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História

Dina: eternamente surpreendente

História de: Dina Chabelman Bergman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/05/2019

Sinopse

Dina Bergman é paulistana da Vila Mariana. Conserva as melhores lembranças da infância. Pais amorosos, família maravilhosa, amizades que se mantêm até hoje. Criança, foi arteira, festeira, e muito engraçadinha. Adolescente, procurou sempre agradar o pai - por estima e não medo - seguindo os costumes, a religião, a tradição. Fez Letras, teve dois empregos e muitas atividades. Deu sempre o máximo de aulas que conseguia. Casou, teve filho, cuidou e cuida de todos, mas procura se manter ativa. Sempre foi assim: andou de moto, fez teatro, workshop, foi guia turístico, sempre inventando. Agradece a todos os que estiveram com ela nessa caminhada e, para continuar com os que ainda estão aí, pede a Deus que não falte saúde.

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História completa

Foi numa casa que meu pai mesmo mandou construir, aqui na Capital, na Vila Mariana, que eu nasci. Era 1946. Diria que fui muito esperada, ansiosamente esperada: depois de dois meninos, meus pais queriam porque queriam uma menina. Só que eles não imaginavam o quanto arteira seria. Para se ter uma ideia, maiorzinha um pouco, eu pegava a caderneta de compras - naquela época tinha isso, era o famoso fiado para pagar no final do mês - e, literalmente, “fazia a festa”: comprava um monte de chocolate e distribuía para os coleguinhas. Era a minha festa, que eu sempre fui festeira.


Meus pais eram imigrantes - ele, vindo da Romênia; ela, da Bessarábia. Ele veio sozinho, ela com os irmãos. Conheceram-se num baile, apaixonaram-se, casaram em trinta dias. Permaneceram cinquenta e um anos casados, até a morte dele. Meu pai veio quase sem dinheiro, e aí os primeiros tempos foram difíceis. Para o casamento também não foi nada fácil: trinta dias não dá para ninguém se conhecer. Mas ele era trabalhador e dizem que melhorou muito depois que eu nasci. Sua origem era camponesa, seus modos eram rudes.


O fato é que ele não tinha o hábito de se divertir, só trabalhar. Graças a isso, prosperou. Cresceu uma enormidade, pode-se dizer que chegou a ser poderoso na mocidade. No final, não tanto: pagou a aposentadoria para todo mundo que trabalhou com ele e esqueceu-se dele mesmo. Também sofreu uma desapropriação do Metrô. Mas foi impressionante o que conseguiu. Lá na Europa perdeu todo o dinheiro que tinha no banco - e que não era pouco. Coisas da política e de troca de governo. Aqui, começou consertando guarda-chuvas. Depois virou mascate. Teve lojas, depósitos, várias lojas alugadas. Uma loja de porte que abriu para os filhos, por exemplo, tinha charretes, caminhões, peruas, além de depósitos. Além de trabalhador, muito idôneo, só nos passou coisas boas.

 

Bom, mas voltando à minha infância, a primeira imagem que tenho fixada é da minha bicicleta. Que ganhei do meu tio: meu pai não podia, então. Eu era do tipo engraçadinha, que a mãe ainda realçava com roupinhas bem bonitinhas, muito esmero em cada detalhe, fita no cabelo, vestidinho curtinho. Lembro de que na festa de apresentação do meu irmão à comunidade judaica, eu roubei a cena em cima de uma cadeira lendo um texto em hebraico. Mas aí, segui o curso da vida de uma filha de família judia, sempre em contato com a família, com a religião, com a cultura, os costumes. Estudei, fiz o Científico, tentei Medicina, não passei, fui fazer Letras, que sempre fui muito ligada à leitura, à Literatura. Deu-se, inclusive, um fato curioso: no primeiro dia de aula na Faculdade, surgiu a chance de lecionar - fiquei um ano numa escola dando aulas de Francês. E, em seguida, passei a ensinar Português, aposentando-me no magistério. Nesse meio tempo, a oportunidade de prestar um concurso para a Prefeitura: trabalhar sob contrato por três horas diárias. Acabei ficando lá vinte e dois anos.

