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História

"Deus é o pulmão do mundo"

História de: José Francisco da Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/07/2010

Sinopse

Da prefeitura à Polícia Federal, José Francisco da Silva relata suas experiências profissionais ao longo da vida. Candidato a vereador de São Paulo durante o governo de Mário Covas, abandonou a política por não compactuar com tudo o que  presenciou de errado enquanto estava no ramo. Em 1989 José conhece a Congregação Cristã do Brasil, e a partir daí começa a compreender melhor o papel essencial de Deus em sua vida.

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História completa

P/1 - Seu José, primeiro gostaria de agradecer a sua presença aqui e dar sua entrevista no Museu da Pessoa. Inicialmente queria que você falasse o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R - O meu nome é José Francisco da Silva, nasci numa cidade chamada Maraial, Pernambuco. Minha data de nascimento é 31 de dezembro de 1939. Eu nasci às onze e cinquenta e cinco da noite. Meu pai teve o prazer de anotar até o horário que eu nasci. Cinco minutos mais eu nascia no ano de 40. A minha infância, me criei em uma fazenda, meu pai procurando me educar até meus 17 para 18 anos. Quando eu saí, fui servir à Pátria. Fui encaminhado por um deputado, Antônio Corrêa de Oliveira Barros, o qual me levou ao Departamento da Polícia Federal, dando baixa no Exército, e assim foi minha trajetória. Em 62 viajei para o Paraná e do Paraná retornei ao Recife, fiquei dois anos lá. Foi assim o meu trabalho, retornando à usina chamada Frei Caneca, uma usina de açúcar. De lá, em 69, eu vim embora para São Paulo, onde eu estou habitando, nessa grande metrópole. Em 72 eu fui trabalhar na Prefeitura, comecei minha carreira na prefeitura, fui comissionado nos governos para trabalhar acompanhando eles, porque eu era do departamento da Polícia Federal. Teve um ano, parece que foi em 84, 85, que saiu uma lei que a gente não poderia exercer duas funções públicas, ai eu optei por ficar na prefeitura, dando baixa de lá, porque era muito perigoso. O pessoal da minha época, que entrou no Departamento da Polícia Federal, nenhum tem vida mais, todos foram eliminados... Perigoso. Eu não sabia que era Deus na minha vida me tirando da boca dos mafiosos, das pessoas que não convêm nem citar aqui. Eu não sabia que Deus tinha um plano na minha vida, e assim foi o meu trajeto. Em 88 eu saí candidato a vereador por São Paulo, o Serra era o candidato da época, quem ganhou foi a Erundina. Eu saí candidato, fiz uma dobradinha com o Walter Feldman, que hoje é secretário de um setor de administração do Kassab. Eu tive 4999 votos, não cheguei a cinco mil, faltou um (risos). E assim foi. Pela dobradinha que nós fizemos, eles queriam que eu ficasse como assessor do Feldman. Aí eu chegando um dia, tinha o Celso que hoje é deputado, estava com a sua esposa, e o Walter chegou e disse para ele: “Celso, quem agora vai ser o meu assessor é o delegado José Francisco, porque eu não posso ter dois assessores”. Queria dispensar ele. Eu apenas olhei pra ele, vi o Celso com três crianças. Iria ficar desempregado e eu não, eu era efetivo no meu cargo, falei pra ele: “Acontece o seguinte, você se dá bem com o Celso, Feldman?”, ele disse: “Muito. Eu deixo aqui nas mãos dele, eu saio, ele dá o recado do trabalho dele aqui, dá cobertura pra mim”. Eu falei: “Vamos fazer o seguinte, eu retorno no meu cargo e o Celso dá continuação com vocês”. Me abraçaram, foi uma festa, mas choro. Foi assim, eu retornei ao meu trabalho comissionado na Câmera Municipal há muito tempo e ele ficou. De repente ele saiu candidato a Deputado Estadual, ganhou, ficou muito tempo. Só que uma voz chegava ao meu ouvido e falava: “Não quero você mais acompanhando a mentira, esse povo que promete e não cumpre, eu não quero você no meio deles”. Eu procurei em um canto, procurei em outro, não tinha mais saída para mim. A minha saída foi encostar para lá e não mais mexer com Política, estar no meio deles, mas não querer sair como candidato. Ajudava em outras partes, mas não queria mais saber. Então, de repente, quando foi em 89, com umas elevações, eu saí de São Bernardo do Campo – eu estava morando em São Bernardo - um dia e vim parar aqui numa manhã, aqui na Bresser, na Mooca, e terminei naquele dia obedecendo a Deus. Aí pronto, acabou aquela voz que estava falando no meu ouvido. Dessa data até agora eu estou vendo os acontecimentos, Deus fala comigo o que está acontecendo no mundo no dia de hoje, e o dia de amanhã que vai vir, entendeu? Porque o homem vem prometendo e não cumpre, nós prometemos e não cumprimos. Eu hoje cheguei às dez horas aqui, no horário que foi marcado com a Isabela. Isabela, né? Foi o horário, eu peguei o táxi, pensei, “vou chegar atrasado”, porque a gente tenta cumprir, mas o trânsito é grande em São Paulo, porque cada dia que cresce a metrópole, mais o trânsito está difícil para nós. E a minha infância foi assim, no Norte-Nordeste. Chegando em São Paulo, vendo onde eu moro hoje... tudo era mato, era eucalipto, um matagal só. Ali na Cohab I tudo era mata, São Paulo cresceu de uma maneira muito grande. Você vê a Nove de Julho aqui, no dia do acidente que houve ali no Joelma foi triste, eu estava chegando, estava na Câmera Municipal, aquela correria. Eu só via as pessoas desabando de cima, abaixo. As enchentes, eu vi aquela Nove de Julho ali um rio de água. Agora o homem responde por isso, ele quer fazer, não vou citar o nome, vem um prefeito que foi governador de São Paulo e diz: “vamos fazer piscinão”. Como ele quer mandar na natureza, quer entender? Não, não pense dessa maneira. Porque ele pensa que dá jeito, mas não dá. Agora mesmo na semana passada eu estou chegando no Aricanduva, vendo um piscinão cheio, explodindo tudo, saindo água para todo lado no Aricanduva. Tem (média?) do homem que é obrigar a natureza, a natureza é Deus, com a natureza ninguém brinca. Nós temos que preservar a natureza. Plantar uma árvore é natureza? É natureza. Mas ele preservou os leitos dos rios, as vertentes? Como é que pode? Por exemplo, você mora em uma cabeceira, tem um córrego. Sai ali uma mina, uma água limpa, como eu vi já muito em São Paulo. Eu fiz isso na época do Mário Covas - que foi prefeito em São Paulo - quando eu trabalhei ao lado dele no gabinete no Ibirapuera, comissionado. Então, veja só, um dia eu falei para ele, lá no Jardim Carrãozinho, estava construindo uma sala de aula, 18 salas de aula e colocando aquelas _______ e cobrindo com terra. E ali ia ser feita a sala de aula. Eu falei pra ele: “Mário Covas”, ele falou pra mim: “Delegado, tire esse terno e vamos trabalhar” (risos). Eu estava de terno, eu era segurança deles. Ele pôs aquelas botas, aquele chapéu de engenheiro e trabalhando no meio dos funcionários para construir aquelas salas de aula. E ele não era concorrente a prefeito, tinha sido posto pelo Montoro, ele não foi eleito pela eleição dele. Veja só, e ali eu tive que tirar o paletó e a gravata (risos), trabalhar no meio deles. Uma feijoada tão grande quando foi no horário do almoço, muito lindo. Eu chamei ele, chamei os engenheiros e falei: “Me diz uma coisa: essas ______ que estão fazendo aqui, quando todo mundo constrói, essas bocas de lobo não vão suportar a água que vem de cima da cabeceira” “Mas tem que ser feito agora”. Eu falei: “Vocês pensam em hoje e não estão pensando no dia de amanhã?”. Há dois anos deu uma enchente lá e estourou tudo, estourou tudo. Não foi um conselho? Eu não era engenheiro, era formado, mas minha parte era outra. O serviço foi feito errado. Como hoje o prefeito sai diante de uma câmera de televisão, o jornalista, nós temos que dar graças a Deus de ainda termos a imprensa que está debatendo, fiscalizando 24 horas por dia. Porque eu fico com o meu rádio deitado - às vezes quando eu acordo a CBN está no meu ouvido - escutando as informações da cidade e do mundo, é o que eu vejo. Agora veja só, a gente analisa todas as coisas. Eu tenho muita coisa para falar, vai um dia... se eu estou sentado aqui para conversar a respeito. A natureza, ninguém brinca com ela, estão abusando. Agora ele vai lá... Mentira, porque você tem uma administração, será que todos os funcionários correspondem ao seu comando de trabalho honestamente? É muito difícil, não é verdade? Eu queria deixar, se fosse uma transmissão direta, eu queria deixar uma reclamação para ele e para os que fazem o serviço errado. Hoje eu estou saindo da minha casa, chego na pista, “mas foi feito ontem...”, tinha um buraco, vamos falar “o” buraco, o português correto. Formou-se um buraco por causa das águas, a natureza fez aquilo. Agora, foram lá ontem uns seis funcionários, e eu vendo. Vão lá, “pápápá”. Hoje um carro pequeno que vinha, caiu ali dentro. Foi fechado ontem e hoje o carro já quebrou lá, está lá. Baixou, minou. Agora vem o prefeito, teve a carta emitida dos engenheiros, porque tem uma equipe trabalhando, tapa mil, mil e quinhentos buracos por dia. Não seria melhor se fizesse 300, 400, mas fizesse bem feito? Mas não faz. O trabalhador não faz de acordo com aquilo que você manda. É difícil para um homem administrar sendo coagido pela mentira, entendeu? Eles sempre passam por mentirosos, e são muitas coisas. Vocês ainda vão ver São Paulo explodir porque os dias estão se abreviando. O meu pai falava na minha mocidade, eu não cria no que meu pai falava, mas eu estou vendo, tudo o que meu pai falou há 55 anos eu estou vendo hoje, está se cumprindo o que ele falava pra mim. Vocês que são jovens vão ver a situação de São Paulo, eu não vou ver mais, mas vocês vão ver. O mundo é o mundo, não é só o Brasil, está correndo o fogo que nunca se apaga. São essas coisas que o meu pai falava no passado. No dia 31 de dezembro de 2009 eu tive o prazer de completar 70 anos, estou contando essa história por que? Porque Deus fez grandes livramentos em mim, na minha vida, porque na lida eu conheço, mas na vida... Por isso que eu te falei, na vida não conheço nada, porque a vida está nas mãos de Deus, só Deus para nos guardar. Porque os meus colegas do passado, nenhum tem vida mais, todos já foram, não acho mais nenhum. Eu estou aqui contando a vitória para mim... duas famílias, na primeira estão todos criados, e a segunda estou criando. Tem a Camilinha e o Toninho, e os meus filhos ao redor. Meus netos, para eu curtir um pouco com eles. Agora vamos falar um pouco do Amazonas, vocês conhecem o Amazonas?

