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Desistir, jamais

História de: Dilma Campos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/07/2021

Sinopse

Lembranças de uma infância ativa. Casamento aos 20 anos. Faculdade de Odontologia. Trajetória de ir dos palcos, das apresentações de dança, para atrás dele, fazendo produção de eventos. Desafios de começar a empreender sendo uma mulher negra e sem muitas referências, na época, de outras mulheres negras na área de comunicação. Nascimento e crescimento da sua empresa “Outra Praia”. Experiência no programa “Winning Women”, da Ernst & Young. Volta ao palco para inspirar outras mulheres através de sua trajetória de vida. Planos para o futuro.

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História completa

P/1- Dilma, pra gente começar, eu gostaria que você começasse se apresentando, dizendo o seu nome completo, data e local de nascimento. 

 

R - Eu sou Dilma Helena Nascimento de Souza Campos. Na verdade, nasci Dilma Helena Nascimento de Souza e, quando me casei, agreguei o Campos. Então fiquei, realmente, com esse nome enorme. Mas também achei que era nome de princesa, então se princesa tinha nome comprido, eu poderia ser exatamente (risos) uma princesa. Eu sou uma pisciana, que nasceu no dia dez de março de 1971. Eu nasci em São Paulo, capital.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais? 

 

R - Bom, Dilma é filha de Valter de Souza e de Maria Helena Nascimento de Souza. Eu também tenho dois irmãos: Valter Antonio Nascimento de Souza e Paulo Renato Nascimento de Souza. Óbvio que eu não chamo nenhum dos dois pelo nome, mas sim por Valtinho e Paulo.

 

P/1 - E como você descreveria seus pais?

 

R - Olha, eu sempre digo que eu acredito que a gente escolhe a família que a gente nasce. Então, eu nasci numa família onde os meus pais sempre acreditaram muito que a gente podia mais. E eu acredito que, quando você tem pais que acreditam que você pode mais, é porque eles, talvez, enxerguem em você, coisas que naquele momento você não esteja enxergando. Mas crescer nesse ambiente onde eles exijam mais de você, mas não é só o exigir, é de fato acreditar que você pode mais, faz muita diferença. 

 

P/1 - E você sabe como eles se conheceram?

 

R - Ah, os meus pais estudaram juntos. E eles estudaram juntos na época do ginásio, se eu não me engano. E aí foram dois caminhos. A minha mãe acabou se formando e o meu pai, que inicialmente começou jogando futebol, foi pro basquete e foi jogar basquete e trabalhar.

 

P/1 - E o que os seus pais faziam? Com o que eles trabalhavam?

 

R - Bom, a minha mãe sempre trabalhou muito e trabalhou muito no lar. Então, toda a administração da casa, dos filhos, de educação dos filhos, isso sempre ficou com a minha mãe. E o meu pai foi representante comercial. Então ele foi representante comercial de roupas femininas, mas o meu pai era um grande vendedor, assim, tem uma história bem interessante. Nunca havia vendido nada, mas a partir do momento que aprendeu a vender, virou um grande vendedor.

 

P/1 - E o que ele vendia?

 

R - Ele vendia, na verdade, moda feminina. Então, ele vendia para grandes magazines que compravam, como Lojas Marisa. E aí ia lá, apresentava pras compradoras, representando as fábricas. E aí fazia a venda e ganhava comissão da sua venda.

 

P/1 - Dilma, os seus pais nasceram em São Paulo?

 

R - O meu pai nasceu em São Paulo, capital. E a minha mãe nasceu no Espírito Santo, em Vitória. E depois veio pequena aqui pra São Paulo. E acabaram se conhecendo aqui em São Paulo.

 

P/1 - E você conhece a histórias dos seus avós?

 

R - Sim. Eu tive a chance de conviver com os meus quatro avós. Os avós, pais dos meus pais, que era o avô Toninho e a avó Lurdes. Então a gente chamava de vovó Lurdes e vovô Toninho. E eles moravam, inclusive, na mesma rua que a gente, então era uma diferença ali de dois quarteirões até a casa dos meus avós, pais do meu pai. O meu pai teve um irmão, Leonel de Souza que foi, inclusive, um jogador de futebol, assim, que teve sua fama, acabou jogando no Corinthians uma época. E eu não acabei conhecendo, porque ele faleceu, assim, logo que a minha mãe havia se casado. Eu não me lembro se era um pouco antes ou um pouco depois, mas esse meu tio faleceu, então eu não tive a chance de conhecer o tio Leonel, mas sempre foi muito presente o nome dele na família e a história dele. Minha mãe contava muito essa história. Até mais que o meu pai. E a gente teve chance de conviver. O meu avô acabou falecendo quando a gente era pequeno, o pai do meu pai. A minha avó Lurdes bem mais tarde. E também tive a chance de conhecer os pais da minha mãe, que era avó Argemiro, Argemiro Nascimento, então vovô Argemiro. E vovó Dilma. Eu sou Dilma por conta da minha avó. Então, eu sou Dilma por parte da minha avó e Helena por parte da minha mãe, por isso eu sou Dilma Helena.

 

P/1 - E vocês tinham algum costume, seja de alimentação, tem algum cheiro, algum sabor que você lembra da sua casa?

 

R - Olha, tinham sim alguns costumes, inclusive que faziam a gente viajar um pouco mais pra fora de São Paulo, porque o fato da minha avó ser do Espírito Santo, ela fazia moqueca capixaba, fritada capixaba. Mas também fazia um ótimo macarrão com carne assada. E quando a gente era criança, tinha o hábito de almoçar na casa da minha avó Dilma. Já a minha avó Lurdes, ela fazia uma dobradinha incrível. Então, é bem comida brasileira. Fazia uma dobradinha incrível, que depois a minha mãe passou a fazer, com o passar dos anos. Mas era uma dobradinha assim tão incrível que, às vezes, as pessoas chegavam em casa e, às vezes, vinha amiguinho do colégio: “Nossa, que cheiro bom, tia, o que é isso?”, aí a minha mãe falava: “É strogonoff” e a pessoas comia a dobradinha (risos). Estou confessando aqui, mãe, desculpa (risos), como se fosse um belo strogonoff.

 

P/1 - E a relação com os seus irmãos, como era, na infância?

 

R - Bom, a relação com eles... Eu sou a menina, a única menina da família e a menina do meio. Então eu falei, desde cedo eu precisei sobreviver. Não teve jeito. E eu acabei ficando a mais baixinha da família, então o meu irmão menor, que é dois anos mais novo que eu, depois de um certo tempo ele já ficou maior que eu. Então, ele era muito maior do que eu. Uma família que vem do esporte é uma família competitiva. Então, a questão da competitividade era uma coisa presente. E a minha mãe conta que: “Dilma, vai pegar a boneca”, a boneca era pra fazer carrinho “ooommm”, porque eu vivia com os meninos. E a história deles fazerem esporte, de jogarem, enfim, futebol, basquete, tinham essa habilidade, essa aptidão, obviamente fazia com que eles tivessem muito mais amigos do que eu. E isso foi muito engraçado, porque você convive com dois irmãos e convive com uma turma de meninos, onde a minha mãe falava: “A hora que eu via, o vestido já estava dobrado dentro da calcinha, correndo pra jogar futebol”. Então, eu sempre conto isso, que quando eu comecei a fazer ginástica olímpica, quando eu era pequena, que a gente não tinha a opção de não fazer esporte na família, tinha que fazer um esporte. Mas logo na ginástica olímpica, quando eu comecei a fazer, a professora chamou a minha mãe e falou: “Então, a gente precisa pôr no balé, pra dar mais graciosidade pra menina” (risos). Mas é muito disso, dessa formação. E eu nunca tive habilidade e, assim, aptidão como os meus irmãos, com bola, nunca consegui desenvolver. “Ah, jogou vôlei?”, joguei, mas nunca era uma aptidão, assim, porque eles, realmente, eram muito bons. E eu não era boa.

 

P/1 - Então você foi pro balé por causa da professora de ginástica?

 

R - Exatamente. Eu fui pro balé por conta da professora de ginástica olímpica. Eu, na época, fazia ginástica olímpica num clube chamado Hebraica. Eu era da equipe do Mirim C. E aí eu posso até dizer que na ginástica olímpica eu não me saí tão mal, eu fui campeã estadual, do estado inteiro, no Mirim C. Mas isso faz muitos anos. Imagina, eu tenho cinquenta, faz muitos anos. E aí, por conta de estar indo bem na ginástica olímpica, a professora indicou que eu fizesse dança. Então, a minha mãe me levou pra uma academia perto de casa e eu, ali, comecei a fazer dança. Mas no primeiro momento era muito estranho pra mim, porque existia uma delicadeza nos movimentos, que não era peculiar do meu desenvolvimento, vamos chamar psicomotor, né? (risos). E que eu precisei aprender. Mas aquilo que eu entrei odiando, foi incrível, porque passou a ser meu mundo. Eu digo sempre que a dança passou a ser a minha concha, um lugar muito especial pra mim. Inclusive, o lugar pra onde eu pudesse me esconder, onde eu conseguia me bastar, de não precisar criar amizades e ser, enfim, uma pessoa extrovertida. Ali eu podia ser, e descobri isso muito cedo, muito quem eu era.

 

P/1 - Eu queria saber se você lembra da sua casa de infância?

 

R - Nossa, me lembro, sim, da casa de infância. Primeiro que foi uma casa que ficou a vida inteira em construção, basicamente, desde que a gente morava lá. E os meus pais contam uma história interessante com a casa, porque eles compraram essa casa, então a gente morava muito perto dos meus dois avós, um era dois quarteirões, o outro eram cinco, seis quarteirões. Eram duas ruas paralelas, exatamente na mesma direção do meu avô, dos meus pais, só que em ruas paralelas, ali onde a gente morava. E a minha mãe conta que essa casa que eles compraram, era uma casa como se fosse um pensionato, cheio de salinhas e tal. E aí eles tiveram uma super dificuldade na hora de passar a escritura, porque era uma casa que as pessoas davam o sinal, compravam, mas depois não conseguiam passar a casa pro nome delas e aí perdiam todo o dinheiro. Então, foi super difícil de conseguirem, depois de dar entrada na casa, pagar a casa. Uma casa financiada, bem essa história de conquista da casa própria e tudo o mais. E a minha mãe também conta que eles começaram a reformar a casa. Então eles também pagavam dinheiro pra reforma, porque tinham contratado lá um amigo do meu pai. E também tudo dava errado, porque não viam a casa terminar. E aí um dia o pedreiro chegou pra ela e falou: “Olha, moça, a gente vai quebrar toda essa escada que a gente fez, porque a gente não recebeu”. E ela: “Mas como não recebeu? A gente pagou a semana! A gente pagou. A gente pagou pra pessoa, isso. E como é que você vai quebrar?” “Não. Vou meter a marreta”. Assim, eu sei que ela saiu correndo pra contar pro meu pai: “Valter, volta pra casa porque estão querendo quebrar aqui a escada que já está construída!”. Então aquela coisa que você sabe que ficou muito tempo, assim. E aí a gente mudou pra casa, a casa estava em construção. Então, a gente dormia em colchão no chão. E aí construía uma parte. Então eu tenho muito essa lembrança da casa ir construindo pouco a pouco. E uma grande lembrança que eu tenho é que, durante algum período da casa, se não foi quase todo, tinha um chão de cimento queimado verde. Então, era um chão, assim, de cimento queimado. Aí depois trocou. Aí conforme vai passando o tempo, aí já virou chão em cima de madeira, embaixo tinha cerâmica. E foi indo, porque a casa era toda por compartimentos, eu sempre digo assim, ela era uma casa fininha. Hoje já nem existe mais essa casa, construíram um prédio ali. Foi um bairro que a gente nasceu, que chamava Vila Pompéia, mas hoje as pessoas chamam de Perdizes, porque ficou chique o bairro, ficou bem chique. E a gente morava na Rua Cayowaá. O número era Cayowaá, 886. Cayowaá, 886. E hoje é um prédio. Não tem esse número, mas hoje virou um prédio. Aí toda vez que eu passo lá com a minha filha, eu falo: “Filha”, ela fala: “Já sei, a mamãe morava aqui” (risos).

 

P/1 - E quais eram as suas brincadeiras favoritas? Vocês brincavam na rua? Era possível?

