreja, então era muito conhecida, todo mundo conhecia, e eu casei lá.

 

P/2 - E a senhora casada foi morar onde?

 

R - No Jardim São Paulo, eu tinha casa, comprei casa. Eu era ajuizada, sempre fui. Não sei, tem um amigo que fala que não é juízo não, que eu sempre fui muito... Que eu não ajo com o coração, eu sempre agi com a cabeça, mas eu acho que pela vida, por eu ser sozinha, por eu querer vir estudar e não me deixavam, então eu tive que brigar com todo mundo pra vir. Talvez seja isso que a gente tenha mais o pé no chão do que outra. E ter que lutar sozinha, não sei.  Acho que (talvez?) seja isso, não sei, que eu seja mais cabeça no pensar das coisas. Então quando eu casei, antes de casar eu quis comprar uma casa, por isso que ficou cinco anos. Até comprar a casa, pagar... Cinco anos para casar.

 

P/1 - E onde era a casa?

 

R - Lá no Jardim São Paulo.

 

P/1 - Como era a casa?

 

R – Bonitinha. Dois quartos, banheiro, salinha, cozinha, quintal grande. Sempre gostei de planta, então o quintal era bastante... A largura não, mas era bem... Trinte metros de fundo. Eu gostava, mas o banheiro é só embaixo, eu não tinha banheiro em cima, e eu queria mudar de casa porque eu tinha um filho. Queria uma casa com três quartos. Minha sogra vinha sempre também ficar em casa, então eu queria uma casa com três quartos, e comecei a procurar, porque quando o Paulo tinha um ano e dois meses eu mudei para cá. E aqui eu estou.

 

P/1 - Era Chácara Santo Antônio né?

 

R – Na Chácara Santo Antônio.

 

P/1 - E como é que foi, assim, os filhos da senhora? Quando a senhora engravidou, como é que eles nasceram?

 

R - Demorou. Quando eu casei eu logo comecei a engordar, e como eu sempre fui muito vaidosa, eu não me conformava. Emagrecia, engordava. Fui ao médico, o médico falou: “Olha, eu acho bom a senhora procurar um médico especialista disso”.  Eu falei: “Especialista? O que é?” “É um endocrinologista. Quando ele falou, “o que é que é isso?” Para mim era um palavrão, nunca tinha ouvido falar nisso, não ia no médico. O único médico que a gente ia era o médico da firma, e eram esses médicos... Quando a gente faltava, tinha que ir lá e contar para o doutor Alcino, eu lembro até hoje que o nome dele é doutor Alcino, que a gente tinha. Não ia em médico, mas tinha INPS [Instituto Nacional de Previdência Social] já, tinha todos esses negócios, mas eu não ia. Aí, quando ele falou que eu precisava ir, eu falei:  “Nossa, o que é?” Ele: “É um médico para a senhora fazer regime, vai fazer um regime direitinho, é realmente judiação estar gorda desse jeito”. E eu fui. Me mandaram lá no doutor Lício Marques de Assis, graças a Deus fui em um bom médico e fiz o regime. Ele falou: “Não, dona Maria, vamos procurar a causa da sua gordura? Porque eu estou achando que tem uma causa, sua gordura.” “Se é para ficar o dia inteiro sem comer para ficar bonita, eu fico”. “Então se a senhora engordou tem alguma causa.” Eu comecei... Não tinha filhos, não tinha engravidado e gorda daquele jeito? Comecei a fazer os exames e deu que eu tinha ovário cistolóide, com cisto. E agora? “É, a senhora não vai ficar mais grávida, a senhora tem isso”. Fiz 500 exames, fiz todos os exames e fui para o médico, fiquei até perturbada, porque todos os exames de coisa, de tiróide, de tudo,  pra ver. Até que descobriram que era do ovário, aí o doutor Lício me aconselhou com a doutora Dorina Reps, os dois juntos, lá da clínica mesmo, me aconselharam a operar. Eu falei:  “Mas que operação é essa?” “Não, antes da operação a senhora tem que fazer um exame de...”, não lembro, tem até hoje. Sei que tinha que ir para o hospital para fazer esse exame, e fui procurar o médico, o doutor Paulo (Gorka?), que tinha chegado dos Estados Unidos com essas coisas do ovário cistolóide − porque naquela época já estava começando cada um a se especializar em uma doença − , então eu fui procurar o doutor Paulo, ele mandou fazer um exame, fez no hospital, no Ipiranga. Foi feito o exame bem tarde da noite, porque todos queriam ver. Ele era professor e toda a turma do Hospital das Clínicas queria ver também, os outros que estavam estudando com ele, porque ele foi para os Estados Unidos para fazer o curso, mas estava dando (aula?) aqui para os médicos aqui, então fui examinada, fiquei 20 minutos assim, de cabeça para baixo, amarrada com aquele ar na barriga e com o aparelhinho.  Fiz o exame, aí deu... Eu tinha que operar, porque tinha muito cisto nos dois ovários, eu tinha que tirar mais que a metade do ovário. Na semana seguinte eu estava lá para operar:  “Mas a senhora vai?” “Vou, eu quero operar, quero ter filhos. O senhor não falou que eu operando tenho filho? Eu quero operar”.

 

P/1 - E por que ele se assustou?

 

R - Porque eu fui muito rápida. Diz quem fazia aquele exame sofria muito, tinha medo depois, eu já logo na semana seguinte voltei dizendo que queria fazer. Eu ainda estava com os pontinhos do exame.

 

P/1 - Era para abrir...?

 

R - Abre e coloca um aparelhinho, que nem um microscópio.

 

P/2 - Cateterismo?

 

P/1 - Laparoscopia

 

