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História

Devolvendo a humanidade que esquecemos

História de: Morgana Masetti
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/11/2004

Sinopse

Morgana nasceu na cidade de São Paulo no dia 11 de setembro de 1961. Morgana nos conta um pouco sobre sua infância, sobre a relação com os pais, a escola e as possíveis influências para cursar psicologia. Fala também sobre seu incômodo durante a graduação, onde via que certas coisas não faziam sentido, onde um dogmatismo afastava a psicologia do viver humano. Encontrou um caminho de atuação quando no seu último ano começa a estagiar no Instituto do Coração, depois lá também passaria por uma residência e trabalharia como concursada. Morgana indica sobre como foi essa trajetória, o que observou nos primeiros contatos, o que buscou mudar, sobretudo a sua percepção acerca da relação médico - paciente e de como poderia retomar a humanidade que faltava. Trabalhou com os Doutores da Alegria em seu início e até hoje presta assistência ao trabalho, onde encontrou um ponto chave para a mudança que faltava dentro dos hospitais. Enfim, nesta entrevista do Memorial de 25 anos do InCor, Morgana conta sobre sua trajetória, inquietações e possíveis soluções que marcaram seu caminho e de muitas pessoas.

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História completa

P/1 - Você poderia dizer seu nome, data e local de nascimento?

 

R - Meu nome é Morgana Masetti. Minha data de nascimento é 11 de setembro de 1961, São Paulo, capital.

 

P/1- Seus pais...

 

R- Meu pai nasceu em São Paulo, é descendente de família italiana, e minha mãe nasceu em Fortaleza, no Ceará.

 

P/1- Como eles se conheceram? Sua mãe veio pra cá quando?

 

R - Minha mãe veio adolescente para cá, ainda nessa época de imigração nordestina, de vir para São Paulo, para a cidade grande, ela veio em torno de 15 anos e eles se conheceram aqui e se casaram.

 

P/1- Qual a atividade de seu pai? O que ele fazia, faz?

 

R - Meu pai é aposentado. Ele era engenheiro civil, trabalhava em uma multinacional no cargo de diretor e minha mãe era mais prendas domésticas.

 

P/2- Você sabe a origem da sua família? Seus avós...

 

R - Meu avô paterno era italiano da região de Milão. Minha avó, a mãe do meu pai, também descendente de italianos e da parte da minha mãe sou descendente de portugueses e holandeses.

 

P/2- Você nasceu em São Paulo mesmo?

 

R - Capital.

 

P/2- O bairro em que você nasceu?

 

R - Nasci perto da Paulista onde tem a [Maternidade] Pro Matre.

 

P/2- Sua casa está lá? A casa onde você nasceu.

 

R - Sabe que eu não sei. Há alguns anos atrás ainda estava. Eu morei lá, minha infância eu passei no Brooklin. (risos) É, eu não sei se ainda existe, ali começou a virar tudo prédio...

 

P/2- Você morou no Brooklin quando era pequenininha?

 

R - Morei no Brooklin muito tempo, primeira parte da infância, depois saí, depois voltei na época que eu estudei no Pequenópolis, adolescência até a época do colegial.

 

P/1- Você tem irmãos?

 

R - Tenho uma irmã, cinco anos mais nova, ela já tem três filhos e mora em Brasília.

 

P/2- Como é que era o Brooklin na sua infância?

 

R - Eu ainda lembro daquelas coisas, de brincar em rua de terra... Cair e machucar o joelho em rua de terra, empinar pipa, ter campo de futebol, essas coisas... De estar meio solto. Depois, na época de escola, Pequenópolis, aquele esquema mais quadradinho... Mas também foi uma época legal.

 

P/1- Você gostava de ir pra escola?

 

R - Gostava.

 

P/1- Tinha alguma professora que você lembra?

 

R- Professora?

 

P/1- Alguma coisa que te marcou nesse período escolar?

 

R - Escolar como um todo? O primário sim me marcou, eu estudei no Mário de Andrade, que também é ali perto, na Joaquim Nabuco. Eu lembro muito assim, da escola, das matérias que eu tinha mais aptidão, que era português...

 

P/1- Área de humanas?

 

R - É. Eu gostava também de biologia e não me dava bem em matemática, física... Depois eu me lembro bastante da época do colegial, mais pro final, a preparação para a faculdade.

 

P/1- Como é que era na sua casa? Quem exercia autoridade? Seu pai, sua mãe...

 

R - Meu pai. Minha mãe esteve um período da minha vida muito ausente e aí tem um gancho para a psicologia, de por que eu fui fazer psicologia, porque ela teve um problema de stress super sério, foi diagnosticada como PMD, que é Psicose Maníaco Depressiva, teve muitas fases internada em hospital psiquiátrico, foi no começo da minha adolescência, então meu pai era uma figura muito mais presente, fazia os dois papéis.

 

P/1- Você tinha quantos anos?

 

R - Foi uma fase que durou dos nove até os treze, quatorze anos, a fase mais séria. Aí eu acho que a família viveu toda uma readaptação em função dessa doença dela, nós nos reorganizamos, vamos dizer assim. Depois entramos em um período de mais tranquilidade, onde ela nunca se recuperou cem por cento, mas hoje a gente administra, convive com as sequelas do que aconteceu.

 

P/1- Vocês tiveram alguma formação religiosa?

 

R - Meus pais educados super católicos, minha mãe educada para ser freira, meu pai era coroinha, aquela coisa bem católica. Depois, com essa crise que a gente viveu, essa coisa da doença, onde a primeira coisa que eles procuraram foi a igreja católica, pra ver o que estava acontecendo, e as respostas que eles tinham não satisfizeram, aí houve toda uma abertura da própria família, deles, em primeiro lugar, pra outras coisas, outras religiões, outras formas de pensar, de ver o mundo. Mas a educação foi super católica, eu sou filha de tabelinha, de não poder usar anticoncepcional na época que eles casaram. Hoje a gente tem uma postura muito aberta, meu pai virou um estudioso de religiões, um cara super aberto para várias coisas.

 

P/1- E na adolescência, o que é que você fazia, tinha uma turma, namorava ?

 

R - Tinha turma, comecei a namorar tarde, acho que fruto de uma educação muito católica vinda deles, comecei a namorar com 15,16 anos, que na média a meninada já estava namorando. Tinha a turma da rua assim, onde a gente convivia, tinha a turma do colégio, a fase de ser bandeirante... Isso também era um ponto que você tinha essa turma também. A gente fazer essa coisa da ação, do bem ao próximo, esses valores que rolavam... de vender biscoito Mirabel para juntar grana.

 

P/1- Vendia onde biscoito?

 

R- Vendia na escola, levava...

 

P/2- Tinha um grupo de Bandeirantes ali perto da Av. Bandeirantes, era ali?

 

R- Era. Ali mesmo.

 

P/2- Tinha aquelas coisas, uniforme?

 

R- Uniforme... tudo bem caretinha. Mas era uma fase legal a fase de acampamento, só me lembro disso.

 

P/1- Aí você decidiu fazer Psicologia?

 

R- Então, decidi assim... naquela fase que você decide...

 

P/1- A fase do vestibular.

