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História

Desenvolvendo pessoas no mercado e na sala de aula

História de: Virgínia Heimann
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2021

Sinopse

Origem da família. Brincadeiras de infância e paixão por desmontar coisas. Educação Montessori e paixão pela matemática. Mudança de escola no Ensino Médio e interesse pela Engenharia. Faculdade de Engenharia Mecânica e conhecendo melhor a área de desenvolvimento de software. Pós-graduação em Sistemas Computacionais, mudança de interesse e se estabelecendo na gestão de equipe. Desafios em conciliar o pessoal com o profissional. Desigualdade de gênero na área de tecnologia. Experiência como professora universitária. O prazer de ter sido mãe. Importância da família e de seus valores.

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História completa

P/1 – Boa noite, Virgínia, tudo bem?

 

R – Boa noite! Tudo bem, e você?

 

P/1 – Tudo ótimo! A gente vai começar a nossa conversa com a pergunta mais básica: eu gostaria que você me dissesse o seu nome completo, data de nascimento e em que cidade você nasceu.

 

R – Sim. Meu nome é Virgínia de Melo Cunha Heimann. Nasci em Recife, Pernambuco e a data de nascimento é oito de março de 1972.

 

P/1 – Qual o nome de seus pais, Virgínia?

 

R – Meu pai se chama Gilberto Linhares da Cunha e minha mãe, Maria de Oliveira Melo Cunha.

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho duas irmãs.

 

P/1 – Elas são mais novas do que você? Como você está, nessa escadinha?

 

R – Tá, eu sou a caçula. Minhas duas irmãs são gêmeas. Uma já faleceu, de câncer, mas a outra está bem, graças a Deus!

 

P/1 – E qual a ocupação dos seus pais, Virgínia?

 

R – Meu pai e minha mãe atualmente estão aposentados, têm 82 anos e 81, respectivamente. O meu pai era representante comercial, vendia tanto moda masculina, quanto feminina, e minha mãe era advogada.

 

P/1 – Vamos começar a falar um pouco da sua infância, Virgínia: você se lembra da casa onde você morava com sua família, das brincadeiras que você fazia, quando você era criança? Conta um pouco pra gente.

 

R – Lembro, sim. Nós morávamos em apartamento, era no nono andar, o último andar de um edifício. Brincava de tudo (risos), de patins… Eu me lembro bastante brincando de patins, embaixo, no prédio, das quedas que eu levava. (risos) Minhas irmãs me socorriam. Eu me lembro de veraneio também, a gente alugava uma casa em uma cidade aqui perto, que é praia também, chamada Olinda. E lá foi muito bom, porque foram vários anos que a gente alugava a mesma casa e a gente teve uma turma que brincava bastante também. No meu dia a dia lógico que eu brincava também de boneca, mas eu adorava era desmontar as coisas. Desmontar e montar. Ficava assim: quebrava qualquer coisa em casa, eu já estava pegando para desmontar. (risos) Gravador, ventilador, telefone… Isso me divertiu bastante. (risos)

 

P/1 – E a sua família, tanto por parte de pai, quanto por parte de mãe, também são pernambucanos ou vieram de outra região, alguma outra cidade?

 

R – Vieram do estado do Rio Grande do Norte, tanto meu pai quanto a minha mãe. Meu pai veio do interior, nasceu na fazenda e aí depois minha avó veio para Natal, que é a capital do Rio Grande do Norte. Foi onde minha mãe conheceu meu pai; moravam no mesmo bairro, vamos dizer assim, mas até então moravam no interior.

 

P/1 – E você sabe por que eles vieram para o Recife?

 

R – Sei a história toda. Meu pai, antes de ser representante comercial, trabalhava em lojas de roupa masculina para vender e ele assumiu a gerência. Recebeu um convite para ser gerente de uma loja aqui em Recife, foi o que fez ele mudar para a capital de Recife, em Pernambuco. E, a partir daí, noivou com minha mãe, eles já tinham muitos anos de namoro. 

Eles me contam situações do tipo: para falar um com o outro tinha que marcar o dia e horário no posto telefônico. Não existia o telefone dentro de casa. Quando a gente pensa isso hoje em dia, que a gente tem um celular que passa mensagem instantânea etc... Não, eles marcavam domingo, tal hora meu pai tem que ir pro posto aqui em Recife e minha mãe teria que estar no posto telefônico em Natal, para receber a ligação dele.
Depois daí eles já estavam noivos. Minha mãe era, na época, professora, não era advogada ainda. Ela veio estudar depois que eu nasci, na verdade, Direito, que já era um sonho dela. Eles se casaram e vieram aqui para Recife. Quando tiveram [filhos], depois teve minhas irmãs e só sete anos depois criaram coragem para mim, (risos) porque ela também disse que eram bem mais complicadas as coisas em relação a... Não existia nem fralda descartável, por aí você tira, né? E com gêmeas e longe da família, precisou desses sete anos (risos) para criar coragem para mim.

Eles têm uma história muito bonita de amor, de companheirismo, e até hoje eles estão assim, [com] 53 ou 52 anos de casados. Meu pai é um eterno romântico; todos esses anos dá um buquê de rosas no aniversário de casamento - inclusive na pandemia agora, que a gente precisou ficar mais dentro de casa, eles na casa deles e eu na minha, para protegê-los, tive que comprar um buquê on line pra entregar lá, para ele poder fazer a surpresa e entregar para ela. Ele pegou no elevador, entregou para ela e ficou muito feliz de conseguir manter essa tradição. E ela também. (risos)

 

P/1 – Você tinha algum sonho de infância, Virgínia?

 

R – Sonho de infância, especificamente, não que eu lembre. Eu sempre gostei muito de estudar, então eu tinha realmente esse sonho de fazer o mestrado, um dia, de poder me especializar na área que eu fosse escolher, mas na infância eu gostava muito era de brincar mesmo. Graças a Deus eu tive o privilégio de poder brincar, de poder ter uma infância e ir pro colégio com tranquilidade, ter minhas refeições com tranquilidade, tanto no colégio, quanto em casa. 

Eu não ficava muito, confesso, preocupada com o que ia acontecer quando eu estivesse maior, a não ser saber que eu queria estudar. Eu sempre tive esse hábito, na verdade, por orientação; minha mãe sempre estava muito perto da gente pras tarefas de colégio, de buscar, trazer. Se não tivesse o dever de casa, ela inventava, pelo fato dela ser professora, né? Ela fazia questão. Eu me lembro que ficavam as três na mesa, cada uma com suas atividades. E ela foi fazer Direito, eu sempre a via estudando muito, então era um exemplo para gente, ou trabalhando muito também.

Meu sonho era esse. É aquela história: pra ser alguém na vida, tem que estudar.

 

P/1 – Falando de escola, quais são as primeiras recordações que você tem da escola?