R - Isso, laparoscopia, isso que eu fiz. Fui uma das primeiras mulheres a operar, fazer esse exame e operar. Fiz a operação, tudo, fiquei dois anos com o doutor Paulo (Gorcki?), dizia: “Doutor, não tem que fazer tomando remédio?” Tomei tudo que foi hormônio, tomei um remédio que eu achava tanta graça era... Chama Pasuma, era para a fertilidade, porque eu acho que tem até hoje. Eu dizia: “Que diabo de remédio! Que nome esquisito, né?” Aí meu marido fez todos os exames, tudo, e nada de ficar grávida. Emagreci, fiquei magrinha . Ai, que delícia de ter ficado magra, né? Eu não conseguia emagrecer e com a operação fiquei magrinha. Como ele falou que não tinha mais nada a fazer e que eu não ia ter filhos, eu falei: “Que saber de uma coisa? Eu vou voltar lá para o doutor Lício. O doutor Lício me tratou bem, eu fiz tanto exame com ele, quem sabe tem algum exame para fazer?” O doutor Lício me deu um “cata”, porque eu tinha que operar e voltar com ele, e eu não sabia. O doutor Paulo, acho que vaidoso, queria que eu engravidasse né, e não mandou, eu não sei. Sei que eu voltei depois de dois anos, ele falou: “A senhora não vai fazer nada, porque a senhora está cansada. Vai ficar até doente, lelé. Se ficar assim... Vá tirar umas férias, vá embora viajar, depois que a senhora voltar eu vou ver o que nós vamos tentar fazer. A senhora não conseguiu, não é que a senhora não vá ter filho, vai ter sim, mas não vai ser já não, nem agora”. Fui para a praia, fiquei lá uns dias. Voltei da praia e passava mal do estômago, uma dor de cabeça e um mal estar de estômago, queria morrer. Coitado do doutor Lício, estava às vezes aqui em Interlagos, na casa de amigos aqui na represa, tinha que ir lá ao Jardim São Paulo porque eu estava ruim. Meu marido telefonava desesperado e o coitado ia até lá. Eu lembro dele olhando a janela assim, vendo a vista que eu tinha da minha janela, que era bonita: “Não, não é nada, a senhora tenha paciência. Vai tomar isso, a dor de cabeça passa.” E eu tinha uma dor de cabeça, uma dor de estômago... Mandou fazer radiografia do estômago, não deu nada. Será que não é gravidez? Vamos fazer exame de gravidez. Nada, não dava nada, aí a doutora Dorina me levou para o Hospital das Clínicas para fazer o exame. Fiz o exame lá do sapo, deu que eu estava gravida.

 

P/1 – Exame do sapo?

 

R - É, antigamente falava, é como agora injeta urina no sapo... Coitadinho, se molhou, não sabia, mas se ele morrer é porque está gravida. Não sei, eu sei que exame é, sei que eu fiz lá dentro do Hospital das Clínicas. Aí eu estava grávida e foi um sucesso, todo mundo queria me ver, todo mundo queria me examinar: “E como é que foi?” E aquele relato, porque a primeira mulher operada no Brasil que ficou grávida, então os médicos do Hospital das Clínicas... Eu tive uma rinite, não sei, uma doença que dá no nariz, não lembro, mas sei que tem um nome. Não é rinite, mas é uma coisa que me incomodava muito o nariz, e tossia, uma gripe... E como eu tinha uma irmã com tuberculose, a doutora Dorina, morrendo de medo... Eu passei por exames, radiografia do pulmão e tudo, e eles me deram calmante, mas o calmante... O neném não mexia... Acho que eu ia todo o dia para o médico. Coisa rara né, menina grávida. Nossa, a neném estava dormindo, não era nada. Tinha que parar com o remédio porque era remédio calmante para a tosse. Não foi um remédio, foi um calmante, porque como eu falo muito, todo mundo pensa que eu sou nervosa, e eu não sou nervosa. E eu tremo ainda, para ajudar, então todo mundo pensa que eu sou uma pilha. Eu sou uma calma. Quer dizer, sou muito braba, mas sou calma. Eu parei de tomar, foi tudo bem, “o neném vai nascer em abril”, nada do neném nascer, a Pernambucanas inteira... Eu tinha presente todo dia na minha mesa, porque cinco anos de casada e eu grávida. Meu marido dizia, o Paulo: “Imagina! Não é menino.” Não tinha exame naquela época, quando o Paulo nasceu. Os presentes, as coisas, parecia que todo mundo estava grávida e todo mundo ia ter o filho. Fui criada com eles, pode-se dizer, lá no pensionato, no escritório. Tenho amizade até hoje com eles. Então o Paulo nasceu, aí todo mundo telefonava, todo mundo ia examinar o Paulo, e foi examinado pelos médicos na maternidade para ver se estava tudo normal, se nasceu normal... Todo mundo queria saber o nome. Eu tenho impressão até hoje, doutor Lício ficou magoado comigo, porque eu coloquei o nome de Paulo, mas não era por causa do doutor Paulo (Gorki), é porque o meu marido queria Paulo por causa de um parente dele. Então, quando falou que era Paulo, doutor Lício telefonou para mim, para saber o nome. Ele tinha certeza que eu ia dar o nome de Lício, até hoje... E o Paulo nasceu. Nossa, festejado. Eu queria mais um, porque eu morria de medo de ter filho único, por causa do meu marido, eu via o quanto sofria ele e a mãe, dele ser filho único, então queria mais um. Tentei, não conseguia ficar grávida. Tentei, mas perdi de cinco meses. Eu não conseguia, perdia, mas feio, de precisar ficar hospitalizada, com transfusão de sangue, com tudo.

 

P/1 - E eles falavam por que a senhora perdia?

 

R – Por causa do ovário, não segura, muito difícil, e eu sei que eu perdi bem grande assim, com cinco meses, tantos meses. E quando eu consegui do Roberto foi uma maravilha, fiquei toda feliz. Meu marido dizia: “Roberto, Roberto”, e veio outro menino. E foi o Roberto, eu não tive chance de escolher o nome dos filhos, de nenhum. Fiquei grávida mais duas vezes, mas também perdia. A médica, doutora Dani, falou: “Não bastam dois? Você já está com 30 anos, chega dois, crie os dois do que você ficar tentando. De repente vai morrer aí...” E deu um “cata” no meu marido: “Olha, não quero mais filho, hein? Não vai me aparecer...” Quando eu perdi, que estava de cinco meses, foi ela que me atendeu, e ela se assustou muito. Falou: “Você me assusta com suas...” Porque era muito complicado, eu tinha hemorragias violentas, passava mal mesmo. Aí fiquei só com os dois e não tive mais. Criei os dois direitinho, com muito cuidado. Ai, como era absurdo, como eu cuidava! O pediatra dos meus filhos dizia:  “Não vai perder os filhos nunca por doença.” Porque olha, se era para fazer isso eu fazia, se era para fazer aquilo eu... Nossa! Remédio direitinho, cuidava demais, amamentava, porque precisava amamentar. Era excesso e eu gostava de ter uma família. O meu sonho era ter uma família, porque minha família desde pequena foi desfeita, então meu sonho era ter uma família, eu adorava! E como cuidava dos filhos! Remédio, pediatra e coisa. Meu filho, com oito anos teve Toxoplasmose. Quando eu lutei um ano, vai para cá, vai para lá, e o médico nada de descobrir.

 

P/1 - O que é que ele começou a apresentar?

