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Diga-me como andas, que te direi quem és.

História de: Odenísia Andrade Dourado
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/03/2013

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Então, a adolescência eram os bailes. Os bailes, inclusive, tinha os bailes dos Carlos que era na Aclimação, que era aquele povo negro né, com aqueles meninos com a caça boca de sino, aqueles cabelão. E a gente sempre dando um jeitinho pra ficar bonitinha. Então é, ela fez uma saia azulona pra mim comprida e a camiseta Hering, que eu fui no baile me sentindo a “rainha da cocada”. Aí no outro baile eu queria ir de novo. Só que eu queria ir com outra roupa. Aí eu me lembro que eu limpei a casa, eu fiz tanto serviço pra minha mãe, mas tantas gentilezas pra minha mãe, porque eu queria que ela pusesse uma sianinha na saia e aí ela colocou.. Então a gente reinventava a roupa. Nem se dava conta dessa pobreza assim, a gente não tinha um discurso de que é pobre. A gente sabia que alguma hora alguma coisa ia acontecer... Um pouco da experiência de ver meu pai e a minha mãe recriando a vida, inventava roupa, uma emprestava da outra, pintava os olhos aqui de azul, passava delineador embaixo. Aí a minha irmã sabia fazer a maquiagem e eu sabia pentear os cabelos. Então a gente desfiava o cabelo, punha laquê, parecia uns abajures, umas coisas assim. E uma coisa interessante dos bailes, que eu me lembro, foi só acho que tinha o Tim Maia, que cantava aquela música “Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar”. E nesse dia eu conheci o meu primeiro namorado. É claro que ficou só no baile porque minha mãe não tinha aquela coisa de deixar sair. Mas aí essa música do Tim Maia influenciou muito na minha história, porque eu cantava, eu ia fazer alguma coisa interessante eu falava: “Ter um sonho todo azul, azul da cor do mar”. E aí o sonho foi uma coisa que foi fazendo parte assim, de nunca achar que não dava pra fazer e quando não dava também era interessante ter tentado, ter quebrado a cara, por causa dessa dinâmica que eu vivia lá de ver meu pai: um dia não tem, depois tem. Ah, e tinha muita boate naquele tempo, na 9 de Julho. E ele ia lavar o prédio, a porta do prédio bem cedinho, ele sempre acordou cedo, e ele aparecia com uns anéis. Porque acho que o povo saia das boates bêbados aquelas coisas, e ele achava as joias no chão, aí dava de presente pra minha mãe. Naquele dia ele comia o bife à milanesa que ele gostava. Não sei se ele comia mais coisas depois. Mas ele sabia que a coisa mudava. Então tinha alguma coisa assim do irresponsável com sorte, ou sorte, sem sorte, não sei. E aí acho que da minha adolescência acho que eu lembro essas coisas assim. Bom, esse namorado, depois teve outros, nada assim tão interessante. Mas aí eu me lembro que a minha avó sempre dizia pra minha mãe e a minha mãe repetia pra gente, que a gente tinha que ter muito cuidado, porque as duas, os antigos conheciam muito bem a moça que perde a virgindade pelo andar. A minha mãe ficava costurando aqui e aqui tinha um corredor que ia pro quarto. Aquele dia eu passei sentada no corredor. “Que você está no chão hoje?”, “Não, hoje eu quero ficar no chão. Eu vou me arrastar até ali”. E o medo de eu levantar e ela falar: “Não é que essa menina já não é mais moça.”. Isso são aquelas coisas que você marca. Porque naquele tempo virgindade era o cartão postal pra você casar bonitinho.
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