 

P/1 - Conheço.

 

R - Você acha que o problema do mundo...

 

P/1 - Conheço mais ou menos (risos).

 

R - Você acha que o problema do Amazonas é do mundo? O pulmão do mundo é o Amazonas? Pulmão do mundo é Deus, ele segura o mundo nas mãos. Agora deixa eu olhar nessa jovem, estire a mão para mim, estire a mão para mim. Assim, ó. Essas unhas dela, foi a natureza que fez essas lindas unhas desse jeito. Você também, ele também. Agora veja só, estou falando, pulmão do mundo, como dizem... os estudiosos que estudaram, tudo bem, está ali dentro daquilo que estudaram. Mas um homem que tem um conhecimento acima de tudo, ele não cursou faculdade, ele não teve estudo nenhum, e é quem instruiu vocês, a mim, e a todos nós. Você acha, se Deus quisesse você de cabelos vermelhos, você não viria com cabelos vermelhos, com as unhas pintadas? Agora, por que as pessoas fazem tantas coisas erradas para se modificarem? A vaidade toma conta de cada um e a vaidade não entra no Reino de Deus, a vaidade destrói a Natureza, que é Deus. E Ele está revoltado com isso. Biblicamente falando, Sodoma e Gomorra foram destruídas por um povo que está habitando no mundo hoje para a destruição. E naquela época duas cidades foram destruídas, Sodoma e Gomorra.

 

P/1 - Senhor José, o senhor contou nesses 20 minutos quase a sua vida e você destacou vários pontos que a gente gostaria de desenvolver mais, que são muitos interessantes. Eu não sei se você me permite aqui, eu gostaria de fazer algumas perguntas e deixar você voltar um pouco a sua história de vida. Por exemplo, o senhor já falou da sua infância, até os seus 17 anos e nem contou nada para a gente. Poderia contar um pouco como era ali, como foi, o nome dos seus pais. E depois eu vou retomando para frente.

 

R - Sim, sim. Por exemplo, o nome do meu pai é Manoel Francisco da Silva, minha mãe, Ana Maria Conceição da Silva. Como eu já citei, fomos criados em uma fazenda, inclusive hoje está lá na mão dos herdeiros. Quem toma conta é um irmão, o único que está lá, o Abelardo, com problema com os outros herdeiros porque querem tomar o que ele fez, o que estava feito, estava feito, mas ele fez a parte dele na herança dele, que ele tem direito a essa parte. E ali fomos criados, todos os 13 filhos. Foi a minha infância junto ao meu pai. E ali o meu pai trabalhava para essa usina Frei Caneca e plantava cana, chegou a plantar 20 mil toneladas de cana. O trabalho dele era trabalhar na agricultura. As criações... modestamente, honesto até o fim da vida dele. Quando na velhice ele sofreu um acidente, machucou uma perna, foi para uma cama, três anos sofrendo, veio ser enterrado aqui em Ourinhos, São Paulo. Ficou na casa de uma das filhas, que era quem tomava conta dele. Realmente, lá ficou, nas mãos dos outros filhos. Eu tenho um irmão que está aposentado, sargento da polícia militar de Pernambuco, e assim foi espalhando. Eu não quis saber do Nordeste, muito quente, eu estou vendo São Paulo em uma caloria que está pior que o Nordeste (risos). Então são essas as coisas da minha mocidade.

 

P/1 - Por que o senhor veio para São Paulo? Como foi esse contexto do senhor para cá?

 

R - Eu vim para São Paulo porque, veja só, quando eu assumi um posto de agente, fui mandado para tirar serviço em Porto Guaíra, Paraná. Passando por aqui, em 61, fui lá para o Paraná. E eu gostei da vida no Sul, muito frio, fiquei dois anos. Eu estive em uma firma, Moreira Sales, já ouviram falar? Encontrei muito quebra-milho lá naquele Paraná, boca quente, pistoleiro, aí retornei para São Paulo. Passando por São Paulo, chegando ao Nordeste, em 64... naquela Revolução do Governo eu fiquei neutro. Não podia usar nada, ele estava em cima de mim. Só via o pessoal de foice, facão, pedaço de pau. Entrava no trem que tinha lá, passageiro entrava e gritava: “Quem manda aqui é o papai Miguel Arraes”, que era o governo na época. Houve a cassação daquele povo e eu fiquei escondido ali, trabalhando com o meu pai, porque o policiamento ficou a zero naquela época. Se falasse... Um monte foi exilado, né? Fernando Henrique, o Mário Covas, vários deles foram exilados, caíram fora para não serem presos. E a gente não podia abrir a boca. Quem mandava era o componente, naquela época, então foi um problema. Eu falei, não vou mais ficar em Pernambuco, em Recife. Morei em Prazeres, Boa Viagem, mas daí, São Paulo. Cheguei aqui em São Paulo e fui trabalhar na Prefeitura, foi quando descobriram que eu era da polícia, fiquei 24 horas detido no DOPS [Departamento de Ordem Política e Social]. Lembra quando o presidente foi preso, você lembra disso? Então, eu estive detido, fui só detido. Quando foi feita a procuração de mim para lá, foi por ____ tenho vontade de ir pra São Paulo. Não poderia fugir sem dar satisfação, e foi isso que eu fiz, vim para São Paulo. Aí me liberaram e eu voltei à atividade. Esse canal 13, da Bandeirantes, que era na Brigadeiro Luís Antônio, eu tirava serviço lá. Tinha o Departamento de Censura Livre, eu ficava ali junto com o Edson Bolinha, trabalhei muito tempo com ele ali, paralelo. Trabalhando na Prefeitura, a gente tinha direito a dois empregos, eu estava lá.

 

P/1 - Fazia segurança lá?

 

R - Fazia. Fazia segurança no Departamento de Censura Livre, por muito tempo, no programa dele na Bandeirantes. Não era só para ele, não. Ia para onde eles me mandavam, a gente ia de fim de semana. Eu tinha outro emprego, o deixei quando surgiu a lei que a gente não poderia exercer duas funções públicas, foi o motivo de eu vir pra São Paulo. Agora, eu sei mais contar sobre São Paulo que do Nordeste (risos).

 

P/1 - O senhor tinha algum envolvimento político... via coisas, como estava essa cidade?

 

R - Esse que é o ponto principal que eu estava contando há poucos minutos atrás. São Paulo, a maneira como cresceu, sempre sofreu as consequências. E o povo nordestino fez São Paulo crescer. O sonho do nordestino era conhecer São Paulo, o sonho do mundo é conhecer São Paulo. Do mundo, não é só do Nordeste não, é do mundo. São Paulo é conhecida, por isso cresce. Ainda tem um pouco de segurança do povo da justiça para não entrar muitas pessoas em São Paulo, mas não tem jeito, São Paulo cresce. As pessoas vêm de pau de arara, vêm de qualquer jeito para poder estar aqui. Hoje mesmo, estou vindo no ônibus e tinha uma senhora lamentando, eu vi o filho com a mãe de 73 anos, pôs a mãe dentro do ônibus: “Você não vai?” “Não, vai você. Eu vou trabalhar”, o filho. Veja só que situação, ela não pode nem mais andar sozinha, e o filho fazer isso... Dói na gente, sabe? Mas infelizmente a gente não pode fazer nada, é o mundo que nós vivemos hoje, a natureza é essa.

 

P/1 - Senhor José, o senhor lembra como foi o seu primeiro dia aqui em São Paulo, a primeira vez que o senhor viu a cidade?

 

R - Eu sei contar porque quando eu vim já tinha uma irmã aqui em São Paulo. Cheguei ali na Cidade Líder, na Rua Serrana, número 113, quando eu cheguei na casa dela, uma noite. Eu conhecia São Paulo só de passagem, porque viajava para lá e pra cá de avião, onde o supervisor mandava, a gente ia. Foi assim que eu conheci São Paulo. Mas quando eu vim, em 69, foi quando passei a conhecer São Paulo. Foi na Cidade Líder, aonde cheguei na casa de uma irmã minha, fiquei poucos dias na casa dela e já aluguei uma casa e fui ver... Até a data de hoje, onde eu estou vivendo em São Paulo, conhecendo São Paulo de canto a canto. Porque quando o Mário Covas assumiu a prefeitura e me levou para o gabinete, eu viajava 12 horas por dia, às vezes almoçava nas creches, nas escolas, era o meu trabalho ver onde tinha necessidade. Para mim, Mário Covas foi um governador municipal de primeira qualidade. E no governo do Estado, Mário Covas sofreu consequências no governo do Estado. Foi espancado, machucado, porque ele tirou daquele que tinha, para dar àquele que não tinha, e por isso ele foi sacrificado. Os professores judiaram do Mário Covas. E os professores... Magistério é sofrido, também. Então São Paulo foi crescendo estupidamente a cada dia. É aquilo que eu estava falando, o lugar que eu conhecia e que era tudo eucalipto, mato, tinha tatu, rato, tinha de tudo. E hoje é tudo cidade, tudo cidade. Onde eu moro hoje era tudo fazenda e hoje é uma grande cidade. E os rios continuam a mesma coisa, não modificaram nada. A cidade crescendo cada vez mais, os outros usando piscinão para defender. Se eles tinham um pensamento no dia de amanhã, o dia de hoje e de amanhã, eles vão resolver o problema de São Paulo, não é piscinão que vai resolver o problema de São Paulo. Eu não sou engenheiro nessa parte, mas pelo que São Paulo vem crescendo, as consequências que vem tendo hoje, é porque eles não sabem planejar o dia de amanhã, não sabem. A sua intendência está nesse estúdio aqui, pequenininho, mas amanhã quer ampliar, quer crescer. E se não tiver espaço, como é que vai fazer? Por exemplo, vou dar um exemplo aqui agora, muito importante, eu gostaria que isso chegasse ao Governador José Serra e ao futuro presidente da República, que pode ser ele, pode ser essa mulher. O Lula tem dado o sangue por esse país, não é porque ele nasceu em uma cidade vizinha da minha, porque ele é meu conterrâneo, não. É porque ele tem dado o sangue por esse país. Olha o que aconteceu agora com ele, foi internado, estresse. Por quê? Ele quer fazer de tudo para ajudar o pequeno. Só que tem uma coisa, ele está cercado por pessoas que querem ver a queda dele, aí fica difícil para ele. Ele não quer judiar de ninguém e por isso ele está fazendo um governo que o Fernando Henrique começou. Não durma pra não cair em tentação (risos). Então veja só: ele quer levar adiante um governo que foi o começo do Fernando Henrique Cardoso - não é porque eu sou do partido - e deu continuidade. Por quê? Porque ele quer, e a nação quer, um buraco que leva 30 anos para ser aterrado dentro de 4 ou 8 anos seja aterrado, sem ter condições? Leva 30 anos para chegar lá, em 8, 16 anos não dá para aterrar. Oito anos de Fernando Henrique e mais oito anos do Lula. Como é que pode? A nação tem que ter consciência disso, o país nunca chegou ao ponto que chegou, e está agora lá no FMI [Fundo Monetário Internacional], já emprestou dinheiro. Nós temos que ver essa parte.

