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Diário de um isolamento social vivido por um idoso

História de: Clodoaldo Gomes Tibiriça
Autor: Clodoaldo Gomes Tibiriça
Publicado em: 13/12/2020

Sinopse

Diário de Clodoaldo Gomes Tibiriça, 14 de agosto de 2020.

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História completa

Meu nome é Clodoaldo Gomes Tibiriçá, tenho 64 anos, completados no último dia 4 de julho de 2020. Nasci e moro no bairro de Pinheiros, sou divorciado e não tenho filhos. Meu último emprego foi como gerente comercial de uma loja de materiais de construção, aqui mesmo no bairro.
Levava uma vida normal. Porém, era muito obeso. Está obesidade, ajudou a desencadear uma série de doenças. Entre os anos de 2016 e 2020, estive cinco vezes internado. Num total de 282 dias. A terceira internação foi a mais longa e grave. Fiquei internado na Santa Casa de Misericórdia, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Fiz um tratamento seríssimo e por lá deixei 40 quilos.
Através de muitas sessões de fisioterapia, graças a Deus e a equipe multidisciplinar que me acompanhou desde o início do tratamento até a alta, consegui retornar para casa amparado por uma bengala.
A equipe me garantiu que se eu fizesse tudo direto em até 2 anos deixaria de usá-la. E, realmente, atualmente só uso bengala por causa da irregularidade das calçadas. Este fazer tudo direito incluía, por exemplo, idas a consultas periódicas ao Centro de Saúde para acompanhamento geriátrico. E foi assim comecei a fazer o acompanhamento de forma correta.
Meu desejo também era voltar a trabalhar. Comecei na loja fazendo apenas meio expediente.
Até que, um dia, em uma consulta de rotina na geriatria, foi descoberto um câncer de pele, na parte frontal da cabeça.
Aí começou tudo de novo: consultas médicas em especialista em dermatologia.
A conclusão médica, depois de alguns exames realizados, foi que fazer cirurgia era o mais indicado. Lá fui eu, novamente, enfrentar hospital e, pela primeira vez, passar por cirurgia. Feito o procedimento, voltei ao trabalho.
Algum tempo depois, em uma consulta na geriatra, a médica desconfiou de um problema cardíaco e imediatamente me encaminhou para o Instituto do Coração.
Exames feitos e o resultado foi "fibrilação atrial crônica". Uma doença que nasci com ela, mas só naquele momento se manifestou. Novamente estava eu, às voltas com hospitais e consultas. Isso já era final de 2018 e minha rotina estava mais uma vez alterada. Precisei parar de trabalhar para poder ir às consultas e exames. Em abril de 2019, internei-me no Hospital das Clínicas para fazer algumas avaliações e alguns exames no Incor. Nesta internação fiquei 26 dias. Com os resultados em mãos, passei a ser paciente do Incor. Entre uma consulta e outra fui convidado a conhecer o CDI-Pinheiros. Um espaço ocupado por 32 usuários idosos, com idade a partir de 60 anos.
Depois de conhecer, passei a ser também um usuário. Lá comecei a interagir com meus novos colegas e a participar de todas as atividades disponíveis. Vale lembrar que iniciei minhas atividades no CDI- Pinheiros a partir de junho de 2019.
Foi aí que minha rotina mudou... e mudou para muito melhor.
Até porque era perfeitamente possível conciliar as minhas consultas com as atividades do CDI- Pinheiros. Assim foram os dias passando, os meses, e eu participando de todas as atividades. Não posso me esquecer de registrar o excelente trabalho da equipe técnica e dos cuidadores de idosos do nosso CDI-PINHEIROS. Bem, com tudo isso, chegamos ao final do ano e junto com ele o covid 19, na China, mais precisa mente na cidade Wuhan.
Em dezembro ainda, a equipe médica do Incor decidiu que eu realizaria uma cirurgia de implantação de marcapasso.
No dia 18 de dezembro de 2019 fiz os exames pré-operatórios.
Já em 2020, no dia 16 de janeiro, voltei ao Incor e a equipe me avisou que aguardasse que, a qualquer momento, eu poderia receber um telefonema para internar e operar. Naquele dia, ainda no período da tarde, participei das atividades do CDI-PINHEIROS. Fiquei aguardando um telefonema, só que a epidemia, tornou-se uma pandemia e no dia 17 de março as atividades do nosso CDI-PINHEIROS foram suspensas. Confesso que me impactei muito.
Aí pensei não vou sofrer por antecipação. Vou viver o momento presente.
Então, busquei uma rotina para meu isolamento social. E resolvi registrar tudo. Até mesmo porque não foi só a minha rotina que mudou, mas de todas as pessoas do mundo.
Ao decidir por escrever este diário, pensei: vou registrar meu dia a dia, mas também escrever gestos de solidariedade entre as pessoas.
E também pessoas que em um gesto de superação e de amor a vida salvaram-se da covid19 tendo 60, 70, 80, 90, 100, 110 e 114 anos de idade. Ou seja, estou registrando o lado bom desta tragédia.
É bom lembrar que minhas pesquisas consideram o mundo todo.
Para minha surpresa, no último dia 12 de julho, internei-me, no dia 13, operei e no dia 14 já estava de alta. Mesmo nestes dias em que passei no Incor, não deixei de fazer o meu diário.
Na próxima sexta-feira, dia 14, irá completar 150 dias sem as nossas atividades no CDI, e 150 dias que venho colhendo incríveis depoimentos.
Agora, olhando e lendo meu diário, vejo quanta coisa realizei, quantas histórias lindas eu pude registrar. Também falei das minhas memórias passadas, memórias mais presentes.
Sabem tenho muita vontade de um dia, poder publicar este diário.
Para que daqui, sei lá, 20 ou 30 anos, alguém saiba o que aconteceu em 2020.
Mas também para que outras pessoas tenham a oportunidade de saber que ainda existem gestos muito bons em meio a esta tragédia que vem abalando o mundo e o nosso querido Brasil.
Muito obrigado.

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