 

R - Nossa, era muito possível. A gente andava de carrinho de rolimã, num lugar chamado Buracão, por que o que aconteceu nesse quarteirão, onde a gente morava? Havia um rio que tinha sido canalizado. Quando eu era pequena, eu lembro exatamente do rio, porque a gente morava no mesmo lado que moravam os meus avós. E, na casa dos meus avós, quando você ia até o fundo do quintal, passava um rio, quando a gente era pequena. Já a dois quarteirões acima, que era a casa da minha mãe, o rio estava encanado, então você não via. Então tinha como se fosse uma rua entre os dois lados do quarteirão. O quarteirão era quadrado, como se no meio do quarteirão tivesse uma rua e a gente, não sei por que, chamava aquilo de Buracão. Já deveria ter esse nome. Então a casa da minha mãe tinha a entrada e a porta do fundo do quintal dava pra essa rua. E ali a gente fazia, andava de carrinho de rolimã, construía, pintava. Tinha amarelinha pintada no chão. Tinha quadrinha de futebol. Então sempre tinha coisa ali, acontecendo. Mas a gente foi de ficar na rua, mesmo na parte da frente, ficava sentado, conversando. Ou, se plantava qualquer coisa no quintal, vinha vender. Uma época a gente resolveu que ia plantar. Eu resolvi que ia plantar alface. E aí joguei a semente lá, que era uma terra que tinha no fundo do quintal. Menina, deu muita alface, cada pé de alface de um metro e vinte, assim. A gente nem sabia que alface crescia. Morava na cidade, não tinha noção como era a alface, assim. Mas essa coisa de incentivar, dos meus pais: “Não. Quer plantar alface? Vamos plantar aqui, ó” “Agora eu vou vender” “Está ótimo”. Então, punha lá a bancadinha na frente do portão, punha a alface e vendia lá o pé de alface por centavos, mas a diversão era vender isso. E brincar com isso. Mas a gente sempre teve uma vida, assim, muito regrada de horário. Então tinha a escola de manhã, depois tinham os treinos no caso dos meninos, eu tinha a ginástica olímpica, eu tinha o balé. E aí tinha que estudar pras provas. Então não tinha esse tempo todo só de brincadeira, do momento. Aí tinha que sentar e fazer lição. A minha mãe, os meus pais, mas a minha mãe era muito rígida. Ela acreditava, realmente, na transformação através da educação. Então como os meninos foram bolsistas, a gente acabou saindo do José Candido de Souza, que carinhosamente a gente chamava Candinho, que fica ali na Rua Diana, Escola Estadual José Candido de Souza. E a gente foi, primeiramente, pro Colégio Anglo Latino, que ficava na Aclimação. Então, outra zona, outra região, demorava muito pra chegar e muito pra voltar. Isso é uma lembrança muito clara da gente saber que a gente viajava pro colégio e voltava viajando do colégio. Mas os meus pais acreditavam, justamente, que era a oportunidade deles, ali, conseguirem dar pra gente uma educação melhor e foi assim que foi. Então a gente não tinha esse tempo de: “Ah, vou almoçar, vou brincar, vou descansar”, não. Era almoçar e já vai pro esporte, já vai pro treino. E eram horas treinando, mesmo pequeno, não era uma coisa assim, foi uma horinha de natação e pronto. Tinha natação e depois tinha o treino e depois tinha duas horas e tanto de basquete, uma hora de balé e aí tinha a ginástica olímpica. E aí voltava, a minha mãe pra buscar os meninos. Então, sempre tinha essa vida que a gente sabia, assim, super regrada. E aos finais de semana também, porque as competições eram aos finais de semana. Então todo sábado ou todo domingo tinha competição e tinha que ir a família inteira. A família inteira levantava, mesmo se você não tinha nada pra fazer lá, são eles que vão jogar: “Não, vai todo mundo junto”. Então acordava muito cedo pra ir assistir aos jogos, pra voltar. E assim, não tinha muito essa coisa de: “Ai, coitadinho, está com febre” “Está com febre? Vai jogar. Febre não mata ninguém”. Então, era muito, tinha essa coisa que, ao mesmo tempo, era: “Acredito em vocês e vocês podem ser o que quiserem, mas pra ser o que quiser, vai ter que trabalhar muito pra isso”.

 

P/1 - E você tem alguma lembrança do colégio Candinho?

 

R - Tenho. Do Candinho eu tenho uma lembrança muito bacana, que tinha uma festa junina muito legal. Mas, assim, era uma festa junina muito bacana. E eu tenho essa lembrança da festa junina muito clara. Eu tenho a lembrança de fazer aula de artes com dois pauzinhos que a gente usava pra dar ritmo na mão e que aí a gente brincava com a companheira ou com o amigo, que você batia e batia no dele, assim. Isso é uma lembrança muito gostosa. Sabe que esse final de semana a gente comemorou o aniversário da minha mãe. E eu fui buscar um bolo num lugar que existe em São Paulo, chamado A Quituteira. E elas estudaram com a gente no Candinho, as duas meninas. E aí, conversando com a Meira, a conversa era justamente essa: “Ah, mas os seus irmãos? E a sua irmã? Quem casou? Quem não casou”, assim, sabe? Numa lembrança muito antiga, porque eu acho que essa A Quituteira existe há, também, milhões de anos, sabe? (risos) E aí a gente conversando sobre isso, eu falei: “Poxa, eu vim buscar o bolo, que é aniversário da minha mãe. E a minha mãe queria exatamente o bolo da Quituteira”. Então, essas lembranças que vão, realmente, constituindo a vida da gente.

 

P/1 - E como foi essa mudança de escola?

 

R - Ufa. A mudança de escola não foi fácil, não. Eu sempre falo que, no primeiro dia de aula, eu aprendi três coisas, na nova escola. Óbvio que não foi nesse momento que eu entendi que eu aprendi três coisas, foi muito mais tarde. Mas eu entendi que eu era uma mulher preta. Porque quando você vai pra uma escola que só tem três pessoas pretas, você é muito diferente. E no Candinho eu era igual, eu era igual a todo mundo, então não tinha essa diferença. A segunda coisa que eu aprendi é que eu era uma pessoa pobre. Mas quando eu perguntei pro meu pai: “Pai, a gente é pobre?”, ele falou: “Quem disse isso?” Eu falei: “As meninas da escola”. Porque criança também tem essa questão, vamos jogar assim, do humor, do colocar aquilo que aprendeu em casa, também. E o meu pai disse: “É o seguinte: aqui ninguém é pobre, porque pobre é quem é pobre de espírito. Nós somos pessoas simples”. E isso fez muita diferença. Porque todo mundo que chegava pra mim e falava: “Está vendo o seu sapato? É porque você é pobre”, eu falava: “Pobre é você, que é pobre de espírito”. Então foi o primeiro escudo, eu acho, assim, que eu criei mudando de colégio. Mas eu descobri uma coisa incrível, que a Disneylândia existia. E eu descobri exatamente quando eu mudei de colégio, porque onde eu estudava a gente assistia à tarde - quando estava de férias, que tinha um tempinho, ou até de manhã quando acordava - o clube do Mickey e aí você via a Disneylândia, o castelo, mas aquilo pra mim era um sonho, eu achava que aquilo não existia, que era coisa da TV, do cinema. Mas eu comecei a ver foto das meninas do lado do Mickey. Aonde? Na Disney. Então, pra mim, era uma coisa que assim: “Pai, a Disneylândia existe! Podemos ir até lá, um dia?”, mesmo sem saber onde é que ficava.

 

P/1 - E teve algum professor marcante nessa época?

 

R - Nossa. Olha, teve uma professora muito marcante, de Matemática, que era uma professora chamada Masako. E a Masako que dava aula de Matemática no Anglo Latino, ela dava no caderno da gente uma coisa que ela chamava de biscoito. Ela fazia um desenho com um lápis de cera em cima da lição que você fazia e ela chamava aquilo de biscoito. Então se você fizesse a lição e fosse certinha, ela dava biscoito. Aquilo, realmente, na primeira, na transferência de colégio ali que gente fez, foi muito marcante essa professora pra mim. Era uma coisa muito instigante essa coisa da conquista da Matemática.

 

P/1 - Dilma, nessa época você ainda dançava, fazia balé?

 

R - Sim. Eu fiz balé muitos anos da minha vida. Eu fui parar de dançar depois dos 22 anos, acabou virando a minha profissão. Então eu virei bailarina. E como bailarina, eu comecei a olhar o mundo também de forma diferente, porque a gente tinha a chance de viajar dançando. Então você tinha lá o Festival de Dança de Joinville, que é super famoso, então eu fui pra esse festival de dança e dancei. E lá vinha gente quase que do Brasil inteiro, então você ia conhecendo primeiro outros sotaques, outras culturas, tudo olhando pra dança. Dançando também, eu tive chance de ir pra outros lugares do mundo, de viajar. Então isso foi me abrindo portas muito diferentes, assim. O esporte abriu portas pros meus irmãos. Então, assim, o meu irmão viajou acho que com doze anos, a primeira vez, pra Europa e a gente achou aquilo incrível. Ele voltou contando como foi a experiência dele. E ele foi pra países muito diferentes, assim. Ele foi pra Noruega. Ele falou que as pessoas queriam tocar na pele dele, sendo negro, porque não tinha. Então as pessoas queriam tocar na pele dele. Ele chegou contando isso. E aí a gente falava assim: “Nossa, olha como que é o mundo! Como que é longe. Mas quão longe é isso, Valtinho?” e ele: “Ai, é muito longe. São muitas, muitas horas de viagem”. Mas esse conceito de mundo, assim. O meu pai também, como esportista, teve chance de viajar e a minha mãe fez algumas viagens acompanhando. Então o meu pai falava: “Agora a gente conheceu o México”, “Menina, eu estou indo pro Egito”, assim. O meu pai foi uma pessoa que foi pro Egito, foi pra Israel, através do esporte, mas ele teve chance de... Então quando vinha aquela história de que: “Nossa, tem as pirâmides, deixa eu mostrar as fotos. Eu pus a mão nas pirâmides”. Então, aquilo abria um horizonte pra gente muito grande, de conhecimento e de vontade de conhecer. E a dança, de fato, me deu essa oportunidade de conhecer outros lugares, de entender outras culturas, inclusive através de danças de outras culturas.

 

P/1 - E você falou que, quando você entrou no balé, não sei se entendeu muito bem, acho que não ficou tão confortável. Quando que você entendeu? Você consegue identificar o momento que você falou: “Aqui é meu refúgio. Aqui é minha concha”?

 

R - Eu acredito que foi… Eu me identifiquei no balé, quando eu entendi que eu era boa naquilo. Quando eu entendi que eu tinha algum talento ali. Então, por mais que naquele início eu não conseguisse ter uma graciosidade dos movimentos, isso era uma coisa que eu ia ter que trabalhar. E trabalhei muito, assim, a ponto de fazer seis horas de dança por dia. E a dança tem uma questão da repetição, pra você se aperfeiçoar, pra você chegar o mais próximo da perfeição daquele movimento. Isso é um aprendizado. Hoje a dança mudou muito. Tem outras inspirações dentro da sua formação. Mas a repetição do movimento é uma coisa que não mudou. Pra você ser muito bom naquele movimento, você tem que repetir milhares de vezes. E isso é muito claro com a dança. Existem hoje, até, técnicas criativas baseadas na repetição. Você repete tanto que você cria outro movimento. E isso você vê na ginástica olímpica, você vê na dança, você vê na escrita. Você faz tanto aquilo que você vai conseguindo desenvolver naquilo. E a dança foi assim, foi ir atrás de uma perfeição. Então no início eu não tinha, de fato, muita graciosidade. Mas eu tinha uma flexibilidade, por conta da ginástica olímpica, muito grande, então acabava compensando do outro lado. E aí você vai entendendo que, se você tem aquilo e você tem um pouco de aptidão, tem a imitação. Você começa a tentar imitar, então você vai passando por essa fase do aprendizado. E aí tem uma hora que eu acho que, quando eu já tinha ali os meus treze anos, catorze anos, eu já achava que eu sabia dançar, assim. Com quinze anos eu entrei na companhia. Então a gente era estagiário da companhia de dança. Então, você estava ali, eu já, muitas vezes, dançava alguns papéis importantes. Eu tinha sido, acho que com catorze anos, o personagem principal do espetáculo de final de ano, que chamava “Boneca Oriental”, uma coreografia nas pontas, dançando nas pontas. Então tinha ali uma coisa de destaque, assim, que você vai conseguindo. E aí, como eu falei pra você, a gente veio de uma família competitiva. Então eu nunca podia ficar atrás dos meninos, eu tinha que, ali, achar o meu lugar porque eles tinham muito sucesso e o sucesso deles era um sucesso nato. Eu tinha que conquistar alguma coisa. E aí, com quinze anos, também, eu passo a entender que aquele grupo de dança que eu tenho, fazia outras coisas, as meninas mais velhas. Então elas faziam figuração em comercial pra ganhar mais dinheiro, elas faziam eventos. E foi aí que eu comecei a entender: “Nossa, tem uma estratégia atrás da gôndola do supermercado. Que bacana! Eu quero entender mais sobre isso”. E aí, mesmo dançando no evento, eu queria ficar ali do lado, ouvindo o que aquelas pessoas estavam falando sobre as estratégias de marketing, de comunicação, que é o que eu faço hoje. Embora eu não seja formada nisso, é o que eu faço.