 

R- O que você decide com dezessete anos? É uma fase de difícil decisão. Hoje eu reflito no porque que eu fui fazer psicologia e ainda não tenho uma resposta fechada, acho que ainda estou vivendo essa minha missão na terra. Conforme você vai amadurecendo você vai pensando mais, aprofundando mais. Na época era uma coisa um pouco da minha personalidade, de alguém tímida que escutava muito, tinha muita facilidade para estar escutando os outros, tinha essa coisa de querer ajudar os outros, tinha a história da minha mãe, que era uma história muito forte e enigmática, porque não tinha uma resposta. Era uma pessoa que tinha uma personalidade e depois passou a ter outra sem que você entendesse muito o porquê. Então eu tinha curiosidade também dessa área. Tinha facilidade para humanas, português, então escolhi a Psicologia.

 

P/2- Sua família tinha alguma expectativa de que você seguisse alguma profissão?

 

R- Meu pai queria que eu fosse médica, imagine? Eu não fui ser médica, mas fui trabalhar no hospital (risos), ele tinha muito essa expectativa, de eu fazer medicina, de achar que a psicologia era uma coisa que não tinha futuro, que eu não ia conseguir sobreviver...que ganhava pouco, era uma profissão que não tinha status. Na época, ser médico era muito mais legal que fazer psicologia.

 

P/1- Você tinha algum parente que tinha feito psicologia?

 

R- Não.

 

P/3- Você tinha parentes em São Paulo e parentes no Ceará? Vocês tinham contato?

 

R- Sim, com a família do meu pai bastante, era família descendente de italiano, morava na Mooca... Com a família da minha mãe menos porque muitos vieram do Ceará para cá, muitos faleceram, era uma família bem menor... e a gente foi perdendo o contato.

 

P/1- Você fez cursinho? Como você entrou na faculdade?

 

R- Foi o seguinte... eu estava no terceiro colegial e meu pai foi transferido a trabalho para Minas, foi morar em Ouro Preto. Eu fui, mas fiquei morando em Belo Horizonte, fazendo o meu terceiro colegial que já era um colegial que te preparava pra faculdade e pro vestibular. Aí eu prestei e entrei na PUC [Pontifícia Universidade Católica], aqui em São Paulo e eu vim pra São Paulo, foi o momento em que eu me separei da minha família, deixei de morar com eles.

 

P/1- Por que foi sua mãe e sua irmã pra lá?

 

R- Eles ficaram morando em Minas, moraram em Ouro Preto vários anos, e eu vim pra São Paulo e comecei minha carreira solo (risos), sozinha.

 

P/1- Em que ano você entrou na PUC?

 

R- 81. Não 80, eu me formei em 84.

 

P/1- Como é que era a PUC, o curso de psicologia nessa época...

 

R- Era muito legal, tinha um primeiro ano que você estudava com outras pessoas, de outros cursos...

 

P/1- O básico.

 

R- É, era legal, tinha outras matérias. Era uma faculdade que tinha uma visão aberta para as coisas. Para mim foi um momento legal porque saindo de casa e indo para uma Universidade, com esse perfil da PUC, foi uma fase de abertura de mentalidade, de conhecer outras coisas. Eu gostei. Depois tem aquela coisa de faculdade, até você chegar onde você quer é um caminho que demora, tem muita coisa que você faz que não tem sentido, não curte porque não entende, estuda mas não sabe muito bem porque está estudando...Eu acho que eu comecei a curtir mesmo quando eu comecei a trabalhar, fazer estágio, que foi aqui, no meu quinto ano de faculdade. Aqui eu achei um canal legal porque conforme foi passando o curso eu não me identificava com o trabalho de consultório, eu achava que não me satisfazia... para a realidade que a gente vive no Brasil, onde as questões sociais são tão importantes, a diferença social é tão grande, eu queria fazer um trabalho que tivesse um alcance social maior e mais dinâmico. Eu achava a coisa do consultório legal, tudo, mas meio parada, pouco dinâmica, você fica trancada o dia inteiro, não me satisfazia. Eu gostava da clínica, mas não do trabalho de consultório. Para mim, o trabalho no hospital foi uma super descoberta do que eu queria fazer. Primeiro que era algo muito novo pra época, em 84 que eu estagiei...

 

P/1- Mas na PUC já se falava em psicologia aplicada à área hospitalar?

 

R- Não tinha nem o curso formal sobre isso, sabia-se que tinha estágios nessa área, estavam começando a falar dessas coisas. Pra alguém que estava fazendo psicologia, eu achava muito legal. Primeiro que você tinha a possibilidade de ter acesso a um grande número de pacientes, numa estrutura muito dinâmica porque no hospital acontecem muitas coisas, você tem que lidar com muitas variáveis, de um dia para o outro muda a situação. Foi uma descoberta. Teve o lado da descoberta e o lado da dificuldade, claro, porque ainda naquela época o modelo era muito pra consultório, então... eu me lembro de muitas situações de entrar pra tentar ajudar alguém e a pessoa começa a ter um monte de reações e você não sabe o que fazer com aquilo, um pouco pela inexperiência, um pouco por estar no começo da carreira, e também porque é uma situação muito peculiar, né, você pega uma pessoa em uma situação de crise realmente. Mas eu acho que como começo de carreira a experiência daqui foi fundamental, para as outras coisas que eu pensei e desenvolvi na minha vida, foi uma oportunidade muito legal.

 

P/1- Como é que você ficou sabendo? Como é que você veio parar nesse estágio?

 

R- Boa pergunta. Eu fiquei sabendo por algum canal, não sei se dentro da própria faculdade, não me lembro exatamente como, mas que estavam abertos os prazos para quinto-anista, era um estágio de meio período na época. Aqui já existia o Serviço de Psicologia, eles aceitavam inscrições, eu passei por um processo de seleção. E aí durante o quinto ano da faculdade eu estudava e trabalhava aqui, paralelamente.

 

P/1- Você tinha tido contato com a Bellkiss na faculdade?

 

R- Não. Eu vim conhecê-la aqui, no processo de seleção. A gente usava uniforme azul claro... (risos)

 

P/3- Como era esse processo de seleção?

 

R- Eu preciso lembrar pra não misturar as coisas porque eu fiz como estagiária, depois como residente, depois eu prestei concurso. Eu lembro mais o de residente, engraçado. O de residente tinha uma prova escrita e acho que tinha um processo de entrevista mesmo, agora não tenho certeza, precisaria checar. Vocês lembram? Já falaram pra vocês como era?

 

P/1- Não. Você já tinha trabalhado antes?

 

R- Eu já tinha trabalhado antes, mas não nessa área. Foi a primeira coisa que eu abracei com mais profissionalismo mesmo, que eu senti, quando eu entrei, que era uma área que me cativava, que tinha a ver com o que eu queria fazer.

 

P/2- Quando você chegou aqui para o trabalho, no primeiro dia, você lembra como foi?

 

R- Vocês fazem umas perguntas que tem que escavar na memória! Eu lembro que tinha muito a coisa da emoção do ambiente, porque o hospital não é um ambiente que você convive muito, graças a Deus eu nunca tinha convivido muito, não tinha história de pessoas doentes, então tinha muita emoção no trabalho. Eu me lembro muito de presenciar uma parada cardíaca, que é uma coisa absolutamente fora da nossa realidade, o procedimento de socorro, no caso essa pessoa faleceu, depois você vê o corpo estendido e fala “Pô, morreu”, são todas essas questões que te vêm... a pessoa está ali mas ao mesmo tempo morreu. Então tinha muitas emoções do trabalho de hospital, de ir assistir uma cirurgia, por exemplo, que foi algo que eu fiz, sentei três ou quatro vezes porque achava que ia desmaiar, mas...Eu lembro disso.