 

P/1 - Senhor José, eu queria que o senhor contasse um pouco da sua experiência no gabinete. Como foi que o senhor entrou, as coisas que o senhor viu. O senhor poderia contar um pouco da sua experiência acompanhando o Covas, outros causos como o senhor já contou, de ir pra obra...

 

R - Ótimo. A minha experiência foi procurada por eles. Quando eu fui a segunda pessoa dentro de um congresso que era para ser formado 300 delegados, eu me inscrevi. “José Francisco, vai lá e se inscreve. Você é uma pessoa muito inteligente, sempre dá certo, a gente sempre apoia o que você vai fazer e vimos que você é positivo. Por que você não vai se inscrever? Uma semana, a gente dá a liberdade”. Eu fui lá e me inscrevi, aí, uma semana de congresso. “Você pegou o meu diploma, né?” Cheguei lá, me inscrevi, fui a segunda pessoa a ser chamada. Sabe por quem? Pelo Sarney. Em 85 era ele o Presidente da República. Não era o Sarney? Era Sarney. Fui lá ao Palácio das Convenções do Anhembi. Chamaram uma mulher, foi a primeira delegada aprovada. Em todas as perguntas e respostas... Que veio uma planilha pra gente responder, tal qual você está fazendo hoje. Então, realmente, foi aquele dia e eu fui a segunda pessoa a ser chamada, foi um delegado, congressista. Eu participava de vários congressos, nem todos eu pude ir, muitos eu caía fora, não gosto muito de me aparecer. Eu estou aparecendo aqui, mas não gosto muito de aparecer. Então realmente foi o ponto de vista. No gabinete, vou contar uma parte, um dia eu estava na segunda sala com o chefe de gabinete do Mário Covas, chegou uma pessoa e fez uma reclamação, o holerite dele, disse, e eu ouvindo, falou: “João, veja só, eu fiquei 30 dias trabalhando, não tive direito a uma hora extra, e o senhor de férias” - quando a pessoa saía de férias, não tinha direito às horas extras, era cortada, só se estivesse em função - “E ele recebeu as horas extras e a minha cortaram”. Eu trabalhando. O chefe de gabinete falou “Eu não posso fazer, você tem que reclamar com o seu chefe”. Eu o chamei em particular e falei: “Vem aqui, conta essa história direito, entra aqui no meu gabinete”. Ele entrou e contou pra mim: “Eu sou perseguido” “Você é perseguido?” “Sim, eu tenho três colegas lá que saíram de férias e receberam as horas extras. E eu estou trabalhando e cortaram as minhas horas extras. Isso já vem há dias”. Eu falei, “faz o levantamento da ficha desse funcionário”. Assim foi feito o levantamento, eu levei a conhecimento do Mário Covas. O Mário Covas fumava um cigarro seguido do outro, nem termina e já acendia o outro, foi isso que matou ele, câncer.

TROCA DE FITA

 

P/1 - Continuando...

 

R - Levei a conhecimento do Covas, ele falou: “manda o funcionário entrar”. Entrei com ele, ele contou pra ele a versão e o Covas falou: “Delegado, pega o carro e vai agora lá em Parelheiros”. Peguei o carro com ele dentro e fui lá: “Eu quero a ficha do relógio de ponto dos funcionários todos” “O quê?” “Tenho ordens aqui do Mário Covas”. Eu era supervisor, aí passou para mim. Eu trouxe, foi feito uma revolução, foi quando acabaram as horas extras e entrou H40, foi em cima disso. Tiraram as horas extras porque era o privilégio do chefe de tirar de um e dar para outro, foi uma briga. Naquele conhecimento o Mário Covas deu um ponto “x” pra mim, aí pronto, onde tinha. Outro ponto também principal, bom, eu tenho que falar, não adianta. Na CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos], chegou muita denúncia: “Delegado, você é a minha pessoa de confiança, vai lá. Carta branca”. Um crachá, lá vou eu. Santa Rita na garagem, eu ficava de longe. Aí, o motorista entrava, batia o cartão, saía, pegava o carro lá fora e ia embora. Carro dele, ia trabalhar no carro dele de táxi. Foi uma semana desse jeito, aí levei a conhecimento. E no fim do mês o pagamento daquele motorista vinha completo. “Espera aí, mas quanto tempo você trabalhou?” “Não, meu cartão tá... estava trabalhando”. Só que eles dividiam com o chefe deles, era tudo combinado, uma máfia. O Mário Covas brecou, muitos funcionários foram mandados embora sem direitos, muitos velhos de casa perderam seus direitos. E muitos falaram que eu era o culpado, mas eu não dava a minha presença, eu levava ao conhecimento. A auditoria ia e, quando chegava lá, pegava em flagrante. Não adiantava nada, eu nunca apareci, senão a minha vida já era. Houve tiroteio, morte, mas eu sempre estava fora disso, porque a gente que sabe trabalhar não cai em emboscada de jeito nenhum. Foi quando foi feita uma negociação de uns ônibus novos, ele comprou 40 ônibus, o pagamento que seria feito de cento e poucos milhões caiu para menos da metade. Era uma máfia tão grande que tinha lá dentro, você precisava ver. Mário Covas quebrou aquilo ali, tinha uns rolos... Depois do Covas foi o Jânio, o Jânio comprou aqueles ônibus de dois andares. Eu não participei da prefeitura do Jânio, eu vim embora para Câmara Municipal, não sei falar da administração do Jânio, sei pouca coisa, porque eu fiquei no meu setor sendo administrados por eles, mas não prestei serviço para o Jânio no gabinete.

 

P/1 - O senhor fala que é uma profissão muito perigosa, né? O senhor tem alguns causos, algumas histórias, algum aperto, alguma tensão, conflito, ou de soluções, de festas, de acolhimento? O senhor tem nessa profissão?

 

