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Desinventando e inventando

História de: Washington Olivetto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/10/2017

Sinopse

Washington Olivetto falou sobre aspectos de sua vida pessoal, sua infância em São Paulo, as influências que os avós e tios tiveram na sua formação. Refletiu sobre a grande vantagem que o hábito da leitura, adquirido muito cedo, e o talento natural para a publicidade proporcionaram. Ganhador de vários prêmios como publicitário, relatou a grande experiência que foi trabalhar na DPZ e, posteriormente, criar a própria agencia de publicidade, a W Brasil. Fez considerações sobre a importância de conviver com pessoas diferentes, de outras áreas, especialmente da música. Falando do nascimento de seus filhos gêmeos, afirmou que a necessidade de renovar impulsiona o seu trabalho.

História completa

Eu me chamo Washington Luís Olivetto, Washington Olivetto. Nasci na cidade de São Paulo, no dia 29 de setembro de 1951. Meu pai, muito jovem, resolveu não mais estudar para ganhar dinheiro. Foi ser vendedor, coisa que sem dúvida nenhuma mexeu muitos anos depois com a minha vida. Lígia, a irmã de meu pai, tinha uma obsessão por mim, por ser o único sobrinho. O casal Lígia e Armando não tinha filhos, então, eu era muito paparicado. Meu tio Armando era um fanático por futebol, por isso eu virei corintiano! Quando a minha irmã estava pra nascer, eu tive um problema que virou uma vantagem: uma enorme febre que não se sabia o que era e que me deixou quase um ano sem andar. Foi quando eu aprendi a ler e a escrever, com quatro pra cinco anos.

 

Eu estudei num colégio de freiras no primário. De lá eu saí para um colégio de padres, os Agostinianos. Como eu lia muito desde criancinha, escola pra mim sempre foi muito fácil. Tanto que eu entrei em tudo quanto era faculdade com 17 anos de idade, sem ter estudado. Quando acabei o ginásio, cometi um erro. Como todos os meus amigos iam pro curso Científico, eu fui. E fui um fracasso rotundo no primeiro ano! Quando chegou no segundo semestre, eu percebi que seria reprovado e me transferi para o curso Clássico de um colégio chamado Colégio Paes Leme, na Rua Augusta, que tinha umas meninas lindas na classe e só tinha coisa que eu gostava. Fui muito feliz por muito tempo. Eu lia muito e era uma coisa que desembocou na minha profissão: um bom fazedor de frases, o que, naturalmente, encantava quem eu queria encantar, fossem possíveis namoradinhas ou mães de namoradinhas. Eu era um menino de classe média, muito média, muito bem abastecido de privilégios de meninos de classe mais alta porque somava os esforços do meu pai com os paparicos da minha tia. Aí eu já saía muito. Eu já tinha uma relação muito forte com a galera da música popular. E fui ficando amigo de todo mundo.

 

Quando eu era pequeno, queria ser uma dessas coisas que agradam: centroavante titular do Corinthians e da seleção brasileira ou o Mick Jagger. Na adolescência, misturando a vontade de escrever com o trabalho de vendedor do meu pai, eu descobri que queria ser publicitário. Tanto assim, que eu credito o fato do reconhecimento profissional que fui obtendo como publicitário ao fato principal de que, da turma com algum talento da minha geração que foi pra publicidade, eu era, sem dúvida nenhuma, o que mais queria ser um grande publicitário.

 

A minha tia me obrigou a fazer duas faculdades, uma de manhã e uma de noite, uma de Comunicações e uma de Psicologia. No curso de Comunicações, eu estava matriculado em duas, pra ficar escolhendo. Um dia, eu estava indo pra faculdade que fazia de manhã e furou o pneu. Eu falei: “Ah, não vou trocar o pneu.” Aí, eu vi escrito na frente: HGP Publicidade. Eu estava com 18 anos, duas faculdades, matando aula em todas. Constrangidíssimo de viver de mesada, porque eu queria ter individualidade. Eu falei: “Ah, preciso pedir um estágio”. Era uma agência pequenininha, eu não sabia a hierarquia de uma agência e falei que queria falar com o dono: “Olha, eu queria um estágio aqui porque meu pneu furou e o senhor está no seu dia de sorte, porque eu vou ser muito bom se o senhor me der o estágio. Meu pneu não fura na mesma rua duas vezes.” Ele gostou. Eu comecei o estágio e dois meses depois eu fui contratado.

 

Aluguei um apartamento pra mim, minúsculo. Ia fazer 19 anos. O primeiro comercial que eu escrevi ganhou um prêmio em Cannes, um Leão de Bronze. Aí, eu fiquei conhecido e fui parar na DPZ, que era a grande agência, a grande escola. Eu fui pra DPZ prepotentemente, querendo ser o melhor publicitário do mundo, ser o mais bem pago. No momento que eu percebi que tudo o que dava pra ser feito lá eu já tinha feito, eu brincava que a DPZ era o único caso de um sanatório administrado pelos próprios loucos, incluindo eu, eu resolvi fazer minha própria agência. Eu era muito feliz na DPZ. É muito curioso, quando você tem uma circunstância que nem a minha, muito bem pago, muito paparicado, muito não sei o quê, fazer isso é muito corajoso. É como se você atravessasse de uma montanha para outra, no meio tem um penhasco, só que a distância é de 15 centímetros. Basta você esticar a perna e acabou. Mas, você olha o penhasco. No início, teve uns 15 minutos de pânico, mas depois, tudo bem. Depois, na W Brasil, fizemos escritórios fora, uma série de coisas. Não dá pra parar nunca. Minha atividade não é uma atividade que você possa se vangloriar do que você já fez, o trabalho envelhece muito rapidamente. A atividade importante é a que você vai fazer amanhã cedo.

 

Tem uma coisa que eu recomendaria pra qualquer garoto que estivesse assistindo isso agora. Acho que uma coisa que fez um bem danado pra minha vida, que eu fui racionalizar depois, foi o fato de que eu, intuitivamente primeiro, e organizadamente depois, ter quando muito novo sempre convivido com gente mais velha e depois de mais velho, sempre convivido com gente mais nova. Acho que é isso que faz a minha vida. Assim, como profissional, foi o fato de eu, sempre que fui empregado, me comportei como se fosse o dono, todas as responsabilidades, tudo. Quando eu passei a ser o dono, passei a me comportar como se fosse empregado, o que chega primeiro, é mais cordial. São pequenos truques que vão fazendo as coisas.

 

Editado por Raquel de Lima


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