 

P/1- Você assistindo a cirurgia falou “Eu acho que vou desmaiar”?

 

R- Eu tive que sentar mesmo... tinha que sair, aquele negócio...A cirurgia cardíaca é um negócio super violento. Eu lembro do momento de entrada em UTI, coisas muito fortes... isso eu lembro bastante. Lembro muito também dessa impotência. Como é que você ajuda alguém que está sofrendo? De verdade mesmo? Coisas que te fazem pensar muito.

 

P/1- Quanto tempo durou esse estágio?

 

R- Um ano. Eu gostei da história e resolvi prestar residência, que é pra quem já é formado, que aí ficava o dia inteiro.

 

P/1- Durante um ano?

 

R- Na época que eu fiz ainda eram dois anos. Tinha a parte de estágio, que você passava por todas as enfermarias, e tinha a parte de aulas, de formação.

 

P/2- Você trabalhava em alguma atividade específica?

 

R- Eu rodava, você ia para todas as enfermarias, você ficava, não lembro se eram dois ou três meses, na infantil, no Pronto Socorro, você trabalhava com infartado, dependendo da enfermaria da divisão e da psicóloga responsável. Você tinha uma psicóloga responsável por cada área e você participava das atividades que essa psicóloga fazia, atendia paciente, tinha supervisão dessa psicóloga.

 

P/2- Você entrava em contato com esse trabalho multiprofissional? Como é que foi isso?

 

R- Aí eu acho que dependia muito da linha de trabalho da pessoa pelo qual você estava passando. Pra pessoa que trabalhava mais com grupos, você participava dos grupos de orientação. Tinha pessoa que participava de reuniões multidisciplinares, aí você participava. Você meio que seguia o esquema, a linha proposta pela psicóloga responsável e com isso você ia aprendendo.

 

P/1- Teve alguma dessas enfermarias onde você passou na qual você se identificou mais? Porque muda o perfil do paciente...

 

R- Muda. Eu não lembro assim uma específica pra te dizer. Eu lembro da Unidade Coronariana, onde vai o infartado, mas não tem uma específica que tenha me marcado mais.

 

P/2- O contato com os médicos e com os outros profissionais, médicos ou não médicos, como é que era?

 

R- Esse foi outro desafio muito legal que me instigava a querer trabalhar dentro do hospital. Isso era muito dinâmico, a coisa de ter contato com o paciente, mas saber que a condição dele, o bem estar dele, está muito ligado a como ele se relacionava com a família e com a equipe, trocar informações com médicos, enfermeiras... Aí tinha de tudo. Tinham médicos mais legais, que me marcaram, tiveram experiências mais duras, onde você sente realmente a coisa da medicina, da impessoalidade, de como o médico vai se tornando... vai tendo que se adaptar ao trabalho no hospital que vai deixando ele mais enrijecido em algumas coisas. Hoje a gente está vivendo uma época em que se pode falar e questionar abertamente isso, o próprio médico está fazendo isso, mas naquela época era muito difícil mexer nisso. O médico tinha e tem uma autoridade muito grande e a gente tem que pensar que a gente está dentro de uma instituição de ensino, que tem uma relação forte com o saber médico, a formação, então eram coisas que você observava, mas que você sentia que havia ali um trabalho de anos e anos para você mexer em numa determinada estrutura. Isso era instigante, eu falava: “Quero ficar aqui porque aqui tem coisa pra fazer.” Coisa para fazer porque assim... classe social super pobre: “como é que a psicologia podia ajudar aqui?” Era toda essa relação de doença.

 

P/1- Depois dessa residência abriu concurso aqui...

 

R-É, abriu concurso e eu fui contratada.

 

P/1- Abriu concurso, você passou...

 

R- Isso. Fui trabalhar com pacientes valvulopatas, que tem problema de válvula, que troca a válvula. Fiquei dois, três anos como contratada.

 

P/2- Você tinha outros trabalhos ou só no InCor?

 

R- Não, só no InCor mesmo, porque ficava o dia inteiro.

 

P/2- Tinha alguma pesquisa?

 

R- Eu curtia muito esse lado então sempre me inscrevia, em cada lugar que eu passava eu escrevia um trabalhinho, eu tenho até hoje esses trabalhos. (risos)

 

P/1- Pra depois dar uma olhada é interessante.

 

R- Tinha um sobre o Pronto-Socorro, um que eu fazia uma reflexão sobre o paciente da Unidade Coronariana, tem um com valvulopata, pequenos trabalhos que em cada área que eu passava tem alguma coisa que me interessava.

 

P/2- Participou de congressos?

 

R- Participava.

 

P/2- Você pegou um período em que estava se montando essa coisa de Congressos em psicologia hospitalar, né?

 

R- É, eu peguei bem no começo. Acho que era uma época em que a gente ainda estava querendo ganhar espaço. Eu acho que é por isso a coisa do uniforme “a época em que ainda se usava uniforme”. Do meu ponto de vista a gente viveu uma época em que para ganhar espaço a gente precisou entrar meio como médico, de sapato branco e depois foram vendo que cada um tem sua identidade, não precisa estar todo mundo de branco, cada um tem seu lugar. Mas acho que ainda vivi muito essa época de buscar espaço, das questões de poder, quem avalia quando, é o psiquiatra, é o psicólogo... ainda tinha muito essa busca... e como é que o psicólogo pode ajudar? No fundo a pergunta é essa: que contribuição a gente pode dar pra alguém que está sofrendo? Na verdade a gente não tem um modelo, a gente tem um modelo muito voltado para a doença, a gente precisa ter alguma coisa que não funciona para a gente poder se relacionar. O cara tem que estar em surto para eu fazer a minha análise. Tem o lado importante disso? Claro, sem dúvida, sem negar isso, mas tem um lado disso que às vezes afasta a gente de uma relação direta, de alguém que está sofrendo e precisa que você pegue na mão só, de repente. Isso eu acho que é difícil para qualquer um quando se está em uma situação difícil como essa. Meu grande desafio era como evoluir, como não me esconder atrás dos meus diagnósticos, das minhas interpretações... mas realmente poder olhar no olho daquela pessoa e ajudar. Acho que é a minha questão até hoje e vai continuar sendo minha missão nessa terra.

 

(troca de fita)

 

P/3- Como era o link com os médicos para você passar essas observações que vocês faziam? Como era o relacionamento com os médicos sobre os pacientes?

 

R- Eu acho que também aí variava muito de enfermaria para enfermaria, de psicólogo pra psicólogo e de médico pra médico. Tinha médicos que o acesso era mais fácil, tinha médicos que o acesso era mais difícil, tinha médicos que eu lembro que você vai conquistando, você vai mostrando que você não é só um rostinho que está ali para ver o paciente, mas que talvez tenha algo interessante pra dizer. Tudo isso você vai construindo. Tinha desde relatórios, tinha uma parte formal, que você escrevia na prancheta, nos atendimentos, até discussão de caso, formalmente você ir procurar o médico e ir discutir o caso, depois de ter solicitações, do atendimento, do médico te passar o caso.

 

P/1- O que significava trabalhar no Serviço de Psicologia do InCor? Para a psicologia na PUC, como é que as pessoas viam isso?

 

R- Eu não sei, nunca parei pra pensar...

 

P/1- Que era uma área que estava se formando?