 

R - Queda de pressão e ficar meio febril, porque nós não temos muita febre. Quando tem febre 38, para mim... Para esse filho é um absurdo, a gente fica na cama mesmo. O Roberto não, com 40 ele está andando, pulando, fazendo exercício. O outro, caçula, mas eu e o mais velho temos isso. Então ele tinha febre, ele não queria fazer as coisas. Ele não tinha coragem, não queria ir para a escola, e a gente não entendia. Aí o médico pediatra dele disse que eu que estava histérica e passava para o filho. Eu fiquei tão triste, falei: “Nossa, eu estou mesmo, ele não está entendendo.” Porque eu sou muito falante, quero fazer tudo, então pensa que isso é nervoso meu, mas não é nervoso. E eu fiquei muito triste, mas ele não chegou a ter uma convulsão, de ficar inconsciente. Ele teve um negócio, assim, com a febre, aí eu falei: “Não, eu vou procurar um neurologista, eu não quero saber, porque neurologista é que tem que entender disso, já que o pediatra...” Telefonei para o pediatra: “Não doutor Fernando, não vou aí não.” Tinha aquele pronto-socorro, o Sabará, aonde a gente levava os filhos. Ele tinha que ir para o pronto-socorro Sabará, eu falei:  “Não vou não". Meu marido então, pegava a carteira com todo o dinheiro que tinha dentro de casa e saía com maço, enfiava no bolso e saía correndo para o pronto-socorro do Sabará. O filho, o Paulo, era um negócio o primeiro filho. Eu fui no doutor (Lefebvre?), ele pôs a mão na nuca do Paulo e ele falou assim: “Ninguém colocou a mão na nuca dessa criança? Eu falei: "Não" “Esse menino está com toxoplasmose". Eu falei: "Está com o que, doutor?" “Toxoplasmose". Eu falei: “O que é todo esse tamanho de letra aí? Fala para mim o que é que é isso", aí ele explicou o que é que era, que era um bichinho, que era do gato, do pombo... E meus filhos tinham muitos bichos, ou então ela podia ser até da carne, não sei o quê. Eu fiquei nervosa, porque eu não estava entendendo direito o que poderia fazer e ele já estava assim, com a mãozinha, escrevendo. Eu fiquei desesperada: “Eu preciso entender, eu entendendo o que é que a doença... É no pulmão, e assim, faz isso, tudo bem, mas eu não entendendo a doença, me deixa nervosa, porque eu preciso entender, compreender o que é.” Se eu sei, sei o que é que eu estou fazendo, o remédio, porque é que  estou dando, eu fico meia... Eu me perco um pouco nisso. Aí tratei, cuidei, fiz tudo que tinha que fazer com ele. Fez faculdade, fez tudo, estudou. Está casado hoje, tudo bem.

 

P/1 - O que é, então, a toxoplasmose? E como é que foi o tratamento do Paulo?

 

R - Ele tomou sulfa, não tem outro tratamento até hoje (para?) toxoplasmose. Que eu saiba, até hoje eu acompanho, vejo, que eu saiba era só a sulfa. Ele tomou doses grandes de sulfa. Doutor (Lefebvre?) falou assim para mim: “Eu vou estragar o fígado dele, do menino, mas precisa tomar, a senhora vai tirar o sangue dele, mas amanhã cedo...” Eu levei lá, naquele laboratório na cidade, tirou o sangue dele. “Dá o cafezinho, suco de laranja e já dá uma dose se sulfa, a senhora vai comprar já hoje, vai dar bastante açúcar para ele, muita coisa doce, mas vai dar sulfa. Depois que ele tratar, que fizer o exame...” Fiquei, fui fazer eu o exame. Meu marido... Eu até me perdia: "Por que eu tenho que fazer exame?" O pequeno tinha que fazer exame, para ver se eu não tive... Foi na gravidez, porque aí dizem que já é outra coisa, sendo na gravidez. Mas ele já era grande, eu não tinha... Meu marido tinha mínimo de coisa, porque ele gostava muito de carne crua, tinha um pouco, não precisou nem de tratamento, mas o Paulo foi rigoroso.  Precisoude tratamento psicológico, porque ele ficou muito... Não sabia o que ele tinha, né? O menino ficou com... Ele tocava violão, ia no inglês, já pequenininho, sozinho, teve que parar. E naquela época ele não entendia. Tive que falar que a moça ia embora, inventar uma história para ele aceitar, porque ele não queria parar. Ele queria continuar com o violão e não conseguia porque a mãozinha dele não dava, então ele chorava. Até que ele passou do segundo ano primário dele a professora, ele  recebeu prêmio de primeiro lugar. Quando ela foi dar o prêmio de primeiro lugar, ela disse que ele merecia porque quem realmente lutou para passar de ano foi ele. Mesmo doente ele conseguiu passar de ano, mas foi muito difícil, afetou bem a parte motora dele, a toxoplasmose. E a vista, né?

 

P/1 - A vista também?

 

R - É, ele usa óculos.

 

P/2 - Hoje a parte motora dele recuperou?

 

R - Recuperou. Fiz todo o tratamento, (iodoterapia?), com as psicólogas na cidade, ia ali perto, alii em Pinheiros tinha a clínica dela, fiz tudo que falava que tinha que fazer. Nossa, acho que até demais! Remédio, tudo que precisou.

 

P/1 - Quanto tempo durou o tratamento dele?

 

R – Ah, bastante, acho que uns dois anos, não o do bichinho... A sequela da motricidade dele - porque afetou a parte motora - então foi daí que eu precisei tratar bastante. E ele tratou bastantes anos, tomava Tegretol, porque ele teve quase que um ameaça de convulsão. Não chegou né, mas o doutor (Lefebvre) deu Tegretol para ele anos e anos.

 

P/1 - Tegretol é para que?

 

R - Para convulsão, é anticonvulsivo. Ele tomou Tegretol muito tempo, anos. Ia sempre ao doutor (Lefebvre?), fazia seus exames, radiografia de cabeça, eletro, tudo, tudo que tinha que fazer. Nossa, eu fui, assim, supermãe, nessa parte.

 

P/2 - O tratamento do sulfa durou quanto tempo?

 

R – Pouco, ele tomou pouco, acho que nem dois meses ele chegou a tomar. Fez novamente o exame e deu, mas a dose foi grande. Ele estava com bastante, com um ano, o menino doente, eu falando e o médico: “Não, não é nada” um ano que ele ficou doente. E o doutor (Lefebvre?) deve ter mandado uma carta para o doutor Fernando, porque ele era bravo e falou para mim: “A senhora vai levar uma para o pediatra do menino para orientação médica.” Mas quando eu o vi, ele mudou de cor, recebendo a carta, depois de muitos anos... Você é moça, não vai entender nada, mas depois de muitos anos é que eu entendi, eu falei que o doutor (Lefebvre?) era muito bravo. Ele mandou uma carta chamando a atenção dele, é que nem o doutor Walter Sayeg, fala horrores.