 

R – Ah, eu tenho, que nem você falou, brincando no parquinho, com pneu. A minha escola tinha um método Montessori, era uma das poucas escolas aqui em Recife que aceitavam alunos com algum tipo de deficiência. Isso foi muito bom, minha mãe e meu pai terem a sensibilidade de me colocar numa escola desta, porque hoje é que existe uma consciência maior da necessidade dessa inclusão. Na verdade, é a gente que está sendo incluído dentro da realidade, porque a realidade é realmente ter pessoas com necessidades especiais. 

O fato de ter um método Montessori, que era… Tinha um brinquedo de cada; você tinha que compartilhar os brinquedos, não tinha o mesmo brinquedo para todos os alunos na sala. Se eu quisesse o mesmo brinquedo de outro aluno, ou esperava terminar de brincar ou brincava junto com ele, se fosse um brinquedo possível de compartilhar. O sentimento de compartilhamento, de inclusão, já veio lá desde o início. 

Voltando para tua pergunta em relação a que brincadeira [eu gostava], eu [me] lembro [de estar] brincando nesse parquinho, porque os brinquedos eram muito simples - fazia parte do propósito da escola. Era pneu de carro pintado, coloridinho: tinha um rosa, um verde, um azul, um amarelo e a gente brincava. Brincadeira de queimada, brincadeira de elástico… Eram brincadeiras desse tipo que aconteciam no recreio e sempre [com] a preocupação da inclusão porque, por exemplo, eu lembro de ter, na minha sala de aula, pessoas cadeirantes e eram da mesma idade de que eu, menino, e a gente dava um jeito dele brincar com a gente, entendeu? Eu lembro bastante disso, no recreio tinha a preocupação dele brincar também.

 

P/1 – E durante seu período do atual ensino fundamental - atualmente se chama assim - você tinha alguma matéria que te interessasse mais, algum professor que tenha te marcado, por algum motivo?

 

R – Olha, eu tenho Matemática, né? Minha paixão! Matemática, número, sabe? Aquilo ali me encantava, entender a lógica por trás daquilo tudo. 

Tive uma professora, Sônia... Eu passei, na verdade, em três escolas, até chegar no vestibular. Tive essa primeira que eu falei, que era uma escola Montessori; fui mais ou menos até o que antes era o terceiro ano, que agora seria o quarto ano. E, do quarto à oitava série, que seria do quinto ao nono ano, eu fiquei em outra escola, aí já fui para uma escola religiosa, no caso católica. E lá tive uma professora, a Sonia, de Matemática. Ela ensinava muito bem, aí é aquela história: não sei o quanto eu me apaixonei pela Matemática porque gostava da professora, ou quanto a Matemática fazia eu gostar da professora. (risos) Não sei te responder, mas era Matemática e na sequência veio a Física, quando eu tive contato com a Física. Eu conseguia ver na natureza algumas coisas da Física e isso me encantava; conseguia entender algumas coisas que eu via, eu sentia, com o entendimento da matéria da Física. Então, [são] as duas que mais eu lembro.

 

P/1 – E em relação a esse seu período ainda do ensino fundamental, para você essa mudança de escola te deu algum choque, alguma dificuldade de adaptação?

 

R – Não que tenha ficado na minha memória porque eu gostava de mudança e de conhecer pessoas novas, ou pelo menos foi trazido com essa forma positiva de mudança, pelos meus pais. E foi bem tranquilo, tanto é que eu tenho amigas de colégio, então não vi. Não ficou nada registrado em mim que não gostei, ou que reclamei, não.

 

P/1 – E na passagem do fundamental para o ensino médio, você mudou de escola novamente, começou tudo de novo?

 

R – Isso, mas aí já fui eu que queria. Por quê? Porque a escola que eu estava ia até a oitava série, que seria o nono ano hoje e ia até a primeira turma do que era científico, hoje é o ensino médio. E eu disse: “Não, não quero arriscar em cima da questão do meu sonho. Eu quero passar no vestibular, quero me formar, quero ser alguém na vida”. (risos) Era isso que eu tinha na cabeça. 

A minha mãe e meu pai sempre deixaram a gente com algumas autonomias. Era aquela história: eles sempre confiaram muito, davam as opções. Não que eu tivesse as opções: “Vá para qualquer colégio”. Não, porque tinha que caber no bolso, no orçamento. Eu tinha as opções e eles me deram duas opções: um dos colégios era o que as minhas irmãs tinham frequentado e tinham passado - nessa hora elas já estavam na faculdade. Pela diferença de sete anos, quando eu fui tomar a decisão de ir para o ensino médio, em outro colégio, outra escola, elas já estavam na faculdade, uma cursando Farmácia e outra Direito. 

Tinha outra opção, que era uma escola, um colégio também religioso, mais tradicional e que tinha desde o maternal até o científico completo. Como eu já tinha uma raiz muito forte na questão da religião católica, criei grupos de jovens dentro desse colégio que eu estava, do ensino fundamental, eu disse: “Não, eu quero ir para um colégio, continuar na linha cristã, porque eu acho que tem que complementar”. E o outro colégio das minhas irmãs era estilo um cursinho, muito bom, excelente, na época era aquela história: entrava lá, todo mundo passava, mas eu quis não só ter a questão do conteúdo de matéria, mas também de conteúdo como pessoa. Minhas irmãs são ótimas, também são religiosas, por causa dos pais, mas eu queria me aprofundar mais nisso e aí tomei a decisão de ir para outra escola e meus pais aceitaram a decisão, me matriculei e fui. E foi ótimo, maravilhoso. (risos) Tenho amigas lá também até hoje.

 

P/1 – E nesse seu período já de adolescência, vão mudando os gostos, vão mudando os costumes. O que você gostava de fazer no seu tempo livre, nesta sua época do científico?

 

R – Além de gostar de estudar, que eu sempre gostei, (risos) eu gostava de estar envolvida em algumas ações sociais, ligadas ao grupo jovem, então a gente sempre tinha alguns eventos para fazer. Mas eu gostava também de ir à praia, gostava muito de shopping, de cinema. Meu pai brincava que eu tinha que bater ponto no shopping todo sábado à tarde. Encontrava com a turma do colégio e lá pegava cinema e depois lanchava na praça da alimentação do shopping. Ele dizia: “Como é que você não enjoa?”, porque todo sábado eu pedia a ele: “Pai, me leva no shopping”. E ele: “Não deve ter mais nenhum filme para você assistir.” “Tem, ou senão vou encontrar o pessoal, para lanchar.”

Eu lembro bastante de ter isso no shopping, no sábado. E no domingo, aqui em Recife tem dois clubes e um deles chamavam de matinê na época, que era dançar. Era música ao vivo, que hoje seria DJ, né? Ficavam tocando as músicas e o pessoal jovem ia para lá, pagava ingresso e entrava no clube; tem um salão, onde tinha no palco o DJ, vamos dizer assim, com o som. E eu gostava de ir domingo de tardezinha, na verdade era depois da missa, porque eu ia pra missa todo domingo; depois da missa a gente encontrava também o pessoal do sábado, batia ponto no shopping e batia ponto no clube, na matinê. (risos) Era muita diversão, exceto em semana de prova. (risos) 

 

P/1 – E você já pensava, nessa época do ensino médio, que você faria Ciência da Computação?