 

R- É. Eu acho que era uma área que interessava para outras pessoas, se bem que a tônica da PUC sempre foi clínica, consultório e naquela época era o que a maior parte das pessoas optavam. Ir para a organização era um horror, você era comprado pelo sistema, tinha toda uma coisa política, de você se vender para o sistema, que também hoje eu acho uma besteira. Eu acho que organização... depois eu fui trabalhar com saúde em organizações, e é um lugar onde o psicólogo é muito útil pra fazer um trabalho clínico legal também, mas a tônica era clínica. A hospitalar era vista meio que como um ponto de interrogação, a única coisa que a gente tinha de técnica, vamos dizer, era a tal da terapia breve, que era uma coisa que você tinha na faculdade, o curso de terapia breve, que é algo que a gente utilizava muito pro trabalho dentro do hospital porque é algo que prevê... uma metodologia que prevê você trabalhar com sete, oito sessões, que tem uma metodologia descrita, tal. Mas é um trabalho ainda muito recortado do consultório, então tem conceitos que eu discuto. Por exemplo, quando o paciente não aceita alguma coisa que você coloca tem um nome pra isso que é resistência, não sei se vocês já ouviram falar... então é o termo para mostrar que aquela pessoa não está aderindo ao processo, a uma interpretação sua, então é isso que eu te falo que é ver quando você está se protegendo por trás de um termo ou se realmente aquilo pode estar acontecendo ou não. Muitas vezes se fala, bom, é resistência talvez pra explicar uma incapacidade sua de se comunicar com aquele paciente, aí está o meu gancho de porque eu fui trabalhar com os Doutores da Alegria, que é mais pra frente. Eu acho que tem a ver com algum dogmatismo da psicologia que eu quis me libertar, que culminou depois com a minha saída, teve um período depois que eu entrei em crise, não estava satisfeita com o trabalho que eu estava oferecendo dentro do hospital, achava que eu tinha que buscar outras coisas e aí eu saí. Saí por vários motivos, porque eu também queria dar um tempo, fui viajar, fiquei um ano fora, foi um momento que eu dei um tempo para uma série de coisas, mas acho que também ligado um pouco às próprias questões da psicologia, do trabalho dentro do hospital, do que eu poderia estar fazendo pra ajudar.

 

P/1- Você ficou aqui dois anos, né?

 

R- Não, fiquei aqui como concursada acho que uns três, acho que eu tenho uns cinco, seis anos no InCor de história.

 

P/1-Como é que é a vida como concursada? Você chegou a coordenar algumas dessas enfermarias de trabalho...

 

R- Eu era responsável pelos valvulopatas.

 

P1- Vocês tinham uma dinâmica de estudo, de pesquisa internamente...

 

R- Cada psicólogo tinha uma afinidade de trabalho. Eu sempre gostei mais de trabalhar com a coisa da solicitação e do trabalho da terapia breve, mas sempre trabalhando a relação médico - paciente. Nessa metodologia, quando você prioriza a relação médico - paciente, ou médico – equipe, a solicitação é uma coisa importante porque ela te mostra uma demanda de alguma coisa, tem algum caso que está tocando mais algum profissional, ou médico ou enfermeira... e aí você vai trabalhar não só com o paciente mas em cima um pouco dessa relação. Essa era meio minha linha de trabalho, trabalhar com a solicitação e o que é que essa solicitação gerava, por que é que tinham alguns casos que tocavam mais que outros. A ideia era trabalhar a relação médico - paciente que, obviamente, não era uma coisa simples de ser feita.

 

P/1- Teve algum caso que tenha te marcado aqui, que te levou a pensar que você precisava sair?

 

R- Tiveram vários... vários casos que eu saía um pouco com a sensação de impotência, de falar: “Será que eu ajudei aqui? Será que eu não fui mais alguém que entra no quarto e faz um monte de pergunta para esse cara e sai, e tem um diagnóstico mas no fundo não pode ajudar, não pode suprir uma necessidade desse cara?” Isso várias vezes me aconteceu, ter essa sensação. Teve um caso que me marcou muito que eu lembro que foi de um cara da polícia militar, ele era um general ou comandante, sei lá, uma dessas patentes, e ele começou a entrar num processo de agitação, ele ia ser operado, não me lembro exatamente do que, se era de válvula ou outra coisa, e ele começou a entrar numa agitação, ter um comportamento mais obsessivo, tal... e aí foi acionada a psicologia, continuou havendo esse comportamento, foi acionada a psiquiatria, pra fazer uma avaliação, ver se entrava com medicação ou não, e acho que entraram até com um calmante para ele antes da cirurgia. Eu lembro que ele falava muito antes: “Eu vou morrer, eu vou morrer”, estava com muito medo de morrer durante a cirurgia. Eu lembro que o que me marcou nesse caso foi toda a discussão e... assim, primeiro o aporte profissional da coisa. De quem é o paciente? É do psicólogo ou é do psiquiatra? Em que momento precisa chamar o psiquiatra? Chama o médico? Depois a discussão pra se chegar a um diagnóstico, esse cara é obsessivo... as explicações que você dá para o comportamento. Eu lembro que esse cara foi pra cirurgia e morreu. A gente fez um monte de coisa e o que a gente menos fez foi escutar ele porque ele estava falando que ia morrer. Ele provavelmente tinha uma parte dele que sabia que isso ia acontecer, que sentia isso e isso nos nossos diagnósticos não foi considerado, a coisa que a gente menos pensou é que ele poderia morrer. Foi um caso que me marcou muito por isso.

 

P/1- Como foi essa decisão de “agora eu vou sair do serviço”?

 

R- Esse momento foi assim: roubaram meu carro. (risos) Foi gota. Roubaram meu carro eu estava em uma situação de crise e então eu peguei esse dinheiro e fui viajar, fiquei um ano fora.

 

P/1- Eu achei que você fosse fazer uma metáfora...

 

P/2 – Roubaram aqui no InCor?

 

R- Não, na rua. Eu peguei o seguro e falei está na hora de dar um tempo, viajar, fiquei um ano viajando. Muito bom, fui para Europa, depois fui pro Egito, fiquei um tempo em Israel.

 

P/1- Ficou circulando...

 

R- É, até achei que ia pra Europa pra estudar, pensei em parar um pouco na França pra estudar, mas depois resolvi dar um tempo mesmo. Fui viajar e quando eu voltei aos poucos eu retomei, mas retomei com outra história. Sempre ligada à área, mas aí eu comecei a trabalhar mais na área de prevenção. Por exemplo, aqui eu trabalhava com executivos enfartados, aí eu fui trabalhar em empresas com jovens executivos que estão entrando na empresa. Fazer um trabalho de saúde, pensar um pouco no futuro, que futuro eles queriam ter. Aí eu conheci os Doutores da Alegria, conheci o Wellington no ano em que ele estava chegando, foi em 91, 92. Recomecei na área de saúde, mas uma outra história.

 

P/3- Quem é Wellington?

 

R- Wellington é o diretor artístico do projeto Doutores da Alegria, que coloca artistas profissionais vestidos de palhaço dentro dos hospitais para trabalhar com crianças hospitalizadas.

 

P/1- Você conheceu ele onde?