 

P/1 - E Dilma, como você se sentia dançando?

 

R - Nossa, eu sempre me senti muito bem. Embora eu tenha sido, em muitas salas de aula, a única menina negra dançando e isso, obviamente, gera ali uma diferença de reconhecimento, eu sempre me senti muito bem dançando. Assim, eu sempre amei o balé clássico. Depois amei o balé moderno, o balé contemporâneo. Eu fui entendendo, eu fui trocando. Mas quando eu descobri que, no mundo, tinha uma companhia de dança, onde tinha muitas pessoas negras dançando, como o balé do Harlem e uma companhia chamada Alvin Ailey, eu realmente comecei a mudar, assim, a concepção, de querer olhar outras coisas e descobrir outras coisas. Durante muitos anos a gente não falou sobre o racismo estrutural, durante muitos anos a gente não falou que o Brasil era um país racista. Isso é uma questão de muita luta, da luta de todos esses anos. Mas falar, de fato, abertamente, sobre isso, nos ambientes de trabalho, nos ambientes que a gente vai frequentando ao longo da vida, é uma coisa recente. É uma luta de falar, recente. Essa geração de hoje já vem mais empoderada, entendendo o seu lugar e entendendo que pode estar em qualquer lugar. Mas pra minha geração, não.

 

P/1  - E me conta uma coisa: como foi a sua formatura do colegial? Você se lembra?

 

R - Nossa, vamos voltar aqui no túnel do tempo. Não sei se eu me lembro muito da formatura do colegial, mas eu lembro que nessa época a gente já estudava no Colégio Objetivo, onde os meninos jogavam. Então, assim, sempre foi uma opção de onde se teria bolsa de estudos, pra continuar num colégio particular. Então todos nós fomos estudar no Colégio Objetivo. Eu me formei no Colégio Objetivo da Avenida Paulista. Eu não lembro muito, assim. Eu me lembro que foi uma cerimônia no teatro. Tinha um teatro muito grande no Colégio Objetivo, falando sobre a formatura, mas eu não tenho lembrança, assim, se teve um baile, se não teve um baile, sabe? Se teve uma festa, se não teve. Eu acho que foi uma cerimônia ali com os pais e pronto, assim. Eu não tenho muito essa lembrança, não.

 

P/1 - E como seguiu a tua formação?

 

R - Bom, depois que eu me formei, eu falo que eu virei muitas cartas do baralho. Eu acabei, depois que me formei, parando de estudar. Fiquei só com a dança. E fazendo eventos. Então eu já trabalhava. Assim, eu me formei, mas eu já trabalhava, com dezessete anos. E aí eu já ganhava o meu dinheiro. Então desde os treze anos eu já tinha cachê de trabalho. Quando eu me formei, um ano depois, eu já tinha feito, na TV Cultura, o “Rá-Tim-Bum”. E depois de formada que eu vim fazer o “Castelo Rá-Tim-Bum”, que aí eu fiz um personagem, lá na TV Cultura, no “Castelo Rá-Tim-Bum”, que foi a passarinha do “Castelo Rá-Tim-Bum”, que falava sobre os instrumentos. E foi um programa de muito sucesso. “Passarinho, que som é esse? Esse é o som do violão. Esse é som da guitarra. Esse é o som do cavaquinho”. Então eu já trabalhava, eu já ganhava o meu dinheiro quando eu acabei me formando no Ensino Médio, que hoje chama, mas que era o antigo Colegial. E aí eu continuei trabalhando com isso, com eventos, então eu fazia eventos, eu fazia figuração em comercial, em propaganda. Eu tinha a parte da dança, então a gente fazia vários outros eventos, só dançando. E com isso, eu fui ali tentando entender como eu entraria numa faculdade. Eu me casei aos vinte anos de idade. Sou casada com um dos passarinhos do Castelo, (risos) que era o passarinho do baixo elétrico. Então eu me casei ali, com dezenove pra vinte anos, nessa idade. Então eu já trabalhava, eu já tinha casa e tudo. Mas eu tinha o grande sonho de fazer faculdade. E eu não tinha, ainda, dinheiro pra fazer, por mais que trabalhasse. A gente trabalhava e sobrevivia. E, naquela época, o pouco que se podia, quando o meu marido tinha as viagens internacionais, a gente juntava um pouquinho pra que eu pudesse ir junto. E assim foi. Mas é isso que eu falo, assim: que a dança me trouxe muitas possibilidades. 

 

P/1 - E como foi esse encontro com o seu marido? Como foi o casamento? Como foi essa época?

 

R - Nossa, o músico e a bailarina. Eu sempre digo que é poesia, pura poesia. Então a gente foi apresentado por um amigo muito próximo. Na época, o Swami tocava numa banda de gafieira, paulista, chamada “Mexe com Tudo”. Foi uma banda que, na época, era uma banda que fazia sucesso em São Paulo, por conta da qualidade musical. Então os grandes músicos internacionais, quando falavam: “Ah, eu quero ouvir uma música brasileira”, eram levados lá e queriam dar canja junto com a banda. Mas, enfim, a gente foi apresentado por um grande amigo, chamado Matias Capovilla. Ele, na época, namorava até a atriz da Globo, Virgínia Rosa, que não era atriz da Globo, porque era a cantora da "Mexe com Tudo”. E entre um Natal e um Ano Novo, ele me chamava de prima, ele trabalhava comigo num musical que eu fazia, do José Possi Neto, que foi um musical também de muito sucesso, dançando, chamado “Emoções Baratas”. E aí ele falou: “Prima, o que você está fazendo?” eu falei: “Ah, eu estou em casa”, guardando essa época de Natal e Ano, que a gente não dançava nessa época, então aproveitava pra descansar. Ele falou: “Então, vamos comigo. A “Mexe com Tudo” vai tocar hoje. Uma festa lá, fechada. Vamos comigo”. Eu falei: “Ah, eu não estou fazendo nada. Vamos embora”. E acabei indo me encontrar com o Matias. E aí conheci o meu marido. E conheci e a gente já teve uma empatia, assim, de cara. E eu falo: “É paixão à primeira vista”. As pessoas não acreditam, mas com a gente existiu. E aí a gente foi se conhecendo. Namorou um pedaço de tempo, porque normalmente, as pessoas, naquela época, namoravam muitos anos, pra casar e tudo o mais. E a gente namorou um ano e pouquinho e já acabou casando. E aí o meu pai fez a festa de casamento, que por mais que eu não quis: “Pai, não vai fazer isso, pelo amor de Deus. É muito dinheiro” e tal, ele falou: “Olha, se você quiser, você casa e você viaja, mas eu e a sua mãe, nós vamos fazer a festa. Então se você não quiser vir, não precisa. A gente faz a festa e vocês podem ir embora”. E aí foi uma festa muito bacana, com banda tocando, com muita música, muita dança. Então eu falava assim: “É o grupo dos bailarinos e o grupo dos músicos. Os bailarinos na pista e os músicos em cima do palco, tocando”. Foi bem assim. E já são, aí, trinta anos de casada. Então, às vezes, as pessoas falavam assim: “Ai, mas você casou. Sua vida acabou”. E eu falei: “Ah, não sei. Eu não estou pensando exatamente assim, que a minha vida acabou depois que eu casei”. Mas uma grande parte da minha vida começou a acontecer depois que eu casei. Assim, o Swami sempre me estimulou. “Agora eu quero estudar”, “Vai!”. “Agora eu quero fazer pós-graduação”, “Vai!”, “Agora, eu acho que eu vou fazer um MBA”, “Vai!”. Assim, nunca teve um: “Ah, acho que você tem que ficar em casa”, assim. Nunca foi assim a nossa relação. Ele também viajava muito. E eu me lembro quando eu engravidei, eu tenho uma filha de dezoito anos hoje e quando eu engravidei, assim, ele recebeu uma grande proposta, assim, pra tocar com uma cantora cubana, do “Buena Vista Social Club”, que é um grupo cubano também muito famoso, a Omara Portuondo. E ele falou: “E agora? Você está grávida. Como é que a gente vai fazer? Eu vou ali só fazer um evento com ela, dois, três espetáculos por conta do disco e volto”. E eu falei: “Não. Tem que ir mesmo. Não tem que ficar aqui preso”. E aí eu lembro que ele foi, ele voltou, ele falou: “Então, agora ela me chamou pra fazer a turnê inteira com ela. E o que a gente faz? Você está grávida. A Helena vai nascer”. A gente nem sabia que era Helena, nessa época. E aí eu falei: “Não. Tem que ir”. Então, assim, a gente sempre foi muito companheiro.E estimulou muito ao outro, o que fez com que os dois crescessem muito, assim, que a gente tivesse uma história antes de se casar e depois uma história que continuou se construindo e crescendo, através do amor, do companheirismo. Essa coisa de você torcer pra que o outro desse certo, torcer pra que ele, sabe? Para que ele tivesse sucesso, assim, sempre foi muito da nossa história. 

 

P/1 - E dessa época do casamento, que trabalhos você lembra que tenham sido significativos, assim? Teve algum? Ou alguns?

 

R - Ah, não. Teve. Teve o “Emoções Baratas”, que foi esse musical do José Possi Neto que, assim, não existiam musicais em São Paulo. Então esse é um dos primeiros, assim, precursores mesmo, da cidade mais musical do Brasil, que é São Paulo. E o Possi era um super diretor, assim. Então, eu tinha, nessa época, dezesseis anos. Eu estudava, eu já trabalhava, eu ganhava o meu salário. Eu me lembro que eu tinha até a minha carteira assinada, com quinze pra dezesseis anos, pra fazer esse musical. E tinha também autorização da minha mãe pra poder viajar, e dos meus pais, pra poder viajar. Depois disso veio um segundo musical do Possi, chamado “Mucho Corazón”, que era um musical de músicas cubanas aí, também, que fez muito sucesso e que foram, assim, pontos marcantes da minha carreira. Assim, tem que falar sobre eles. Às vezes eu acho que... Às vezes eu falo até pouco sobre eles. E logo em seguida veio o “Castelo Rá-Tim-Bum”. A gente tinha feito alguns quadros pro Castelo, que era a Caixa de Música, a Pianola, que são as notinhas musicais. E aí depois veio o convite pra fazer a Patativa, junto com a Ciça Meirelles, do Castelo e que era justamente isso. Então isso tudo foi se somando e vai se somando. Então, às vezes, as pessoas me perguntam: “Ai, estou com vontade de mudar a minha vida”, e tal. Eu falo: “Ah. Eu já mudei tantas vezes”. Já recomecei tantas vezes, tantas coisas, assim, eu não tenho muito... Carreira é aquilo que a gente constrói a vida inteira, assim, desde que a gente nasceu. Então eu não tenho muito isso. E tudo faz parte do aprendizado, assim. Aprendi muito com a dança. Aprendi muito com esses musicais. Aprendi muito com amigos, com grandes diretores. Aprendi fazendo um pouco de televisão. Então eu fui fazendo um monte de coisa. Aí vim aprender com eventos. E aprendi grande parte da minha vida, com eventos, o que era comunicação e tudo o mais.

 

P/1 - E como você foi pra faculdade? Como foi escolher o curso?

