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História

Devo muito por não ter morrido

História de: Renato Justiniano de Loredo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/08/2015

Sinopse

Renato Justiniano de Loredo conta em seu depoimento para o Museu da Pessoa sobre sua infância em Santos, as brincadeiras, as diversões na praia e suas lembranças de seu pai, que faleceu quando ele ainda era uma criança. Também fala sobre seus primeiros empregos, e sobre como começou a roubas carros por diversão ainda adolescente. Renato narra seu tempo no quartel e sobre seus crimes, que envolvem roubos e assassinatos. Comenta sobre seu tempo dentro da prisão e sua relação com a família, mulher e filhos.

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História completa

Eu me chamo Renato Justiniano Loredo, sou natural de Santos, nasci em 06 de outubro de 1951.  Meu pai era natural de Santos, ao passo que a minha mãe era de São João da Boa Vista.  Ele chamava Edegard Justiniano de Loredo e a minha mãe, Maria de Jesus de Loredo. Eu comecei a trabalhar cedo, com 11 anos numa oficina mecânica, com um espanhol chamado seu Rodriguez, trabalhava só com carro bem antigo e era um espanhol catalão. De lá eu fui trabalhar numa outra empresa que marcou época, porque o cara teve uma boa ideia. Ele fez uma firma chamada “Cobranças Coringa”, então a roupa era vermelha, mas era bem bonito, tinha uma faixa branca, a gente fazia cobranças, de lá, passei para uma empresa chamada L. Merlini Companhia Limitada que era de máquina de escrever, Remington, aquelas máquinas antigas, ali fiquei até 16 anos, 17 anos, quando eu fui convocado para o Exército.

Depois nós éramos caranguejeiros. Caranguejeiro era o seguinte, em Santos tem a Cinelândia, onde tinha 11 cinemas em Santos, então escolhíamos um carro, entrou no cinema, então nós sabíamos que teríamos duas horas para andar com o carro. Então, nós pegávamos os carros para aquela onda, então naquele tempo, a nossa diversão realmente era furtar os carros para ficar andando lá, quando pegava um JK, nossa! Mas tudo moleque, fazíamos aquela bagunça tudo. Era simples. Eu fui pego aqui em São Paulo, foi a minha primeira passagem pelo juizado, que viemos com um Simca de São Paulo, eu dirigindo o Simca. Eu tinha meus 15 anos, de 14 para 15 anos e uns cinco, seis moleques. Eu estava meio revoltado. Teve um problema que aconteceu comigo que eu não declinei ainda, eu fiquei sabendo que eu não era filho legitimo com dez para 11 anos. Então, foi uma rebeldia.

Fugi daqui da Casa de Detenção para menores.  Eu fui sozinho, eu desci a serra sozinho, eles ficaram em São Paulo. Cheguei lá por volta das dez, depois de cinco horas da tarde, umas dez horas eu estava lá, porque demorava a viagem porque passava pelo ABC todinho, essa Santa Rosa, empresa de ônibus, onde é o Shopping Penha, ali era uma mini rodoviária, e de lá, saía o ônibus Santa Rosa que passava pelo Ipiranga, depois passava no ABC e descia a serra. Então, cheguei lá era umas dez horas, deu onze horas estava montado lá o carro e estava tirando a onda, só fui aparecer em casa no outro dia.