R - Olha, nessa minha profissão eu dou graças a Deus, porque quando chegava essas horas, eu tinha um defensor que sempre me defendeu, nunca foi preciso eu dar um tiro em ninguém. Prender eu cheguei a fazer prisão, mas também não atingi ninguém, graças a Deus. Deus sempre me defendeu, como tem me defendido até hoje. Agora, perseguição eu senti muito, mas eu tenho um ser que me tira por cima. Veja só, na Câmara Municipal, em 2003, de repente eu fui convidado para ir para o Nordeste, isso foi o maior apuro que eu passei. Eu, comissionado na Câmara Municipal, trabalhando no oitavo andar, não tinha nada a ver trabalhar como agente da Polícia Federal, e de repente está o meu nome lá na listagem, como delegado, que eu era e sou, estou aposentado. Mas delegados operacionais no município de São Paulo não tinham nada a ver com agente. Veio a minha convocação para viajar para o Recife, saíram de Brasília um delegado e um agente, de São Paulo saíram um delegado e um agente, escalados pelo segundo Tuma. E saiu outro do Rio de Janeiro para Alagoas, Maceió. Recebi aquela ordem, o presidente da casa teve que liberar, porque foi pedido oficialmente. Aí fui, viajei. Cheguei lá, tinha uma quitinete pronta para eu ficar por 30 dias no Recife, em Olinda, bem perto da praia. Recebi uns documentos que tinha que fazer uma averiguação lá no Recife a respeito de transporte de gêneros alimentícios, que foi promessa que o Lula fez para o povo e não chegou às mãos daquele pessoal. Chegaram várias reclamações em Brasília e vieram aqui para São Paulo. Como eu sou pernambucano, acharam um meio de me pôr para lá para fazer aquela investigação. Eu cheguei lá na Superintendência e falei: “Estou aqui com uma carta de São Paulo, do superior”. Aquele superintendente olhou para mim e disse: “Aqui não tem Polícia Federal?”. Eu falei: “Eu não estou falando isso, que não tem. Me mandaram para cá para eu ver isso aqui, eu estou dispensado lá da Câmara Municipal pelo presidente, está aqui a minha carta. Por ordem superior, vim aqui fazer a averiguação de uma mercadoria que veio para cá, três carretas, e o povo não recebeu. E eu tenho que me esforçar para ver onde é que está essa mercadoria”. Era gênero alimentício não perecível, estava lá. Eu não sei se você ficou sabendo, é a primeira vez que estou falando isso em entrevista, sempre me recusei a falar disso. Ele virou e disse: “Põe uma viatura aí à disposição dele”. Eu falei: “E agora? O que eu vou fazer?” Eu falei: “Eu quero saber o nome do motorista, os carros, para poder começar o trabalho” Me deram o nome de um motorista e eu descobri. O motorista de um deles disse para mim assim: “Doutor, olha, eu não posso falar” “por quê?” “Eu fui deixar em uma fazenda a 80 quilômetros daqui de Recife” “As três carretas?” “As três carretas foram para lá” “Tá bom. E você pode me levar lá?” “Posso, só que eu não chego lá porque lá é lugar de pistoleiro”. Eu falei: “Tá bom, lugar de pistoleiro, a gente vai lá”. Falei para o meu colega, ele com aquela túnica nas costas, ‘Agente de Departamento da Polícia Federal’, eu falei para ele: “Tira isso, rapaz”. Eu com essa sigla Nacional, falei, não vou com isso, vou “em manga de camisa”. É muito quente lá no Recife, “eu vou de manga de camisa, se possível, com a roupa rasgada. Vamos lá.” O carro estava a minha disposição e eu falei para ele: “Está dispensado esse carro”. Eu paguei naquela época 130 reais a um taxista para me levar àquela fazenda, levar e trazer. E foram o motorista, o agente e eu. Tudo assim, em traje comum. Quando chegamos lá na portaria o agente ficou com o motorista e falou: “A fazenda é aquela”. Eu fui lá, os capangas todos entrincheirados de varas, os 44, chegavam a brilhar amarelo. Aí: “o senhor vem a mandado do deputado?”, eu falei: “Sim”. Naquela hora eu menti, porque eu não fui a mandado de deputado, fui a mandado da Polícia Federal. Entrei, o administrador veio, chapelão, o 38 chegava a andar penso ao lado, me levou lá. Cheguei em um barracão, toda a mercadoria coberta. Além do galpão, estava coberta com uma lona preta, em um plástico preto. “Está tudo aqui. Você fala pro chefe lá que aqui ninguém põe a mão. Aqui está garantido, tem 40 homens aí, tudo na guarnição” “Tá bom, eu vi os pistoleiros lá”. Mas aquilo chegava a me doer, eu saí dali me encolhendo todinho. Saí, peguei o táxi de volta ao Recife, cheguei lá e falei: “Aqui, Superintendente, a mercadoria está em fazenda fulano de tal. Tal, tal, tal” “O senhor não veio pra resolver esse problema? Por que não prendeu os homens?” Olhei para ele e falei: “Não, senhor. Eu não vim para prender ninguém, vim para averiguar, saber onde está o produto. Eu descobri, aqui em Pernambuco, respeitosamente, tem a Polícia Federal e a Polícia Militar para agir, não sou eu” “Você veio de lá pra fazer essa parte, então tem que fazer tudo. Eu não vou pôr a minha mão” “O senhor não está contente comigo, com a minha presença? É só escrever aqui que eu retorno, que o avião que me trouxe ontem me leva de volta”. Eu fui à BRA, parece que essa empresa faliu, né? Aí o que é que tem que fazer? Mas Deus ilumina a gente, eu falei, isso é coisa. Telefonei para o filho do Romeu Tuma, que também é Romeu, falei com ele e ele falou: “Ah, tudo bem”. Já entrou em contato, “o que você tem que fazer?”, eu falei: “Olha, isso é problema do Estado, a gente não pode pôr a mão, tem a polícia federal, ele não quer pôr a mão”. Aquele homem foi suspenso, tiraram ele do cargo. Um superintendente, hein? O maior homem da Polícia Federal. Eu falei para ele: “Eu não sou culpado disso”. Ele ficou suspenso por uns dias para poder entrar outro. Naquela noite nós fizemos uma reunião: major, coronel, polícia militar, capitão, tudo que chegou. No dia seguinte foram presos dois vereadores e o deputado que era o dono da fazenda, eram do próprio partido do Lula. Foi tudo desvendado e eles foram presos. De repente, o colega que veio de Brasília deixou a esposa e três filhinhos. Isso saiu em jornal, foi tudo publicado, saiu para tudo quanto. Na Paraíba, ele chegou, procurou e descobriu a máfia, no outro dia de manhã, na hora que ele saiu do hotel e pôs a mão na maçaneta do carro, os caras o metralharam da cabeça aos pés, morreu ali, caiu na porta do carro. Delegado de Brasília. Saiu nos jornais, tudo, 2003, isso. Quando eu soube disso eu já estava em São Paulo, vim embora. Fiquei lá só três dias, quando cheguei aqui o homem disse: “Você tem 30 dias para ficar lá. Volta”. (risos). Eu voltei para o Recife, do Recife fui mandado para Maceió, Alagoas. Foi tudo descoberto assim, veja só. Por isso que eu falei, o Lula cercado com as próprias pessoas dele, para destruírem ele. Porque ele não prometeu ao povo, e ele não mandou? Distribuísse. Mas não, aquele deputado, vereador, segurando para campanha. Não era para mandar para a fazenda dele, era para distribuir para aquele povo que estava necessitado, então são essas falhas. Eu saí livre de mais um problema, e graças a Deus eu retornei para lá, para Maceió, Alagoas, e nós perdemos esse colega lá. Mas sabe o que é? A pessoa se prevalecer de um título que ela tenha...  Eu sou um delegado, e querer aparecer: “Eu sou um delegado”. Não, não é assim que a gente tem que fazer, são essas experiências que o homem tem que entender. Eu tenho um nome de cidadão e querer ser maior que os outros? De maneira nenhuma, não se pode fazer isso, tem que se buscar a calma, a paciência, o amor ao próximo, você nem é vencido e vencerás. Porque na vida quem manda é o amor, a paciência e ver a necessidade do seu próximo. Porque se chega uma pessoa muito esquentada, está agitada, se você não tiver paciência com aquela pessoa, não vai colher nada dela, não é verdade? Então toda essa experiência que eu tenho, do meu tempo de carreira, ambas as partes, é essa. Por isso é que eu ainda tenho vida, porque Deus me segura, não é outra coisa.

 

P/1 - Senhor José, o senhor disse que houve uma hora que o senhor começou a ouvir uma voz e um dia, na Bresser, Mooca, o senhor resolveu mudar. O que foi isso, como foi esse processo?

 

R - Isso vai ficar para vocês entenderem que, para mim, foi muito importante e seria importante para vocês o que coloquei. Para ela, mandei estirar a mão, com vocês também. Hoje o mundo não oferece nada de bom para ninguém, porque a verdade é que está sofrendo. Hoje é mais valorizada a mentira, a falsidade, a vaidade, do que a verdade. A verdade dói, e ela tem a vitória. Às vezes, matam a verdade mas ela não morreu, ela viveu. É difícil vocês entenderem o que é isso, é difícil. Eu vou começar de quando as vozes falavam para mim. Por exemplo, quando eu quis assumir uma responsabilidade como vereador, em uma grande cidade como São Paulo, com toda a experiência que eu tinha, que não é minha, porque é Deus quem me dá, como estou conversando com vocês, diante de uma gravação. Veja só, para dar o melhor, não para mim, mas para uma periferia que tenha necessidade. Agora, eu vou tirar o direito que tem a necessidade da periferia de São Paulo para quem mora e já está estruturado ali no centro de São Paulo? Quando, com uma pequena melhoria, resolve o problema, e deixar abandonada a periferia? Quando o candidato entra, ele promete o mundo e o fundo, ele está prometendo uma coisa que ele não vai cumprir. Por quê? Candidato sou eu? Sou, foram vocês que votaram em mim, foi a periferia que votou em mim. E no fim eu vou fazer as vontades de... Os que estavam me ajudando, um ainda abriu a boca e disse: “Eu posso te eleger, mas você vai sentar em uma cadeira cativa, vai fazer o que eu mandar lá”. Quer dizer, e a periferia que votou em mim? Eu vou trabalhar para o seu Antônio, não vou citar o nome. Quer dizer que se eu não citar o nome eu não estou falando a verdade? Agora veja só, está na foto aí, veja no papel que eu peguei o... Tem o nome dele lá. Um grande empresário, Antônio Ermírio de Moraes, foi posto ali para garantir a minha candidatura. Só os funcionários dele aqui em São Paulo iriam me eleger vereador. Em uma reunião em que estávamos na Câmara Municipal, só a cúpula. “O candidato mais pobre que tem aqui é o delegado José Francisco da Silva. Antônio Ermírio de Moraes, você vai ajudar?” “Sim”. Só que ele explicou o que eu teria de fazer pra ele. Espera aí, se eu ganhar pelo voto da população, sou um herói. Eu falei para ele: “Se eu perder eu sou um herói, mas eu perco de cabeça erguida. Com o perdão da palavra, mas eu não vou me sentar em uma cadeira cativa, presa, para fazer as vontades dos empresários. Como é que fica o voto da periferia, que votou em mim? Quer dizer, vão chegar os pedidos deles, mas não, vou ter que fazer isso que o senhor Antônio Ermírio de Moraes, o seu cicrano, seu beltrano, mandou”. Eu já estou mentindo, não estou? Não estou provando, foi o que prometi a eles. Como é que fica a minha situação, como é que fica? Mas a maioria é assim, promete tudo, mas não cumpre, esse é o problema. Não só em São Paulo que ocorre isso, ocorre na maioria das cidades. É o que o Kassab faz, promete, promete, promete, mas não cumpre. Fez uma boa ação? A limpeza de São Paulo, Cidade Limpa, tirou aquelas placas grandonas que tinha, sujeira de São Paulo? Tudo bem. Mas ficou outra pior, a minha casa está limpinha, amanhã já está toda pichada. Isso não acaba. Cidade limpa é ter pessoal pronto, à disposição. A subprefeitura, que primeiro eram regionais, estar ali tirando sujeira de boca de lobo, todos os dias, de três em três dias. Na época do Covas o nosso trabalho não era subprefeitura, eram regionais, fazendo esse trabalho. A Sé era empenhada na cidade, tirando todas as sujeiras que estavam nas bocas de lobo para que as águas tivessem o canal aberto para descerem para o Tietê. Mário Covas ficou doido quando foi atrás de um grande valor que o Japão tinha dado para afundar o leito do Tietê, o dinheiro tinha sumido e não chegou às mãos dele. Tinha que afundar o leito do Tietê, desde o Covas, e foram levando. Até hoje ninguém sabe para onde foi esse dinheiro. E ainda se dá graças a Deus que a imprensa está em cima, buscando. Isso vai para a internet, vai para onde for, e não aparece o penhor da história. Se eu tenho uma verba predestinada para tal setor, não pode tirar ela daqui, só se houver uma cláusula, como houve agora no país, o país ajudando a necessidade de outro país.

 

P/1 - E no fim, senhor José, como foi essa experiência como vereador? Porque são anos, né? Como foi esse diálogo com o empresariado?