 

R – Não. Eu sabia que eu ia para a área de Exatas, por todo esse histórico da paixão pela Matemática. E não era tão desenvolvida essa parte, não tinha opções, não tinha os cursos que tem hoje. Tinha um curso na universidade federal apenas, aqui, ou numa particular, que era bem cara. 

Prestei o vestibular em Ciência da Computação na federal e prestei Engenharia Mecânica, minha paixão da Física era mecânica, na universidade estadual. 

Eu não sei se eu posso continuar a história… Eu não passei na universidade federal e passei na estadual. E fiquei feliz da vida, porque eu acho que, na verdade, eu achava que ia ser engenheira mecânica. Só que existia um outro curso aqui, profissionalizante, técnico, de dois anos e meio, de computação. Não era curso superior, era um curso técnico, porque na época eram computadores de grande porte, né, os mainframes e não era fácil você ter cursos disponíveis. Então, o que eu fiz? Eu me matriculei no curso técnico e fiz, em paralelo, o curso de Engenharia Mecânica, que meu turno era à noite e fazia o curso... Não, desculpa, era de manhã e fazia o curso à noite, o técnico, nessa outra faculdade. Aí me apaixonei por tecnologia e disse: “E agora?” Porque eu já estava há um ano e pouco e eu não sou muito de deixar as coisas pela metade, sabe? Só se não depender de mim, mas eu termino. Eu disse: “Eu vou terminar a faculdade”, porque eu também adorava o curso de Engenharia. Tudo que eu estava aprendendo lá, eu estudava com muito prazer. 

Eu fiz os dois em paralelo e comecei o estágio na área de desenvolvimento de software, proporcionado pelo curso técnico. O curso técnico viabilizou eu poder estagiar na área de tecnologia. Comecei um estágio que era para ser de seis meses e com três meses fui contratada, aí eu tinha que trabalhar oito horas e ainda tinha faculdade. Foi. (risos) O meu turno da faculdade era de manhã, aí eu tive que começar… Eu disse: “Vou começar a me matricular nas demais disciplinas da noite.” Existia o mesmo curso, só que o meu turno era [de] manhã, que eu tinha passado. Eu tinha prioridade nas vagas da manhã, não tinha prioridade nas vagas da noite, então, apesar de submeter a matrícula a cada semestre nas disciplinas que eu precisava, nem sempre eu conseguia vaga, porque a prioridade era quem tinha o turno da noite como entrada. Às vezes era para pagar cinco disciplinas e eu pagava quatro, ficava uma sem ter vaga, mas eu não podia pagar de manhã porque na hora que eu recebi a proposta de ser contratada, eu ia entrar no mercado de trabalho. Eu já estava apaixonada mesmo por desenvolvimento de software, já sonhava codificando, literalmente dormia e sonhava com um código lá, com o computador, então resolvi aceitar a proposta. Poderia dizer: “Não, eu não posso. Posso ficar como estágio” e fazer essa questão da mudança de fazer um dia a disputa do turno da noite, mas deu tudo certo! 

Terminei me formando com seis anos e não com cinco, devido a não conseguir pagar todos os pré-requisitos, aí terminou estendendo. Mas super valeu a pena!

 

P/1 – E depois que se formou em Engenharia Mecânica, você, que já estava trabalhando na área de computação, continuou na área?

 

R – Ah, sim! Fui fazer a pós-graduação em Sistemas Computacionais, era esse o título, porque eu disse: “Olha, agora eu tenho dois anos e meio de curso técnico, estou trabalhando, já”. Já estava com mais de um ano. Quando me formei, já estava acho que uns dois anos trabalhando mesmo, porque minha contratação foi muito rápida. E fui trabalhar muito, porque era muito trabalho. Toda hora extra que pedia alguém, eu estava lá: “Eu quero, eu quero”, porque eu só via uma forma de aprender e ficar muito boa: praticando. 

Fui fazer Sistemas Computacionais como pós-graduação [por] dezoito meses, com o objetivo de ter uma bagagem que eu não tive na graduação, mais teórica. Na sequência, quando terminou essa especialização, eu já estava em cargo de... Que a gente chamava sistema, na época, eu já liderava uma equipe de desenvolvedores. E, nessa liderança de equipes de desenvolvedores, eu comecei a fazer algumas reuniões bem estratégicas dentro da empresa e vi a necessidade de ter outros conhecimentos de gestão, aí eu fui buscar um MBA, pela Fundação Getúlio Vargas, de Gestão Empresarial, para aprender um pouco de Marketing, aprender um pouco de Contabilidade, um pouco de Matemática Financeira, especificamente, porque eu não tinha visto isso; apesar de ter estudado muito Matemática, não tinha visto durante o curso e precisava. 

Depois, eu já estava em outra empresa. Eu passei catorze anos nessa primeira empresa [em] que estagiei, fui contratada e tive a oportunidade de trabalhar com uma pessoa maravilhosa - não sei se aqui a gente pode citar… Então, tá: Belarmino Conforado. É uma pessoa maravilhosa, que era uma pessoa muito visionária, muito inovadora. É daqui da região também e me ensinou muito. Pelo fato de eu já estar tendo acesso a diretores, subindo profissionalmente, liderando já uma equipezinha, fui tomando mais ainda gosto pela profissão, porque eu conseguia ver onde que eu podia chegar, com aquela profissão que eu tinha seguido. Mas eu recebi uma proposta em outra empresa que, na verdade, apesar de eu estar liderando - vou confessar aqui - fiquei num dilema: se eu queria ir para área de gestão ou se eu queria continuar desenvolvendo software, codificando porque  quem gosta de codificar, gosta muito, muito mesmo. E aí eu disse: “Meu Deus, eu não quero ficar sem codificar, sem desenvolver alguma solução. Acho que eu não vou querer ir para área de gestão, não”. Aí fui para outra empresa, porque eu já estava só na área de gestão, não programava mais nada. Fui para outra empresa, voltar a desenvolver, só que não deu seis meses, eu já estava liderando a equipe de novo. (risos) Com um problemão lá, em relação a integrar vários sistemas. Como já fazia um tempo que eu não estava muito, vamos dizer assim, como aluna, aprendendo, [adquirindo] conhecimento, eu disse: “Eu preciso voltar para Academia. Já faz tempo que eu me formei, eu preciso me atualizar e queria agora me aprofundar nesse problema, que é de integração de software”. 

Fui buscar o mestrado e eu tive a oportunidade de um projeto, na verdade, que precisava de cinco empresas. Vou dar um passinho atrás para explicar o porquê, como é que eu consegui o mestrado, pensei em mestrado: a empresa que eu trabalhava, como eu disse, eu estava liderando uma das dez equipes envolvidas na integração de software, precisava… Tem um projeto aqui que é chamado, dentro do parque tecnológico do Porto Digital, junto com a universidade federal, que pediu para cinco empresas participarem de um projeto junto com uma professora, a Karina Frota. A empresa que eu trabalhava disse: “Virgínia, você vai participar desse projeto”. Tinha reuniões semanais, mas eu tive um contato com essa professora da universidade federal, já que eu não tinha sido aluna da universidade federal - pra ver as coisas como são, né? Quando tem que ser, o mundo dá voltas e coloca você no lugar onde tem que ser. 