 

R- O Wellington eu vi uma matéria dele quando ele estava chegando no Brasil, na televisão, e foi um desses estalos que dá “esse trabalho é legal, preciso conhecer” Conheci a fulana, conheci o sicrano e consegui chegar no Wellington depois de dez recados na secretária eletrônica. Consegui falar com ele, ele me convidou pra assistir o trabalho no hospital e ai eu fiquei encantada porque ali eu via um trabalho... encontrei a conexão com o que faltava pra mim na relação com o paciente, encontrei ali no trabalho artístico. Aí falei: “a gente tem que fazer alguma coisa junto”, mas imagina, o Wellington estava chegando no Brasil, era ele e uma artista, não tinha patrocínio, não tinha grana para o trabalho. Depois o trabalho começou a crescer, um ano depois ele me chamou, falou: “acho que agora seria legal você vir, os artistas gostariam de ter um apoio psicológico para falar dos casos mais difíceis”, e aí a gente começou a trabalhar junto. Eu comecei a me interessar em estudar mais que efeito isso tinha, por que que o trabalho era tão legal. Eu via que eles em cinco ou dez minutos conseguiam uma qualidade de relação com a criança que a gente com sessões não conseguia, eu comecei a querer entender melhor isso. O que tinha ali que favorecia isso? Então eu comecei a estudar isso, me inseri no programa de mestrado da Psicologia Social, isso virou um livro que chama “Soluções de palhaços” em que eu faço uma análise... na verdade é um romance em que eu vou contando um dia em um hospital e o que acontece com cada uma das pessoas que transitam no hospital quando eles encontram com o palhaço. E eu vou fazendo uma análise um pouco disso, de por que tem esse encontro.

 

P/1- Pergunta de quem não leu o livro: qual é esse diferencial você acha?

 

R- Tem tanta coisa que a gente ia ficar um tempão aqui, mas eu acho assim, primeiro falando especificamente da formação do psicólogo em geral, sem querer ditar uma regra, é uma opinião. O psicólogo enquanto profissional de saúde, a gente tem pouca flexibilidade para lidar com a comunicação. Se você ver eles se relacionando com a criança, eles são muito flexíveis, eles entram no quarto, eles precisam perceber o que é que a criança está precisando ali, faz uma proposta de jogo, não deu certo? "Opa, não é por aqui." Propõe outra coisa, eles tem uma flexibilidade na proposição, na forma de tentar enxergar o que é que está acontecendo que em geral o profissional de saúde não tem esse preparo. Por quê? Porque a gente lê a realidade de um jeito, entendeu? Se eu olho lá na prancheta que é uma criança hiperativa eu entro no quarto procurando uma criança hiperativa e vou tentar dar uma conduta para uma criança hiperativa, e os artistas eles tem essa liberdade de não estarem presos ao diagnóstico, ele não é muito importante. Tudo bem, a criança até pode ter um prognóstico fechado, vai morrer, mas isso não é o mais importante, o mais importante é conseguir uma relação de qualidade com aquela criança naquele momento. O profissional de saúde está muito ligado no prognóstico, se vai viver, se vai morrer, se é um prognóstico fechado, e muitas vezes esse prognóstico faz com que o profissional pare de investir na relação com a criança ou com a pessoa doente se ela vai morrer, porque é um caso fechado. Para o artista não, para o artista qualquer segundo é valioso, eu já vi eles trabalhando com crianças que morreram poucas horas depois, já vi trabalhando com crianças em coma, inconscientes, primeiro porque eles acreditam que independente do estado da criança tem uma essência ali que quer brincar, e eles se relacionam com isso, com a parte saudável da criança. Depois, o presente é muito importante, o que eles podem fazer naquele momento, no aqui e agora. Isso dá uma qualidade pra relação incrível, claro, fora o preparo que eles tem profissional, artístico, técnico... Eles sabem malabarismo, sabem tocar instrumentos, sabem fazer mágica. Eles têm uma maleta e nessa maleta eles têm a parte técnica muito desenvolvida, mas eles têm uma capacidade de estabelecer comunicação que, em geral, é difícil encontrar.

 

P/2 - Essa capacidade é permeada pelo riso, mas a qualidade é muito mais do que isso, né?

 

R- O riso é a coisa mais aparente, o que todo mundo identifica primeiro, mas eu acho que é um dos componentes porque, por exemplo, eles têm uma capacidade de se comunicar muito boa, isso é um elemento importante. Eles têm a coisa da brincadeira, da linguagem apropriada, que também é outro elemento muito importante. Tem uma coisa que eu chamo de sistemas de crenças e valores, que é diferente em geral do profissional de saúde que está dentro do hospital, que está ligado no prognóstico, se a criança vai viver ou vai morrer, no diagnóstico, tem uma forma de ver o que está acontecendo ali pra qual o profissional de saúde foi formado que é diferente deles, como artistas. Acho que isso traz uma contribuição muito grande para o profissional de saúde. Hoje meu trabalho é tentar decodificar um pouco isso pra melhorar a formação do profissional de saúde, pra que a gente também tenha um pouco esse olhar quando a gente entra no quarto, ou que considere algumas coisas que eles consideram que são legais, que tem um efeito importante.

 

P/2- Quando você assistiu a primeira apresentação era o Wellington e mais um é isso?

 

R- Era o Wellington e a Vera Abud, que foi a primeira artista que trabalhou no projeto, ele estava começando ainda.

 

P/1- Coisa nova aqui também?

 

R- Muito, muito nova, eu lembro. Eu fui ver no Nossa Senhora de Lourdes, que foi o primeiro hospital que acreditou no trabalho deles e depois disso cresceu muito, hoje são 26 artistas.

 

P/1- Você começou com eles...

 

R- É. Começamos do começo mesmo.

 

P/1- E aqui quando você começou a desenvolver esse tipo de trabalho? Como ficou sua relação com o InCor?

 

R- Esse trabalho com os Doutores? Então, eu vim aqui há pouco tempo atrás, foi tão emocionante, eu vim dar um palestra sobre a pesquisa, o livro, fazendo parte da comemoração dos 25 anos. Eles me convidaram. Eu suava assim, eu lembro, é uma emoção muito forte você voltar... o cheiro, tem umas coisas muito marcantes, foi muito legal. Foi muito legal também porque fechou o meu ciclo com a Bellkiss... a Bellkiss foi diretora aqui, você entra adolescente, não sabe um monte de coisas, tem toda uma fase de contestação inerente ao trabalho, depois uma fase de amadurecimento, que você sai, revê algumas coisas, acho que eu reencontrei a Bellkiss, hoje eu entendo coisas que eu não entendia naquela época, é um círculo que se fecha. Para mim foi muito legal vir fazer a palestra aqui, também por constatar isso que o que eu consegui pensar foi fruto daquela época que eu entrei, a possibilidade de trabalhar em um lugar como esse que me instigou a pensar certas coisas, a me aproximar de um trabalho como o dos Doutores da Alegria, foi realmente uma oportunidade. Eu ainda acho, até hoje, o campo fantástico pra quem está se formando, é uma experiência muito legal, aqui e organização.

 

P/2- Quando você entrou no Doutores da Alegria seu trabalho era uma assessoria psicológica? Como é que era isso?