 

R - Olha, (risos) o meu pai, o grande sonho do meu pai é que a gente fosse pra faculdade. Assim, do meu pai e da minha mãe. Então a gente é a primeira geração, ali da família do meu pai, a ir pra faculdade. E também da família da minha mãe, a gente faz parte dessa primeira geração aí, que foram os filhos dos meus avós, que tiveram filhos que foram pra faculdade. Então o meu pai sempre falava que: “Olha, o meu sonho é que eu forme na faculdade os meus três filhos”. E aí ele falava: “Dilma, você gosta de estudar e tal. Volta pra faculdade. Você também sempre quis fazer faculdade. Onde ficou esse sonho da faculdade?” “Ah, pai, mas eu comecei a trabalhar. Me casei. Enfim, estou sobrevivendo. Tenho o meu dinheiro. Não ganho mal, né?” “Não, mas eu acho que é legal você fazer faculdade”. E, na época, o meu irmão estava terminando a faculdade de Odontologia, na Universidade Camilo Castelo Branco. E quem pagou a faculdade dele foi o Sport Clube Corinthians Paulista. Ele jogava basquete, então ele teve toda a faculdade paga pelo time, ali no contrato que ele tinha. E aí ele falou: “Ah, presta lá. Se você passar, eu posso ver uma bolsa de estudos pra você” e tal. E aí o meu pai começou a fazer uma pressão: “Ó, Di, estou esperando você prestar o vestibular”. E aí eu falei pro meu marido, eu falei: “Amor, faz muito tempo que eu não estudo. Afinal de contas, eu já estou com 22 anos. Eu terminei ali com dezessete. São alguns anos aí sem abrir um caderno, sem voltar a estudar. Mas, já que é pra fazer e ficar mais tranquila e ninguém mais ficar falando, eu vou fazer isso” (risos). E aí eu fui e prestei. Mas eu prestei e era muito concorrida a Universidade Camilo Castelo Branco, na época, porque era o curso de Odontologia mais barato da cidade de São Paulo. E era um ótimo curso, eu tive grandes professores ali. E aí eu entrei, meio pra cumprir tabela, assim. Mas a hora que eu cheguei na faculdade, ali, com bolsa, com facilidade, pra pagar o mínimo possível e material, que o meu irmão acabava me emprestando o que podia, acontece que eu tive que ter a matéria de Anatomia, Biologia. Então eram matérias que eu gostava muito. Então, aquilo não era uma coisa difícil pra mim, era uma coisa gostosa. Eu gostava de estudar. Eu tinha essa facilidade com essas matérias da área de biológicas e aí eu passei a estudar. Mas era uma coisa que eu já falava pros professores: “Olha, professor, vou sair. Vou estudar. Vou fazer outra coisa. E depois eu volto”. Então por quê? Porque eu tenho que trabalhar. Se eu não trabalhar, eu não me sustento. Então a minha vida era muito diferente daqueles amigos que entraram na faculdade ali com os seus dezesseis, dezessete anos, dezoito. Eu já era casada, já era mais velha. Ainda não tinha filhos, mas eu já tinha ali os meus 22 anos. E foi muito interessante essa descoberta, porque eu era boa aluna. Então eu não tinha dificuldade pra passar de ano, mas era uma coisa que ok, cumpri a tabela no primeiro ano, cumpri tabela no segundo. Quando chegou no terceiro ano, eu já fazia eventos, então quando chegou no terceiro ano teve um professor que falou: “É o seguinte, o desafio desse ano é: ou vocês fazem da semana de Odontologia um evento, ou o que vai acontecer é que vai ficar todo mundo de DP”. E aí eu me lembro que eu falei assim: “Gente, relaxa. Fazer evento é comigo. É o que eu faço da vida”. E ali fiz o quê? Aquilo que eu sabia fazer: um evento. Um grande musical. A “Turma do Limpa Bocão”. Já inventei uns personagens. E aí, evento, você é muito da questão da organização, da operação, então: “Quem aqui sabe desenhar figurino, sabe costurar?” “Ah, eu sei” “Vocês são da comissão do figurino” “Quem aqui...?” “E a gente que não sabe fazer nada, assim, não tem...” “Não. Vocês são boas de falar. Então vocês vão ser as representantes da divulgação, vocês vão divulgar. Então, vocês vão fazer um texto, ligar para as TVs, falar para as TVs virem aqui filmarem o que está acontecendo”, e tal. E ninguém levava a sério aquilo, assim. Ninguém falava assim: “Ah, isso vai, de fato, acontecer”. Mas aí, assim: “Quem é aqui que desenha?” “Ah, o Paulinho faz caricatura”.  E eu: “Paulinho, é o seguinte: vai fazer caricatura aqui do professor Carvalhinho”, que era o professor mais antigo da faculdade. E isso. E a gente vai fazer boton. E aí eu fiz aquilo que eu sabia fazer com comunicação. Todo mundo tinha camiseta da semana, tinha o boton da semana. E os professores meio sem entender quem era eu, porque eu era muito quieta, muito na minha, né? E, de repente, aquilo lá foi uma coisa que realmente eu sabia fazer. E aí, gente, foi um sucesso. Tinha a TV Globo, tinha o SBT, a Record, todo mundo. E aí a diretora falava assim: “Dilma, o que você aprontou?” Eu: “Não, me pediram pra fazer um evento. Foi o que eu fiz”. Então, aquilo lá... E essas foram as provas de que aquilo que eu tinha absorvido fazendo evento, eu sabia, exatamente, aplicar. E o quanto era importante, muitas vezes, essa questão do aprendizado por absorção de conhecimento. Por você colocar a mão na massa e ir fazendo. Então eu sabia fazer aquilo. Então, às vezes eu via uma pessoa ou outra fazendo alguma coisa que não era exatamente do meu departamento, porque eu era do departamento artístico, na empresa de eventos, mas que eu já tinha visto ele fazer aquilo, eu sabia como ele fazia. Então, eu sabia fazer, simplesmente porque eu o tinha visto fazer várias vezes. Esse conhecimento que a gente vai desenvolvendo ao longo da vida. E aí isso mudou a minha trajetória, porque eu achei que eu, de fato, não fosse conseguir chegar até o último ano de faculdade, assim. Foi um momento que fazer evento e fazer faculdade estava ficando distante e que acabou aproximando. Então eu acabo que me formei em Odontologia, embora eu não exerça isso hoje. A Outra Praia, que é a minha empresa, é uma empresa de comunicação. E eu ali comecei a entender que eu podia fazer muita coisa sozinha e que eu podia, inclusive, me desenvolver em outras coisas que não eram do departamento artístico. Mas eu acabo me formando, ali. O terceiro ano passou, pra mim, assim, muito rápido, com todo esse teatro musical e os convites. Então: "Ai, a Aeronáutica de São Paulo chamou vocês pra semana de Odontologia”. Era importante a gente ir, a gente fazer isso. E aí no quarto ano as pessoas... Aí na faculdade já estavam interessadas que eu saísse do teatro e que eu fizesse outra coisa. Eu só coordenasse. E daí foi deixando esse legado. E aí me formei na faculdade. Não fiz formatura, não participei de solenidade, de nada, porque também eu já estava trabalhando. Nunca parei de trabalhar. Desde os meus treze anos, eu digo que eu trabalho, ganhando cachê e fazendo isso e, de fato, é verdade. E aí eu dizia que eu era dentista, nessa época da minha vida, porque eu tinha me formado. Então, eventos não tinha faculdade, naquela época. Se eu tivesse que ter alguma profissão, eu precisava ser dentista, a faculdade que eu fiz. E o meu irmão disse que não dava certo, porque eu continuava fazendo eventos e que eu não tinha uma pós-graduação. Então eu emendei, já. Então eu saí da faculdade em dezembro e em março eu já estava na pós-graduação. Eu vim fazer pós-graduação, uma especialização em periodontia. E aí fiz mais um ano e meio de especialização, mas pagando tudo fazendo eventos (risos), trabalhando e me sustentando, fazendo eventos. Mas insistindo que eu tinha outra profissão, enquanto a minha profissão era fazer evento. Aí você vê, quando você volta no tempo, a questão: “Ah, evento não tem faculdade, né? Quem não deu certo fazendo Publicidade, vai fazer eventos”. Então tinha uma série aí de pré-conceitos, de alguma forma, mas eu adorava fazer esse tipo de comunicação. E aí, depois que eu me formei na pós-graduação, eu falei: “Quer saber?...” Recebi uma proposta tão grande, assim, será que esse carro ou esse bonde, como eu dizia, vai passar de novo na minha vida trazendo isso pra mim? Será que, se eu não pegar esse bonde agora, vem uma proposta boa pra mim? E aí eu falei: “Quer saber? Eu só vou fazer eventos” “Mas o que você vai fazer com todo aquele...?” “Um dia eu vou usar”. Era sempre o que eu acreditava, que um dia a vida ia me dar chance de usar aquele conhecimento, assim como tantos outros que eu tinha adquirido na vida.

 

P/1 - E como continuou isso?

 

R - Bom, como é que continuou isso. Eu mergulhei, justamente, no mundo da comunicação, através de eventos. As empresas faziam ali grandes convenções de vendas. E eu, dali, parti pela primeira vez, desde que eu fazia eventos ali, pra mudar de empresa. E fui contratada por uma outra empresa chamada, na época, Jon, o dono se chamava Mauricio Marques, uma pessoa que eu tenho total respeito e consideração, porque eu aprendi muito com ele.  E ele era uma pessoa que nunca parou de me dar desafios, talvez porque ele tenha entendido como eu lidava com desafios e com a pressão. E aí, nessa época, a gente foi atender a conta da Volkswagen, pra lançamento de carros. Então eram grandes lançamentos, teve o evento de comemoração de cinquenta anos de Volkswagen no Brasil e isso foi um evento muito grande. Eu não lembro se foi de cinquenta anos ou se foi de cem anos de Volkswagen no Brasil, mas eu lembro que eram muitos anos. Agora... Eu acho que eu não me lembro exatamente quantos anos. Mas aí eu fui aprendendo. E lá eu tive um grande desafio, dentro da minha jornada de eventos de comunicação, porque ele chegou e falou: “Bom, sabe fazer produção?”. Aí eu falei: “Não. Eu faço artístico. É daí que eu venho. Eu faço artístico”. E aí ele falou: “Bom, então agora você vai fazer produção, porque agora você é Diretora do Artístico e da Produção”. E aí eu já falei assim: “Meu Deus, mas eu não sei fazer. Como é isso? Aonde é que eu pego o manual?”. Só que produção também não tinha manual. Evento não tinha um manual de: “Olha, lê essa apostila, que você vai saber como é” (risos). Não tinha faculdade, não tinha apostila. Não tinha um curso pra isso. E aí eu peguei e falei: “Bom, então se ele acha que eu sou capaz, eu devo ser capaz mesmo. Deixa eu entender aqui” e comecei. E aí eu fui me desenvolvendo também nessa questão do operacional da produção. E o Mauricio tinha uma visão, assim, de entender que todo mundo pode trazer ideia e contribuir pra aquele projeto. Então aí: “Vai lá ver o que o planejamento está fazendo” “Ah, o planejamento nunca me deixou entrar na sala” “Mas vai lá e vai ver o que está fazendo, porque agora você é da produção”. E aí, de ir pro planejamento, ele: “Bom, o planejamento, hoje, está muito com coisa pra fazer, você vai fazer o planejamento desse evento pequeno” “Não. Mas eu não sei fazer o planejamento. E como é que...” “Se vira. Pensa em alguma coisa, que você sabe fazer, sim. Você só não sabe que você sabe”. Então, foi muito nessa construção de “você não sabe que você é capaz”. E aí você ia, ia, ia e: “Então, eu sei fazer. Então, se eu sei fazer, eu vou indo”. E aí eu fui crescendo na carreira, assim. Da Jon eu vim pra outra agência chamada One Stop, que era do grupo do Eduardo Fischer, que foi um grande publicitário. Acabou que voltei pra Jon de novo, mais um período. Daí eu fui pra agência Tudo, que era de um grupo chamado IPI, que virou o grupo ABC, que era o grupo do Nizan Guanaes, que tinham grandes agências de publicidade. E a Tudo era uma agência que fazia tudo, fazia eventos e fazia publicidade. E também o tempo foi passando e as pessoas entendendo que a experiência de marca é uma disciplina e que, quando bem utilizada para as marcas, ela faz muita diferença no que as marcas têm aí a conquistar de fãs. E isso veio crescendo também. Aquilo que era o patinho feio, que era o evento: “Ah, sobrou um dinheirinho? Bota lá no evento”, isto também veio modificando. E eu fiz essa carreira já como Diretora de Produção e Artístico, dentro da agência Tudo. Eu tive a chance de trabalhar com esse grande publicitário, que é o Nizan Guanaes. Então depois que eu pedi demissão, eu fui contratada pela N Ideias, que hoje é a agência de consultoria dele. A empresa de consultoria dele, ele reabriu há pouco tempo, chamada N Ideias. E eu sempre acredito que, onde eu estive, o ambiente que eu frequentei, assim, eu sempre absorvi muito. Assim, eu sempre procurei ser esponja, pra absorver muito desse conteúdo, entender com as pessoas. Mas aí, nessa época, eu comecei a questionar muito a questão do racismo estrutural e porque não tinham outras pessoas pretas no mesmo cargo que eu estava. Porque, de dezessete empresas do grupo, catorze empresas do grupo, eram muitas empresas, mais de dez, sabe? Então um grupo com mais de dez empresas é um grupo grande, só eu ocupava o cargo de Diretora de Produção, sendo uma pessoa preta. E isso começou a me fazer olhar a questão do racismo estrutural. E eu sempre digo: foi lá que eu entendi que eu era boa. Porque, quando você vai pra um grupo muito grande, a política também é muito grande. Então você precisa entender como fazer a política. E num grupo de publicidade não era diferente, você tinha que aprender a fazer política. Eu lembro que logo quando eu entrei na agência Tudo, eu falei assim: “Ih, não vou durar três meses, aqui”, porque eu não tinha a bolsa certa, eu não tinha a roupa certa, eu não tinha as experiências certas, a vivência certa que a publicidade desejava. E eu não era sequer formada em Comunicação e isso era uma coisa que jogavam na minha cara, sempre: “Mas você não é formada em Comunicação”. Bom, então pega desde os meus quinze anos, meu primeiro evento, tudo o que eu fiz até agora, bota aí mais de dez anos de carreira e eu não fiz nada, eu não aprendi nada nesse tempo inteiro. Mas também eu não fiquei parada. Foi a partir daí, dessa provocação que eu resolvi fazer o meu primeiro MBA na FGV, que foi em Gestão de Projetos. Eram muitos alunos na sala, mas éramos cinco mulheres. E quando eu digo muitos alunos, eram oitenta, cem alunos. E de eventos não tinha ninguém. Tinha gente que era de TI, de tecnologia. Tinha gente que era de Engenharia. Mas pra fazer Gestão de Projetos, não era alguma coisa que tinha ainda chegado na comunicação e eu resolvi fazer. E hoje a gente vê que a comunicação trabalha muito com essa questão do gerenciamento dos projetos. Ou das metodologias pra gerenciar um projeto. E aí eu acabei fazendo a minha formação nisso, mas ali eu decidi que eu nunca ia estudar... E eu nem conhecia a tendência do lifelong learning, que é a tendência dos cursos que você não para de fazer e vai fazendo. Eu nem conhecia isso. E ali eu falei: “Ai, quer saber? Eu acho que não dá é pra gente parar no tempo e parar de estudar”. E eu resolvi ali que eu ia continuar estudando depois desse curso e continuo estudando até hoje.