 

Sempre busquei fazer a vontade do meu pai, fosse por não querer contrariá-lo, fosse porque tinha grande estima e admiração por ele. Assim, estava frequentemente em contato com grupos de jovens judeus, com nossos costumes, com gente de mesmo perfil que o meu, respeitando a tradição, indo ao nosso clube - a Hebraica - e a um espaço onde nos reuníamos e de onde saíamos para cinema, teatro, sorvete, etc. E foi lá que eu encontrei aquele que viria a ser o meu marido. Aí, já tinha dois empregos e um fusquinha lindinho, novinho, amarelinho:


 

Só que não dava muita sorte essa cor não, nunca mais comprei nada amarelo… Tinha umas raspadinhas, tal, sempre acontecia alguma coisinha.  

 

Bom, e aí eu casei em 1974. E em 1976 nasceu meu filho, Gustavo. O meu esposo, como disse, conheci nesse local onde jovens israelitas, como eu e ele, principalmente universitários, se reuniam e saíam para programações em conjunto. Foi uma cerimônia simples, o casamento, que meu pai já não estava tão bem financeiramente. Mas foi um grande encontro, uma grande companhia, uma grande paixão também. Naquela idade, elas, as paixões, vinham como raios luminosos. E algumas duravam para sempre.

 

Fomos submetidos a uma dura prova quando meu marido se acidentou: ficou muito mal, perdeu uma vista, sofreu cirurgia, teve pneumonia… Mas sobreviveu. Foi muito bem cuidado. Assim como eu, anos depois, por ocasião de uma queda de moto na Avenida 23 de Maio. Ali tive, claramente, a proteção divina no sentido de não resultarem sequelas, ou acontecer o pior. De qualquer forma, interrompeu o meu ciclo de motoqueira, começado lá atrás, por concessão do meu marido. Também eu o coloquei diante da seguinte alternativa: moto ou asa delta. Então… Ah, sim, e jamais tive habilitação de moto. Andei, fui pega, caí, e nada de carta de moto.

 

Ainda passando em revista os aspectos da minha infância, reconheço que naquela época nossos pais nos estimulavam mais a praticar a religião.


 

(...) e assim foi passando a minha vida, e estou aqui hoje.


 

Sempre trabalhando muito, sempre muito ativa, curtindo os momentos intensamente, inventando. Tinha os dois empregos, dava aula no ginásio - primeira até a quarta - no colegial, muita Literatura, sempre pegava o máximo de aulas que eu podia. E, de maneira geral, por todo o tempo, procurei estar sempre ocupada. Só que esperava hoje, aos setenta e dois anos de idade, ter menos incumbências - marido, filho, pessoas que eu conquistei ao longo da vida. Enfim, sempre muito presente, muito exigida. E, diga-se de passagem, muito inventadeira de moda: guia de turismo, marionetes, workshopp, teatro. Olha que absurdo: no curso de guia de turismo, a nossa prova… A minha, graças a Deus, era divertir o público e depois falar sobre o cemitério, quando passava de ônibus.

 

E o teatro? Foram cinco peças!

 

A mais importante foi… Foi no clube, teve oitenta participantes… Eu velei um morto... Falei alguma coisa… Era lindo!

 

E assim, as coisas foram acontecendo. E eu acho que é sempre necessário agradecer a Deus e a todas as pessoas que me acompanharam, a família maravilhosa que eu tive, que eu tenho, todos aqueles que se aproximaram de mim para distribuir amor, carinho, amizade. Por isso, o meu sonho é continuar com saúde para seguir acompanhando os de que mais gosto. E continuar a viver. E, de vez em quando, fazer uma viagenzinha…

 


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