 

R- Eu fui chamada para ajudá-los nos casos mais difíceis. A gente se encontrava uma vez por mês e discutia os casos que tinham acontecido, as coisas mais difíceis. Até hoje é assim. Quando tem um caso mais difícil que eles querem conversar individualmente eles me acionam. Isso foi a primeira razão porque eu entrei, mas depois... aquela época que era muito pequeno, então você acaba fazendo um pouco de tudo... eu ajudei muito o Wellington a pensar o crescimento dos Doutores da Alegria, para onde era importante estar indo, como se estruturar. Depois eu comecei a desenvolver a pesquisa, que foi uma outra área que me interessou muito, eu fiz uma série de entrevistas com médicos e enfermeiras, trabalhei com análise de desenhos com as crianças, isso ainda é uma atividade muito presente. Hoje eu estou montando um centro de estudos dentro do Doutores da Alegria pra estudar a relação entre arte, desenvolvimento e saúde. A ideia é colocar em conexão, ser um laboratório onde artistas e profissionais de saúde conversem, estejam em contato, justamente pra ajudar nessa troca. Porque eu acho que hoje já se fala muito mais abertamente em reforma do ensino médico, você vê que a formação do médico precisa melhorar em alguns aspectos, se fala em humanização dos hospitais, o que está muito ligado a serviços, isso hoje está muito aberto, quer dizer, essa questão está colocada, mas a questão é: como fazer isso? Como se pega uma instituição que funciona de um jeito há muitos anos e trabalha na formação para uma relação de qualidade. A ideia é que o centro de estudos ajude a pensar isso usando a arte como um recurso, existem outros. A arte é muito legal porque ela tem uma linguagem muito diferente da formação do profissional de saúde então ela contribui muito, porque na arte tem muita coisa que você não precisa explicar com palavras, elas acontecem. Para responder o que eu faço hoje nos Doutores, hoje eu cuido do centro de estudo, só o centro de estudos já é uma atividade grande pelo número de solicitações que a gente tem porque outros serviços que fazem trabalhos próximos começaram a se aproximar porque sentiram afinidade com o trabalho.

 

P/1- Ele acabou virando uma referência... Você também faz uma espécie de assessoria para esses outros grupos?

 

R- É, a gente acaba muito aconselhando pessoas, colocando pessoas em contato, às vezes uma pessoa vem nos procurar e a gente não pode ajudar diretamente, mas conhece alguém que seria legal aquela pessoa conhecer, então a gente apresenta, tem muito essa função de ponte. A gente atende muito universitário, gente que está fazendo trabalho em faculdade e quer referência sobre o trabalho dos Doutores ou referência bibliográfica porque a gente montou, estamos montando ainda, uma biblioteca, porque a literatura nessa área é muito difícil, eu sentia dificuldade quando estava fazendo a pesquisa, então muita gente nos procura pra ter referências de livros mesmo, pra palestras... A gente hoje tem um workshop que chama “O hospital pelos olhos do clown”, onde a gente trabalha com médicos residentes em pediatria, a gente passa o dia juntos, eu, o Wellington e uma outra artista, mostrando como o artista vê o hospital, como que ele se relaciona com a criança, o que ele usa...vai desenvolvendo isso durante um dia para levar um pouco esse olhar para o médico também. Esse é um trabalho que está começando pra gente, é novo, porque é uma metodologia que a gente está desenvolvendo, como é que você leva o trabalho artístico que tem uma série de técnicas de palco para outro contexto que é o médico. A gente está desenvolvendo isso hoje para mexer com essa parte de formação.

 

P/1- Vocês são convidados? Os hospitais entram em contato... Qual é a demanda?

 

R- A gente nunca procura um hospital, a gente é procurado. Existe toda uma relação que a gente desenvolve pra saber se aquele hospital... se cabe ter Doutores da Alegria naquele hospital? Se tem um número de leitos compatível, porque a gente trabalha com uma dupla duas vezes por semana então precisa ter um x número de leitos, se for muito pouco leito não justifica, por exemplo. Que tipo de hospital é, se é um hospital de referência, uma coisa que a gente acredita, que doença não escolhe classe social, então a gente trabalha desde hospitais carentes como o Emílio Ribas até o Albert Einstein, então que tipo de hospital é...

 

P/1- No Emílio Ribas, no caso, é remunerado?

 

R- Então, a gente é patrocinado, a gente tem o patrocínio do Itaú Seguros através da lei do incentivo fiscal. O hospital não nos paga nada, nós não temos vínculo empregatício com o hospital...

 

P/1- Só fazem essa triagem...

 

R- Isso, aí é um processo de oito meses, às vezes até um ano, para abrir um hospital, porque tem todo um trabalho de preparar as pessoas que estão lá para receber essa figura, porque é um cara vestido de palhaço que usa a figura do médico, que é a figura de maior poder dentro do hospital, ele vai satirizar essa figura e circular pelo hospital todo, pela UTI, crianças em coma. É preciso ter uma parceria com médicos e enfermeiras pra que o trabalho seja aberto e aconteça do jeito que ele tem potencial para acontecer. Isso também é avaliado, se o hospital está aberto, entende um trabalho como esse.

 

P/2- Como é que é isso? Engajar o profissional de saúde, não é só abrir um espaço para o outro trabalhar ele vai participar disso como parceiro...

 

R- Isso. São parceiros importantíssimos. Eu acho que esse é o grande lance do trabalho, que eu fui descobrindo com a pesquisa que, apesar de ser direcionado para crianças, essas pessoas quando são envolvidas elas tem benefício. A enfermeira quando está lá e o palhaço coloca ela em uma brincadeira também ela pode se perceber não só como aquela que está lá para dar injeção ou para dar remédio, mas como alguém que brinca com a criança e isso para a imagem profissional dela é positivo, com o médico também. Tem todo esse trabalho de companheirismo, de poder aliviar o stress dos próprios profissionais que estão sobrecarregados com o dia a dia usando o humor, o jogo, essa parceria você vai construindo. Não adianta a gente entrar em um hospital que pode até ter a demanda, mas não está realmente aberto para esse tipo de trabalho, porque é um trabalho que você fala palavrão, se não qualquer palavrão...

 

P/1- Você mexe com a estrutura...

 

R- Você desafia estrutura de poder e por isso é positivo, por isso tem efeito, porque você coloca aspectos da vida que a assepsia do hospital tirou e que são importantes para o trabalho acontecer dentro do hospital e que a figura do palhaço devolve. O palhaço pode ser bobo, ele é imperfeito, ele pode escorregar e cair... ele te remete a uma série de coisas que estão ligadas a condição humana e que são importantes para o nosso equilíbrio emocional.

 

P/3 - Humaniza o hospital.

 

R- É. Esse termo que inventaram, “humaniza”, dá pra gente deixar de ser humano? É o que teria que ser, é humano porque você é uma pessoa humana.

 

P/1- É algo tão intrínseco, tratado como se fosse uma qualidade...

 

R – Ele devolve algumas coisas que a gente perdeu, a gente ganhou muito em tecnologia, teve um super avanço, mas perdeu outras coisas que a gente está tentando resgatar.

 

P/1- Dentro da psicologia, como é que é visto esse seu trabalho, tem uma repercussão dentro da psicologia?

 

R- É uma boa pergunta. Eu não sei, deve ter, eu sou chamada para falar... (risos)

 

P/1- No Conselho Regional de Psicologia... No Serviço de Psicologia do InCor, tanto é que você fez parte dos 25 anos...