Depois desse projeto que a gente fez lá, mais quatro empresas, ela disse: “Por que você não escreve um artigo sobre essa experiência que a gente passou aqui?” Eu disse: “Eu nunca escrevi um artigo na minha vida”. Ela: “Escreva o que está aqui, não sei o que lá, a gente se reúne e você me mostra.” Aí, eu: “Tá, vou escrever um artigo.” Comecei a escrever, levei pra ela ver e ela não gostou: “Não, você não pode escrever assim o artigo científico. Tem que ser assim, assim, assado.” Eu era acostumada só com a prática, né? “Vá, faça de novo, com essas orientações.” “Tá, entendi.” 

Escrevi a mesma coisa, só que com um olhar de pesquisadora e não com olhar de desenvolvedora. Escrevi de outra forma e ela diz: “Agora vamos fazer esse ajuste aqui, não sei o que lá, as referências e vamos submeter.” 

Ela já me preparou psicologicamente: “Olhe, artigo não é fácil de ser aceito, não. Às vezes a gente tem que submeter uns cinco, uns dez, para ser aceito um”. Aí eu: “Está certo”. Mas a gente submeteu para um congresso latino-americano e ele foi aceito. Aí ela disse: “Tá vendo que você tem muito o que escrever e mostrar para a comunidade, de toda essa experiência que você já tem?” 

Fui lá apresentar o artigo e ela ficou: “Vamos fazer mestrado, eu vou ser sua orientadora”. Até hoje ela é minha grande amiga. É maravilhosa, ela. Fui fazer o mestrado ligado ao problema, porque eu acho que Academia e empresa, quanto mais juntas caminharem, mais longe elas chegam. Tanto no lado acadêmico, de formação dos alunos que são profissionais voltados para uma realidade, quanto as empresas conseguem melhores profissionais e também alcançam resultados mais rápido, vão mais longe. 

Quando fui fazer o mestrado com um problema específico que eu estava vivendo, foi tranquilo em relação ao que eu tinha que pesquisar. O que tem de mais complicado para fazer mestrado e doutorado é ter o problema. Quando você tem o problema, aí você usa todas as metodologias de pesquisa, com seu orientador/orientadora e você chega num resultado que vai dar uma contribuição para a comunidade, seja acadêmica ou até a uma comunidade de negócio. Fiz o mestrado e isso fez com que [se] abrissem outras possibilidades, de também dar aula depois, mas aí é outra história. (risos)

 

P/1 – Mas eu quero saber dessa história também, é algo que eu ia te perguntar, sobre a sua atuação como professora. Como surgiu, o que você achou?

 

R – Só que eu queria fazer assim… Não sei se eu posso dar um parêntese que, enquanto tudo isso estava acontecendo, eu estava... Conheci meu marido, estava casando, estava tendo um filho; sempre é um desafio para a mulher, principalmente. Eu sei que para o homem também é, mas para a mulher, seguir uma carreira que exige muito em relação a você estudar, a se manter atualizada, porque você tem que ter o tempo para trabalhar e o tempo para se especializar e, ao mesmo tempo, ter toda essa tua vida pessoal, também precisa de sonhos sendo realizados. 

Você perguntou: “Você tinha sonhos, na adolescência?” Além de querer ser alguém na vida, eu tinha o sonho de ter uma família, tinha sonho de ter filhos. Isso tudo estava acontecendo. 

Um parêntese: conheci meu marido no primeiro dia de aula da faculdade, perguntando onde era a sala de aula. Ele era da minha sala de aula e  fez: “É aqui”. E assim a gente se conheceu. 

O desafio, vamos dizer, ou os desafios que a gente enfrenta em uma carreira, principalmente para as meninas, que podem nos ouvir através dessa entrevista, é você buscar pessoas parceiras na sua vida. Eu tive a parceria dos meus pais durante toda minha trajetória de estudante, de profissional, tenho até hoje e tive a parceria do meu marido, que entendeu muito bem que casou com quem vai ficar estudando de madrugada, porque ela gosta de estudar; vai trabalhar muito durante o dia, porque ela gosta de trabalhar; que não tentou me mudar, pelo contrário, foi me incentivando. 

E aí, depois, vêm os filhos. Aí a dica é: façam seus filhos serem seus parceiros também, porque hoje minha filha me ajuda em várias coisas. Às vezes estou muito ocupada, fazendo uma coisa: “Vai fazendo isso” e ela vai fazendo. “Me ajuda com isso daqui”. Ajuda. Ou entender que tem momentos na vida que é mais importante que eu viaje para fazer alguma coisa do trabalho. 

Existe uma definição de equilíbrio que eu vi um dia, que me marcou, que é o seguinte: quando você pensa em equilíbrio na vida, ou melhor, um equilíbrio, você imagina uma pessoa andando numa corda bamba. É um exemplo de equilíbrio. Não consigo andar na corda bamba, mas uma pessoa está na corda e vai andar; ele tem uma varinha que ele segura, que o ajuda a manter o equilíbrio. Se a gente observar bem, essa varinha às vezes é um pouco para a direita e aí ele tem que mexer um pouco o corpo; depois vai pra esquerda, mas ele não consegue chegar do ponto que ele saiu da corda, para o ponto que ele tem que chegar, sem que a varinha vá completamente reta, de um ponto a outro. Neste percurso ele vai precisar ir um pouco mais para o lado ou um pouco mais para o outro. Se a gente leva isso para nossa vida, um lado é o profissional, o outro lado é o pessoal. Vão existir momentos na vida que é um lado que está precisando mais e momentos que é o outro. Se a gente acha que ter equilíbrio na vida é dividir as horas do dia da gente em trabalho, lazer, família, eu não penso assim. Eu acho que ter equilíbrio na vida é a gente ter capacidade de saber para que lado aquele dia precisa mais de você. Se é um dia que eu vou faltar ao trabalho porque a minha filha está doente, eu vou faltar ao trabalho, porque minha filha está doente. Eu nunca dividi o dia em “metade do dia eu vou trabalhar e metade do dia eu vou ficar com ela”. Ela precisa de mim o dia todo, então ela vai me ter o dia todo. Se tem um dia que eu preciso estar o dia todo no trabalho, eu preciso fazer uma viagem e ficar ausente por dois, três dias também, no trabalho, eu vou para a viagem porque é o lado que está precisando de mim naquele momento. Na hora que eu internalizei isso em mim ficou tudo mais leve, porque eu não chego no final do dia com consciência pesada, porque meu dia foi mais para um lado do que para o outro. Não tem pra que a gente ter culpa porque a gente faltou um dia de trabalho porque ficou com o filho doente, nem a gente tem que ter culpa porque a gente viajou. A gente não tem que sair e viajar chorando nem triste, porque vai estar longe dos filhos. Veja, primeiro você tem aquela história da parceria: se você tem parceiros, que podem ser pai, mãe, marido, esposa, uma amiga, uma irmã, o que seja, que fica com aquela sua joia preciosa, que são os filhos da gente - a gente faz tudo por eles - então você vai tranquila e você volta e, quando volta, você tem que estar 100% com ele também. Não adianta estar com o filho e olhando para o celular, estar do lado fisicamente, mas não estar de corpo e alma, não sentar no chão para brincar ou não abraçar. Eu sempre busquei e continuo buscando - é um eterno caminhar - equilíbrio na vida com esse pensamento, sabe? O que está precisando agora de mim, qual lado que está precisando de mim? E o lado que eu achar, naquele momento, que está precisando, eu vou estar inteira nele, porque se não descer para aquele lado, eu vou cair da corda. Em algum momento eu vou cair e não vou conseguir chegar aonde eu quero chegar. A gente não consegue, se não tiver toda essa rede de pessoas que a gente ama junto da gente, entendendo. Tem que explicar por que o lado do trabalho precisa mais, explicar dentro de casa e também no trabalho dizer por que precisa mais do lado de cá. Não tem que ter vergonha de dizer que precisa de um apoio maior do outro lado, porque eu acho que essa transparência na comunicação é que vai formar essa rede, a pessoa vai entender o porquê. Os dois lados vão entender. 

