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Dignidade e sustentabilidade

História de: Vercidino Albarello
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 13/02/2017

Sinopse

Vercidino Albarello é gaúcho, nascido na cidade de Palmitinho em 1948. Seminarista, após concluir os estudos em direito assumiu a diretoria de uma escola em sua cidade e pouco depois tornou-se prefeito. Mais tarde, presidiu a Comissão de Defesa do Meio Ambiente, onde atuou firmemente em favor da questão ambiental. A partir desta experiência, participou do desenvolvimento do projeto Somos Todos, que promove a inclusão social de catadores de materiais recicláveis.

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História completa

Eu sou Vercidino Albarello, nasci em Palmitinho, norte do Rio Grande do Sul, no dia 21 de abril de 1948. Nasci em uma pequena comunidade, com poucas casas, nas costas do rio Uruguai. Meu pai, Constantino Albarello, ainda solteiro, foi para esta região e com a casa pronta levou a família dos pais dele. Tive uma convivência muito curta com o meu pai, pois ele faleceu jovem, aos quarenta e dois anos de idade, quando eu ainda não tinha oito anos. A partir daí as nossas dificuldades foram sendo muito acentuadas porque a minha mãe, Eugênia Piaia Albarello, tinha oito filhos estando grávida ainda de minha irmãzinha, que nasceu quarenta dias apenas após a morte de meu pai. Eram nove bocas para alimentar e a profissão de seleiro e sapateiro praticada pelo meu pai não tinha possibilidade de continuidade pela minha mãe e nem pelo meu irmão mais velho, que tinha doze anos. Então, minha mãe decidiu voltar para a roça, de onde havia saído, comprou mais um pedaço de terra e conseguiu sustentar, alimentar, encaminhar e educar os seus filhos a ponto de eu ter tido a oportunidade, juntamente com outros meus irmãos, de cursarmos a faculdade.

Eu entrei no seminário com nove anos e saí com dezenove anos feitos, e se tive alguém que me inspirou na infância foi o padre Laurindo Guizzardi, no seminário em Guaporé, que foi meu professor de Português e meu estimulador para o teatro, a poesia e a expressão do discurso. Eu gostava muito de declamar poesias, seja as clássicas, Navio Negreiro, Olavo Bilac, mas também muito das nossas poesias gauchescas, do nosso linguajar. Foi um período muito importante para mim, e acredito que isto também tenha facilitado a que eu tivesse uma expressão quando fosse falar em público e que tenha cativado o eleitorado quando eu fui fazer a minha primeira campanha. O seminário nesta época era internato. E hoje, claro, passando já pela fase de ter filhos pequenos, eu fico a imaginar o quanto também era saudade da minha mãe e dos demais irmãos porque o sistema de seminário nesta época era você ter um mês de férias e era neste período que você tinha contato com a família, não existia telefone, era uma carta por mês, então ansiosamente chegava o período de escrever uma carta para a mãe e de receber de volta esta carta que era a notícia que se tinha da família. Então era uma vez por ano durante o período de trinta dias, normalmente no período de Natal, que o seminarista voltava para o convívio da família e depois retornava para o seminário.

Ao final do seminário eu já participava ativamente na comunidade, seja no colégio dando aula, seja como secretário executivo do sindicato de trabalhadores rurais que também para mim foi um aprendizado muito grande. Um episódio desta época, quando eu tive que revalidar os estudos para ingressar na faculdade, foi que entre a cidade de Santo Ângelo e Palmitinho temos o rio Guarita que é afluente do rio Uruguai. E existia uma balsa. Quando eu fui fazer os exames era um período chuvoso e nesta semana em que eu estive em Santo Ângelo fazendo os exames foi tanta chuva que o rio Uruguai represou o rio Guarita, eu não tinha dinheiro e estava com extrema dificuldade, mas voltava para casa e na cidade de Tenente Portela encontrei a notícia de que não podia transpor o rio Guarita para eu chegar até a minha casa por causa da enchente, a balsa não dava passo. Fiquei três dias preso em Tenente Portela sem dinheiro pra comer, sem dinheiro pra pernoitar, fui pedindo gentilezas para poder dormir e um pedaço de pão pra poder comer. E no dia em que eu pude transpor o rio Guarita sobre a balsa eu disse para mim mesmo, que se um dia eu tivesse uma oportunidade na vida eu haveria de construir uma ponte aí. E a oportunidade veio muito rápido, três anos depois eu fiz esta ponte como prefeito. Está até hoje lá, 110 metros de extensão, dezesseis metros do nível da lâmina de água, uma grande ponte hoje servindo de ligação entre duas regiões, a zona da produção com a região missioneira do Rio Grande do Sul, e por onde passa um grande movimento.