 

P/1 - Dilma, como é terminar um evento, olhar pra tudo e falar: “Tá. A gente conseguiu organizar tudo isso, resolvemos problemas dessa equipe”?  Como é isso de olhar para um final de evento e entender a dimensão daquilo?

 

R - Olha, eu te confesso que eu precisei aprender a dizer pra mim mesma que acabou o evento, parabéns pra você. Porque quando acabava, eu tinha aquela sensação que eu não tinha feito todo o possível pra aquilo sair ainda mais perfeito do que tinha saído perfeito, sabe? Então, eu tinha, dentro de mim, eu precisava ter um aprendizado de agradecer por aquilo que eu tinha conseguido realizar, e de me orgulhar daquilo que eu tinha conseguido. Óbvio que isso é por conta de toda a formação que foi acontecendo na minha vida, daquilo: “Ainda não basta pra você. Você é diferente de todos. Então, você precisa de algo mais. Ainda não basta pra você”. Isso foi muito claro, assim. Isso, desde que eu era criança, a minha mãe dizia: “Vocês podem fazer o que quiser, mas lembrem-se: vocês vão estudar dez vezes mais do que as pessoas. E aí, talvez, você possa ter uma chance”. Então, quando eu abri a minha própria empresa, que eu resolvi empreender e resolvi empreender sendo uma mulher negra, não conhecendo nenhuma outra mulher negra da área de comunicação que tivesse a sua própria empresa e que fosse dona da sua própria empresa, naquilo que eu fazia. Então, primeiro: eu não tinha referência. A gente não tinha referência nessa época de nenhuma CEO negra. A Rachel Maia veio depois ser CEO. Depois de eu ter aberto a minha empresa. Então, você não tinha referência. E a Rachel Maia foi uma grande referência que a gente tem aqui que bater palma de pé. Porque fez algo que ninguém tinha feito antes. E que serve de referência pra qualquer outra mulher preta que venha a estudar e que venha a querer ser o que ela quiser. E aí, nesse início, eu só conseguia pensar: “Eu preciso crescer mais. Eu preciso fazer mais. Eu preciso ser mais perfeita”. Porque aquela cobrança, aquele padrão instituído desde pequena, desde a minha formação, desde sete anos de idade, era muito claro isso, estava sempre presente. Eu confesso pra você que eu tive que aprender a ter orgulho daquilo que eu fazia e relaxar no final de um evento, falando: “Nossa, foi bom. Que bom que foi bom”. Porque aí o cliente falava: “Você não está feliz? Foi incrível! Parabéns pelo evento!” Mas eu estava com aquela sensação devedora, que ainda devia. Então eu não conseguia comemorar nem as pequenas, nem as grandes conquistas. Eu sempre queria ir pra próxima, sem dar tempo. Então isso foi um aprendizado, de falar: “Opa, para aqui. Comemora essa conquista. Comemora que você ganhou uma conta. Comemora, porque precisa comemorar. Precisa desse relaxamento”.  E eu vejo que isso não é particular meu. Eu vejo isso em outras mulheres pretas, ai, conquistou uma coisa, foi contratada por... “Não. E agora, qual o meu próximo passo”, sabe? Então tem isso que eu acho que essa próxima geração talvez não tenha, mas que a gente precisa parar, entender e aprender com as conquistas também. E aí, quando você coloca uma coisa que foi criada por você, pensada por você, administrada por você, assim e você coloca isso pra fora e executa aquilo com qualidade, com excelência, eu posso dizer pra você que é por isso que eu não troco a minha vida de empreendedora por nada. Primeiro, por ter opinião. Durante muito tempo eu não pude, dentro da minha carreira, dar opinião, por mais que eu tentasse, assim: “Ah, acho que não é bem por aí” “Você não sabe nada”. As justificativas eram: “Você não sabe nada, porque você não tem essa vivência internacional; você não sabe nada, porque eu acho que você não entendeu, que o briefing veio em inglês; você não sabe nada”. E aquilo é muito ruim pra você como pessoa, sempre o não, sempre transformar o não em sim. O não em sim. E é isso que eu passei a minha vida inteira: todos os nãos recebidos, transformar em sim.

 

P/1 - E como foi esse momento de decidir sair dessa empresa que você trabalhava, pra abrir a sua?

 

R - Uff, vamos lá. Na época, o Brasil estava passando por um momento econômico muito bacana. E eu estava muito infeliz onde eu estava, por não colocar todo um potencial que eu via em mim, pra fora. Então, você falar sobre aquilo que você fazia, sobre produção, sobre artístico, já não tinha mais graça pra mim. Eu queria falar sobre tendência, eu estava estudando, eu queria falar sobre outras coisas que eu tive chance de estudar, tive chance de aprender, tive chance de absorver. Mas não, você está aqui pra fazer aquilo. Empresa grande, a gente sabe que é assim. Mas isso eu acho que acabou me trazendo uma lembrança de muitos anos atrás, onde eu, de fato, não tinha voz. E ali, naquele momento, pra mim, a minha filha era pequena, a Helena já tinha nascido, já estava lá com acho que sete anos, assim. E aí eu resolvi que, de fato, era aquele momento que eu tinha, sabe? Aquela janela que todo mundo falava, sobre empreendedorismo. A Endeavor estava falando muito sobre isso e as pessoas falando sobre isso. Eu falei: “Quer saber? Eu acho que eu sou empreendedora desde pequena, desde que eu vendia alface no portão, que eu vendia torrãozinho de açúcar, que eu aprendi a fazer. Eu sou empreendedora”. Eu fazia os testes, eu falava: “O resultado é que eu sou empreendedora. Então, acho melhor eu passar a empreender”. E aí eu resolvi largar tudo e empreender. Tive um primeiro movimento empreendedor, numa empresa chamada D Magrela Ideias e Movimento. D de Dilma. Magrela Ideias e Movimento, porque pela primeira vez eu ouvi que, se o negócio é meu, ou eu tenho que estar no nome, ou o nome tem alguma coisa, de fato, a ver comigo. E eu achei isso interessante, que tinham me falado. E eu falei: “Bom, então vai o D de Dilma, magrela que era a outra sócia, que tinha o apelido de magrela e tal”. E aí a gente falou isso. Tinha um sócio: “Então, você fica com a bicicleta. Porque D Magrela, magrela e aí a gente pode falar da questão sustentável de andar de bicicleta”. Isso há doze anos, estava tudo meio começando. E aí eu tive esse primeiro empreendimento, onde eu fui sócia com mais duas pessoas e que também foi importante na minha trajetória, assim. Não deu certo entre a gente. Ou deu muito certo, porque a gente acabou brigando num movimento que a gente estava fazendo, de fusão e aquisição, pra uma outra grande empresa global, mundial. Então eu não posso dizer que deu errado. Mas a gente acabou se desentendendo como sócios, infelizmente, porque eu acho que seria uma empresa de muito sucesso. Mas a gente acabou se desentendendo como sócios e eu resolvi que eu não queria mais continuar naquela sociedade. E expliquei pros sócios: “Olha, eu não vou mais continuar nessa sociedade. Vocês sigam com a negociação. O que a gente acordou, está acordado. E eu vou entender. Eu vou primeiro pra casa, para entender se eu volto pro mercado, o que eu faço da vida”. E aí eu voltei pra casa, nessa semana. De outubro? Acho que foi nessa semana de outubro, ou finalzinho de setembro, assim. Foi outubro. E eu voltei pra casa. E aí três dias depois me ligou um cliente e ele falou: “Dilma, tudo bem?” “Tudo” “Você pode vir aqui pro Rio de janeiro buscar um briefing?”. E eu falei: “Então, Fernando, eu não posso, porque eu não tenho agência mais. Então, se eu não tenho agência, como é que eu vou pro Rio de Janeiro? Não tem mais como isso...” “Não, mas como assim?” “Eu saí da D Magrela. Eu não estou mais nessa sociedade. E aí eu estou vendo o que eu vou fazer da vida, se eu vou voltar pra uma nova agência. Não sei o que eu vou fazer”. Ele: “Mas lembra que você fez aqui o livro nosso, cultural?” “Ah, eu lembro” “Então, mas não era uma empresa sua?” “É, mas é uma outra empresa” “Então, pega essa empresa e vem pro Rio de Janeiro amanhã”. E aí eu me lembro como hoje que, assim, era um momento que o Brasil estava muito bom, economicamente muito bem e que todo mundo viajava. Então a ponte aérea era lotada das sete e meia da manhã às dez da manhã, ao meio-dia. Não tinha, assim. E uma passagem, de um dia pro outro, era cara. Era, basicamente, cinquenta por cento do que eu tinha na poupança pra eu sobreviver até eu me recolocar. E eu falei: “Meu Deus, o que eu faço agora? Eu vou pro Rio de Janeiro? Não vou pro Rio de Janeiro? O que eu faço agora? Será que dá pra ir? Será que não dá pra ir? O que a gente vai fazer?” E aí eu resolvi ir pro Rio de Janeiro e esse foi o primeiro trabalho que eu fiz com a “Outra Praia”. E aí você me fala: “Mas o que o Outra Praia tem a ver com você?” Tem tudo a ver comigo (risos). Por quê? Porque, quando eu abri a minha primeira empresa, pra emitir nota fiscal, lá com vinte anos, que eu era casada, ela foi o nome de um primeiro CD do meu marido, que se chamava “Ímã”. Foi a primeira empresa que a gente abriu. E depois de um tempo eu resolvi que eu tinha que abrir uma empresa pra suprir a questão cultural, porque aquela era uma microempresa, precisava de um Ltda e tal. Então, vamos abrir. Eu até chamei os meus ex-sócios pra abrirem comigo, mas eles: “Ah, não. Temos que focar numa coisa só. É dissipar muito o pensamento”. Como eu estava sozinha naquele momento, precisava de um nome, eu peguei um outro CD do meu marido, que se chamava “Outra Praia”. E abri a empresa com esse nome e com ele também sendo lá o meu sócio, no papel. Então a “Outra Praia” tem a ver, porque faz parte da minha vida. E todo mundo falava: “Ah, é “Outra Praia” porque é do Rio de Janeiro?” “Não. A empresa é de São Paulo” (risos) “Mas por que “Outra Praia”? São Paulo não tem praia”. Eu: “Justamente por isso, porque a cidade de pedra é uma outra praia”. E aí a gente foi desenvolvendo um pouco essa coisa solar do nome da praia, da outra praia. E foi entendendo mais um pouco isso que eu estava falando anteriormente, dos aprendizados. Então, crescia um pouco a Outra Praia, eu falava: “Gente, está crescendo. E agora? Como que eu vou dar conta?” Aí crescia mais um pouco, aí eu falava assim: “Então, a empresa está crescendo”, aí um familiar falava: “Daqui a pouco diminui”. O outro: “Daqui a pouco não vai dar certo”. E eu: “Mas, gente, está crescendo. Está crescendo”. E esse ano a gente faz, assim, oito anos de operação. Oito anos com a “Outra Praia” aí, viva. Sobrevivendo à crise de 2015 e sobrevivendo à crise agora, de 2021, por conta da pandemia do Covid-19. E muito lúcida. E aí essa lucidez também fez com que eu quisesse fazer outros cursos, sempre continuar estudando. E aí eu falei: “Sabe uma coisa que eu sempre tive vontade de fazer e nunca fiz? Talvez… Eu não sei por que eu nunca fiz. Talvez porque eu achasse que aquilo não pertencesse, o ambiente, a mim, que fosse muito diferente, mas hoje são outros tempos. Vou fazer um curso na ESPM”. Que era de onde as pessoas falavam: “Olha, vai pegar alguém, tem que selecionar alguém que tenha feito ESPM, que tenha feito universidade de ponta” e tal. E aí hoje eu faço um outro master, um outro MBA, na ESPM, em Tendências e Estudos do Futuro. E confesso, estou amando, amando voltar a estudar um curso mais longo. E quando terminar, já tem outro pra fazer. Mas hoje eu consigo entender que isso é porque eu gosto e não por uma exigência que eu me colocava, na questão de, se eu não for melhor que os outros, eu não vou ter chance na vida.