Por exemplo: se a Virgínia não está atendendo meu telefone, é porque ela está com alguém no hospital, da família, uma emergência no médico. Se você fala antes, a pessoa nem passa por essa experiência de ligar para você e não atender. A pessoa nem liga, no máximo passa uma mensagem no final, para dizer: “Está tudo bem? Como é que foi lá? Está melhor, seu filho, seu marido?” É muito de que tipo de experiência você quer que as pessoas ao seu lado tenham ao conviver com você, porque se eu quero que as pessoas do trabalho confiem no meu trabalho, confiem na minha reputação e quero também que as pessoas da minha casa entendam que podem contar comigo, que confiem em mim, pra eu ser a mãe, a esposa, então, isso tudo vai, com o tempo, tirando o peso e transformando um grande, vamos dizer, prazer da vida. Trabalhar com prazer, trabalhar para ser feliz. Não é trabalhar para pagar conta - lógico que a gente tem que pagar a conta, mas a gente tem que unir as duas coisas. Não pode ser só um. A gente não veio aqui no mundo para ser só um, né? 

Por que talvez para a mulher seja mais difícil, dentro de uma profissão, como essa que eu escolhi? Primeiro, na área de engenharia, só eram três mulheres na sala de aula, cinquenta e poucos homens; sempre tive no meio que a maioria era homem. Até hoje, às vezes, eu entro em reunião e sou a única mulher. Já tive equipes que eram só homens. Mas o desafio que você tem, eu acho, pra mulher é maior porque, se a gente não formar essa rede de parceria, a gente vai ter que carregar tudo sozinha - vai ter que carregar a casa sozinha, todos os afazeres da casa, carregar educação dos filhos sozinha, então não é fácil. Como eu disse: eu estou no caminho ainda, mas eu acho que o primeiro passo é a gente não terminar o dia se culpando por nada. Mesmo que você tenha errado a dose desse equilíbrio, que a gente estava falando: “Ah, aprendi. Errei hoje, amanhã não erro mais”. Porque achar que a gente nunca vai errar não vai acontecer. Achar que as coisas não vão mudar, também não vai acontecer. Achar que está conseguindo ter controle de tudo também não vai, porque existem variáveis externas que acontecem no dia a dia da gente que, por mais que a gente tenha planejado, se preparado pra algumas situações, terminam sendo variáveis externas que você não deve se preocupar que não deu certo. E outra coisa: aprendendo como é que eu lido, a não me culpar tanto, aprender também a perdoar o outro. Se eu me permito errar, eu tenho que permitir que o outro erre. E no meu caso, que lido com equipes, numa situação de liderança, é muito importante que eles não tenham medo de errar. 

Aprendi uma frase daquele primeiro emprego para estagiários que eu fui passando, com o Belarmino, _________ do irmão dele, que trabalhava e era meu chefe. Ele disse: “Só erra quem trabalha.” Isso significa que você estava tentando. Você estava tentando fazer aquilo, estava trabalhando, então não tem problema de você errar; você tem que estar perto, para ajudar a pessoa. 

Lembra que eu falei que eu queria mudar de empresa, para ver se eu estava desenvolvendo? Queria voltar pra esse ponto, tá?

 

P/1 – Pode voltar, sim. Só posso te interromper um pouquinho, para saber? Você tinha falado sobre essa questão de poucas mulheres no curso de Engenharia - inclusive, equipes que você liderou, que só tinham homens. Você acha que ainda existe muita desigualdade de gênero, na área de tecnologia? Você acha que isso está mudando, está crescendo ou você acha que as mulheres ainda estão um pouco distantes dessa área?

 

R – Eu acho que temos ainda muita desigualdade de gênero, porque não existe um despertar ainda, eu acho, para um volume considerável de mulheres, para essas profissões da área de tecnologia. Vem melhorando, mas temos muito ainda que consertar. Do lado das empresas existe a busca, já, então não existe, vamos dizer, a barreira de não contratar uma mulher - pelo contrário, há busca até para ter a diversidade para que tenha uma perspectiva diferente dentro do desenvolvimento do software, mas precisa de muitas ações, desde o ensino médio, talvez até antes, para as meninas que gostam de Matemática, ou das que não gostam também, porque tem outras áreas dentro de tecnologia que você não precisa gostar tanto de Matemática. É importante, porque você tem uma questão lógica, mas essa diferença de quantitativo dentro de cursos é notória, é estatística de como tem poucas mulheres em cursos na área de exatas e mais especificamente na área de Ciência da Computação, Engenharia do Software. Precisa ter um trabalho e as empresas estão bem empenhadas, as fundações, em ir nas escolas, mostrar esse tipo de profissão. 

Esse trabalho que vocês estão fazendo é muito bom. Vai ficar um legado que talvez estimule outras mulheres a também gostar da profissão de tecnologia. Eu considero uma profissão muito bonita, porque a gente consegue fazer coisas incríveis. Desenvolvendo software, montando um ambiente mais seguro na área de arquitetura e como [isso] pode transformar a vida. Se você desenvolve alguma solução na área de saúde… O que teria sido toda essa fase desses quase dois anos que a gente está vivendo se a gente não tivesse recursos tecnológicos? Teria sido bem mais difícil do que já foi e do que está sendo, na verdade. 

É estimular as meninas, sabe? Eu acho que às vezes existe a síndrome do impostor, que a gente fala tanto, nas mulheres. Ela, quando vê uma vaga, se ela não tem 100% dos requisitos, ela nem se candidata. Tem que ser mais ousado nesse sentido. Eu falo muito com minha filha: “Deixe que os outros digam o não. Você não diz não para você, não. Eu digo ‘sim, vamos lá, quem quiser que me diga não’”. É assim: quem quiser que me diga o não. Eu não vou dizer não para mim, não! Eu posso, eu consigo, é só afirmação positiva, nada de negativa. (risos) 

Não sei se te respondi.