Com meu diploma de segundo grau completo em mãos pude fazer inscrição num vestibular em Passo Fundo, e fiz a inscrição para a faculdade de Letras. E também com muita dificuldade. Hoje nós temos ônibus, hoje nós temos faculdades perto das nossas cidades, perto das nossas casas. Nesta época eu já trabalhava e no final do expediente era pegar o Fusca e ir até Passo Fundo, 200 quilômetros à noite, pra fazer as aulas e voltar de noite ainda pra chegar de madrugada em casa para no outro dia trabalhar e assim era os nossos dias de estudante na faculdade, mas assim me formei. Ao terminar a faculdade me mudei de Palmitinho para Porto Alegre, porque, sem eu ter imaginado que isso pudesse acontecer, a região me convoca para que eu seja candidato a deputado. E novamente, para surpresa minha e da região, eu fui eleito, estava com vinte e oito anos entrando na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

A consciência, vamos dizer, de cuidar adequadamente das embalagens dos agrotóxicos, nós começamos a ter na época em que eu já voltei do seminário para Palmitinho. E lidando com os agricultores como sindicato de trabalhadores rurais, então eu tive a oportunidade de mostrar a eles o quanto era prejudicial. Esta minha região era e continua sendo plantadora da cultura do fumo, que leva uma quantidade exorbitante de agrotóxicos. E nesta época as indústrias fumageiras com seus agentes regionais não explicava aos nossos plantadores dessa cultura, não explicava o quanto era nocivo o veneno. Então nós tivemos a oportunidade, de fazer reuniões com os agricultores e mostrar a eles, primeiro, que isto era muito perigoso; segundo, que eles tinham que usar máscaras para ir até o canteiro de mudas fazer a primeira aplicação e depois já no transplante, nas mudas da lavoura, fazer a fumegagem desse veneno nas folhas do fumo. E nós já encontrávamos nesta época pessoas debilitadas em função deste problema do agrotóxico, que era muito pernicioso à saúde, e as pessoas não sabiam por que estavam doentes, de estar manuseando inadequadamente esses produtos e jogarem os vasilhames no pátio, mesmo sem lavar adequadamente as mãos comerem uma fruta ou de irem se alimentar sem terem lavam adequadamente as mãos. Então começa aqui um trabalho da conscientização da periculosidade deste veneno e da necessidade do acondicionamento adequado destas embalagens e que veio a ganhar corpo nos anos seguintes, aos poucos eles foram sendo conscientizados e acredito que hoje eles já não fazem mais nenhum descarte irregular.

Na Assembleia Legislativa sou colocado como presidente da Comissão de Defesa do Meio Ambiente, onde então eu assumo esta área ambiental. Nesta época eu tive um trabalho muito intenso na preservação ambiental e ali se começa a trabalhar também o resíduo, o lixo, o lixão. Para o final dos anos 80 e já na década de 90, começa com mais intensidade a campanha da separação do resíduo e a ter também unidades de reciclagem organizadas, ao invés de simplesmente o catador individual e o reciclador individual. Então este espectro do assunto ambiental foi pra mim muito mais intenso nesse período em que eu estive na Assembleia Legislativa, eu estive por dois mandatos, de 78 a 86, e daí eu saí, estou fora da política até hoje, mas tenho gratas alegrias no que realmente pude fazer, basicamente em cima desta atividade: de um lado o desenvolvimento de políticas que atendessem à agricultura familiar e do outro lado a defesa ambiental. Saindo da política, fui convidado pela administração municipal do atual prefeito para trabalhar dentro do Departamento de Limpeza Urbana da cidade de Porto Alegre, nesse departamento eu dediquei minha atividade na coleta seletiva e no contato com as unidades que o departamento serve até hoje com o recolhimento desses produtos recicláveis da cidade. E foi quando eu tive contato com um projeto, com um programa, que teve um incentivo muito grande, incentivo que eu digo é aporte financeiro pra ter os primeiros passos, da Braskem e que projeta um programa de atendimento de modificação do panorama da inclusão produtiva deste pessoal que se dedica a ter o sustento com a reciclagem dos resíduos de Porto Alegre. Este programa tinha e tem este objetivo, da inclusão produtiva, nós tínhamos a missão de mostrar que esse trabalho era rentável e que dava sustentação, e que não era simplesmente na condição de miserabilidade de tirar o pão e o leite das crianças e ficar mendigando uma cesta, um auxílio para levar pra casa o alimento.

O programa “Todos Somos” tem três projetos. O primeiro deles era este do levantamento da situação que nós denominamos “A Busca Ativa”: equipes saíam pela cidade fazendo cadastro, vendo quais eram as necessidades, inclusive quais eram os encaminhamentos a serem dados, enfim, se fazia uma radiografia desta pessoa cadastrada. E a esta pessoa então eram oferecidas oportunidades de cursos de capacitação em vários ramos, depois este grupo é encaminhado para o mercado de trabalho, nós tínhamos empresas da iniciativa privada oferecendo vagas no mercado de trabalho. O segundo projeto dentro do programa era a reformulação produtiva e essa reformulação produtiva vai desde as melhorias físicas nas unidades, adequação dessas unidades, equipamentos, da técnica da separação e da gestão das unidades. E também já teve inicio, mas vem vindo aos poucos e agora com maior intensidade o terceiro projeto dentro do programa Todos Somos que é a educação ambiental, que estamos trabalhando agora. Nesse presente momento nós estamos apresentando à câmara de vereadores uma proposta falando da necessidade de transformar esse programa em uma política pública.

O “Todos Somos”, então, desenhou um quadro em cima do qual estamos trabalhando até hoje e com resultados espetaculares. Aos poucos nós estamos chegando, o nosso sonho é fazer com que efetivamente eles tenham este ambiente aprazível de trabalho e que eles possam partir para um segundo passo numa comercialização coletiva e da comercialização coletiva que já está acontecendo em Porto Alegre, eles possam sonhar com uma industrialização de parte deste produto. E eu vejo que a Braskem está nos olhando com esse olhar e, quem sabe, este sonho se torne realidade, de nós termos pelo menos uma experiência no curto prazo de uma industrialização do plástico, o que dá, sem dúvida nenhuma, um upgrade no ganho deles e que possa estabelecer um outro patamar de vida para estes cidadãos.

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