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História

Direito por uma questão social

História de: Tatiana Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Tatiana nos conta sobre sua infância em Contagem-MG, a carreira de sua mãe, professora e sua passagem pelo Instituto Montessori e o Colégio Santo Antônio. Em seguida, conta como, após vários contratempos, encontrou seu caminho na Comunicação Social da UFMG e no intercâmbio para a Holanda. Fala de seus anos no estrangeiro, onde tomou consciência da questão hídrica mundial, suas dificuldades neste país e na volta para o Brasil, morando em Contagem e estudando em Belo Horizonte. Fala sobre suas participações no Fórum e no Conselho Mundial das Águas. Por fim, conta o nascimento do FA.VELA na experiência do Morro do Papagaio e toda a história de seus 5 anos de vida.

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História completa

O Direito, isso foi muito interessante, porque eu fiz um ano no Colégio Santo Antônio, mas o segundo e o terceiro anos do ensino médio eu voltei para Contagem, para uma outra escola lá. O Santo Antônio, para mim, foi a chave de muita coisa, ele foi a chave de entender a diferença de classe, por exemplo. Porque Contagem por Contagem era todo mundo periférico, de uma certa forma. No Santo Antônio foi onde eu tive interação com crianças que o pai deixava de carro na porta da escola, que morava em condomínio fechado, tinha uma política de portas abertas na hora do recreio, e tipo assim, o pessoal tinha dinheiro para sair e comprar lanche nas lanchonetes da rua, na Savassi, que é um dos lugares mais caros de Belo Horizonte. Então, o Santo Antônio foi muito marcante por vários aspectos, assim, a qualidade do ensino é sensacional, mas também de ter essa interação com gente da minha idade mas que não tinha a mesma trajetória, não era do mesmo grupo social que o meu. Isso foi muito marcante, entendeu? Teve um momento de socialização com as meninas da minha sala que foi muito marcante para mim. Eu lembro que a gente estava tentando decidir… A gente queria ir ao cinema se divertir e eu lá tentando me incluir, e sugeri da gente ir ao cinema e ao Shopping Cidade, que é um shopping bem no Centro aqui de Belo Horizonte, que fazia muito sentido na minha lógica de ocupação da cidade, porque está no Centro, todo mundo passa por ali. E aí, uma das meninas virou e falou: "Ah, eu não posso ir lá, a minha mãe não vai me deixar ir porque é um shopping de pobre, tipo, ele é frequentado por pessoas pobres". O que é ser pobre, sabe? Então, foi o Santo Antônio… Para mim ele é muito marcante na minha vida como isso, que foi um lugar, um ambiente que me permitiu ter acesso a pessoas com quem eu jamais circularia na minha... Se fosse pensar na minha vida. Eu lembro que sugeri esse local, como fazia parte da minha realidade de lazer, de ocupação. E ela falou assim: "Não, minha mãe não vai me deixar ir porque é um shopping de pobre". Isso foi muito impactante para mim porque, primeiro foi onde eu vi que certas pessoas não frequentavam certos lugares que eu frequentava porque era lugar de pobre, e isso do que é ser pobre, sabe? Eu pegava dois ônibus e um Metrô para poder chegar lá na escola, enquanto gente de condomínio fechado era deixado pelo pai no ar condicionado, na porta da escola. Essa perspectiva de diferentes lugares que as pessoas estão na vida, vamos dizer assim, em relação à renda. O Santo Antônio, eu vejo muito como um lugar que começou a trazer esses questionamentos, sabe? De várias coisas. De eu ficar sem graça se eu não tinha lanche e a merenda do recreio era aberta, sabe? Você sentia aquela pressão social de: "Eu tenho que sair da escola e, sei lá, ir lá na pastelaria da esquina comprar a merenda". E tipo: "Agora, se eu vou tirar meu lanchinho daqui, como é que é o meu lanchinho em relação ao lanchinho das outras pessoas?" Então esse lugar, realmente, era um lugar em que eu não me sentia bem e eu fiquei um ano… Eu lembro que eu caí com tudo nos estudos, assim, eu tinha notas excelentes… E eu lembro de sair e do diretor da escola me pedir: "Não sai, continua, você tem um potencial ótimo". E no terceiro ano, eu não tinha a menor ideia do que eu faria no ensino superior. A escola fez um grande teste vocacional com os alunos e saíram três opções para mim: Belas Artes, Direito e Comunicação Social. Belas Artes, eu pensei: "Não vou ter dinheiro" - ou eu pensei ou fui influenciada a pensar, provavelmente, que eu não teria dinheiro. Comunicação Social eu fiquei meio assim. Direito eu achei que seria uma carreira que… Acho que o potencial, não é? De ter uma mobilidade social ali… Vai sendo Direito: "Já que deu essas três aí, vou fazer Direito". Então, foi muito assim, não foi uma coisa tipo: "Quero fazer isso, quero fazer aquilo, e tal". Até porque se eu for olhar de desejos, de interesse, atividades artísticas foram áreas em que eu me envolvi durante a minha infância e adolescência, sabe? Então, talvez, a adolescente Tatiana teria enveredado por alguma carreira artística, alguma coisa assim, mas acabei tomando esse rumo de umas decisões muito racionais, não é? De tipo: O que fazer? Qual futuro?". E aí pela questão social, fui parar no Direito.

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