 

P/1 - É?

 

R - Maluco.

 

P/1 - E dona Bernadete, assim, os meninos tiveram outras doenças?

 

R – Normal, de infância. Rubéola... Sarampo não tiveram, porque o médico dele o doutor (Holmes?) − foi o primeiro pediatra deles − foi para os Estados Unidos, e ele sempre dizia “Você vai cuidar dos filhos, Bernadete, porque eu não quero que eles tenham sarampo.” Eu falei: “Mas como é que não quer? Eles vão para a escola, vão ter.” Ele disse: “Não, não vão ter não. Vai sair a vacina.” Porque ele já tinha os cursos dele, que ele fazia para ir para os Estados Unidos, tanto é que ele ficou lá. “Eles vão tomar as vacinas anti-sarampo, seus meninos não vão ter. Você vai dar vacina anti-sarampo, vai dar isso, vai dar aquilo, eles não vão ter.” Eles tiveram rubéola, a caxumba muito fraquinha, foi muito fraco, porque eu era excessivamente... Até hoje minha preocupação é valor do alimento, até hoje tenho essas coisas.” Você comeu hoje, filho? Comeu? Está bom isso. Ah, você está engordando, hein? O que é que você está fazendo para engordar?" Eu não sou, minha comida não engorda, e até hoje eu sou assim com eles, cuido, não quero.

 

P/1 - E quando a senhora ouviu falar da vacina para sarampo, o que é que a senhora achou?

 

R - Achei o fim do mundo: "Nossa, sarampo vai ter injeção?" "Vai, vai ser uma vacina, ele vai tomar" "Mas que jeito?" Queria saber." Vai, a senhora vai segurar, não vamos ter..." E eu consegui, dei e eles não tiveram. “Nossa, você vai dar? Você vai ter coragem de dar isso para o seu filho?" Eu falei: “O médico mandou.” " E daí que o médico mandou?" " Não, se ele mandou eu vou dar". Dei todas as vacinas direitinho, não tinha história, morria de medo. Como eu tive sarampo e complicou muito, e até hoje eu tenho problema de ouvido _____, do bendito sarampo... Meu filho um dia falou para mim que eu não era normal, eu falei: “Por quê? " “A senhora não tem medo". Eu falei:  “Como é que eu não tenho medo? Tenho medo de alguma coisa sim" " Do que, mãe? Graças a Deus, então a senhora é normal, a senhora tem medo mesmo mãe?" “Tenho". Porque eu sempre falei: "Não tenho mesmo medo" Aí ele falou:  “Do que a senhora tem medo?” Eu falei: “Tenho medo da doença, filho. De doença eu tenho medo.” Então eu sou excessivamente cuidadosa, porque quando você não sabe, principalmente quando você não sabe o que é... Então eu pego livro, pego dicionário, eu pergunto... Acho que sou até chata com os médicos: "Por que isso? Por que tomar isso? O que é isso?" Às vezes eu quero até que explique, até porque... Como é que respira? Como é que faz? Eu sou demais nessa parte de remédio, todo mundo fala que eu... Está doente... Tem uma família que até hoje, quando... “Meu pai está assim.” Você morre de rir, “Olha meu pai está assim, o que é que eu faço?” O pai é engenheiro, a mãe é não sei o quê, o filho é isto e eles telefonam para minha casa: “Leva aqui, leva ali. Mas a senhora tem médico?” “Tenho médico sim”, dou endereço de médico para fazer os exames e levar as pessoas, porque eu procuro mandar... Eu fico preocupadíssima, imagina, o meu marido, quando teve aneurisma cerebral, desmaiou.

 

P/1 - De uma hora pra outra?

 

R – Trabalhando, estava sentado numa mesa. Eu fui deitar, porque era justamente no dia que o meu menino precisava operar, eu falei: “Hoje o senhor fica sozinho, marido. Eu vou dormir”. E subi. Ele ainda saiu para levar o meu carro pra consertar, trocar bateria, não sei o que, voltou, brincou com os filhos... Porque eu estava assistindo (Jeff Sanders?), que era parecido com ele quando tinha cabelo branco “Ela gosta, ela ama”. Brincava com os meninos, meu marido era muito alegre: “Gosta desse filme por causa de mim. Não é parecido com o papai? Tá vendo, a mamãe adora”. Desceu rindo, brincando. E meu filho mais velho ficou acordado assistindo filme. Eu, como tinha sono, estava cansada, fui dormir. Ele ouviu um barulho e ele: “Mãe, mãe!” “Não, não é nada, Paulo” A sorte foi que ele desceu, era o barulho do meu marido, que tinha desmaiado, da garganta. Ele gritava me chamando e eu: “Mas o que é isso? Que barulho é esse? O que é que Paulo chama?” “Mãe, anda, é o pai!” Eu desci correndo e ele desmaiado, eu não sabia o que fazer. Peguei gelo da geladeira, ele falou: “Não, mãe, não é gelo, é café quente” Fui na cozinha, esquentei o café, na hora dei pra ele. Falei: “Meu Deus, não é! E se for derrame e eu estou dando coisa quente? É coisa gelada” Aí eu corri, peguei coisa gelada. E telefonava pro meu irmão vir correndo pra me ajudar a levá-lo para o hospital, desesperada, porque ele vinha desmaiado, sem sentido. Dali a pouco ele levanta, de tanto gelo que eu pus na cabeça. Ele levanta, vai para o banheiro fazer xixi e diz: “Eu não vou para hospital nenhum, não”.  Sabe, porque homem é dificílimo, né? “Eu não vou”. Eu falei: “Vai sim. Eu não vou dormir essa noite se você não for para o hospital. Eu te encontrei inconsciente, como é que eu vou te deixar e vou dormir?”. Daí muito que conseguimos levá-lo para o hospital São Paulo. Nós tínhamos parente que estava de plantão nessa noite, ele concordou e fomos. Fez todos os exames: “Ah, é pressão alta. Ele está com a pressão alta”. Mas quando ele fez aquele exame da nuca, ele falou: “Tio, dobra”. Ele não dobrava. “Tio, dobra”, e você percebia que ele fazia aquele esforço e não conseguia. Ele passou pelo meu irmão e falou assim: “Tio, é grave, eu vou buscar o neurologista”.  As pernas já...

 

P/1 - A senhora ouviu?