Eu fui expulso do quartel.  Aprontei muito, porque aprontaram comigo também, eu era muito levado da breca. Sai e fui para São Paulo. Eu tenho parente aqui no Jardim Paulista, na Lorena e vim trabalhar numa companhia de seguros, chamada Companhia Internacional de Seguros. Antes deixa eu fazer uma passagem, estou adiantando as coisas. Eu fui para Itanhaém, fui fazer um teste na Breda Turismo, que fazia o litoral e acabei em vez de ser cobrador, trabalhando na tesouraria, eu vim para São Paulo fazer os testes e como eu me saí muito bem, eu fui melhor dos dez que vieram fui eu, o homem me chamou e falou assim: “Renato, fica no meu lugar aqui que eu tenho que ver o transporte, muita situação para mim, então você vai ficar aqui no meu lugar”. Então eu comecei a trabalhar lá e fiz ponta numa novela chamada “Mulheres de Areia”, primeira versão que tinha o Francisco Guarnieri, foi filmada na Praia dos Pescadores em Itanhaém e depois de tudo isso aí, de ter aprontado lá também. Aconteceu o seguinte, todo mundo, os cobradores, as agências intermediárias de Praia Grande, Mongaguá, todas elas iam acertar comigo os ônibus que vinham de Itanhaém-São Paulo, vendia passagens no meio do caminho chama intermediário também, iam acertar tudo isso. E eu fazia relatório, mandava para o Banco Brasileiro de Desconto, Bradesco, naquele tempo era Banco Brasileiro de Desconto, fazia o livro caixa e tudo, mas um dia, não de caso pensado, acabei esquecendo um relatório de um ônibus dentro da gaveta, quando fui abrir a gaveta lá que eu notei que tinha algo no fundo que fui ver, tinha um relatório de três dias atrás, de 16 de novembro de 1971, eu falei: “Espera aí, eu que lanço tudo, faço tudo, espera aí”. Comecei a trabalhar para mim, dois, três carros só trabalhavam para mim. Não lançava. Carnaval de 1972, 16 de março de 1972, era segunda-feira de carnaval, bombando a agência, eu ia no juizado e o juiz já me dava aquelas autorizações de viagem para menor, já várias assinadas e eu só preenchia depois. Eu estava chegando, um patrulheiro mirim falou assim: “Renato, eu tenho um rádio de São Paulo para você aí”, peguei e falei: “Contabilidade Itanhaém”, ele falou: “Renato, aqui é de São Paulo, olha, o DR deu a foto do relatório do carro de 16 de novembroPaulo-Rioi, limpei o cofre, era uma hora da tarde, sai de Itanhaem, peguei um taxi, vim direto para Snao paulo,z ja o caixa e tu”. Eu esqueci que o DR cobra 5% sobre intermunicipal e o DR acusou a falta. Já aproveitei, limpei o cofre, era uma hora da tarde, saí de Itanhaém, peguei um táxi, vim direto para São Paulo, São Paulo-Rio, eu onze horas da noite, estava no Rio desfilando na Portela. Saí na Portela, saí no Império, tirei a maior onda no Rio.  Já não voltei mais.

Tenho parentes no Jardim Paulista. Fiquei morando aqui. E eu recebia as visitas antes dela, que ela trabalhava na Secretaria de Educação ali no Largo do Arouche, então ela chegava por volta de 19 horas e eu, na Companhia de Seguros saía antes porque o negócio de estudar, então às quatro e meia, ficava na sala com a minha senhora daqui, minha senhora de lá e tal. Um dia, o diretor de lá me chama, a moça falou: “O Doutor Romero quer falar com você”. Da Companhia de Seguros.  Eu vou lá na sala do homem, ele falou: “Renato, eu vou pedir um favor para você, você me faz, depois você pode até ir embora”, eu falei: “Não, o que se passa?”, ele falou: “Olha, você lembra a Vilma Xandre?”, essa Vilma Xandre era uma artista de teatro que morreu ao cair no poço do elevador, foi sustado o pagamento, mas posteriormente, laudos confirmaram que foi um acidente. Então teve que pagar, só que não foi pago no fórum civil, na Praça João Mendes. Então ele me deu um cheque de 80 mil. Nós almoçávamos no sexto andar, ali na Libero Badaró, 76, quase esquina com o largo São Francisco, estamos no refeitório: “Não vai comer?”, falei: “Não, hoje não estou bem”, mas que nada, fui lá para a sala da mulher, entrei, liguei a máquina, pus o cheque, procurei o papelzinho, apaguei o nome do homem, pus Renato Justiniano Loredo. Nós recebíamos no Banco Nacional de Minas Gerais, que depois virou só o Banco Nacional, mas antes era Banco Nacional de Minas Gerais. Eu cheguei, o cara me chamava de quase xará, que o nome dele era Reinaldo e eu era Renato: “E aí, quase xará?”, falei: “Oitenta milhões, tenho que receber”  “Desce direto do segundo subsolo, tesouraria, direto, pode descer que eu já vou interfonar lá para liberar o dinheiro”, desci, sai do banco com 80 milhões de cruzeiros no meu nome , não preciso falar para você nada. Fui para o Rio.