 

P/1 - Dilma, você lembra dos primeiros dias, quando você entendeu que a “Outra Praia” estava dando certo? Você falou que começou a celebrar muito as suas conquistas. Você chegou a celebrar essa conquista? Você se deu conta de tudo o que estava acontecendo e falou: “Agora está bom. Agora a gente vai começar um novo entendimento. E vou bancar”?

 

R - Luiza, eu vou confessar, espera aí. Deixa eu pensar aqui... O que eu vou dizer pra você é o seguinte: eu não tive noção. Nessa época, que a “Outra Praia” começou a fazer esse evento, aconteceu uma cena, que é uma cena que eu guardo pra minha vida: a gente começou a fazer o evento e o evento foi tomando proporções maiores, proporções maiores. Então aquilo que veio pra gente como: “Olha, o que preciso são pequenos ambientes, alguns ambientes onde eu consiga falar sobre o plantio disso, sobre como isso é feito, sobre, enfim, todo o fluxo de trabalho que a gente tem, até colocar um produto na rua”. E nessa época eu falei assim: “Tá, eu entendi. Mas vocês querem isso?” “É”. Assim, eu lembro como hoje: era um desenho num papel onde mostrava assim um U, como se fossem várias barraquinhas de uma feirinha, em U. “E é isso que a gente quer. Cada pedacinho fala sobre uma parte da nossa cadeia produtiva”. Aí eu falei: “Tá bom. É isso que vocês querem”. Mas eu pensei: “Gente, mas não é isso que tem que ser”. Eu lembro de sair muito com essa sensação, da reunião. E aí eu falei: “Não. Tem que ser uma coisa assim, tem que ter uma música pra isso. As pessoas vão entrar aqui, vão entender o porquê dessa semente. Elas vão entrar aqui, entender como planta. Elas vão entender quem planta. Elas vão ter que estar no meio de uma plantação” e tal. E aí eles apelidaram isso de Disneylândia. Eles, o cliente, apelidou isso de Disneylândia, sem saber o que Disneylândia tinha a ver com a minha vida, quando eu mudei de colégio com sete, oito anos de idade. E aí isso foi acontecendo. E o evento só crescia. Cresceu a ponto de a gente falar assim: “Pra eles entenderem muito bem o que eu estou falando, vamos fazer uma maquete? Vamos levar uma maquete pra eles entenderem o que é que a gente está falando, na última reunião? Gente, é isso mesmo, vamos levar uma maquete”. E confesso: “Aonde era o seu escritório?” Aqui na sala da minha casa. “Onde as pessoas trabalhavam?" Aqui na sala da minha casa. “Onde as pessoas almoçavam?”, porque é um bairro residencial. Eu moro na Vila Ipojuca. Hoje até tem mais prédio, tem mais coisa, mas naquela época só tinha um botequinho na esquina, então pra compensar eles trabalharem na minha casa, eu oferecia o almoço. E a cozinha, como a gente trabalhava na mesa da sala, tinha que dividir em turnos, porque não conseguia sentar todo mundo e comer de uma vez. E o evento foi ficando pronto, e o evento foi ficando pronto. E as reuniões foram indo e a gente foi subindo de alçada. Então a gente já estava falando com a diretoria internacional e daí vinha todo mundo do internacional pra olhar. E aí eu saí no dia da reunião. Então já peguei o avião. A gente já tinha recebido uma parte do evento, então eu podia pagar a passagem já, de um dia pro outro. E fui pro Rio de Janeiro pra apresentar esse trabalho, e lá tinha um presidente, que eu falo que eu levo pra minha vida, chamado Andrea Martini. E aí foi a apresentação, aquela coisa com videoconferência. E aí a Inglaterra perguntava alguma coisa e falava e a gente explicava e aí traduziam e alguém traduzia. Bom, aquela coisa. E aí teve uma hora que ele: “Eu não gostei disso aqui no meio”, quis arrancar um dos pilares: “Tira isso daqui” “Tá. Mas não pode tirar isso da maquete”. Aí ele enfiou de novo na maquete, sabe, aquela reunião tensa mesmo de fechamento, assim. Aí, quando terminou, assim, eu respirei e aí ele perguntou o seguinte, pra mim: “Dilma, parabéns pelo trabalho. Está incrível esse trabalho. Incrível. Assim, não tem o que pôr, o que tirar. Agora é executar. Está maravilhoso. Vamos entender como executa isso. Vamos precisar de ajuda e tal. Mas sabe que eu estava aqui olhando a sala inteira, eu estava olhando pra você. Nós estamos aqui em quarenta pessoas, na sala. Eu olhando aqui pra você. Gente que sai, que entra, que está fora, vendo por videoconferência. Sabe o que eu estava pensando? Como é que você chegou até aqui?” E aí eu parei, assim, tipo: “Como eu cheguei até aqui? Ué? Peguei o avião em São Paulo, cheguei no aeroporto Santos Dumont, peguei um táxi e cheguei aqui”. Resposta simples. E ele começou a rir. E naquele momento eu pensei assim: “Mas o que esse cara está rindo? Está rindo de mim?" E aí ele falou: “Não. Desculpa, acho que você não entendeu a minha pergunta, porque eu estava olhando essa reunião e estava pensando. Eu já fui presidente aqui no Brasil de uma outra empresa. Sou, hoje, presidente dessa empresa. E eu nunca vi uma mulher negra como você liderando uma reunião como essa, com a sua própria empresa. Agora você está com a sua própria empresa”. Eu falei: “Sim, estou com a minha própria empresa”. E aí ele falou: “Com a sua própria empresa, liderando a sua própria empresa. Numa reunião como essa”. E naquele momento eu parei e falei: “Como não tem outros negros nessa reunião”. Na minha cabeça. E não tinha mesmo. E aí comecei a me questionar: por que não tinha outros negros na agência de publicidade que eu era parceira, que eu trabalhava? Por que não tinha na outra, que eu tinha trabalhado? Por que eu não via outros em outras agências de evento que estivessem no planejamento, na questão estratégica e não só na questão da produção, que de fato é execução, é o operacional. E isso começou a me dar um mal-estar, veio aquela pergunta: “Como é mesmo que eu cheguei até aqui?” Porque eu não sabia como eu tinha chegado ali. Eu não sabia o que eu tinha feito, se eu não parasse pra pensar, pra ter chegado até ali. E eu também não entendia que era uma cadeira absolutamente espinhosa, estar ali. Porque você está sozinha, você não tem de onde buscar apoio. Porque você busca apoio dos seus iguais. Se você não tem iguais, onde você busca apoio? Você está sozinha a vida inteira. E ali eu me dei conta que eu estive sozinha a vida inteira. E ali, pela primeira vez, assim, que foi um processo de construção, eu me dei conta que eu era boa no que fazia. E que, se eu estava ali e conseguia desempenhar aquilo, ninguém podia tirar isso de mim, então que eu podia continuar. Ali foi o primeiro momento que eu falei assim: “A "Outra Praia” tem futuro como empresa. Ela vai ter bons resultados. Eu não sei como vai ser o desenvolvimento e o andamento dela, mas ela pode ter um futuro promissor pra mim, como empreendedora, se eu investir nela, se eu acreditar”. Porque as pessoas acreditavam que empreender era trabalhar menos, era poder cuidar dos filhos. E eu já tinha entendido que não era, que era trabalhar mil vezes mais, com muito menos tempo pra cuidar dos filhos. E ganhando muito menos do que se ganhava antes. Então, que ia ter que ser, ali, uma construção mesmo de vida, de empresa e agora numa outra jornada, que era encarando a jornada empreendedora. Porque esse, de fato, foi o primeiro momento que eu acredito que eu encarei. “Mas você teve um outro empreendimento”. Sim, mas como você está com outros sócios, você decide junto. Agora, você está sozinha. E não tem ninguém pra decidir por você. É você quem tem que decidir. Então isso se soma a uma grande responsabilidade. Uma responsabilidade de prestação de serviço pra outras empresas que têm, ali, os seus objetivos, as pessoas que confiaram em você e que te deram essa oportunidade. Eu digo, não te deram de graça, não, te deram porque sempre viram você trabalhar muito e entregar muito bem, né? Eu me lembro que uma vez, eu estava fazendo um lanche com um amigo e esse Mauricio Marques, que era dono da Jon, que me deu grandes oportunidades, passou lá e falou: “E aí? E você, hein, com a sua empresa? O que vocês estão fazendo de novo?”. Eu falei: “É, Mau, resolvi empreender. Você viu? Acho que o bichinho me picou” Ele: “Te picou, não. Você sempre foi empreendedora. Eu largava a minha empresa na sua mão e você tocava aquilo. Então, assim, você sempre teve”. E aí você olha pra trás e fala: “Nossa, olha. É uma característica que eu não acreditava que eu tinha”. Eu precisei passar dez anos, né? Eu precisei passar dez anos, doze anos, daquela conversa, pra eu falar: “Nossa, eu tenho essa característica”. E eu digo sempre isso, assim: empreender não é fácil, precisa ter muita coragem. E através disso também, essa jornada me trouxe muitas coisas, de poder falar com outras mulheres empreendedoras pretas, de estimular, de compartilhar a minha história. E aí eu descobri porque eu tinha chegado naquele momento que o Andrea Martini tinha me perguntado: por que eu nunca havia desistido de mim, nem dos meus sonhos. E que, pra mim, era isso mesmo: desistir, jamais.

 

P/1 - Uau! Dilma, queria saber como você conheceu o Ernst & Young? Como foi a experiência de ter sido mentorada? Teve algum dia marcante?

 