 

R - Ouvi. E era aneurisma cerebral. Eles tiraram o líquido da coluna, da espinha. Ele já veio todo consciente. Era hemorragia cerebral, não tinha jeito. E ele tinha a vida inteira dores de cabeça, tratou de labirintite, eu fiz ele tratar. Fez todos os exames, inclusive o liquor, mas não deu nada, porque não tinha aparelhagem nenhuma pra aneurisma. Ele ficou internado no Hospital São Paulo. Eu não entendia porque é que ele estava num quarto escuro e ninguém fazia nada, e ele dizia: “Ai Bela, dói a cabeça”. Eu entrava por aquele hospital de todo jeito lá, escondido, para ficar com ele na sala. Quando descobria que eu estava com ele na sala, me tiravam dizendo: “Não é para ficar”. Um dia até o doutor Pimenta gritou comigo: “Menina, você não me obedece! Não pode!” Ele ia pra dentro, eu ficava com ele, e não podia, porque ele tinha que ficar em absoluto repouso, sem ninguém. Diziam que até a minha presença, qualquer coisa. É um tratamento terrível também. E hoje o aneurisma é tão fácil... Judiação, não tinha aparelhagem assim. Tinha um exame da cabeça que tinha por contraste e fizeram só na frente, porque tinha risco de fazer atrás, então fizeram na frente. Operaram e ficou perfeito. Foi colado com uma cola chinesa que era uma coisa que tinha vindo para as veias. Colavam as veias com aquilo e ele andou, se recuperou, veio para casa, teve alta, tudo, mas ele tinha na nuca, bem no centro, e ali não podia fazer nada. Ele ficou em casa, andando, mas, sabe, esquecendo de tudo. Ele tinha, assim, minutos de lucidez e depois esquecia. Um dia ele deitado, de repouso absoluto, deu novamente, corremos para o hospital, os médicos acharam que era coração, que era alguma coisa, que complicou, mas não era, era outro aneurisma, aí não teve jeito.

 

P/1 - O aneurisma é o quê?

 

R - É um defeito na veia, ela forma um saquinho. Pode ser no coração, na vista, onde você tiver uma veia com defeito. Nasce, é congênito. Você nasce com aquilo e a do meu marido era no cérebro, ele teve muitas. Ele não tinha uma, tinha três, operou e não teve jeito, morreu em 77. E hoje, você sabe como é que faz? Faz o exame, vê onde é que tem a veia − geralmente é no cérebro − não sei se são todos, mas esse do cérebro eles cortam a virilha, entopem aquela veia e a pessoa pode sair até no mesmo dia do hospital. Meu marido ficou três meses hospitalizado, operação, aqueles tubos, aquelas coisas horrorosas, mas não teve jeito. E hoje não precisa nem ter o derrame, se deu derrame é perigoso, aí eu não sei que tratamento faz, mas se você descobre. Eu tenho uma amiga que desmaiou de dor de cabeça. Agora, porque uma desmaiou logo depois do meu marido e também morreu − minha amiga Dora − tinha aneurisma cerebral e não teve jeito, no Einstein. E eu achava que era porque estava no hospital São Paulo, que não ia... Mas não foi nada, porque ela foi pro Einstein e a Dora morreu antes de operar. Agora a Angélica teve, desmaiou num congresso, fizeram exame e ela foi hospitalizada, e eu morrendo de dó: “Não, é simples a operação”. Eu estava com uma pena danada dos pais, que já tinham idade. Ela me contou que é um corte na virilha. Nela teve que ser dois, porque ela tinha dois, então entupiram aquelas veias, não enche mais aquela veia defeituosa, vaso, não sei como é que eles falam... Não enche mais de sangue e não tem mais perigo de vida... E o meu marido operou o cérebro.

 

P/1 - E tinha alguma medicação que ele tomava?

 

R - Todas que tinham lá no hospital. Todas. Nossa, era demais. Todos anticoagulantes, tomava muito, demais. Anticoagulante, tanto é que foi por isso que eles acharam, quando ele voltou, que fosse o coração que tivesse um coágulo, ou qualquer coisa, e não era, era outro aneurisma que ele tinha, hemorragia outra vez, foi muito duro. Faz 20 anos, graças a Deus que os médicos estudam. Eu rezo muito para os médicos, que Deus abra cada vez mais a mente deles, como era antigamente e como é hoje, em tudo, em tudo.

 

P/1 - O que é que a senhora acha que mais mudou na medicina?

 

R - Tudo. Dente mudou, porque era um horror. No meu tempo você punha aqueles cloroformes, sei lá que remédio lá, que por fim você perdia o dente. Você ia ao dentista pra trocar o algodãozinho. Mudou, hoje é transplante, enxerto ósseo, pó de osso... Você já viu? Tem pó de osso. Eu sou muito curiosa, então eu sei tudo isso. Tem pó de osso, tem não sei o quê, enxerto. Na saúde tem o ultrassom, tem a tomografia, sabe? Tudo isso que vai cada vez mais... E coisas que nós nem sabemos que hoje já existe tem nos outros lugares, mas hoje eu acho que a nossa medicina... O Brasil está muito adiantado. Coração! Quer mais do que o coração? As coisas que tem. Médico lá de Curitiba que descobriu as doenças. Quantas operações ele já sabe, já faz daquilo que vem gente de fora. Aqui no Hospital das Clínicas, hospital São Paulo, eu acho uma maravilha. Mudou tudo. Mudou, graças a Deus que mudou. De vista: as operações antigamente... A minha sogra que tinha glaucoma, coitada, tirou o olho. Hoje tem tratamento assim que não precisa fazer mais nada. Ovário! Hoje se toma remédio, não precisa mais abrir a mulher, fazer aquela coisa horrorosa que eu fiquei... Nossa, graças a Deus que a medicina e remédio... Os remédios também melhoraram bastante, uma maravilha. Hoje tem remédio, por exemplo, eu estava com dor de cabeça e estava tomando hormônios. Precisava tomar e engordando. Já estava horrorosa de gorda, engordando, e era remédio para dor de cabeça. Cheguei no médico ele falou: “Não, mas a senhora não está com remédio certo”. “Mas eu estou com dor de cabeça”. “Não, pode tomar Neosaldina que é moderno, Tilenol, que é específico, não tem... Para quem tem alergia, não pode tomar isso. A senhora está com a pressão alta, tem que tomar remédio só pra pressão alta, aí sara a dor de cabeça da senhora.” “Mas eu não sei que remédio. Nunca tomei, nunca tive pressão alta, minha pressão sempre foi baixa”. Me deu, tomei e passou. Quer dizer, hoje eu acho uma maravilha. Você tem exame, vai saber porque é que está com dor de cabeça, vai, investiga. Eu acho muito bom.

 

P/1 - E da relação do médico com o paciente?

 

R - Pra mim é muito boa, porque eu sou muito brava. Eu rezo todo dia para passar isso, mas não adianta. Meu filho diz que qualquer dia eu apanho na rua, sou muito brava. Não sou brava “peitante”, sou justa. Por exemplo, médico: “Doutor, o senhor não vai com a minha cara? Então o senhor não vai tratar de mim”.