Voltei para São Paulo. Esse pessoal que eu conhecia ali tinha uns parentes lá e falaram: “Vai lá para o Capão e vai conhecer uns caras lá”, conheci uns caras tudo da pesada, tempo do Assis, do Saponga, Boca de Traíra, uns caras muito bandidos que teve em São Paulo. Como sempre fui muito bom motorista, falava que eu era piloto de fuga, comecei a dirigir para os caras e dali pra frente, aí ardia roubando o banco, os caras diziam que era maior mamão mesmo roubar banco, eles roubavam carro de cigarro, roubavam aquela situação, fomos fazer os bancos, eu entrei nessa. Quando fui pego, aí entramos na Lei de Segurança Nacional. Naquele tempo não tinha porta giratória, é pegar e chegar pra ela: “Passa…”, é chegar, abordar e tomar ali, puxar com fiel e tudo. Fiel para quem não sabe é o que prende a arma ali, já ia puxar com fiel e tudo, começamos a fazer essa situação, até que entrei na mão do DOPS por roubo a banco e tinha Banco do Brasil também na situação, acabei sendo enquadrado na Lei de Segurança Nacional como subversivo, mas na verdade, eu era delinquente comum, até 1978, cheguei a ter quase 800 anos de pena.

Fui preso dormindo numa olaria num lugar chamado final do mundo, e ainda tinha passado batido, mas eu passei embaixo da mesa e a polícia olhou tudo e não tinha me visto, me pegou embaixo da mesa, a situação ficou feia. No dia 20 de novembro de 1973, por isso que eu falo que amanhã faz 41 anos e quatro dias que eu fui preso, assinei o mandado de prisão preventiva na delegacia de prisão e captura do DEIC e desci para Detenção.  Penitenciária de detenção, Pavilhão 9, 16 anos. Eu tinha 20 para 21 anos. Sai com 36.  Peguei várias rebeliões lá e devo muito não ter morrido, eu e outras pessoas.

Eu sai na sexta-feira, quando foi na segunda-feira, dia útil, estava andando no centro, ai naquele prédio da Martins Fontes com a Consolação, um prédio bem bonitinho ali, ali era a Gazeta Mercantil, falei:  “Eu vou entrar aqui”, subi na Gazeta Mercantil, era o currículo que você fazia, preenchia e falei: “Sai faz três dias da detenção, quero trabalhar e tal” e pus, pensando que não ia… na quarta-feira de cinzas, à tarde, me ligaram lá na minha prima, na casa que eu estava, lá em Cidade Adhemar para vir na quinta-feira de manhã na Gazeta. Vim na quinta-feira ser entrevistado por uma pessoa chamada Ariosvaldo Araújo, era diretor de vendas e circulação da Gazeta. Ele só respondia para o Levy, que a família Levy que era dona. Ele ficou comigo conversando umas duas horas, ele falou: “Olha, você vai trabalhar comigo, eu vou te aceitar”, comecei a trabalhar. Passou uns dias, ele falou: “Olha, Renato, eu estou indo para o Rio, quero que você vá comigo”, porque na verdade, eu já tinha essa mulher, eu conheci ela em 1977, eu já tinha duas crianças com ela, que foram concebidas lá na Detenção, embaixo de banco. Concebemos as crianças, as crianças nasceram. Eu casei em 1993, depois de 16 anos.