 

R - Como eu era o mais pobre, fiz a dobradinha com o Feldman. Se eu ganhasse a votação acima, se o Serra liderasse, na época, como prefeito, com os votos que tive teria assumido uma cadeira na Câmara Municipal, mas quem liderou foi a Erundina. Eu precisava de 12 mil, eu tive cinco mil votos, quatro mil, novecentos e noventa e nove, então não deu. Os meus votos foram para o Feldman, que foi o acordo que fizemos. Como o Feldman já tinha quatro anos de mandato, ele que ficou. Foi quando eu falei que o Celso iria perder o cargo para mim, para eu ficar como assessor do Feldman e eu falei, “não, deixa ele ficar no emprego dele, tem os três filhos dele, a esposa também trabalhava com ele, fica tudo em casa, e você se dá bem com ele, e eu volto para o meu setor”. Foi assim que foi feito. Eu recusei. Um homem se levantou e disse: “Gostei da atitude do delegado, ainda tem homem honesto nesse mundo”. O Serra falou isso, os outros ficaram bem calados. Eu tenho que cumprir aquilo que eu prometer aos meus eleitores e ao partido, a empresário, não. E ele está na foto aí, quando eu saí em 88, Antônio Ermírio de Moraes falou essa frase para mim. Eu não ganhei. Quando chegou a oportunidade, comecei a ouvir essa voz. Eu morava sozinho na minha chácara, estava separado da minha ex esposa, fiquei 16 anos separado dela. Eu estava sozinho e uma voz falava comigo dentro da minha casa, no meu ouvido: “Afasta-te da mentira porque ali só tem promessa e não cumpre. Só há um que fala e cumpre”, que sou eu, a voz falava assim comigo. Eu, comissionado, falei: “A partir de hoje não conta mais comigo para política”. Depois que eu perdi, voltei à minha função e pronto, foi o gestor da história. Aí aquela voz, um dia... Agora vou contar o que aconteceu. Um sábado, quando eu estava dormindo, vi chegar uma serpente cheia de serpentinhas ao redor, assim, “ó”, e aquela serpente partia para me pegar. E eu ficava com medo, assustado, aquela serpente enorme querendo me pegar. Eu não conseguia pegar a serpente com essa mão direita, aí consegui, uma hora, pegá-la, eu já estava suado. Peguei essa mão esquerda aqui, apertei o gogó daquela serpente e ela morreu. Lançou da boca dela um sangue e me sujou de sangue. Aquelas pequenininhas morreram todinhas ao lado dela. São coisas que são segredos, que a gente não sabe. Eu não sabia o que era. Falei, mas as serpentezinhas morreram todas, é um exército de serpentes. Aí, acordei, olhei, não estava sujo de sangue. Eu fiquei uma semana em casa sem comparecer ao meu setor. Aí, em um domingo, não sonhei mais com aquilo, na segunda-feira. Eu tinha uma audiência em uma terça-feira lá na Tiradentes, na Corregedoria Geral da Polícia Militar de São Paulo. Eu tinha participado de um acidente, e nesse acidente eu fui testemunha do que aconteceu. Era uma terça-feira, duas horas da tarde. Eu cheguei lá: “Ô delegado, mas o que aconteceu com o senhor durante essa semana? E o livro?”. Eu falei, “deixa assim mesmo, estou passando por umas tribulações na minha vida”. Contei para uma pessoa que é da Congregação Cristã, um servo de Deus que trabalhava lá no Ibirapuera. Não tem a Praça Milão ali? Não sei se vocês conhecem, lá na Quarto Centenário com a República do Líbano. Eu estava ali, o engenheiro chegou, “vai pro quartel”, eu estava trabalhando para lá. Tinha uma manutenção e eu estava ali, perto de aposentar, já. Mas mesmo assim ainda tirei cinco anos depois disso. Ali, conversando com aquela pessoa, ele diz: “Vai assinar”, eu digo: “Não, não” “Não, vai assinar o livro”. Eu fui lá, assinei a semana. Aí, estava pronto para sair para vir para a cidade, pegar o ônibus ali para ir à audiência na Tiradentes, que era às duas horas da tarde. Isso umas onze horas, que o pessoal saiu pra almoçar. Fiquei ali pronto para sair. Chegou o carro do secretário, encostou na frente e falou: “Cadê o pessoal daqui, o engenheiro, a engenheira?” “Não tem ninguém, saíram para almoçar”. De repente chegou a engenheira: “Delegado, você...” “Eu vou para uma audiência” “Eu estou sabendo”. E tem o carro do secretário, veio pedindo um sarrafo de um metro e meio, sarrafo de madeira, de um por um e meio. “Mas não tem um carpinteiro, não tem um marceneiro?” “Estão todos na rua”, “eu sei fazer, vou fazer.” Olha que tentação. Tirei o paletó, tirei a gravata, fui mexer com uma máquina. Eu conheço essa parte também. Peguei um pedaço de madeira, passei na serra e fui abrir. Levei em uma plaina que a “bicha” tem uma velocidade que chega a zoar, mais de quinze mil rotações. Liguei aquela máquina, “uuuuuu” e fui passar aquele sarrafo. E na madeira, pinho, tinha um nó. Quando chegou ao gume daquela faca, pulou para cima e o meu dedo foi aqui, ó. A hora que eu peguei no dedo assim. Surgiu aquele golpe de sangue para cima e sujou a minha camisa. Eu me lembrei do sonho. Aquela doutora, Maria Luísa, olhou para mim e foi desmaiando quando viu o sangue, porque sujou o teto e me sujou. Foram chegando outros colegas que hoje estão trabalhando na Câmara Municipal. “Mas delegado, o senhor não tinha que mexer nessa máquina, rapaz”. Aí “ahhh”, caiu. Eu falei: “Engraçado, o acidente não foi com vocês e vocês estão morrendo e eu não. Isso aqui não vai me matar.” Pegaram o próprio carro, me deixaram no pronto-socorro para fazer tratamento e fiquei uma semana lá. Isso foi em uma terça-feira, a audiência foi suspensa porque eu era a principal testemunha de vista do acidente, que assinei lá, e foi suspensa a audiência. No fim da semana, em um sábado, eu estava em casa e chegou um moço na porta, lá na chácara, Jardim da Represa. Bateu palma, eu abri a porta: “Eu queria uma palavrinha com o senhor” “Tudo bem, pode falar” “Eu vim fazer um convite para o senhor” “Que convite?” “O que o senhor vai fazer hoje?”. Eu falei: “Ó, nada, eu estou com a mão enfaixada em um acidente que eu sofri e estou aqui em casa” “Olha, o senhor já foi na Congregação Cristã?” “Não” “Pois eu venho fazer um convite para o senhor, hoje, às seis horas da tarde, se o senhor disser que vai, eu prometo, venho pegar o senhor hoje às seis horas, começa às sete e meia lá em Los Angeles”. Eu até brinquei com ele, falei: “Ih, Los Angeles é nos Estados Unidos. Você conhece Los Angeles?” “Conheço” “É nos Estados Unidos. Seis horas, mas nem de avião dá para chegar lá. Aí brinquei com ele essa parte. “Não, é o Parque Los Angeles, tem uma salinha de oração lá, e se o senhor disser que vai, venho para levar o senhor.” “Tudo bem”. Às cinco horas eu, com uma mão só e passando ferro na minha roupa... A minha cunhada, que era vizinha e não estava em casa... Eu falei “vou com uma roupa melhor”. Cinco e meia já estava todo embonecado, de terno, porque eu só ando assim. Deu seis horas aquele moço não apareceu, seis e meia, aí eu comecei a falar: “A gente ______ com o mundo, e é terrível, não está contente com nada”. Eu não fui muito assim, mas sempre acontece essas coisas. Quando deu sete horas eu falei: “Esse é um covarde, tratante, fala que vem às seis horas me pegar para me levar nessa igreja e não aparece”. Comecei a me aproximar dele, do cara. Eu falei: “Eu vou sair daqui, quando eu chegar lá vou pegar esse cara pela beca e chacoalhar ele pra ele deixar de ser tratante”. Foi assim. Eu saí sete horas, começava às sete e meia, era pertinho da pista. Cheguei lá e peguei um ônibus que vinha chegando, iam duas senhoras dentro do ônibus. Em dois pontos eu estava lá no bairro. Aquela mulher olhou para mim e disse: “O senhor está indo na Congregação?” Eu falei, “senhora, eu não sei nem onde fica isso, porque recebi um convite de manhã, o rapaz falou que passaria para me pegar às seis horas para me levar a esse lugar, que eu não sei onde fica”. Aquela mulher olhou para mim e disse: “Senhor, aquele jovem que foi convidar o senhor está bem ao seu lado”. Eu olhei para ela e só não quis chamar ela de mentirosa. Eu falei: “O quê?” “É, está ao seu lado. Nós estamos indo para lá, o senhor nos acompanha”. Santo Senhor. Eu olhei, não quis chamá-la de mentirosa e acompanhei-as. Desci no ponto e fui lá, já eram sete e vinte e cinco, fui muito bem recebido pelo Moreno, me colocou no segundo banco, e naquele segundo banco estou até hoje. Sentado aqui em uma cadeira, sendo entrevistado por vocês, mas naquele lugar eu estou até hoje, no segundo banco, dando graças a Deus, porque naquele dia, em um sábado, 25 de agosto de 89, começou a tocar o primeiro hino em silêncio. Chegou a hora o servo de Deus subiu a tribuna, ali é uma tribuna de honra, viu? Subiu a tribuna, deu início. “Quem tem o primeiro hino pode chamar”, chamaram. E eu ali. No terceiro hino as lágrimas já começaram. Eu falei: “Um homem chorar, mas que vergonha, homem não pode chorar”. Eu já estava chorando naquele terceiro hino, veio a oração, o quarto hino. Depois vieram os testemunhos e depois dos testemunhos o outro hino. Naquele outro hino veio a palavra. O Senhor tomou o servo de Deus que falava assim - mas era comigo - “Aqui entrou, eu já vou chamar de irmão, eu já vou chamar de meu filho, tu recebeu um convite hoje pela manhã”, eu não contei nada para ninguém lá, nada. Só para aquelas duas mulheres que vinham no ônibus, que eu contei para uma e a outra escutou. “Você recebeu um convite de manhã, esperou seis horas, ele disse que passaria lá, mas eu te trouxe aqui. Tu ficou esperando, mas tu tinha que vir aqui hoje, porque aquele que te convidou, você viu ele de manhã pela presença, na vinda você não o viu mais, mas ele veio contigo. Você crê que ele está aqui presente, bem perto de você?” Falava assim. “Mas de hoje para amanhã eu vou tirar o seu sono, vou te mostrar, e amanhã Deus fará uma obra em sua vida, te chamar nesse caminho e tu nascerá da água e do Espírito Santo para servir-me, enquanto vida tiver, trabalhando em minha obra”. Ela viu as fotos que eu tenho, em minha obra. Terminou o Santo Culto. Quando eu entrei ali, acho que eu tinha umas 80 toneladas de peso sobre mim, quando eu saí, saí leve como uma pena. Eu cheguei em casa, fui dormir meditando naquelas palavras. Peguei a bíblia, eu sempre estudei a bíblia, sempre. “Aí, a partir dessa data tu sempre gostou de ler o meu estatuto? Nesse estatuto é onde está o Caminho, a Verdade e a Vida, é a minha palavra, porque sem a minha palavra, nada poderá fazer”. Eu chegando em casa fui dormir, consegui dormir, não troquei de roupa, só tirei o paletó e a gravata e fiquei lá. Rolava na cama de cá para lá, de lá voltava, os dois joelhos no chão, o Pai Nosso, a maior oração que Deus nos ensinou. Quatro horas da manhã eu tomei uma _______ assim, eu via a estação Brás do metrô, que o metrô passou a ir até o Tatuapé, o metrô ainda não seguia para a frente. “E você tem que ir por esse caminho”, e mostrava. Eu via aquele templo ali, eu olhava e via um tanque de água, uma coisa dizia assim, “é aqui que você tem que vir hoje, morrer o velho homem e nascer uma nova criatura para me servir enquanto vida tiver nessa terra, me seguindo”. Quatro e meia eu só fui lavar o rosto, me barbeei porque a minha barba estava meio crescida, fui para a pista, peguei o ônibus para São Bernardo do Campo, de São Bernardo do Campo peguei o Expressinho Tietê. Cheguei ao Parque Dom Pedro, desci, peguei o metrô, desci no Brás. Cheguei no Brás e fiquei sem saber onde era, fiquei ali. Aí vinha um senhor com uma pasta, com _____ embaixo do braço, olhou para mim e disse: “O senhor vai para a Congregação?”  Eu falei: “Não sei nem onde fica” “Eu estou indo para lá, é uma estação a mais na frente”. Veio o metrô, entramos, na Bresser, Mooca... Ela fica do outro lado, vocês conhecem ali? Bresser e a Mooca, conhecem, né? Desci, era muito cedo, fui lá em um bar, tomei um café. Abria às oito horas, quando abriu, entrei e sentei no segundo banco. Começou o Santo Culto de batismo, quando o ancião falou assim: “À minha esquerda os irmãos podem subir, à minha direita, as irmãs podem subir”. Eu queria ser o primeiro, então um irmão foi lá e pegou no meu braço: “Você está muito afoito, quer ser o primeiro? Aqui é assim, o primeiro é o último, e os últimos serão os primeiros”. Falou dessa maneira, e está lá até hoje esse irmão, o porteiro de lá. Falando assim, eu olhei para ele e ele falou: “Eu quero saber de você, se você é casado”. Eu falei: “Sou, já divorciado” “O senhor tem alguma mulher?” “Não” “Seguinte, depois de se batizar aqui, se usar mulher, peca, é condenação de morte. É melhor você não se batizar, espera Deus preparar uma de suas filhas para ser sua esposa, e viver com ela maritalmente até o fim da vida. Não adulterarás, se adulteras, morrerás”. Eu falei: “Então não quero saber disso, eu quero saber é da salvação da minha alma. Se eu não batizar hoje, você é o responsável pela minha alma”. Ele falou: “Vai, vai, vai, vai”, dispensou. Eu fui o décimo primeiro, não o primeiro. Naquele dia eu _____ as águas do Santo Batismo, entrou uma alegria tão grande em mim, que eu anoto o batismo até hoje no Brás, esse é o de anotar o batismo. No ano de 2009 obedeceu a Deus 5695 almas e agora, nesses cinco batismos desse mês de janeiro, já está em 580 e uns quebrados, quase 600. Cinco batismos. Então vai terminar o ano lá para seis mil, mais ou menos. Eu gostei tanto do batismo, fiquei “ai meu Deus, o que eu faço? Tenho que casar.” Fui, noivei, não deu certo. Estava noivo, eu já tinha 50 anos e a menina tinha 19 anos, muito bonita. Eu era apaixonado por aquela irmãzinha, mas no fim não deu certo, o senhor falou pela palavra: “Não gosto de traição no meio do meu povo. Vigiai, tem um casal de noivo que não está dando certo”. Eu fazia de tudo por aquela irmãzinha, mas em três dias o senhor mostrou para mim. Eu tenho essa máquina, está até aí. Em três dias o senhor mostrou para mim, ela estava com outro namorado. Noiva, e com outro namorado. Porque no domingo ela pediu para eu não buscar ela na escola, que a irmã dela iria e ela teria companhia para vir embora, porque era dez e vinte que tocava o sinal e ela saía da escola. Então foi assim, o Senhor me advertiu de novo, tinha culto no domingo e na segunda-feira. Na segunda-feira o Senhor me preveniu de novo pela palavra. Na terça-feira eu fui lá, pulei para dentro do mundo e fiquei na retaguarda. Quando ela saiu, abraçou-se lá com o namorado. Casou-se com essa pessoa. Mas eu já dava conselho para ela: “Eu já estou de idade, você, uma menina nova, bonita, tem que procurar uma pessoa que tenha prosperidade para você”. Eu mesmo dava conselho a ela: “Ou você é interessada ao que eu posso dar para você”, porque graças a Deus eu tinha como dar pra ela, e ela era uma menininha pobre, mas andava toda arrumadinha. Tinha que ser da vontade de Deus, não era da vontade de Deus. Então houve esse atrapalho. Eu vou resumir, no fim ela casou com esse moço, ele não era nosso irmão, depois se batizou para poder casar com ela, casou, teve uma filhinha. Em seguida o esposo e o irmão dela saíram lá do Jardim da Represa, chegaram em Santo André e fizeram um assalto de quatro milhões e meio em uma loja, os dois. A polícia catou. Ela está sozinha, os dois estão presos, o irmão dela e o marido. E ela um dia mandou um recado, por um irmão meu (risos), eu falei: “Fala para ela que a bandeja de ouro que Deus deu para ela, ela jogou fora, está nas mãos de Deus. Então ela vai buscar a bandeja nas mãos de Deus, não de mim mais”. Eu já estava noivo da minha atual esposa. E mesmo que não estivesse, não voltaria mais, pelo que eu vi que iria acontecer. Os dois estão presos, lá no cadeião de Santo André (risos).