 

P/1 - Mas os médicos de hoje e de antes, tem diferença?

 

R - Não. São ótimos os médicos, porque o médico tem uma vocação para ser médico. A verdade é essa, tem que ter vocação. Mesmo hoje que eles precisam ganhar o pão de cada dia, eles precisam ter vocação para ser médico. Para aguentar um paciente é duro, né? E fala, tem que explicar... Eu principalmente, sou chata, quando tem que cobrar eu vou atrás do médico, eu acho muito bom, gosto muito, tenho muito respeito por eles. Meu irmão agora, há pouco tempo, em janeiro, faleceu. Foi lá para o Hospital das Clínicas, ficou três meses na UTI, eu ia diariamente lá. Ele teve falência dos órgãos, bebia muito, era alcóolatra, ficou doente e: “Ai meu estômago, meu estômago”. Ele operou o estômago e não era nada de estômago, ele estava com pedras. Começou a tirar, tirar, tirou. Quando ia ter alta, que ia fazer a última. teve pneumonia. Fraco da operação, muitos anos com pedra e ele achava que era dor do estômago. Dava remédio para dor de estômago, tomava tudo quanto era remédio pra dor de estômago e não era nada de estômago, eram as pedrinhas que estavam formando, do fígado para o intestino, porque no... Ele operar o estômago... Tem um nome esta operação, eles ligam os canais do fígado para o intestino, foi a sequela desta operação. O que é que é isto eu não sei, sei que ele morreu com... Esqueci o nome da doença, com inflamação da... Tem um nome... Colangite, ele morreu disso, falência dos órgãos no atestado de óbito.

 

P/2 - Quem tomou cortisona?

 

R - Tomei.

 

P/2 - Pra quê?

 

R - Eu, em 85, fiz uma viagem. Fui para Búzios, dizem, porque eu não sei. Voltei de lá, cinco dias depois eu comecei com uma dor na orelha, em cima, assim, doía, doía. Fui à missa, voltei, encontrei um senhor da farmácia − conheço todo mundo, né − “Ah, isso é alergia, você tem que tomar um Fenergan, um antialérgico”. Falei assim: “Eu não vou tomar nada, sem falar com o médico como é que eu vou tomar?” Eu cheguei em casa, ai que dor, que dor. Tinha um chá no saco, fui no saco de chá. Tinha um couro... Porque eu trabalhava com couro, fazia roupa de couro, minhas roupas foram fotografadas em tudo quanto é lugar. Eu fazia roupa de couro, quando fiquei viúva. Não trabalhava, era madame, aí eu fiquei viúva de uma hora pra outra, tive que voltar a trabalhar, senão perdia o que tinha. Voltei a trabalhar e fui trabalhar na Johnson primeiro, como promoção de venda. Não na Johnson, numa firma que fazia...

 

P/1 - Terceirizado?

 

R - Quando começou as fraldinhas descartáveis a gente ia nos hospitais demonstrar e dar de brinde, para as... Depois descobri que couro ganhava muito mais. Ficava em casa, olhava os filhos... Minha preocupação eram os filhos, a educação dos filhos, e eu tinha mais dois, porque a minha amiga morreu e deixou os dois, ficaram comigo os dois dela. Aí menina foi embora, ficou só o rapaz, morou comigo muitos anos. Então eu tinha aquela preocupação de ficar o dia inteiro fora. Tinha terraplanagem do meu marido pra tocar, três anos consegui tocar, depois vendi tudo, porque não dava, não é serviço pra mulher não. E fui trabalhar com moda dentro da minha casa, fazia couro. E será que é o couro? Será que é isso?  Aí a minha orelha ficou “deste” tamanho. Eu chegava no consultório médico, a primeira coisa que eles faziam era tirar fotografia minha. Eu dizia para o doutor Sampaio: “Doutor Sampaio, o senhor pode tirar 500 fotos, mas me passa a dor.” Era uma dor de cabeça! Uma febre altíssima, eu não tinha febre e a orelha aumentando, aumentando, cheia de bolha, assim, bolhas assim. Eu fiz exame até de lepra. Eu sei porque sei que eles tiram mucosa do nariz para lepra, então eu sabia que era exame de lepra. Fiz de tudo e nada, nada. Voltava lá e aquela dor, ia do consultório dele para a minha casa com dor, dia e noite. Eu amarrava pano, assim, punha álcool, punha cânfora, lembrava de coisas de criança, ia pondo tudo e não aguentava. Tomava novalgina, anador, sanador, eu tomava sem medo, porque eu espremia inteiro e tomava. Eu sei que eu fiquei 22 dias, dia e noite, sem consegui dormir, de dor. Eu tinha a impressão que eu ia ficar doida. Eu sei bem a data porque a minha tia ia fazer 100 anos, e eu voltei por causa do aniversário dela, então foi em 85, fim de julho com agosto. Dia 1º de agosto eu estava começando a ir aos médicos, e meu amigo falou assim para a esposa: “Mas por que ela vai esperar até amanhã se ela tem plano médico? Mande ela ir no pronto-socorro. Tem plano médico, está com tanta dor assim, vai com ela”. Mandou a esposa ir comigo. Minha amiga foi. Cheguei lá já tiraram meu sangue pra fazer exame, me deram uma injeção de novalgina e mandaram fazer bastantes exames fora, também. Comecei a fazer todos os exames e nada, não melhorava. Fui pra um médico, fui pra outro médico, daí já começava, dermatologista, neurologista, não, só dermatologista, fui em um, outro, outro. Fui fazer doenças tropicais, mas tudo e nada. “Interna ela”. “Não, não me interna”. Domingo o doutor Sampaio chegou, e no consultório dele resolveram me internar, e eu desesperada, não sabia mais o que fazia, porque parecia que estava inchando tudo. Começou a secar aqui e começou a aparecer bolhas que eu tenho até hoje, umas bolhas aqui, eu fiquei deformada. Médico amigo meu não me conheceu. Eu fui no consultório dele, me deu um endereço para onde ir, era um dermatologista famoso, não me conheceu. Falei: “Mas, não adiantou doutor”. “Mas como?” Ele não me conheceu, falou: “Eu não perguntei o teu nome e eu não te conheci”. Eu fiquei um monstro. Os meninos diziam assim: “Mãe, pode voar”, porque as orelhas ficaram imensas. Eu punha a mão assim. “Mãe, jumbinho, vai, voa”. Mas foi horrível. Um dia eu estava desesperada, liguei para uma prima minha que é médica e falei: “Eu vou no neurologista, porque o neurologista é que tem que saber de tudo quanto é doença”. Tudo o que eu fiz... Uma vez eu passei por dez médicos num dia. Eu fui no doutor Médici, quis me ver, era médico de ouvido. Não tinha nada, mas eu fui, e de lá ele me mandou para o doutor Sampaio. Do doutor Sampaio, fui para um médico de doenças, um alemão famoso, doenças tropicais. Olha, eu sei que naquele dia eu passei por dez médicos. Nada, e fazia exames... Nos braços começou aqui, de biópsia e não sei o quê. Olha, foi horrível. Estes 22 dias pra mim parece que foi um século, não quero nunca mais ter. Eu fui nesse neurologista, telefonei para ele e disse: “Doutor, o senhor pode me atender? Eu não estou aguentando mais de dor. E eu lembrei do seu nome porque o senhor trata do fulano de tal”. “Se a senhora vier agora eu atendo, porque eu não tenho vaga, não tenho outra hora”.  Era hora de almoço dele. Eu fui para o consultório dele, ele olhou pra mim e falou: “Não tem tratamento. A senhora tem que ir pra o hospital e tomar cortisona, porque se for descobrir o que a senhora tem... A senhora está inchando, não está?” Eu falei: “Estou. Está ficando horrível, minha cabeça eu estou sentindo que está inchando”. Ele disse assim: “Não tem. Pode inflamar assim num dia. Tem risco de vida, a senhora não quer morrer?” Ele fazia pra mim, ele era japonês: “More”. Vai pro hospital. Daqui a senhora vai para o hospital”. Eu já fui com a receita para o internamento dele. Foi cortisona, tomei cortisona a vontade.