 

R- É, a gente já foi dar palestra no Conselho Regional de Medicina, a gente é bastante chamado. Agora, que tipo de contribuição dar é difícil de responder, talvez porque eu estou muito dentro, agora, do trabalho dos Doutores. É uma coisa que eu respiro, é o meu dia a dia. O que eu sinto é que as pessoas estão ávidas de entender como. Como fazer isso? Todo mundo fala: "Precisa humanizar, precisa ter relação legal com o paciente...” Mas como faz isso? É que nem qualidade de vida, você fala: “precisa ter qualidade de vida.” Tudo bem, mas como? Para não virar uma palavra vazia. Que é a minha grande questão com relação aos serviços: “tem que colocar brinquedo dentro do hospital, jogo dentro do hospital, biblioteca dentro do hospital.” Muito legal, mas antes de tudo você precisa ter contato e relação, você pode ter um monte de coisa disponível e não ter qualidade de relação e você pode ter um hospital que não tem nada, mas o médico sabe olhar no olho da criança de um jeito, entender o que ela está precisando de um jeito e a mãe, que é o que precisa ali naquele momento. O que eu percebo é que talvez a gente possa dar uma contribuição nesse como e nesse jeito de olhar, nesse jeito de ter uma relação legal. Você cumprir o seu trabalho não só do ponto de vista técnico, mas sentir que você ajudou aquela pessoa. O que eu acho que é o desafio do profissional de saúde é transformar uma situação de dificuldade que deve ser uma coisa difícil - nunca passei por uma situação de doença grave - numa oportunidade de desenvolvimento. A pessoa sair dali melhor do que ela entrou. Eu acho que essa é a função do profissional de saúde, do médico também, não só tirar o sintoma, cuidar do desenvolvimento daquela pessoa. Talvez a gente possa estar ajudando um pouco nisso, no como fazer isso, mas isso eu preciso reencarnar ainda pra estudar tudo, para pesquisar tudo, pra desenvolver tudo o que tem aí, porque tem um potencial que nessa vida só não vamos dar conta.

 

P/2- Você já experimentou o trabalho atuando? Você já foi com os Doutores e atuou?

 

R- Eu fiz curso de clown, que era uma coisa que eu queria aprender porque o palhaço tem um jeito muito legal de ver o mundo, ele tem um jeito específico de olhar as coisas e aí você faz curso pra aprender isso, curso de teatro mesmo. Eu já fiz. É difícil, é um desafio, é um trabalho terapêutico mesmo porque uma das coisas que você tem que fazer primeiro é lidar com as coisas que você menos gosta em você, fazer isso não é fácil. Pega um defeito seu e transforma aquilo em algo que você mesma possa rir. Quando você consegue isso... Eu fiz o curso e observei, tem um francês que sempre vem dar curso para os artistas e eu também já trabalhei como observadora, é um trabalho muito legal, muito interessante. Muito legal como contribuição para a psicologia também porque o trabalho artístico é muito baseado na ação e o trabalho psicológico é muito baseado na reflexão. Então tudo bem, é legal ter reflexão, mas às vezes isso te afasta do que está acontecendo com você porque você fica só numa coisa racional do “por quê?” e perdeu a real noção ali daquele momento. O trabalho artístico é muito legal porque ele propõe uma ação, você tem que propor alguma coisa, fazer algo, isso é muito legal.

 

P/2- Você fez, faz, terapia?

 

R- Fiz várias, todas que você quiser, psicanalítica, lacaniana, psicodrama... A pergunta é: será que eu me tornei uma pessoa melhor?

 

P/1- Te ajudou?

 

R- Será que me ajudou? Te ajuda a entender o porquê de um monte de coisas, mas...não sei, é uma boa pergunta. Eu acho que eu sou híbrida, não sou um bom exemplo de psicóloga eu acho para... às vezes eu falo para o Wellington: “o que eu virei com esse trabalho nos Doutores?” Porque você se desprende de muitos dogmatismos, muitas coisas que deixam de fazer um pouco de sentido. Apesar de eu ter interesse nessa área de refletir, eu acho que a psicologia também precisa passar por uma revisão, assim como a medicina está passando, talvez a gente assim nessa coisa mais ortodoxa, o trabalho de interpretação de consultório às vezes aprisiona a gente, a gente fica naquele jaleco e a relação humana é tão mais complexa que isso, tão mais abrangente. Às vezes a postura de consultório, de você ter que manter um determinado papel já te afasta de tudo isso, você cria uma situação ilusória, que a vida não é bem isso e...

 

P/1- Voltando com aquele gancho que você falou...

 

R- Estou viajando aqui, estou indo embora, não é?

 

P/1- Não, em função disso que você falou que eu fiquei pensando, essa possibilidade que esse trabalho dá de retratar mais essa coisa, de a reação humana ser mais complexa do que você ficar enquadrando em alguma metodologia da psicologia, mas esse trabalho, essa experiência que você teve aqui com a terapia breve com o paciente acaba sendo também um tapete, uma entrada para esse tipo de trabalho porque como você colocou ela também já é um pouco diferenciada do que se faz no consultório...

 

R- Isso que eu te falei. Foi muito instigante e fascinante, acho que esse é um campo que não tem como você... ou você se protege muito, ou não tem como você não falar: “Aqui tem alguma coisa que eu preciso fazer.” Porque tem alguém sofrendo ali, tem alguém que está precisando de ajuda e eu não consegui ou consegui de um jeito... Quando você está numa sessão de consultório você está muito mais protegida porque você cria um... Primeiro você protege sua identidade, o cara entra e já tem uma determinada situação ocorrida, que ele não sabe da sua vida que você tem um horário marcado, uma série de coisas, tem a questão da transferência, que é um conceito que você cria também pra se proteger, uma série de coisas que te dão um ambiente. Como você entra dentro de um hospital, você entra em um quarto, uma hora você pode entrar e ele está com dor, uma hora você pode entrar e ele está morrendo, como eu já tive oportunidade de ver. Você fica diante de coisas que justamente te ajudam a questionar essas coisas, o que pra mim foi e é uma questão que eu não vou conseguir responder, vou perseguir a vida inteira. Como os artistas também perseguem. Eu acho importante que ela exista, acho importante que a gente não... o que a gente aprendeu meio que pra se proteger, porque o que a gente aprendeu é tão pouco depois, do que você vai precisar realmente pra estar nessa situação.

 

P/1- Como é seu cotidiano? Você trabalha, desenvolve esse trabalho com os Doutores da Alegria, tem a pós-graduação...

 

R- Hoje eu sou meio que uma consultora, me estabeleci meio que como consultora, é sazonal, então tem épocas que eu faço trabalho de assessoria para um hospital, por exemplo, agora Hospital da Criança, que é um hospital que desenvolveu todo um aparato pra tratar a criança dentro da individualidade dela, então desde a arquitetura, a comunicação visual, são todos bichinhos, é tudo feito pra criança. Eu trabalhei com consultoria para a formação do hospital, dos valores, da capacitação dos profissionais para trabalhar ali, então foi feito um trabalho de treinamento durante um ano, esse foi um trabalho que durou ali um ano. Como eu te falei, trabalho em organização pensando nos jovens executivos que estão entrando no mercado, como é que eles se imaginam daqui a dez anos, em termos de qualidade de vida, saúde, trabalhar um pouco com planejamento com esses jovens para talvez ajudá-los a não enfartar. Eu trabalho com os Doutores hoje e é um trabalho que me ocupa bastante tempo, pelo volume e pelo desafio, que é hoje. Hoje eu tenho uma filha também, de um ano e três meses, então isso também é um trabalho bem legal, que eu acho que ampliou meu horizonte nessa coisa da relação porque é uma puta possibilidade de desenvolvimento, de ver a vida e repensar o próprio trabalho que eu faço hoje. Eu faço a pós, que está sempre após, agora eu preciso terminar... uma novela. É muito mais fácil escrever um livro do que agora fazer a pós. Porque agora você tem que escrever a coisa... Eu fui muito livre pra escrever o que eu queria, o que eu pensava, mas agora a pós tem um padrão... uma coisa científica para seguir, mas tem a pós.