 

P/1 - E como você conheceu a atual esposa?

 

R - Gostei dessa pergunta sua. Olha, a minha esposa atual tem problema, se fosse por Deus... Se não fosse por Deus eu não iria querer ela para ser a minha esposa, ela tem ataque epiléptico, tem problema e eu não posso deixá-la sozinha com as crianças. Uma está na creche e o menino fica com ela, mas fica na vizinha. Para eu estar aqui hoje, se a vizinha não estivesse, eu não poderia vir, para não deixá-la sozinha. Mas foi um trato que eu fiz para vir, não poderia deixar de vir, né? Tem que arrumar uma pessoa para deixar. Veja só, eu arrumo uma pessoa para ficar com ela, quando vê o que acontece com ela, não quer ficar mais, tem medo dela. Então, agora, ninguém queria, ninguém queria. Mas o Senhor, quando predestina uma coisa, é aquilo que tem que ser, é o que Deus quer, não o que a gente quer. Agora eu vou falar como eu a conheci. Depois que terminou o noivado com essa irmãzinha lá de São Bernardo, eu continuei, porque fui escolhido para anotar o batismo no Brás, por um ancião que adora ao meu Senhor. Eu, no segundo banco, um irmão olhou pra mim e disse: “Irmão” - eu estava com um ano e pouco de batizado - “eu sinto convidar o irmão para anotar o batismo, que eu vou tirar esse outro para fundo bíblico, fazendo bíblia lá, no Hinário. E eu gostaria que o irmão, se sentir da sua parte, para anotar o batismo aqui no lugar dele?” “Sim, irmão” “Se você sente, mas não pode faltar” “Tá bom”. Assumi aquela responsabilidade. Passaram anos, acabou o meu noivado lá. Eu fiquei chateado, falei “eu já estou de idade mesmo, vou ficar numa boa, não quero mais saber de mulher, não”. Foi, fiquei bronqueado com aquilo. Aí um dia, um irmão que senta ao meu lado direito chegou, ajoelhou, orou, orou. Quando levantou, disse: “Irmão Zé, o que é isso aqui no meu dedo?” “É uma aliança” “Você está vendo essa irmãzinha morena que está aqui do outro lado?” “Estou” “Você vai ficar noivo dela”. Isso é testemunho verídico, porque ela pode provar isso para vocês. “Você vai ficar noivo dessa irmãzinha e vai casar com ela”. Santo é o Senhor. Eu falei: “Irmão, Natalino, pare de brincadeira. Eu venho aqui dar glória a Deus, dar aleluia, eu venho aqui cumprir com meus deveres, não venho aqui para ficar olhando para a irmã, nem irmãzinha, não. Não vim aqui para isso não”. As irmãs estão para lá porque as irmãs sentam de um lado e os irmãos do outro, não é misturado não. A Congregação tem esse hábito. Essa obediência nós temos lá dentro. Não é porque ela é melhor do que as outras, não, mas não tem “misturança”. Então ele falou: “Está bem, irmão Zé, me perdoa eu falar”. Aquilo ali eu esqueci, e nem gostei que ele falou aquilo. E na hora que tocou o hino em silêncio, e depois o ancião subiu, os três hinos tocaram. Na hora da palavra, o ancião saiu de trás da tribuna, veio um pouquinho para frente e disse: “Irmandade, hoje é um culto de batismo, mas o Senhor está mandando um recado para a Igreja. O Senhor manda dizer para a Igreja... Tem um casal hoje aqui, ele é de idade, ela é jovem, o Senhor mandou dizer, já foi confirmado aí embaixo, está nascendo uma união de casamento aqui hoje. O Senhor está mandando o recado, e mandando dizer  “é da minha vontade”. O irmão Natalino bateu nas minhas costas e disse: “Irmão Zé, está escutando?” “Estou, irmão Natalino”. Dessa distância que está a Maiara, dessa distância, virei para ela, assim de lado, e falei: “Irmãzinha, você gosta de mim?”. Ela balançou com a cabeça que sim. Eu falei: “Pronto, estou perdido. Menina, você é uma criança”, ela tem 37 anos agora. “Você é uma criança, você tem que procurar um jovem que dê prosperidade a você, eu já estou velho, cansado, que é isso, menina? Você não tem juízo mesmo. Mas se é você que Deus está preparando para mim, que seja feita a vontade de Deus, não a minha. Eu estou precisando de uma esposa, quando terminar o Culto de Batismo eu quero falar com você”. Tudo bem, passou. Quando terminou o batismo ela veio anotar o telefone, isso foi no dia 15 de novembro, que teria a eleição para o Lula ser presidente, foi nesse dia. Eu marquei um encontro lá na casa dela nesse dia. Ela deu o telefone da mãe dela, dela, ela tremendo, nervosa (risos). Eu falei: “Você está nervosa?” “Um pouco, eu sou analfabeta”. Ela expôs os problemas dela. Vou fazer o quê, menina? Se é você que Deus está preparando para mim, ele vai me dar paciência, vai me dar tudo para eu assumir a responsabilidade. É por Deus”. Só que se não fosse por Deus, eu iria querer uma esposa com uma condição dessas? Não iria querer, não, porque é difícil. Mas foi tudo por Deus. Marquei com a mãe dela, no dia 15 de novembro eu fui votar, saí de São Bernardo e fui votar lá na Vila Matilde, que o meu título é de lá. Fui votar e fui na casa dela. Cheguei lá, a mãe dela: “A minha filha tem esses problemas, essas coisas”. Eu falei: “Senhora, se é ela que Deus está preparando para mim, quem sou eu pra recusar o que Deus me deu? Quem sou eu?” Ficou um ano, há quatro anos que eu casei com ela. Graças a Deus vivemos bem, Graças a Deus. O problema dela só é a saúde, que me preocupa muito. Não poder deixar ela sozinha com as crianças, e as pessoas que eu arrumo para ficar com ela, têm medo de ficar com ela. Houve um tempo que ela passou mal, pegou o berço e arrebentou. Se ela pegar a criança, mata, porque ela não sabe o que está fazendo. Meu casamento tem essa finalidade, meu casamento com ela foi assim, meu conhecimento com ela foi esse, tudo permissão de Deus. Agora, no dia 12 agora, eu estou viajando para Belo Horizonte, vou para Esmeralda, em serviço da obra de Deus lá. Foi a parte que Deus deu para mim. São muitas coisas que a gente tem a conversar que se eu ficar, vou ficar o dia.