R - Bom, em 2015 eu resolvi parar de reclamar e fazer. E foi justamente isso. Em que sentido? Como eu falava muito que não via negros na comunicação, no mercado de eventos e tal, eu entendi que o caminho era ir pra uma associação. Voltar pra uma associação, pra que eu pudesse ter um poder maior pra falar sobre isso, através de uma associação. Que aquilo que eu estava fazendo, eu, Dilma, era muito pequeno. Era serviço de formiguinha? Era. Eu estava fazendo? Estava. Mas ainda era muito pouco e eu podia ampliar um pouquinho mais a minha voz. Então, eu voltei pra Ampro, Associação de Marketing Promocional, de onde eu sou conselheira, hoje. E na Ampro, eu encontrei com a Silvana Torres, que também é empreendedora. Uma grande empreendedora aí, com uma empresa de mais de vinte anos de mercado. E a gente se encontrou num comitê da Ampro, que ela havia acabado de fundar, chamado Comitê do Empoderamento da Mulher. Então, ela estava falando da questão de gênero, eu queria falar da questão racial. E aí a gente falou: “Vem junto”. Ela me convidou pra vir junto, eu falei: “Estou dentro. Vamos embora”. E aí a gente começou a falar muito da questão da diversidade de gêneros e da questão racial, também. Então começou a trazer isso, trazer isso. Esse trabalho foi tão bacana dentro da Ampro, que aconteceu que ele foi catalisando outras coisas lá dentro. Mas, nesse momento, ela me apresentou ao programa da Ernst & Young, da EY, dizendo: “Olha, o ano passado, ou um ano atrás, eu participei de um programa da EY, que é muito legal, pra mulheres empreendedoras. Você conhece?” Aí eu falei: “Não, eu não conheço”. E, no meio, logo quando ela me apresentou, eu acabei reencontrando a Ana Fontes, que me perguntou o que eu estava fazendo. Eu falei: “Não, eu estou com a minha empresa”. Sempre aquela história: “A minha empresinha fazendo eventos e tal” “Ah, que bacana”. E a Ana me apresentou a Rede Mulher Empreendedora, que era a empresa que ela tinha fundado pra falar de empreendedorismo feminino e pra fomentar empreendedorismo feminino. E aí eu falei: “Ah, que bacana”. Ela: “Porque eu...”, me contou um pouquinho da trajetória, o que ela tinha feito e me contou que ela também tinha passado por essa mentoria desse programa da EY. E aí, naquele momento, eu falei: “Nossa, Ana, e aí, como é que faz pra participar desse programa?” Ela: “Ah, então, esse programa tem que ter um faturamento X. Não é um faturamento baixo” e tal. E aí eu falei: “Ah é, que pena. Não vai dar” “Ah, mas dá uma lida lá”. E aí eu falei: “Se ela nem quis me falar qual era o valor do faturamento, a Silvana Torres também não me falou o valor do faturamento, eu não devo ter faturamento pra entrar nesse projeto, porque deve ser um faturamento muito grande”. E aí eu entrei nesse projeto, fui lá olhar as inscrições. E aí eu falei assim: “Quanto tem que ter de faturamento?” Na época, se eu não me engano, eram três milhões e meio de faturamento, que é muito. E aí eu olhei, falei: “Deixa eu perguntar aqui pro meu contador. Eu acho que eu tenho. Quanto a gente faturou o ano passado?”. Ele: “Ah, três milhões e oitocentos e tanto”.  E aí eu falei: “Nossa! Eu tenho”. E aí eu me inscrevi nesse programa. E é um programa seríssimo. Seríssimo, porque não é você só se inscrever. Você se inscreve, você manda qual é a história da sua empresa, o que a sua empresa faz, o que você quer com a sua empresa. Aí eles analisam isso, fazem uma primeira análise, fazem um primeiro corte. Aí de novo fazem uma segunda análise. Aí você manda a sua declaração de rendimento, você manda como você está, você fala como é a saúde financeira da empresa. O que você quer, entrando no programa. E aí o que aconteceu foi que eu fui selecionada. E eu me lembro que, quando eu fui selecionada e que eu fui falar alguma coisa, que me colocaram pra falar, ou eu fui me apresentar, ou apresentar a minha empresa, naquele dia que todo mundo se apresenta, eu lembro que eu falei assim: “Gente, vocês não sabem o quanto é difícil não ter pessoas iguais a mim, aqui”. Então, era todo um programa. Esse programa foi transformador na minha carreira empreendedora. Eu não digo isso por conta do programa, mas eu digo isso pelas transformações que ocorreram na minha vida, na forma de pensar, na forma de agir e na forma de gerir um negócio. Pra mim, até esse momento, na minha jornada, eu sabia muito bem fazer e entregar com excelência, mas eu não sabia o que era gerir, na sua totalidade, uma empresa, com um olhar que eu nunca tinha tido na minha vida, de: “você vai fazer desta forma ou desta forma”, porque é diferente. E, naquele momento, quando eu fui selecionada pro projeto, eu estava muito aberta a esse aprendizado. Então, assim, não teve um sócio que eu tenha conhecido da EY, que eu não tenha aprendido com ele, que eu não tenha entendido como melhorar o meu negócio. Eu tinha um problema de fluxo de caixa, que foi identificado e a gente conseguiu reverter isso. Eu tenho muitos aprendizados pra tirar desse programa. Eu sempre digo que são as minhas multifacetas, as minhas multicartas do baralho. E, desse programa, de fato, eu saí com uma carta muito grande do baralho. Porque isso me fez crescer. E me fez crescer como empreendedora, como gestora de um negócio, me fez aprender o que eu tinha errado até aquele momento. Agora, tem uma história muito marcante dentro desse programa. Porque, de fato, a crise de 2005 tinha me abatido. Tinha chegado em mim, em 2016. E aí eu estava num dilema dentro da empresa, numa situação que não era uma situação fácil ali, de decidir pra onde que tinha que ir, pra onde que eu tinha que sair. E eu tive duas mentoras incríveis, que foram a Chieko Aoki, do Hotel Blue Tree, dos hotéis Blue Tree, da rede Blue Tree. E a Bel Humberg, que era uma grande mentora... É de empreendedorismo e que tinha tido muito sucesso com o que ela tinha empreendido. E que chegou num dia que a Chieko e a Bel, numa reunião, entendendo a minha energia, entendendo acho que o meu desânimo, posso até confessar, ali, com aquela dificuldade toda que se apresentava, ela me perguntou: “Mas você quer mesmo ser empreendedora?”, com aquela disciplina oriental que a Chieko tem. Aí eu falei: “Como assim? Eu sou empreendedora. Eu estou nesse programa de mulheres empreendedoras”. Como que ela para agora, nesse momento e me pergunta se eu quero mesmo ser empreendedora? E aí a Bel, toda psicóloga: “Não. Entenda o que a Chieko está perguntando. A gente não está sentindo em você, a vontade, o brilho no olho que o empreendedor precisa ter, pra levar o negócio dele pra frente. A gente está te sentindo, talvez, desanimada. Talvez sem saber pra onde você tem que ir”. E aí voltou pra Chieko. Eu vejo isso como um filme, sabe? E ela perguntou: “É. Eu gostaria mesmo de saber, na nossa próxima sessão, se você quer mesmo ser empreendedora, ou não. Porque ninguém está aqui, assim... a gente não gosta de perder tempo”. Ela foi delicada, ela não disse exatamente nessas palavras. Mas a mensagem que veio, foi: “Não desperdice o nosso tempo. Nós estamos aqui pra ajudar mulheres que queiram ser ajudadas. Você quer mesmo ser empreendedora?” E esse momento foi um momento que virou a minha vida do avesso, porque eu cheguei em casa muito incomodada com aquilo, daquele dia de mentoria, daquela sessão de mentoria. E, assim, eu acordei outra. Literalmente, eu dormi uma, acordei outra, porque eu falei assim: “Quem elas pensam que elas são, pra me questionarem se eu quero? Claro que eu quero ser empreendedora! Se eu estou aqui batalhando todos esses anos, se eu quebrei aqui a minha cara e estou me recompondo, ouvindo todo mundo falar que eu errei no fluxo de caixa; que eu errei e não demiti as pessoas na hora certa; que eu errei em fazer uma conta que eu não tinha que ter feito; que eu errei. Cara, eu estou dando o meu braço a torcer, a minha cara à tapa. Aprendendo aonde eu errei, pra não errar de novo. E como é que eu não quero ser? Será que elas entendem a minha dor?” Mas aí, ao mesmo tempo, eu cheguei à conclusão que elas não tinham que entender aquela dor e que o que elas estavam perguntando era correto: “Cadê o meu brilho no olhar?”. Se eu estou dando a cara pra aprender, que eu faça desse aprendizado uma transformação no meu negócio. E aí eu me lembro que eu liguei e falei pra minha facilitadora: “Olha, deixa eu te falar uma coisa?” Aí ela falou: “Fala, Dilma. O que foi?” Eu falei: “Eu não quero esperar trinta dias pra próxima sessão. Eu quero ver se a gente consegue encontrar todo mundo em quinze dias”. Ela: “Ah, deixa eu ver aqui se tem disponibilidade”. E aí a gente marcou quinze dias depois. E aí eu lembro que eu cheguei, eu falei: “Olha, é o seguinte: eu não quero que vocês me perguntem se eu sou uma empreendedora. Ou se eu tenho vontade de ser. O que eu quero que vocês saibam é que sou, sim, empreendedora. Eu tenho brilho no olhar, sim. Eu jamais desisti nessa vida e não é agora que eu vou desistir”. Então aquilo, assim, me deu um gás para terminar. E foi aí, nesse momento, que a gente definiu que a gente ia reestruturar a “Outra Praia”. E reestruturar, inclusive, o negócio da “Outra Praia”. Então, a “Outra Praia”, nesse momento, passa a ser uma boutique de criatividade estratégica na área de comunicação e não uma agência. Então, eu não concorro mais com agência. Então, se eu sou peixe pequeno... porque o que acontecia era isso: eu concorria com tubarão, sendo peixe pequeno. Porque ele era agência, eu também era agência. Mas agora, como eu sou boutique de criatividade estratégica, eu sou peixe pequeno, não se preocupa comigo. E aí era até uma justificativa quando grandes empresas: “Porque vai ter uma concorrência entre agências” “Eu não sou agência”. Então entender que você podia estar trabalhando pra grandes empresas como eu estava, mas que se o fluxo de caixa não fosse positivo, essa grande empresa ia me falir. E aí entender tudo isso foi, realmente, eu falo: um vulcão, assim, que estava ali descansadinho, prestes a entrar em erupção. E o programa fez com que eu entrasse em erupção. E mudou, de fato, a minha trajetória empreendedora de não ter o medo de fazer, não ter... Entendeu? As coisas que estavam sendo necessárias, aqui. E de buscar tudo isso e buscar esse conhecimento. E aí, desde esse dia, assim, eu sempre procuro mentoras dentro desse projeto. Embora eu seja da turma de 2016, que acabou em 2017, eu jamais terminei (risos). Até hoje eu sou mentorada por mulheres do programa. Então, se eu tenho dúvidas, eu ligo mesmo e elas estão sempre prontas a me ajudar a olhar o negócio de fora. Porque, às vezes, você está dentro do negócio, você não tem uma visão que possa ser diferente, um pensamento que você possa criar, sendo diferente. Então, esse programa mudou mesmo. E foi dentro dele que eu comecei a falar ainda mais com mulheres empreendedoras. E falar pra mais mulheres empreendedoras negras. E eu não quero ser a única mulher empreendedora negra desse programa, eu não posso. E eu trabalho pra que outras venham e que outras tenham essa chance de ser mentorada e que tenham a chance de mudar a sua vida, como eu tive. 

 

P/1 - Dilma, como é pra você, assim: antes, quando você dançava, você estava no palco. Depois, você foi pra trás da coxia, vamos dizer assim, pensar num evento, organizar tudo isso. E agora, além disso, estar voltando pro palco, mas pra, justamente, inspirar outras mulheres, dar palestras. Como é esse movimento, pra você? E o que representa ser mulher, ser mãe, ser negra, ser de família simples, ter começado um negócio do zero? Começado sozinha, mas sempre a gente tem uma rede de apoio. Como foi tudo isso pra você? E hoje em dia ser exemplo e inspiração?

 