Primeiro, eu fui para o Rio, estou no esgana lá, estou andando na Central do Brasil, estou lá uns cinco dias, ai o cara fala pra mim lá: “Ai, paulistinha:”, até me assustei, falei: “Paulistinha?”, o cara: “É, detenção. Eu pedi a Deus para encontrar com você”, aí já fiquei… Ainda tinha o Bemge, que era o Banco do Estado de Minas Gerais, tinha o Banerj, que era o banco do Rio, tinha o Banestado que era o banco do estado do Paraná, o Banespa, tinha todas essas instituições, né? “Agora, vamos pegar aquele ali, põe o paulistinha aí” “Não, o bonde está formado” “Não, põe que ele é bom”, e na verdade, é sorte que eu nunca estava na caixa forte, no cofre forte, o cofre forte é diferente da caixa. A caixa forte tem uma grade antes de você atingir o cofre. E eu no dia que eu fui com o cara, deu a maior sorte que estava tudo aberto e eu fui lá e trouxe o malote, ele falou: “O cara é muito bom”, fiquei com os caras. A minha vida melhorou de vez. Fiquei no Rio, mas a mulher viveu vida de princesa aqui. Eu fui morar num bairro, fui morar numa boa e tudo, até que não sei o que me fez vir para São Paulo, alguma coisa me fez vir para São Paulo. Eu fiquei dez anos e quatro meses na rua. Não só assaltando, entrei numa companhia chamada DHL. Eu cheguei a fazer três viagens para o Rio para levar encomenda, porque se você pega um documento hoje na Paulista, para entrar na Quinta Avenida amanhã, ele não pode ir como carga dentro do avião, ele tem que ir como bagagem, que a bagagem tem prioridade sobre carga e para ser bagagem precisa do quê? De uma pessoa. Então, eu fazia três checks in todo dia. Miami todo dia tinha, Nova York, JFK todo dia tinha e Europa, só que a Europa cada dia era numa porta de entrada: Roma, Lisboa, Paris, Charles de Gaulle, e eu tinha que chegar lá, o pessoal estava me esperando com o flyer, sinal do DHL que eu estou com o passaporte e a passagem para fazer o check in.  Eu mandava cocaína, da pura. Depois eu comecei a roubar bancos em São Paulo com uma quadrilha muito forte, roubei muito banco aqui e no Paraná. Fui pego no Paraná. Quando estava fazendo dez anos e quatro meses que eu estava na rua, eu sai 28 de fevereiro de 87, em 30 de junho de 1997 fui roubar um carro forte no Paraná, pulei lá no Paraná, fui pego lá no flagrante. Roubei o carro, mas depois de 80 quilômetros, fui pego.

Fui réu confesso, ninguém acreditou, porque eu entendo que réu confesso sempre tem uma diminuição da pena, sendo réu confesso, mas eu queria que a juíza entendesse que não tive a posse tranquila. Fui condenado a seis anos em regime semiaberto, fui para Piraquara e fugi de novo. A polícia estava fazendo uma blitz na estrada, eu fui pego, capturado. Voltei, fiquei mais sete e saí agora em 2010. Comecei a cumprir em Taboão da Serra, fiquei dois meses, consegui cinco liberdades lá, devido o pessoal da Câmara Municipal lá, o delegado viu que eu estava muito assim, me mandou para Franco da Rocha.

Eu já matei. Eu tenho um homicídio na rua que eu não assinei e infelizmente, tem dois. Depois tiveram mais dois homicídios que eu não assassinei lá e mais um na rua, na verdade, eu tenho quatro homicídios. Eu acho que a pessoa deve alguma coisa, fica pesaroso se a pessoa fez alguma coisa que não devia ter feito. Se você faz alguma coisa era seu dever ou era você ou o outro, eu acho que não fiquei pesaroso, assim, não, por isso, não. Agora faz cinco anos, saí no dia 22 de setembro de 2010. Daí eu sai e fui morar com a minha esposa, mas agora estou separado, mas eu vou lá em casa, tudo, porque a casa é minha ainda. Eu vivo de pequenos bicos hoje.

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