 

P/1 - É verdade, né, seu José. O senhor tem uma vida bem interessante, contou várias coisas, vários causos. Então, eu vou começar a encaminhar já para uma finalização do nosso papo, senão vai mesmo o dia inteiro. Eu queria que o senhor contasse um pouco de hoje. Você está falando de ir para Belo Horizonte pela igreja. O que o senhor faz hoje, como é o seu dia hoje?

 

R - O meu dia hoje é um dia esperançoso, porque eu me sinto gratificado por vocês me receberem com essa atenção maravilhosa. Eu tenho certeza que é permissão de Deus, porque isso tem que chegar a conhecimento, a verdade tem que chegar a conhecimento. A verdade fica escondida um pouco, mas depois ela aparece, por isso eu me sinto maravilhado, porque tenho certeza que muitos estão sabendo que eu estou aqui hoje, nessa entrevista de gravação com vocês. Então ficam todos na expectativa, é jornal, é tudo. Mas poxa, eu falei: “Eu orei a Deus para vir, porque se Deus dissesse, “não vai”, eu não viria, cancelaria e não viria, daria uma desculpa”. Mas estou aqui agradecido a vocês por dar esse atendimento para mim, é maravilhoso. Mas eu quero deixar aqui para vocês uma revelação que Deus deu para mim, talvez eu não veja, mas o que vocês acham, perguntas e respostas, do Governo querer fazer um trem bala de São Paulo ao Rio de Janeiro, é bom para nós? Resposta. O que você acha?

 

P/1 - O que o senhor acha?

 

R - Pela revelação, eu acharia que os governantes entendessem que a prioridade é no Estado. Um exemplo, uma revelação, vendo em uma profundidade de vários metros em São Bernardo do Campo e um metrô passando por baixo, daqui do Ipiranga a Cubatão, dando uma vida em Santos, tirando uma grande elevação de poluição, menos carros na Imigrantes e na Anchieta, metrô direto de São Paulo a Santos. Vocês vão ver isso, que é promessa de Deus. Quer tirar a poluição do ar, ajudar a natureza? É esse o caminho.

 

P/1 - Senhor José, já indo bem para a finalização mesmo, tem alguma história que a gente deixou de perguntar que o senhor gostaria de aproveitar para contar? Tem um milhão de coisas que eu gostaria de perguntar, mas a gente vai indo. Tem alguma que a gente deixou de falar?

 

R - Você quer mais ouvir do que perguntar.

 

P/1 - Sem dúvida.

 

R - Tem perguntas e respostas. Eu queria ser um cantor. O Senhor disse: “Tu vai cantar os meus hinos de louvou para mim”. Mas na minha mocidade ainda cheguei a gravar um _____ _______, né? E depois eu passei para Jacinto Silva. Então não vou cantar aqui (risos). Eu gostava muito das músicas do Vicente Celestino, do Francisco Alves, gostava muito. Sambas do Jair Rodrigues e outros cantores. Mas são muitas coisas que a gente frequenta na mocidade, e eu fazia barulho em instrumento, no violão... Me empolguei quando cheguei aqui, mas tenho medo de quebrar (risos).

 

P/1 - Tem um inteiro aqui (risos).

 

R - Então, veja só. Eu cheguei, fiz a letra (canta): “Como é que pode nós vivermos assim, por qualquer coisa você quer brigar. Será que eu não presto para você, ou você tem outro em meu lugar?” Eu cheguei a gravar essa música e depois eu falei, “eu não vou seguir essa carreira”, porque não é o meu ponto de vista. Jacinto Silva, muito meu colega, pegou a letra e gravou, foi um sucesso no Nordeste, em todo canto. Então, Francisco Alves, quando eu fazia um barulho no violão, os meus colegas me pediam muito, eu gostava de tocar um pouquinho, fazia barulho, porque não era nada oficial. São coisas musicais que eu gostaria que você perguntasse para mim, da música, que vocês fazem também parte da música.

 

P/1 - Ok, o senhor poderia nos contar. Como aprendeu o violão, como eram as festas que o senhor frequentava? Esse grupo de amigos.

 

R - Sim, tinha esse grupo de amigos, a gente se divertia. Lá no sítio, na fazenda, todo sábado tinha o Expedito, que era o administrador lá da fazenda, ele dizia: “Zé, hoje nós vamos passar a noite brincando, vamos tocar uns forrós, tocar um negócio”. Ele dizia: “Eu quero que você cante aquela música para mim”, ele gostava de uma cerveja. “Qual é a música que você quer?” “Você sabe né? Você sabe”. E eu tinha que fazer as vontades dele, porque era ele que comandava tudo, era o administrador. E eu cantava: “Entre as mulheres que eu conheço, há uma que eu não esqueço. Para esquecê-la eu me esforço, o nome dela eu não digo. Não quero ser seu inimigo, nem quero sentir remorso. Por mais que ela está ausente, ela não me sai da mente. Gosto daquela mulher, para não esquecer o meu castigo, o rapaz é meu amigo, e gosto daquela mulher”. Ele era apaixonado e eu cantava essas músicas realmente, isso me deixava muito vaidoso na mocidade. Então, muitas músicas do Nelson Gonçalves.

 

P/1 - Da onde você conseguiu esse gosto musical? Ouvindo?

 

R - Olha, isso foi... Eu via o Lucilo tocando, ele e o irmão dele, um cavaquinho muito afiado. Eles tocavam na cidade, eu fui apreciando e aprendi de ouvido, não por escala. Lá na usina Frei Caneca tinha um salão muito grande, fizeram um carnaval lá. No carnaval - chama-se Jaze, a banda - e tinha o filho do sargento, era muito meu amigo, tocava um sax, o “bicho” era bom no sax. Fizeram lá as festas do carnaval, e o Expedito foi lá e disse: “Zezito, não gostei. Eu tenho o meu salão aqui na fazenda, vamos fazer o carnaval nosso aqui, não vamos para lá. E você é quem vai tocar”. Eu falei: “Ô Expedito, isso é cansativo, três dias de carnaval”. Eu tinha a bateria lá, tudo certinho.  “Vamos tocar” e foi assim que comecei a tocar. Chegou um colega meu, José Maria, tocava um cavaquinho muito bem e me ajudou bastante nessa parte, aí era cavaquinho, violão... Chegou o Antônio, veio com clarinete e acabou de completar. No último dia de carnaval saíram de lá, o usineiro chama-se Gustavo Jardim da Silveira Barros... Está fechada, ele tem uma usina aqui no interior de São Paulo, hoje está fechada. Mandou aquele telefone de “vrum-vrum-vrum”, telefonou para lá mandando acabar porque lá no outro salão da usina “morreu”, não chegou quase ninguém. Lá era cobrado um valor “x”, profissionais. E lá na fazenda tudo era de graça, então o pessoal veio. Tinha bastante, eu falei: “Eu quero é vender cerveja, bebida no botequim lá”. E foi assim, três dias de festa de carnaval, meu dedo virou um calo de tanto tocar. E tocava a Vassourinha, você sabe o que eles queriam de carnaval lá? É só marcha e o escambau, tocava o que dava na frente, da meia-noite pro dia, tudo valia. Aí, pronto. No último dia de carnaval ele mandou fechar e fomos pra lá, lá para o salão na usina. Chegamos lá e completou. Aí o Felício: “Eu quero ver você tocar”. Peguei o violão dele, o violão elétrico - o meu era comum, o meu pai comprou pra mim - eu peguei esse violão dele, rapaz, fiquei encantado. O irmão dele pegou o cavaquinho dele e tocou “Brasileirinho”, e eu caí em cima. “Mas como é que você toca?” “Eu toco assim, eu aprendi assim, não sei tocar por escala, porque a letra é diferente, tocar por escala é diferente”. Depois aprendi um pouquinho, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, eu aprendi, mas foi de ouvido, eu aprendi por ver e aprender. E eu tenho um irmão que é bom nisso, mora lá em São Bernardo, o (Adelcio?).