R - Bom, dos palcos, para atrás dos palcos. Mas foi por trás dos palcos que eu percebi que aquilo que aquelas pessoas faziam, eu podia fazer. Porque eu sabia colocar uma pessoa pra falar no foco, eu sabia treinar uma pessoa pra falar com a plateia, pra ela olhar pra plateia, pra ela entender onde é que estava o ponto focal naquele momento que ela não estivesse confortável no palco. E daí, a partir desse momento, eu falei: “Eu posso ser uma Diretora Artística de Eventos. Essa poderia ser uma boa profissão pra mim”. Pra quem queria ser caixa de supermercado, já era fazer muito sucesso. E aí eu fui me desenvolvendo na carreira, fui crescendo. Cheguei em grandes empresas, ao cargo de Diretora. E depois eu passei a empreender, sendo dona do meu próprio negócio, sendo CEO do meu próprio negócio. E parece que tudo voltou ao ponto zero, ao voltar de novo para o palco. E dessa vez pra falar com mulheres empreendedoras. Mas, no início, quando houve essa volta, eu não sabia se o que eu tinha pra falar ou compartilhar era realmente interessante pra essas mulheres. Ou se compartilhar a minha vida e o sucesso que eu considero ter, porque sucesso não fala de dinheiro, fala de uma construção de uma jornada. De onde você saiu, até onde você conseguiu chegar, pra mim, isso é o que fala sobre o que é o sucesso. E aí, quando eu comecei a compartilhar isso, eu comecei a devolver aquilo que eu tinha recebido de várias pessoas, porque a gente não constrói o sucesso sozinha. O sucesso depende de várias pessoas pra te abrirem a porta, pra te darem oportunidade, seja uma oportunidade porque naquele momento elas precisavam de você. Então precisava de uma cota ali, racial. Ou seja, uma oportunidade porque, de fato, viram que você tinha talento e te fizeram crescer. Seja uma oportunidade de apoio, como eu tive de um grande amigo, quando eu comecei a empreender, do Fábio Cury, que eu falei: “E agora, o que eu faço?”. Ele falou: “Vai. Eu estou aqui”. E aí eu falei: “Mas você está aqui pro que eu precisar?” “Estou aqui pra o que você precisar”. Então, significava aquilo, que se eu precisasse de alguma coisa, eu tinha pra onde correr. Essa rede de apoio é o que vai te fazendo ter sucesso na vida. Foi sucesso ter entrado dentro desse projeto de mentoria da EY porque, num primeiro momento, eu achei que eu não pudesse, porque eu não tinha o faturamento. Num segundo momento, eu vi que eu tinha o faturamento e que eu não precisava trabalhar mais um ano pra isso. É sucesso poder, hoje, fazer um curso numa grande universidade? É sucesso. Então, essa construção, quando eu volto de novo pro palco, pra dividir um pouquinho dessa minha trajetória, eu digo justamente isso: “Gente, eu era bailarina. Eu nunca achei que eu pudesse ser mais”. E aí, depois, eu fui fazendo tantas coisas na minha vida e fui mudando de carreira, talvez tantas vezes, que as pessoas fossem pensar que quem faz tudo, não faz nada, era um pensamento antigo. Aprende como esponja, mas não tem uma formação tradicional. Então, o que será que aprendeu? E aí eu venho me casar ali, entre dezenove e vinte anos. Então, as pessoas, antigamente, falavam: “Casou, não vai ter mais nada, não vai fazer mais nada”. Aí eu só venho fazer faculdade depois de 22 anos. Parece que eu estou sempre provocando aqueles padrões colocados pra mim. Então: “Aqui não é o seu lugar, porque você não tem as experiências internacionais” “Ué, mas se não é o meu lugar, por que eu estou aqui?” Então, esses questionamentos que você vai passando, compartilhando. Então, gente, eu não tinha nada, eu não tinha dinheiro pra abrir um grande negócio. Eu não abri hoje um grande negócio. Hoje, eu faturo e aí eu falo, sem vergonha: “Olha, hoje eu faturo tanto”. E por que eu estou compartilhando isso com vocês? Porque as mulheres ficaram, assim, sem poder falar naquilo que ganhavam, naquilo que acreditavam, durante muito tempo da vida delas. Então compartilhar uma questão financeira, que não é ruim você falar que você está faturando, que a sua empresa está indo bem, porque a gente recebe “não”: “Ah, empresa dela está indo bem? Ah, já, já vai mal. A empresa dela teve lucro, o ano que vem vai ter queda”. Então, é sempre o não, o não, o não. E não importa, eu acho, muito, que profissão você está. Nós mulheres ainda hoje recebemos muitos nãos. Então eu vou compartilhando isso. E aí eu conto muito da minha vida, do que eu descobri quando eu mudei. E eu acho que isso vai buscando similaridades com a vida dessas pessoas e de muitas pessoas com as quais eu passei a tentar inspirar, ou até conseguir inspirar algumas dessas que eu tentei inspirar. E aí eu me lembro, como hoje, que eu comecei a falar, num belo dia: “Gente, o que me trouxe aqui foi não desistir. Não desistir dos meus sonhos. Então, sonhem. Sonhem alto. E vamos atrás desse sonho. Porque desistir, jamais”. E quando eu vi, eu falava: “desistir” e elas gritavam: “jamais”, junto comigo. E aí elas já estavam gritando “Desistir, jamais”, junto comigo. Que virou... Na verdade, eu falei esse ano, antes do final do ano, eu vou tatuar no braço “Desistir jamais”, que é justamente o que me fez chegar até aqui. Então quando eu olho pra mim, hoje, eu digo assim: “Eu sou uma mulher de sucesso”. Não pelo tanto que eu faturo, não pelo sucesso da minha empresa. Mas eu sou uma mulher de sucesso. Uma mulher preta que saiu de onde eu saí. E que conseguiu se reinventar tantas vezes nessa vida e que continua se reinventando, por si é uma mulher de sucesso. Então, isso eu passei a aceitar melhor e aprender a aceitar que, de fato, que bom, eu sou uma mulher de sucesso. Até pra poder ensinar outras mulheres, que quando a gente tem sucesso, é bom a gente comemorar, é bom a gente agradecer. “Ah, ele não foi de graça”. Nunca é. Foi com muito trabalho, muita dor, sentando na cadeira espinhosa que eu sento até hoje. Porque você dá a cara pra bater, mas pensando que, de fato, compartilhando isso, você pode mudar a vida de alguém que sonha. Compartilhando essa experiência, você pode tentar construir um mundo melhor. E é isso que eu acho que a gente tem que tentar na vida. Não passar por ela sem tentar transformar alguma coisa. 

 

P/1 - Eu queria saber sobre maternidade, bem rapidinho. Como foi pra você se tornar mãe? Como é ser mãe da Helena? O que a maternidade representa na sua vida?

 

R - Vamos lá! Helena nasceu de inseminação. E foi, de fato, uma filha muito desejada. Eu perdi a minha primeira gravidez. Eu tive um aborto espontâneo na primeira gravidez. Foi a primeira inseminação que eu fiz. E isso me deixou, assim, muito devastada nos meus sentimentos. Me sentindo muito impotente com aquele aborto. E aí o que eu fui descobrindo no outro oposto, é que tinham muitas mulheres que passavam por essa experiência, mas que não compartilhavam. Principalmente na sua primeira gravidez. Era uma coisa mais comum do que a gente imaginava. Algumas nem sabiam que estavam grávidas, então tinham acabado ali sofrendo o aborto espontâneo, mas nem tinham o conhecimento. E aí, naquele momento, eu falei: “Poxa, se outras pessoas tivessem compartilhado isso, eu acho que a minha dor seria menor. E não uma coisa que eu acabei vivendo, achando que outras mulheres fossem muito mais poderosas na questão da maternidade, na questão de gerar”. E aí, na minha segunda gravidez, eu fiz uma segunda inseminação e aí acabei engravidando da Helena. E, pelo outro oposto, eu dizia assim: “Eu não vou parar nada na minha vida. Eu vou continuar, exatamente, na mesma velocidade, no mesmo ritmo, porque se tiver que vir, vai ter que vir do jeito que é, porque eu não vou parar a minha vida”.  Então eu sempre tive uma gestação desses opostos. De: “Ah, descansa um pouquinho” “Não. Não vou descansar. Porque, se tiver que vir, vai ter que vir forte”. Então eu sempre pensava isso, que era uma forma de punição. Olhando bem pra isso, era uma forma de poder me punir sobre aquilo que tinha acontecido. Mas eu tive uma ótima gravidez com a Helena, eu não tive enjoo. Eu tinha uma energia enorme de fazer as coisas, de fazer acontecer. E aí a Helena vem prematura. Então eu que sou uma pessoa que, como produção, adoro me programar para tudo, (risos) simplesmente chego numa consulta e sou surpreendida pelo médico dizendo: “Olha, vai nascer hoje”. E eu: “Como assim hoje? 34 semanas. Faltam mais algumas semanas. Pelo menos mais seis semanas aí, (risos) pra completar quarenta semanas”, “Mas não, é 34. E vai nascer hoje. Então você vai pro hospital”, “Como hospital? Eu queria ir pra uma clínica, um parto holístico. Calma lá, eu não me programei pra isso” (risos). E aí eu me lembro como hoje: o meu marido é músico e ele estava no Rio de Janeiro pra fazer o lançamento do primeiro CD da Vanessa da Mata. E aí eu saio e ligo pra ele: “Oi”, querendo falar calmamente: “Escuta, amor, é o seguinte: vai nascer hoje. Eu sei que amanhã é o show de lançamento, hoje vocês estão ensaiando, (rindo) mas será que você poderia voltar pra São Paulo, porque vai nascer hoje?” “Como assim?” Aquela loucura toda de gravidez. E a minha mãe ligando pro meu pai: “Valter, vai nascer hoje. Tem que pegar as coisas” e tal. E eu ali, tentando me manter naquela tranquilidade, no meio do furacão. E aí eu lembro que eu vim pra casa, fiz a mala e tal. E aí fui pro hospital. Logo depois, um pouco mais tarde, o Swami conseguiu voltar. E a Helena nasceu naquele dia, de parto normal, 34 semanas. Quando eu cheguei, de manhã, eu já estava em trabalho de parto, quando eu fui pra consulta médica. E aí a Helena, assim, foi crescendo, entendendo justamente que os pais trabalhavam. Entendendo que as mulheres têm a sua voz, o seu lugar. E pra mulheres pretas é diferente. Talvez não tão forte quanto a minha criação, mas nunca omitindo a questão do racismo estrutural e entendendo isso, entendendo as barreiras de desenvolvimento que ela teria. Hoje a Helena completa dezoito anos. Terminou aí o seu primeiro semestre na ESPM, fazendo Relações Internacionais, que é uma coisa que ela adora. E quer fazer estágio na ONU. E tem todos os seus sonhos. O que a gente fala pra ela é: “Sonhe muito alto. E vá atrás dos seus sonhos. Óbvio que, pra você ir atrás dos seus sonhos, precisa se preparar. Então se você quer isso, vá fazer línguas. Vá estudar. Vá olhar o mundo de forma diferente”. E a gente sempre quis trazer esse convívio diferente de pessoas que vinham até em casa e que falavam línguas diferentes, que era o que a gente podia fazer naquele momento pra que ela se inspirasse a abrir, também, esse grande ambiente e esse mundo na sua frente, entendendo que ela pode estar em qualquer lugar que ela quiser. E a gente tem muito orgulho dela. Muito orgulho de entender como ela lida com os dilemas e as pressões, com a questão dos grupos dentro das constituições sociais, aí, que são a sobrevivência. Como ela sobrevive dentro disso e consegue enxergar o outro.

 

P/1 - Dilma, quais são os seus sonhos?

 

R - Olha, eu já sonhei com tanta coisa e conquistei. E já transformei esses sonhos em outros sonhos. Mas eu acredito, assim, que a gente possa ter muitos sonhos. O meu sonho, hoje, é fazer a “Outra Praia” crescer. É fazer a “Outra Praia”, realmente, se fixar num lugar, que ela está se fixando, trabalhando com alguns clientes grandes, crescendo. Mas crescendo de uma forma que ela consiga cocriar, que ela consiga se relacionar com pessoas. E que ela consiga fazer do produto entregue, um produto feito com gente. Porque pra gente falar de comunicação, não tem como a gente falar, se não for pra gente. Então eu acredito muito nesse caminho da “Outra Praia”. Um caminho mais leve, porque eu acho que a pandemia nos trouxe essa oportunidade, um caminho com visão mais social, mais sustentável. Então isso é um dos sonhos que eu tenho. Outro sonho é continuar inspirando pessoas que eu mentoro, pessoas que eu palestro, pessoas que eu tenho contato. Eu sempre acho que, se a gente mudar uma pessoa nesse mundo, já fez todo sentido a nossa existência. Se você mudar dez, então, o seu sentido é ampliado. Eu sempre procuro sonhar com isso. Mas eu tenho o sonho ainda de viajar pra outros lugares e conhecer outras culturas. O sonho de trocar muito mais informações. O sonho de fazer um intercâmbio, pra continuar estudando inglês. Assim, um sonho de poder morar um tempo fora do Brasil, pra aprender coisas diferentes, depois voltar e poder aplicar aqui. Eu tenho muitos sonhos. Eu acho que o que eu não paro é de sonhar e de querer realizar.

 

P/1 - Nossa, eu ficaria horas te ouvindo, mas queria saber se você gostaria de acrescentar alguma coisa que eu não tenha perguntado, instigado. 

 

R - Ai, acho que perguntou sobre tudo. E não tenho, assim, uma coisa pra acrescentar. Acho que o que fica aqui é que as coisas, na vida, vão se transformando e vão mudando. Nada é congelado, pra sempre. A gente precisa pensar sempre que a gente pode sonhar. A gente precisa sempre pensar que, se a gente sonha, a gente tem que ir atrás daquele sonho. E, se a gente vai atrás, a gente tem a possibilidade de chegar próximo e de realizar. Acho que, se eu tivesse que deixar aqui uma frase, seria a frase que, pra mim, é a minha tatuagem: desistir, jamais.

 

P/1 - Obrigada. Obrigada. Obrigada. Eu queria muito estar [de modo] presencial pra conseguir dar abraço, mas te agradeço muito pelo seu tempo. Desculpa ter ido até um pouco além. Foi muito gostoso. O tempo passa muito rápido. Te agradeço muito por ter compartilhado. Bru, quer falar alguma coisa?

 

P/2 - Ai, Dilma. É a minha segunda entrevista, mas eu acho que eu vou continuar chorando em todas. Eu fico muito emocionada de você poder compartilhar a sua história com a gente. Nossa, é inspirador mesmo. Muito obrigada. Eu agradeço.

 

R - Imagina. Obrigada vocês, gente. Eu fiquei muito emocionada, assim, quando a Luiza me ligou falando: “Ah, aqui é do Museu”. A Raquel me ligou da EY: “Dilma, a gente escolheu você pra dar um dos depoimentos”. Eu falei: “Gente, eu não acredito”. Aí a Luiza: “Não, porque o Museu da Pessoa...”. Eu falei: “Gente, olha que demais!”, poder falar pra minha filha: “Filha, leva os meus netos lá pra poder, ou entra aqui pra ver quem é, quem sou eu” e tal. Eu fiquei muito feliz com isso.

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