 

P/1 - E não diagnosticou o que era?

 

R - Não. O doutor Médici, que era amigo do meu marido, doutor Alexandre Médici não se conformava. Ele dizia: “Eu quero saber o que a senhora tem. Como é que vai dizer que não sabe a doença?” Porque o doutor Minori dizia pra mim: “É uma... Ou uma alergia, ou uma doença de algum risco, mas eu tratei da senhora porque estava inflamando as meninges. A senhora ia ter uma meningite e morrer em horas, mas dizer pra senhora é isto aqui... É alguma doença. O médico quer saber, manda ele escrever para mim, telefonar para mim que eu falo”. Mas para mim mesmo o doutor Minori nunca falou.

 

P/2 - E como é que foi esse tratamento com cortisona?

 

R - Cortisona foi triste. Eu era internada no... Aquele da rua Cubatão, como é que chama aquele hospital? Esqueci o nome. Eu era internada e eles tinham que ver coração, tudo, e me davam cortisona, por causa do coração.

 

P/2 - Era injeção?

 

R - Era injeção que eles me davam. Nos soros, nos antibióticos, tudo que eu tomava já vinha as injeções de cortisona. Depois fui para casa, melhorei, eu pulava porque sarei. Vinte e dois dias e 22 noites com dor, e no dia seguinte lá já não tinha mais nada. Acordei no dia seguinte.

 

P/2 - Melhorou de um dia pro outro?

 

R - Já, melhorei com a cortisona. Eu pulava de alegria. Tive que tomar mais duas vezes, ele me aplicou, mas ele aplicava aqui nessa veia, como é que chama essa veia? Na medula, mesmo. E a gente ficava amarrada na mesa, a pessoa segura a gente e aplicava aquilo. Quando ele encostava aqui na medula, você pula que nem frango. Parece que você está...

 

P/1 - Choque?

 

R - É. E ainda tomando o assistente dizia assim: “É doutor, só o senhor que é especialista nisso. Se o senhor errar ela fica aqui na mesa, não levanta mais, não é?” Tinha que tomar a segunda vez, eu falei: “Não tomo mais”. “Não, volta, a senhora precisa tomar”. “Só se o senhor ficar quieto, não ficar falando que eu vou ficar na mesa, aí eu vou tomar” (riso).

 

P/2 - E doía?

 

R - Não, não doía não, mas você sentia a picada que dava, e eles ficavam conversando e eu ouvindo, estava consciente. Eu tinha que ficar hospitalizada, esticada lá e no dia seguinte ia embora. Eu fiquei deste tamanho. Não engordei, fiquei empelotada. Eu tinha... Eu sempre fui vaidosa, eu tinha desespero. E até hoje eu não consegui, vivo com regime, vivo com cuidado e não consigo.

 

P/2 - Voltar ao peso?

 

R - Não. Para mim, sempre como modista, trabalhando com moda, 60 quilos eu era imensa de gorda. Hoje eu tenho 80 e não consigo. Não chega a 80, estou com 75 talvez, mas não consigo emagrecer, com tudo que eu... Já me candidatei... Porque eu sei que lá no Hospital das Clínicas tinha o Prato, um estudo que eles estão fazendo, pesquisa, precisava de voluntários. Corri lá pra fazer a inscrição, mas não consegui entrar: “doutor Ezequiel, pelo amor de Deus!” “Mas a senhora é gorda?” “Lógico que eu sou gorda.” “Quanto a senhora pesa?” “Oitenta quilos”. “Mas a senhora pesa mesmo 80 quilos?” Ele já conhece, sabe que eu estava mentindo, “peso, doutor.” “Quanto a senhora tem de altura?” “Um metro e cinquenta, então olha quanto passou!” “Não, Dona Dete, eu posso ajudar a senhora para senhora ir a um endocrinologista, porque o problema da senhora é endócrino. A senhora precisa fazer um tratamento com o endocrinologista que a senhora vai emagrecer”. Fui fora e não consegui. Agora que eu estou com o doutor (Sayeg?)... Se eu consigo emagrecer. Faço até queijo em casa, porque faço com leite desnatado. Tenho que comer bastante queijo por causa da osteoporose, então eu faço tudo direitinho. Tinha obesidade, descobri lá no Hospital das Clínicas, com psiquiatra. Fui lá: “A senhora não é obesa”. Falei: “Como não? Com 80 quilos! Eu sou imensa” “Não. A senhora se acha gorda?” “Sou gorda sim, quero emagrecer, não quero pesar... Com 60 eu já era gorda, eu já me achava gorda, imagine agora, com 80 quilos” “Não pode. Vem cá”. Aí ele me mostrou lá fora as moças que estavam, eu fiquei até com vergonha: “Vocês têm razão”. Uma moça nova com 150, 130 quilos. Eu falei: “Está bom, tchau. Mas que eu vou tentar voltar aqui, eu vou”. Não consegui entrar. Um, por causa da idade; outro, por causa... Mas pus bastante gente, viu? Como levei gente pra o Hospital das Clínicas para fazer o regime. Eu não tenho assim esse negócio de dizer: “Eu sei e não conto”. Acho que às vezes até é um defeito do meu caráter. Eu sei de um negócio, logo espalho pra todo mundo, quero que todo mundo faça, quero que todo mundo fique feliz, sabe? Sempre tive isso assim de amor, de... Então tudo o que eu sei de bom, de remédio: “Olha, tal médico falou isso, tal médico falou aquilo, eu vi isto na televisão, eu li isto num tal livro”. Eu falo, comunico com todo mundo as coisas. Então esse negócio do Prato lá... Agora eu estou fazendo um tratamento com o doutor Cássio, ele apareceu no programa do Jô Soares acho, quinta-feira. Para memória, sou voluntária, vou fazer direitinho. Faço tratamento com ele da memória.