 

P/1 - O senhor chegou a fazer uma serenata?

 

R - Eu toquei muito. Tocava com os amigos, mas depois de 89 pra cá, morreu tudo isso para mim, morreu tudo. A Congregação tem uma orquestra muito boa, vocês estão convidados para ir e ver como é uma orquestra bonita essa da Congregação. Para mim é a melhor orquestra que tem no Brasil, não sei falar de outros países, mas que é boa, é. Para mim é boa. Eu gosto de cantar os hinos de louvor a Deus e eu estou lá, eles falam para mim: “Irmão, eu quero ver você cantando”, pela voz, por tudo, pelo acompanhamento da letra. Tudo é pela letra, então. É muito lindo, muito lindo. E eu vou deixar o convite para vocês comparecerem para ver como que é. Essa terça-feira um testemunho de uma irmã, olha como são as coisas. Posso contar?

 

P/1 - Claro.

 

R - Uma irmã nossa na fé, sofreu 16 anos com o marido, ele batia nela. As irmãs iam lá visitar ela, e por elas serem crentes, ele colocava para fora, batia a porta: “Não quero, não gosto de crente”, discutia com a mulher, batia nela. No no dia 16 de janeiro eles viajaram para Fortaleza, ele falou para a esposa: “Eu vou visitar a minha família, ponha um terno na nossa mala”. Ela é da minha Comuna, ela contou esse testemunho terça-feira agora, lindo, precisa ver. Ela pôs o terno. Chegou lá em Fortaleza, tinha um culto na central da Congregação. E foi sobrinho dele, a família foi lá naquela Congregação porque tinha um da família que era membro. Ele também foi, pôs o terno dele e foi. E ela contou - ela contava chorando, o testemunho dela - e depois ele acabou de completar. Vai chegando lá, um ancião, saiu daqui da Vila Ré, não sei se vocês conhecem a Vila Ré, fica na Zona Leste de São Paulo, no metrô Patriarca. Começou o Santo Culto e o ancião daqui foi daqui de São Paulo para lá fazer o batismo, lá em Fortaleza. Então, chegando lá, quando dá de cara, está lá o irmão Neném, José. Ele não aguentou, desceu um sobrinho dele e ele desceu as águas do Santo Batismo, se batizou. Dia 20 desse mês.

TROCA DE FITA

R - Então, ela contando no testemunho dela. E desceu o sobrinho, quando ela pensou que não, o esposo estava descendo as águas do santo batismo. O irmão Neném disse: “Olha, veio lá de São Paulo, veio obedecer aqui no Ceará”. Ele contou para mim a história dele. É duro, viu? Se levantar no meio de mil pessoas que tinha nessa terça-feira, mais ou menos, 900 a mil pessoas dentro da Congregação, se levantar e dizer: “Até o mês passado eu detestava crente, eu jogava água, sujeira em crente na minha porta. E a partir de agora a minha esposa vai ter sossego, porque o Senhor me provou, o Senhor mostrou que está no meio desse povo porque a minha esposa pegou uma enfermidade de repente, uma dor em uma perna, e uma coisa falou para mim que eu tinha que deixar as irmãs virem orar por ela na minha casa, uma coisa falou para mim. Eu falei para ela: ‘Por que você não convida as irmãs para orarem por você, porque os remédios que você toma não resolvem nada. E uma coisa me diz que você tem que chamar as irmãs para orarem.’ Ela disse: ‘Você não quer que elas venham na minha casa’ ‘Mas eu estou mandando você trazer elas, pra elas orarem por você’. Ele diz que ela convidou as irmãs, as irmãs foram, chegaram lá, apanharam o véu e foram orar. Aí Deus tomou uma daquelas irmãs, falando em evidência em novas línguas, um inglês que ninguém entende, novas línguas. E falava dessa maneira. “Aqui nessa casa hoje está quebrando o encanto de Satanás. E aquele que não gostava de crente, a partir de hoje vai gostar de crente, vai amar. E também vai ser uma ovelha do Senhor, porque ninguém pode abafar o intento de Deus’. Aquela irmã dizia falando em línguas, e ele escutando aquilo. Fizeram a oração, se despediram, foram embora. Com três dias ele diz que olhou para a esposa e a esposa não estava sentindo mais nada. “E os remédios que o médico passou, eu gastei muito dinheiro e vai ficar tudo perdido?” “Tudo perdido, não estou sentindo mais nada”. Ele disse: “É impossível”. Uma voz falou para ele: “É impossível? O que é difícil para a mão do homem, não é difícil para Deus. Mesmo que um esteja nas profundezas do inferno, eu vou lá buscar, é meu, eu tenho o poder de ir lá. E você tem?” “Não tenho”. Foi assim. Ele disse que ali ele tirou a dúvida dele de que Deus estava no meio desse povo. Viajou para lá e quando chegou foi obedecer (risos). Tanto batismo que tem aqui no Brás, perto de onde ele mora, na Cidade Tirandentes, ele não se batizou aqui e vai se batizar lá no Ceará. É o que Deus determina, entendeu? Muitas vezes quem vem do Paraná - lá tem bastante templo também - vem se batizar aqui no Brás. E outros saem daqui e vão se batizar lá. Por que? Tudo é caminho de Deus na nossa vida, você tem um caminho traçado por Deus, você não sabe o dia de amanhã, porque o dia de amanhã pertence a Deus. Você faz um plano para amanhã, entendeu? Nós fizemos um plano para amanhã, mas não sabemos o que é que vem, só Deus o sabe. Tá bom?

 

P/1 - Bom, seu José, então, nós gostaríamos de agradecer muito a entrevista que o senhor nos concedeu aqui. Acho que a gente poderia ficar realmente o dia inteiro, né? E até proponho, se o senhor quiser voltar outro dia também para continuar. Porque você sabe, é como o senhor falou, semana que vem o senhor vem contar outras histórias ainda.

 

R - Então, vamos narrar uma coisa. Vamos ver se vocês entendem. Eu peço a Deus felicidade, licença a João Vieira, por ser o dono da casa e chefe da brincadeira, para saber se Monteiro é segunda ou és primeira. Outro disse, eu sou cantor de reguenteira e não enjeito questão, e na madeira poética eu vou te dar uma lição, sou seca pelo inverno e chuva pelo verão. Mas você vem com malcriação, cantor péssimo ignorante, porque de tua cultura desse uma prova elegante. Se o povo deixar eu dou-te uma surra na fragrância. É muito fácil o elefante ter curso de delegado, jacaré deixar o rio e ir à praça ser soldado. Um timbu ser senador e um macaco deputado. É muito fácil um veado ver cachorro e não correr, mas é muito fácil um peixe dentro d’água, ele nunca vai se perder. Quem é esse peixe? Volto, ou fico? Quem é esse peixe? Então, são lendas, poesias proféticas, profecias, que só Deus dá. É como o repentista, você conhece o repentista? O repentista pega uma viola e faz verso, passa uma noite, passa um dia. Um cantor que já morreu, esse morreu, ele cantou com o diabo. Além disso era cego, Ederaldo, um baiano. Cantou três dias e três noites, ninguém convencia. Mas o adversário chegou, que é inimigo nosso, aquele que é inimigo nosso é inimigo de Deus. Ele começou a cantar: “Nessa casa todo mundo vai, todo mundo vai”. Mas uma criança chegando meia-noite foi olhar para debaixo da mesa e viu o pé daquele homem, um pé de pato, um pé de pele. Aí o menino correu e falou pra mãe: “Mãe, aquele homem tem um pé de “péia”. Ela foi, olhou e disse: “Estou vendo”. A mulher correu e chamou o esposo, que aquele homem que tá cantando tem um pé de “péia”. Eu me arrepiei todinho, Santo é o Senhor. O esposo pediu uma pausa, eles deram uma pausa, e o ceguinho não se entregava, não. E aquele cantor ali, a desafiar, cada pergunta era uma resposta. Mas quando o esposo fez aquela pausa, chamou o ceguinho Everaldo e conversou no ouvido dele, contou para ele. O ceguinho Ederaldo levantou a cabeça e disse: “Eu sei, eu sei que eu estou cantando com o diabo”, aí retornaram a cantoria e quando retornou a cantoria, eu não sei o dia de amanhã. Eu sei o dia de hoje, até agora, daqui para frente eu não sei, só Deus o conhece e sabe. Mas retornaram a cantoria, o cego Ederaldo pegou aquela viola e cantou dessa maneira: “Assim eu vou começar uma cantoria para que todos conheçam e chegue na sua mente o que está acontecendo três dias e três noites. Eu canto aqui todo o tempo que Deus mandar”. Ele virou e disse: “Que Deus é o teu que eu não conheço o teu Deus?”. O ceguinho Ederaldo cantou assim: “Senhora dona da casa, pega o fósforo e acenda a luz que estamos com cão em casa. Pegue todos a rezar o Credo em Cruz”. Começaram. Ele se levantou e disse: “Eu não aceito essa cantoria” “Se você não aceita essa cantoria você já perdeu. Se levante e vá embora que aqui não é lugar teu”. Trinta por dez amarrado. Ali, na saída da porta, aquele bucho explodiu, o cheiro que recendeu ali, naquele recinto, era enxofre puro. E por isso saiu uma lenda que o cego Ederaldo cantou três dias e três noites com Satanás. São coisas que eu li, isso aí eu li, a história dele todinha. E gravei na mente, né?

 

P/1 - Parece aquelas histórias de cordel, né?

 

R - Justamente, justamente.

 

P/1 - Interessante.

 

R - São muitas histórias que o pernambucano tem (risos).

 

P/1 - Maravilha. Maiara, você tem alguma pergunta?

 

P/2 - Não.

 

P/1 - Então, gostaria de agradecer. Muito obrigado seu José. Obrigado e fica o convite, se o senhor quiser voltar, ok? Muito obrigado.

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