 

P/1 – Respondeu, sim. Você disse que você queria retornar naquele momento que você saiu de uma empresa e você foi para outra, porque você queria continuar como desenvolvedora. 

 

R – Pronto. Aí eu fui para essa outra, que foi onde teve o projeto das empresas, conheci a professora e fui fazer mestrado. Como eu falei, em seis meses já estava liderando uma equipe; depois, quando eu vi, já estava na gestão da área e aí tive uma outra confusão na minha vida. Eu sei que amo desenvolver software, mas eu gosto mais ainda de pessoas. “Eu vou desenvolver pessoas. Eu vou ficar na área de gestão, eu vou cuidar de equipes, eu vou desenvolver carreiras das outras pessoas. Trazer mais mulheres para área de tecnologia, levantar essa bandeira”, certo? E aí fui me especializar realmente nessa área de gestão. 

Busquei certificação na área de Gestão de Projetos pelo PMI, que é um instituto de gestão de projetos americano. Na hora que, vamos dizer, eu me rendi à carreira de gestão, aí foi que cresceu mesmo, assim, o horizonte em relação à minha profissão. Fui trabalhar, saí dessa empresa; tive a oportunidade de trabalhar numa multinacional, trabalhei por cinco anos nessa multinacional, depois fui trabalhar em outra empresa aqui, do Porto Digital, com outra pessoa que, para mim, é uma referência, que é o Silvio Meira, um dos fundadores aqui do Porto Digital. Foi professor meu no mestrado, na disciplina da Universidade Federal e hoje voltei a atuar numa outra multinacional, com o desafio de trazer essa filial da multinacional aqui para Recife, para a minha cidade, para desenvolver mais pessoas, poder ter pessoas que talvez nem pensavam que um dia iam pra área de tecnologia. Mulheres, homens, porque eles querem ser também na área de desenvolvimento, na área de qualidade. 

Existiu o dilema: Virgínia teve o dilema se ela ia para a área de gestão ou se continuava na área de desenvolvimento, porque existe uma carreira dentro da área do desenvolvimento, que você pode ganhar tanto quanto, financeiramente falando. Mas não foi por aí. Foi mais eu acho que por aptidão. Eu vi que era missão mesmo, era propósito ajudar outras pessoas a crescerem. Um cargo de liderança eu nunca encarei como poder, sempre encarei com responsabilidade - ou seja, o que eu tenho, quando estou no cargo de liderança… Eu não tenho poder, eu tenho muita responsabilidade. Tenho responsabilidade com as pessoas que estão na equipe, tenho responsabilidade com os clientes que contrataram a empresa. Aquela equipe, para poder fazer uma entrega… Aquela entrega deve ter e sempre tem um objetivo estratégico por trás, que vai gerar mais emprego para a empresa dele. Vai gerar mais dinheiro, vai gerar mais emprego, então é muita responsabilidade, nunca é poder. 

Acho que se você encara liderança dessa forma, o peso é maior do que se você encarar como poder, porque a responsabilidade é maior, mas quando eu vejo alguém da minha equipe dizendo que aquelas oportunidades transformaram a vida dele - eu já escutei isso de uma pessoa da minha equipe - você olha para trás e vê que está tudo valendo a pena. Basta a gente impactar uma pessoa, que já valeu a pena. 

Bem, eu já tô me emocionando. (risos)

 

P/1 – Virgínia, você falou bastante sobre a sua experiência profissional, tanto em relação ao desenvolvimento de sistemas, como também na parte de gestão de pessoas, de liderar grupos.  Eu queria saber sobre sua experiência como professora, já que é um campo bem diferente. Como isso aconteceu, como você se sentiu? Como foi essa experiência para você?

 

R – Ah, eu me senti e me sinto muito realizada quando eu estou dando aula. 

Como foi que aconteceu? Depois que eu tinha terminado o mestrado, eu também obtive o certificado na área de gestão de projetos. A gente tinha alguns cursos de pós-graduação de gestão de projetos e exigia-se ter mestrado e certificado para uma certa quantidade de professores dos cursos; eu estava dentro desse requisito, então um colega meu, que já era professor, não pôde dar uma disciplina e me chamou para dar [a disciplina] em uma faculdade. Fiz lá uma avaliação com a coordenação e comecei. 

Quando eu saí da sala de aula eu estava tão feliz, mas tão feliz, depois da minha primeira aula... E foi um sábado inteiro, depois de uma semana inteira, então era para estar exausta, mas eu estava muito feliz. Nossa, eu descobri outra coisa que eu amava fazer, aí nunca mais deixei de fazer isso. Acho que já faz, meu Deus do céu, eu nem sei, acho que mais de dez anos que eu dou aula em pós-graduação. 

Comecei pela pós-graduação. Tem muitos professores que vão para a graduação e depois vão para a pós, mas como eu não podia me comprometer durante a semana com nenhuma carga horária e também por ter tido essa oportunidade, essa indicação de um colega meu, terminei já começando pela pós-graduação. Estou até hoje, então, assim. 

Comecei com cursos de gestão de projetos. Atualmente eu já dou em pós-graduação de engenharia de software, naturalmente, de governança de TI na área de BI, então sempre tem alguma disciplina na área de lideranças, de gestão ou de comunicação e negociação, ou de custos, porque eu também [domino] a parte de orçamento, então termino tendo várias disciplinas em cada um desses cursos. 

Meus alunos me dão muito prazer em interagir com eles. Eu tento trazer muita prática pra sala de aula, aí os coloco em cada situação do dia a dia… Mas deixando muito à vontade, dizendo que ali é o lugar para eles errarem; que eles não fiquem pensando em nota porque quando a gente pensa muito em nota, a gente fica com medo de errar. A gente tem que acertar e aí, como eu boto algumas disciplinas práticas: “Gente, vamos errar aqui, vamos tirar as dúvidas aqui porque lá fora a gente pode até errar, mas aí vamos tentar não errar, para poder ser promovido, ganhar mais dinheiro”. 

Tenho alunos e alunas que se tornaram amigas, depois. Eu já tive situações de começar a trabalhar na empresa - a primeira multinacional em que eu trabalhei - e quando cheguei para fazer a gestão da equipe, eu tinha um aluno lá. E aí ele: “E agora? Eu te chamo de professora, de Virgínia?” Eu falo assim: “De Virgínia, de Vi, como você quiser me chamar”. (risos) E foi muito engraçado, porque eu passava [de] segunda-feira a sexta-feira com ele no trabalho e no sábado encontrava com ele na sala de aula. 

Tive também alunas, mulheres que se identificam e terminam me procurando em particular, para pedir um conselho, pedir orientação. Eu tive uma aluna em particular que ia desistir do curso de pós-graduação, não estava se achando ainda e eu conversei muito com ela. Hoje ela é gerente de projetos em multinacional e somos amigas, de uma ir para a casa da outra, de passar a festa de São João - a festa de São João aqui é muito forte, na região Nordeste - juntas. O marido dela e meu marido conversam, então a sala de aula não é a questão de ser professor e aluno, sabe? Principalmente acho que para quem dá aula em pós-graduação, somos todos profissionais ali, trocando experiência, não sou só eu que estou ensinando. A gente está trocando experiências, aprendo também, então, para mim, é muito bom. 

