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História

Dignidade para quem precisa

História de: Barry Michael Wolfe
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2014

Sinopse

Em seu depoimento, o escocês Barry recorda a infância na cidade de Glasgow, como os pais se conheceram e as dificuldades de entrosamento nas escolas por onde passou. Fala sobre o interesse pela música desde muito novo e como acabou ingressando no curso de Direito. Após assistir o filme “Gabriela, cravo e canela” se interessou pelo Brasil. Barry recorda as primeiras impressões sobre o país e discorre sobre sua carreira profissional no Brasil. Lembra como começou a se interessar pelo submundo de São Paulo e como começou a fotografar frequentadores da noite paulistana, principalmente travestis. Por fim, relata o processo de criação do SOS Dignidade e o trabalho que este projeto desenvolve em São Paulo.

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História completa

Meu nome é Barry Michael Wolfe, nasci em Glasgow em 12 de julho de 1955. Meus pais nasceram em Glasgow. Meus avós paternos nasceram na Escócia, minha avó materna nasceu na Escócia, meu avô materno nasceu em Liverpool. Toda minha família, da geração dos meus bisavós vieram da Lituânia e acho que Estônia. Na comunidade judaica na Escócia todo mundo se conhecia. Minha mãe casou com 21 anos com um rapaz também da cidade que era bem galã cafajeste, só que o cara era doido. Seis meses depois de casados teve uma briga entre ele e meu avô, ele bateu no meu avô; minha mãe ficou a casa dos pais dela, ele voltou pra casa, enfiou a cabeça num fogão a gás e se matou. Então, minha mãe com 21 anos, seis meses de casada, virou viúva. Dá pra imaginar o que isso fez pra ela. Os pais mandaram ela pra visitar parentes nos Estados Unidos, ela voltou um ou dois anos depois. Ela tinha conhecido meu pai, mas como a família do meu pai era conhecida como muito metida, ela achou ele muito chato. Teve um cruzeiro na Europa e a família do meu pai e a família da minha mãe estavam lá e os únicos solteiros eram minha mãe e meu pai. Minha mãe achou meu pai meio esnobe, mas até o fim do cruzeiro eles estavam namorando e logo depois casaram. Eles moravam em Glasgow. Eu tenho um irmão, que nasceu três anos depois. Eu tinha babá. Meu pai trabalhava muito, viajava muito. E quando a Kathy foi embora quando eu tinha cinco anos, parece que eu entrei no meu mundo e fiquei retardado. Na casa da minha infância, os primeiros nove anos era uma casa chama semi-detached, que são duas casas juntas.