 

P/1 - E como é que é esse tratamento? Pode falar?

 

R - Pode, tratamento da memória. Por enquanto eu estou tomando um antidepressivo só, mas como eu tomo um antidepressivo para dor, então eu continuo tomando. Agora, sexta-feira é que eu vou ver o que vou fazer. Fiz todos os exames com eles, fiz exame de sangue, não sei se oito ou dez de sangue, fiz tomografia que deu que eu tenho uma isquemia. Isso eu sei, eu já tive isquemia, mas graças a Deus não fiquei com nada, sequela nenhuma. E agora, sexta-feira, que eu tenho consulta novamente é que eles vão me dar um remédio, que estar melhorando, está. Melhorou e melhorou bastante, sabe? Fiz todos os testes psicológicos com eles, tudo. Fiz tudo o que eles mandaram e eu estou muito contente, porque eu acho que é muito importante. Vou assistir todas as coisas de lá que eu vejo. Reuniões da terceira idade no Hospital das Clínicas, todas as sextas-feiras eu vou assistir as reuniões, as palestras deles, sabe? Para ficar ativa, porque eu sempre fui muito ativa, sempre trabalhei, e agora ficar aposentada, quieta em casa? Não dá. Aí eu vou ficar atormentando a família inteira. Eu tenho a terceira idade aqui do posto da... A terceira idade lá do Hospital das Clínicas que eu frequento, ainda não faço parte porque não tive chance, mas este ano, se Deus quiser, vou ter a oportunidade de fazer o Hospital das Clínicas. Faço Legião de Maria na igreja, faço curso de... Tudo que eu sei de doutrina, de ministro... Tem, eles dão porque a religião mudou muito, e como eu sempre fui católica, então eu sempre acompanhei. Para a gente saber, falar como é que é a religião hoje, a gente precisa estudar, precisa saber, precisa pegar a bíblia e ler, não ser fanática, pelo amor de Deus. Fanatismo, odeio fanatismo, de religião, de futebol, agora de uma coisa eu fui fanática - de trabalho. Porque esta doença foi misturada com stress, por isso que eu tive, aí fui proibida de trabalhar com couro. Eu queria criar um modelo, eu varava a noite e não sentia, era moça, não sentia, tinha 40 anos e não sentia varar a noite. Então eles acham que esta doença eu tive por causa disso também.


P/2- Com quantos anos que a senhora teve esse...

 

R - Em 85. Ainda trabalhei bastante tempo com couro, mas meu médico foi indo, foi indo... Porque eu tive só uma parte descoberta, daqui para baixo, porque a manga do vestido era aqui, então eu tive aqui assim, muito feio, com umas bolhas aqui.

 

P/2 - Não foi nenhum produto químico do couro?

 

R - Eles acharam esta conclusão, que devia ser alguma coisa, algum negócio. Uma amiga minha dizia: “Não é nada disso. Você tem dengue, você teve lá em Búzios, foi dengue que você teve”. Mas foi muito forte pra ser dengue.

 

P/2 - Não, o nosso produtor aqui, Raul, morou dez anos, nessa época, em Búzios...

 

R - Nada. Mas eu tive só duas partes descobertas. Como eu trabalhava com calça sempre, porque a minha sala é fria, eu tive daqui pra cima. Aqui nas duas orelhas, nos braços, tinha aqui. Aqui então foi horrível, eles mandaram fazer até biópsia, porque achavam que era câncer.

 

P/2 - E a senhora teve algum outro problema de doença grave, assim?

 

R - Não. Mas isso foi com a idade agora, com a idade eu fiz aquele exame do cabelo lá, como é que chama?  Que eles tiram um fio do cabelo, vocês já ouviram falar? Mandam pros Estados Unidos. Eu fiz, então eu estou com falta de cálcio.

 

P/2 - Mononucleose?

 

R - Não. Esta coisa mais moderna, que todo mundo está fazendo.

 

P/1 – Osteoporose, que a senhora falou?

 

R – Não, osteoporose é da idade. Tem um nome. Oh meu Deus, eu falei o nome dele... Pra rejuvenescer, como é que chama? Esqueci.

 

P/1 - Não tem problema.

 

R - Eu sei que eu fiz o exame do cabelo e tive falta de sais e de todos os minérios. Então eu tomei tudo, tudo aquilo, realmente eu tomei bastante coisa pra isso. Para osteoporose eu tomei um remédio da Cibacalcina, da Ciba, aí.

 

P/2 - Mas a senhora tem osteoporose?

 

R - Tenho osteoporose. Da idade. Isso depois da menopausa. Faço exame, tudo direitinho. Tomei cálcio, vitamina C eu sou alérgica, não podia tomar. Tudo quanto foi vitamina eu tive que tomar por causa da... Como é o nome?

 

P/1 - É, a... Eu sei.

 

R – Esqueci, foge. Por isso que eu estou fazendo tratamento de memória, estou precisando. Sabe o que aconteceu hoje? Cedinho eu levantei, cedinho eu tomei banho e fui embora para a cidade: “Ai que bom, hoje eu tenho consulta com o doutor (Sayeg?), vou emagrecer”. Estava já contando: “Depois que eu emagrecer, eu vou fazer uma plástica”. Já estava feliz da vida, já achando que eu estava emagrecendo. Cheguei no consultório, falei meu nome: “Maria Bernadete Mendonça”. “Dona Bernadete, é hoje a consulta da senhora?” Falei: “É, é dia 4”. Ela olhou assim pra mim: “Mas hoje não é dia 4”. Eu falei: “E daí? É amanhã. Não tem problema, eu volto amanhã. Tchau”. (riso)

 

P/2 - Não deixa a peteca cair.

 

R – Não. É por isso que eu estou fazendo tratamento de memória.

 

P/1- Eu queria agradecer a ajuda da senhora. A entrevista foi muito...

 

R - Se vocês precisarem de mais alguma coisa...

 

P/1 - A gente vai fazer uma visita pra senhora.

 

R - Tá bom, mas marca porque, como diz a minha amiga: “Precisar da Bernadete, conta com ela, mas tem que marcar hora”.

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