Como eu estou sempre só, no dia a dia, desenvolvendo software, quando eu vou para uma faculdade, eu vejo profissionais de várias áreas. Principalmente no curso de pós-graduação de gestão de projetos, porque tem pessoas na área de educação, tem pessoas da área de saúde, da área de administração e termino também aprendendo situações, porque eles colocam, trazem os problemas para a sala de aula, eu estimulo isso; a gente termina orientando numa perspectiva não só de gestão de projetos de desenvolvimento de software, mas da gestão de projetos como profissão mesmo - analisar riscos, fazer um plano de ação para mitigá-los,  pensar no orçamento e em desenvolvimento de equipe. Todas as habilidades e competências que a gente tem que desenvolver nas nossas equipes, ou desenvolver na pessoa que está sendo o líder. 

Dar aula para mim é um prazer. Sempre fora do horário, né? Eu pego algum curso que é sexta-feira à noite, sábado o dia todo. Quando eu penso que vou dar uma pausazinha, aí tem outro convite de outra faculdade; eu não resisto, digo sim de novo. Teve um no feriado agora, lá fui eu dar aula de novo. Meu marido é que fica: “Você gosta!” Eu gosto mesmo. Ele me apoia nesse sentido. 

Às vezes, quando cai algum sábado que pode comprometer o estar com a família, eu não tomo a decisão sozinha, sabe? Isso aí acho que é outra coisa também legal para a gente colocar aqui. Eu vou, falo com ele, falo com minha filha e digo: “Olha, a gente não vai talvez fazer tal passeio, eu vou ter que te dar aula no sábado. E aula disso, daquilo outro.” E eu penso nos alunos, em ter aquele conhecimento. Aí eles [respondem]: “Não, está tudo bem.” 

Com o contexto de estarmos em home office, as aulas também foram, então tive que também me reinventar. As minhas atividades práticas eram, lógico, naturalmente presenciais; eu tive que trazer tudo para o mundo digital. Apesar de eu ter muita facilidade, por trabalhar nisso desde sempre, dar aula no digital, colocar a disciplina lá, sabendo que nem todo aluno, no contexto dele, tem aquelas ferramentas... Uma coisa é a gente utilizar ferramentas para fazer uma conferência como essa, outra coisa é você ter que fazer uma atividade prática. E fazer aprender o conteúdo que precisa ser atendido, sem que a distância atrapalhe esse aprendizado. Tive que remodelar boa parte das disciplinas, para entrar dentro desse novo ambiente digital que, no final, ficou muito legal. (risos) Agora, acho que eu vou ter dificuldade quando eu voltar, porque terminou sendo tão bom usar algumas ferramentas, que eu acho que, quando a gente voltar para presencial, eu vou ter que dar algumas aulas no laboratório da faculdade, para poder usar as ferramentas. (risos) Pra todo mundo ter computador para usar, porque gostaram. A maioria gostou bastante. 

Acho que o principal é isso: a gente poder impactar a vida dos alunos, incentivar. Eu acho que o professor tem essa missão. Às vezes chega aluno na sala de aula que talvez nunca teve, ou não tem naquele momento alguém que diga: “Você consegue. Você pode. Você está aqui num sábado...”.  Eu elogio muito meus alunos, eu digo: “Olha, vocês são guerreiros, guerreiras. Vocês estão aqui num sábado” - e aqui no Recife tem um sol maravilhoso, uma praia mais bonita ainda – “e não estão lá na praia. Vocês optaram porque tudo, na vida, é uma questão de opção, vocês optaram [por] estar aqui aprendendo. Deus está vendo, não se preocupem. Não vai se perder, nenhum minuto que vocês estão aqui estudando vai passar despercebido. Vocês vão colher esses frutos”. Usar o momento da aula não apenas para dar aquele conteúdo que está na referência bibliográfica e não também só para trazer a realidade para a sala de aula; eu acho que a missão do professor é muito maior do que isso, né? E da professora. É dizer para o aluno: “Você pode, você consegue.” Eu tento trazer isso para poder dar o ânimo, poder dar a motivação, o continuar. Com certeza já foi um esforço ele chegar e estar com aquela carga horária a mais, com aquela despesa a mais, porque são em faculdades particulares que eu dou aula, então ali tem um esforço muito grande [de] estar ali, naquela sala de aula. Parto desse princípio, que os meus alunos e minhas alunas querem algo mais na vida, estão fazendo um esforço a mais em relação a abrir mão do seu tempo para descanso, para estar com a família, para estar ali, então eu tenho, de novo, a responsabilidade de dar uma excelente aula, não menos do que isso. Eles merecem essa força para continuar. E estamos nos tornando amigos, amigas - me procuram no privado e eu tento ajudar o máximo que eu posso, claro.

 

P/1 – Bom, então agora a gente vai para um bloco de perguntas um pouco mais pessoais, antes da gente finalizar. Primeiramente, gostaria que você comentasse com a gente como foi ser mãe para você. 

 

R – Ser mãe foi maravilhoso! Nossa, eu lembro do dia que eu fui buscar o exame. Todos os detalhes, desde o dia que eu abri o exame que deu positivo - exame de sangue, naquela época tinha que fazer exame de sangue. Meu marido… A gente já estava querendo muito, sim; já estávamos casados há três anos e a gente... Lembra que eu falei que a gente se conheceu na faculdade [no] primeiro dia de aula? A gente começou a namorar - não no primeiro dia de aula, né? Começou a namorar só no último ano, para se formar. Quando ele já achou que não ia conseguir namorar comigo, a gente começou a namorar. E aí, na sequência, a gente ficou noivo, casou e fui fazer o curso de pós-graduação que eu falei. E aí esse tempo foi: “Não, temos que fazer a nossa pós, depois a gente tem filho.” 

Terminou passando esses três anos e eu fui fazer o exame sem dizer a ele. Eu fiz o exame numa sexta-feira e o resultado saía no próprio dia. Eu fui na sexta-feira de manhã, antes de ir para o trabalho. Passei no laboratório e fiz a coleta do exame de sangue. Para variar, eu saí tarde do trabalho, não consegui pegar o laboratório aberto na sexta-feira, porque o resultado ia sair no mesmo dia, desde que eu chegasse no laboratório. Resumindo: fui para casa dormir sem saber do resultado e me controlando para não contar a ele que tinha feito exame, que eu queria fazer surpresa. 

No sábado de manhã eu inventei que eu ia fazer feira e dormi dizendo: “Amanhã vou acordar cedo para fazer feira, no supermercado”. Feira para a gente aqui é ir ao supermercado, não é feira. Acordei cedo, só que eu fui pro laboratório, pegar o resultado do exame. 