Na escola de infância fui com quatro anos, com cinco entrei na escola normal. Ia com meu pai ou motorista, o motorista do meu avô sempre me buscava na escola. Eu nunca gostei da escola. Na hora do recreio, as crianças tinham gangues ou jogavam futebol, eu não gostava de jogar futebol, não gostava de escola.  Na segunda escola tinha quatro filas de cada ano, A, B, C e D. Os mais inteligente eram A, os D eram menos inteligentes. Os menos inteligentes normalmente eram mais físicos, faziam rugby, futebol, essas coisas, ginástica. Eu era um dos piores, menos inteligentes e não fazia esportes. Apanhava. E também não achava nada muito interessante, vivia no meu mundo. Eu fazia as coisas que eu gostava, fazia meus shows de música, começou com música escocesa, depois foi mais rock com violão plástico. Comecei com violino, mas cada vez que eu tocava violino o cachorro chorava, fazia um barulho infernal. Até os 16 anos continuei vítima de bullying na escola, retardado, sempre o pior da classe, eu estava desligado, eu lia comics, desenhos, eu nem lia os livros. Eu tinha meus amigos, mas eles eram mais de música, já comecei a tocar em banca de rock da época com 14 anos. A minha casa era grande, a sala era enorme, tinha muitos instrumentos musicais e, para meus pais, qualquer coisa sobre música estava permitido. Era anos 60, as pessoas tinham cabelo comprido. Um amigo do meu pai que era professor da faculdade me ensinou como estudar e eu consegui, eventualmente, entrar na faculdade de Direito. Entrei na faculdade com 18 anos. Na faculdade, de repente estamos com pessoas de todas as classes sociais e já não tinha essa separação. Na verdade, eu não queria estudar Direito, eu tinha resolvido que queria estudar Filosofia. Meus pais acharam isso porque eu achei que não iria conseguir as notas pra entrar em Direito. Quando eu fiz 17 anos eu passei dois meses em Florença sozinho, eu queria ir embora de tudo, estava prestes a descobrir o Existencialismo. Depois eu fui fazer meu mestrado em Cambridge. Fiz muitas amizades porque as pessoas que estavam fazendo o meu curso eram pessoas muito interessantes, meu melhor amigo era filho do embaixador da Grécia em Moscou e acabei passando várias férias, Natal, Ano-Novo, na embaixada da Grécia em Moscou, na época de Brejnev e Andropov. No verão ia com a família dele para as ilhas gregas. Eu comecei a trabalhar em Londres, mas depois de dois anos eu queria realmente morar na Espanha, eu adorava a Espanha. A Espanha já fazia parte da Comunidade Europeia, mas advogado inglês não podia trabalhar na Espanha fácil, não era fácil. Depois de dois anos nesse escritório, eram dois anos de estágio integral, eu não fui aceito pra ficar lá. Eu também não queria, eu queria fazer um trabalho internacional. E um dia em 85 eu levei uma bronca do meu chefe, o estagiário sempre ficava na sala do chefe, eu achei que minha carreira estava acabada, eu fui no cinema e tinha um filme brasileiro no cinema de arte, que era “Gabriela Cravo e Canela”, com Marcello Mastroianni e Sonia Braga. Eu vi a sensualidade de Sonia Braga, eu já estava interessado no Brasil porque eu tinha lido vários livros de Jorge Amado em inglês. Eu vi este filme, eu a vi e eu achei incrível, pirou a minha cabeça. Eu não entendia nada sobre o Brasil, gostava da música. Ah sim, a minha namorada espanhola me dava gravações de Toquinho e Vinícius; eu tinha um outro amigo brasileiro que morava em Genebra, então eu estava interessado no Brasil e não sabia de nada. Eu tocava tamborim numa escola de samba, em Londres, e um dia eu falei com meu chefe que naquela noite eu ia tocar tamborim num grupo de samba e ele falou: “Mas por que você não vai pro Brasil? Não deve ter pessoas com a sua formação e se você passa um ano no Brasil e volta pra Londres, você vai ter uma coisa diferente”. Eu achava a ideia interessante, parecia ser mais divertido do que todas as outras alternativas. Eu comecei a ver contatos, eu tinha um amigo que era brasileiro e era banqueiro em Genebra, que era amigo de um amigo de Cambridge, tinha os clientes que tinham contato com a América Latina. E tinha um amigo do meu pai que era um banqueiro que foi conversar com ele, que tinha um amigo que organizava o primeiro fundo de investidores estrangeiros no mercado de capitais brasileiro. Isso foi em 1986, o Plano Cruzado começou no dia que eu saí da Inglaterra e no escritório de advocacia acharam louco alguém querendo ir pro Brasil, porque ninguém estava vindo pro Brasil, achavam melhor ir pro Iraque. Passei três semanas, voltei pra Londres. Odiava meu trabalho, não conseguia emprego interessante, só tinha oferta de emprego que eu achava muito chato, fazendo Corporate Finance, que é aquisições, essas coisas. E de repente eu recebi oferta de um emprego de um escritório de advocacia do Aldo Raia, que era irmão de Silvano Raia, diretor da Faculdade de Medicina da USP, que fez o primeiro transplante de fígado, oferecendo 500 dólares por mês. Mas o escritório não era muito sério, o dono do escritório queria um advogado inglês pra mostrar pras pessoas. E um mês depois que eu cheguei eu tive um ataque cardíaco, que era negócio de arritmia, que eu não sabia que tinha. No começo de 90, que era época do Plano Collor eu montei meu próprio escritório no Paraíso, aluguei uma casa, decorei, tive meu próprio escritório de consultoria em Direito Internacional. Primeiro escritório foi lindo, eu sabia exatamente o que eu queria. Eu montei um mini-escritório britânico lá, com biblioteca, com arquivos, tudo certinho. Consegui um pouquinho de trabalho de estrangeiros, mas era mais litígio fora do Brasil pra empresas brasileiras, operações financeiras onde o dinheiro entrava, operações legais, porque tinha várias taxas de câmbio, onde conseguia movimentar dinheiro numa taxa de câmbio montada na outra, que chama aqui de bicicleta, mas tudo legal, mas coisas bastante sofisticadas. Eu fiquei especialista nisso. O meu chefe de Londres era o maior especialista do mundo sobre a lei internacional de dinheiro, então eu tive uma visão dessas operações diferenciadas, eu me tornei especialista em trabalhos jurídicos não comuns.  Em 2001 fui contratado como diretor da KPMG, que é uma empresa de auditoria e consultoria que tinha uma divisão de investigação de crime financeiro. Fiquei três anos e depois, em 2004, comecei a trabalhar de novo sozinho. E nesse tempo eu comecei a ter uma massa crítica de investigações de trabalhos grandes e me tornei mais ou menos, acho que não tinha ninguém que tinha trabalhado em tantos casos grandes do nível que eu trabalhei. Em 2003, quando eu estava na KPMG, eu comecei a sair muito na imprensa, uma Isto É Dinheiro me chamou de “Sherlock Holmes da KPMG”, depois não saí mais porque a KPMG não queria. E quando eu fiz alguns trabalhos grandes em 2004, 2005, quando já tinha minha própria empresa, no começo de 2005 comecei a trabalhar no caso do Banco Santos. No fim de 2005. Entrei numa fase muito ruim, foi nesse momento que eu comecei a “SOS Dignidade”, a minha ONG.  Eu sempre fui fascinado pelo submundo, no meu trabalho de investigação eu olho o submundo de uma empresa, mas desde a época que eu li O Poderoso Chefão, eu achava o mundo de prostituição, o submundo, fascinante porque é um mundo escondido.