 

P/2- As perspectivas agora quais são?

 

P/1- Algum plano para o futuro?

 

R- Tem vários. Eu tenho muito esse desafio que o centro de estudos seja um laboratório para juntar artistas e cientistas, que a gente coloque esses dois mundos em comunicação, que são mundos que não se falam muito, tem formas de raciocínio muito diferentes. A ideia é usar a arte como um veículo para instigar as pessoas, planos malucos, vamos ver se da certo, tem essa coisa do workshop, tem o trabalho que eu quero ver se consigo desenvolver que é fazer com que médicos fotografem o hospital usando o olhar de uma fotógrafa, explicando a fotografia, o olhar através da fotografia para que eles revejam o hospital, fazer uma exposição disso. Estava pensando um pouco isso, como é que a gente pode utilizando a arte estar mexendo um pouco nessa realidade que é o hospital e favorecendo com que as pessoas se arejem, tenham outro tipo de relação, além do hospital.

 

P/3- Tem muitos conflitos entre o lúdico e o acadêmico no trabalho que vocês fazem? Quais são?

 

R- Tem. Para os artistas não, tem pra mim, porque eu estou no meio, meio que com um pé em uma coisa e outro na outra... transito meio pelos dois lados. O acadêmico se coloca sério demais e o lúdico está rindo de si mesmo então se você pega um acadêmico e leva a sério demais ele leva no mau sentido aquilo que é dito, nisso eu acho que os artistas têm uma habilidade enorme de conseguir levar a pessoa para essa viagem, fazer esse convite. Porque é muito fácil, se você se leva muito a sério, se ofender com alguma coisa. Na pós que eu estava falando meu dilema é um pouco esse, como é que eu transformo um trabalho super lúdico em uma tese sem virar uma coisa chata ou uma coisa que fuja muito do que é o trabalho deles, porque também transformar o trabalho deles em uma outra coisa, transformar o trabalho deles em números... você perdeu o que é o trabalho. Que é poético, que te leva a tantos sentimentos, o humor é um deles, mas muitas vezes você chora de ver o trabalho. Um artista tocando flauta para uma criança inconsciente é um outro tipo de emoção. Como é que eu transformo isso em uma tese sem perder isso que é tão bonito. Essas emoções, que é a riqueza do trabalho. Esse é um desafio pra mim, por isso que o livro eu escrevi um romance, porque se não, ia ficar muito chato.

 

P/1- Morgana pensando na sua trajetória de vida, desde aquela menina do Brooklin, se você pudesse mudar alguma coisa você mudaria?

 

R- Essa pergunta é... Eu acho que sim, acho que se eu pudesse talvez eu me levaria menos a sério antes, teria começado isso antes. Eu acho que durante muitos anos eu me levei muito a sério, a história da doença da minha mãe... de ser uma pessoa tímida...Acho que talvez teria começado isso antes, que foi um grande aprendizado que eu tive com os artistas.

 

P/2- No Doutores da Alegria tem um fluxo de gente querendo ser voluntário, ajudar?

 

R- Tem um monte de gente. Com intenções super positivas, mas entendendo pouco. A profundidade do trabalho. A gente é muito procurado. A ideia de escrever o livro também foi um pouco por isso, para que as pessoas entendessem que é um trabalho que você precisa ter uma determinada formação pra fazer se não ele não tem o efeito que ele tem. A gente é muito enfática na questão de serem artistas profissionais, com formação em teatro clássico, as pessoas são super selecionadas porque às vezes o cara é artista, mas ele é bom para o palco não para o trabalho dentro do hospital, que é um outro tipo de delicadeza que precisa. A gente procura orientar as pessoas, que as pessoas acham que basta colocar um nariz vermelho e ter boa vontade que você consegue, você até consegue fazer um trabalho, mas pra um trabalho que tenha os efeitos que eu vejo que esse tem precisa ter uma senhora formação. É de uma sensibilidade para sentir o que a criança está precisando, para propor um jogo que tenha a ver com a necessidade daquela criança, ou com o problema que ela está precisando elaborar. Tem outras pessoas envolvidas, tem que ter uma visão periférica... tem uma série de coisas envolvidas que precisa de formação e esse é outro plano que a gente tem, a gente nunca vai conseguir responder ao número de hospitais que nos procuram, na velocidade que nos procuram porque a formação do profissional pra isso tem o ritmo que ela tem, não tem jeito. É um trabalho que demanda formação, não adianta você colocar quatro ou cinco pessoas vestidas dentro do hospital, não vai funcionar.

 

P/3- Tem que ter um perfil de personalidade pra esses artistas porque segurar o baque... da emoção no contato com as pessoas...

 

R- A gente sempre fala que não é só o projeto que escolhe o artista, o artista também escolhe o projeto, porque quando ele escolhe, ele tem uma proposta de desenvolvimento humano séria, porque ele vai ver a vida de outro jeito depois e isso repercute para o trabalho dele no palco também porque ele como artista também vai ver o trabalho dele diferente. Os que estão há um ano mais ou menos relatam que mudou muito, mudou o jeito de ver o filho, o jeito de ver a vida, o jeito de ver os problemas... Principalmente porque o artista, o profissional de saúde, o médico, ele ainda pode se proteger de algumas coisas. Mas o artista, a proposta dele é lidar com o que está acontecendo. Eu lembro da Taís me contando de uma artista que chegou em um momento na UTI que o filho de uma mulher tinha acabado de falecer e ela estava com a criança nos braços. A mãe pediu: “Por favor, toca uma música.” E eles tocaram. Para você viver isso você precisa estar inteiro ali. O profissional pode até chegar, mas ele não se coloca naquela situação, agora o artista não, a proposta dele é justamente lidar com o que está acontecendo e ali estava acontecendo isso, e aí? Como esse tem outros casos que você fala: “precisa estar inteiro.” Por isso que a gente não quer que os artistas trabalhem mais que duas vezes por semana, a gente também tenta protegê-los porque é um trabalho insalubre num certo sentido, você se expõe a muitas coisas e também precisa ter fôlego para se recuperar.

 

P/1- Para terminar, uma célebre pergunta, o que você achou de ter dado o seu depoimento para esse projeto?

 

R- Eu acho que tem um lado que é difícil na entrevista em si, mexe com umas coisas, vocês fazem umas perguntas que eu falo: “Ai meu Deus, onde está a caixinha que estava guardado isso?” Você fica procurando, eu não acho em nenhuma caixinha. Onde será que foi parar essa informação? Tem uma coisa de mexer com a memória que é forte, aí falando do processo em si de entrevista. Agora, dar o depoimento para o centro de psicologia para mim é uma coisa muito legal, a fechada de um ciclo, uma possibilidade de fechar algumas coisas que eu comecei há 15 anos atrás e que talvez estejam chegando em um determinado estágio para ir para o estágio seguinte. Eu tenho a mesma pergunta de 15 anos atrás: “O que é que eu posso fazer pra ajudar esse cara que está aqui?”. A pergunta ainda é a mesma, mas talvez hoje eu tenha algumas respostas, algumas. É legal poder sentir isso e dar esse depoimento é uma forma de sentir isso, falar “Alguma coisa aconteceu, alguma coisa foi respondida”.

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