Peguei o resultado do exame, entrei no carro, abri: positivo. Aí me emocionei. Eu comecei a chorar, mas não aquele chorar de desespero, aquele chorar de emoção. E fui rezar o Pai Nosso, como sou muito religiosa, agradecendo a Deus por ter dado positivo, porque eu queria muito. Fui para casa chorando e rezando, chorando e rezando. 

Quando cheguei ele ainda estava dormindo, porque eu tinha saído muito cedo, [às] sete e pouco. Aí o acordei porque também não dava mais para segurar, esperar acordar não, já estava querendo contar desde o dia anterior que tinha feito exame. Eu  o acordei e disse assim: “Estamos grávidos!” Ele deu um pulo, assim, me abraçou e ficou muito feliz: “E agora, pra quem a gente vai contar? Vamos contar para mamãe, para sua mãe, contar para o seu pai, não sei o que lá, a gente tem que ir lá”. Fomos nos arrumar, ele acordou feliz e me abraçava, me abraçava, me beijava. 

A gente foi na casa dos meus pais, com a desculpa de ir lá passear. Meu pai achou estranho, porque geralmente a gente marca para ir almoçar, a gente vai. A gente apareceu no meio da manhã do sábado e chegou lá para dizer para os meus pais que eu estava grávida e foi aquela alegria, porque todo mundo já queria. Depois a gente foi para a casa dos pais dele - a gente foi almoçar na casa dos pais dele e também disse, foi a maior alegria. Foi muito bom, no meu trabalho tive muito apoio também. 

Veio Raíssa, que hoje tem dezenove anos. Linda! Ave Maria, lembro na hora do parto, em si; nasceu, começou a chorar. Meu marido estava comigo. Tentei um parto normal, mas tentou, tentou, não conseguiu, teve que ir pra cesárea. Quando ela nasceu, chorando, chorando, a colocaram aqui; meu marido estava do meu lado, junto de mim, ela calou na hora. No mesmo segundo que eu falei: “Oh, meu amor, seja bem-vinda, amamos você.” E ela ficou bem quietinha, como se realmente ela já me conhecesse. Meu marido começou a falar também que ela era muito querida, que a gente a amava. 

Levaram a bichinha; quando a levaram, começou a chorar de novo. Eu só escutava o som do choro se afastando, porque ficaram comigo e eu disse para ele: “Vai atrás!” Ele foi com ela e eu fiquei. (risos) 

Foi muito emocionante, desde o começo. Estar grávida foi muito bom! Graças a Deus eu tive uma gravidez tranquila, trabalhei normal. Tive um pouco de enjoo só nos primeiros meses, mas era realmente muito pouco. Tentei trabalhar até os dois meses, mas tudo seguindo a recomendação da médica; tudo que a médica dizia: “Aqui parou”, a gente para. Fiz a licença-maternidade com mais um mês de férias, então graças a Deus tive o privilégio de conseguir amamentar. Eu fiz questão de amamentar até o sexto mês - voltei a trabalhar com cinco meses, ou sexto mês; na verdade, foi ela que decidiu não querer mais. Por mim estava mamando, mas ela não quis mais, não. Acho que quando começou a ter as outras alimentações, os outros alimentos, ela gostou mais dos outros alimentos. (risos) 

É muito bom ser mãe. A gente decidiu terminar ficando com uma filha só. Não veio mais outro, então eu fico brincando: “Deus caprichou tanto em você!” Para mim ela é tão perfeita, que Ele fez: “Não, se é pra caprichar, então vai um só”. Mas é um só que me complementa muito, que nos complementa aqui em casa também. Ela é uma menina que nunca deu trabalho, sempre foi muito estudiosa, sempre foi muito ligada na igreja também, então ela é bem envolvida no grupo jovem. E só nos traz alegria, graças a Deus!

 

P/1 – E quais são as coisas mais importantes para você, hoje em dia, Virgínia?

 

R – Minha família, que envolve meu marido, minha filha, meu pai, minha mãe, minha irmã, meu sobrinho. Os pais do meu marido, que eu acho que tem sido toda família, sou muito apegada também ao meu sogro e minha sogra. São pessoas maravilhosas. 

Depois, Deus, para mim, é muito importante. Toda a minha fé. Tem Nossa Senhora, tem a minha medalhinha aqui, que não se separa, Nossa Senhora das Graças, que eu sou devota. [Depois] minha profissão, mas na perspectiva de responsabilidade - responsabilidade por onde eu passo, com as pessoas que eu lidero , e aí se estende à sala de aula. 

Eu tenho muita preocupação do que a gente pode deixar de lição para as pessoas. Tentar cuidar da família da gente. A gente também está, talvez, ensinando aos outros que estão ao redor o que é ser uma família. Não estou querendo dizer que ela precisa ser perfeita, entendeu? Tem que ser pai, mãe, filho - não, mas que ela seja unida, que tenha muito amor. Eu acho que o amor é a base de tudo, então amor é a base da família, o amor é a base da sua religião, no meu caso. Deus é amor e você traz amor para sua profissão, então você traz amor para sua vida. Isso é que é mais importante. 

Não sei se eu respondi. (risos)

 

P/1 – Respondeu, sim, claro! É uma resposta muito pessoal, né? O que é importante pra você, então não tem resposta certa e resposta errada. (risos) 

 

R – Tá joia!

 

P/1 – E quais são os seus sonhos para o futuro, Virgínia?

 

R – Ah, meu sonho para o futuro é poder impactar mais pessoas positivamente. Poder ver minha família feliz, todos felizes, minha filha muito feliz. Fazer meu marido feliz. Meus amigos e amigas. Poder trazer felicidade e ser feliz, que eu acho que é o objetivo de todo mundo. Acho que é o sonho de todo mundo e a gente busca essa felicidade da melhor forma - como eu digo, errando e acertando, a gente busca a felicidade.

Eu não tenho sonhos assim… Se você disser sonho para viajar, um sonho para conhecer um lugar, um sonho para ter alguma coisa, não! Meu sonho é muito baseado em sentimento, em experiência. Meu sonho é ser feliz e fazer as pessoas que eu encontrar e principalmente as pessoas que estão comigo nesse caminho da felicidade, felizes também.

 

P/1 – Para finalizar, o que você achou de contar a sua história para a gente, hoje?

 

R – Ah, achei emocionante! (risos) A gente não para muito para pensar assim, né? O que você lembra da infância? Meu Deus, lembrar dessa questão do pneu lá no parquinho… Por que veio isso na minha mente? 

Acho que a experiência foi muito boa, muito legal. Agradeço a vocês pela oportunidade, pelo convite de estar fazendo parte dessa pesquisa. [Quero] elogiar vocês pelo profissionalismo, pelo cuidado, pelo respeito que vocês tiveram, desde o primeiro contato até aqui, de toda a preocupação da gente conseguir fazer isso ser uma experiência boa e foi, muito boa! Adorei, estou adorando. (risos)

 

P/1 – Então, em nome do Museu da Pessoa, a gente agradece muito você ter aceitado o convite e pela entrevista de hoje também.

 

R – Muito obrigada também!



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