Nessa época que eu não tinha nada a perder, e comecei a andar na noite, nessas boates que tinha na época, tipo Love Story, onde as prostitutas iam pra se divertir no fim da noite. Love Story era o primeiro, você tinha prostituta de todo tipo, do mais alto nível até mais baixo nível, sempre reunia nesse lugar, chamava Casa de Todas as Casas. Eu namorava nessa época uma part-time garota de programa que era muito, muito legal, acabou casando com um inglês. E ela ia comigo nesses lugares. Eu ia numa boate onde especificamente as travestis iam no fim da noite, eu ficava no bar conversando e comprando bebidas, sozinho, sempre vestido de preto. Eu não achava, mas eu me destacava. Eu fiquei no bar, as pessoas começavam: “Quem é você? Você é famoso?”, só porque era diferente. E quando dava uma briga, às vezes dava uma briga muito rápida, muito violenta lá, quando isso acontecia, elas faziam uma roda de um segundo e me puxavam pra dentro da roda, me protegiam. Em uma outra ocasião alguém perguntou pra eles o que eu era, se eu era administrador. E um falou: “Não, ele é o nosso padrinho”. Eu não sabia que a cafetina era sempre chamada de madrinha, mas comecei a achar tudo isso muito, muito interessante. Em outubro de 2005 eu fui convidado pra um churrasco numa casa no Butantã onde esse grupo de travestis morava. Eu já estava pensando numa história, num romance, porque eu sabia que nessa casa, quando tinha um aniversário de uma das travestis que elas faziam churrasco. Tinha uma cerimônia, eu cheguei lá e tinha que ser apresentado pra madrinha. Eu achei isso fascinante, é um submundo que ninguém conhece. E tinha as travestis que moravam na casa e tinha outras travestis que não moravam na casa, mas que eram filhas dessa madrinha. Comecei a tirar fotos das pessoas lá, e quando voltei pra casa, coloquei as fotos no meu Mac, eu olhei as fotos, eu fiquei emocionado. Eu chamei um amigo que era jornalista do The Wall Street Journal e falei: “Olha essas fotos”. Ele achou interessante, falou: “Essas fotos são verdadeiras”, eu não sabia nada de fotografia. E comecei a tirar foto das pessoas lá e dava as fotos, revelava as fotos, fotos dos funcionários, dos bofes, dos traficantes, das pessoas que passavam na rua, e dava as fotos porque as pessoas brigavam pelas fotos. Eu vi que minhas fotos eram as únicas fotos delas que mostravam o lado humano. Comecei a fazer um portfólio, não mostrava pra ninguém, mas o assunto me fascinava. Comecei a entender como funciona o mundo de cafetinagem, a economia desse submundo de cafetinos, travestis, trazendo as pessoas vindo do Norte e Nordeste do Brasil vindo pra São Paulo, depois indo pra Europa. No mesmo tempo, como eu não tinha trabalho de investigação, como eu sou advogado inglês, muitos brasileiros estavam tendo o visto recusado pra Inglaterra. Comecei a fazer um trabalho de assessoria de vistos pra Inglaterra, que é uma área de lei inglesa que eu podia fazer porque é tudo na internet. Então, como em lei de imigração é lado inverso de tráfico humano, eu comecei a estudar sobre tráfico humano, e comecei a entender que estava havendo no submundo, em termos de cafetinagem, o tráfico humano. Então, eu escrevi uma matéria etnográfica, simplesmente descrevendo a realidade das pessoas e os problemas de doenças, de drogas, de tráfico, de cafetinagem. Simplesmente escrevi e mandei pra eles, eles falaram: “Vamos publicar, só manda a bibliografia”. No começo de 2008 fui apresentado a uma advogada brasileira chamada Karen Schwach, e a gente começou a defender as pessoas de graça, a ficar envolvido com o Comitê Estadual do Enfrentamento de Tráfico Humano, comecei a escrever mais, fiz alguns projetos. E fiz o nosso projeto SOS Dignidade, como uma parte da Barong, a ONG mãe. Assim que eu fiz a primeira exposição e que eu dei o nome de SOS Dignity, o trabalho de investigação começou a voltar. Quando eu montei o primeiro website e domínio, pra ter um domínio.org.br tem que ser vinculado com uma ONG, então, eu vinculei o domínio sosdignidade.org.br foi registrado no nome do Barong, então o SOS Dignity virou um projeto do Barong, que é a ONG mãe que tem toda estrutura de ONG. E desde então é um dos vários projetos do Barong. A Barong capta recursos pros outros projetos da Barong que trabalha com saúde reprodutiva, saúde de homem, saúde de mulher. E eles conseguem alguma coisa de papelaria que vai pra SOS Dignidade. A gente tentou licitações pra trabalho da SOS Dignidade, mas não conseguimos. A maioria dos casos é de travestis, mas a gente trabalha com tráfico humano em geral e com abuso de direitos humanos. São casos que ninguém quer.

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